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Políticas Públicas
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Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos Crescimento Econômico Cidadania Saúde Série Gênero sexualidade e direitos humanos no 4 Organizadores Tacinara Nogueira de Queiroz Maria Betânia Lins Cinthia Oliveira Luís Felipe Rios Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos Organizadores Tacinara Nogueira de Queiroz Maria Betânia Lins Cinthia Oliveira Luís Felipe Rios Crescimento Econômico Cidadania Saúde RecifePE 2015 Série Gênero sexualidade e direitos humanos no 4 Publicações Especiais do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Série Gênero sexualidade e direitos humanos Editores responsáveis Luís Felipe Rios UFPE e Luciana Vieira UFPE Conselho editorial Cristina Amazonas UNICAP Fátima Lima UFRJ Ivia Maksud IFFFiocruz Jaileila de Araújo Menezes UFPE Karla Galvão Adrião UFPE Lady Selma Albernaz UFPE Marion Teodósio de Quadros UFPE Paula Sandrine Machado UFRGS e Viviane Mendonça UFSCAR O conteúdo desta obra é de inteira responsabilidade dos autores e não representa a posição oficial dos apoiadores do Programa Diálogos Suape Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Coordenadores Luís Felipe Rios e Karla Galvão Adrião Av Arquitetura sn CFCH 7o andar Cidade Universitária RecifePE CEP 50740550 Tel Fax 81 21268273 Site wwwdialogosorgbr Créditos Projeto gráfico Wilma Ferraz Revisão de textos Débora de Castro Barros Tiragem 400 exemplares 2015 Copyrigth Universidade Federal de Pernambuco 2015 É permitida a reprodução total ou parcial do texto desta publicação desde que citados a fonte e os respectivos autores DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Rua Acadêmico Hélio Ramos 20 Varzea RecifePE CEP 50740530 Fone 81 21268397 81 21268930 Fax 81 21268395 wwwufpebredufpe edufpenlinkcombr editoraufpebr ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS Editora associada à ABEU Montagem e impressão Catalogação na fonte Bibliotecária Joselly de Barros Gonçalves CRB41748 C919 Crescimento econômico cidadania saúde contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos organi zadores Tacinara Nogueira de Queiroz et al Recife Editora UFPE 2015 292 p il Série Gênero Sexualidade e Direitos humanos n 4 Inclui referências ISBN 9788541506786 broch 1 Pesquisaação Suape PE Microrregião 2 Direitos sexuais 3 Direitos reprodutivos Aspectos sociais 4 Desenvolvimento econômico Aspectos sociais 5 Cidadania 6 Saúde I Queiroz Tacinara Nogueira de Org II Título da Série Sumário Apresentação 5 Luís Felipe Rios Tacinara N de Queiroz Maria Betânia Lins e Cinthia Oliveira Contextos grandes obras e relações de gênero Desenvolvimento e reprodução um estudo comparativo em três polos pernambucanos 16 Dayse A dos Santos Russell P Scott Rosangela S de Souza e Rafael de F D Acioly Dialogando com homens trabalhadores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde 43 Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Filho Felipe Alves e Anna de Cássia P de Lima Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro 67 Sirley Vieira da Silva Promoção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino 91 Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto Desafios para pesquisaintervençãopesquisa Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca inícios afetos normas e prazeres 116 Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina 139 Daniel K dos Santos Gabriela A Diaz Marília dos S Amaral e Maria Juracy F Toneli Chá de Damas desafios e estratégias para a inserção no campotema prostituição 164 Jaileila Menezes Karla G Adrião Amanda K C Guedes Ana Letícia Veras Cristiano C Ferreira Douglas B de Oliveira e Sarana M de S Santos Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde 190 Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado Possibilidades Monitoramento de projeto social uma metodologia de pesquisaação participativa 214 Telma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Maria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro Análise da prática do aconselhamento em HIVAids 237 Wedna C M Galindo Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comunidades para a promoção à saúde e direitos humanos 257 Camila Santos Verônica Carrazzone Renata E de S Nunes e Luís Felipe Rios Sobre os autores 283 Apresentação Luís Felipe Rios Tacinara N de Queiroz Maria Betânia Lins e Cinthia Oliveira Este é o quarto livro da série Gênero Sexualidade e Di reitos Humanos publicada pelo Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Ele apresenta textos resultantes de refle xões sobre as atividades do Programa Diálogos para o Desen volvimento Social de Suape Diálogos Suape executado en tre maio de 2012 e janeiro de 2015 nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca que juntos formam a microrregião de Suape em Pernambuco A peculiaridade dessa região é a de abrigar e de sofrer impactos das grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento PAC do Governo Federal que envolve a construção do Complexo Industrial e Portuário de Suape porto estaleiros refinaria de petróleo petroquímica e outros empreendimentos Em 2007 com o início das obras houve aumento da oferta de postos de trabalho na construção civil o que provocou a migração de milhares de homens para essa região incrementando um conjunto de relações sociais de desigualdade já historicamente presentes naquele contexto Rios et al 2015 Em 2009 a UFPE foi convidada pela Refinaria Abreu e Lima da Petrobras a tomar parte nessa dinâmica elaborando um programa de pesquisaintervenção Diálogos Suape sobre os impactos da dinâmica instituída com as obras do PAC nas condições de vida da população dos dois municípios focando os seguintes temas gravidez na adolescência doenças sexual mente transmissíveis DSTs exploração sexual de crianças e adolescentes violência masculina e violência contra as mulhe res e uso abusivo de álcool e outras drogas Rios et al 2015 6 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O plano de trabalho do Diálogos Suape foi constituído de sete projetos ou grandes ações que em sinergia mobiliza ram jovens mulheres trabalhadores do complexo Suape pro fissionais do sexo profissionais em geral ativistas em direitos humanos e mais amplamente a população dos municípios para o enfrentamento das condições que fazem os agentes so ciais da região mais suscetíveis a um conjunto de agravos à saúde e violações de direitos grosso modo marcados em suas emergências por gênero sexualidade classe e idadegeração Rios et al 2015 Vale ainda que brevemente caracterizar o conjunto de projetos que formam o Programa Diálogos Suape conside rando seus objetivos Para mais informações sobre o desenvol vimento e principais resultados de cada projetoação remete mos o leitor a Rios Queiroz Lins e Teófilo 2015 1 Conhecer o Território Identificar as políticas os programas e os equipamentos sociais existentes nos municípios os indicadores sociais e as concepções da população sobre os agravos que são objeto da inter venção Ação Juvenil Instrumentalizar jovens de 16 a 19 anos de ambos os sexos como lideranças capa zes de atuar na produção e na disseminação de in formações qualificadas nos campos dos direitos da criança e do adolescente da saúde sexual e reprodu tiva do uso abusivo de álcool e de outras drogas e no enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos 2 Caravana da Cidadania Mobilizar as comunidades locais e instrumentalizar profissionais dos campos da saúde da educação e da responsabilização para a pro moção da saúde sexual e reprodutiva o combate à vio lação dos direitos sexuais e o enfrentamento do uso abusivo do álcool e de outras drogas Apresentação Luís Felipe Rios et al 7 3 Chá de Damas Engajar e capacitar profissionais do sexo adultos dos municípios no enfrentamento das DSTs Aids e da exploração sexual de crianças e adolescentes 4 Mulheres e Educação para a Cidadania Contribuir para o empoderamento de mulheres e jovens dos dois municípios com ações formativas e informativas para o enfrentamento da violência doméstica e sexual na microrregião de Suape 5 Homens Gênero e Práticas de Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas Sensibilizar e informar os trabalhadores das empresas terceirizadas para a promoção da saúde sexual e reprodutiva da prevenção da violência e do uso abusivo de álcool e de outras drogas 6 Observatório Suape Disseminar informações e recur sos desenvolvidos no âmbito do projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Para ampliar os debates sobre as contribuições teóricas e práticas do Programa sua equipe executiva formada por pro fessorespesquisadores do Laboratório de Estudos da Sexuali dade Humana LabESHU do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Poder Cultura e Práticas Coletivas Gepcol e do Grupo de Estudos sobre Masculinidades Gema ligados ao Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE PPGPSIUFPE convidou parceiros de outros núcleos de pesquisa do país para apresentarem propostas de textos resultantes de trabalhos de pesquisa e extensão em variados contextos socioculturais de atuação mas afins em termos de marcos éticopolíticos à postura assumida pelo Programa dialógica e afinada ao qua dro de garantia dos direitos humanos Várias dos textos sub metidos foram aceitos e esta coletânea conta com importantes contribuições de nossosas parceirosas do MargensUFSC NepaidsUSP e FagesUFPE 8 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA 1 Gênero e sexualidadedireitos sexuais e reprodutivos Não parece ser por acaso que a maior parte dos agravos à saúde e violações de direitos apresentados como carecendo de mitigação pelo relatório disponibilizado pela Petrobras à UFPE Rebouças e Associados 2009 e que serviu de subsídio inicial para elaborar o plano de trabalho do Diálogos Suape remetia diretamente às relações de gênero e de sexualidade DSTsAids gravidez na adolescência violência sexual e de gênero Mesmo o entendimento do uso abusivo de álcool e outras drogas ou mais amplamente o acesso à saúde é social mente marcado pelas relações de gênero Assim um eixo que atravessa todos os trabalhos aqui publicados é o de apresentarem discussões consistentes so bre gênero eou sexualidade como sistemas eou marcadores sociais organizadores da vida social e subjetiva e por conse guinte dos contextos que criam as condições para os agravos e violações ocorrerem Todos os textos buscam de diferen tes modos desvelar a operação dessas marcas socialmente constituídas na emergência de desigualdades e situações opressivas Outro compromisso dos pesquisadores e de seus textos é o de empenharem esforços para fazer dialogar os conceitos e leituras acadêmicos de gênero eou de sexualidade com os marcos normativos dos direitos sexuais e reprodutivos uma nova legalidade em processo de legitimação social mais am pla que busca se oferecer como alternativa para reorganizar as práticas sociais de modo a dirimir as opressões e desigual dades A partir desse eixo comum os textos vão ler e proble matizar crescimento econômico cidadania saúde Destaca mos ainda que em diferentes níveis todos os trabalhos desta coletânea atualizam a perspectiva da pesquisaintervenção pesquisa como situada por Adrião 2014 p 70 Apresentação Luís Felipe Rios et al 9 O termo pesquisaintervençãopesquisa é uma tentativa de construção de um significante que marque discursivamente a busca de um fazer contínuo e que trate de um continuum que sela a coalizão entre pesquisa e intervenção Nestes termos não há um início nem um final prédemarcados ou seja a pesquisa não é o início assim como tampouco a intervenção é a con clusão de um processo Antes pesquisa e intervenção atuam reflexivamente e coparticipativamente como dispositivos que possuem especificidades mas que necessitam um do outro no cotidiano dos fazeres saberes e poderes 2 Eixos transversais Para organizar a coletânea optamos por categorizar os tex tos produzidos a partir de três eixos contextos desafios e possi bilidades Vale de início dizer que nem sempre essa classificação se mostrou muito profícua afinal muitos dos textos aqui apre sentados caberiam nas três rubricas De todo modo é o produto final o diálogo entre os 11 textos que realmente contribui para a discussão que queremos propor com esta coletânea contribuir para melhor qualificar propostas acadêmicas que investem em metodologias participativas de pesquisaintervençãopesquisa como estratégias científicas para compreender melhor a reali dade social em permanente transformação e ao mesmo tempo fomentar a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos 21 Contextos grandes obras e relações de gênero Os quatro primeiros capítulos desta coletânea se pro põem analisar e discutir o próprio contexto das grandes obras de desenvolvimento econômico e seus impactos para nativos e migrantes focando temáticas concernentes à garantia dos di reitos sexuais e reprodutivos e mais amplamente para a pro moção da saúde 10 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O primeiro capítulo intitulado Desenvolvimento e re produção um estudo comparativo em três polos pernambu canos de Dayse Amâncio dos Santos Russell Parry Scott Rosangela Silva de Souza e Rafael de Freitas Dias Acioly foca as mulheres jovens de três polos de desenvolvimento em Per nambuco o Complexo Portuário e Industrial de Suape o Complexo Turístico de Porto de Galinhas e a Agricultura Irri gada de Petrolina buscando repercussões do dinamismo eco nômico sobre suas vidas sexuais e reprodutivas O segundo capítulo Dialogando com homens trabalha dores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde de Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Fi lho Felipe Alves e Anna de Cássia Pessôa de Lima apresenta os resultados de um estudo quantitativo sobre os conhecimen tos atitudes e práticas dos trabalhadores da construção civil atuantes em Suape em relação a saúde sexualidade e violência O terceiro capítulo Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro de Sirley Vieira da Silva tam bém foca os homens trabalhadores de Suape e adensa as dis cussões sobre saúde e sexualidade aprofundando os significa dos sobre risco e saúde com uma abordagem etnográfica com homens migrantes O quarto capítulo Promoção da saúde sexual e re produtiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino de Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto discute a migração de trabalhadores para execução de obras de infra estrutura em municípios do interior e do litoral brasileiro focalizando os efeitos negativos desse fluxo migratório em suas relações com questões de saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos Com base na experiência em projetos de in tervenção com essa população osas autoresas finalizam o texto estabelecendo recomendações para mitigação de vul Apresentação Luís Felipe Rios et al 11 nerabilidades promoção da saúde sexual e reprodutiva e proteção de direitos em contextos de migração temporária de trabalho masculino 22 Desafios para pesquisaintervençãopesquisa O segundo eixo do livro discute alguns desafios e entraves para a realização de atividades de pesquisaintervenção sobre direitos sexuais eou saúde sexual e reprodutiva com vários públicos homens e mulheres jovens profissionais dos servi ços trabalhadoras do sexo homens adultos etc O quinto capítulo Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Inícios afetos normas e prazeres de Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião tece reflexões sobre o modo como jovens residentes em Suape significam o início da vida sexual e dos prazeres o namoro e outros vínculos afetivosexuais na inter face com o campo dos direitos sexuais e reprodutivos Na linha de discutir a disseminação dos novos marcos normativos direitos sexuais entre profissionais dos servi ços públicos o sexto capítulo Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina de Daniel Kerry dos Santos Gabriela Andrea Diaz Marília dos Santos Amaral e Maria Juracy Filgueiras Toneli reflete sobre as dificuldades e os desafios para a realização de capacitações sobre políticas de equidade para a população LGBT oferecidas aosàs servidoresas públicosas de Santa Catarina O sétimo capítulo Chá de Damas desafios e estraté gias para a inserção no campotema prostituição de Jaileila de Araújo Menezes Karla Galvão Adrião Amanda Kamylle Cavalcanti Guedes Ana Letícia Veras Cristiano Cavalcante Ferreira Douglas Batista de Oliveira e Sarana Maria de Sousa 12 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Santos reflete sobre os processos para entrada no campo da prostituição de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca vivencia dos por jovens universitáriosas executoresas das atividades de pesquisa e intervenção O oitavo capítulo Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde de Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado discute os desafios para a promoção de cuidado de saúde para homens a partir de uma leitura psicossocial sobre os modos como usuários homens e trabalhadores de saúde produzem o cuidado à saúde do homem no cotidiano da aten ção básica 23 Possibilidades No terceiro eixo temos três textos que discutem impor tantes elementos potencializadores de boas práticas de pes quisaintervençãopesquisa o monitoramento participativo e sistemático das atividades e a abertura para a alteridade como condições de acolhimento e diálogo seja no aconselhamento em HIVAids seja em intervenções populacionais mais am pliadas como o caso da Caravana da Cidadania Assim o nono capítulo Monitoramento de projeto so cial uma metodologia de pesquisaação participativa de Tel ma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Ma ria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro discute metodologias de monitoramento participativo a par tir das lições aprendidas durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidadania executada pelo Centro das Mulheres do Cabo no âmbito do Diálogos Suape No décimo capítulo Análise da prática do aconselhamen to em HIVAids Wedna Cristina Marinho Galindo discute as modalidades de aconselhamento em HIVAids focalizando Apresentação Luís Felipe Rios et al 13 o encontro aconselhadorusuário e as possíveis implicações ressonâncias e impactos que tal encontro pode ter na própria prática do aconselhamento e no que dela resulta Finalmente no décimo primeiro capítulo Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comuni dades para a promoção à saúde e direitos humanos Cami la Santos Verônica Carrazzone Renata Evangelista de Sena Nunes e Luís Felipe Rios discutem a experiência da Caravana da Cidadania uma das ações de mobilização comunitária do Diálogos Suape apontando para a necessidade de respeito às dinâmicas socioculturais locais como condição para o sucesso de intervenções de promoção de cidadania e saúde Sublinhando mais uma vez os textos aqui reunidos apre sentam as possibilidades desafios e limites da pesquisainter vençãopesquisa no campo da promoção da saúde e cidada nia por meio de um uso consistente de gênero e sexualida de como conceitos capazes de ao mesmo tempo analisar a realidade social e melhor qualificar o marco normativo dos direitos sexuais e reprodutivos Nossa expectativa é a de que divulgar as reflexões tecidas nesta coletânea possa fomentar outras iniciativas de promoção de uma sociedade que prese pela equidade e cidadania Desejamos uma boa leitura Referências ADRIÃO K Perspectivas feministas na interface com o processo de pes quisaintervençãopesquisa com grupos no campo psi Labrys edição em português online v 26 p 7085 2014 Disponível em httpwwwla brysnetbrlabrys26psyKARLAhtm REBOUÇAS E ASSOCIADOS Estudos técnicos Refinaria Abreu e Lima 2009 mimeo 14 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA RIOS L F MEDRADO B AMARAL A PERUZZO J Diálogos Suape pesquisaintervençãopesquisa sobre saúde e cidadania de populações afetadas pelas grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimen to PAC em Pernambuco In RIOS LF QUEIROZ T LINS MB TEÓ FILO I Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Programa Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 RIOS LF QUEIROZ T LINS MB TEÓFILO I Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Progra ma Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Desenvolvimento e reprodução um estudo comparativo em três polos pernambucanos1 Dayse A dos Santos Russell P Scott Rosangela S de Souza e Rafael de F D Acioly 1 Introdução Este trabalho busca compreender as repercussões do di namismo econômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mu lheres jovens em polos de desenvolvimento A análise é parte da pesquisa Três polos de desenvolvimento e a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens apoiada pela Facepe em rea lização desde novembro de 2010 pelo Fages da UFPE2 A adolescência tem despertado forte interesse da mídia e das políticas públicas Uma das razões para tal interesse é a mudança que ocorreu quanto às expectativas sociais diante dessa etapa da vida no sentido de reservála prioritariamen te aos estudos com vistas a capacitar os jovens sujeitos para o ingresso em melhores condições no mercado de trabalho Frequentemente incorrese em uma naturalização do proces so de transição da infância à vida adulta e ao mesmo tempo reiterase o caráter imaturo e irresponsável dos jovens Um dos riscos dessa etapa é a possibilidade de uma gra videz Entretanto a gravidez na adolescência não é um fenô meno recente Historicamente as mulheres vêm tendo filhos nesse momento da vida e mesmo em um contexto de intensa 1 Trabalho inicialmente apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Popu lacionais Abep realizado em Águas de LindoiaSP de 19 a 23 de novembro de 2012 2 Pesquisa APQ014970310 financiada pelo Edital Facepe 032010 Estudos e Pesqui sas para Políticas Públicas Estaduais Gravidez na Adolescência FacepeSecMulher Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 17 redução da fecundidade não se constatou no Brasil um des locamento correspondente da reprodução para faixas etárias mais velhas tal como ocorreu em países industrializados cen trais Aquino et al 2003 Estudos recentes trazem críticas ao enfoque de risco pre sente na literatura sobre sexualidade e reprodução na adoles cência Essas perspectivas destacam a complexidade do fenô meno e os desafios colocados para sua adequada investigação No que concerne às implicações sobre as trajetórias escolares e profissionais das jovens mulheres os autores argumentam que grande proporção de gestações na adolescência não pode ser considerada determinante da pobreza mas possivelmente por ela condicionada Aquino et al 2003 No presente estudo buscamos refletir sobre a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens e a gravidez na adolescência em contextos de grande desenvolvimento econômico O estudo está sendo realizado no estado de Pernambu co que tem se destacado pelo desenvolvimento expressivo nas últimas décadas Na página oficial do governo desse estado3 um dos destaques é a liderança nacional na geração de em pregos com carteira assinada A reportagem destaca que de acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego MTE Pernambuco é o terceiro estado no país que mais criou emprego formal em agosto de 2011 com 18613 empregos celetistas sendo superado apenas por São Paulo 53033 e pelo Rio de Janeiro 19865 Entretanto a ênfase é que considerados o tamanho da economia de São Paulo e a proximidade dos valores absolutos do Rio de Janeiro Pernam buco está gerando proporcionalmente mais empregos que os grandes estados do Sudeste4 3 Disponível em httpwwwpegovbr 4 Disponível em httpwwwpegovbrblog20110914pernambucoelidernacio nalnageracaodeempregoscomcarteiraassinadadizmte 18 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO O desenvolvimento do estado tem sido decorrência dos polos de desenvolvimento da região Este estudo enfoca três dessas áreas que têm tido destaque o Complexo Portuário industrial de Suape o Complexo Turístico de Porto de Gali nhas e a Agricultura Irrigada de Petrolina Tais áreas estão situadas em três municípios do estado O complexo turístico de Porto de Galinhas localizase na cidade de Ipojuca o Complexo de Suape embora tenha influência nos municípios próximos localizase nas cidades de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca e a agricultura irrigada está situa da em Petrolina Os três municípios tiveram na última década um cres cimento populacional acima da média do estado como de monstram os dados do Censo 2010 Todos estão na faixa mais populosa definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE acima de 45180 habitantes Tabela 1 Crescimento populacional dos municípios estudados Município População em 2000 População em 20105 Aumento Cabo de Santo Agostinho 152977 185025 2095 Ipojuca 59281 80637 3602 Petrolina 218538 293962 3451 Fonte IBGE Esse aumento populacional devese em parte à chegada de trabalhadores em busca de oportunidades nesses locais A 5 Disponível em httpwwwcenso2010ibgegovbrsinopseindexphpuf26dados1 Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 19 vinda de migrantes com um número expressivo de homens traz repercussões para a vida das comunidades locais Assim o trabalho busca compreender o dinamismo eco nômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens nesses polos de desenvolvimento 2 Metodologia Para compreender as especificidades e interrelações dos locais pesquisados fazse necessário destacar alguns aspectos caracterizadores de cada um dos polos O Complexo Turísti co de Porto de Galinhas tem como centro a praia de mesmo nome que se localiza em Ipojuca O Complexo Portuário do Suape localizase fisicamente nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca mas tem grande influência nas cidades vizinhas e na capital do es tado Recife Diariamente circulam centenas de ônibus que transportam trabalhadores dessas cidades para o Complexo Assim esses dois complexos vizinhos localizados no litoral sul do estado constituem duas forças de criação de vocações ora convergentes ora divergentes que se somam de maneira interligada proporcionando um ambiente de possibilidades de vida entre as quais as jovens populações locais transitam Petrolina apresenta um contexto mais particular Distan te geograficamente área de sertão que se desenvolveu com o uso da tecnologia da irrigação no plantio inserese na rede de desenvolvimento do estado e liga sua atividade à zona litorâ nea por meio da exportação de seus produtos pelo novo porto instalado A pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa FagesUFPE teve uma equipe composta por um professor coordenador uma pesquisadora doutora e dois pesquisadores estudantes do mestrado em antropologia 20 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO No início da pesquisa de campo orientados pelos órgãos promotores de atividades que são da vocação dos polos e por uma pesquisa prévia sobre atividades econômicas desen volvidas no local foram escolhidos dois locais em cada polo para entender de forma mais aprofundada como se dão as relações de trabalho nos locais com atenção especial para as relações de gênero e de geração que ocorrem em função deles e em todos os locais com atenção especial para as percepções sobre a inserção de mulheres jovens nesses espaços Em cada um desses locais trabalhamos em cooperação com duas equipes da Estratégia de Saúde da Família ESF ouvindo os profissionais da equipe multidisciplinar com des taque para os agentes comunitários sobre a vida sexual e re produtiva das jovens e também solicitando sua ajuda para assegurar contatos para a pesquisa Assim em cada município foram elencados dois locais e nestes trabalhamos com o apoio de duas equipes de ESF totalizando seis áreas cobertas pelo ESF que foram espaços mais intensos da realização da pesquisa Em Ipojuca os lo cais foram Porto de GalinhasMaracaípe e Nossa Senhora do Ó no Cabo de Santo Agostinho Ponte dos Carvalhos e Gai bu e em Petrolina as comunidades de São Gonçalo e João de Deus Nesses locais foram realizadas entrevistas aprofundadas com meninasjovens que passaram pela experiência de gravi dez na adolescência e com mulheres avós cujas filhas engra vidaram na adolescência Os dados coletados pela equipe abrangem a pesquisa documental documentos oficiais e recortes de jornais e de sites b pesquisa de campo que resultou em centenas de pá ginas de diários de campo ao longo de mais de um ano de pesquisa de observação e convivência intermitente c 68 en trevistas abertas com roteiros sobre a experiência de gravidez com mães jovens 44 entre 16 e 24 anos de idade e avós 24 Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 21 entre 32 e 65 anos de idade que foram gravadas transcritas e analisadas tematicamente e d 418 questionários sobre na moros gravidez mobilidade e avaliações de oportunidades de trabalho e efeitos dos projetos de desenvolvimento nos locais totalizando 418 questionários com mulheres jovens entre 16 e 24 anos independentemente de terem passado pela expe riência da gravidez Houve uma ênfase na pesquisa nos dois polos litorâne os de Suape e da Indústria Turística em Porto de Galinhas Ao polo da agricultura irrigada de Petrolina foi reservado um papel de contraponto comparativo para alertar contra possí veis generalizações incabíveis Em decorrência de tal ênfase os questionários foram aplicados apenas nas áreas dos polos litorâneos 3 Discussão e resultados 31 Os cenários A praia de Porto de Galinhas há décadas recebe forte in vestimento para a indústria turística Os dados da prefeitura destacam a grandiosidade do turismo enfatizando que esse trecho do litoral sul de Pernambuco já dispõe de 13 grandes hotéis e resorts de luxo mais de 250 pousadas de várias clas sificações formando um conjunto de 10 mil leitos tendo re cebido um fluxo superior a 700 mil turistas ao longo do ano 20106 A página oficial da praia7 traz em destaque que ela é a única escolhida 10 vezes consecutivas a melhor praia do Bra sil Porto de Galinhas tem papel importante no fluxo de turis mo do estado 6 Disponível em httpwwwipojucapegovbr 7 Disponível em httpwwwvisiteportodegalinhascom 22 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Tabela 2 Fluxo de turistas em Pernambuco Ano Chegada de turistas sobre o ano anterior sobre o anobase 2005 2005 3498219 2006 3530046 090 090 2007 3643038 320 413 2008 3775588 363 792 2009 3944895 448 1276 Fonte Empetur Os moradores locais que tradicionalmente se ocupavam de atividades como a pesca no mar e no mangue e o trabalho rural vêm se transformando em jangadeiros caseiros assala riados prestadores de serviço ou autônomos Uma única unidade da ESF opera entre as áreas de Mara caípe e Porto de Galinhas O outro local no qual atuamos jun to com a equipe do ESF foi o bairro de Nossa Senhora do Ó O antigo distrito de Nossa Senhora do Ó fica a 9 km da vila de turismo de Porto de Galinhas no caminho de acesso à praia Em razão da proximidade e do menor custo de sobre vivência é o local que agrega grande parte dos trabalhadores de Porto tendo tido crescimento expressivo nos últimos anos Por causa da proximidade dessa área com o Complexo de Suape Nossa Senhora do Ó também é local de moraria de muitos funcionários do Complexo Embora haja uma política estadual de desestímulo à criação de alojamentos de funcio nários as casas e pousadas têm sido utilizadas como local de moradia dessa população É a junção dessas duas vocações que deixa o município de Ipojuca em uma situação econômica favorável Segundo dados da prefeitura Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 23 Ipojuca cresce a taxas astronômicas Abrigando dois dos principais polos da moderna economia de Pernambuco o terri tório ipojucano foi contemplado nas três ultimas décadas com investimentos da ordem de R 35 bilhões e 400 milhões resul tantes do processo de industrialização no complexo industrial e portuário de Suape e na expansão do Turismo em seu litoral notadamente em Porto de Galinhas8 O Cabo de Santo Agostinho teve seu desenvolvimento im pulsionado com o Complexo Industrial e Portuário de Suape que diferentemente de Porto de Galinhas é um projeto com mais de três décadas de planejamento no estado de Pernam buco A fase de implantação intensiva do complexo foi inicia da em 2007 O site do Complexo9 veicula informações sobre a vocação e a dinamicidade do projeto Informa que Suape abarca além do porto em si o maior estaleiro do hemisfério Sul uma refinaria de petróleo três plantas petroquímicas mais de 100 empresas já instaladas e ainda tem previsão de instalação de pelo menos 50 novas indústrias Os promotores do Complexo ressaltam que Suape se insere em uma vocação histórica de comércio estabelecida desde a descoberta do Brasil remon tando à criação de um mito de origem nacional de comércio internacional No Cabo de Santo Agostinho a pesquisa se desenvolveu mais intensamente junto às áreas atendidas pela unidade da ESF uma no bairro de Ponte dos Carvalhos e outra em Gaibu Ponte dos Carvalhos fica como entreposto a pleno ca minho de toda a Zona da Mata Sul para os municípios de Jaboatão e Recife Cresceu mais intensivamente a partir dos anos 1950 e 1960 com o êxodo da zona canavieira da Zona da Mata Sul Muitos se estabeleceram firmemente em serviços 8 Disponível em httpwwwipojucapegovbr 9 Disponível em httpwwwsuapepegovpe 24 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO comerciais de reparo de veículos e de recreação ao longo da estrada Hoje o bairro se expandiu muito ocupando gran de extensão em ambos os lados da estrada com múltiplas residências individuais de variadas qualidades e uma base econômica mais variada É um dos distritos de referência do município do Cabo e já tem um colégio com ensino muito qualificado em período integral e a maternidade de referência do município Gaibu é um aglomerado urbano situado na estrada que leva à vila de Suape Motta 1979 uma vila de antigos pesca dores que fica colada à beira norte do Complexo de Suape se parada por um braço de mar Em GaibuSuape residem anti gos e atuais pescadores e marisqueiros junto com surfistas e sobretudo outros trabalhadores do comércio e de serviços que trabalhavam e trabalham no comércio local ou cada vez menos em residências de veranistas É a área com acesso mais direto a Jaboatão e ao Recife por uma estrada litorânea com pedágio que passa por um empreendimento imobiliário de alto luxo implantado em função do desenvolvimento espera do por causa do Complexo A unidade da ESF que opera em Gaibu está com sua equipe reduzida e precisando de amplia ção com muitas áreas de novas residências descobertas em decorrência do aumento expressivo de moradores Gaibu por ser uma praia e ter muitas casas da população do Cabo que ia veranear tornouse um lugar com oferta de imóveis disponíveis para os migrantes As casas de veraneio e as pousadas passaram a ser residência permanente dos traba lhadores vindos de outros locais Situação distinta de Porto de Galinhas onde as pousadas e hotéis destinamse a um públi co turista de poder aquisitivo mais elevado No Cabo também estão situados muitos alojamentos de homens trabalhadores do Complexo Petrolina é um município que tem tido destaque no cres cimento econômico De acordo com os últimos dados dos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 25 produtos internos brutos PIBs municipais de Pernambuco coletados pelo IBGE o município de Petrolina se situa em sex to lugar em ordem de grandeza de seu PIB cerca de R 262 bilhões a preços de 2010 Fica abaixo de Recife Jaboatão Ipo juca Cabo e bem próximo a Olinda R 263 bilhões Merece destaque o fato de Petrolina ser sertão e interior e todos os demais situaremse na região metropolitana À exceção de Ipojuca importante sede dos investimen tos estruturadores que atualmente se implantam no estado a taxa de crescimento anual de Petrolina no período 19992008 da ordem de 45 ao ano ultrapassa a dos demais municípios citados Em 2010 Petrolina foi matéria na revista Veja10 como destaque nacional na geração de empregos Com o chamativo título O milagre do São Francisco a reportagem destacava a produção da agricultura irrigada que produz 1 milhão de toneladas de frutas avaliadas em 13 bilhão de dólares Tabela 3 Área produção e valor da produção das principais culturas de Petrolina safra 2009 Cultura Área ha Produção t Valor da produção R Manga 7500 150000 60000000 Uva 3800 106000 276000000 Goiaba 2300 71400 64240000 Coco mil frutos 1500 45000 12600000 Banana 2700 45900 22900000 Fonte IBGE 2010 Preços de 2009 10 Veja edição 2180 1o set 2010 26 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Em Petrolina a pesquisa se desenvolveu mais intensa mente nas comunidades de João de Deus e São Gonçalo Essas comunidades foram formadas há pouco mais de duas déca das em áreas doadas pela Companhia de Desenvolvimento do Vale de São Francisco Codevasf para construir residências Formadas por favelados vindos de outros lugares já foram conhecidas pela violência e perigo mas hoje são consideradas áreas de trabalhadores um lugar bom para viver 32 Os atores e suas estratégias 321 Vida sexual e reprodutiva das jovens como objeto de preocupação estratégica O desenvolvimento do estado tem sido objeto de preocu pação pela possibilidade de influenciar a vida sexual e repro dutiva das mulheres de maneira não desejada Isto é a pre sença de muitos homens trabalhadores migrantes que vêm sozinhos pode resultar também em aumento de gravidezes na adolescência Como destaca Ribeiro 1992 os trabalhadores estão ex postos a um cotidiano bastante típico de uma força de tra balho imobilizada pela moradia A vida no acampamento de um grande projeto é penetrada em todas as suas esferas pelos interesses e necessidades da obra monitorados por uma ad ministração central à maneira de uma instituição total Os trabalhadores não especializados estão sujeitos a um controle muito maior a presença de suas famílias é inclusive impossí vel pois só há em termos de moradia a alternativa de ocupar os alojamentos coletivos para solteiros Esse tipo de preocupação ganhou espaço na mídia Em 2011 o jornal Diário de Pernambuco um dos principais jornais locais publicou uma série jornalística intitulada Os filhos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 27 de Suape11 que denunciava o abandono paterno de crian ças nascidas de relações entre as adolescentes locais moças entre 11 e 19 anos e os trabalhadores migrantes Ao longo da semana em que a série foi publicada saíram reportagens que abordavam o fato de vir uma massa de trabalhadores homens separados de suas famílias e agrupados em grandes alojamentos A reportagem destacava a cegueira dos governos para os casos de exploração sexual estupro e gravidez na adolescência Os textos enfatizavam a vulnerabilidade das mulheres lo cais especialmente as mais jovens que sonhavam em encon trar um parceiro e construir uma família mas que eram aban donadas pelos homens que já tinham famílias em seus locais de origem Essas relações chamadas de A sedução da farda Sonho de Cinderela e Hora extra dos prazeres destacam a relação assimétrica entre os homens que têm emprego e ren da e as mulheres que estão à procura de um parceiro também provedor em um contexto em que as oportunidades de empre go não são para elas Apesar do tom denunciativo da reportagem os dados do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca não permitem dizer que o problema da gravidez na adolescência se agravou com a chegada de Suape Isso se deve em parte às estratégias das pró prias envolvidas como veremos a seguir Entretanto a série chamou a atenção do poder público para o possível aumento das taxas de gravidez e exploração sexual No mês posterior à série veiculada a Assembleia Legisla tiva estadual realizou uma audiência pública para discutir a exploração sexual na área do Complexo de Suape Nesse even to discutiuse a necessidade de verbas públicas para tratar o problema e de ações concretas para implementar os planos 11 Série de reportagens publicadas pelo Diário de Pernambuco de 8 a 13 de maio de 2011 28 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO elaborados de combate à exploração sexual contra crianças e adolescentes Uma das participantes da sociedade civil destaca que esse problema devese também à falta do poder público A falta de estado referese a um modelo de desenvolvimento focado no setor empresarial em detrimento das condições da população E também o não desenvolvimento de muitas ações no plano social A preocupação com a vida sexual das jovens e com o ris co de uma gravidez na adolescência tem sido presente tam bém nas empresas privadas Com toda a crítica à presença massiva de homens em alojamentos que chegam a concen trar mais de 3500 trabalhadores ter ações preventivas se configura como atuação de responsabilidade social das empresas È o caso da Camargo Correa Esse grupo é um dos maio res grupos empresariais privados do Brasil Tem atuado for temente no Complexo de Suape no setor de engenharia e construção civil ramo que abarca o maior número de traba lhadores pouco qualificados que vêm para trabalhar no perío do da duração da obra A Camargo Correia tem promovido no Cabo de Santo Agostinho um curso de formação dos profissionais da rede pública de saúde e educação para a redução da gravidez na adolescência Na etapa inicial foram escolhidas quatro unida des de saúde da família considerando os critérios de índices de gravidez na adolescência baixo poder aquisitivo da popu lação local e local de atração dos migrantes como é o caso de Gaibu Em razão do crescimento expressivo do Complexo nesta última década Suape tem atraído mais olhares para a sexua lidade das adolescentes buscando evitar a exploração sexual e a gravidez na adolescência Em Porto de Galinhas essa é tam bém uma inquietude presente Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 29 Há uma preocupação em evidenciar que o turismo de Porto de Galinhas é um turismo familiar Difere de outros lo cais no Nordeste marcados pelo turismo sexual A prefeitura destaca que tem medidas administrativas junto aos hotéis e operadoras de turismo que vão atuar na região para verificar o perfil de turistas Há uma vigilância dos empreendedores em preservar a noção que o turismo de Porto de Galinhas tem para as famí lias e que empresários que querem aproveitar as oportuni dades de turismo sexual não são bemvindos Um hotel que escolheu proibir a hospedagem de crianças para aproveitar o mercado de casais em lua de mel que estariam buscando sos sego para suas núpcias sofreu pressão de outros hoteleiros que perceberam que tal caminho poderia levar a uma suspeita de também estarem promovendo encontros para experiências sexuais o que desvirtuaria a imagem familiar da praia Em pouco tempo o hotel reverteu sua estratégia alegando que os casais muito satisfeitos com o atendimento durante a lua de mel haviam pressionado para que seus familiares e eles mesmos no futuro com filhos pudessem se hospedar em um lugar tão bom Os mesmos empresários comemoraram o fim de voos fretados de países europeus conhecidos como bate e volta que traziam turistas propensos a encarar as praias do Nor deste como destino privilegiado para encontros sexuais Um dos voos fretados promovidos por um expiloto de Fórmula Um que trazia italianos sucumbiu diante das pressões con tra a prostituição infantil segundo o relato de um oficial de segurança Ainda no espírito de promoção de turismo familiar e al ternativo individual houve fechamento de mais de uma de zena de pousadas que hospedaram trabalhadores de Suape sem tomar as devidas precauções de definição de estada curta que rege o princípio da Associação Já as pessoas que vêm pas 30 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO sar períodos variados de tempo em suas casas na praia e que eventualmente as alugam particularmente ou por meio de corretores também fazem muito mais parte dos que almejam manter a qualidade familiar e de distinção do local Petrolina por sua vez tem uma maior inserção das mu lheres como mão de obra inclusive as menores de 18 anos seguindo as regras do Ministério do Trabalho A gravidez na adolescência não é um problema preocupante As jovens tra balhadoras da agricultura irrigada são percebidas como mui to mais cuidadosas com relação a uma gravidez vista como precoce que as mulheres de gerações anteriores O foco de lu tas são direitos e condições adequadas de trabalho 322 Escolhas sexuais e reprodutivas das jovens 3221 Complexo de Suape e região turística de Porto de Galinhas A parte do Complexo e a região de Porto de Galinhas realçada pela pesquisa incluem os locais habitados mais dire tamente impactados Abrangem as sedes dos municípios do Cabo e de Ipojuca A maior parte da pesquisa de campo se realizou em quatro locais urbanos nos distritos desses muni cípios Porto de GalinhasMaracaípe e Nossa Senhora do Ó em Ipojuca Ponte dos Carvalhos e Gaibu no Cabo Esses locais como já destacado têm sofrido o aumento expressivo de migrantes A população local interage de mui tas formas com esses migrantes outsiders cuja chegada afeta a vida dos estabelecidos sobre os quais se costuma elaborar imagens que refletem tanto desconfiança quanto expectativas positivas Sua presença nesses locais pode ser entendida a partir das formulações de Ribeiro 1992 e Oliveira 2000 Ribeiro destaca a construção das identidades fragmentadas e utiliza Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 31 a expressão bichos de obras para se referir a um contexto no qual há um segmento de uma população estruturada a partir de processos migratórios vinculados à formação do mercado de trabalho de um grande projeto em construção Os bichos de obra são pessoas desterritorializadas no sentido da perda da possibilidade de realizar uma identificação uní voca entre territórioculturaidentidade fato que se expres sa nos rótulos usados por eles mesmos ou por outros para descrevêlos desenraizados expatriados ciganos cidadãos do mundo Sua desterritorialização cultural é preenchida por uma territorialização definida pela esfera do trabalho Em nosso contexto essa desterritorialização é demons trada a partir da generalização dos migrantes identificados na categoria de baianos Essa definição engloba os traba lhadores em um grupo identificado como propenso a brigas e confusões e por se envolver com mulheres locais mesmo as casadas Embora possuam emprego e uma potencial condi ção de provedores não são vistos como homens preferenciais para relacionamentos afetivos e conjugais como veremos nos dados quantitativos e também transparece no trecho a seguir É porque eles são muito exibidos eles não querem namorar e elas as moças do local sabem que eles é só um uma tempo rada O pessoal daqui é diferente é pescador mas tem família namora e é pra casar E eles os migrantes é tudo sem futuro Entrevista com mãe jovem de Gaibu As informações do Quadro 1 são dados dos questionários aplicados nos quatro locais com jovens mulheres buscando compreender aspectos do contexto como suas escolhas de parceiros trajetórias sexuais e reprodutivas e a influência de trabalho e estudo nesses locais de desenvolvimento Apresen tamos dados de mobilidade e educação e a seguir aprofunda mos a discussão de reprodução e sexualidade 32 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Quadro 1 Mobilidade educação e trabalho das jovens e suas famílias nos quatro locais Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Nascimento no local a jovem 260 423 443 157 Mãe 242 313 388 97 Pai 236 345 469 118 Nascimento em outro município ou estado a jovem 610 327 420 598 Mãe 586 437 480 645 Pai 606 453 408 588 Moradia no local 10 anos ou menos 471 288 333 392 Educação Estuda atualmente 413 346 425 245 Segundo grau completo 490 510 198 333 Não trabalha 721 798 714 667 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Os dados demonstram que muitas das jovens e seus pais são naturais de Ponte dos Carvalhos e de Nossa Senhora do Ó sugerindo a importância de seus padrões históricos de aglomerados de populações emigradas principalmente de en genhos ao longo de mais de meio século Dois terços das jo Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 33 vens moram há mais de 10 anos em Ponte dos Carvalhos e em Nossa Senhora do Ó Ponte dos Carvalhos mesmo estando no caminho da BR que conecta a Zona da Mata Sul e o Reci fe abriga proporcionalmente mais emigrantes expulsos dos engenhos do próprio município Cabo do que Ó em Ipojuca que soma mais migrantes de origens de fora do município provavelmente em função da atração da proximidade a Porto de Galinhas Em comparação os locais situados nas praias Porto de GalinhasMaracaípe e Gaibu tiveram incrementos propor cionalmente muito mais pesados em suas populações a dife rença sendo que em Porto de Galinhas a maior acentuação é em décadas recentes quando há poucos naturais do local na geração dos pais das jovens enquanto em Gaibu a imigração é muito mais concentrada nos últimos 10 anos A baixa qualificação da população em torno do complexo turístico se destaca tanto por ter poucas jovens com segundo grau completo mais notável em Ó que em Porto de Galinhas quanto por revelar um menor número de jovens atualmen te estudando pois quem quer completar o segundo grau em Porto de Galinhas se queixa da precariedade da escola local e da distância que precisa percorrer para chegar a Ó onde há melho res opções Trabalhar em Suape não se configura como opção sig nificativa para mulheres em nenhum dos locais pesquisados havendo apenas 1 delas que responderam ao questionário reportando trabalhar no complexo portuário e industrial Enquanto um pouco mais das jovens de Porto de Galinhas consegue encontrar trabalho nos outros locais há constantes reclamações de baixa remuneração e de precariedade sazonal O primeiro namoro começa antes de 14 anos para mais da metade das meninas Os parceiros são mais residentes do pró prio local Em Gaibu e em Porto de Galinhas a busca de par ceiros de fora é muito mais intensa que nos outros dois locais 34 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Quadro 2 Escolhas de parceiros Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Primeiro namoro 14 anos 610 443 510 543 Sobre o primeiro namorado De outro município ou estado 441 144 262 448 Conheceu na escola 200 258 167 200 na vizinhança 370 258 314 410 na igreja 30 144 49 42 em bar ou festa 80 113 196 168 Com relações sexuais 471 495 553 663 Usou prevenção na primeira vez 813 633 804 619 Primeira preocupação gravidez 395 469 400 269 Engravidou dele 333 408 464 508 Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Sobre o parceiro atual é do local 442 775 753 583 de outro municípioestado 455 176 185 250 Conheceu na escola 118 88 111 85 na vizinhança 289 225 272 493 na Igreja 79 175 49 56 em bar ou festa 158 263 235 141 Ele não trabalha 211 225 244 99 Trabalha no local 105 288 179 211 Trabalha em Suape 408 225 269 127 Trabalha em Porto 39 13 218 479 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 35 A vizinhança é mais importante que a escola como local para conhecer o primeiro namorado embora em Ponte dos Carvalhos a escola e a igreja sejam ainda mais importantes es paços institucionais para identificar quem se quer namorar Ainda no que tange a conhecer os primeiros namorados os ambientes de festa ou de bar embora não predominantes são identificados mais pelas que residem próximo ao complexo turístico de Porto de Galinhas A proteção na primeira relação sexual foi usada mais pe las jovens de Gaibu e de Nossa Senhora do Ó que tomaram precaução em 80 dos casos Em Porto usouse menos pro teção 619 e se ao usar se preocupou muito mais com do enças que com gravidez E foram justamente essas jovens que mais frequentemente ficaram grávidas do primeiro namora do 50312 Pode ter havido mais confiança nas relações se xuais com os primeiros namorados em Ponte dos Carvalhos pois além de boa parte não usar proteção na primeira rela ção as que a usaram estavam mais preocupadas com gravi dez e não com doenças do que as jovens em outros locais Em função da migração massiva recente de trabalhado res em Suape para Gaibu a origem desses parceiros é bem mais acentuadamente de fora do local do que nos outros três lugares pesquisados Em Nossa Senhora do Ó e em Ponte dos Carvalhos os parceiros são predominantemente locais e sem desprezar a importância da escola e da vizinhança as jovens mudaram os espaços de sociabilidade para en contrar esses parceiros recorrendo mais frequentemente a bares e festas em ambos os locais e a igrejas em Ponte dos Carvalhos Para esses parceiros mais uma vez encontrar trabalho é mais fácil em Porto mas igualmente ao que ocorre com as jovens é um trabalho mal remunerado precário e sazonal 12 Excluindo as que reportaram não ter relações sexuais com seus primeiros namorados 36 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Como a pesquisa foi feita no mês de janeiro havia muita in fluência da alta estação de turismo na declaração de estar tra balhando Suape revela ser um crescente polo empregador não somente em Gaibu mas também em Ponte dos Carvalhos e em Nossa Senhora do Ó Entre todos os locais Gaibu ofere ce menores oportunidades locais para trabalhar Quadro 3 Vida sexual e reprodutiva Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Idade da primeira gravidez da mãe 16 anos 222 253 303 286 19 anos 544 518 618 557 Idade da jovem na primeira relação sexual 13 anos 24 27 58 96 14 anos 153 120 186 205 16 anos 459 373 488 614 Idade da jovem na primeira gravidez Nunca engravidou 533 524 443 392 Engravidou 16 anos 167 204 305 339 Engravidou 19 anos 604 653 746 790 Experiência de gravidez Mais de uma vez 370 326 456 468 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Mais da metade das jovens entre 16 e 24 anos já engra vidou com uma diferença entre os dois polos de desenvolvi Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 37 mento As que residem mais próximo ao complexo turístico e cujas origens reportam mais ao trabalho rural são mais pro pensas a engravidar cedo 15 anos ou menos que as que mo ram nos locais no município de Cabo Também continua com proporções mais altas as jovens que tenham engravidado até 18 anos de idade Elas apresentam ainda taxas significativa mente mais elevadas de multiparidade Uma das observações frequentes de pesquisadores sobre a vida reprodutiva e sexual das jovens é de que elas estão se guindo um padrão estabelecido pela própria mãe ver revisão de literatura em Heilborn et al 2006 De fato em Ponte dos Carvalhos e em Gaibu tanto pelas gravidezes com idade in ferior a 16 anos quanto pelas gravidezes com idade inferior a 19 anos as avós nome que adotamos para nos referirmos às mães das jovens tendiam a ter filhos em idade mais nova que suas filhas enquanto em Nossa Senhora do Ó a idade é equivalente apenas havendo na situação de Porto de Galinhas uma idade menor para a geração mais nova de mães Mais do que as outras jovens mães as jovens mães de Porto se expuse ram mais cedo à probabilidade de engravidar e de adoecer em função de sua vida sexual 3222 Agricultura irrigada de Petrolina No contexto de Petrolina como destacamos a pesquisa não utilizou a aplicação de questionários Nesse polo a análi se foi feita com o uso de observações e entrevistas tendo sido reservado um papel de contraponto comparativo com os ou tros polos Em Petrolina há uma maior inserção das mulheres na força de trabalho sendo esse um fator que contribui para menores taxas de gravidezes em relação às mulheres que não trabalham A grande produtividade de uvas demanda mão de obra feminina por ser considerada uma atividade que neces sita de destreza 38 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Para as mulheres assalariadas da agricultura a gravidez é evitada mais frequentemente por ser um fator que dificultará o trabalho Assim são alcançadas maiores taxas de gravidez de mulheres jovens nas áreas de pequena produção Os incen tivos governamentais de apoio às gestantes são percebidos como estímulo à gravidez em detrimento do incentivo a opor tunidades de trabalho mais amplas e com direitos assegura dos Assim ouvimos relatos de que o saláriomaternidade isto é o direito ao recebimento de quatro salários mínimos da mulher gestante acima de 17 anos estimula que as mulheres tenham filho ao chegar a essa idade Em um caso citado a mu lher grávida se referia à gravidez alisando a barriga aqui é a moto fazendo referência à moto que pretendia comprar com o dinheiro Outra disse que ia comprar duas vacas para beber leite Já fazem planos para o dinheiro a receber Petrolina conta com um sindicato de trabalhadores ru rais muito estruturado que reivindica os direitos trabalhistas inclusive garantias de direitos às mulheres trabalhadoras As representantes do sindicato relatam que a convenção de tra balho tem cláusula que protege a mulher como o direito de faltar ao trabalho para realizar o exame preventivo de câncer de colo do útero ou regras para coibir o assédio Elas dão um exemplo de assédio moral uma mulher que foi chamada de cachorrinha Ela ganhou na justiça pouquinho mas em tor no de 1200 ou 1300 reais Citando outros direitos lembram que a mulher cujo filho adoecer pode faltar ao trabalho Essa convenção existe desde 1994 para proteger os agricultores O trabalho na agricultura é intenso e desgastante mas oferece à população uma perspectiva de maiores ganhos que o trabalho na cidade no comércio por exemplo Como citam os moradores locais No comércio tem ar condicionado Na agricultura é sol e veneno Assim o relato das mulheres sobre o trabalho demonstra as ambiguidades é uma boa oportuni dade mas com desgastes e riscos diversos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 39 Mas eu já trabalhei raliando Raliando é assim o cacho de uva é cheio de bago um cacho normal aí você tem que pegar e tirar as bagas miúdas e os talos daquele cacho deixar ele bem solti nho pra quando for dobrar ele pra todo canto quando ele tiver no ponto Aí vai afrouxando ele pra ficar um cacho perfeito Sou apaixonada pela área de irrigação fiz dois anos trabalho de irrigação gosto muito do trabalho de irrigação É muito bom Aí eu não quis ficar lá mais não por causa do veneno Eu peguei uma alergia lá do veneno das formigas Fiquei toda em polada Entrevista com jovem Esse trecho demonstra claramente o paradoxo de um trabalho bom para as condições locais no qual a jovem não quis permanecer por causa dos agrotóxicos Outra in formante destaca que a atividade é rápida e o braço cansa muito Outro fator para as que não são assalariadas ou seja são contratadas apenas para a safra é o período sem atividades e a jornada extensa no período da safra como demonstra esta fala de uma avó que trabalha embalando manga uma ativi dade de safra que faz com que as trabalhadoras passem um tempo sem atividades nem renda Trabalho assim agora mesmo eu tô desempregada Só por época mesmo Embalando as caixinhas de manga É muito cansativo Cansativo é Porque quando começa ai ai ai Ô A gente tem que tem que levar a marmita da gente comer comi da de marmita E é pra é pra é embalando manga todo dia num tem hora Tem dia que de 4h até 7h 8h da noite tem dia que entra de 7h da manhã de 7h30 8h a gente num tem um horário só tem a hora do almoço aquela hora de descanso e pronto Entrevista com avó Para as trabalhadoras assalariadas um programa im portante é o Chapéu de Palha que pode beneficiar a si pró pria ou a outra pessoa da família como no relato a seguir 40 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO É uma estratégia para amenizar as condições precárias de trabalho Porque eu tô fazendo cinco cursos Eles falaram com a mi nha mãe que minha mãe faz Chapéu de Palha que ela é tra balhadora rural trabalha na uva Aí eles falaram e ela não po dia fazer porque tava trabalhando Aí ela foi e me deu a vaga dela Porque foi quando surgiu a oportunidade porque são todos gratuitos Aí surgiu a oportunidade Primeiramente eu comecei a fazer o de informática lá no Senai É porque é pelo Chapéu de Palha Aí depois do de informática surgiu a opor tunidade de fazer o de mecânica de motos aí eu conheci uma pessoa lá e ela disse que ia ter o de técnicas bancárias Aí eu fui e fiz tô fazendo né tô cursando E também o de ética e outro de informática porque esse de informática lá também já é pra trabalhar no banco talvez de lá a gente já vá trabalhar no banco Entrevistadora E tua mãe gosta de trabalhar na uva Gosta Não é tanto gostar é porque é a opção que tem Porque é melhor trabalhar na uva do que em casa de família Minha mãe diz isso eu prefiro trabalhar mil vezes com a uva do que em casa de família Casa de família você aguenta muito Tem pessoas legais e tem pessoas chatas né Aí ela não tem muita sorte de pegar patrão bom aí ela optou pela uva Faz uns anos já que ela trabalha na uva Bastante tempo Entrevista com jovem O trabalho na agricultura aparece como uma opção em um cenário de poucas oportunidades para a população mas isso não significa que essa oportunidade ocorra sem paradoxos 4 Considerações finais Os resultados preliminares da pesquisa em andamento demonstram que os polos de Porto e especialmente de Suape atraem para si um contingente populacional especialmente Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 41 masculino propiciando o encontro entre populações atin gidas e populações atraídas no qual as práticas e estratégias de reprodução humana adquirem significados marcados por esse encontro Cada polo busca a realização de seus objetivos de implantação e reificação de vocações locais e nesse contex to os jovens são alvo de políticas de uso de força de trabalho para alcançar as metas econômicas da dinâmica vocacional idealizada para o local Os dados sugerem que a sexualidade preferencial é com parceiros estabelecidos pois os outsiders representam muito risco e desconhecimento As mulheres jovens ao exercerem sua sexualidade e sua capacidade reprodutiva abrem um cam po de construção de significados e práticas A gravidez estimu la morais tradicionais e a inserção dessas jovens mulheres e mães no mercado de trabalho apresenta diferenças de acordo com os tipos de atividades nos polos e o tempo de implemen tação das vocações locais No Complexo de Suape quase nenhum espaço tem sido destinado às mulheres fazendo com que elas fiquem à mar gem do desenvolvimento Na indústria turística também não há uma ampla inclusão Em Petrolina vemos mulheres com acesso ao trabalho mas um trabalho precarizado que leva a uma inserção intermitente Os dados encontrados de monstram semelhanças com a literatura sobre gravidez na adolescência que revela uma relação entre a precariedade e as altas taxas de gravidez e não o inverso Assim os resultados preliminares sugerem que políticas e programas que busquem reduzir índices de gravidez na adolescência serão insuficientes se não relacionados com uma efetiva inserção em condições adequadas das mulheres nessas alardeadas oportunidades desses polos 42 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Referências AQUINO E et al Adolescência e reprodução no Brasil a heterogeneidade dos perfis sociais Cad Saúde Pública v 19 supl 2 2003 ELIAS N SCOTSON J The established and the outsiders a sociological enquiry into community problems Londres F Cass 1965 HEILBORN M L AQUINO E M L BOZON M KNAUTH D R O aprendizado da sexualidade reprodução e trajetória sociais de jovens brasi leiros Rio de Janeiro GaramondFiocruz 2006 MOTTA R O povoado de Suape economia sociedade e atitudes Revista Pernambucana de Desenvolvimento Recife Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco v 6 n 2 p 209247 1979 OLIVEIRA R C Os descaminhos da identidade RBCS v 15 n 4 fev 2000 RIBEIRO G Bichos de obra fragmentação e construção de identidades Revista Brasileira de Ciências Sociais n 18 p 3040 1992 Dialogando com homens trabalhadores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Filho Felipe Alves e Anna de Cássia P de Lima Este texto versa sobre um componente de pesquisa do projeto Homens gênero e atenção à saúde que integrou o programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Sua pe Esta pesquisa de natureza quantitativa teve o objetivo de produzir um levantamento de informações sobre conhe cimentos atitudes e práticas dos trabalhadores de Suape em temas relativos a saúde sexualidade e violência Para tanto foram realizadas e validadas 421 entrevistas estruturadas com homens que na época 20122014 atuavam nas empresas terceirizadas 11 responsáveis pela construção dos principais empreendimentos do Complexo Suape O ro teiro das entrevistas continha questões organizadas em blocos temáticos envolvendo práticas de saúde e autocuidado pa ternidade e cuidado e violência Na pesquisa de campo foram envolvidos 24 pesquisadoresas selecionados e treinados No texto a seguir apresentaremos os principais resultados dessa pesquisa tendo por base uma leitura feminista de gênero 1 Homens como categoria politicamente útil e gênero para além da fotografia Analisando o quadro geral da saúde dos homens e os ín dices de morbimortalidade masculina temse como referência 44 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO o documento Indicadores e dados básicos para a saúde IDB 2006 Brasil publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE em parceria com o Ministério da Saúde que expôs nessa edição o tema Saúde do homem1 Essa pu blicação apresenta os principais indicadores de morbimor talidade masculina agregados por região faixa etária renda entre outros critérios além de revelar que os homens jovens são aqueles que apresentam maiores índices de internamen to e morte por causas externas homicídio violência e uso abusivo de drogas Estas últimas apresentamse diretamente relacionadas com os processos de socialização que em geral orientam vulnerabilidades pessoais e programáticas Nessa mesma direção informações do Datasus mostram que as principais causas de adoecimento e morte dos homens na microrregião de Suape especialmente os mais jovens estão relacionadas com o que se define em saúde como causas ex ternas ou seja aquelas resultantes de violência acidentes de trânsito e uso abusivo de drogas A saúde do homem ou mais precisamente seu adoecimento e morte está portanto dire tamente relacionada com modos de vida e padrões de gênero machista Em outras palavras esses homens aprendem des de pequenos que ser homem é ser naturalmente violento e que prevenção em saúde é coisa de mulher pois os padrões de gênero potencializam práticas baseadas em crenças de que a doença é considerada um sinal de fragilidade e que os ho mens por consequência seria invulneráveis Vale ressaltar que infelizmente apesar de toda leitura crí tica sobre o uso desse conceito Scott 1988 Izquierdo 1992 gênero ainda é em geral tomado como construção social sobre os sexos e as pesquisas sobre gênero ainda tendem a construir fotografias quase óbvias sobre a dicotomia e as desi 1 Disponível em httptabnetdatasusgovbrcgiidb2006folderhtm Acessado em 20 dez 2014 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 45 gualdades entre homens e mulheres No entanto cremos que construção social sobre o sexo é propriamente a definição de papel sexual conceito que antecede o debate sobre gê nero e contra o qual os estudos sobre gênero se construíram especialmente depois de Joan Scott 1988 quando definiu gênero em linhas gerais como institucionalização primária do poder Também autoresas como Gayle Rubin 1986 e suas lei turas sobre o sistema sexogênero contribuíram sobremaneira para a expansão desse conceito Mais recentemente a divulga ção das leituras de Thomas Laqueur 1990 sobre a constru ção social do sexo resultou em um inevitável de nosso ponto de vista deslocamento em relação à conceitualização original de gênero Ou seja essas produções nos levaram a uma leitu ra sobre o sexo também como construção social baseada em uma diferenciação fabricada entre o masculino e o feminino entre os homens e as mulheres uma diferenciação estratégica e politicamente útil Costa 1995 Felizmente como bem nos adverte Scott 1988 nossas vidas são mais criativas do que nos oferecem nossas categorias de análises e nossas categorias políticas especialmente as que se baseiam em identidades Assim falar decom os homens é muito importante e necessário desde que reconheçamos a categoria homem como uma produção política ou nas palavras de Gayatri Spivak 1987 um essencialismo estratégico um sujeito fa bricado tendo em conta nossos interesses éticos e políticos com vistas a produzir transformações nas desigualdades de gênero Em síntese é necessário entender essa categoria homem sempre a como categoria política estratégica não como uma condi ção natural de existência 46 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO b como categoria situada portanto provisória precária e parcial Haraway 1991 c como uma construção que se desenvolve em níveis relacio nais pessoais mas também institucionais simbólicos e culturais Aliada a essa leitura crítica dos usos da categoria homem a perspectiva feminista de gênero de inspiração psicossocial adotada nesta pesquisa para pensar os homens e masculini dades tem por base as reflexões apresentadas por Lyra e Me drado 2008 Neste capítulo a saúde pública é compreendida como um campo de relações interpessoais e institucionais que se organizam em dispositivos e relações de poder e que marcam posições de sujeito e modos de ser de saber e de fazer orientadas por gênero Nessa perspectiva para produzirmos uma leitura feminista de gênero segundo esses autores é preciso romper com modelos explicativos que via de regra reafirmam a diferença e que nos permitem somente ex plicar como ou por que as coisas assim são mas que não apon tam contradições fissuras rupturas brechas frestas que nos permitam visualizar caminhos de transformação progressiva e efetiva Apostamos na necessidade de abrirmos espaço para novas construções teóricas que resgatem o caráter plural po lissêmico e crítico das leituras feministas Lyra e Medrado 2008 p 833 2 Sobre a produção das informações Esta pesquisa exploratória com amostragem por conve niência foi produzida a partir de entrevistas semiestrutura das com homens com idade a partir de 18 anos residentes na microrregião de Suape que atuavam na construção da Refina ria Abreu e Lima e na Petroquímica Pernambuco Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 47 O Complexo Industrial Portuário de Suape mais conhe cido como Complexo de Suape é um polo de desenvolvimen to do Brasil considerado um portoindústria com mais de 100 empresas em operação2 A presente pesquisa foi realizada nessa microrregião no canteiro de obras da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape dois empreendimentos de grande porte responsáveis pela criação do maior número de postos de trabalho na região que envolve os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca integrantes da Região Metropolitana de Recife Para este estudo foram acessadas no total 11 empresas Foi construído e testado um instrumento próprio com vistas a produzir informações sobre atitudes conhecimentos e práticas desses homens no que se refere a cuidados em saú de sexualidade vida reprodutiva e violência de gênero Esse instrumento foi produzido a partir dos seguintes instrumen tos já existentes adaptados à realidade local bem como aos objetivos da pesquisa 1 pesquisa internacional Men sexuality rights and self construction coordenada pelo International Reproduc tive Rights Research Action Group IRRRAG 19992003 Portela et al 2004 2 pesquisa multicêntrica nacional Homens nos Serviços pú blicos de saúde rompendo barreiras culturais institucio nais e individuais regiões Nordeste Sul e Sudeste coor denada pelo Instituto Papai 20052007 Lyra et al 2009 3 pesquisa multicêntrica nacional Masculinidades repre sentações e práticas de saúde coordenada pela Rede de Es tudos e Pesquisas em Psicologia Social REPPSO da Uni versidade Federal do Espírito Santo 20072009 Trindade et al 2011 2 Disponível em httpwwwsuapepegovbrinstitutionalinstitutionalphp 48 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO 4 pesquisa International men and gender equality survey Images coordenada pelo Instituto Promundo Ricardo et al 2009 Os critérios para participar dessa atividade foram se au todefinir como homem trabalhar em uma das empresas res ponsáveis pela construção da Refinaria Abreu e Lima eou Petroquímica Suape ter idade igual ou superior a 18 anos e expressar desejo de participar voluntariamente da pesquisa prontificandose a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TCLE Foram excluídos os que 1 não se en quadravam nesse perfil 2 tinham algum comprometimento físico ou mental que impedia sua participação ou 3 não ex pressavam desejo de participar voluntariamente da pesquisa No total foram realizadas entrevistas estruturadas com 434 homens trabalhadores das empresas terceirizadas contu do foram validadas 421 entrevistas e 13 não o foram por apre sentarem falhas no processo de condução como informações incompletas ou inexistentes e ausência do TCLE O roteiro das entrevistas continha 85 questões sendo estas abertas e em sua maioria questões fechadas organizadas em um bloco ge ral com informações sociodemográficas e seis blocos temáti cos práticas de saúde e autocuidado álcool e outras drogas paternidade acompanhante paternidade licença violência vida sexual e reprodutiva O processo de condução das entrevistas desenvolveuse no interior da Refinaria especificamente nas áreas de lazer dos trabalhadores durante o horário destinado ao almoço Participaram do processo 24 pesquisadoresas previamente selecionadosas e capacitadosas3 Os entrevistados foram in formados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram o TCLE 3 Osas pesquisadoresas foram selecionadosas a partir de convocatória tendo como principal critério ser estudantes de graduação ou pósgraduação com experiência em pesquisas sobre gênero eou com essa abordagem metodológica Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 49 As questões contidas no instrumento foram lidas pelosas pesquisadoresas assinalando a opção correspondente às res postas dadas e no caso das questões abertas foi anotada a fala proferida pelo entrevistado em sua íntegra Quanto aos cuidados éticos esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Pernambuco UFPE e segue as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde Resolução no 1961996 De todo modo é impor tante informar que esta pesquisa está assumindo três estraté gias com vistas a garantir um maior respeito em relação aos entrevistados conforme Mary Jane Spink 2000 consideran Tabela 1 Quantitativo de entrevistas realizadas por empresa Empresa Quantidade de trabalhadores Entrevistas realizadas Consórcio Alusa CBM 1259 15 Alusa Cafor 2000 27 Consórcio Camargo Corrêa CNEC CCN 5618 73 Consórcio Conduto Egesa Coeg 1505 19 Consórcio Rnest Conest 9500 122 Consórcio EITEngevix 1400 18 Consórcio ETDI EgesaTKK Engenharia 1500 21 Galvão Engenharia 1475 20 Tomé Engenharia 1982 26 EBE Alusa 673 9 Consórcio Ipojuca Interligações 6691 84 Total 34338 434 Foram validadas 421 entrevistas 50 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO do implicações e cuidados éticos que pretendemos desenvol ver na condução das entrevistas consentimento livre e esclarecido que consiste na solicitação aosàs informantes e às instituições de um consentimento por escrito de que elesas se dispõem a colaborar com o es tudo e autorizam o uso do material discursivo e documen tal produzido durante a pesquisa ou fornecido por elesas Esse acordo selado é obviamente passível de ser revisto durante o desenvolvimento da pesquisa é um direito que assiste aos informantes anonimato mesmo obtendo por parte dosas informan tes autorização para uso e referência aos relatos e opiniões isso não isenta a necessidade de manter em sigilo a identifi cação dosas participantes resguardo das relações de poder abusivo consiste em uma rela ção de confiança entre pesquisadora e participantes consi derando que não há nem deve haver relações hierárquicas nem abuso de poder dos pesquisadoresas no trato com osas informantes ou seja que oa pesquisadora não se deixe levar pela curiosidade pessoal respeitando inclusive o direito de não resposta por parte doa entrevistadoa 3 Alguns resultados As respostas produzidas foram tabuladas em programa estatístico específico para pesquisa em ciências sociais SPSS versão 18 As questões abertas foram compiladas como apre sentadas pelos entrevistados e posteriormente alocadas em categorias construídas em discussão coletiva entre osas pesquisadoresas envolvidosas Foi empreendido então um exaustivo processo de recodificação além de correção de erros como equívocos de digitação e alteração no sistema de Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 51 codificação de respostas Posteriormente foram geradas fre quências simples e alguns cruzamentos Organizamos assim a análise em quatro grandes eixos temáticos 1 caracterização da amostra 2 práticas de saú de prevenção e autocuidado 3 paternidade e cuidado e 4 violência 31 Caracterização da amostra Do total de 421 trabalhadores entrevistados quatro ti nham 18 anos idade mínima e apenas um tinha 66 anos ida de máxima A média registrada foi de 33 anos sendo 28 anos a idade mais frequente moda e a faixa etária mais frequente entre 20 e 30 anos correspondente a 466 da amostra Quanto à cidade de origem ou seja onde nasceram observamos uma diversidade de referências incluindo além de Cabo 13 Ipojuca 3 outras cidades da Região Metro politana 23 mas também outras cidades de Pernambuco 26 outros estados da região Nordeste 25 e de outras re giões 10 Do total 50 disse morar na ocasião da pesquisa entre Cabo 38 e Ipojuca 12 e 50 em outra cidade da Região Metropolitana de Recife especialmente Jaboatão dos Guararapes Recife e Escada A maior parte dos trabalhadores apresenta como local de morada residência própria 44 e residência alugada 28 evidenciando que apesar de a maio ria ter vindo de outras cidades na época eles encontravamse instalados próximos a Suape Com relação à escolaridade a maior parte dos entrevista dos tem ensino médio completo 513 e não realizou cur so técnico 703 Quando questionados sobre sua corraça responderam ser parda 378 branca 271 preta 181 amarelaoriental 21 indígena 14 e não sabenão res pondeu 23 Entre os homens que marcaram a opção outra 112 destacase a nomeação moreno e suas de 52 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO rivações moreno claro moreno escuro etc Seguindo orien tações do IBGE ao somarmos os pardos e pretos temos um percentual de 559 de entrevistados autodeclarados na cate goria negros Quanto ao estado conjugal a maior parte dos homens encontravase casada 451 enquanto alguns nunca haviam sido casados 29 e viviam com companheiroa 204 Apenas 304 afirmaram frequentar alguma religião dos quais 561 disseram estar vinculados à Igreja Católica e 395 à Igreja Evangélica especialmente à Assembleia de Deus Quanto à ocupação profissional predominou entre os entrevistados a opção operário 632 com renda mensal mé dia de R 208495 sendo R 120000 a renda mais frequente dividida em média para três ou quatro pessoas 824 dos trabalhadores são os responsáveis pela renda principal de sua família Estavam trabalhando em Suape em sua maioria há pelo menos um ano na região 32 Práticas de saúde prevenção e autocuidado Nesse eixo temático focalizamos as respostas produzi das pelos entrevistados em relação a práticas de cuidado em saúde em geral e sobre sexualidade em particular De acordo com as respostas 748 dos homens entrevistados afirmaram ter procurado ajuda para cuidar da saúde no último ano Essa informação é importante tendo em vista que pelo menos do ponto de vista deles há demandas e procura de ajuda Quan to ao motivo para buscar ajuda houve uma diversidade de respostas entre elas 176 dos entrevistados apontaram os exames médicos 157 mencionaram dores 31 disseram ser motivados pela ocorrência de acidentes e 4 procuraram o serviço de saúde para realizar alguma cirurgia Os grupos mais frequentes que são acessados para dar suporte eou apoio psicossocial sendo buscados quando os Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 53 homens se sentem tristes frustrados eou despontados são amigosas 278 companheira 204 e parentes 223 Logo esses grupos podem ser importantes parceiros para uma intervenção integral à saúde dos homens Assistente social foi referido por 07 e profissional de saúde por apenas 02 dos entrevistados Ao perguntarmos diretamente sobre os serviços de saúde acessados em algum momento da vida para a prevenção eou recuperação dos agravos à saúde observamos que 494 dos entrevistados afirmaram que procuram médico particular as sim como 19 utilizam o serviço de saúde da empresa A gran de surpresa foi a terceira opção no que diz respeito ao acesso e uso da rede de saúde o posto de saúde atenção básica apare ce com 178 das respostas Essa informação se torna mais re levante quando contrastamos com os serviços de emergência que aparecem com 83 das respostas indicando que mesmo com acesso ao sistema privado de saúde boa parte desses ho mens acessam os serviços públicos de saúde Tabela 2 Respostas dos entrevistados à pergunta Quando você tem um problema de saúde a quem você recorre Resposta Percentual Médico particular 494 Serviço de saúde da empresa 190 Posto de saúde 178 Família 107 Serviço de emergência 83 Ninguém 17 Farmácia 12 Outro 12 Múltiplas opções de resposta 54 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Além disso ao serem questionados sobre as estratégias e os recursos utilizados para a prevenção de ISTs vimos que quanto à realização do teste de HIV 577 dos homens traba lhadores afirmaram nunca ter realizado tal testagem 238 afirmaram ter realizado o teste no último ano e 102 entre um e dois anos Essa alta frequência de homens que responde ram nunca ter realizado a testagem do HIV é uma informação importante principalmente para subsidiar e justificar estraté gias de prevenção ao HIVAids4 Com relação ao uso de camisinha 361 dos homens afir maram que sempre usam o preservativo em todas as suas re lações sexuais mas 337 responderam que nunca usam Essa frequência é alta principalmente quando associada aos 181 que utilizam às vezes o preservativo Tais informações são importantes na medida em que pelo menos 577 dos entre vistados desconhecem sua condição sorológica No que tange à prevenção 653 dos entrevistados afir maram que a camisinha serve para prevenir as DSTs e 29 afirmaram que serve para prevenir as DSTs e a gravidez in desejada também serve como método anticonceptivo Essa taxa de homens que sabem a funcionalidade do preservativo não se traduz em uma prática cotidiana de uso em suas re lações sexuais Essa informação é importante na medida em que o conhecimento aparentemente não está ligado a uma prática cotidiana de uso Quando perguntados sobre o local em que costumam ad quirir preservativos 482 dos entrevistados afirmaram ser a farmácia e 181 que têm acesso a esse insumo no posto de saúde 4 Outros documentos que ajudam na problematização desse quadro são os últimos bo letins epidemiológicos do Departamento de DSTAids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde que apontam as cidades da microrregião de Suape como as localidades onde a taxa de infecção pelo HIV está mais elevada no país Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 55 No que se refere aosàs parceirosas sexuais 347 afir maram já ter tido relações sexuais com uma profissional do sexo A grande maioria afirmou nunca ter feito sexo com um garoto de programa mas três homens afirmaram que já o fize ram Da mesma maneira a maioria dos entrevistados afirmou que nunca fez sexo com travestis mas 10 homens afirmaram que já se relacionaram sexualmente com travestis Quatro ho mens entrevistados afirmaram já terem forçado uma mulher a fazer sexo Em comparação nenhum homem afirmou ter for çado outro homem a fazer sexo com ele Há de se considerar essas informações como subnotificadas tendo em vista tabus que caracterizam essas temáticas Quando questionados sobre se concordavam ou não com certas afirmativas encontramos a seguinte distribuição 585 concordaram sim ou talvez que o homem precisa mais de sexo do que a mulher 784 afirmaram que teriam um amigo gay 929 responderam que discordam da afirmação de que o homem só deve procurar o serviço de saúde quando o pro blema for grave 629 discordaram de que é a mulher quem deve se cuidar para evitar a gravidez Por fim ao investigarmos a percepção dos homens tra balhadores no tocante aos serviços especializados para a saú de do homem observamos que 534 responderam que os serviços de saúde não estão bem preparados para atender os homens Essa informação é valiosa na medida em que es ses homens utilizam com uma frequência regular os serviços de saúde mas sentem que estes não estão preparados para atendêlos Em complemento quando questionados sobre a neces sidade de existência de serviços especializados para a saúde do homem 917 dos entrevistados responderam afirmativa 56 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO mente o que pode estar indicando que esses homens reconhe cem a necessidade de que suas demandas em saúde bem como questões específicas possam ser contempladas e respondidas pelos serviços públicos 33 Paternidade e cuidado Nesse eixo temático focalizamos as respostas dos entre vistados em relação à vida reprodutiva especialmente sobre paternidade e cuidado Para isso questionamos seus conheci mentos práticas e experiências Ressaltase que dos 421 tra balhadores entrevistados 271 65 afirmaram ser pais e 07 afirmou não saber responder a essa pergunta Assim os resultados apresentados nesse eixo temático referemse aos 271 trabalhadores que são pais Quanto ao número de filhosas a predominância foi de um 454 e doisduas filhosas 384 em que a maioria é filhoa biológicoa 952 672 dos trabalhadores afir maram que os filhos são da mesma mulher 225 tiveram fi lhos com mais de uma mulher e 10 só tiveram um filho Quando questionados se convivem com a família 756 responderam que convivem com a mãe de seusua últimoa filhoa 598 convivem com osas filhosas enquanto os outros 402 não convivem com osas filhosas por razões diversas conforme a Figura 2 Essas percentagens mostram que a maioria dos trabalhadores que são pais convive com seus filhos sendo uma informação importante visto que a convivência pode facilitar o contato eou aproximação com a prole Sobre a ajuda financeira aosàs filhosas que não convi vem com o entrevistado destacamse as respostas não sabe não respondeu 601 e ajuda frequentemente 251 Con sideramos que a percentagem foi alta para a resposta não Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 57 sabenão respondeu pois essa pergunta diz respeito aos pais que não convivem com seussuas filhosas e como foi apre sentando anteriormente 598 dos trabalhadores convivem com seus filhos Apenas 52 não ajudam financeiramente osas filhosas com quem não convivem logo a convivência não é um fator que prejudica esse tipo de ajuda Com relação aoà primeiroa filhoa quase metade dos pais 41 informou ter planejado a gravidez enquanto a outra metade 491 não planejou A média de idade do homem e da mulher quando tiveram oa primeiroa filhoa foi 22 e 21 anos respectivamente Nos homens a faixa etária mais frequente está entre 20 e 27 anos correspondendo a 55 da amostra enquanto nas mulheres está entre 16 e 24 anos 654 Assim podemos observar que as mulheres são mães mais novas do que os homens são pais Quanto à participação no parto entre os 271 trabalha dores que são pais apenas 165 dos homens participaram Figura 1 Número de entrevistados que responderam ter filhosas 07 3 Sim Não Não sabe 6506 271 3307 139 07 3 Sim Não Não sabe Sim Não Não sabe 58 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO do parto de algum de seussuas filhosas Os principais mo tivos da ausência foram o fato de estarem trabalhandovia jando a trabalho 317 visto que alguns homens que estão trabalhando em Suape moram atualmente em Cabo de Santo Agostinho 351 e Ipojuca 144 mas suas famílias conti nuam morando em suas cidades de origem Mas há também relatos de 122 dos pais que foram impedidos de participar do parto evidenciando o descumprimento da Lei do Acom panhante Lei no 111082005 que faculta à gestante o direi to de ter uma acompanhante de sua livre escolha durante o préparto parto e pósparto imediato No que diz respeito à participação do trabalhador em ou tras atividades relacionadas com os outros momentos do par to obtivemos as respostas explicitadas na Tabela 2 Figura 2 Distribuição percentual das respostas dosentrevistados em relação à coabitação com filhosas Sim sou separado e a guarda dos meus filhos está com a mãe deles Sim meus filhos estão com minha mulher que vive em outra cidade Sim meus filhos moram com outros parentes Sim outra resposta Sim meus filhos são casados Não meus filhos moram comigo Não sabe não respon deu 247 55 37 11 3 598 22 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 59 Tabela 2 Respostas dos entrevistados em relação à sua participação no prénatal préparto e pósparto de seusua filhoa Prénatal Préparto Pósparto Participou 609 339 664 Não participou 351 616 292 Não sabenão respondeu 41 45 45 A partir dessas informações podemos observar que apesar de a maioria dos homens não estar presente durante o parto eles participaram em algum momento de atividades que diz respeito a seus filhos seja acompanhando suas com panheiras aos exames de prénatal 609 seja estando com elas logo após o nascimento 664 Com relação ao conhecimento dos trabalhadores entre vistados sobre a Lei do Acompanhante quando questionados sobre a existência de alguma lei que garanta que os homens podem acompanhar suas companheiras durante o parto 368 afirmaram existir alguma lei 209 falaram que não existia e 423 disseram não saber Apesar de alguns trabalha dores afirmarem existir alguma lei nenhum soube responder corretamente sobre o conteúdo dela Essa informação eviden cia a importância da ampla divulgação da lei junto a esses ho mens de modo a fomentar a maior participação masculina nesse contexto Quanto ao conhecimento sobre a licençapaternidade a maior parte dos entrevistados 955 afirmou ter conheci mento sobre ela e 986 415 reconheceram a licençamater nidade como direito das mulheres Quanto à vigência em dias da referida licença o quantitativo de homens que respondeu 60 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO corretamente diminuiu 72 mencionaram cinco dias Os demais afirmaram ser entre três e sete dias Além de conhecerem seus direitos esses trabalhadores em sua maioria 649 também o fizeram valer usufruin do de sua licençapaternidade Em comparação em relação à licençamaternidade eles responderam que apenas 251 mu lheres a tiraram 683 dos entrevistados afirmaram que suas companheiras não tiraram a licença pois não trabalhavam Quando os trabalhadores foram questionados sobre o que fariam se tivessem um mês de licençapaternidade as res postas foram diversificadas como desde cuidar da criança até considerar a ampliação desse período como desnecessário Essas informações nos permitem observar uma diversida de de opiniões dos trabalhadores sobre a licençapaternidade que nos faz refletir sobre o estranhamento dos homens quan do são convocados à esfera privada esfera essa que julgam ser das mulheres visto que consideram sua participação como uma ajuda Além disso também há homens que afirmam que boicotariam essa inserção na esfera do cuidado pois mes mo com licença de seu trabalho eles arranjariam uma forma de retornar à esfera pública seja para se divertir no bar jogar futebol ir à praia etc seja arrumando algum serviço fora os chamados bicos Por fim sobre a afirmação homem sabe cuidar de crian ça pequena os trabalhadores responderam 525 concordo 266 discordo 20 talvez 09 não sabenão respondeu5 Mais da metade dos trabalhadores entrevistados 221 con sidera que homem sabe cuidar de criança pequena não pen sando no cuidado apenas como atividade das mulheres mas como atividade que podem desenvolver 5 Como se trata de uma questão de opinião essa resposta envolve os 421 trabalhadores entrevistados e não apenas os 271 que são pais Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 61 34 Violência No eixo temático sobre violência buscamos identificar aspectos da relação entre masculinidades e violência de gê nero junto aos entrevistados Ao identificar se esses homens estiveram envolvidos em situações de violência 93 estive ram envolvidos em brigas armados faca ou outra arma ao menos uma vez e 43 destes estiveram envolvidos mais de uma vez 74 afirmaram que já agrediram fisicamente uma mulher e quatro homens afirmam já ter forçado uma mulher a fazer sexo com eles nenhum dos homens afirma ter forçado um homem a fazer sexo com eles quatro homens dizem ter sofrido alguma incapacidade física decorrente de episódio de violência Tabela 4 Respostas dos entrevistados em relação às possibilidades durante o período de licençapaternidade ampliado Respostas Percentagem Ajudar a companheira a cuidar da criança 328 Acompanhar parceira e criança família 235 Cuidar da criança 138 Ajudar a esposa em casa atividades domésticas 97 Não sabenão respondeu 95 Descansar ou se divertir 38 Tempo desnecessário 19 Prejudica a relação com o trabalho 17 Cuidar da documentação 14 Trabalhar para ter renda extra 12 Outros 07 Total 100 62 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO A partir das informações produzidas chamounos a atenção o número relativamente alto 10 dos homens que relataram já terem sido presosdetidos conduzidos a uma delegacia por alguma prática violenta Outro aspecto que en fatizamos diz respeito ao percentual de homens que afirma ram já terem se envolvido em brigas com uso de algum tipo de arma inclusive aqueles 43 que se envolveram em tais episódios mais de uma vez Ressaltamos a percentagem de homens que admitiram ter agredido fisicamente uma mulher 74 bem como aque les mesmo em uma quantidade pouco expressiva que afirma ram ter forçado uma mulher a fazer sexo com eles No tocante aos motivos que estão relacionados com a violência física esta aparece como consequência ou efeito de brigas com mulheres de suas relações afetivas que os ho mens denominam brigas conjugais de casal de família domésticas e familiares O ciúme também é citado como um dos motivos principais que levam à agressão física sendo mencionado por oito dos 30 homens que disseram já ter agre dido Chamanos a atenção também entre os motivos apre sentados a justificativa da agressão física como um revide de uma agressão anterior proferida pela mulher o que apare ce nestes termos ela agrediu primeiro ela deu um tapa na cara dele e levou um tapa e descontou Considerando que a violência de gênero é ainda um tema velado sobre o qual não se fala muito e que felizmen te em virtude da implementação da Lei no 11340 Lei Maria da Penha tem se ampliado a vigilância social sobre tais possíveis práticas criminosas surpreende sobremaneira o número de homens que relatam esse tipo de prática Mais nos preocupa o fato de que esses números são possivelmen te subnotificados Vale ressaltar que 983 dos homens entrevistados afir mam saber da existência de uma lei específica no Brasil sobre Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 63 violência contra a mulher Do total 945 sabem o nome da lei É significativo o número de homens que afirma ter algum conhecimento acerca da legislação nacional sobre violência contra as mulheres Quanto à reação das mulheres que foram agredidas pelos homens entrevistados podemos destacar que 13 das 31 mu lheres revidaram a agressão sofrida Sobre esse aspecto na ca tegoria outras apareceram respostas como ameaçou pro curar a polícia e foi embora para a delegacia o que aponta para uma possibilidade de denúncia Ressaltamos por fim que quatro homens afirmaram que a mulher agredida não teve nenhuma reação o que nos faz questionar o significado dessa suposta não reação diante da violência sofrida Por fim impressiona o quantitativo de homens 15 que concorda sim ou talvez que há momentos em que as mulhe res merecem apanhar 4 Algumas considerações Vale ressaltar que no desenho desta etapa da pesquisa não tivemos a intenção de constituir uma leitura generalizante tomando por base a opinião da população estudada Reco nhecemos que a produção de instrumentos de pesquisas é dia lógica portanto coconstruída com osas pesquisadoresas Nesse sentido adotamos o rigor metodológico como explici tação de procedimentos e escolhas negociadas e justificadas Spink e Menegon 1999 legitimadas a partir de parâmetros usuais em pesquisas epidemiológicas Compreendemos que as informações ora apresentadas podem contribuir para o delineamento metodológico de ou tras pesquisas como também subsidiar iniciativas de planeja mento monitoramento e avaliação de políticas públicas bem 64 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO como o próprio controle social desenvolvido pelos movimen tos sociais organizados Assim dada a escassez de informações qualificadas so bre homens gênero e saúde especialmente mas não apenas nessa região e o rigor metodológico empregado nesta pes quisa as informações aqui apresentadas constituemse rele vantes para discussões e potenciais mudanças no contexto da produção de conhecimento e elaboraçãoavaliação de polí ticas públicas no contexto da atenção integral à saúde dos homens Certamente as análises aqui apresentadas não dão con ta da complexidade quantidade e diversidade de informações produzidas Sua apresentação neste livro tem sobretudo a intenção de compartilhálas de modo que possam ser úteis a diferentes interpretações e usos Contudo em linhas gerais é evidente a diversidade de experiências e relatos que consti tuem esse cenário o que remete à necessidade de elaboração de políticas públicas que sejam mais flexíveis de modo a dar conta dessa diversidade em consonância com princípios do Sistema Único de Saúde SUS que valorizem a abordagem singular Referências COSTA J F A face e o verso estudos sobre o homoerotismo II São Paulo Escuta 1995 HARAWAY D Situated knowledges the science question in feminism and the privilege of partial perspective In HARAWAY D Ed Symians cyborgs and women the reinvention of nature Nova York Routledge 1991 p 183202 IZQUIERDO M J Uso y abuso del concepto de género In VILANOVA M Org Pensar las diferencias Barcelona Promociones y Publicaciones Universitárias 1992 p 3153 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 65 LAQUEUR T Making sex body and gender from the Greeks to Freud Cambridge MA Harvard University Press 1990 LYRA J MEDRADO B Gênero homens e masculinidades percursos pe los campos da pesquisa e da ação em defesa de direitos In BERNARDES J MEDRADO B Org Psicologia social e políticas de existência fronteiras e conflitos Maceió Abrapso 2009 p 139150 Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades Revista Estudos Feministas Florianópolis v 16 n 3 dez 2008 PORTELA A P MEDRADO B SOUZA C de M NASCIMENTO P DINIZ S Homens sexualidades direitos e construção da pessoa Recife SOS CorpoInstituto Papai 2004 144 p RICARDO C SEGUNDO M NASCIMENTO M Experiências e atitudes de homens e mulheres relacionados com equidade de gênero e saúde resultados preliminares de uma pesquisa domiciliar realizada no Rio de Janeiro Bra sil Rio de Janeiro Promundo 2009 RUBIN G El tráfico de mujeres notas sobre la economía política del sexo Nueva Antropología México v VIII n 30 p 95145 1986 BUTLER J Tráfico sexual entrevista Cadernos Pagu Campinas n 21 2003 Disponível em httpwwwscielobrscielophpscriptsci arttextpidS010483332003000200008lngennrmiso Acesso em 20 dez 2014 SCOTT J W Gender and the politics of history Nova York Columbia Univer sity Press 1988 p 2850 Obra consultada Gênero uma categoria útil para análise histórica Educação Realidade Porto Alegre v 20 n 2 p 7199 1995 SPINK M J A ética na pesquisa social da perspectiva prescritiva à intera nimação dialógica Revista Semestral da Faculdade de Psicologia da PUCRS v 31 n 1 p 722 janjul 2000 66 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO MENEGON V A pesquisa como prática discursiva In SPINK M J Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 1999 p 6392 SPIVAK G In other worlds essays in Cultural Politics Nova York Methuen 1987 TRINDADE Z MENANDRO M C NASCIMENTO C R R Org Mas culinidades e práticas de saúde Vitória GM 2011 Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro1 Sirley Vieira da Silva 1 Introdução Tenho por objetivo neste texto mostrar como a iden tidade de homens trabalhadores migratórios comporta um conjunto de normas e regras que vão sendo incorporadas na prática e vivência desses sujeitos e fundamentam um estilo de vida para esse grupo que os leva a incorporar o risco como parte indissociável de suas vivências tanto dentro quanto fora do trabalho A abordagem utilizada é qualitativa e de base etnográfica Os sujeitos da pesquisa são homens que circulam por vários estados do Brasil trabalhando em obras que denominam tre cho vivendo a rodar por várias regiões por força do traba lho que exercem Nessa situação esses homens muitas vezes ficam residindo em alojamentos ou dividem casas alugadas com outros trabalhadores na mesma situação O estilo de vida deles simbolicamente compõe um ethos de identidade que une três símbolos trabalho tempo e deslo camento Identificamse como trabalhadores migratórios pela denominação pião trecheiro Vivem aventuras nas cidades onde trabalham e lidam com vários riscos que fazem parte da vida de um pião rodado pois como revelado por um deles o pião roda para se manter em pé 1 Este texto é um recorte da dissertação Pião trecheiro trabalho sexualidade e risco no cotidiano de homens em situação de alojamento em Suape PE 68 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO 2 Metodologia A metodologia utilizada para realizar a pesquisa com os homens trabalhadores migratórios constou de observação participante e entrevista semiestruturada Utilizei a observação participante da forma mais próxima como foi preconizada por Malinowski 1976 ou seja tentei seguir as três regras sugeridas por esse autor que são guiarse por objetivos verdadeiramente científicos e conhecer as nor mas e critérios da etnografia moderna providenciar boas con dições para o trabalho inclusive viver efetivamente entre os nativos e recorrer a certos números de métodos especiais de recolher informações diário de campo mapas etc Porém o tempo previsto para a realização da pesquisa além de outras questões que me acometeram2 não me pos sibilitou utilizar a observação participante na forma clássica Optei então por usar dois métodos de registro e coleta de in formações mais próximos ao que desejava adaptando a forma clássica da observação participante no item viver efetivamente entre os nativos Contudo visitei regularmente a região como também dormi alguns dias na localidade Para realizar a leitura do cotidiano desses sujeitos em seus diversos espaços de interação adotei metaforicamente o con ceito de moldura do teatro esta construída a partir de uma per formance Goffman 1986 Nessa perspectiva criase imagina riamente uma linha divisória separando o palco da plateia e aquilo que acontece no palco conforme Goffman 1986 p 124155 é algo que pode ser visto por todos os lados e em toda a sua extensão sem ofensa Assim a performance é uma maneira específica de articular a interpretação sobre o que ocorre e foi utilizada como modelo de compreensão social 2 Questões de saúde me obrigaram a ficar afastado durante alguns meses das ativida des do campo Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 69 Para acessar o local de trabalho desses sujeitos solicitei autorização para acompanhar as atividades desenvolvidas pela organização não governamental ONG Instituto Papai na obra da refinaria Essa instituição é uma das organizações parceiras da Universidade Federal de Pernambuco UFPE no projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Outra opção metodológica adotada foi a realização de entrevistas semiestruturadas Optei também por esse modelo por entender que facilita a apreensão de dados objetivos e sub jetivos dos sujeitos da pesquisa Minayo 2010 Realizar as entrevistas não foi uma tarefa tão fácil Por várias questões ligadas à aproximação com os sujeitos da pes quisa a relação de confiança foi sendo construída com len tidão Para conseguir entrevistar esses trabalhadores foram necessárias várias tentativas e persistência Na verdade o processo de entrevista só avançou quando me tornei amigo de Toni3 que é um dos trabalhadores de Su ape que residem na comunidade de Gaibu Expliquei a ele a pesquisa e ele se mostrou bem disponível para ajudar Com a referência de ser amigo de um trabalhador nas mesmas con dições dos alojados os outros trabalhadores alojados me aco lheram de forma diferente Depois disso realizar as entrevis tas ficou mais fácil 3 Os sujeitos da pesquisa Tive a oportunidade de dialogar e conviver diretamente com mais de 60 homens sem contar a interação com os vários operários nas visitas que realizei nas empresas Em comum todos residiam em alojamentos ou em casas alugadas pelas empresas situação também considerada uma condição de 3 Os nomes foram trocados para manter o sigilo e o anonimato dos entrevistados 70 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO alojamento e eram oriundos de outras regiões outro estado ou cidades do interior de Pernambuco Entre todos os homens com quem tive a oportunidade de dialogar para realizar a pesquisa seis foram entrevistados em profundidade com roteiro préelaborado É importante destacar que ao mencionar esses seis trabalhadores todos são citados por nomes fictícios Os outros com os quais dialoguei quando citados faço apenas a referência ao lugar que ocupam na cena por exemplo trabalhador vindo do interior de Per nambuco amigo de jovem trabalhador da cidade tal etc Dos entrevistados listo uma breve descrição que servirá para dar uma ideia das diversas regiões de onde vieram assim como da diversidade cultural que representam Nome Características Toni 48 anos da cidade de Ca xiasRJ Função na obra Encarre gado de equipe Branco residiu por quase dois anos em um alojamento em Gaibu4 está no se gundo casamento pai de dois filhos já adultos Miro 46 anos da cidade São LuísMA Função na obra Encar regado de equipe Pardo divide o alojamento com outros três trabalhadores pai de três filhos Joel 35 anos da cidade de Gua dalupePI Função na obra Me cânico montador Branco divide o alojamento com outros três companheiros pai de uma filha Diniz 47 anos carioca da ci dade de NiteróiRJ Função na obra Instrutor de solda Preto divide o alojamento com outros três trabalhadores pai de quatro filhos todos de relacionamentos diferentes Gael 33 anos da cidade de São LuísMA Função na obra Soldador Pardo divide o alojamento com outros três companheiros é noivo não tem fi lhos 4 Há cerca de seis meses conseguiu trazer a esposa para morar com ele em uma casa alu gada na mesma localidade mas isso na perspectiva da empresa também é considerado uma situação de alojamento Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 71 Breno 24 anos da cidade de AracajuSE Função na obra Mecânico industrial Pardo formado em geografia com pós graduação em meio ambiente divide o alojamento com outros três trabalhadores um deles é pai de sua noiva não tem filhos 4 A região e o contexto local O Cabo de Santo Agostinho é uma das cidades ao sul da Região Metropolitana do Recife RMR e faz parte da subre gião de Suape Tem praias belíssimas natureza exuberante e seu marco de origem de acordo com Galvão 1863 apud Bra sil 1970 está no ano 1560 quando foi instituído o Morga do5 de Nossa Senhora da Madre de Deus do Cabo de Santo Agostinho vinculando o Engenho Madre de Deus depois chamado de Engenho Velho Posteriormente em 1618 foi criado o povoado de Vila de Nazaré onde grande parte das construções ficou concentrada no ponto mais alto da cidade Essa foi uma das primeiras regiões a serem povoadas no Brasil tendo como principal economia até bem pouco tem po a monocultura da canadeaçúcar O município do Cabo como popularmente é chamado segundo o Instituto Brasilei ro de Geografia e Estatística IBGE tinha em 1991 população de 127036 habitantes Porém entre 1991 e 2010 constatase um crescimento superior a 31 em menos de duas décadas o que significa aproximadamente 163 de crescimento ao ano Mas se tomarmos por comparação o crescimento verifi cado entre 2007 e 2010 calculamse 12 de crescimento em um período de apenas três anos ou algo em torno dos 4 ao ano Ou seja nos últimos anos o ritmo de crescimento popu lacional da região foi bastante acelerado 5 Forma de organização familiar que cria uma linhagem bem como um código para designar seus sucessores estatutos e comportamentos 72 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Os investimentos em Suape ao longo das décadas trans formaram a realidade social dos moradores dessas áreas Um dos grandes responsáveis pelas mudanças no perfil socioeco nômico da região foi a instalação do Complexo Portuário e Industrial de Suape Esse investimento ao longo das décadas atraiu muitas empresas para essa localidade e consequente mente aumentou a oferta de emprego o que atraiu muitos trabalhadores de todas as regiões do Brasil Os investimentos econômicos nessa área têm seus pri mórdios pensados ainda no período do regime militar duran te a década de 1960 Foi já nesse período que o município do Cabo de Santo Agostinho passou a receber altos investimen tos públicos por meio da Superintendência do Desenvolvi mento do Nordeste Sudene Na década seguinte em 1970 foi realizado o Plano Dire tor para implantação do complexo e o lançamento da pedra fundamental do Porto de Suape Como parte desse processo foram desapropriados 135 mil hectares de terra para dar iní cio às obras de infraestrutura e outras necessárias ao funcio namento do porto Na década de 1980 o porto começou a operar efetiva mente Um episódio trágico contribuiu para impulsionar esse investimento no ano 19856 ocorreu um grande incêndio em um navio de combustível no porto do Recife A proporção do incêndio foi tão grande que colocou em risco grande parte do bairro do Recife Antigo Felizmente o incêndio foi controla do mas isso fez com que o governo de Pernambuco após o episódio ordenasse a transferência de todas as empresas de combustíveis instaladas no porto do Recife para o porto do Suape 6 Para mais detalhes sobre esse incêndio acessar httpbasiliofundajgovbrpesqui saescolarindexphpoptioncomcontenteviewarticleeid209eItemid193 Acesso em 23 ago 2012 Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 73 Após a virada do século XX foi construído na região o estaleiro Atlântico Sul e lançada a pedra fundamental da Re finaria General José Ignácio Abreu e Lima popularmente co nhecida por Refinaria Abreu e Lima Muito do que foi realizado fez com que o índice de de senvolvimento humano IDH de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Pnud7 consi derando o período de 1991 a 2000 passasse de 0630 para 0707 Pnud 2003 Porém se consideramos o ano 2010 constatouse a redução desse índice para 0686 Pnud 2010 O Complexo Portuário e Industrial de Suape está situa do a 40 quilômetros do Recife Segundo dados do Governo Federal de 2007 a 2010 foram investidos nessa região cer ca de 17 bilhões de dólares aplicados em especial na imple mentação de empreendimentos estruturadores que geraram cerca de 15 mil novos empregos e outros 45 mil só na cons trução civil8 Como esperado os investimentos promoveram muitas mudanças econômicas e sociais como o aumento da oferta de emprego e o surgimento de novas funções que poderiam ser desempenhadas por moradores locais A população local pas sou a ver aí uma grande oportunidade de conseguir empregos principalmente na construção civil por causa da instalação da obra da refinaria O governo de Pernambuco criou programas de qualifica ção profissional para moradores da região com o intuito de formar mão de obra qualificada e preencher as novas vagas de emprego oferecidas Porém a demanda de oferta de empregos era maior que a quantidade de mão de obra formada nesses 7 Disponível em httpwwwpnudorgbratlasrankingIDHM2091200020 Ranking20decrescente20pelos20dados20de202000htm Acesso em 22 jul 2012 8 Disponível em httpwwwsuapepegovbrinstitutionalhistoricphp Acesso em 20 jul 2012 74 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO cursos Somandose a isso havia a necessidade de trabalha dores experientes para desenvolver funções específicas e ne cessárias em uma obra de tamanho porte com características peculiares exigindo especificidades para a instalação de uma refinaria de petróleo Todos esses fatores fizeram com que as empresas respon sáveis pela obra buscassem muitos trabalhadores de outras regiões do Brasil com experiência comprovada formados em outros estados cuja maioria tinha histórico de vivência em grandes obras já havia circulado por várias regiões do país ou até fora dele Vieram então para Suape operários de várias regiões brasileiras com qualificação tão diversificada quanto suas idades e cargas culturais 5 Os homens das firmas e as residências temporárias Segundo informações das empresas responsáveis pelas obras de Suape as idades dos trabalhadores vindos de outras regiões variam entre 18 a 68 anos mas a grande maioria está entre 24 e 40 anos9 Uma característica dessa migração é que com exceção de trabalhadoresas da parte administrativa os operários vindos de fora de Pernambuco são todos homens e grande parte de les fica instalada em alojamentos eou repúblicas mantidos pela empresa contratante De acordo com informações das empresas estimase um quantitativo de mais de 12 mil homens instalados em alo jamentos o que pode significar cerca de 30 do efetivo de pessoas que trabalham na obra da construção da refinaria A maioria dos alojamentos foi instalada em regiões litorâneas 9 Fonte Empresas terceirizadas da Refinaria Abreu e Lima Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 75 do Cabo de Santo Agostinho como também no município de Ipojuca Também houve alojamentos nas áreas próximas ao centro dessas cidades As empresas que têm os maiores quadros de pessoal aci ma de 5 mil operários têm alojamentos próprios enquanto as outras com menor contingente optaram por alugar pré dios inteiros ou casas que funcionam como repúblicas de homens Outra opção adotada pelas empresas foi a locação de pousadas ou alojamentos adaptados galerias de lojas por exemplo para que esses trabalhadores fossem instalados 6 Complexo de questões com a chegada dos homens das firmas A presença desses homens trabalhadores das firmas10 nas comunidades transformou a dinâmica dessas cidades sob o ponto de vista econômico e social11 Várias foram as ques tões que surgiram a partir da chegada desses sujeitos Alguns dos problemas apontados dizem respeito a gra videzes de mulheres locais pelos homens trabalhadores das firmas12 sem que estes reconhecessem a paternidade o que fez com que crescesse13 o número de ações judiciais para pa gamento de pensão alimentícia após ações de investigação de paternidade movidas por mulheres da região contra trabalha dores das obras Outra problemática que também envolve a chegada dos homens das firmas alardeada também em 10 Essa é a forma como as pessoas que residem na região se referem aos trabalhadores 11 Violência se espalha rapidamente pelo Litoral Sul Jornal do Commercio 3 dez 2011 Disponível em httpwwwolddiariodepernambucocombrassinantesacesso dpasp Acessado em 15 set 2012 12 Ver a reportagem Filhos de Suape Diário de Pernambuco 813 maio 2012 13 Segundo informações das firmas responsáveis pela obra da refinaria 76 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO reportagens referese a denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes Além das questões referidas destaco o registro do aumen to de casos de doenças sexualmente transmissíveis DSTs e Aids na região De acordo com o Boletim epidemiológico Aids e DST 2011 das cidades do Nordeste o Cabo de Santo Agosti nho e Ipojuca aparecem entre as regiões de maior incidência de casos de Aids notificados Figurando respectivamente com taxas de 379 Cabo de Santo Agostinho e 377 Ipojuca por grupo de 100 mil habitantes no Brasil esses municípios fica ram atrás apenas da cidade de São LuísMA que apresentou taxa de 405 por grupo de 100 mil habitantes Em 2000 o Boletim epidemiológico registrava para essas ci dades taxas de 144 Cabo de Santo Agostinho e 34 Ipojuca por grupo de 100 habitantes Isso fornece indicativos de que a problemática pode ter relação direta com o aumento da po pulação na região que foi impulsionado pelas obras e investi mentos em Suape Há mais questões que envolvem esse complexo de pos sibilidades como o aumento dos casos de violência inclusi ve homicídios na região Por exemplo de acordo com dados do Mapa da Violência 2012 se considerarmos os anos 2008 a 2010 a cidade do Cabo de Santo Agostinho apresentou taxa média de homicídios de 777 por grupo de 100 mil habitan tes a terceira maior taxa de homicídios de Pernambuco O município de Ipojuca aparece no mapa com a taxa de 638 por grupo de 100 mil habitantes sendo apontado no ranking do estado como o oitavo município mais violento Ou seja os dois principais municípios da região em relação ao Comple xo de Suape estão entre as 10 cidades com maiores taxas de homicídios de Pernambuco Os dados revelam uma faceta triste da dinâmica que se instaurou nessa região intensificada com a chegada dos ho mens trabalhadores de outros estados Essas questões envol Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 77 vem aspectos relacionados com as questões de saúde e mas culinidades tendo como foco as questões da interação social como também aspectos do exercício da sexualidade masculi na que perpassam a formulação da identidade desses traba lhadores migratórios 7 Pião trecheiro uma identidade social Diz Ribeiro 2000 que em relação a deslocamento o mercado de trabalho de circuitos migratórios das grandes obras exige trabalhadores especializados e em geral os mi grantes recémingressos no mercado de trabalho entram nas posições inferiores Para Sarti 2005 p 88 a identidade masculina na fa mília e fora dela associase diretamente ao valor do trabalho O trabalho seria mais que um instrumento da sobrevivência material para os homens pois constitui o substrato da iden tidade masculina forjando um jeito de ser homem Partindo de uma perspectiva relacional de gênero po demos refletir que as pessoas carregam ideias sobre o tipo de trabalho aos quais corpos masculinos ou femininos mais se adaptam ou que devempodem exercer Isso reflete a maneira como geralmente as pessoas diferenciam as atribuições mas culinas e femininas em nossa sociedade demonstrando desi gualdades que implicam questões de gênero e poder Santana 2010 Podemse perceber todas essas questões ao dialogar com esses homens que trabalham em Suape pois nos diálogos dos trabalhadores sempre aparecerem referências como o traba lho é essencial ou sem trabalho o homem não é nada Pelo exercício do trabalho assalariado e pela especificida de da vida que levam exigências de longas viagens enfrenta mento de situações de perigo convivência com outras cultu 78 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO ras etc as especificidades da profissão fornecem a ideia da identidade social do grupo Eckert 1995 Ribeiro 2000 No entendimento da comunidade local esses homens são referidos como os homens das firmas ou peões de obra Porém ao conviver com esse grupo de trabalhadores que re sidem em alojamento percebi que há uma diferença crucial entre ser peão de obra e ser pião trecheiro como eles se autoproclamam Isso aponta para características peculiares de um estilo de vida que afirma as vivências desses sujeitos e os interligam a símbolos que estruturam um ethos coletivo Embora trate de contexto diferente Eckert 1995 p 166 em pesquisa realizada com grupos de homens trabalhadores de minas de carvão ao tecer referências à natureza de traba lho desses operários da mina afirma que questões vivenciadas no cotidiano desses sujeitos fundamentam elementos que es truturam a construção da identidade social do grupo Com o grupo de piões de trecho também se identificam elemen tos elencados como características próprias da profissão Estes remetem a ideias de força aventura coragem sacrifício entre outros atributos que compõem simbolicamente a identidade social desses operários e conferem uma ideia de grupo seleto A curiosidade sobre o que significava ser um pião tre cheiro me fez sondar essa especificidade e em pouco tempo pelas respostas que recebi percebi que essa denominação in dica uma identidade composta entre outras coisas pela dico tomia fazer parte e não fazer parte do lugar Entre os indicativos do que considero fazer parte destaco os trabalhadores residem em alojamento na região por lon go tempo participam ativamente da vida cotidiana da comunidade local interferem na influenciam e sofrem a influência da dinâmi ca local Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 79 criam relações de amizade e interagem com moradores locais Essas questões enfatizam como esses homens se fazem presentes na localidade e demonstram sua relação com a di nâmica local pelas características que os fazem fazer parte do contexto da região Contudo há elementos presentes nessa relação que os mantêm deslocados do lugar não sendo eles vistos como membros da comunidade Esses elementos refle tem o que chamo de não fazer parte Vejamos alguns indicativos do que considero não fazer parte os alojados não se identificam como moradores locais não são identificados como moradores locais pelas pessoas que residem na região referemse ao lugar deles como o lugar onde reside a família os relacionamentos amorosos que desenvolvem na região são geralmente referidos como temporários sem compro misso emocional assumem como característica da profissão não se prender a um lugar por muito tempo Os trabalhadores alojados deixam claro que sua relação com o lugar é fluida e passageira Residir na localidade para a maioria não é uma escolha permanente mas uma necessida de uma condição transitória que é uma característica da pro fissão deles Percebese essa especificidade na referência que esses sujeitos fazem à profissão que exercem Terminou o trabalho aqui já vou procurar outro Todo mun do tá já pensando em outro trabalho o pião não escolhe um lugar Ele não tem um lugar permanente Ele tá aqui um tempo tá ali por mais um tempo Não nos fixamos num lugar Diniz 47 anos da cidade de PetrópolisRJ 80 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Em si pião trecheiro não é uma profissão de registro na carteira de trabalho Na verdade eles são registrados como soldadores mecânicos industriais pedreiros encanadores in dustriais etc Porém na prática são identificados e eles pró prios se identificam pela expressão pião trecheiro Eu pensava logo no início que a denominação correta era peão e não pião Na minha cabeça essa designação era uma ligação direta com o peão de obra como são denomi nadas as pessoas que trabalham em obras da construção ci vil Intrigado sobre a diferenciação linguística entre peão e pião resolvi nas conversas com esses trabalhadores enfati zar a palavra peão forçando o som do e Acontecia que em todas as vezes que me referia a eles como peão enfatizando o e me corrigiam dizendo Sou pião trecheiro Não entendi logo o porquê da correção e até achava ser apenas a questão da diferença do sotaque provoca da por mim Um dia perguntei diretamente o motivo de en fatizarem sempre que eram peões trecheiros Recebi como resposta a afirmação Por que você diz peão Não é peão É pião Pião trecheiro Foi aí que compreendi que havia uma diferença essencial entre o peão e o pião Ao investigar melhor essa questão percebi que a junção dessas palavras pião e trecho é uma analogia que une três atributos valorizados por eles Além disso a denominação pião trecheiro comporta certas experiências vividas pelos operários Só depois de muitas conversas e observações che guei a esse entendimento do que seria pião trecheiro Mas para explicar melhor fazse necessário entender o que vem a ser trecho na compreensão desses homens Metaforicamente eles assemelham a palavra trecho a obras instaladas em determinada região Trecho pode se referir também a um período de tempo período em que os homens trabalham em uma região onde a obra está sen do realizada Ao se deslocarem para trabalhar em uma dessas Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 81 obras consideram estar em um trecho durante um interva lo de tempo cientes de que logo estarão em outro trecho Isso faz com que não se sintam pertencentes àquela região pois o trecheiro não se prende ao lugar Podese observar isso nas afirmações dos piões como no depoimento de Toni Pião trecheiro é porque ele não tem estadia ele está num trecho Por exemplo ele está no Rio aí alguém diz Olha tem uma obra pra gente lá em Manaus quem é que vai o fulano vai Quer dizer ele não se apega ao Rio de Janeiro A gente não se apega à cidade O pião não passa muito tempo num lugar Porque ele vai onde tem trabalho Toni 48 anos da cidade de CaxiasRJ Já em relação ao pião essa denominação carrega um sentido de como se percebem Em toda obra existem os pe ões com e mas som de i em algumas existem também piões No caso da construção da refinaria coexistem os dois grupos Os peões de obra que são trabalhadores da própria região e ainda não adentraram a vida de pião de trecho pois o pião acumula em sua bagagem a experiência do desloca mento ou circulação territorial O pião vai onde tem trabalho como me disse Toni Os piões circulam rodam pelo mundo e para o peão se tornar pião tem de conhecer bem essa profissão na prática e a prática do pião é rodar só assim se passa a fazer parte desse grupo Miro utilizou uma metáfora muito interessante para ex plicar a necessidade do pião de estar circulando e nunca parar em um lugar por muito tempo Disse que a referência ao pião diz respeito ao brinquedo que ao ser acionado em movimen tos circulares fica a girar e não pode parar pois o que é o pião O piãozinho ele gira ele roda Quer dizer o pião roda do Ele está circulando ele não está parado Se parar ele cai 82 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO A metáfora de girar para se manter em pé reflete bem a ideia que esses homens guardam sobre a mobilidade territo rial além de comportar outras ideias como força e dinamis mo Enquanto está girando o pião tem força só para se per der a força aí ele cai Esse cair a meu ver pode ser comparado à morte invalidez ou aposentadoria Percebemse algumas dessas ideias nas palavras de Diniz Uma vez que sente gos ta E se pegar gosto né Não sai mais dessa vida A não ser quando se aposentar ou morrer Podese então entender que a junção entre pião e tre cho significa a união de três condições compostas de valores que são 1 pião trabalhador que roda não fica fixo em um lugar circula 2 trecho espaço geográfico onde a obra está instalada e 3 trecho espaço de tempo período Assim ser pião trecheiro é fazer parte de um grupo identificado com trabalho deslocamento e tempoperíodo 8 A vivência do risco como marca da vida do pião Por ser ambígua a noção de risco é associada tanto a pe rigo quanto a instabilidade probabilidade e até vulnerabilida de sendo transversal aos mais diversos setores da sociedade do local ao global Queirós 2000 No que se refere à natureza do trabalho a profissão de pião trecheiro é cercada por características particulares em relação ao convívio com riscos o que faz com que esses ope rários adotem uma linguagem carregada de símbolos Nesta subsiste a ideia de risco e segurança como algo que está sem pre junto No trabalho temos risco Por isso que se tem toda uma pre ocupação com profissionais para treinamento Profissionais Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 83 para orientar sobre o uso dos EPI14 de dispositivos para segu rança pois o nível de acidentes de risco são muito alto Tem uns que dizem que os EPI são muito ruins Por isso se preocupam em colocar pessoas pra orientar pra treinar Todos sabem o que se deve fazer na obra A segurança de um depende de todos Aí tem os riscos daqui15 não só na empresa mas eu diria principalmente fora da empresa nós estamos correndo riscos Mas lá tem gente que está alertando supervisionando todo mundo Aqui fora não Vai pela consciência de cada um Miro 46 anos da cidade de São LuísMA Percebese na fala de Miro que o pião sabe dos riscos que corre dentro e fora do trabalho No convívio diário fora do ambiente do trabalho também porém a dimensão se dá de forma diferente Vejamos o que Toni diz sobre isso Todo mundo sabe que tem que tomar cuidado É exigência das empresas que se trabalhe com segurança Aqui fora e lá na empresa também Quer dizer Lá tem gente que reclama mas tem os que tá lá pra dizer que tem que usar os EPI Se o nego não ficar em cima tem uns que não usa não Aqui fora tem a questão da violência Do sexo De várias coisas Aí o cara tem que fazer o quê Se prevenir Toni 48 anos da cida de de CaxiasRJ Os entrevistados disseram que estão cercados de riscos também quando saem do trabalho Nas ações cotidianas o risco sempre está presente como enfatizado por Toni tem a questão da violência Do sexo De várias coisas E da mes ma forma que se referem ao risco a segurançaproteção é um fator constantemente reafirmado 14 Equipamento de proteção individual 15 Esse trabalhador se referia ao lugarcomunidade onde fica instalado o alojamento não ao local de trabalho 84 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Douglas e Wildavsky 1982 afirmam que o risco sempre tem caráter coletivo Apesar de os homens reconhecerem seu caráter coletivo nem sempre os riscos são reportados como coletivos Uma forma de perceber essa divisão diz respeito ao ambiente no qual os riscos são vivenciados No ambiente de trabalho as normas e exigências ajudam a prevenir riscos físi cos Nesse espaço o cumprimento das regras é constantemen te monitorado para que seja realizada a rotina de segurança Alegase que a vigilância sobre o cumprimento das regras é necessária para o bem de todos assim a prevenção dos riscos nesse ambiente assume uma dimensão coletiva Porém fora do ambiente de trabalho o risco nem sempre é dimensionado da mesma forma Uma coisa muito repetida nas conversas nos bares alojamentos e até nas empresas é que se alguém toma uma atitude que coloca apenas ele e seus fa miliares em risco ninguém deve se meter Essa decisão indivi dual que não compromete o coletivo não deve sofrer vigília Mas se a decisão de um operário coloca em risco o grupo aí deixa de ser um problema individual e passa a ser coletivo nesse caso todos têm o direito de interferir e devem interferir Um grupo com o qual conversei relatou sobre a prisão de um colega que era usuário de drogas e acabou se envolvendo em roubo Disseram que esse operário usava drogas e todos sabiam Como essa atitude era uma questão individual nin guém se meteu Mas ele acabou se envolvendo em roubo tam bém sem ninguém do alojamento saber segundo informa ram Determinado dia a polícia bateu no alojamento deles para prender esse rapaz e acabou levando outros três colegas do alojamento presos Os outros três que dividiam o alojamento com ele disse ram que não sabiam nem estavam envolvidos com o crime mas mesmo assim tiveram de prestar esclarecimentos na dele gacia e só foram liberados quando ficou comprovada sua ino cência atestada pela confissão do responsável Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 85 Um dos homens que contaram essa história relatou o se guinte Enquanto ele só usava drogas não atrapalhava a vida de ninguém o problema era só dele Aí ele se meteu com coisa ruim e quase que ferra todo mundo Aí o problema é de todo mundo Todos ficaram alertas após esse episódio e uns passaram a vigiar os outros Isso exemplifica bem o entendimento deles sobre o risco a partir da dimensão individual ou coletiva Ou seja quando a questão pode prejudicar apenas um consi deramna um risco individual pois não afeta o coletivo Mas quando afeta vários como no caso citado então todos devem passar a exercer o controle dos riscos coletivos A linha que separa os riscos individuais dos coletivos na prática é tênue Para Douglas e Wildavsky 1982 a decisão de se expor ou não a determinado risco embora aparente ser individual não o é pois está inserida em um contexto mais amplo dado pela cultura à qual a pessoa pertence Como afirmam os mesmos autores as percepções dos riscos são determinadas pela orga nização social e pela cultura pois estas fornecem ao indivíduo os filtros que estruturam suas percepções de risco Talvez por isso os piões reconheçam a necessidade de tomar cuidado mas também falam sobre coragem Usam es tratégias para minimizar os riscos mas dizem que nem tudo está sob controle Acreditam que essas características vão se incorporando à sua vida pela profissão e não têm como sepa rar Lidar com os desafios é parte dessa profissão e a figura do pião é moldada pela vontade do desbravamento do des conhecido e pela satisfação da aventura características tidas como elementos importantes na construção da identidade so cial desse grupo Alguns argumentos carregam a ideia de que a convivência e o enfrentamento dessas questões fazem com que se acostu mem em lidar com os riscos já que eles estão em toda parte Beck 2010 Como se observa no relato dos entrevistados 86 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO É uma vida que quando você entra ou se acostuma ou sai fora para ser pião tem que gostar de se aventurar tam bém O pião gosta disso Toni 48 anos da cidade de Ca xiasRJ A vida do pião é arriscada A gente sabe dos riscos mas é nossa vida Fazer o quê A gente se acostuma Eu já me acostu mei Joel 35 anos da cidade de GuadalupePI Nós vivemos com o risco a gente encara meio Assim É é uma aventura Somos homens temos que encarar essas dificuldades Só assim a gente vive nessa vida Gael 33 anos da cidade de São LuísMA Por causa do costume Muitos aí acredito também es tão nessa vida Vida de pião porque querem ter suas coisas e porque gostam de ser pião Diniz 47 anos da cidade de PetrópolisRJ Conforme Ribeiro 2000 com base nos estudos de traba lhadores da construção de uma usina em determinados mo mentos esses indivíduos entram em um processo de recons trução assumindo a identidade de habitantes permanentes do circuito migratório dos grandes projetos Miro fez uma analogia da convivência do pião com os riscos Comparou o dia a dia do trabalhador de trecho a viver eternamente sobre uma ponte De um lado da ponte estão os riscos ao quais estão expostos no cotidiano do traba lho do outro estão os riscos vivenciados fora dele Completou a explicação afirmando que o pião é aquele que vive nessa ponte Em geral guardam uma ideia do risco como algo peri goso que está em toda parte não se sabe onde ele se esconde Breno disse em entrevista que o risco é um perigo oculto sendo fácil se exporem a ele por questões como relaxamento descuido e mesmo os momentos de prazer Assim o risco faz Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 87 parte da vida do pião mesmo na dimensão do prazer pois este leva ao relaxamento e deixa a pessoa desatenta Com base na vivência desses trabalhadores é possível re alizar a análise dos riscos interligados ao campo da sexuali dade masculina incluindo suas interações e práticas sexuais Dessa forma podese perceber como essa dimensão se amplia e se incorpora à identidade masculina por essa via Porém nosso objetivo aqui foi demonstrar como o risco está presen te na vida desse grupo como algo intrínseco à vida do pião de trecho o que vincula a ideia da identidade masculina per passada por símbolos e atributos como trabalho coragem aventura e liberdade Quadros 2004 Quadros e Scott 1999 Sarti 1994 9 Considerações finais Observar as relações sociais desse grupo ajuda a com preender vários aspectos da vida dos homens trabalhadores migratórios que se autodenominam piões trecheiros Olhar para essa questão no cotidiano desses homens tanto no am biente de trabalho quanto fora dele ajuda a dimensionar as questões de risco presentes nessas interações O contexto histórico e social da região pesquisada Su ape indica a importância de explorar os vários elementos presentes na identidade de um pião trecheiro pois a forma como lidam com o risco indissociável do trabalho que exer cem fornece importantes indicativos de como o trabalho para esse grupo fomenta a ideia de uma identidade coletiva Eckert 1995 Ribeiro 2000 interligada com a ideia de ser homem Como se viu a identidade de um pião trecheiro é com posta por símbolos como trabalho profissão deslocamento mudança trânsito migração mobilidade e período tempo 88 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Esses símbolos juntos compõem o ethos desse grupo e confor mam um habitus Bourdieu 1983 Assim percebese que a simbologia da profissão de pião trecheiro influencia diretamente a forma de interação e cons tituição de vínculos em que o estilo de vida faz com que esses homens não se prendam a uma região fixa o que comporta um tipo de relação simbólica com o lugar região mediada pela ideia de fazer parte e não fazer parte sendo sempre uma relação fluida e passageira com o lugar e as pessoas da região Olhar para o risco pela relação que esse grupo estabele ce diretamente interligada com o trabalho ajuda a perceber como essas dimensões se correlacionam com outras e conse quentemente se refletem na forma como esses homens car regam esses símbolos como marcas centrais dessa identidade masculina Pois o risco aparece como referência presente na vida desses trabalhadores entendido como elemento intrínse co à profissão do pião trecheiro A vida dos profissionais que conforme a metáfora uti lizada por um dos trabalhadores rodam reporta elemen tos como aventura força e coragem aos que fazem parte desse grupo O estilo de vida que levam faz com que se exponham a vários perigos como também expõe outras pessoas com as quais se relacionam e isso é intensificado por causa das exi gências de deslocamentomigração E a amplitude dos riscos a que estão sujeitos abarca questões interligadas pela convivên cia na comunidade tanto quanto pela natureza do trabalho que realizam Os atributos tidos como masculinos apareceram ligados à questão de liberdade autonomia aventura prazer e res ponsabilidade Sarti 2005 Quadros 2004 Por meio desses atributos esses sujeitos compõem seus caminhos e as formas de vivência e percepção dos riscos estão ligadas à identidade masculina reforçada pelo estilo de vida que a profissão lhes Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 89 impõe influenciando diretamente a formação da identidade coletiva desse grupo Referências BECK U Sociedade de risco rumo a uma outra modernidade Tradução de Sebastião Nascimento São Paulo Ed 34 2010 1985 BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2000 Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de DST Aids e Hepati tes Virais Brasília 2012 BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2011 Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de DST Aids e Hepati tes Virais Brasília ano VIII n 1 2012 BOURDIEU P Gostos de classe e estilos de vida In ORTIZ R Org Pierre Bourdieu sociologia São Paulo Ática 1983 n 39 p 82121 Coleção Grandes Cientistas Sociais DOUGLAS M WILDAVSKY A Risk and culture an essay on the selection of technical and environmental dangers Berkeley CA University of Cali fornia Press 1982 ECKERT C Do corpo dilapidado à memória reencantada In Corpo e signi ficado ensaios de antropologia social Organização de Ondina Fachel Leal Porto Alegre UFRGS 1995 p 139154 GOFFMAN E Frame analysis an essay on the organization of experience 2 ed Boston Northeastern University Press 1986 1974 INSTITUTO SANGARI Mapa da violência 2012 os novos padrões da vio lência homicida no Brasil 1 ed São Paulo 2011 MALINOWSKI B Argonautas do Pacífico ocidental São Paulo Abril 1976 90 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO MINAYO M C de S O desafio do conhecimento pesquisa qualitativa em saú de 7 ed São Paulo Hucitec Rio de Janeiro Abrasco 2010 QUADROS M T Homens e a contracepção práticas ideias e valores mascu linos na periferia do Recife Tese Doutorado Programa de Pósgradu ação em Sociologia Universidade Federal de Pernambuco Recife 2004 SCOTT R P O masculino na saúde sexual e reprodutiva em Per nambuco In II CONGRESSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E SAÚDE Anais São Paulo 1999 QUEIRÓS M Uma reflexão sobre as perspectivas metodológicas na análi se do risco ambiental In COLÓQUIO GEOGRAFIA DOS RISCOS Plani geo FLUL Anais Lisboa 2000 RIBEIRO G L Bichos de obra fragmentação e reconstrução de identida des In Cultura e política no mundo contemporâneo Brasília UnB 2000 SANTANA A M Mulher mantenedorahomem chefe de família uma questão de gênero e poder Revista Fórum Identidades Itabaiana Gepiadde ano 4 v 8 juldez 2010 SARTI C A A família como espelho um estudo sobre a moral dos pobres 3 ed São Paulo Cortez 2005 Promoção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto 1 Introdução No Brasil grandes obras de infraestrutura de base vi sando ao desenvolvimento econômico do país necessitam de aprovação pelo poder público por meio de Estudos de Impac to Ambiental EIA seguidos da elaboração de um Relatório de Impacto Ambiental RIMA Esse relatório e sua análise foram uma conquista do movimento ambientalista visando a evitar ou pelo menos a minimizar e antecipar para resolu ção as interferências que esses projetos pudessem causar ao meio ambiente Acselrad 2010 Sabese que os impactos ambientais não se reduzem ao ambiente físico fauna e flora devendo ser considerados tam bém sob o ponto de vista de sua capacidade de influência so bre o meio social No entanto no Brasil ainda não são reque ridos como obrigatórios os estudos de previsão de impactos de grandes obras de engenharia sobre o meio social e as po pulações por elas atingidas apesar de tais obras produzirem quase invariavelmente deslocamento de mão de obra agre gando uma população flutuante estranha por dado perío do de tempo às localidades onde essas obras serão realizadas Esse movimento costuma gerar uma série de impactos sociais negativos para os municípios receptores visto que na maio ria das vezes os poderes locais não dispõem de planejamento 92 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO recursos meios legais e instrumentos capazes de minimizar seus efeitos De 2010 a 2011 a construção da Usina de Belo Monte no Pará por exemplo fez crescer a população de Altamira de 100 mil para 145 mil habitantes representando um acréscimo de 45 Clam 2012 Segundo o Movimento de Mulheres de Altamira do Campo e da Cidade essa vinda de trabalhadores homens contribuiu para o crescimento das notificações dos casos de exploração abusos e violência sexual e agressão física Os casos de abuso sexual praticamente dobraram em termos de notificação entre menores passaram de 43 para 75 casos entre 2010 e 2011 e furtos roubos e crimes de violência con tra as mulheres também registraram um aumento de 28 no mesmo período Clam 2012 Oliveira e Pinho 2014 Além disso a prostituição aumentou na localidade após o recebimento de salários pelos trabalhadores Os casos en volvendo trocas sexuais entre esses profissionais e o público infantojuvenil registraram crescimento havendo relatos in clusive de programas pagos com uso de valealimentação Talento 2014b Entre as índias de aldeias localizadas nas áreas afetadas pela construção de Belo Monte também tem ocorrido troca de sexo com os trabalhadores por bens mate riais ouro ou dinheiro Oliveira e Pinho 2014 Os casos de abuso sexual de mulheres adultas e adolescentes dessas tribos muitas vezes têm ocorrido com a conivência das próprias co munidades reféns de interesses de circulação desses recursos e dinheiro Talento 2014a Tais episódios invariavelmente associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas já ha viam sido observados nos arredores na época da construção dos 4224 km da Rodovia Transamazônica projetada na dé cada de 1970 pelo governo militar para interligar as regiões Norte e Nordeste do país Clam 2012 No município de São Bernardo do Campo na Grande São Paulo as obras do trecho sul do Rodoanel desenvolvido Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 93 para interligar as estradas do estado e reduzir a entrada de caminhões e veículos na capital envolveram a contratação de 4 mil operários homens que ficaram instalados em alo jamentos de 2007 até 2010 Nesse mesmo período segundo reportagem da Folha de SPaulo Castro e Brito 2011 as uni dades de saúde da região registraram aumento do número de gestantes adolescentes de 73 para 91 Na região das obras do Rodoanel foram geradas dezenas de crianças nascidas sem contato apoio ou auxílio financeiro de seus pais biológicos que foram embora após o término das obras na maioria das vezes sem estabelecer vínculo duradouro com as mães A re portagem também relata que no mesmo período houve mais registros de casos de violência física consumo e tráfico de dro gas e prostituição na região Na construção da Refinaria de Abreu e Lima e do Polo Petroquímico de Suape no estado de Pernambuco conforme a série veiculada pelo Diário de Pernambuco 2011 houve um aumento populacional de 148 para 5436 por causa da presença de mais de 32 mil homens contratados como traba lhadores temporários Gestações advindas de relações sexuais e afetivas ocasionais filhos sem pai biológico exploração se xual de adolescentes e estupro foram eventos que explodiram na região conforme as reportagens além do crescimento de casos de doenças sexualmente transmissíveis DSTs incluin do Aids Fenômenos semelhantes também ocorrem em municí pios que recebem grande contingência de turistas homens Pesquisas mostram que há descuido na proteção sexual principalmente associada ao consumo de álcool aumento dos casos de DSTs Aids e hepatites entre a população local por causa das relações sexuais envolvendo os turistas incre mento do mercado do sexo incluindo tanto a prostituição profissional quanto a exploração sexual comercial aumen to das emergências médicas decorrentes do uso abusivo de 94 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO álcool e outras drogas pelos turistas e intensificação do con sumo dessas substâncias entre os jovens moradores Figuei redo e McBritton 2006 Santos e Paiva 2007 Santos e Fi gueiredo 2009 Os fluxos populacionais como a migração de trabalha dores e de turistas e seus efeitos negativos sobre as popula ções das localidades que os recebem têm sido foco de nossa atenção e objeto de intervenção desde o ano 2000 A experi ência em diversos projetos no contexto de migração de pes soas nos levou a uma série de discussões e paralelos sobre as semelhanças e diferenças entre comunidades que recebem turistas e comunidades que recebem trabalhadores para exe cução de grandes obras Isso favoreceu a análise das relações entre os fluxos populacionais e a produção de vulnerabilida des e agravos à saúde Também permitiu o desenvolvimento de estratégias práticas de promoção de saúde sexual e repro dutiva incluindo prevenção à exploração sexual comercial de crianças e adolescentes gestações não planejadas e DSTs Aids Este capítulo pretende disseminar as experiências acu muladas com os projetos que realizamos envolvendo especi ficamente o trabalhotrabalhador migrante e a comunidade morador em diferentes regiões brasileiras por meio das orga nizações não governamentais Centro Vergueiro de Atenção à Mulher Instituto IngOng de Planejamento Socioambiental e Instituto Cultural Barong Inicialmente descrevemos as ca racterísticas e a situação do trabalhotrabalhador em grandes obras e destacamos aspectos dos projetos de saúde sexual e re produtiva realizados Ao final são feitas recomendações para municípios e estados que venham a lidar com grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino e indica ções de portais eletrônicos e leituras para o aprofundamento dos temas abordados Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 95 2 Características do trabalhotrabalhador temporário em grandes obras De forma geral algumas características são comuns em todas as obras de base que promovem a estruturação do de senvolvimento econômico conforme o modelo de avanço tecnológico atualmente no país essas obras de infraestrutura envolvem a engenharia de construção civil e para serem execu tadas necessitam de mão de obra braçal portanto empregam a força e a habilidade majoritariamente masculinas Esses trabalhadores braçais são requisitados entre segmentos po pulacionais de baixo poder socioeconômico e escolar que têm menor qualificação profissional e empregos sem estabilidade Tal perfil favorece a aceitação do trabalho temporário in cluindo a necessidade de deslocamento por médios ou gran des períodos e produz uma série de relações de trabalho que não seguem em geral o padrão de adequação adotado em empresas que empregam mão de obra fixa Por uma questão de situação de desenvolvimento econômico e escolar brasilei ro que concentra grande parte da população em situação de trabalho sem qualificação a concorrência para ocupação das vagas desse tipo de trabalho braçal temporário é grande ha vendo mais oferta de mão de obra do que procura Desse modo a situação de trabalho incluindo jornadas instalações higiene e moradias oferecidas é prontamente acei ta embora nem sempre seja digna de organização e salubrida de ficando a cargo de cada empresa sua ordenação conforme as legislações existentes Por uma questão de conquistas com relação à organização do trabalho advindas do período de in dustrialização do país a legislação brasileira foca a condição de saúde do trabalhador do ponto de vista da redução de ris co do corpo físico salientando a importância de condições de segurança e alimentação durante a jornada de trabalho As pectos e peculiaridades que fogem a essa exposição corpotra 96 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO balho entretanto são pouco avaliados e exigidos facilitando a precariedade dos ambientes que não estejam associados di retamente ao local de ocupação como alojamentos e locais de descanso e lazer Outro aspecto importante é que no caso dos grandes deslocamentos de mão de obra masculina os trabalhadores fi cam isolados do grupo familiar por médios e até grandes perí odos de tempo já que as obras são distantes Isso impossibili ta o retorno ao lar em finais de semanas e feriados e por vezes até em férias Ademais os recursos necessários para manter visitas aos familiares em geral não compensam os ganhos do trabalho por isso estas não são feitas com regularidade A maioria dos trabalhadores portanto se mantém em alojamentos ou residências temporárias para homens segre gados de mulheres locais nos quais as características de com portamento de gênero se tornam mais arraigadas Os padrões da cultura masculina se exacerbam nesses ambientes não ape nas no espaço de trabalho mas também no de moradia São comuns valores ligados à força e à virilidade com demonstra ções de independência de potência sexual restrição a conta tos físicos afetivos e desvalorização da sensibilidade Vale ressaltar que esses padrões da cultura masculina que regulam práticas e comportamentos referemse a um modelo exterior patriarcal pois interiormente as necessidades desses trabalhadores de cuidado carinho afeto e complementari dade do universo feminino não desaparecem o que vai levar juntamente com a necessidade sexual à busca de parcerias lo cais quanto maior for o tempo de estadia Observase um afastamento desses homens de suas re des de proteção social originais e sociabilidade Além de se rem desconhecidos e recémchegados onde se instalam não possuem vínculos sociais portanto adotam comportamen tos distintos atípicos e por vezes mais soltos desinibidos e até inconsequentes se comparados aos comportamentos que Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 97 mantêm em sua região de origem Esse modo de agir menos comum e mais desprendido de controle social pode exacerbar situações como bebedeiras frequência à busca de prostitui ção envolvimento com violência tal como são verificadas em situações de turismo de massa envolvendo a população mas culina Figueiredo e McBritton 2006 e 2007 A esse contexto normalmente se soma a falta de previ são preparo ou interesse das empresas contratantes em an tecipar remediar eou evitar os efeitos negativos da migração de trabalhadores temporários na localidade onde se realizará a obra Isso inclui a ausência de ações de promoção da saúde sexual e reprodutiva junto aos empregados eou com os mo radores locais com quem esses trabalhadores passarão a ter contato Praticamente nenhuma empresa qualifica sua mão de obra para esse entrosamento deixando a forma como guia rão seu novo cotidiano à mercê de suas próprias formações e padrões culturais de comportamento A atenção do trabalhador se restringe a se oferecer como mão de obra trabalhar e ganhar quase sempre visando o en vio de dinheiro para sustentar a família que vive em outro lo cal A preocupação com o futuro por isso está mais ligada ao trabalho que irá desempenhar após o término da obra onde se empregará depois do que propriamente às condições locais que enfrenta no presente Nesse sentido quanto maior o pe ríodo da obra mais despreocupação futura e sensação irreal de amparo e estabilidade no emprego Por outro lado o poder público local não costuma aten tar para os efeitos sociais negativos que advirão dessa chegada numerosa de pessoas focando mais o aspecto de desenvolvi mento econômico tecnológico e de recursos e taxações ou até de destaque e visibilidade que a obra trará ao município Assim prefeituras e estados pouco avaliam e incluem nas dis cussões com as empresas que irão se instalar o dispêndio com a estruturação de uma rede social de proteção capaz de rece 98 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO ber os trabalhadores Há falta de percepção da necessidade de equipamentos de lazer e de contato social como necessários para essa mão de obra Ao contrário dessa postura é impor tante frisar que locais de lazer e recreação para o período de não serviço não são detalhes mas pontos fundamentais da condição desse tipo de emprego visto que a situação de traba lho implica necessariamente momentos de desfrute desses e revezamentos entre períodos de ócio e ocupação Além disso historicamente o poder público local tem se omitido na preparação de sua população para a chegada dos trabalhadores e os efeitos que esse evento poderá causar em suas vidas Quando pensamos em saúde sexual e reprodutiva esse despreparo fica mais evidente tendo em vista que temas como cuidado à saúde sexualidade e parcerias afetivosexuais são em geral atribuídos à vida privada e à responsabilidade individual das pessoas 3 Relações de gênero e afetivosexuais entre trabalhadores e moradores locais É nas classes mais desfavorecidas da população brasileira que o padrão de divisão sexual do trabalho é mais exacerba do ainda é a mulher a responsável pela maioria ou totalidade do trabalho doméstico e o homem aquele que tem o dever de prover a casa com recursos Isso é típico tanto em uniões nas quais as mulheres são donas de casa quanto naquelas em que elas têm empregos remunerados e nesse caso devem buscar ocupações que possam conciliar os dois papéis em uma dupla jornada de trabalhadora remunerada e dona de casa França e Schimansky 2009 Esse aspecto das relações de gênero está presente nos en contros estabelecidos entre os trabalhadores e as mulheres locais Em geral a mão de obra masculina que se instala por Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 99 grandes períodos em alojamentos ou moradias distantes da família perde o referencial de cuidado do espaço privado e de si alguns membros inclusive passam a se alimentar mal des cuidar da higiene da roupa utensílios de uso pessoal porque são afazeres que não costumam estar habituados a desempe nhar e que consideram das mulheres A falta das mulheres assim é sentida para as questões práticas de organização de si e do espaço de moradia Além disso a ausência das mulheres também é sentida para o contato afetivo e sexual como necessidade de recebi mento de carinho e prazer físico necessários para evitar a so lidão e alimentar os momentos de acolhimento e escuta que também permeiam as noites e os horários de folga desses tra balhadores Padrões de conversa entre homens colegas de tra balho e de alojamento são muito diferentes do acolhimento fornecido por parceiras já que nos códigos de conduta de am bientes masculinos em geral não há espaço para queixumes atenção individualizada e intensa Apesar de satisfazer sexualmente nem sempre os rela cionamentos pontuais e mercantilizados com profissionais do sexo promovem o contato acolhedor como se dá com parceiras afetivas Isso torna comum que esses trabalhadores busquem mulheres nas novas localidades onde estão para se relacionar também afetivamente Descrita superficialmente apenas como interesse sexual com o objetivo de usar a mu lher a busca de parceiras na comunidade de estada na verda de se amplia conforme o tempo dessa permanência fazendo a junção de duas necessidades a de disponibilidade e dese jo sexual e a da necessidade afetiva desses homens que estão sós e carentes e por conseguinte mais sensíveis a situações de apaixonamento É fato que trabalhadoresas do sexo se aproximam de comunidades receptoras de grandes obras e de trabalho tem porário masculino com a oportunidade de obter maior clien 100 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO tela ao mesmo tempo mulheres adultas e adolescentes da própria localidade também sentem atração e encantamento pelos recémchegados que representam novidade possibili dade de status e de estabilidade por terem registro em carteira serem de empresas muitas vezes renomadas e estarem sós e disponíveis Não é à toa que esse fenômeno se repete mas sas de homens desacompanhados não só para trabalho mas também para turismo e estudo aumentam a probabilidade de ocorrência de situações de envolvimento afetivo e sexual com moradoresas jovens das comunidades Santos e Figueiredo 2009 Belenzani 2012 Tais situações de encontro se dão em condições ainda típicas da população brasileira ou seja onde há falha de uso de métodos contraceptivos e preservativos pouca orientação e fornecimento destes às adolescentes e um padrão de cul tura masculina que não associa os comportamentos sexuais à preocupação de cuidado com a saúde ou com a gravidez e filhos Isso contribui para que ocorram gestações nascimen tos de crianças sem paternidade e DSTs incluindo a Aids As vulnerabilidades expressas no encontro trabalhadoresmo radores das comunidades anfitriãs refletem os problemas do sexo sem proteção oriundo de comportamentospadrão que ambos os grupos já adotavam porém agora potencializados por uma situação de crescimento populacional concentra ção geográfica e incremento da quantidade de sexo casual e descomprometido O aumento da prostituição observado em situações de chegada de mão de obra masculina não se refere apenas à quantidade maior de mulheres locais disponíveis para es tabelecer trocas sexuais em busca de status ou remuneração mas também à inclusão de profissionais do sexo que se deslo cam de outras localidades Tanto mulheres quanto travestis e transexuais ou gays que se prostituem veem oportunidade de mais ganhos com essa nova clientela independentemente Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 101 da idade que possuam Por isso em geral a exploração sexual de crianças e adolescentes cresce na mesma proporção que a prostituição em geral os profissionais do sexo e as famílias que são coniventes em relação à prostituição de filhos e filhas sabem que há possibilidade de os trabalhadores contratarem programas sexuais pagos uma vez que não estão à procura de parcerias fixas porque a maioria possui mulher e filhos em seus locais de origem Dessa forma relações sexuais mas também afetivas são inerentes ao deslocamento de homens desacompanhados por médios ou longos períodos em razão da impossibilidade de poderem trazer suas parceiras habituais A quase totalidade dessas novas relações será temporária enquanto durar o tra balho raríssimas terão continuidade geralmente ocorrendo quando envolvem homens mais jovens solteiros e sem parce ria fixa anterior Já situações que envolvem o deslocamento de trabalha dores junto com o grupo familiar e filhos reduzem essa pos sibilidade pois permitem a transferência para as localidades dos padrões de comportamento afetivosexuais anteriores aos quais esses homens estavam habituados como ocorrem nos modelos de construção de vilas operárias de trabalhadores tal como adotado na década de 1970 na construção da Usina Hi drelétrica de Itaipu em Foz do Iguaçu Jesus 2008 A falta de referências sociais e de vinculação com o novo grupo que comporão por um período de tempo também faci lita a adoção de comportamentos atípicos pelos trabalhado res Em razão da falta de familiares parceiros e filhos para es tabelecer o lazer ao qual estavam acostumados trabalhadores deslocados invariavelmente procuram mais profissionais do sexo do que o faziam anteriormente como também adotam formas de lazer que incluem o uso de álcool e outras drogas de forma mais intensa do que realizavam visto que são os comércios incluindo bares as únicas opções de socialização e 102 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO lazer disponíveis Isso aumenta o envolvimento em confusões violência verbal física sexual e de gênero 4 Projetos realizados em localidades que receberam trabalhadores Desde 2008 por meio de projetos do Cevam IngOng e Barong e com o apoio de órgãos públicos e da iniciativa pri vada foi possível atuar com homens trabalhadores braçais de várias empresas brasileiras para disponibilizar conteúdos e habilidades no que se refere à cidadania saúde e direitos se xuais e reprodutivos e ao autocuidado incluindo prevenção de DSTsHIV Aids Paralelamente também foram executa dos projetos envolvendo ações realizadas com as comunida des afetadas objetivando mitigar as vulnerabilidades sociais e os agravos em saúde sexual e reprodutiva e promover a cidadania 41 Ações com trabalhadores Em 2009 realizamos projeto de promoção de saúde sexu al e reprodutiva dirigido a trabalhadores de gasodutos e oleo dutos do interior e litoral paulista abrangendo os municípios de Suzano Mogi Mirim Mogi das Cruzes Caraguatatuba Taubaté e São José dos Campos Foram formados 14 grupos educativos envolvendo cerca de 200 trabalhadores homens que geraram oportunidade de aproximação com suas dificul dades relativas ao autocuidado condições de trabalho e de hi giene incentivandoos à adoção de cuidados no trato sexual e reprodutivo incluindo uso de preservativos e a prevenção de DSTsAids e da paternidade não planejada do câncer de prós tata e pênis Esse projeto além da sensibilização dos trabalha Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 103 dores propiciou a distribuição de mais de 20 mil cartilhas de prevenção de DSTsAids e a entrega de cerca de 80 mil preser vativos gratuitamente além da orientação dos trabalhadores e da população em geral à busca de serviços de saúde pública e realização de exames preventivos como a testagem para o HIVsífilis e hepatites B e C e o exame clínico de prevenção ao câncer de próstata Essa experiência motivou a ampliação de ações voltadas aos trabalhadores braçais e o desenvolvimento de materiais educativos específicos cartilha e DVD abordando os prin cipais temas de saúde que acometem homens utilizando lin guagem direta e masculina para divulgar a importância do cuidado com a saúde sexual e reprodutiva Figueiredo Mc Britton e Peixoto 2012 Assim projetos com homens foram estendidos e entre 2009 e 2013 foram desenvolvidos projetos de promoção à saúde sexual e reprodutiva e prevenção de DSTsAidshepa tites e tuberculose junto a caminhoneiros e mineradores da extração mineral do município de Niquelândia em Goiás Durante esse período foram distribuídos aproximadamen te 20 mil cartilhas de saúde do homem1 60 mil folhetos so bre testagem de HIV e sintomas de DSTs e 100 mil preser vativos masculinos A maioria desses materiais foi entregue diretamente à população em diferentes formatos e eventos programados em pontos estratégicos de acesso a esses traba lhadores em datas comemorativas como Dia Internacional do Homem Dia do Caminhoneiro Dia de Luta contra a Aids etc além da realização de festivais locais de cinema exibindo filmes temáticos sobre masculinidade saúde sexual sexuali dade HIVAids e uso abusivo de álcool e outras drogas Nes sas ações além dos trabalhadores houve envolvimento de 1 Para ter acesso à cartilha ver httpwwwyoublishercomp134551GuiadeSaude SexualeReprodutivadoHomemeOutrosCuidados 104 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO familiares e de equipamentos sociais públicos e do terceiro setor das comunidades de modo a facilitar a promoção da cidadania a busca de serviços públicos e o autocuidado em saúde Em 2012 foi possível confeccionar entrevistas com tra balhadores locais para a confecção do DVD educativo Cui dando deles Saúde sexual e reprodutiva do homem2 Esse curtametragem contém trechos de depoimentos recolhidos intercalados com ficção em que o personagem principal des taca aspectos da educação e cultura masculina que expõem o homem a situações de vulnerabilidade com relação ao cuida do com sua saúde e sexualidade Tanto a cartilha de saúde do homem quanto o DVD desenvolvido se mostraram de gran de sucesso entre o público de homens trabalhadores porque utilizam linguagem e situações típicas masculinas além de muito bom humor para promover a comunicação dos temas tratados 42 Ações voltadas à população local Entre 2008 e 2009 tivemos a oportunidade de realizar projetos de promoção de saúde sexual e reprodutiva redução de gravidez não planejada DSTsAids e vulnerabilidades lo cais junto a 16 comunidades localizadas nos municípios de Mariana e Ouro Preto em Minas Gerais e de Guarapari An chieta e Piúma no Espírito Santo A chegada de operários li gados à mineração havia acelerado o processo de crescimento de periferias e contribuído para o aumento da prostituição e dos casos de gravidez na adolescência e uso abusivo de álcool e outras drogas 2 Para ter acesso ao vídeo ver httpwwwbarongorgbrprojetossaudedohomem2 html Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 105 A partir de uma iniciativa conjunta envolvendo o setor privado o terceiro setor lideranças das comunidades e o po der público foi possível formar cinco turmas amplamente divulgadas para a capacitação de multiplicadores locais Es ses encontros abordaram os temas saúde e direitos sexuais e reprodutivos e prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas resultando na formação de 213 multiplicadores en volvimento de 101 instituições locais e 17 campanhas de pro moção da saúde sexual e reprodutiva na forma de eventos pontuais realizados em comemoração ao Dia Internacional de Luta contra a Aids Além dos multiplicadores formados os projetos também equiparam as comunidades participantes dos projetos com 12 malas de materiais educativos para abordagem da saúde sexu al e reprodutiva Estimase que por meio das ações aproxima damente 7500 pessoas das comunidades tenham sido benefi ciadas indiretamente sendo 2500 no Espírito Santo e 5 mil em Minas Gerais Além disso por meio dos multiplicadores formados foi possível ampliar a articulação local em torno do tema o que gerou aumento das ações de promoção da saúde e prevenção de agravos junto a moradores escolas associações comunitárias e pelo poder público IngOng e Cevam 2008 e 2009 5 Considerações finais Com base nas lições aprendidas com os projetos foi pos sível delinear um quadrosíntese apresentado a seguir con tendo as principais características do contexto do trabalho trabalhador temporário de grandes obras associadas às rela ções eou efeitos gerados nas comunidadesmoradores 106 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Características de contexto Relações e efeitos Maioria da população masculina trabalhadora formada por adultos jovens entre 18 a 45 anos Maior tempo e energia física e necessida de de busca de diversão e lazer Falta de equipamentos de lazer e cultura para entretenimento em mo mentos de folgadescanso Improviso de situações de lazer por meio de bares de pequeno porte que priorizam o consumo de bebidas de alto teor alcoó lico como pinga oferecendo poucas op ções de consumo aos trabalhadores Afastamento dos trabalhadores de suas redes de proteção social e fa miliar originais Ausência de vínculo social e anonimato facilitando comportamentos atípicos in cluindo maior busca de sexo casual e abu so de álcool e outras drogas Disponibilidade de homens traba lhadores com situação financeira estável Aumento dos casos de assédio a mulheres adolescentes gravidez não planejada violência sexual DSTs Legislação trabalhista que prioriza aspectos de saúde do trabalhador ligados a riscos físicos e de insalu bridade no local de trabalho Ausência de legislação que exija das em presas ações voltadas para o bemestar psicossocial dos trabalhadores nos perío dos de lazerdescanso Nossa experiência de trabalho mostra que é possível atuar em prol da promoção da saúde sexual e reprodutiva tanto di retamente com os próprios trabalhadores quanto com a co munidademoradores que os recebem durante a realização das obras Porém independentemente das ações específicas com os trabalhadores e com as comunidades toda a sociedade inclusive o poder público deveria encampar as orientações e considerações com relação à saúde do homem já incluídas no Programa Nacional de Saúde do Homem Ministério da Saú de 2008 e nas legislações de proteção e promoção à saúde do trabalhador elaboradas pelo Ministério do Trabalho Ministé rio da Saúde 2005 Também é importante que empresas envolvidas nas obras de infraestrutura se comprometam com a promoção da saúde Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 107 sexual e reprodutiva desde o início das obras evitando o que ocorreu no Rodoanel em São Paulo onde houve distribuição de preservativos aos trabalhadores de forma pontual e apenas tardiamente Castro e Brito 2011 Além disso é fundamental envolver e estimular o pro tagonismo da sociedade civil local como é observado com a atuação do Movimento de Mulheres de Altamira do Campo e da Cidade no Pará que tem feito proposições políticas com vistas ao funcionamento da Delegacia da Mulher no local e denúncias dos problemas associados às obras de Belo Monte Clam 2012 A sociedade civil organizada pode agir junto ao poder público para que ações visando à promoção da ci dadania das populações locais e dos direitos dos trabalhado res sejam implementadas incentivando empresas a se com prometerem e dividirem responsabilidades com o custeio da mitigação de vulnerabilidades associadas à saúde sexual e reprodutiva Poderes municipais têm importante papel em exigir essa participação e antecipar e acompanhar situações e ações que impactem a vulnerabilidade associada à presença desses trabalhadores masculinos vindos para instalação de gran des obras de infraestrutura Essas ações devem ser feitas em parceria com as empresas de preferência antes do início das obras e se possível ser regulamentadas localmente pelo po der legislativo A seguir a título de conclusão fazemos recomendações para mitigação de vulnerabilidades e promoção da saúde sexual e reprodutiva e proteção de direitos em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário mascu lino que podem ser adotadas a distribuir de forma permanente e gratuita preservativos masculinos para os trabalhadores e moradores das comu nidades desde início até o final da obra 108 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO b distribuir gratuitamente materiais educativos sobre pre venção de gravidez DSTsAids prostituição álcool e ou tras drogas para os trabalhadores e moradores das comu nidades c sensibilizar e orientar os trabalhadores antes ou logo nos primeiros meses das obras realizando orientações em en contros que abordem os temas promoção de cuidado em saúde sexual e sexualidade orientações de prevenção quan to à exploração sexual e abuso infantojuvenil promoção da contracepção e prevenção de gravidez e DSTs Aids e hepatite B prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas d estimular os profissionais dos serviços de saúde pública envolvendo a empresa a realizar ações de aconselhamento teste de gravidez testagem de HIV sífilis e hepatites enca minhamento de casos de DSTsAids nos alojamentos dos trabalhadores e estimular as secretarias de saúde a intensificar a orientação preventiva de contracepção e de uso de preservativos nas unidades básicas de saúde e junto às associações comunitá rias clubes ONGs e escolas f articular com as secretarias de educação para que as escolas da região discutam o tema da vinda de trabalhadores tem porários para o município com educandos de Ensino Fun damental II Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos EJA g articular com secretarias de assistência social e saúde e in tensificar a atuação em prol da prevenção de DSTsAids em locais e pontos de prostituição e compra e uso de álcool e drogas antes e até o final das obras h orientar a Polícia incluindo a Delegacia da Mulher e a Justiça local quanto à prioridade e à necessidade de ação imediata diante de situações de violência contra a mulher crianças e adolescentes Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 109 i exigir que empresas mantenham por até dois anos ao final das obras um cadastro com foto de trabalhadores com seus endereços e contatos de origem para que pais biológicos e sua localização possam ser identificados por mulheres que venham a ter filhos j preparar os Conselhos Tutelares Fóruns e Justiça local para que auxiliem mulheres a localizar e pedir apoio para a criação de filhos advindos de relacionamentos com traba lhadores temporários k exigir que empresas criem locais de lazer para os trabalha dores usufruírem nos momentos de folga espaço para fu tebol sala de jogos que possa ser usada à noite e finais de semana televisão cinema circo ou teatro entre outros l priorizar a adoção do formato de vilas operárias em obras de mais de 12 meses de modo a incentivar a vinda de famí lias nucleares em vez de trabalhadores sozinhos 6 Para saber mais Nesta seção indicamos alguns portais eletrônicos de or ganizações públicas e da sociedade civil e estudos contendo informações referências e materiais para o trabalho de pro moção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino Para obter informações sociodemográficas sobre as condições de vida da população masculina vale a pena visitar o portal eletrô nico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Ipea que disponibiliza dados dessa população segundo sexo ida de corraça focalizando a mobilidade social e o mercado de trabalho as diferenças de acesso na educação saúde habi tação etc wwwipeagovbr 110 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Para saber mais sobre saúde da população masculina e obter dados gerais consultar portal eletrônico do Ministério da Saúde sobre dados de morbidade ou mortalidade www datasusorgbr Sobre a incidência de DSTsAids o uso de álcool e outras drogas os padrões de morbimortalidade segundo sexo idade raçacor ou orien tação sexual conferir o portal eletrônico do Departamento de DSTAidsHepatites do Ministério da Saúde que mantém um conjunto de dados atualizados wwwaidsgovbr Para obter mais informações sobre direitos proteção da in fância combate à exploração sexual comercial o portal infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância Unicef traz informações além de abordar temas como HIVAids vio lência e políticas públicas Há materiais lúdicos para inte ratividade como histórias desenhos jogos testes vídeos enquetes etc wwwunicefkidsorgbr Para denúncias e serviços e informações sobre direitos da infância o portal da Agência de Notícias dos Direitos da Infância Andi que publica diariamente notícias sobre a popula ção infantojuvenil organiza fóruns de debates e enquetes sobre o tema além de fornecer contatos de serviço de de núncias de agressão contra crianças e adolescentes www andiorgbr Para conhecer exemplos de utilização de novos projetos e tecnolo gias de promoção da saúde sexual e reprodutiva o Instituto Cul tural Barong3 dispõe informações e materiais sobre projetos de promoção em saúde sexual e reprodutiva e prevenção de DSTsAids e abuso de álcool e outras drogas com diferen tes populações incluindo homens trabalhadores http wwwbarongorgbr 3 Entre as organizações não governamentais em que atuamos mencionadas no texto atualmente apenas o Barong mantém atividades concentrando a expertise dos projetos e materiais que foram realizados em parceria anteriormente Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 111 Por fim para o aprofundamento de conteúdos mencio nados neste texto vale a pena conferir os estudos de Laurenti Jorge e Gotlied 2005 Andrade e NóbregaTherrien 2005 Lyra Medrado e Lopes 2007 Martins Santos e Paiva 2009 e Almeida Santos e Paiva 2012 abordando respectivamente os temas masculinidades vulnerabilidades e agravos à saúde promoção de saúde sexual e reprodutiva do homem comuni dades anfitriãs de turismo e a promoção de direitos formação de multiplicadores em projetos de promoção da saúde Referências ACSELRAD H Ambientalização das lutas sociais o caso do movimento por justiça ambiental Estudos Avançados v 24 n 68 p 10119 2010 ALMEIDA A de C SANTOS A de O PAIVA V O incremento da parti cipação comunitária em pesquisas sociais a estratégia de trabalho com o agente local In PAIVA V PUPO L R SEFFNER F Org Vulnerabilidade e direitos humanos Prevenção e promoção da saúde pluralidade de vozes e ino vação de práticas Curitiba Juruá 2012 v III p 253268 ANDRADE L NÓBREGATHERRIEN S M A sexualidade masculina e a vulnerabilidade ao HIV DST jornal brasileiro de doenças sexualmente transmissíveis v 17 n 2 p 121126 2005 BELENZANI R Saúde e direitos vulnerabilidades à saúde sexual juvenil em comunidades litorâneas brasileiras Psicologia Saúde Doenças v 13 p 459479 2012 CASTRO C M de BRITO A Obras do rodoanel deixam órfãos na região do ABC Folha de SPaulo São Paulo 24 jul 2011 Caderno Cotidiano Dispo nível em httpwww1folhauolcombrfspcotidianff2407201101htm CENTRO LATINO EM SEXUALIDADE E DIREITOS HUMANOS CLAM Feminismo e sustentabilidade Rio de Janeiro 12 set 2012 Disponível em httpwwwclamorgbrnoticiasclamconteudoaspcod9818 112 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO DIÁRIO DE PERNAMBUCO Série Filhos de Suape Caderno Vida Ur bana Recife 813 maio 2011 Disponível em httpwwwslidesharenet jairoblimafilhosdesuape FIGUEIREDO R MCBRITTON M Cultura de turismo e população li torânea contatos afetivosexuais de verão Boletim do Instituto de Saúde São Paulo n 41 abr 2007 Relato de pesquisa e proposta de intervenção comportamento sexual reprodutivo e uso de álcool pelos jovens no carnaval São Paulo Instituto Cultural Barong 2006 Disponível em httpwwwbarongorg brphpATMindexphpPHPSESSIDbd6e0ecb9b4494381cf318bb20f82 63bdirection0ordernomdirectoryBARONG PEIXOTO M Promoção de saúde integral e abordagem de gênero como estratégia de ação em saúde sexual e reprodutiva de ho mens heterossexuais Bis boletim do Instituto de Saúde São Paulo v 14 n 1 p 6572 2012 FRANÇA A E SCHIMANSKY É Mulher trabalho e família uma análise sobre a dupla jornada feminina e seus reflexos no âmbito familiar Eman cipação v 9 n 1 p 6578 2009 Disponível em httpeventosuepgbr ojs2indexphpemancipacaoarticleviewArticle687 INSTITUTO INGONG DE PLANEJAMENTO SOCIOAMBIENTAL INGONG CENTRO VERGUEIRO DE ATENÇÃO À MULHER CE VAM Relatório do projeto Despertar para a Vida São Paulo IngOngCEVAM 2008 30 p Relatório do projeto Despertar para a Vida São Paulo IngOng CEVAM 2009 44 p JESUS R P Aspectos da constituição urbana de Foz do Iguaçu experiên cia dos moradores do bairro Vila C 19762006 In III SIMPÓSIO LUTAS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA TRABALHADOREAS EM MOVIMEN TO CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO PROLETARIADO Anais Londri na 2426 set 2008 Disponível em httpwwwuelbrgrupopesquisa gepalterceirosimposiorodrigopaulopdf Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 113 LAURENTI R JORGE M H P M GOTLIED S L D Perfil epidemioló gico da morbimortalidade masculina Ciência e Saúde Coletiva Rio de Janei ro v 10 n 1 p 3546 2005 LYRA J MEDRADO B LOPES F Homens também cuidam Diálogos so bre direitos saúde sexual e reprodutiva paternidade e relações de cuidado Recife Fundo de População das Nações Unidas UNFPAInstituto PAPAI 2007 MARTINS A B M SANTOS A de O PAIVA V Promovendo direitos de mulheres crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo do Vale do Ribeira São Paulo Ministério do TurismoInstituto IngOng de Plane jamento Socioambiental 2009 Disponível em httpwwwturismogov brexportsitesdefaultturismoprogramasacoesprogramasustenta velinfanciadownloadstsiPromovendoosDireitosdemulherese crianxasINGONGpdf MINISTÉRIO DA SAÚDE Caderno de legislação em saúde do trabalhador Bra sília 2005 Série E Legislação de Saúde Disponível em httpbvsms saudegovbrbvspublicacoescadernolegislacaost1pdf Política nacional de atenção integral à saúde do homem Brasília 2008 Disponível em httpdtr2001saudegovbrsasPORTARIASPort2008 PT09CONSpdf OLIVEIRA A da C PINHO V de A Coord Relatório final do diagnóstico rápido participativo complementar enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes no município de Altamira PA Altamira UFPA Fundação TocaiaSociArte Brasília Secretaria de Direitos Humanos 2014 SANTOS A de O dos FIGUEIREDO R Agravos à saúde e relacionamen tos afetivos sexuais em comunidades anfitriãs de turismo In SANTOS M MENEZES J de RIOS L F Org Violência sexual contra crianças e ado lescentes reflexões sobre condutas posicionamentos e práticas de enfrenta mento EdUFPE 2009 p 6074 PAIVA V Vulnerabilidade ao HIV turismo e uso de álcool e ou tras drogas Revista de Saúde Pública São Paulo v 41 supl 2 p 8086 2007 114 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO TALENTO A Belo Monte leva índios à prostituição diz pesquisa Folha de SPaulo São Paulo 8 jun 2014a Caderno Cotidiano Disponível em httpwww1folhauolcombrcotidiano2014061466790belomonte levaindiosaprostituicaodizpesquisashtml Operários de Belo Monte pagam sexo com valealimentação Folha de SPaulo São Paulo 13 jun 2014b Caderno Cotidiano Disponível em httpwww1folhauolcombrcotidiano2014061469550operariosde belomontepagamsexocomvalealimentacaoshtml DESAFIOS PARA PESQUISA INTERVENÇÃOPESQUISA Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca inícios afetos normas e prazeres Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião1 Neste capítulo trazemos nossa experiência e nossas in quietações surgidas a partir dos diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca em Pernambuco surgidos dentro de um trabalho dissertativo Shuña 2014 cuja abordagem teóricometodológica feminis ta pósestrutural Piscitelli 2004 Haraway 2009 Butler 2012 embasou a realização de uma pesquisaintervençãopesqui sa Adrião 2014 As rodas de conversa Nascimento e Silva 2009 foram o instrumento de intervenção e o espaço propício no qual asos jovens sentiamse à vontade para dialogar de bater e posicionarse sobre sua sexualidade No contexto das rodas de conversa a participação se deu tendo como mote 70 questionários aplicados em 37 mulheres e 33 homens jovens estudantes de ensino médio moradores de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca2 durante o Curso de Mídias Móveis em julho 20123 1 Karla Galvão Adrião contou com apoio da CAPES por meio de uma bolsa pós douto ral para a produção desse texto 2 Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca são municípios que têm sofrido grandes mudan ças populacionais sociais e econômicas em razão do desenvolvimento do Complexo de Suape por grandes empresas como a Petrobras e pela chegada de milhares de homens trabalhadores na zona 3 Esse curso tinha como objetivo capacitar um grupo de jovens para a produção de roteiros audiovisuais captação de imagens e edição de vídeos Tal capacitação foi planejada como ferramenta de diálogo e de debate sobre temas relacionados com os direitos da criança e do adolescente a saúde sexual e reprodutiva o uso abusivo de álcool e outras drogas e o Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 117 As rodas de conversa contaram com 14 participantes sendo nove mulheres e cinco homens estudantes do 3o ano do ensino médio4 que também tinham participado do Curso de Mídias Moveis e foram convidadasos a participar na cons trução de questionamentos e reflexões surgidas a partir dos resultados dos debates em torno dos resultados dos questio nários supracitados relacionados com os debates no campo da sexualidade e as práticas sexuais e direitos sexuais e repro dutivos dasos jovens participantes Os diálogos apresentados no capítulo estão organizados em duas temáticas sendo a primeira sobre o início da vida sexual e dos prazeres e a segunda sobre o namoro e outros vínculos afetivosexuais Buscamos compreendêlas a partir do diálogo entre as experiências trazidas por nossasos inter locutores e as produções relacionadas com esses temas 1 A primeira transa e os primeiros prazeres Pensar que asos jovens têm uma vida sexual visível ou clandestina é ainda difícil de assimilar pela família pela es cola e mais ainda pela Igreja cristã Nessas instituições que conformam circuitos desintegrados Haraway 2009 Qua dros Adrião e Xavier 2011 a sexualidade é vedada para aqueles que estão na idade de somente estudar e não de ter safadezas Queiroz 2013 Assim elases são obrigadasos a acreditar nas etapas da vida que cria uma idade certa enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos entre outros temas de relevân cia social abordados pelo Ação Juvenil uma das sete ações do projeto Diálogos Suape 4 Esses encontros foram desenvolvidos entre os meses de maio e dezembro de 2013 uma vez por semana considerando os recessos e períodos de férias próprios do calen dário acadêmico Os encontros estiveram registrados nos diários de campo e gravados com duas filmadoras arquivos que permitiram fazer as reflexões apresentadas neste capítulo 118 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA para tudo inclusive para saber para ouvir e para ter relações sexuais Tal como Mariana 17 anos indica Eu acho que se você ouve dessas coisas e tal fala sobre isso aí o moço vai entender como algo normal E aí você vai agir como se fosse nada né Mas se você cresce e você raramente ouve falar sobre isso aí quando você vê um vídeo e já tem uns 17 anos aí vai ser mais difícil de você ter esse tipo de relação Mas como você cresce ouvindo o tempo todo E todo mundo fala e você vê Aí é bem mais chance de acontecer Mariana 17 anos Falar de sexualidade como algo normal diz nossa in terlocutora pode incitar a relações sexuais mais cedo como se não existissem práticas sexuais independentes de se falar delas ou não e certamente em idades muito mais prematu ras das esperadas pelo mundo adulto Encontramos que 51 14 mulheres e 27 homens dasos jovens que responderam ao questionário durante o Curso de Mídias Moveis já tinham transado sendo as idades de 14 e 15 anos as mais referidas idades também encontradas em outros estudos relacionados com esse tema Castro Abramovay e Silva 2004 Paiva et al 2008 Mas contraditório a essas práticas chamanos a atenção que 70 22 mulheres e 27 homens de jovens que responde ram ao mencionado questionário ainda acreditem em uma idade ideal para que as meninas tenham a primeira transa sendo as idades de 17 e 18 anos as mais informadas Diferente do almejado para os homens em que 60 24 mulheres e 18 homens de jovens manifestaram que não existe essa tal ida de ideal dados esses que mostram portanto expectativas e desigualdades de gênero Observações que foram foco de dis cussão nas rodas de conversa Aqui alguns diálogos a respeito É porque a sociedade já é um padrão né acha que o homem tem que ser mais solto que a mulher Lucas 17 anos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 119 Ele já falou tudo é cultural Kelly 17 anos A gente aprende isso Mariana 17 anos Nas palavras dasos jovens participantes é na sociedade e na cultura que elases vão aprendendo um padrão específico de ser mulher e de ser homem roteiros sexuais aprendidos muitas vezes antes de ter a primeira transa Gagnon 2006 formas coercitivas de gênero característicassintomas de viver a sexualidade e seus prazeres O que também observamos na fala de Kelly quando se refere à masturbação eu acho que não era para ter esse negócio de masturbação não Porque eu acho que a relação é a dois eu acho que para homem ainda vale Mas para mulher eu acho que não combina muito não como se a mulher não tivesse desejos sexuais sem neces sariamente estar acompanhada ou não Mariana aponta isso como um preconceito tão interiorizado que reprime muitas vezes os desejos das mulheres as meninas mesmas suben tendem isso né a gente entende que menino pode mais Inclusive elas podem até querer fazer mas elas não fazem porque têm esse preconceito Desse modo ainda é uma surpresa o fato de que a mulher possa ter e sentir desejos e prazeres sexuais mesmo na primeira relação sexual Vejamos a seguinte conversa Eu tinha 16 anos quando teve relações sexuais Kelly 17 anos estudante qual foi tua sensação quando tu Kelly praticaste o sexo Aldo 16 anos Rapaz eu gostei visse Kelly 17 anos Aldo fica surpreso com a resposta de Kelly Pensou que ia surpreender ela Kelly e não conseguiu Ruan5 entrevistador 5 Ruan e José Mario estagiários da Ação Juvenil apoiaram a realização das rodas de conversa 120 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA A reação de Aldo nos permite discutir sobre a tradição patriarcal que instaura essa dupla moral sexual no imaginá rio de homens e mulheres colocandoos em lugares opostos O homem é exigido ser o comedor e reprodutor e a mulher inferior e sujeita aos prazeres dele o que contribuiu para legitimar e reforçar a ordem aparentemente natural da hierar quia de gênero Parker 1991 p 58 Essa situação é denunciada há anos por feministas como Simone de Beauvoir 1980 que com seu manifesto Nin guém nasce mulher tornase mulher acusa o lugar que ocu pa a mulher em uma sociedade patriarcal e capitalista bases para manter um sistema heterossexual compulsório a ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais Butler 2012 ordem que busca controlar a sexualidade e os prazeres das jovens mu lheres negando na prática seus direitos o que estudos como os de Marion Teodósio Quadros Karla Galvão Adrião e Ana Karina Xavier 2011 p 88 também afirmam Embora existam regulamentações e leis no sentido de garantir o direito a cuidados de atenção nos espaços privados e públi cos os mesmos ainda perpetuam uma lógica que nega a exis tência de desejo e sexualidade de mulheres solteiras sobretudo das jovens Assim apesar dos ganhos obtidos pelas lutas dos mo vimentos feministas e de outros movimentos sociais como os grupos LGBT pelo reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos ainda impera a heteronorma que reproduz e afirma desigualdades dentro dos circuitos desintegrados como a casa a escola os centros de saúde e a Igreja cristã Rios et al 2008 A Igreja cristã tem participação significativa na sexuali dade dasos jovens que é trazida à tona nos discursos de Ma riana 17 anos e Eduarda 17 anos Elas que asseguram não Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 121 terem transado ainda insistiram em seus depoimentos que o certo é ter sexo só depois do casamento Na Igreja evangélica a gente pensa nessa coisa de fazer sexo só depois do casamento mas tem gente que não vai pela Igreja não Sabe Faz o que quer Mas eu vou pela Igreja Eduar da 17 anos É pecado Eu acho que mesmo se casar amanhã e fazer sexo hoje tá errado Mariana 17 anos Quando você é crente o jovem que casa muito cedo é porque já quer transar Isabela 17 anos A religião cristã convertese em um mecanismo de contro le das práticas sexuais de seus fiéis e com a criação do pecado e especificamente dos pecados da carne implanta nas cons ciências de seus adeptos a culpa o arrependimento do peca dor os quais procuram nas orações confissões o perdão por ter transgredido as regras Rios et al 2008 Foucault 2012 Contudo as mulheres jovens vão subvertendo em suas práticas sexuais esses parâmetros instaurados na Igreja cristã e nos demais circuitos que tentam instaurar mecanismos de repressão como escutamos de nossos interlocutores Eu acho que isso é uma coisa normal para quem saber usar né Paloma 17 anos Lá perto de casa com 12 anos 12 anos Já não é mais virgem a maioria das meninas Aldo 16 anos Mas você chegar e perguntar a uma menina de 23 anos se é vir gem E ela dizer sim Meu Deus do céu Eu acho que isso vai ser motivo de mangação Paloma 17 anos Assim o sexo como menciona Gayle Rubin 2003 é sempre político As práticas sexuais e eróticas são formas de responder às políticas de desigualdades em que muitas re cebem sustento de discursos científicos questionáveis que intentam negar ou adiar o início da vida sexual das jovens 122 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Nessa linha encontramos pesquisas que ressaltam ne gativamente o fato de que as mulheres estejam iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo e em idades mais próximas às idades dos homens isso as torna mais vulneráveis a DSTs HIV a uma gestação não planejada eou ao aborto Taquette e Vilhena 2008 Mas será que o problema é o iniciar cedo Ou que não exista mais diferença entre as práticas sexuais de jovens mu lheres e a de jovens homens Ou é não ter acesso a seus di reitos sexuais e reprodutivos não ter facilidades para saber e obter métodos contraceptivos e de proteção o que os torna elas e eles vulneráveis Parece ser que é mais fácil negar a se xualidade das e também dos jovens que observar a efetividade de políticas de acesso a educação sexual e cuidados em saúde sexual e reprodutiva Além das desigualdades com que essas políticas são executadas A esse respeito nossasos interlocutorases manifestam a necessidade de receber informação na escola sobre como usar a camisinha Na escola deve ter uma foto para entender isso Aldo 16 anos Uma aula Mariana 17 anos A forma como evitar engravidar e mais Porque muitas pesso as não sabem Aí na hora de praticar vai sem saber como colocar aí a camisinha estoura E tudo mais Aldo 17 anos Diante dessa carência de informação na escola nem todasos asos jovens procuram outros meios ou têm o cos tume de procurar os serviços de saúde para esclarecer dúvidas sobre sua sexualidade Paiva et al 2008 Às vezes por desco nhecimento desses serviços como vemos na fala de Mariana 17 anos não é que uma pessoa chegue lá e peça isso ou por entraves que apresenta o próprio serviço Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 123 Assim as práticas sexuais e reprodutivas dasos jovens não são assimiladas com tranquilidade e respeito a seus di reitos e sim cobradas em maior medida às mulheres que aos homens E se elas confirmarem publicamente sua atividade sexual podem ser vítimas de críticas morais e inclusive violên cia como observamos na seguinte conversa Os pais dela souberam que já transo Que poderia acontecer Rocio entrevistadora Eles a matariam Lara 17 anos Poderia ser expulsa de casa Luana 17 anos Botavam eles pra se casar Isabela 17 anos No primeiro momento seria um espanto mas depois levar uma surra na menina não adianta nada né Não vai voltar o lacre virgindade né Lucas 17 anos Dessa forma a mulher é punida por ter perdido o lacre a virgindade ter perdido o sinal de sua pureza diante dos perigos do sexo Ela é até maltratada por transgredir a norma de abstinência e revelar que é sujeito sexuado com uma car reira sexual em curso Heilborn 1999 Por isso em um quo tidiano marcado por desigualdades muitas vezes até naturali zadas elas apresentam maiores dificuldades para acessar seus direitos sexuais e reprodutivos e procurar serviços de saúde Entretanto quais práticas sexuais são essas que asos jo vens indicam como marcando o início de sua vida sexual Ou se de fato é o sexo com penetração que marca o início da vida sexual delases como algumas pesquisas pressupõem Villela e Doreto 2006 Para responder a esse quesito trazemos algu mas respostas de nossasos interlocutorases Eu acho que quando tem uma relação sexual Tem o sexo oral sexo anal eou normal que é a vagina Aldo 16 anos eu tenho um amiga que é virgem da frente e de atrás não é Ela é meio virgem Kelly 17 anos 124 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Mas se for só pela frente Nunca por atrás Ruan entrevistador Nem existe esse negócio de meio virgem pra falar o verda deiro eu acho que não é mais Kelly 17 anos Uma pessoa masturba a outra Isso é considerado sexo Ruan entrevistador É Se for pra mim é homem com mulher né beijo amasso6 também Aldo 16 anos Aquele chameguinho Kelly 17 anos Em tais diálogos observamos que as práticas sexuais que definem o início da vida sexual dao jovem estão atreladas a aprendizados do que é considerado normal e à virgindade atribuindo diferentes conotações e hierarquias a esse início Isso convida a organizálo em três categorias a primeira com o ato sexual de penetração sendo o sexo vaginal o normal e responsável pela perda completa da virgindade e o sexo anal ou forma antihigiênica de ter sexo que mantém a pessoa meio virgem como Kelly mencionou pois sua amiga tinha iniciado a vida sexual praticando só sexo anal e ainda manti nha pela frente parte de sua virgindade De outro lado ao considerar que o normal é o sexo vaginal desconsideramse ou desapreciamse outros estilos outros exercícios sexuais de lésbicas travestis gays entre outros inclusive de heterossexu ais que subvertem em seus lençóis a própria heteronorma Na segunda categoria temos o sexo oral considerado uma prática sexual diferente sendo sua virgindade duvido sa Pensar em bocagenital pode ser ofensivo para algumas pessoas daí a procura de acordos Já a terceira categoria reúne as práticas sexuais que não disputam a virgindade e que não implicam a penetração de genitais como as carícias os beijos a masturbação comparti 6 Amasso é um termo êmico que no grupo significa quando duas pessoas ficam juntas e naquele momento muitas coisas podem acontecer além de beijos carícias abraços e às vezes até contatos sexuais definição dada por Luana e Eduarda Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 125 lhada o amasso o chamego7 e outras ainda não ouvidas ou não nomeadas O início da vida sexual para nossasos participantes acontece em parceria daí que a prática da masturbação feita de maneira solitária não é considerada marcador dessa experi ência Esta é mais aceita como exercício sexual mais de meni nos que de meninas que têm ainda muito preconceito sobre isso pois elas acham que o ato sexual deve conter tudo isso não precisando se masturbar como forma de conhecer seus prazeres Além de ser proibido pela religião cristã Outro ponto importante a mencionar é como o desen volvimento corporal associado à idade serve para muitasos jovens como indicador para que as mulheres sejam considera das aptas para iniciar sua sexualidade Observemos algumas conversas Tem a ver também pelo corpo Tem a ver com o corpo também Aldo indicando a Eduarda Ela não tem seios não aparecem muitos seios ainda entendeu Aldo 16 anos tipo deixar o corpo crescer amadurecer mais muito pron to também prejudica pode deixar com deformações no corpo Roberta 18 anos Desse modo o corpo e suas estruturas anatômicas são carregados de significados que no cotidiano sexual dao jo vem estão atrelados à maturidade corpórea à maior idade do sujeito Ser considerado mais velho em um contexto adul tocêntrico e desenvolvimentista parece ser uma saída para conseguir certas liberdades mobilidades e reconhecimento de direitos de prazeres e da sexualidade Daí que crianças Quei roz 2013 e jovens que ainda não alcançam esse status de maior idade são quase obrigados a mobilizar certas estratégias para 7 Chamego é uma demonstração de afeto que inclui abraços e beijos É ficar grudadi nho nao parceirao definição dada por Luana 126 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA apresentar uma performance de maior idade e procurar espaços na clandestinidade para exercer suas práticas sexuais fora dos olhos do mundo adulto 2 Namorar quem tem direito Lucas 17 anos compartilhou em um encontro conosco que tinha começado a namorar sério e que esteve disposto a apresentarse aos pais da namorada mas ela não quis Ela ti nha temor de falar com os pais e preferia cumprir os 18 anos ou seja ser considerada de maior idade para conversar sobre isso com eles Assim eles mantêm um relacionamento ilegal fora dos olhos da família Com esse relato abrimos o debate sobre quem está permitido namorar Que significados tem para eles namorar E em que condições as relações afetivo sexuais se desenvolvem Lucas entende por que sua namorada prefere se calar ele já tinha afirmado que a sociedade exige da mulher ser mais reservada e se guardar dos prazeres da sexualidade reafirman do assim as desigualdades de gênero e por conseguinte a heteronorma E se alguma jovem mulher tem certas liberdades de na morar essa união tem de reunir certas características Como experiência trazemos o depoimento de Isabela que nos conta incomodada sobre as exigências que sua mãe tem sobre o fu turo genro Tem que ser alguém da religião ela quer fazer o relatório todinho se ele trabalha se estuda de que religião ele é quantos anos ele tem quem são os pais Exemplo que demonstra como a família e a religião são circuitos que se integram para intervir na escolhaimposição de um parcei ro Instituições que ditam regras para manter o patriarcado a heteronorma em que a mulher é assujeitada a seguir esse destino heterossexual E não somente elas também os grupos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 127 LGBT são obrigados a esconder seus vínculos afetivosexuais para que a ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais não se veja quebrantada Entretanto os homens também são afetados pela ló gica heterossexista pois precisam demonstrar na sexualidade sua masculinidade Como diz Isabela Tenho um colega que o pai levou ele pra iniciarse num cabaré Eu acho que o homem também sofre preconceito pelo fato de ser obriga do a ter relações sexuais com uma mulher O que confir ma que a heterossexualidade ainda se vende como a forma mais natural de viver a sexualidade Como indica Welzer Lang 2001 p 468 De fato o duplo paradigma naturalista que define por um lado a superioridade masculina sobre as mulheres e por outro lado normatiza o que deve ser a sexualidade masculina produz uma norma política androheterocentrada e homofóbica que nos diz o que deve ser o verdadeiro homem o homem normal Este homem viril na apresentação pessoal e em suas práticas logo não afeminado ativo dominante pode aspirar a privilé gios do gênero Os outros ao grupo dos dominadasos que compreendem mulheres crianças e qualquer pessoa que não seja um homem normal grifo nosso A escola como o lugar de maior socialização dasos jovens também participa lamentavelmente da manutenção desse sistema heterossexista Vejamos a respeito alguns depoimentos Em minha escola já teve um caso parecido Só que com me ninas elas estavam começando a alisar aí uma colega veio e gravou pegou o vídeo e espalhou por toda a escola e os colegas da sala começaram a encher o saco delas a puxar as cadeiras tratando mal sabe Aí elas saíram da escola Aí depois delas teve outro caso dos meninos que estavam se beijando no cor redor da sala aí os meninos da escola começaram a xingar 128 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA insultar a cara deles Eduarda 17 anos Uma vez encontraram dois amigos meus se beijando cha maram seus pais ao conselho tutelar no final os dois saíram da escola Lucas 17 anos Para asos própriasos alunasos ver casais homosse xuais convertese em algo raro esquisito que precisa ser repri mido e punido de alguma forma Daí que alguns jovens LGBT criaram estratégias para ocultar sua sexualidade aos olhos de seus colegas da escola Destarte a falta de educação sexual efetiva na escola em especial em temas relacionados com o gênero converte esse espaço em reprodutor de desigualdades e discriminações como Neil Almeida 2011 p 16 diz A homofobia permane ce marcando de diferentes maneiras o cotidiano escolar nas relações estabelecidas entre todasos que ali estão alunasos e docentes Tanto assim que parece que professorases e alunasos são tacitamente heterossexuais E se alguma cole ga se atreve a manifestar o contrário é rapidamente repelidoa assim como manifestam nossasos interlocutorases eu acho que deve ter coragem né Aline 17 anos Se ele quer se assumir que assuma né Eu fico na minha Mi chael 19 anos Eu não tenho problema nenhum se você é de Umbanda Evan gélica Mas eu acho que é pelo homossexualismo porque a pessoa pensa eu não vou andar com homossexual porque vão dizer que eu sou Lucas 17 anos Como observamos nas conversas uma pessoa que deseje reconhecerse homossexual perante a sociedade necessita ter força para conseguir afrontar a sobrecarga de discriminações e abandonos dos quais será alvo inclusive daquelases que são mais próximasos como asos amigasos grupo afetivo considerado importante na vida das pessoas além da família Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 129 Assim ter uma amigoa homossexual pode provocar ten sões e dúvidas diante dos outros sobre sua masculinidade ou feminilidade constrangimento que muitos preferem evi tar No entanto é preciso dizer que algumasns de nossasos interlocutorases não estiveram de acordo com o dito pelos colegas Elases afirmaram que apoiariam suaseu amigao para que assumissem sua sexualidade Nas palavras de Carlos 17 anos Eu chegaria a falar do assunto com ela ou ele certo que tu gosta dela ou dele Massa Felipe Rios 2009 ressalta que a maioria de marginaliza ções e exclusões sofridas por pessoas homossexuais provém do grupo de amigos vizinhos e do próprio ambiente da esco la ou da faculdade o que põe em evidência a violência insti tucional que sofrem essas pessoas em lugares que possuem aparentemente a missão de promover a cidadania e os direi tos Para o autor é preciso que asos educadorases fiquem atentasos a seu papel no campo de saberes poderes e desejos sobre a sexualidade e o gênero tanto no que se refere ao con teúdo curricular quanto nas demandas do cotidiano escolar que determinam o que é inteligível ou não Daí a importância de se desconstruírem essas naturalizações Contudo nas relações afetivosexuais não só as des igualdades de gênero são as que atuam como marcadores so ciais que respondem quem pode ou não ter direito a namorar Também as tensões relacionadas com a raça eou a classe so cial intervêm na formação ou na manutenção de um casal A esse respeito nossasos interlocutorases nos trazem algumas de suas experiências Mas assim é muito difícil um homem pobre namorar uma mulher rica Rocio entrevistadora Os pais não iriam aceitar um homem pobre mas quando é uma menina é mais clássico Michael 19 anos E também se pode levar este negócio para a profissão O homem por exemplo se sente um pouco retraído ao namorar 130 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA uma juíza é tanto pelo preconceito não sei lá pela sociedade né A ideia da sociedade que a mulher tem que ser menor do que o homem Isabela 17 anos E alguma vez vocês presenciaram algum problema com respei to à cor Rocio entrevistadora Sim Eu vou contar de minha prima ela namorava mas agora já tá casada né Mas ela esteve namorando com um rapaz bem moreninho negro e a família dela não queria porque era bem clássico fazendo referência à cor entendeu por causa da pobreza dele também Kelly 17 anos Mas se ele fosse de uma classe social melhor eles aceitariam José Mario entrevistador Eu acho que a família iria aceitar mas não por causa da cor dele e sim porque ele tinha e ela não entendeu Kelly 17 anos A classe social proveniente do desenvolvimento econômi co e profissional parece ser mais atrativa e importante para que o casal receba a aprovação familiar No entanto esperase também que o homem e não a mulher seja quem demonstre as melhores condições sociais e econômicas características de sua masculinidade para levar adiante o namoro eou casa mento algo próprio do amor romântico o que reforça hie rarquias sociais entre gênero raça e classe Segundo Márcio Mucedula Aguiar 2007 a raça atrela da à cor configura uma construção social que guarda certo significado simbólico para pensar as diferenças e a estrutura de classes Por isso a diferença entre elas é muito tênue No Brasil por exemplo esperase que as pessoas afrodescenden tes se encontrem em camadas mais pobres por seu passado escravista a que foram expostas como se a pobreza tivesse a cor negra Algo que também observamos na fala de Kelly ela evita mencionar a raça negra usando palavras como bem moreninho para embranquecer essa raça Entendo que a simples menção à raça pode resultar em algo pejo rativo e remarcar a posição do sujeito subalterno Spivak 2010 Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 131 E nesse cenário de desigualdades é que asos jovens se relacionam e formam vínculos afetivosexuais como mencio nam nossasos interlocutorases Ninguém é feliz sozinho né Todo mundo precisa é contar conversar com sei lá Uma pessoa que tenha as mesmas ideias que você né Mariana 17 anos Vocês todos aqui já namoraram Ruan entrevistador Só ficar namoro sério não Luana 17 anos O que é sério Ruan entrevistador É você se comprometer e ter a intenção de formar uma família Mariana 17 anos Eu acho que depende se uma pessoa gostar e não rolar gaia traição aí pode sim é curtir É ir às festas praticar outras coisas hahaha Ir ao cinema ir à casa dela O pra zer Para mim é essencial o prazer Aldo 16 anos A descrição do namoro como a busca da felicidade por meio de um relacionamento de encontrar uma pessoa certa de um compromisso sério da confiança mútua de objetivos em comum de formar uma família engatado a momentos de curtição e de prazer remetenos a pensar que mesmo com os avanços tecnológicos a globalização e a flutuação nas relações contemporâneas asos jovens ainda mantêm na ideia de na moro certas expectativas do amor romântico Tatiana Meirelles 2011 destaca que a expressão namo ro sério é referida ainda hoje como um tipo de relaciona mento amoroso que se preocupa em manter a fidelidade e a durabilidade além de requerer no caso das jovens a autoriza ção e o reconhecimento pelo paimãe embora a não aceitação dos pais ou a não solicitação da permissão não signifique o fim do namoro como a experiência de Lucas e sua namorada que mencionamos no início desse tema Para Parker 1991 são os sistemas de sexualidade e gêne ro que articulam claramente repertórios de práticas sexuais 132 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA em que algumas são definidas como aceitáveis e outras como proibidas o que dificulta que asos jovens tenham uma vida sexual responsável por causa do pouco apoio social e logísti co que recebem para essa prática Esse contexto leva muitos jovens a transgredir os limites para vivenciar outras possibi lidades sexuais sentidas como algo erótico e excitante abrin do outras formas de reinterpretação da vida sexual e também outras possibilidades de prazer Desse modo surgiram na ilegalidade outros tipos de vínculos afetivosexuais para que ao jovem desfrute de sua sexualidade Nossasos participantes descreveram três mo dalidades a primeira o ficar em que pode rolar desde um beijo um amasso até a transa em si com alguma pessoa des conhecida ou não O que caracteriza esse tipo de vínculo é seu caráter passageiro embora alguns possam passar de fican tes ocasionais a fixos até namoro sério O ficar também foi uma saída para que as jovens pu dessem viver sua sexualidade com certa tranquilidade na medida em que ao praticálo escondido da família não ti nham de dar satisfações a ninguém quando o vínculo amo roso acabasse Diógenes 2007 Embora se espere que a mu lher fique com menos frequência que o homem porque pode ser mal vista Eu acho isso feio diz Paloma 17 anos ao referirse à mulher que fica com um e outro diferente mente de Aldo 16 anos que diz é bom pegar um e ou tro Assim o ficar parece também ser um comportamen to que advém de velhos preconceitos apresentando uma hierarquização de valores que dividem as mulheres boas para namorar e casar daquelas só boas para ficar Nasci mento 2009 Amizade colorida foi a segunda modalidade menciona da pelasos jovens e significa aquela amizade com direito a ter outro tipo de relações ou seja relações sexuais Nesse mo delo encaixamse amizades com os exnamorados Eduarda Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 133 17 anos Luana 17 aos e Kelly 17 anos afirmam ter expe rimentado esse vínculo como algo prazeroso em que existe a confiança de conversar e fazer coisas diversas embora não exista o compromisso da fidelidade E a última modalidade o conheceremse que Roberta 18 anos nos descreve como um tipo de relacionamento no qual duas pessoas estão apreciando a possibilidade de namo rar ou não Nesse processo os parceiros podem se beijar dar um amasso ter um chamego são expressões sexuais que não implicam o coito Como observamos para nossasos interlocutorases existem duas formas de manifestar sua sociabilidade sexual por um lado as práticas românticas comprometidas como o namoro sério advindas do ideário clássico E por outro as que acontecem na clandestinidade em que suas vivências sexuais são mais fluidas e transitórias surgidas a partir do contexto da contemporaneidade Segundo Anthonny Giddens 1993 o amor romântico passou a ter maior presença no final do século XVIII quan do as práticas sexuais consentidas e por prazer dentro de um relacionamento amoroso passaram a ser importantes para o casamento Totalmente diferente da Idade Média período em que o casamento era um contrato estipulado pelos pais para afiançar alianças econômicas entre famílias e concretizar a descendência mediante a reprodução Aos homens era permi tida a paixão nos relacionamentos extraconjugais liberdade que as mulheres não tinham Mas a propagação desse amor aparentemente subversi vo desse amor romântico foi um enredo engendrado pelos homens contra as mulheres para encher suas cabeças com sonhos fúteis e impossíveis Giddens 1993 p 52 A ideia de um amor puro eterno de igualdade sexual e emocional só serviu para posicionar a mulher no lar no priva do e seu irremediável destino como esposa e mãe 134 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O amor romântico vendese na categoria de drama no velas contos de fadas garantese uma história de sofrimento amoroso como os que conta Kelly ele pode ter feito o que for ele pode ter traído mas naquele momento que você diz que vai acabar Na sua cabeça nunca vem o que ele fez na primeira hora vejo o que a gente viveu Posiciona mento que pode tornálas vulneráveis no sentido de esquecer os cuidados de si pela manutenção do namoro Como indica Nascimento 2009 algumas práticas de violência são enco bertas como amor e justificadas por esse sentimento como algo normal e socialmente aceitável em um relacionamento amoroso o que não é restrito ao casal heterossexual Para Sofia Neves 2007 o amor romântico reproduz e legitima desigualdades reforça as relações de poder desnive ladas garantindo a continuidade do sistema patriarcal De modo que muitas mulheres são como encantadas pelo ideal do amor para sempre para assumir características e funções diferenciadas no espaço doméstico e público Daí a impor tância de entender como se configuram os comportamentos e sentimentos entre os casais a fim de atingir os objetivos de programas de educação e promoção de direitos sexuais e reprodutivos 3 Notas nem tão finais As discussões trazidas são evidências de como o poder cir cula se reproduz e assujeita a sexualidade dasos jovens por ideologias patriarcais em um cenário capitalista e heterosse xista Essas formas hegemônicas de constituição das relações mantêm micro e macropolíticas para sustentar a exigência da ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais Desse modo as desigualdades coexistem dentro da fa mília da escola na Igreja cristã no posto de saúde circuitos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 135 que se integram e na outra hora se desintegram gerando di ficuldades àsaos jovens para ter acesso a seus direitos e sua saúde sexual e reprodutiva sendo cenários mais constrange dores para as mulheres e para os grupos LGBT Com tudo isso asos jovens encontraram nos espaços da ilegalidade formas de subverter a norma e os parâmetros tradicionais de viver a sexualidade e seus prazeres embora es sas formas de agência sejam muitas vezes paradoxais e por conseguinte nem totalmente libertárias sendo mais manifes to no modo como se desenvolvem os vínculos afetivosexuais e nas regras sobre quem tem direito a ter prazer ou não A esse respeito Butler 2006 p 16 menciona esse caráter complexo e paradoxal da agência que implica questionar as normas que restringem a vida e convocam modos diferentes de viver Mi agencia no consiste en negar la condición de tal constitución Si tengo alguna agencia es la que se deriva del hecho de que soy constituida por un mundo social que nunca escogí Que mi agencia esté repleta de paradojas no significa que sea imposible Significa sólo que la paradoja es la condición de su posibilidad Como resultado el yo que soy se en cuentra constituido por normas y depende de ellas pero también aspira a vivir de maneras que mantengan con ellas una relación crítica y trans formadora Desse modo estar atentasos a como opera a categoria de gênero em interseção com as categorias de raça classe so cial e geração enriquece o processo de pesquisa facilitanos entender e visibilizar as diferenças reproduzidas em uma so ciedade desigual e no contexto das cidades de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Por último ainda se tem muito a fazer para que mulheres e homens jovens lésbicas gays bissexuais travestis transexuais possam desfrutar de sua sexualidade e seus prazeres em um am biente de cuidado e responsabilidade com suas práticas sexuais 136 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Referências ADRIÃO K G Perspectivas feministas na interface com o processo de pesquisaintervençãopesquisa com grupos no campo psi In labrys coletânea feminismos e psicologia n 26 Jul dez 2014 AGUIAR M M A construção das hierarquias sociais classe raça gênero e etnicidade Cadernos de Pesquisa do CDHIS UFU v 3637 p 8388 2007 ALMEIDA N F P Homosexualidades e gênero nos documentos oficiais da educação In REUNIÃO ANUAL DA ANPED 34 2011 Natal Anais Natal Associação Nacional de Pósgraduação e Pesquisa em Educação 2011 39GT23 BEAUVOIR S de O segundo sexo a experiência vivida 2 ed Rio de Janeiro Nova Fronteira 1980 BUTLER J Deshacer el género Barcelona Paidós Ibérica 2006 Problemas de gênero feminismo e subversão de identidade 4 ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2012 CASTRO M G ABRAMOVAY M SILVA L B da Juventudes e sexualida des Brasília Unesco Brasil 2004 DIÓGENES K M O ficar um estudo fenomenológico sobre os novos vínculos afetivos entre mulheres e homens adultos na cidade de Fortaleza Dissertação Mestrado em Psicologia Unifor Fortaleza 2007 FOUCAULT M História da sexualidade a vontade de saber 22 impr Rio de Janeiro Graal 2012 v I GAGNON J H Os roteiros e a coordenação da conduta sexual In Uma interpretação do desejo ensaios sobre o estudado da sexualidade Rio de Janeiro Garamond 2006 p 111149 GIDDENS A A transformação da intimidade sexualidade amor e erotismo nas sociedades modernas São Paulo Universidade Estadual Paulista 1993 Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 137 HARAWAY D Manifesto ciborgue ciência tecnologia e feminismosocia lista no final do século XX In TADEU T Org Antropologia do ciborgue as vertigens do póshumano Belo Horizonte Autêntica 2009 p 33118 HEILBORN M L Construção de si gênero e sexualidade In Org Sexualidade o olhar das ciências sociais IMSUERJ Rio de Janeiro Zahar 1999 p 4059 MEIRELLES T Pegar ficar namorar jovens mulheres e suas práticas afetivosexuais na contemporaneidade Dissertação Mestrado em Educa ção UFRGS Porto Alegre 2011 NASCIMENTO F S Namoro e violência um estudo sobre amor namoro e violência para jovens de grupos populares e camadas médias Dissertação Mestrado em Psicologia PPGPUFPE Recife 2009 144 f NASCIMENTO M A G do SILVA C N M da Rodas de conversa e ofici nas temáticas experiências metodológicas de ensinoaprendizagem em ge ografia In 10o ENCONTRO NACIONAL DE PRÁTICA DE ENSINO EM GEOGRAFIA 10 2009 Porto Alegre AnaisPorto Alegre UFRGS 2009 NEVES S As mulheres e os discursos genderizados sobre o amor a cami nho do amor confluente ou o retorno ao mito do amor romântico Re vista Estudos Feministas v 15 n 3 p 609627 2007 PAIVA V et al Idade e uso de preservativo na iniciação sexual de ado lescentes brasileiros Revista de Saúde Pública São Paulo v 42 supl 1 jun 2008 PARKER R G Corpos prazeres e paixões a cultura sexual no Brasil contem porâneo 3 ed São Paulo BestSeller 1991 PISCITELLI A Reflexões em torno do gênero e feminismo In COSTA C de L SCHMIDT S P Org Poéticas e políticas feministas Florianópolis Mulheres 2004 p 5455 QUADROS M T ADRIÃO K G XAVIER A K Circuitos desintegra dos Relações de convivência entre mulheres jovens e profissionais de saú de numa comunidade de periferia da cidade do Recife PE In NASCI 138 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA MENTO P RIOS L F Org Gênero saúde e práticas profissionais Recife UFPE 2011 p 7394 QUEIROZ T N de Significados de sexualidades entre crianças em uma escola municipal de Cabo de Santo AgostinhoPE Dissertação Mestrado em Psicolo gia UFPE Recife 2013 RIOS L F Homossexualidade no plural dos gêneros reflexões para in crementar o debate sobre diversidade sexual nas escolas In SCOTT P LEWIS L QUADROS M Org Gênero diversidade e desigualdades na edu cação interpretações e reflexões para formação docente Recife UFPE 2009 p 97116 et al Os cuidados com a carne na socialização sexual dos jo vens Psicologia em Estudo Maringá v 13 n 4 dez 2008 RUBIN G Pensando o sexo notas para uma teoria radical das políticas da sexualidade Cadernos Pagu n 21 p 188 2003 SHUÑA R del P B Diálogos sobre sexualidade com asos adolescentes jovens de Cabo de Santo Agostinho e IpojucaPE Dissertação Mestrado em Psicologia UFPE Recife 2014 SPIVAK G Pode o subalterno falar Belo Horizonte UFMG 2010 133 p TAQUETTE S R VILHENA M M de Uma contribuição ao entendi mento da iniciação sexual feminina na adolescência Psicologia em Estudo Maringá v 13 n 1 mar 2008 VILLELA W V DORETO D T Sobre a experiência sexual dos jovens Cadernos de Saúde Pública Rio de Janeiro v 22 n 11 p 24672472 nov 2006 WELZERLANG D A construção do masculino dominação das mulheres e homofobia Rev Estud Fem v 9 n 2 p 460482 2001 Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina Daniel K dos Santos Gabriela A Diaz Marília dos S Amaral e Maria Juracy F Toneli 1 Introdução O presente trabalho tem sua origem em um projeto maior elaborado e executado em parceria entre o Núcleo Margens Modos de Vida Família e Relações de Gênero PSI UFSC e a Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade Adeh organização não governa mental com sede em Florianópolis e diretoria associada à população travesti e transexual intitulado Direitos e vio lências na experiência de travestis e transexuais em Santa Catarina construção de perfil psicossocial e mapeamento de vulnerabilidades Duas grandes frentes de trabalho compunham o proje to que contou com apoio da Secretaria de Direitos Huma nos por meio de edital Uma delas fortemente caracteriza da como pesquisa mapeou as vulnerabilidades violências e acesso às políticas públicas da população de lésbicas gays bissexuais travestis transexuais e transgêneros LGBT no município de Florianópolis por meio de questionários 200 e grupos focais com pessoas LGBT bem como entrevistas com gestoresas de políticas públicas e participantes de or ganizações não governamentais ONGs que trabalham nes sa área Na segunda frente mais voltada para intervenção a 140 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA atividade central foi composta por cursos de capacitação ofe recidos a operadoresas das políticas públicas de educação saúde assistência social segurança pública turismo cultura e esporte É neles que centraremos nosso olhar no presente texto Elaboramos um programa de capacitação para cada secre taria de modo que pudemos nos concentrar em temas especí ficos e focar as particularidades de cada área Cada capacitação teve duração de 20 horas as quais foram divididas em dife rentes dias dependendo da disponibilidade das secretarias Entre osas participantes estavam presentes servidoresas técnicosas conselheirosas e gestoresas As capacitações visaram a sensibilizar osas servidoresas públicosas das respectivas secretarias sobre questões perti nentes à diversidade sexual e de gênero no cotidiano de suas ati vidades profissionais e em suas práticas como operadoresas de políticas públicas Entendemos que para que políticas de equidade sejam efetivadas não basta apenas a criação de leis portarias e programas mas é preciso também que os sujeitos que operam na ponta dessas políticas aqueles e aquelas que estão de fato em contato direto com as populações e grupos que podem ser beneficiados por elas apropriemse do conte údo e do significado histórico político e social que elas repre sentam Desse modo procuramos articular a realidade coti diana dosas profissionais de cada secretaria a um contexto macropolítico relativo às políticas de gênero e de sexualidade na esfera tanto nacional quanto internacional Em nosso relato problematizaremos a forma como es truturamos nossas capacitações o conteúdo desenvolvido as especificidades de cada secretaria no trabalho com questões de diversidade sexual e de gênero as dificuldades encontradas durante nossas intervenções os discursos e enunciados que circularam entre participantes e facilitadoresas assim como os impasses e possíveis avanços que intervenções como essas Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 141 podem proporcionar no âmbito das políticas públicas e dos direitos humanos Consideramos que as capacitações ofereci das funcionaram como um dispositivo de interlocução entre universidade movimento social e profissionais das políticas públicas bem como uma forma de sensibilização para se pen sar e efetivar políticas de equidade para a população LGBT no contexto das políticas públicas de assistência educação saú de turismo cultura e esporte 2 Equidade para a população LGBT um breve apontamento sobre contornos políticos e sociais Como mencionado as capacitações tiveram como obje tivo principal sensibilizar osas servidoresas públicosas sobre a questão da diversidade sexual e de gênero em suas áre as de atuação no que diz respeito à efetiva implementação de políticas públicas voltadas para a população LGBT de modo a garantir seus direitos nesse campo Nesse sentido quando falamos em políticas de equidade para a população LGBT estamos nos referindo a todo um processo de construções históricas e de lutas de movimentos sociais que há algumas décadas vem formulando uma agen da política que reivindica o alargamento dos direitos sociais sexuais humanos e da noção de cidadania Tais lutas pelo re conhecimento político de grupos minoritários como a popu lação LGBT as mulheres a população negra e a população indígena vêm mobilizando diversas iniciativas nos âmbitos jurídicos sociais e políticos tanto na esfera nacional como pode ser observado em políticas de governo e de Estado quan to na esfera internacional presentes em princípios e tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signa 142 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA tário como aqueles produzidos por instituições como a Orga nização das Nações Unidas ONU e a Anistia Internacional e por grupos de especialistas militantes e ativistas como os Princípios de Yogyakarta1 por exemplo No Brasil no âmbito dos direitos LGBT temos como marco histórico o documento Brasil sem homofobia programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e de promoção da cidadania homossexual lançado em 2004 pelo Governo Federal Esse programa tem como um dos objetivos centrais a edu cação e a mudança de comportamento de gestores públicos e a integração interministerial visando à erradicação das violências contra as diversidades sexuais e de gênero à não discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero e à garantia dos direitos humanos da população LGBT O Brasil sem homofobia entende que o combate à ho mofobia é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira Também merece destaque a Política nacional de saúde in tegral de lésbicas gays bissexuais travestis e transexuais Brasil 2010a criada pelo Ministério da Saúde em 2010 para ser im plementada pelo Sistema Único de Saúde SUS e fundada a partir de diretrizes do Programa Brasil sem Homofobia Brasil 2004 e do Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH 3 Brasil 2010b Tal política caracterizada por um caráter transversal que envolve diversas áreas do Ministério da Saúde foi formulada por vários setores da sociedade e aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde após consulta pública Apesar dos esforços dos movimentos sociais e das escas sas conquistas no campo dos direitos humanos ainda falta 1 Os Princípios de Yogyakarta são produto da reunião de 29 especialistas na questão da sexualidade e direitos humanos de 25 países diferentes na Universidade Gadjah Mada em Yogyakarta Indonésia em novembro de 2006 Os 29 princípios tratam da aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e iden tidade de gênero Princípios de Yogyakarta 2007 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 143 muito para alcançarmos de fato uma sociedade mais justa democrática e menos excludente Temos testemunhado co tidianamente situações de violências simbólicas psicológi cas físicas assassinatos de LGBT cerceamento de direitos como a dificuldade para retificação de nome civil no caso das pessoas trans a dificuldade para oficializar união estável e casamento civil entre pessoas do mesmo sexo bem como para adotar crianças a dificuldade de garantir acesso a direi tos básicos como educação e saúde especialmente para tra vestis e transexuais etc Tais impasses se materializam no boicote à aprovação de políticas públicas por parte de grupos conservadores e fundamentalistas que vêm ganhando espaço nas diversas esferas governamentais Como exemplo de obs táculos impostos por esses grupos políticos podemos citar a censura do Ministério da Saúde às propagandas de prevenção ao HIVAids direcionadas às profissionais do sexo e à popula ção LGBT o veto ao material didáticopedagógico populari zado como kit antihomofobia que seria direcionado à edu cação e mais recentemente a retirada da diretriz do Plano Nacional de Educação PNE2 que propunha a superação das desigualdades educacionais com ênfase na promoção da igualdade racial regional de gênero e de orientação sexual A retirada das categorias desigualdade de gênero e de orien tação sexual indica a influência das bancadas conservadoras na deslegitimação do próprio PNE que foi construído a partir da Conferência Nacional de Educação em 2010 da qual par ticiparam diversos segmentos da sociedade civil Além disso acontecimentos como esses fragilizam as lutas contra as dis criminações por causa de orientação sexual e identidade de gênero sobretudo em espaços considerados de fundamental 2 O Plano Nacional de Educação foi aprovado a partir da Lei no 13005 de 25 junho de 2014 que estabelece 20 metas a serem cumpridas na área da educação em um período de 10 anos 144 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA importância na socialização e na constituição dos sujeitos como a escola Diante desse quadro ainda que os documentos oficiais como o Brasil sem homofobia norteiem ações e sejam importan tes marcos na construção dos direitos humanos da popula ção LGBT temos vivido um tenso campo de forças no cená rio político brasileiro que vem inviabilizando a construção e a efetivação de políticas de Estado que protejam sujeitos que destoam da heteronorma3 do heterossexismo4 e do cissexis mo5 Foi a partir da constatação da precariedade das vidas de muitos desses sujeitos e da negligência do Estado em relação às violências que a população LGBT sofre e a partir de um compromisso ético e político do Núcleo Margens e da Adeh que este projeto de intervenção foi pensado 3 Quando falamos em heteronorma referimonos a um conjunto de práticas e discursos normativos que se materializam de forma implícita eou explícita e que preveem eou predeterminam que a única forma de orientação sexual possível legítima normal e aceita é a heterossexualidade A heteronormatividade pressupõe uma suposta coerên cia interna e linear entre um sistema sexogênerodesejo Butler 2003 Assim diante desse quadro de referência qualquer orientação sexual não heterossexual será margina lizada considerada desviante ininteligível e entendida como anormal Localizarse como um sujeito que destoa da heteronormatividade implica um risco de estar exposto a violências de toda ordem física verbal psicológica simbólica de Estado etc 4 Segundo Rogério Junqueira 2013 o termo homofobia se aproxima da noção de heterossexismo mas não a sobrepõe Ao considerar a centralidade das discussões de gênero o autor considera adequado empregar heterossexismo ao lado de homofobia e enfatizar que a última deriva do primeiro p 495 Assim também a partir dos ideais regulatórios sobre a sexualidade e o gênero que tomam a heterossexualidade como modelo e o masculino como referência universal o heterossexismo engloba as atitudes de preconceito discriminação e manifestações de ódio contra qualquer sexualidade não heterossexual e perpetuando a ideologia de que existe um sexo superior a outro 5 Segundo Jaqueline Gomes de Jesus 2012 p 28 o cissexismo seria uma ideologia resultante do binarismo ou dimorfismo sexual que se fundamenta na crença estereoti pada de que características biológicas relacionadas com o sexo são correspondentes às características psicossociais relacionadas com o gênero O cissexismo no nível institu cional redunda em prejuízos ao direito à autoexpressão de gênero das pessoas criando mecanismos legais e culturais de subordinação das pessoas cisgênero e transgênero ao gênero que lhes foi atribuído ao nascimento Para as pessoas trans em particular o cis sexismo invisibiliza e estigmatiza suas práticas sociais Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 145 3 As experiências de capacitações como um dispositivo político No planejamento dos cursos algumas considerações ini ciais mostraramse importantes Tínhamos consciência de que as capacitações funcionariam mais como um espaço de sensibilização e reflexão do que como um curso de formação ou capacitação propriamente dito Isso porque acreditamos que as discussões sobre diversidades sexuais e de gênero de vem ser conduzidas como tópicos pertinentes às formações continuadas e não como um assunto que possa se encerrar em algumas horas As temáticas apresentadas nos encontros envolveram questões que afetam e confrontam diretamente crenças pessoais tabus valores morais e religiosos Assim es ses debates pressupunham uma relação dialógica constante que questionasse perspectivas individualizantes e problema tizassem as sexualidades e as relações de gênero a partir da perspectiva política dos direitos humanos Procuramos destacar que na posição de servidoresas públicosas de um Estado laico a diversidade sexual e de gê nero deve ser tratada pela perspectiva dos direitos humanos e não por vieses que tomam a heterossexualidade e a cisge nereidade6 como norma e como única forma legítima de ex pressão da sexualidade e do gênero Essa nossa postura gera o risco da polêmica e do desconforto causado pelo questiona mento da heterocisnormatividade presente nas relações so ciais e institucionais No entanto acreditamos que seja exata mente nesse confronto agonístico7 que podemos vislumbrar o 6 O termo cisgenereidade corresponde às identidades cisgêneras Segundo Jesus 2012 p 10 chamamos de cisgênero ou de cis as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando ao nascimento 7 A filósofa Chantal Mouffe 2005 ao propor a ideia de pluralismo agonístico para pensar um modelo de política democrática defende que um consenso racional na esfera política não pode ser alcançado Nessa perspectiva o consenso só existe como resulta 146 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA afrouxamento de alguns axiomas8 normativos que produzem e mantêm hierarquias sociais sexuais e de gênero Obviamen te que isso não é fácil Ainda que quase a totalidade dosas servidoresas que participaram das capacitações tivesse se inscrito de livre e espontânea vontade e estivesse aberta ao diálogo era evidente a presença de alguns discursos hetero normativos cissexistas e misóginos que dificilmente eram reconhecidos como tais Não se trata aqui de apontar eou acusar osas participantes de homofóbicos ou sexistas mas de problematizar como discursos heterocisnormativos ressoam e se proliferam de modo naturalizado e invisibilizado nos mais diversos contextos Para a construção das capacitações foram organizadas reuniões com pesquisadoresas do Núcleo Margens e integran tes da Adeh a fim de preparar o material e o conteúdo a ser trabalhado O núcleo comum a todas as capacitações foi esco lhido de acordo com temas relevantes e transversais a todas as áreas como gênero sexualidades corpo feminismo violên cias homolesbotransfobia movimentos LGBT e direitos hu manos Além desse núcleo comum aprofundamos em temas específicos a cada área problematizando questões pertinentes a educação saúde assistência social turismo cultura e esporte A Adeh encaminhou convites às secretarias de cada área de abrangência do projeto oferecendo 20 vagas gratuitas para do temporário de uma hegemonia provisória como estabilização do poder que sem pre acarreta alguma forma de exclusão p 21 Mouffe ao salientar a diferença entre os termos antagonismo luta entre inimigos e agonismo luta entre adversários sugere que na perspectiva de um pluralismo agonístico o objetivo da política é transformar an tagonismo em agonismo tarefa essa que não elimina as contradições os dissensos e as paixões do campo político Para a autora a tarefa primordial da política democrática não é eliminar as paixões da esfera do público de modo a tornar possível um consenso racional mas mobilizar tais paixões em prol de desígnios democráticos p 21 Assim a confrontação agonística seria a própria condição de existência da democracia 8 Para uma discussão sobre alguns axiomas presentes no pensamento ocidental que mantém hierarquias sexuais e de gênero conferir Rubin 2003 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 147 cada capacitação de 20 horas Coube às secretarias eleger os setores e osas servidoresas que participariam dos cursos As datas horários e locais foram firmados de acordo com a disponibilidade de cada secretaria Cada capacitação foi ministrada por dois facilitadoresas uma integrante da Adeh a maioria mulheres trans estudan tes de graduação e uma pesquisadora do Núcleo Margens todosas estudantes de doutorado As metodologias utili zadas nos cursos foram bem variadas aulas expositivodialo gadas grupos de discussão e reflexão filmes documentários análise de propagandas debates sobre documentos oficiais relatos de experiências de convidados e dosas própriosas participantes estudos de casos emblemáticos e dinâmicas de grupo foram algumas das estratégias utilizadas durante as ca pacitações Apostilas com textosbase foram solicitadas pelas secretarias e por isso construídas e distribuídas para cada área durante os encontros como uma forma de osas participan tes poderem compartilhar com osas colegas de trabalho que não puderam participar das capacitações Vale a pena salientar que no projeto inicial apenas quatro esferas seriam contempladas com capacitações saúde educa ção assistência social e segurança pública No entanto fomos procurados pela Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte que se mostrou interessada em nossas atividades de capacitação o que nos possibilitou abranger mais essa área nesse processo multiplicador 4 Discussão sobre alguns modos de se reconhecer e repensar as práticas Durante as atividades de capacitação desenvolvidas jun to aosàs servidoresas das políticas públicas no município de Florianópolis foi recorrente o fato de algumas falas não 148 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA serem reconhecidas como a reprodução de enunciados que reforçam as normativas de gênero e de sexualidade ou que funcionam como destaca Rogério Junqueira 2011 como modos de vigilância das normas de gênero Em diversos mo mentos a heterocisnormatividade presente nos discursos dosas participantes passava despercebida mesmo com nos sos apontamentos que visavam a evidenciar a contradição entre discursos tolerantes em relação à diversidade sexual e de gênero e a perpetuação de enunciados e práticas nor mativas Homofobia machismo e transfobia por exemplo pareciam fenômenos que só acontecem nas outras escolas nunca na minha evidenciando uma estratégia discursi va que nega a existência de discursos heterocisnormativos como também observou Rogério Junqueira 2009 em suas pesquisas junto a educadoresas O não reconhecimento e a não enunciação dessas microviolências no âmbito da educação da saúde da assistência social e da segurança pú blica funcionam como operações que invisibilizam lógicas excludentes na escola nos centros de referência em assistên cia social Cras e Creas nas delegacias no sistema prisional nas unidades básicas de saúde nos centros de atenção psicos social entre tantas outras instituições públicas Negar eou não reconhecer esses fenômenos são estratégias que afastam o incômodo de precisar repensar sobre as próprias práticas discursos projetos e políticas institucionais eou mesmo va lores pessoais Se por um lado osas participantes concordavam que o machismo está presente na escola por outro também ou vimos algumas falas como garotas andam muito malcom portadas elas vão à escola com roupas provocantes e andam mais bagunceiras que os garotos As divisões de gênero mantidas pela instituição escolar também dificilmente eram questionadas de modo que pudemos ouvir repetidas vezes que na escola têm coisas que só podem ser feitas por meni Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 149 nas e outras só por meninos como o uso de determinados tipos de roupas o acesso a determinados espaços da escola a prática de determinadas modalidades esportivas e a deli mitação de certos tipos de comportamentos específicos para cada sexo Também foi recorrente o uso de concepções essencialistas sobre gênero como meninas gostam mais de coisas delica das de rosa enquanto meninos são naturalmente mais agres sivos mais fortes e mais ativos Tais concepções produziam espanto desconforto eou um não saber o que fazer quando osas estudantes evidenciam a fragilidade dessas normas e de sestabilizam algumas concepções rígidas sobre gênero Assim uma menina agressiva bagunceira ou que fala palavrão um menino delicado ou afeminado e uma travesti que reivindica usar o banheiro feminino na escola incorporam um espectro de ininteligibilidade na visão de algunsmas educadoresas e fazem questionar práticas institucionais e pedagógicas insti tuídas Esses questionamentos podem tanto funcionar como elemento transformador da realidade escolar quando oa professora propõe uma discussão em sala de aula uma roda de conversa um debate sobre um filme etc quanto encontrar discursos que barram sua expressão reprimindo ou negando a existência desses sujeitos na escola como pudemos ouvir nos relatos de algunsmas educadoresas Em relação à possibilidade de se discutir diversidade sexual e homofobia na escola também testemunhamos al gumas falas que sustentavam que osas educadoresas não têm obrigação de tratar de tais temas Algunsmas alega vam que essas temáticas poderiam ir contra os princípios morais doda professora e que portanto elea não teria responsabilidade de tratar desses assuntos Essa desimplica ção por parte de algunsmas educadoresas denota o des conhecimento ou mesmo o negligenciamento de políticas e diretrizes educacionais já estabelecidas como os Parâmetros 150 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Curriculares Nacionais PCNs que pressupõem que a plu ralidade cultural e a sexualidade sejam assuntos que devem transversalizar os currículos Essa desresponsabilização aliada ao desconhecimento das realidades da população LGBT também foi percebida nos encontros com servidoras da assistência social quando se discutiu por exemplo a problemática dos albergues munici pais para moradoresas de rua Em relação à possibilidade de aceitar e acolher mulheres trans travestis e transexuais em albergues públicos femininos evocavase a retórica da lógica do perigo que sustentava que a presença de mulheres trans e travestis geraria medo e a iminência de relações sexuais com as usuárias mulheres Do mesmo modo essa estigmatização da população trans se impôs quando o assunto foi o acolhi mento de mulheres trans na Casa de Passagem para Mulheres em Situação de Violência Outro discurso que nos impressionou pautado pelo risco e pelo perigo foi o desconhecimento por parte de algunsmas poucosas educadoresas sobre a questão do vírus HIV e da Aids Um dos professores presentes na capa citação oferecida à Secretaria de Educação disse que resolveu fazer o curso porque alegava desconhecer como proceder em casos de haver na escola alguma estudante vivendo com HIV Segundo o professor seria importante reconhecer oa alunoa soropositivoa para proteger osas demais estudan tes e osas própriosas professoresas O professor apresen tava uma concepção bastante problemática e discriminató ria sustentando que em nome da proteção de um coletivo seria necessário marcar o sujeito soropositivo revelando sua sorologia para a comunidade escolar pais de estudantes professoresas e funcionáriosas da escola Ao tentarmos problematizar junto a ele sobre os efeitos segregadores discri minatórios estigmatizantes e preconceituosos desse tipo de prática ele insistia em que osas professoresas e osas cole Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 151 gas corriam grande risco com a presença oculta de uma estudante portadora do vírus na escola Para argumentar sobre tal perigo inerente o professor apresentava a hipóte se de situações como acidentes com possíveis sangramentos ferimentos eou cortes que poderiam acontecer nas aulas de educação física e o início da vida sexual doa estudante soropositivoa que poderiam expor outrosas estudantes ao risco da infecção É evidente que tais argumentos denotam um pânico mo ral e sexual Rubin 2003 Miskolci 2007 sobre o HIV e um nítido desconhecimento sobre as formas de transmissão do vírus Não ficou claro para nós o nível de compreensão e de conhecimento que esse professor tinha sobre HIVAids po rém deduzimos que seu entendimento sobre a questão era bastante limitado e carregado de estereótipos Por mais que nós e algunsmas outrosas integrantes do grupo tentásse mos relativizar suas percepções sobre pessoas vivendo com HIV e sobre formas de cuidado e de transmissão do vírus o professor parecia insistir para que oferecêssemos uma respos ta que aparentemente ele já tinha formulado para si mesmo sobre como agir com uma estudante soropositivoa na es cola A noção de indivíduo perigoso Foucault 2006 associada à vigilância típica promovida pelo dispositivo da sexualidade Foucault 1988 sobre os corpos dosas jovens e das crian ças encontrava ressonância no discurso do professor dei xando evidente como algumas práticas discursivas orientam posturas normativas e discriminatórias no ambiente escolar Destacamos que não concebemos o discurso desse professor como um caso isolado ou como apenas uma perspectiva individual sobre o tema em questão É importante conside rar que alguns retrocessos e entraves observados nas políticas de Aids nos últimos anos como a censura a algumas campa nhas de prevenção e a políticas relativas aos direitos sexuais interferem e afetam as possibilidades de políticas mais efeti 152 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA vas de prevenção e de direitos humanos Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids Abia 20149 A posição do referido professor reflete uma carência de formação continuada e crí tica que deveria ser oferecida a todosas osas profissionais da educação da saúde e da assistência social O que esse tipo de discurso nos indica é que os retrocessos das políticas de prevenção afetam não somente os grupos considerados mais vulneráveis mas também osas profissionais que atuam na ponta das políticas públicas e que ficam sem ferramentas e formações que contribuam com o debate sobre direitos hu manos e sexuais Em nossas experiências de capacitações percebemos que se por um lado a vigilância e o controle em torno das sexuali dades e dos corpos dosas jovens estudantes é uma constante a preocupação não parece se propagar com a mesma urgência no que diz respeito a identificação denúncia acolhimento e proteção aosàs jovens LGBT vítimas de homolesbo e trans fobia Durante o curso com a assistência social ficou clara a impotência das profissionais diante da ineficiência de locais de acolhimento quando um sujeito maior de 18 anos sofre al gum tipo de violência homofóbica Em função da maioridade sua violação de direitos não confere mais ao Conselho Tutelar tendo apenas a delegacia como local para recorrer caso oa jovem tenha condições de denunciar Referimosnos às con dições de denunciar levando em conta que na ausência de es paços de proteção a maior parte dosas jovens é obrigadoa a retornar para seus lares frequentemente o espaço no qual acontecem as agressões Segundo o relato dosas profissio nais quando os serviços oferecidos pela assistência social são buscados pela família na maioria das vezes a intencionalidade 9 Conferir também a Carta da Abia em repúdio à censura da campanha sobre prostitui ção e HIVAids pelo Ministério da Saúde Disponível em httpwwwsxpoliticsorg ptp3417sthashnit7qDXfdpuf Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 153 dessa demanda é tratar a sexualidade doa jovem Nesses casos a homofobia frequentemente acaba sendo encarada tanto pela equipe despreparada quanto pela família como um problema familiar individual e privado colaborando para que recaia sobre a vítima a culpa da agressão sofrida Osas servidoresas da área da saúde também manifes taram dificuldades em reconhecer indicadores de possíveis violências homofóbicas lesbofóbicas eou transfóbicas até o momento da capacitação No entanto durante os encontros oferecidos a essesas profissionais muitosas delesas come çaram a expressar preocupações sobre os efeitos das violências na vida de pessoas LGBT Notamos também que algunsmas participantes passaram a questionar com certa angústia como proceder em casos de usuáriosas dos serviços de saúde que estejam vivenciando situações de violênciadiscriminação por causa de orientação sexual eou identidade de gênero es pecialmente quando se trata de crianças e jovens Apesar da presença de discursos normativos entre osas educadoresas não podemos deixar de mencionar que havia pessoas bastante implicadas e interessadas nas discussões sobre diversidades sexuais e de gênero Algumas já haviam participado de outros cursos de formação como o curso Gê nero e Diversidade na Escola GDE oferecido pela Univer sidade Federal de Santa Catarina UFSC e já tinham desen volvido em suas escolas experiências e projetos interessantes relativos às questões de sexualidade e gênero No caso da as sistência social algumas participantes atuam no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violên cia CREMV e por isso já participaram de formações sobre gênero e violências contra a mulher além de cursos sobre feminismo oferecidos pelo Instituto de Estudos de Gênero IEGUFSC No entanto nenhuma das profissionais havia participado de um curso voltado especificamente para a po pulação LGBT 154 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Na área da saúde osas participantes relataram não te rem participado anteriormente de nenhuma capacitação cur so ou treinamento sobre as questões LGBT Disseram porém ter tido cursos e informações diversas sobre DSTs e HIVAids ocasiões nas quais estabeleceram uma relação problemática e linear entre homossexualidades transexualidades e temas como de DSTs HIVAids e prostituição Pareceunos evidente que no âmbito da saúde as necessidades da população LGBT ainda estão muito relacionadas apenas com a busca de pre servativos eou prevenção diagnóstico e tratamento do HIV Aids e outras DSTs Entre osas profissionais da saúde notamos uma atitude de interesse atenção e vontade de compreender a temática até então não muito aprofundada pelosas participantes Isso pode sinalizar já algum efeito da existência da Política Nacio nal de Saúde LGBT Brasil 2010b que orienta que osas servidoresas públicosas da área da saúde conheçam e com preendam mais essa população em questão Por esse motivo ressaltamos a importância da Política Nacional LGBT base ada na carta de usuários do Sistema Único de Saúde SUS Para refletir sobre formas de implementação dessa política foram tratados temas como identidade de gênero orientação sexual processo transexualizador uso do nome social em ins tituições de saúde entre outros Procuramos articular essas questões aos temas já conhecidos dosas profissionais da saú de pública como os princípios do SUS a Estratégia Saúde da Família Atenção Básica em Saúde etc Procuramos dar maior ênfase à discussão dos documen tos que não eram conhecidos pelosas participantes como a Política Nacional de Saúde LGBT e as portarias que regu lamentam o processo transexualizador no âmbito do SUS Em referência à Política Nacional de Saúde LGBT ouvimos o questionamento esta é mais uma política assim como a do idoso a da mulher a do homem porque tem que estar tudo Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 155 em casinhas Verificamos nessa fala um desconhecimento sobre as especificidades da população LGBT no âmbito da saúde bem como uma dificuldade de reconhecer a necessida de de se pensar a saúde LGBT a partir do princípio da equida de tão caro ao SUS As iniciativas do Governo Federal relativas à saúde LGBT são resultado de um longo processo de reivindicações do mo vimento social que nos últimos anos vem pressionando todas as esferas governamentais municípios estados e Governo Fe deral para a implementação de políticas públicas voltadas à população LGBT Tais políticas indubitavelmente constituem importantes avanços no entanto ainda constatamos inúme ras dificuldades para implementar e incorporar seus conteú dos no cotidiano das práticas como mostrou Díaz 2012 em sua pesquisa sobre as concepções de psicólogosas que atuam nas unidades básicas de saúde da cidade de FlorianópolisSC acerca da diversidade sexual Durante a capacitação com ser vidoresas da área da saúde observamos que de forma geral elesas desconhecem as políticas públicas dirigidas à popula ção LGBT Em relação à capacitação oferecida à Secretaria de Esta do de Turismo Cultura e Esporte em função da complexida de das três áreas abrangidas por essa secretaria optouse por uma proposta metodológica diferente das demais capacita ções Durante esse curso após apresentarmos um panorama geral de gênero e sexualidade trabalhamos com alguns estu dos de caso10 com situaçõesproblema e com perguntas disparadoras que objetivaram estimular a problematização entre osas participantes As situações e as perguntas dispa radoras para cada área foram organizadas da seguinte forma 10 Os estudos de caso foram selecionados a partir de situações emblemáticas para cada área que tiveram alguma repercussão na mídia tanto nas grandes mídias quanto em mídias alternativas 156 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Turismo Debate sobre pink money e mercados GLS Afinal turismo para quem Discussão sobre mercado versus direitos humanos é pos sível resolver essa tensão Turismo GLS ou LGBT Gayfriendly como estratégia de mercado seria possível lesfriendly transfriendly Debate sobre inclusão versus exclusão o turismo é real mente inclusivo Quem ele inclui e quem ele exclui Quem viaja no Brasil Quem circula na própria cidade Pensar na relação entre turismo e mobilidade urbana Relativizar discursos midiáticos sobre o caráter gayfrien dly de Florianópolis e dos destinos turísticos no Brasil em geral Cultura Ações e políticas culturais podem promover os direitos humanos As artes música teatro literatura cinema artes visuais podem ser um meio de discussão sobre diversidade sexual e de gênero Problematizar as categorias políticas culturais LGBT e cultura LGBT O que querem dizer Como aparecem nos documentos oficiais Eventos de visibilidade massiva as Paradas do Orgulho LGBT pelo Brasil Como osas gestoresas da cultura podem inserir o tema da diversidade sexual e de gênero em suas agendas Como as questões de diversidade sexual e de gênero se integram às discussões sobre pluralidades culturais Esporte Esporte como pedagogias do corpo do gênero e das sexualidades Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 157 O esporte reproduz estereótipos de gênero Por que alguns esportes são considerados mais para homens ex futebol artes marciais e outros mais para mu lheres ex balé ginástica rítmica ginástica olímpica Qual o efeito desses padrões O esporte pode ser sexista Homofóbico Transfóbico O esporte pode ser um espaço de resistência contra as desigualdades de gênero e sexuais Como pensar políticas de direitos humanos especifica mente as relativas à orientação sexual e identidade de gênero de modo transversal no esporte Durante a capacitação aosàs servidoresas da Secre taria de Estado de Turismo Cultura e Esporte também nos deparamos com estratégias discursivas que silenciavam a questão da heteronormatividade Foi recorrente um discur so complacente em relação às diversidades sexuais mas ao mesmo tempo também identificamos a dificuldade de algu mas pessoas em reconhecer a proliferação das normas de gê nero e sexuais em suas áreas de atuação Osas servidoresas que atuam na área do esporte por exemplo conheciam al guns casos de homofobia no esporte que levamos para discus são durante a capacitação como o caso do jogador de vôlei Michael que sofreu injúria homofóbica da torcida adversária de seu time durante um jogo e a repercussão homofóbica gerada pela publicação da foto de um selinho que o jo gador de futebol Sheiki deu em um amigo Embora osas participantes reconhecessem a existência da homofobia no esporte e reprovassem tais atitudes também notamos no grupo a dificuldade de pensar o tema de diversidade sexual e de gênero como uma questão a ser trabalhada em políticas relativas ao esporte e em suas atuações na própria Secretaria do Esporte Pudemos observar uma vontade de fazer algo porém esse desejo esbarrava na dificuldade em articular o 158 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA esporte aos direitos humanos e à temática da diversidade se xual de gênero Com osas servidoresas do turismo procuramos rela tivizar discursos midiáticos sobre o caráter gayfriendly de Flo rianópolis destacando que por trás da aparente tolerância em relação à população LGBT ainda testemunhamos cotidianos casos de homofobia lesbofobia e transfobia na cidade Procu ramos estimular um debate que problematizasse as tensões entre mercado economia e turismo e as questões de direitos humanos Quanto aosàs servidoresas que atuam na área da cul tura muitosas reconheciam a importância da temática de gênero e sexualidade nas políticas culturais no entanto a falta de verba e incentivo à cultura em geral parecia ser algo mais urgente Assim apesar de concordarem que ações culturais podem contribuir com a minimização das discriminações por causa de orientação sexual e identidade de gênero a pre ocupação com a escassez de recursos destinados à cultura era mais evidente Como sugestão sobre como políticas culturais podem fortalecer as discussões sobre direitos humanos da população LGBT11 apresentamos alguns exemplos de ações concretizadas no país como o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade a mostra audiovisual sobre o cineasta Vagner de Almeida Homossexualidades feminismos raça e violên cias a obra de Vagner de Almeida realizada em Florianópolis em 2011 o projeto CineD realizado na própria sede da Adeh que divulga e debate filmes com a temática da diversidade se xual e de gênero o Concurso de Cartazes sobre Lesbofobia Transfobia Homofobia e Heterossexismo nas escolas promo vido pelo Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades NIGSUFSC entre outros exemplos 11 Para uma discussão mais aprofundada sobre o que tem sido chamado de Cultura LGBT no âmbito das políticas de cultura no Brasil conferir Braz 2013 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 159 Em relação às dificuldades enfrentadas sem dúvida a distribuição do tempo de discussão e a especificidade de cada área foram os principais desafios Nas capacitações aosàs servidoresas da saúde e da educação o desafio foi construir uma proposta de curso concentrada em 20 horas distribuídas em dois intensos dias de trabalho sob o risco de que o cansaço levasse osas participantes à desistência do curso Ao contrá rio das áreas mencionadas na capacitação às profissionais da assistência social a dificuldade foi elaborar uma proposta de curso distribuída em cinco dias espaçados com quatro horas de duração Manter a assiduidade em todos os encontros se mostrou um desafio porém o interesse das profissionais e a implicação política com os temas discutidos fizeram com que esse risco fosse minimizado Já o curso oferecido à Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte teve duração menor em relação às outras secretarias Tivemos o desafio de ter apenas 10 horas para aprofundar as discussões somado à dificuldade de termos de tratar em um mesmo grupo sobre a articulação entre gêne ro e sexualidade com três áreas diferentes turismo cultura e esporte 5 Algumas considerações Acreditamos que as capacitações oferecidas para as Secre tarias de Educação de Assistência Social de Saúde e de Tu rismo Cultura e Esporte funcionaram como um dispositivo de sensibilização em relação à importância de pensar políticas de equidade para a população LGBT nos âmbitos de atuação desses órgãos Ainda que ações como essas sejam limitadas o simples fato de nomear localizar e reconhecer fenômenos que muitas vezes são naturalizados e passam despercebidos como algumas sutilezas da heteronormatividade do sexismo da 160 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA homofobia e da transfobia já se constitui em uma potência para transformações sociais Acreditamos também que essas sensibilizações necessitam de continuidade para se tornarem efetivamente capacitações promotoras de alguma mudança na atual conjuntura das políticas públicas Em nossos encontros com osas profissionais das políti cas públicas buscamos firmar um compromisso de urgência de esforços de implicação de responsabilização e de politiza ção diante das violências Tais violências não apenas se carac terizam pela agressão física ou verbal contra pessoas LGBT mas também pelo apagamento e silenciamento dessas opres sões e discriminações nos serviços públicos que permitem consentem formas de violências simbólicas Pudemos observar que em geral osas participantes das capacitações até conseguiam apreender a existência do ma chismo do sexismo da homofobia da transfobia etc Tais expressões da violência são de certa forma demonstráveis a partir de exemplos concretos como vídeos filmes reporta gens dados de pesquisa e exercícios de reflexão Apreender e perceber certamente já são um passo considerando que as de sigualdades sociais baseadas no gênero e nas sexualidades são extremamente naturalizadas em nossa cultura o que dificul ta produzir uma dobra sobre aquilo que está estratificado no campo social No entanto pensamos que um dos grandes desafios reside na dificuldade de reconhecer as mais diversas modalidades de violências bem como as vidas que em alguns contextos são consideradas de menor valor ou precárias ou nem mesmo são apreendidas como vidas Judith Butler 2010 p 18 sinaliza as diferenças entre apreensão e reconheci mento tal vez sea necesario considerar la posible manera de distinguir en tre aprehender y reconocer una vida El reconocimiento es un término más fuerte un término derivado de textos hegelianos que ha Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 161 estado sujeto a revisiones y a críticas durante muchos años La aprehen sión por su parte es un término menos preciso ya que puede implicar el marcar registrar o reconocer sin pleno reconocimiento Si es una for ma de conocimiento está asociada con el sentir y el percibir pero de una manera que no es siempre o todavía no una forma conceptual de co nocimiento Lo que podemos aprehender viene sin duda facilitado por las normas del reconocimiento pero sería un error afirmar que estamos completamente limitados por las normas de reconocimiento en curso cuando aprehendemos una vida Podemos aprehender por ejemplo que algo no es reconocido por el reconocimiento De hecho esa aprehensión puede convertirse en la base de una crítica de las normas del reconoci miento grifos nossos Assim as capacitações quando conduzidas de modo a fazer com que possamos pensar identificar apreender e sobretudo reconhecer os problemas que afetam a nós mes mos e os grupos considerados mais vulneráveis podem fazer como que o invisível opere visibilidade e o impensado se tor ne enunciável Fernández 2008 p 31 Nesse sentido acre ditamos que espaços como os produzidos durante os cursos podem funcionar como importantes dispositivos políticos nas lutas pelos direitos humanos e contra todas as formas de violências discriminações e preconceitos baseados não ape nas no gênero e nas sexualidades mas também na raçaetnia na classe social na idade no local de origem entre outros marcadores sociais de diferença que estabelecem hierarquias e exclusões Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA INTERDISCIPLINAR DE AIDS ABIA Abia responsabiliza perda da ousadia na resposta brasileira pelo aumento de infecções por HIV no país 18 jul 2014 Disponível em httpabiaidsorgbrp26647 Acesso em 29 ago 2014 162 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA BRASIL Conselho Nacional de Combate à Discriminação Brasil sem Ho mofobia programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e de promoção da cidadania homossexual Brasília 2004 Ministério da Saúde Política nacional de saúde integral de lésbicas gays bissexuais travestis e transexuais Brasília 2010a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Re pública Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH3 Brasília 2010b BRAZ C Políticas culturais LGBT no Brasil contemporâneo interpreta ções antropológicas de uma cultura adjetivada In CONGRESS OF THE LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION Anais Washington DC 29 maio1o jun 2013 BUTLER J Marcos de guerra las vidas lloradas Barcelona Paidós Ibérica 2010 Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2003 1990 DÍAZ G A Sexualidades concepções de psicólogosas de unidades bá sicas de saúde de Florianópolis Dissertação Mestrado em Psicologia Programa de Pósgraduação em Psicologia Universidade Federal de Santa Catarina Florianópolis 2012 175 p FERNÁNDEZ A M Las lógicas colectivas imaginários cuerpos y multiplici dades 2 ed Buenos Aires Biblos 2008 FOUCAULT M A evolução da noção de indivíduo perigoso na psiquia tria legal do século XIX In Ditos escritos ética sexualidade e política 2 ed Rio de Janeiro Forense Universitária 2006 v V História da sexualidade a vontade de saber São Paulo Graal 1988 v 1 JESUS J G Orientações sobre identidade de gênero conceitos e termos Guia técnico sobre pessoas transexuais travestis e demais transgêneros para for madores de opinião 2 ed Brasília 2012 Disponível em httpwwwser taoufgbrup16oORIENTAC387C395ESSOBREIDENTIDA Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 163 DEDEGC38ANEROCONCEITOSETERMOS2C2AA EdiC3A7C3A3opdf Acesso em 30 ago 2014 JUNQUEIRA R D Aqui não temos gays nem lésbicas estratégias dis cursivas de agentes públicos ante medidas de promoção do reconhecimen to da diversidade sexual nas escolas Bagoas Natal n 4 p 171189 2009 Heterossexismo e vigilância de gênero no cotidiano escolar a pe dagogia do armário In SILVA F F da Org Corpos gêneros sexualidades e relações étnicoraciais na educação Uruguaiana Unipampa 2011 Pedagogia do armário a normatividade em ação Revista Retratos da Escola Brasília v 7 n 13 p 481498 juldez 2013 MISKOLCI R Pânicos morais e controle social reflexões sobre o casamen to gay Cadernos Pagu Campinas n 28 p 101128 janjun 2007 MOUFFE C Por um modelo agonístico de democracia Rev Sociol Polít Curitiba n 25 p 1123 nov 2005 PANEGASSI J Ativistas criticam Padilha por veto aos quadrinhos sobre sexualidade e comparam medida à censura imposta pela ditadura Agência de Notícias da Aids São Paulo 16 mar 2013 Disponível em httpwww agenciaaidscombrnoticiasinternaphpid20477 Acesso em 29 ago 2014 PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero 2007 Disponível em httpwwwclamorgbrpdfprincipiosde yogyakartapdf Acesso em 30 ago 2014 RUBIN G Pensando o sexo notas para uma teoria radical das políticas da sexualidade Cadernos Pagu Campinas n 21 p 188 2003 Chá de Damas desafios e estratégias para a inserção no campotema prostituição Jaileila Menezes Karla G Adrião Amanda K C Guedes Ana Letícia Veras Cristiano C Ferreira Douglas B de Oliveira e Sarana M de S Santos O presente texto tem por finalidade realizar uma reflexão sobre a ação Chá de Damas integrante do Programa Diálo gos para o Desenvolvimento Social em Suape1 Esta tem como eixo norteador o uso de metodologias e estratégias que visem a ao empoderamento2 de mulheres profissionais do sexo b ao protagonismo delas na conscientização quanto ao uso de preservativos durante as relações sexuais no combate à explo ração sexual infantojuvenil por parte de agenciadoresas ou estabelecimentos e c ao combate ao uso abusivo de álcool e outras drogas Para o desenvolvimento das ações junto às prostitutas3 dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca a equi 1 Queremos expressar nossos agradecimentos às professoras Luciana Vieira e Wedna Galindo que estiveram à frente do trabalho do Chá de Damas entre maio de 2012 e junho de 2013 Decerto muito do aqui narrado e discutido tem a contribuição delas Também gostaríamos de agradecer a Nanci Feijo da Associação Pernambucana de Pro fissionais do Sexo APPS O próprio capítulo mostrará o quanto sua participação no Chá de Damas foi importante para o êxito do projeto A Nanci dedicamos este texto 2 Apesar das tensões em torno do termo empoderamento optamos por utilizálo com preendendo que ao considerarmos a polissemia que o caracteriza ao ser trazido para o português e o deslocarmos de seu uso inicial em inglês ele ganha configurações que condizem com nossa proposta metodológica Empoderar significa retomar o poder que já existe a partir da tomada de consciência de que ele pode e deve ser acessado nas vidas das mulheres 3 Usaremos neste texto os termos prostituta e profissional do sexo como sinônimos conscientes das distinções que carregam Para nós o termo prostituta reatualiza a partir dos deslocamentos do que seria abjeto para o centro do debate A expressão Chá de Damas Jaileila Menezes et al 165 pe realizou um processo de formação teóricometodológica a fim de subsidiar a entrada no campo e o delineamento de estratégias para conhecimento dos pontos de prostituição e interação direta com as profissionais do sexo Essa primeira etapa de trabalho teve inspiração etnográfica pautada pela vi vência de diferentes níveis de estranhamento pela equipe de trabalho no processo de aproximação da cultura local desse determinado grupo A intenção era da experiência com o diferentea diferença questionar nossas matrizes culturais admitindo o olhar parcial e subjetivo doa pesquisadora Geertz 2005 A entrada no campo implicou conhecer a rede de causalidades intersubjetivas as diversas vozes implicadas os artefatos e materialidades que constituem e dinamizam as práticas cotidianas desse universo de atoresatrizes sociais Adotamos a estratégia de mapeamento Menezes e Costa 2010 que tem por objetivo dar visibilidade à circunscrição geográfica de pessoas eou grupos sociais no território iden tificando pontos que se interconectam e permitem o enten dimento de fluxos sociais políticos e financeiros Durante o mapeamento a equipe distribuía os materiais de redução de danos como preservativos femininos e masculinos e marca dores de texto e folhetos informativos produzidos pelo Pro grama Diálogos com informações sobre DSTs e HIVAids e orientação acerca do não uso abusivo de álcool e outras dro gas assim como alguns telefones e endereços importantes para as mulheres crianças eou adolescentes em situações de vulnerabilidade social Ao viver o estranhamento a equipe também se depa rou causando estranhamentos afinal as pessoas locais não pareciam familiarizadas com procedimentos de distribuição de preservativos e algumas se mostraram desconfiadas inqui profissional do sexo em contrapartida aporta o debate no campo do acesso a direitos particularmente os trabalhistas questão central para o cotidiano de lutas das prostitutas 166 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA rindonos se não seríamos vinculadosas a órgãos governa mentais ou mesmo à polícia já que andávamos procurando pontos de prostituição pela cidade A vivência desse tipo de dificuldade foi fundamental para a equipe compreender as pectos da cultura sexual do local A chegada de uma assisten te de pesquisa com experiência no campotema prostituição trouxe novo fôlego para o mapeamento dado seu conheci mento da rede de relações do mercado sexual do local Como fechamento desse primeiro momento de inserção no campo aplicamos um questionário junto às prostitutas sobre o per fil delas As respostas ao questionário colaboraram para a montagem de nossa segunda intervenção agora por meio de um formato de oficinas para o trabalho mais contínuo com os temas do projeto e também com os temas sugeridos pelas próprias prostitutas O presente texto está dividido em três partes os pressu postos teóricometodológicos do trabalho de intervenção es tratégias de entrada no campotema prostituição conhecen do as Damas e elaborando novas ações 1 Pressupostos teóricometodológicos do trabalho de intervenção O projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape é uma pesquisaintervenção e tem como finalidade in vestigar quais foram os impactos causados nos municípios de Cabo de Santo Agostinho Ipojuca e entorno com a chegada das principais empresas e a Refinaria Abreu e Lima Petrobras a Suape Por se caracterizar como uma pesquisaintervenção a metodologia utilizada em tal projeto é voltada para uma atuação potencializadora de mudança nos sujeitos eou gru pos sociais que vivenciam dada realidade sociopolítica Os ca minhos traçados durante a pesquisa são tematizados como Chá de Damas Jaileila Menezes et al 167 possibilidades de garantia da participação dos sujeitos envol vidos ao longo do processo A presença doa pesquisadora interfere na dinâmica do grupo social e esse aspecto ganha re levo em uma perspectiva que abdica da neutralidade e quer dá visibilidade aos efeitos de poder do próprio ato de pesquisar intervir Rocha e Aguiar 2003 Consideramos os diversos níveis de intervenção da pes quisa na realidade social bem como seus efeitos de mudança O trabalho com grupos em condição de vulnerabilidade social em contexto de desenvolvimento econômico parece já anun ciar que os riscos existentes no projeto de desenvolvimento afetam de modo desigual diferentes grupos populacionais a exemplo de mulheres jovens e crianças Nesse cenário o projeto se propõe discutir as consequências da instalação do complexo industrial na região e estabelecer soluções para de mandas da população local como o enfrentamento à explo ração sexual infantil a prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas a violência física e sexual contra as mulheres e o agenciamento sexual de profissionais do sexo assim como a conscientização do uso de preservativos durante as relações sexuais A ação Chá de Damas tomou como referência propo sições do campo dos direitos sexuais DS e dos direitos re produtivos DR para o entendimento da complexidade que envolve a prática da prostituição as possibilidades de ações que visem à redução de danos no exercício da profissão e as condições sociais que envolvem entrada permanência e sa ída das mulheres desse mercado sexual Em consonância com Sonia Corrêa e Rosalind Petchesky 1996 entendemos o campo dos DS e dos DR a partir da dinâmica poder e re cursos Logo do ponto de vista das demandas das mulheres em condição de prostituição importa entre outras ações proporcionarlhes informações qualificadas e recursos que garantam sua atividade sexual e profissional pautada pela 168 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA segurança existencial recursos objetivos e subjetivos que possibilitem sua integridade corporal É ampla a literatura que relaciona precariedade das condições de vida com entra da na prostituição o que nos leva a ratificar o argumento das autoras quanto à necessária vinculação dos DS e dos DR aos direitos sociais As práticas de autonomia que o projeto intenta fomen tar estão em consonância com o discurso político dos movi mentos feministas brasileiros que visam a fortalecer grupos historicamente subalternizados para que possam desenvolver um senso crítico sobre as condições sociais que circunscre vem suas opressões de modo a modificálas Adrião 2008 Nesse sentido há também diversos níveis de autonomização e mesmo das negociações com relação ao acesso e uso de pre servativos em uma situação de trabalho caso da prostituição e este pode figurarse como uma dimensão importante do processo de modificação da situação de opressão por parte das mulheres A ação de entrada em campo do Chá de Damas foi pau tada por práticas educativas que incentivam o sexo mais segu ro em relação às doenças sexualmente transmissíveis DSTs além de formar lideranças políticas e sociais que possam dar continuidade às reflexões sobre temas como violência cons trução de identidade na prostituição e sexismomachismo O plano de ação consta de três eixos gerais 1 mapeamento dos espaços de prostituição 2 elaboração e distribuição de ma terial informativo e insumos camisinhas e gel entre as pro fissionais e clientes e 3 realização de oficinas para discutir a vulnerabilidade de mulheres e travestis engajadas no trabalho sexual e fomento de acesso à cidadania e à saúde O grupo Chá de Damas foi composto por estudantes de ciências sociais psicologia e pedagogia seguindo a proposta interdisciplinar que perpassa o projeto Diálogos e coordena do por professoras vinculadas ao curso de graduação em psi Chá de Damas Jaileila Menezes et al 169 cologia e pedagogia e ao Programa de Pósgraduação em Psico logia O processo de formação do grupo contou com reuniões semanais para discussão das temáticas de gênero e sexualida de assim como estudos etnográficos aplicados ao campote ma prostituição e conteúdos de trabalho em grupo principal mente em relação a oficinas e trabalhos com grupos A partir das reuniões de orientação teóricometodológica passamos a sistematizar discutir e refletir sobre as ações que aconteciam e a planejar as futuras além de nos familiarizarmos com expe riências e contextos antes de adentrarmos o campo A prostituição é uma prática social com significativo las tro histórico tem sido estudada nas mais diversas áreas do saber e é marcada pela pluralidade de pontos de vista quanto a seu caráter opressorlibertador No debate feminista há uma vertente que ressalta a relação da prostituição com o tráfico de seres humanos a opressão patriarcal advinda do machismo e demais práticas de subordinação que posicionam as mulheres prostitutas como vítimas do assédio e abuso sexual Outras correntes atuam rejeitando a ideia de que a prostituição é inerentemente degradante valorizamna como uma forma de serviço de trabalho traçando nítidas distinções entre a prostituição voluntária exercida por adultos e a prostituição forçada infantil Piscitelli 2013 p 118 Na tentativa de de finição mais ampla encontramos em Letícia Barreto Cláudia Mayorga e Míriam Grossi 2013 a referência a uma prática que envolve trocas financeiras afetivas e sexuais não necessa riamente envolvendo a prática sexual Como postura éticopolítica que orientou as ações do Chá de Damas a equipe não buscou atribuir juízo de valor às práticas das profissionais do sexo o objetivo não era tirar nin guém da prostituição nem questionar os motivos pessoais de cada uma Desde o início nosso trabalho em campo consistia em proporcionar discussões sobre cidadania e saúde e favore cer a formação de lideranças 170 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Antes mesmo da entrada no campo físico fomos afetadosas pelos efeitos do tema do projeto em nós Segun do Marisa Peirano 1995 na pesquisa de campo é preciso interesse e empatia Pelo fato de sermos seres sociais pesqui sando outros certamente somos direcionados por nossa sub jetividade dentro e fora do campo A trajetória de vida doa pesquisadora exerce grande influência no estudo e na for ma de compreendermos e nos relacionarmos com os sujeitos e com suas práticas sociais Por esse motivo a identificação com o estudo funciona como um incentivo o reconhecimen to da importância do que se está fazendo funciona como mo tivação E certamente foi isso que nos levou adiante enfren tando dificuldades que surgiram ao longo do processo Sobre essas questões acompanhemos o que diz o diário de campo de dois dos participantes de nossa equipe Dentre todas as temáticas estudadas no projeto Diálogos o Chá de Damas foi o primeiro que me chamou a atenção Sem pre gostei de estudar assuntos referentes à sexualidade e nunca tinha tido a oportunidade de ver este tema relacionado à pros tituição tema que na minha cabeça ainda era constituído por diversos estereótipos e tabus Eu tive a intenção de me surpre ender com a temática depois que li o edital ousado do projeto Chá de Damas Amanda extraído do diário de campo Quando soube da proposta do Chá de Damas e seu públicoal vo de intervenção o interesse despertado em mim foi imediato Era uma oportunidade de experiência atípica dentro da temáti ca que me interesso e se pensava que tinha conhecimento sobre a área vi o quanto ainda tinha de aprender e aprendi com as prostitutas Douglas extraído do diário de campo Esse momento de preparação do grupo de estudantes foi bastante enriquecedor já que era possível colocar opini ões dúvidas inquietações e satisfações As leituras e discus sões teóricometodológicas também foram importantes para vivenciarmos deslocamentos em nossos próprios discursos Chá de Damas Jaileila Menezes et al 171 preconceituosos e normatizantes além da necessidade de cons truir familiaridade com formas de organização discursos e có digos do grupo específico com o qual estávamos trabalhando A inspiração etnográfica foi fundamental ao processo de estranhamento e à reflexão sobre os efeitos e implicações doa pesquisadora no campo Assim sem desconsiderar a análise de documentos elaborados por terceiros resolvemos investir na produção de dados próprios dando relevo a nossos registros em diário de campo operando por meio de descri ção e interpretação das cenas e cenários que pudemos acessar Trabalhamos na perspectiva de que costumes e crenças têm significados de acordo com contextos socioculturais Assim a ação humana é orientada pelo significado canônico que re gula a complexidade da vida social buscando coerência e inte gração Por outro lado sabemos dos efeitos da política sobre a cultura e a diferençao diferente impõese em dada ordem ora ratificando a organização ora desestabilizando os códigos da cultura local Entendemos que as prostitutas estão integra das aos códigos da cultura sexual local desde que seus corpos circulem nos locais reservados à sua presença Nós pesquisadorespesquisadoras não fazemos parte da paisagem local e quando adentramos o território produzimos diferença damos visibilidade a pessoas eou temáticas até en tão silenciadas e passamos a compor o campo de referências semióticas daquela população Essas pistas sobre as possíveis intervenções aqui entendidas como ação que intervém sobre outras que operaríamos no campo nortearam a produção dos diários de campo De acordo com Florence Weber 2009 p 168 É o diário que permite o distanciamento indispensável na pesquisa de campo e que permitirá mais tarde a análise do desenvolvimento da pesquisa Um de nossos desafios foi relacionar o trabalho teóri co com o trabalho de campo Para nós conhecer teorias não significa que oa pesquisadora irá ao campo cheio de ideias 172 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA preconcebidas e fixas Devese ir com questões norteadoras no entanto com disposição para mudálas levando problemá ticas e sendo flexível na formulação de novas questões sobre os fenômenos observados como nos aponta Roberto Cardo so de Oliveira 1998 Os estudos teóricos nos serviram como inspiração na relação com o campo que por sua vez é marca do pela complexidade da dinâmica social e cultural 2 Primeiras inserções e desafios no território Nossa primeira visita de campo ocorreu em março de 2012 no município de Cabo de Santo Agostinho Esse foi um momento de exploração e formação de redes de contato Hou ve a visita ao Mercadão do Cabo e a equipamentos da área de saúde e de assistência social como o Centro de Testagem e Aconselhamento em DSTAids o Centro de Prevenção em Violência Doméstica e Sexista e o Centro de Apoio Psicosso cial em Álcool e outras Drogas CAPSAD com o objetivo de localizar uma rede que pudesse interagir com demandas das prostitutas É válido salientar que nessa visita assim como durante a aplicação de questionários PCAP4 realizada pelo programa Diálogos e em conversas informais dos componen tes do projeto com a população a busca de pontos de prosti tuição era constante Lembramos que essa busca visava ao atendimento ao primeiro eixo do plano de ação a saber o mapeamento dos espaços de prostituição A técnica de mapeamento consiste 4 A Pesquisa de Conhecimentos Atitudes e Práticas PCAP constituiu os primeiros pas sos práticos do projeto Diálogos reunindo as diversas ações que integram tal projeto para a aplicação de questionários nos domicílios da população de 15 a 64 anos de idade das diversas áreas dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca As perguntas do questionário envolviam indicadores de conhecimentos atitudes e práticas relaciona das com a infecção pelo HIV e outras DSTs Chá de Damas Jaileila Menezes et al 173 em montar um mapa em que se possam visualizar e localizar os pontos de prostituição verificando aspectos sociais eco nômicos culturais e políticos que circunscrevem as práticas sociais locais Esse procedimento foi considerado fundamen tal para o desempenho das atividades do projeto Chá de Da mas tendo em vista que estávamos lidando com um campo dinâmico pois pelo fato de o agenciamento ser considera do ilegal é muito provável que casas de prostituição abram e fechem de maneira repentina e até mesmo sigilosa Esse é portanto um campo no qual há diversas mudanças de bares e pontos onde o trabalho é desempenhado com repercussões para o processo de localização das prostitutas conhecimen to das condições em que desempenham seu trabalho atores atrizes sociais que compõem a rede de prostituição atuação destesdestas como fatores de proteção ou mesmo contri buindo para uma maior vulnerabilização das mulheres A intenção era que o mapeamento possibilitasse nosso enten dimento da dinâmica do campotema prostituição conhe cendo as pessoas envolvidas direta e indiretamente nesse co mércio os lugares de negociação e exercício da prostituição e mesmo nossa entrada no campo como representantes de um projeto de intervenção no âmbito da saúde e dos direitos A partir desse momento também passamos a fazer parte do circuito da prostituição na subregião de Suape e os efeitos de nossa presença nesse campo também serão aqui relatados e problematizados Nessa primeira visita poucas foram as pessoas que sa biam informar locais onde poderíamos encontrar as profis sionais do sexo mas dois nos foram indicados um bar em Gaibu5 e o Mercadão Municipal do Cabo Almejando averi 5 Gaibu é um dos bairros que compõem o município do Cabo de Santo Agostinho e sua praia é uma das mais famosas e movimentadas de todo o litoral pernambucano recebendo grande número de turistas 174 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA guar tais informações dois dos bolsistas de pesquisa do sexo masculino se dispuseram a visitar o bar de Gaibu em caráter informal sem explicitar a condição de bolsistas de um projeto de pesquisaintervenção Em consenso foi decidido que não seria estratégico que todo o grupo adentrasse o local e como maior parte do grupo era composta por integrantes do sexo feminino havia certo receio das próprias pesquisadoras sobre os possíveis impactos oriundos da chegada de um grupo de jovens mulheres em um espaço de prostituição Trabalhando com uma perspectiva de gênero na qual as relações de poder regulam os corpos e as subjetividades das pessoas a partir de marcadores binários da ordem do sexo gênero na interface com outros marcadores de desigualdades Butler 2003 Piscitelli 2013 por que reiterar uma regra na qual a circulação de corpos em espaços públicos e à noite é legitimada para aquelas pessoas que performatizam o gêne ro no masculino Nossa resposta fala dos próprios limites do campo e da potência de estar atentos a essas restrições Não reproduzimos práticas desiguais antes utilizamonos delas para entrarmos em um campo tenso e complexo de forma tal que pudéssemos trabalhar homens e mulheres nas mesmas condições Feitas as negociações na equipe os dois pesquisadores fo ram ao estabelecimento e já na entrada receberam a informa ção dada por um segurança de que era necessário pagar uma taxa É importante registrar que as mulheres tinham entrada gratuita e os pagantes recebiam um papel que permitia saída e nova entrada sem que houvesse outra cobrança O bar estava pouco movimentado e logo após a entrada podiamse ver as prostitutas sentadas na frente com figurinos que evidencia vam seus corpos umas próximas às outras e algumas já nas mesas com os frequentadores Sentamonos pedimos uma bebida e agimos como clientes comuns de um bar Chá de Damas Jaileila Menezes et al 175 Lá atentamos para a estrutura do local uma espécie de casa gradeada que funcionava como bar e que em seu quintal de limitado por um muro ficavam as mesas para os clientes O local possuía uma jukebox onde era possível escolher músicas para tocar a partir da compra de fichas no bar O local também contava com um jogo de luzes além de um palco Inclusive uma banda estava marcada para tocar música ao vivo O bar só tinha banheiro masculino e nesse havia um grande buraco em que era possível ver o lado da casa onde tinha vários quartinhos que as prostitutas utilizavam aos quais se tinha acesso através do interior da casa Douglas extraído do diário de campo A estrutura do local revela bem o cenário da prostitui ção exercida em estabelecimentos para esse fim As mulheres ficam dispostas no salão e o palco além de shows de músi ca também abriga performances de striptease O uso de grades chama atenção como procedimento de segurança evitando a entrada de pessoas e principalmente a saída sem pagamento da consumação E a existência de um único banheiro como identificado para homens traz à tona uma compreensão de que a organização desse espaço é pautada pela heterossexua lidade espaço de homens que vão em busca de mulheres da casa Não se espera uma clientela feminina que pode inclu sive ameaçar o negócio da casa gerando concorrência entre frequentadoras e prostitutas Os pesquisadores escutaram uma conversa entre um cliente e uma prostituta na qual havia uma negociação do programa A profissional disse que cobrava 50 reais e logo depois os dois foram ao interior da casa A prostituta deu a quantia para o responsável pelo bar De acordo com Letícia Barreto e Marco Aurélio Prado 2010 há variações na práti ca da prostituição a depender do local onde ela ocorre o que repercute entre outras coisas no preço médio e no tipo de programa Devese atentar para as condições que circunscre vem o trabalho no sentido do enfrentamento às situações de 176 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA exploração econômica que marcam historicamente a inserção das mulheres no mercado de trabalho ainda mais quando a ocupação que exercem é mantida na clandestinidade por cau sa do preconceito social o forte estigma relacionado à prostituição seu status ilegal e sua exclusão de proteções so ciais que habitualmente são oferecidas a outras profissões im plicam numa sic maior vulnerabilidade à violação de direi tos Barreto e Prado 2010 p 201 A primeira visita institucionalizada do Programa Diálo gos aconteceu no Mercado Municipal do Cabo de Santo Agos tinho o Mercadão Tratase de um local espaçoso onde há uma área para venda de legumes frutas verduras entre outros objetos como roupas e panelas Há um local ao lado que tam bém faz parte do Mercado que agrega bares muitas mesas e cadeiras um pequeno palco e um pátio livre onde prova velmente as pessoas devem dançar quando há show Esse é um local central da cidade do Cabo próximo ao Terminal Integra do ao metrô ao comércio sendo portanto de fácil acesso e considerado ponto de encontro na cidade O Mercado pare ce reunir uma diversidade de frequentadores como famílias casais namorando pessoas sozinhas e grupos de amigos No tamos que o local é bastante frequentado por funcionários de Suape por causa do uniforme Quando chegamos não havia muita gente provavelmente por ser uma quintafeira e pelo horário relativamente cedo da noite6 A institucionalização de nossa presença em campo ficou evidente pelo transporte utilizado van devidamente identifi cada com o símbolo da Universidade Federal de Pernambuco UFPE e a camisa utilizada pelos membros da equipe com a logomarca do Diálogos da UFPE e dos principais apoiadores 6 Comumente nossas idas a campo ocorriam às quintas e sextasfeiras à noite com che gada a partir das 19h Chá de Damas Jaileila Menezes et al 177 do Programa A ação teve o caráter de explorar o território e também para procedermos à entrega de insumos para a po pulação fôlder de divulgação do Programa Diálogos explici tando seus objetivos eixos temáticos atividades alvo popula cional e apoiadores e executores do projeto panfleto Vamos conversar sobre sexualidade com informações sobre doen ças sexualmente transmissíveis DSTs a importância do uso do preservativo e a indicação de locais de distribuição marca dores de página abordando temas como redução de danos de álcool e outras drogas visibilidade trans e respeito à mulher Os relatos do diário de campo revelam nuanças dessa inserção em campo Aquela quintafeira de fato era um dia regado de alegria por ser um momento que tanto esperávamos e um caminho que es tava sendo traçado há meses de expectativa pela ânsia de conhe cer o campo a ser explorado as informações que poderíamos explorar de lá e de insegurança pelo desconhecimento das sur presas positivas ou negativas que o campo poderia nos reservar e a angústia em saber que aquele primeiro contato poderia não resultar na fluidez que desejávamos Neste primeiro momen to o grupo em geral se apresentava bastante nervoso pois tí nhamos palavras prontas para um discurso estrategicamente ligeiro que comportasse as minúcias de um campo ainda des conhecido uma fala mais ou menos ensaiada onde ainda não estávamos inteirados completamente acerca do que o projeto se propunha havendo o temor de surgir alguma pergunta e não sabermos responder Sarana extraído do diário de campo Antes da visita foi acordado que todosas iriam obser var distribuir o material informar sobre o Projeto Diálogos e se houvesse abertura falar dos diversos eixos de ação inclusi ve do Chá de Damas Também foi planejado que não houves se comentários entre osas pesquisadoresas sobre o que foi observado durante a visita reservando a troca de informações para um momento posterior Por esse motivo cada integrante 178 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA estava com caneta e papel para se necessário anotar observa ções que serviriam como base para a organização do diário de campo após a visita Antes das intervenções o grupo foi divi dido em duplas que iriam abordar os frequentadores do local Realizamos uma abordagem na qual entregamos os kits aos diversos cidadãos que circulavam pelo local de ambos os sexos e diversas faixas etárias e conversamos um pouco sobre a proposta do Programa Diálogos e sobre sexo seguro e exploração sexual infantil Denominamos kit uma embala gem de plástico devidamente etiquetada com a logomarca do programa na qual colocávamos uma cartela com três preser vativos masculinos uma camisinha feminina dois sachês de gel lubrificante panfletos informativos sobre o projeto sobre métodos de prevenção às DSTs demonstrativo de como co locar as camisinhas com ilustração e uma cartilha com in formações de endereços locais e números nacionais do Con selho Tutelar disquedenúncia para os casos de exploração sexual e de ONGs como o Centro das Mulheres do Cabo7 Os kits funcionaram como bons mediadores do contato da equipe com a população local pois havia interesse em abrir a embalagem ver os materiais e a equipe aproveitava a oportu nidade para falar sobre algo que literalmente estava nas mãos da população Nessa visita ao Mercadão começamos por abordar as pessoas nas mesas dos bares mas antes pedimos permissão para os funcionários dos estabelecimentos e explicamos qual 7 O Centro das Mulheres do Cabo CMC é uma organização feminista constituída como entidade privada sem fins econômicos e organizada como associação de mulheres tendo como missão construir a igualdade de gênero e afirmar os direitos de cidadania das mulheres A ação do CMC contribuiu para interiorizar o movimento de mulheres e feministas em Pernambuco além de ampliar e fortalecer as organizações autônomas de mulheres Disponível em httpwwwmulheresdocaboorgbrwordpressp404 Acesso em 9 ago 2014 O CMC integra um dos projetos vinculados ao Programa Diá logos em Suape e se destaca pelo uso da rádio comunitária como tecnologia fundamen tal para a mobilização comunitária Chá de Damas Jaileila Menezes et al 179 era nossa função ali Percebemos que algumas pessoas ficaram um pouco incomodadas com nossa abordagem recusaramse a receber os insumos enquanto outras não permitiram que falássemos do Programa Contudo aquelas que permitiram recebiam os kits e agradeciam por nosso trabalho Muitas vezes nossa presença foi solicitada Íamos até as mesas ou mesmo para dentro dos bares a pedido de donos e funcioná rios As pessoas tinham muitas dúvidas em relação à nossa presença e chegamos a escutar alguns comentários como O que será que eles querem aqui Por que estão dando camisi nha de graça Será que são mandados da prefeitura Durante a entrega dos preservativos observamos situa ções que merecem ser relatadas Expressões como me dá mais pois hoje a noite vai ser longa eram frequentemente ditas por homens deixando clara a forte necessidade de demonstração de virilidade e da intensa atividade sexual A dominação mas culina em relação à mulher também já que era comum es cutar frases de homens no momento da entrega como não quero mulher minha com isso Também foi comum a reação de homens que não aceitaram camisinhas justificando que possuem apenas uma parceira fixa Mas na sequência a essa afirmação surgia a seguinte se eu chegar com camisinha a mulher me bota para fora de casa demonstrando que o pre servativo não é utilizado entre casais com relacionamento fixo certo fechamento das possibilidades de negociação de uso en tre o casal o posicionamento da mulher como intolerante e a representação da camisinha como ameaça ao relacionamento do casal possivelmente significando quebra de confiança rela cionada com a infidelidade A recusa em receber o preservati vo informa sobre os códigos sexuais da cultura local em que um homem bem casado com parceira fixa não é bem visto quando tem em sua posse preservativos Esse comportamento sugere também que a camisinha não é utilizada como método anticoncepcional entre casais casados 180 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Nessa ocasião as jovens mulheres da equipe também so freram investidas que demonstram códigos de gênero e sexu alidade da cultura local As pesquisadoras receberam convites para tomar uma cervejinha depois do trabalho ou foram questionadas de modo malicioso sobre como se usa isso a camisinha Essas situações de saia justa vivenciadas no campo serviram como dado de que mulheres circulando em determinados locais públicos da cidade e sem a devida com panhia de seus parceiros estão disponíveis para investidas dos homens do lugar Ainda mais em se tratando de mulheres jo vens oferecendo produtos para uso durante relações sexuais ou seja ousando ter conhecimento em uma dimensão da vida que tem forte inscrição como símbolo de masculinidade e viri lidade a sexualidade A adesão às práticas sexuais frequentes a forte disposição para a atividade sexual estar sempre pronto para ter relações sexuais com uma mulher foram observados em várias situações nas quais os homens foram abordados Quadros 2011 p 70 As informações coletadas em situações de conversas in formais mediadas pela entrega dos kits possibilitaram o enten dimento de uma cultura sexual local marcada por uma com plexa lógica de permissões e proibições Práticas sexuais entre homens são condenadas assumirse homossexual exige forte disposição para lidar com o preconceito e por que não dizer também com o medo8 Além disso a complexidade do campo e dosdas atoresatrizes que o compõem é grande Em nossas inserções encontramos informantes que indicaram a presen ça de travestis que se montam e dançam no local nas sextas e sábados a partir das 21h o que caracteriza também uma for 8 Matéria veiculada em 22 de julho de 2013 por um jornal virtual informou sobre os as sassinatos de sete homossexuais em um período de pouco mais de um ano registrados no município do Cabo de Santo Agostinho na Região Metropolitana do Recife RMR Chá de Damas Jaileila Menezes et al 181 ma de comercialização de sexo9 Em relação às travestis houve um comentário que merece ser salientado alguns motoboys informaram que um travesti foi morto porque falava muito sugerindo que ela comentava sobre seus clientes E uma gar çonete de um dos bares do Mercadão relatou que seu colega de trabalho é gay mas tem vergonha de assumir Além dis so um motoboy que estava próximo afirmou ter um parceiro sexual mas que essa relação não era explícita nem pública Nessa primeira visita também aproveitamos para per guntar sobre a presença de mulheres prostitutas no local A impressão deixada foi de que a prostituição é silenciada Em geral o questionamento a respeito da prostituição foi reali zado com os próprios funcionários dos bares no entanto a maioria do grupo não conseguiu informações não tendo fi cado claro para nós se os funcionários não sabiam ou se não queriam falar No entanto duas pessoas da equipe consegui ram a informação de que as prostitutas ocupavam os arredo res do Mercadão aos sábados por volta das 21h Elas ficavam dançando no centro da praça tornando fácil identificálas Algumas já eram conhecidas ali e uma funcionária chegou a dizer que tem uma que sempre passa toda roxa por aqui dando a entender que ela sofre violência física Alertaram também que elas talvez fossem resistentes a qualquer contato pois não queriam saber de ninguém e que até em momen tos de brigas elas não aceitavam a ajuda de nenhuma pessoa mostrandose inclusive hostis a esse auxílio A informação mais concreta que obtivemos a respeito da prostituição nas proximidades foi de que havia na rua 9 A prostituição foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações CBO em 2002 e compõe a descrição profissionais do sexo Nesta cabem diversos profissionais como transexuais e travestis o que torna evidente que a ocupação não é exclusivamente de mulheres Estão inclusos na definição da área de atividade batalhar programa produ zirse visualmente e dançar para o cliente Barreto 2008 Tais descrições e definições colaboram para a compreensão da complexidade social do comércio sexual corrobo rando a ampliação dos significados das práticas sexuais 182 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA lá pra cima Um mototaxista também confirmou dizendo que se continuássemos subindo a rua encontraríamos uma praça onde havia alta concentração dessas profissionais Com essa informação voltamos à van e procuramos o local indica do pelo rapaz em vão Após algum tempo procurando pela praça decidimos interromper nossa busca naquele dia Fina lizado esse primeiro contato voltamos para casa com muitas dúvidas receios e observações sobre o campo o que nos moti vou para as próximas inserções Percebemos que o Mercadão não se caracterizava exa tamente como um ponto de concentração das prostitutas Sentíamos portanto que precisávamos ir em busca de ou tros locais a fim de encontrar esses pontos mas estávamos extremamente perdidos sentindo necessidade do apoio de alguém que facilitasse o mapeamento 3 Entre nós e elas mediação como estratégia de mapeamento Diante das dificuldades vivenciadas pela equipe em loca lizar os pontoslugares de prostituição e acessar as profissio nais do sexo foco de nosso trabalho de intervenção passa mos a contar com a presença de uma assistente de pesquisa qualificada a presidente da Associação Pernambucana de Profissionais do Sexo APPS Nanci Feijó Por seu papel de liderança e militante em diversas causas relacionadas com a garantia de direitos para as profissionais do sexo Nanci pas sou a nos acompanhar no trabalho de campo contribuindo sobremaneira para o mapeamento Sua abordagem segura sua fala militante de conscientização das mulheres com rela ção ao preconceito direitos e deveres da profissão violência atenção ao sexo seguro e o papel da APPS em Pernambuco possibilitaram nossa aproximação dos estabelecimentos co Chá de Damas Jaileila Menezes et al 183 merciais e das próprias mulheres prostitutas Notamos que as prostitutas ficaram muito à vontade com a presença e a fala da coordenadora da APPS e que isso tornou nossa chegada leve e agradável No total visitamos cinco pontos de prostituição no Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca ao longo de seis meses de atua ção Nossas visitas ao Mercadão continuavam pois acreditáva mos que ali podíamos encontrar clientes das prostitutas mes mo que elas não estivessem necessariamente no local Conti nuávamos a distribuir os kits aos frequentadores do lugar e utilizamos esse material também como mediador de nosso contato com as profissionais nos bares boates e cabarés Na situação de entrega dos materiais podíamos conver sar de modo mais informal com as mulheres profissionais do sexo que relataram entre outras coisas a dificuldade de uso do preservativo feminino Muitas disseram que o preserva tivo incomoda que com ele não é possível fazer sexo em vá rias posições faz barulho temem que ele entre na região da vagina A intervenção da assistente do projeto nesse cenário de reclamações consistiu em fazer uma demonstração do uso seguro do preservativo feminino e orientar as mulheres para que sempre o tivessem na bolsa Isso porque há também uma resistência muito grande dos homensclientes em usar o pre servativo masculino principalmente homens casados Essa recusa parecenos estar relacionada entre outros aspectos com uma não familiaridade com a camisinha pois ela não faz parte do cotidiano de suas práticas sexuais com a parceira fixa e acaba não sendo usada também com as parceiras ocasionais o que vulnerabiliza ambas as mulheres a contrair doenças e in fecções sexualmente transmissíveis Nesse cenário assistente e pesquisadoresas sustentavam a importância de as profissio nais terem um preservativo seu para garantir sua segurança no exercício de seu trabalho não contrair DST ou HIV ou ainda gravidez indesejada 184 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Chegar aos locais de prostituição com uma assistente de pesquisa qualificada experiencialmente na temática nos deu a segurança necessária para futuras investidas e mesmo nos afirmou junto à população local como representantes de um projeto de intervenção e não informantes da polícia A coor denadora da APPS era conhecida por alguns donos de esta belecimentos e pelas prostitutas logo por estarmos em sua companhia ia ficando claro que não tínhamos ali uma função policialesca Fomos paulatinamente incorporadosas no cir cuito da prostituição e os episódios de cerceamento de nossa presença no interior de bares e boates foram se tornando me nos frequentes Esse processo de entrada no campo deixou clara a im portância do informantechave e de seu papel mediador Ficou evidente também a importância da experiência como solo de compartilhamento de vivências de dificuldades desi gualdades resistências Se por um lado nós da comunida de acadêmica pessoal da universidade como passamos a ser denominados no campo não tínhamos um solo comum de experiência profissional com aquelas mulheres por outro passamos a entender que em vários outros pontos podíamos nos encontrar compartilhando também nossas experiências com relação ao uso de preservativo e sendo propositivosas no sentido de indicar formas de superação das dificuldades vivenciadas Passamos a observar situações que poderíamos propor para deixálas à vontade bem como a nós mesmos para compartilhar experiências É importante afirmar que até mesmo o não dado isto é a ausência de alguns comparti lhamentos também foi levado em consideração já que essa ausência exprime as formas de relações entre os diferentes su jeitos envolvidos Já com certa aceitação e familiaridade no campo a assis tente nos alertou sobre a importância de ser feito um perfil das profissionais do sexo O objetivo era termos um arquivo Chá de Damas Jaileila Menezes et al 185 com as informações das mulheres com as quais estávamos trabalhando Elaboramos em conjunto um questionário com perguntas referentes ao cotidiano das prostitutas no es paço de trabalho e as condições socioeconômicas vivenciadas por elas A coleta das informações ocorreu em três bares mapea dos como lugares onde havia o exercício da prostituição na cidade do Cabo de Santo Agostinho Aproveitamos os dias de entrega dos preservativos e panfletos educativos para convi dar e aplicar o questionário deixando explícito o caráter vo luntário da participação No fim contabilizamos os dados de 30 mulheres Entre as 30 profissionais 25 eram naturais de cidades de Pernambuco e cinco eram de outros estados três da Paraíba duas da Bahia e uma do Rio de Janeiro Em relação à orien tação sexual 25 se afirmaram como heterossexuais quatro como bissexuais e uma como homossexual A maioria delas tinha o ensino médio 16 completo e oito incompleto e 24 delas tinham filhos Quanto à prostituição nove mulheres estavam no exer cício há no máximo um ano quatro dentro de um período de seis a nove anos 16 de dois a cinco anos e uma há mais de 10 anos Um dado interessante foi que quando questiona das sobre o fato de encarar ou não a prostituição como traba lho 24 das 30 mulheres disseram considerar a prostituição um trabalho Esse dado foi questionado e modificado quan do começamos a realizar as oficinas rodas de conversas com elas10 Sobre o Código Brasileiro de Ocupação 26 mulheres não o conheciam e quando perguntadas acerca da existên cia da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo as que conheciam era por causa da presença da coordenadora em nossas intervenções 10 Esse aspecto será objeto de discussão em um próximo texto da ação Chá de Damas 186 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA No campo que compreende as DSTs todas as partici pantes do questionário afirmaram fazer exames preventivos regularmente e só uma afirmou já ter tido alguma DST não informou qual A maioria também alegou usar preservativos em todas as relações sexuais só uma que disse não usar com o companheiro Mesmo com essas informações que evidenciam um bom cuidado com a saúde íntima as profissionais do sexo evidenciaram grande demanda referente a esses assuntos que foram exploradas nos encontros do grupo Em relação à violência contra a mulher foram questiona das sobre a Lei Maria da Penha e as 30 participantes afirma ram ter algum conhecimento sobre ela metade afirmou já ter sofrido algum tipo de violência 12 delas violência física e três violência sexual e 25 conheciam a Delegacia da Mulher 4 Reconsiderações iniciais Mesmo com as tensões e dificuldades o trabalho de cam po foi muito prazeroso e nos levou a montar estratégias mais eficientes para o próximo passo realizar as oficinas e nos sen tirmos mais à vontade para adequar as temáticas que gostaría mos de utilizar a partir da exploração e investigação do campo que fizemos em torno de um ano e quatro meses com a entre ga dos materiais do projeto e as conversas informais com a população local e as prostitutas É interessante observar como o trabalho de entrega de materiais kits que inicialmente parecia enfadonho foi se mostrando um eficiente mediador de nossa inserção e rela ção com o circuito da prostituição As visitas aos pontos de prostituição com o objetivo de entregarmos os insumos pos sibilitaramnos o contato direto com osas diferentes atores atrizes sociais envolvidos na cena Encaramos esse primeiro momento de entrada no campo com uma boa dose de enten Chá de Damas Jaileila Menezes et al 187 dimento das práticas sociais culturais e sexuais do cenário de pesquisaintervenção e problematizando os diferentes signifi cados que a atividade de prostituição tem para os diferentes grupos inclusive para nós mesmos O mapeamento dos pon tos de prostituição a abordagem direta aos donos dos estabe lecimentos comerciais as conversarsas com as prostitutas e a aplicação do questionário constituíram etapas fundamentais para o entendimento do outro Segundo Marisa Peirano 1995 p 4 a antropologia tem como projeto formular uma ideia de humanidade construída pelas diferenças resultado do contraste dos nossos conceitos teóricos ou de senso comum com outros conceitos nativos Como já dito tinhamos questões norteadoras advindas de nossos referentes culturais e teóricos No entanto tínhamos o propósito e a disponibilidade de nos deslocarmos e desestabi lizarmos nossas certezas a partir do encontro e da convivência com a alteridade Ainda durante o processo de formação teórica elabora mos uma primeira proposta de oficina para realizamos com as prostitutas com a temática Cuidados de si envolvendo cabelo unhas maquiagem corpo violência DSTs de modo a realizar uma aproximação gradual e a formação de víncu lo com o grupo Contudo após termos contato com as da mas pela ação de mapeamento percebemos que seria mais estratégico escutar a demanda delas com relação aos temas que consideravam relevantes para trabalharmos no contexto das oficinas11 A partir do desenvolvimento de uma postura de escuta e de uma perspectiva de trabalho participativo pautado pela pesquisaintervenção Rocha e Aguiar 2003 acreditamos que 11 No momento de escuta de suas demandas alteramos a proposta inicial de modo a contemplar temas como família identidade e movimentos sociais A experiência das oficinas com o grupo de prostitutas será abordada em outro texto 188 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA conseguimos construir um bom vínculo com o campo o que nos possibilitou a realização posterior das oficinas com boa adesão por parte das prostitutas Já em perspectiva para esse segundo momento nossas voltas para casa após o trabalho de campo tarde da noite traziamnos mais estímulo prin cipalmente por sabermos que a expectativa era recíproca por parte das mulheres que passamos a conhecer melhor Referências ADRIÃO K G Encontros do feminismo uma análise do campo feminista brasileiro a partir das esferas do movimento do governo e da academia Tese Doutorado UFSC Florianópolis 2008 301 p BARRETO L C Prostituição gênero e sexualidade hierarquias sociais e en frentamentos no contexto de Belo Horizonte Dissertação Mestrado Programa de Pósgraduação em Psicologia Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte 2008 MAYORGA C GROSSI M P Pesquisando e intervindo na pros tituição reflexões sobre subjetividade experiências e militância In SEMI NÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 10 DESAFIOS ATUAIS DOS FEMINISMOS Anais Florianópolis 2013 PRADO M A M Identidade das prostitutas em Belo Horizonte as representações as regras e os espaços Pesquisas e Práticas Psicossociais São João delRei v 5 n 2 dez 2010 BUTLER J Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2003 Série Sujeito e História CORRÊA S PETCHESKY R Direitos sexuais e reprodutivos uma pers pectiva feminista Physis revista de saúde coletiva Rio de Janeiro v 6 n 12 p 147177 1996 Chá de Damas Jaileila Menezes et al 189 GEERTZ C Obras e vidas o antropólogo como autor 2 ed Rio de Janeiro UFRJ 2005 MENEZES J de A COSTA M R Desafios para a pesquisa o campotema movimento hiphop Psicologia Sociedade v 22 n 3 p 457465 2010 OLIVEIRA R C De O trabalho do antropólogo Brasília Paralelo Quinze São Paulo Unesp 1998 PEIRANO M A favor da etnografia Rio de Janeiro Relume Dumará 1995 PISCITELLI A Tensões tráfico de pessoas prostituição e feminismos no Brasil Desafios da Antropologia Brasileira Brasília ABA 2013 QUADROS M T de Homens valores e práticas relacionadas à contracepção em grupos populares Recife UFPE 2011 Publicações especiais do Programa de Pósgraduação em AntropologiaFages ROCHA M L da AGUIAR K F de Pesquisaintervenção e a produção de novas análises Psicol Cienc Prof Brasília v 23 n 4 dez 2003 WEBER F A entrevista a pesquisa e o íntimo ou por que censurar seu diário de campo Horizontes Antropológicos Porto Alegre v 15 n 32 dez 2009 Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado Este texto foi construído a partir de análises relativas a re sultados da pesquisa intitulada Homens nos Serviços Públi cos de Saúde Rompendo Barreiras Culturais Institucionais e Pessoais1 Este estudo em particular teve por objetivo desen volver uma leitura psicossocial dos modos como usuários ho mens e trabalhadores de saúde produzem o cuidado à saúde do homem no cotidiano da atenção básica Alguns elementos nos ajudam a situar a relevância do tema do acessouso dos serviços de saúde no contexto das po líticas públicas voltadas à população masculina no Brasil Um desses elementos é a Política Nacional de Atenção Integral a Saúde do Homem PNAISH Brasil 2009 cujo texto ressalta a importância de ações voltadas aos homens no contexto da atenção integral à saúde reconhecendo em consonância com pesquisas e recomendações da Organização Mundial da Saúde OMS que o envolvimento dos homens no contexto da saú de pode contribuir para melhorar os resultados de programas voltados 1 à prevenção de doenças sexualmente transmissí veis DSTs 2 ao controle da violência de gênero e 3 à saúde reprodutiva minimizando o sofrimento das mulheres e dos próprios homens e garantindo o exercício pleno da cidadania Dando sustentação a esta proposta informações publica das nos Indicadores e Dados Básicos para a Saúde IDB 2006 Brasil e Opas 2007 ressaltam que 1 A pesquisa foi realizada em três cidades brasileiras RecifePE CampinasSP e Floria nópolisSC Neste texto privilegiamos as informações de Recife Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 191 o sexo masculino apresenta maior mortalidade em todas as idades até os 79 anos sendo o excedente de mortes mascu linas mais acentuado nos grupos etários de 15 a 29 80 e de 30 a 39 anos 73 em 2004 84 dos óbitos notificados por causas externas ocorreram entre a população masculina lesões decorrentes de causas externas motivaram parcela considerável 28 da hospitalização de homens de 15 a 29 anos em 2005 A leitura crítica de determinantes sociais em saúde nos leva a reconhecer que as informações citadas denunciam por um lado a construção social de modos de ser homem Me drado et al 2000 e por outro a necessidade de investirmos esforços em pesquisas e projetos de intervenção a partir do enfoque de gênero que permitam ampliar a procura da popu lação masculina por serviços de saúde e compreender como se dá o acesso à rede de saúde reconhecendo seus limites e obstáculos É também a partir do reconhecimento da dimensão simbólica institucional e relacional de gênero Scott 1995 e das transformações nas relações e redes sociais que é pro posta uma abordagem feminista também para o masculino e para os modos de ser homem em nossa cultura Nesse sen tido como afirmam Benedito Medrado e Jorge Lyra 2008 a leitura do sistema sexogênero não deve reificar a dicotomia naturezacultura mas buscar compreender os usos e efeitos que práticas sociais entre as quais podemos incluir aquelas que operam serviços de saúde produzem a partir do exercício constante de oposição entre o masculino e o feminino Esses autores apostam na complexa teia que define as re lações de gênero que nos aponta mais para a diversidade do que para a diferença como resposta à dicotomia e à desigual dade Ao mesmo tempo afirmam que as discussões sobre os 192 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA homens e as masculinidades a partir de leituras críticas são resultados dos desafios e avanços dos debates científicos e po líticos originalmente produzidos pelo movimento feminista e pelo movimento em defesa da diversidade sexual Segundo eles Quando se pretende refazer perguntas ao campo da produção de conhecimento ainda fortemente sexista e androcêntrico ou quando se deseja ressignificar relações sociais de poder e desconstruir o machismo institucionalizado é necessário adotar essa matriz analítica e de compreensão éticoconceitual Medrado e Lyra 2008 p 824 Assim diante da análise crítica do estado da arte de estu dos e pesquisas sobre homens e masculinidades esses autores postulam que é preciso romper com modelos explicativos que em geral reafirmam a diferença e que nos permitem somen te explicar como ou por que as coisas assim o são mas que não apontam contradições fissuras rupturas brechas fres tas que nos permitam visualizar caminhos de transformação progressiva e efetiva Logo devemos apostar na necessidade de abrirmos espaço para novas construções teóricas que res gatem o caráter plural polissêmico político e crítico das lei turas feministas para pensar os homens e as masculinidades Medrado e Lyra 2008 Além disso esses autores enfatizam que não existe uma única masculinidade e que não devemos falar em formas binárias que supõem a divisão entre formas hegemôni cas e subordinadas de ser homem Tais formas dicotômicas baseiamse nas posições de poder social dos homens mas são assumidas de modo complexo por homens particula res que também desenvolvem relações diversas com outras masculinidades No que se refere à atenção básica até o momento os pro gramas governamentais de saúde existentes nesse nível de Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 193 atenção têm aberto pouco espaço para a discussão sobre as necessidades específicas dos homens e sobre a importância da participação masculina no compartilhamento do cuidado dos outros Muitos profissionais de saúde têm admitido ter difi culdades em obter empatia e cumplicidade dos homens nos serviços públicos de saúde o que nos dificulta conhecer mais claramente as necessidades específicas dos homens e nos impede também de definir melhores estratégias para envolvêlos Ao pensarmos a rede do Sistema Único de Saúde SUS os serviços oferecidos pela atenção básica são aqueles mais próximos do cotidiano das pessoas Por meio da Estratégia de Saúde da Família ESF é disponibilizada uma série de pro cedimentos que visam sobretudo à melhoria da qualidade de vida e à prevenção promoção e recuperação dos agravos em saúde Informações do Ministério da Saúde Brasil 2010 apontam que 80 dos problemas de saúde podem ser solucio nados na atenção básica Assim em um território sanitário é possível realizar uma verdadeira sinergia e acessar elementos da rede gerando uma corresponsabilização em uma constru ção coletiva da equidade Além disso é importante ressaltar que um dos objetivos da PNAISH é o fortalecimento e a qualificação da atenção bá sica à saúde de modo que esta esteja preparada para atrair e acolher as demandas dos homens na saúde Compreendese que muitos dos agravos à saúde dos homens poderiam ser evitados se eles realizassem periodicamente as medidas de proteção primária No entanto percebese uma resistência da população masculina na adesão a esse tipo de cuidado com a própria saúde Brasil 2009 mas também uma resistência dos serviços de saúde à incorporação da leitura feminista de gênero e consequentemente uma percepção equivocada de que cuidados em saúde são atribuições exclusivamente femi 194 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA ninas Medrado 2003 Medrado e Lyra 1999 Medrado et al 2000 A partir do posicionamento das microrrelações estabe lecidas pelas pessoas com o território os saberesfazeres em saúde e os serviços oferecidos pelo Estado essa configuração possibilita outras formas de produção de cuidados em saú de Isso porque a ESF permite a utilização de todos os recur sos disponíveis no território por ela coberto havendo espaço para o desenvolvimento de práticas alternativas em que osas comunitáriosas são ao mesmo tempo públicoalvo e autor além de que é nesse lugar em que as políticas desenvolvidas pelo Estado se encontram com a população ocorrendo aí os espaços de negociação resistência controle burla entre ou tras estratégias 1 Contexto da pesquisa Este estudo foi desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa por meio da realização de uma pesquisa explora tóriodescritiva O trabalho de campo procedeu em meio aos contextos institucionais destinados às práticas públicas de produção do cuidado à saúde mais especificamente no âmbi to da atenção básica Optamos como campo de investigação pelo espaço de uma Unidade Básica de Saúde UBS referenciada ao cuidado à saúde do homem na Região Metropolitana de RecifePE A escolha dessa UBS foi orientada pelo fato de ela ser a única na cidade que oferecia na época alguma atividade voltada espe cificamente para o público masculino permitindonos uma maior aproximação ao acesso e à adesão de homensusuários às atividades propostas Assim a UBS escolhida tem como diferencial iniciati vas da equipe de trabalhadores que buscam contemplar os Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 195 homens em seu cotidiano Entre essas iniciativas citamse o Grupo de Homens reunião semanal em espaço extrasserviço na qual homens da comunidade discutem temáticas diversas sob a mediação de algum trabalhador de saúde da unidade orientada nos princípios da educação popular em saúde e o Dia do Homem atividade pontual que tem por objetivo o atendimento exclusivo à população masculina com o ofereci mento de ações habituais do serviço como exames consultas médicas vacinação etc A referida UBS cobre um território povoado por 2 mil famílias distribuídas em 15 microáreas atendidas por duas equipes de Saúde da Família SF Cada equipe de SF é com posta por médicoa enfermeiroa e auxiliar de enfermagem dentista e auxiliar de saúde bucal e de cinco a sete agentes comunitários de saúde A unidade é bastante movimentada e costuma abrigar acolher pesquisadoresvisitantes estagiários de diversas espe cialidades na saúde profissionais residentes e desenvolve par cerias com ONGs e equipamentos sociais do próprio bairro e também de outras localidades no município As ações da equi pe de saúde nessa unidade também são potencializadas com a participação de uma equipe dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família que trabalha com matriciamento e suporte a casos identificados no território 2 Produção das informações em campo Como procedimentos para a produção de informações foram utilizadas a observação no cotidiano Spink 2007 com registro e escritura em diários de bordo Medrado et al 2011 e a realização de entrevistas com os atores do serviço A observação no cotidiano reconhece a coprodução no contexto da pesquisa levandonos a perceber as dinâmicas de interação 196 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA entre os atores envolvidos profissionaistrabalhadores usu ários e comunidade bem como os modos de cuidado desen volvidos no dia a dia do serviço de saúde Os momentos de observação foram registrados em diários de bordo Medrado et al 2011 os quais se relacionam com um posicionamento do pesquisador em direção ao campo de modo a permitirse ser conduzido pelas imprevisibilidades do contexto da pesquisa Tais diários mais que meros instru mentos de registro dos dados do campo funcionaram como elementos coconstrutores de informações O modelo de entrevista que utilizamos assemelhase à en trevista narrativa Jovchelovitch e Bauer 2002 Segundo essa modalidade de entrevista o sujeito é convidado a falar de si como se contasse uma história a qual vai sendo construída a partir do compartilhar de seus pensamentos e opiniões A entrevista serviu como possibilidade de aprofundamento das informações produzidas nos momentos de interação em cam po a partir da produção discursiva dos profissionaistraba lhadores e usuários do serviço 3 Interlocutores Neste texto optamos por focalizar as entrevistas realiza das com 12 homensusuários que frequentavam a UBS Elas foram audiogravadas com a utilização de aparelho digital mp3 e posteriormente transcritas na íntegra de modo a subsidiar o processo de análise das informações produzidas Entre os entrevistados oito eram participantes do Grupo de Homens e os demais quatro foram contatados no dia a dia da unidade de saúde especificamente no corredorsala de espera O contato com os homens entrevistados ocorreu de ma neira diferente para os dois grupos destacados Os usuários Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 197 que frequentavam o Grupo de Homens foram contatados e con vidados a conversar nos momentos posteriores às reuniões se manais do próprio grupo Quanto aos homens da sala de espera o contato se deu após os atendimentos que iriam receber na unidade Não houve critério a priori para definir quais homens seriam contatados e entrevistados Entrevistamos aqueles que estavam disponíveis para a conversa Quadro 1 Informações sobre os homens entrevistados Grupo de Homens Sala de Espera Pseudônimo Idade Pseudônimo Idade Marcelo 49 anos Felipe 33 anos Roberto 66 anos Tomás 23 anos Péricles 41 anos Vítor 22 anos Vinícius 62 anos Romeu 26 anos Santiago 48 anos Luís 23 anos Tarcísio 18 anos Cristiano 52 anos Vale ressaltar que este estudo se orientou pela Resolução no 196 do Conselho Nacional de Saúde Brasil 1996 que dis põe sobre os cuidados e procedimentos que devem ser segui dos para a realização de pesquisas com seres humanos Garan timos que não se tornaram públicos quaisquer aspectos que possam causar danos pessoais aos participantes envolvidos no estudo e buscamos respeitar o mais alto sigilo no tocante à identificação dos entrevistados de modo a resguardar o ano nimato e a preservação da identidade deles Neste texto os no mes foram substituídos por pseudônimos com essa finalidade 198 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA 4 Análise Para o processo de análise as entrevistas transcritas fo ram organizadas em quadros previamente construídos se gundo estratégia metodológica inspirada no uso dos Mapas Spink e Lima 2004 A perspectiva dos Mapas nos pareceu interessante por favorecer a construção dialógica e a preserva ção do contexto interativo em que as conversas operam Construímos e trabalhamos com nossos quadros analíti cos a partir desses princípios Um primeiro quadro foi produ zido a partir das questões que orientaram a pesquisa e cons tituiuse em uma espécie de painel temático que contemplava diferentes aspectos de nosso objeto os quais foram abordados durante as entrevistas mediante roteiro A disposição desse quadro possibilitou o estabelecimen to de comparações nas falas entre diferentes interlocutores Dessa organização partimos à produção de outro quadro sin tético em que os pontos em comum favoreceram a constru ção de sínteses analíticas e em contrapartida os dissonantes marcaram rupturas e ressignificações possíveis dos sentidos produzidos As sínteses resultantes desse quadro foram importantes elos de condução da análise e escrita dos resultados do estu do Optamos por organizar nossas informações considerando três segmentos que se subdividem e se estruturam a partir de questõeseixo de análise As questõeseixo orientadoras são respondidas a partir das sínteses construídas Neste texto dedicamonos a responder à seguinte questãoeixo Como os homensusuários acessam e produzem sentidos sobre os ser viços de saúde da atenção básica A seguir apresentamos e discutimos esse aspecto da pesquisa Em sua construção buscamos seguir uma linha argumentativa tal que possibilitasse uma maior compreen são dos sentidos produzidos a partir do contato com as falas Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 199 dos interlocutores supracitados Ao longo do texto fazemos tentativas de articulação teóricoanalítica e trazemos como ilustração recortes de falas de nossos interlocutores que em certa medida exemplificam cada aspecto que pretendemos visibilizar 5 Discussão As informações produzidas pelo estudo desenvolvido no Recife de certa maneira corroboram resultados de pesquisas realizadas em outros contextos que destacam a baixa frequên cia dos homens nos serviços de saúde da atenção básica Go mes e Nascimento 2006 Schraiber et al 2010 Couto et al 2010 Gomes et al 2011 Os homens entrevistados mesmo apresentando o profis sional médico como o elemento central para o cuidado à pró pria saúde não costumam buscálo ou acessar os serviços em busca desse atendimento de maneira preventiva O movimento de ir à unidade tem como fundamento maior uma resposta ao adoecimento Esses homens só pro curam a rede de serviços de saúde quando estão sentindo al guma coisa quando a doença já está instalada ou quando há uma piora no quadro clínico Isso porque a unidade de saúde não é a primeira opção de busca ou a equipe da ESF A maioria dos entrevistados recorre aos serviços de urgência e emergên cia como os hospitais e as Unidades de ProntoAtendimento UPA O argumento utilizado por eles para explicar tal prática decorre da própria situação de adoecimento que requer cui dados e procedimentos imediatos aliado a uma agilidade no atendimento e rapidez da resposta pois segundo os colabo radores do estudo na unidade é necessário aguardar em filas enormes e ter que retornar para ser atendido 200 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Esse aspecto foi abordado por Wagner Figueiredo 2005 que ressalta a preferência entre os homens pela utilização de farmácias ou prontossocorros uma vez que tais serviços apresentam respostas mais rápidas a suas demandas pois as sociam tais serviços à não existência de filas de espera e à reso lução de seus problemas com maior facilidade Um componente importante para a discussão é que mes mo com essas reclamações acerca do atendimento e de não co mumente frequentarem a unidade a maioria dos homens en trevistados tece elogios aos serviços e à equipe de saúde além de avaliar de maneira geral positivamente a UBS O recorte de uma das entrevistas ilustra tal posicionamento Pesquisador Tá E quando o senhor chega à unidade como é que o senhor é recebido Roberto Rapaz é tranquilo de todo modo É porque a turma reclama muito mas essa é uma uma das melhores equipes é essa agora O povo num num nunca tá satisfeito sempre quer mais né Desunião Do jeito mesmo que a menina falou Doutor diz o nome do médico passou o remédio caseiro ela queria o antibiótico Aí é bronca Pesquisador O senhor já sempre que o senhor quis algum atendimento na unidade conseguiu tranquilamente Roberto Tranquilo Toda vez que eu vou é tranquilo lá Aten dem bem eles Pesquisador Tem alguma coisa que o senhor gostaria que lá mudasse Que mudasse na unidade pra melhorar Roberto Rapaz por enquanto não Consideramos que uma das razões para a avaliação po sitiva pelos usuários está centrada na efetivação de um aten dimento imediato quando ele ocorre o serviço é bem avalia do Outra explicação para a avaliação positiva do serviço pela maioria de nossos entrevistados presente na fala de Roberto citado anteriormente relacionase com um tradicional mo vimento assistencialista que marca o processo de construção Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 201 do SUS a partir da incorporação da saúde como um direto e da compreensão de que se trata de um sistema voltado para o pobre Assim ao mencionar a turma reclama muito ou o povo nunca tá satisfeito podemos pensar na existência de uma lógica clientelista que remete à ideia de que se tá ruim com ele é pior sem ele Desse modo a existência de serviços voltados ao homem nessa unidade per se acaba sendo reconhecida positivamente como um ato de concessão benevolente do Estado e de preo cupação com o bemestar da população Quanto a isso Noe mi Jéssica Noca 2011 argumenta que a assistência à saúde tomada como um atendimento público universal ainda não foi apropriada pelos usuários dos serviços como um direito de cidadania e dever do Estado o que faz com que essa lógica assis tencialista ainda seja um imperativo no interior desses serviços Quando suas necessidades não são atendidas como aconteceu com Tomás que acabou precisando ir a outro ser viço por encaminhamento para conseguir o que queria a avaliação tornase negativa em função da articulação com os demais elementos da rede conforme o trecho Tomás Não só fiquei meio frustrado porque eu como dia bético eu falei né fiquei você tem que pegar a insulina só te nho uma insulina em casa um pouco né então eu encontrei o médico ele Não vá lá quatro horas eu vim mas ele só me deu um encaminhamento pra o cita o nome de um serviço de saúde né só que eu não sei se eu chegar lá eu vou receber como é que vai ser e se a que tá em casa acabar É aquela questão né então eu acho que o posto de saúde poderia fornecer né já que tem um médico aqui capacitado e tal acho que podia ficar sendo acompanhado por ele e também receber a insulina aqui quando realmente precisasse não que recebesse de um e de outro Dessa maneira o atendimento recebido por esse homem foi visto como frustrante uma vez que tinha a expectativa 202 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA de resolução de seu problema de maneira imediata o que aca bou não acontecendo Outro ponto de reflexão é que se outrora exames e medi camentos eram utilizados como artefatos de apoio à prática de saúde auxiliando no combate aos sintomas e na elabo ração de diagnósticos atualmente tais materiais são consu midos incessantemente pelos usuários dos serviços sendo demandados por eles Tal prática faz com que muitas vezes um trabalhador de saúde ou um atendimento realizado sejam bem avaliados por tais usuários a partir do uso ou recomenda ção de tais recursos exemplificado neste trecho Pesquisador E o que é que tu achou assim do atendimento daqui das vezes que tu veio Vítor Eu acho que foi bom né Tirando a demora o resto tá bom demais Pesquisador Tu acha O que é que tu mais gostou Vítor Eu gostei porque eu contei um problema a ela ela pas sou a doutora passou vários exames fez um checkup geral coi sa que nunca mais eu tinha feito aí achei o atendimento bom Logo um atendimento só é bom se houver prescrições e encaminhamentos o que auxilia na manutenção de uma cul tura de cuidado normatizado em constante retroalimentação Além disso há de se levar em consideração a relação eco nômica existente na produção da saúde pela via da tecnologiza ção das práticas médicas o que é referido por Maria Helena Au gusto 2000 como economicina O estímulo cada vez maior à realização dos chamados exames de rotina por exemplo constitui uma prática que reflete essa lógica Nesse caso uti lizamse recomendações médicas complementares para o cui dado pautadas por processos biotecnológicos que na verdade pouco contribuem para a saúde das pessoas mas que consti tuem grande atividade lucrativa para seus propositores sendo tais práticas supervalorizadas pela população que as consome Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 203 Sobre isso concordamos com o argumento de que a re gularidade no uso e na produção da tecnologia em saúde ao mesmo tempo que contribui para a revelação de alguns pro cessos acaba acelerando outros como a crescente medicaliza ção da saúde Assim o direito à saúde é confundido com o direito à assistência médica Noca 2011 Acerca das considerações dos participantes do Grupo de Homens organizado pela unidade o estar no grupo é tam bém uma forma de acessar e de utilizar as atividades oferecidas no serviço de saúde Além disso apesar de eles reconhecerem mudanças em suas práticas de autocuidado após começarem a frequentar o grupo vemos certa centralidade dessas práti cas na autoridade do trabalhador de saúde uma vez que é ele quem supostamente sabe o que é certo ou errado para a minha saúde Assim pensamos que as atividades de educa ção em saúde realizadas no grupo por alguns trabalhadores ainda parecem se realizar no plano da transmissão de infor mações e não na aprendizagem e no desenvolvimento de ou tras práticas pelos homens os quais ainda parecem tutelados pelas indicações desses trabalhadores Quando aparecem críticas ao funcionamento da unidade básica de saúde estas parecem se situar mais no sistema atra sos burocracia e na estrutura física do serviço lugar onde a unidade está situada nunca sendo referidas as relações entre usuários e trabalhadores ou os processos de trabalho e oferta de serviços específicos à população masculina Há de modo geral uma compreensão positivada dos trabalhadores de saú de e das relações apesar de poucas estabelecidas com os usu ários os quais afirmam não ter do que reclamar Por outro lado quando são solicitados a sugerir mudan ças na unidade para melhorar e atrair mais o homem mais uma vez a infraestrutura é bastante citada Surge também o desenvolvimento de atividades de lazer as quais têm sua au sência justificada pelos próprios usuários em razão da ine 204 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA xistência na comunidade de um espaço que possibilite essa prática Entre os entrevistados da sala de espera aparecem ainda a realização de campanhas para atrair mais o homem a ampliação das vagas de atendimento e a facilitação do acesso para a marcação de consultas por exemplo Convém pontuar acerca das campanhas a inexistência de programas que contemplem as necessidades dos homens Outro ponto para reflexão são as estratégias de comunicação em saúde presentes na unidade que privilegiam as crianças idosos ou mulheres gestantes mesmo com o material produ zido a partir da PNAISH Brasil 2009 Outra demanda apresentada por um de nossos entrevis tados foi a necessidade de um profissional especialista para o homem no caso o urologista na UBS o que nos chamou a atenção tendo em vista a grande centralidade atribuída pe los trabalhadores às questões da próstata para os homens O que não significa no entanto que nossos entrevistados não tenham tal preocupação mas que quando conversamos sobre a produção de sua saúde em geral nem sempre a próstata ti nha tanto destaque Por fim um aspecto merece ser assinalado os homens re conhecem que a unidade tem feito ações voltadas para eles citando por exemplo o próprio Grupo de Homens e o Dia do Homem Para eles depende do homem ir mais ao serviço pois já existem ações direcionadas a ele o que mais uma vez nos re mete à percepção positivada do serviço em vias de uma cultu ra assistencialista sem que tais homens reflitam por exemplo se as atividades oferecidas pela unidade estão de acordo com suas necessidades particulares Pesquisador E tu acha que é a unidade de saúde poderia fazer alguma coisa pra melhorar o cuidado ao homem Tu acha que precisa de alguma coisa lá Marcelo Precisa Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 205 Pesquisador O que por exemplo O que poderia Se fosse di zer ah eh pra melhorar o atendimento ao homem na unida de eu queria que isso existisse uma sugestão ou poderia ter mais o quê Ou tu acha que talvez Marcelo Rapaz se se melhorar o homem não vai porque o homem não vai A gente vê a gente conta a dedo Se tiver vinte mulher tem dois homens A ocupação é a mesma a gente quer melhorar mas a própria o próprio homem num deixa Pesquisador E tu acha que poderia fazer o que pra que o ho mem começasse a ir mais Marcelo Não ele mesmo ele deve ele mesmo ir que nem as mulheres vão Homem não homem é medroso pra ir ao médico Pesquisador O agente de saúde não podia fazer nada com re lação a isso Marcelo Não Eu creio que não A esse respeito uma discussão é realizada por Lilia Schrai ber e Ricardo MendesGonçalves 2000 no tocante às neces sidades e demandas apresentadas pelos homens na saúde Uma necessidade se configura no momento em que alguém tem diante de si um impedimento que dificulta seu viver e gera sofrimento Podemos compreender que as necessidades encontramse em todos os domínios da vida no trabalho na família no meio sociocultural no lazer etc Uma pessoa quando apresenta determinada necessidade recorre na cole tividade a um meio para a resolução de sua situação Assim acaba endereçando a outrem a possibilidade de ter atendidos seus desejos legitimandoo como aquele que pode intervir de modo a responder a seus carecimentos A necessidade então se formula a partir do resultado das intervenções sobre os ca recimentos da população e a demanda por sua vez se situa na busca ativa da intervenção Schraiber e MendesGonçalves 2000 No caso das necessidades em saúde consideramolas como resultado de uma compreensão particular do aparelho 206 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA social ao qual a pessoa recorre em busca de ajuda nesse caso tratase de uma produção dialética que se realiza na compre ensão de alguém sobre seu próprio sofrimento e nas respostas e recursos tecnológicos possíveis situados em códigos cultu rais específicos e disponíveis para lidar com aquele sofrimento Camargo Jr 2003 Desse modo as necessidades são construções sociais Schraiber e MendesGonçalves 2000 Isso implica que as pessoas para reconhecer determinados carecimentos como necessidades direcionadas para um ou outro serviço depen dem do reconhecimento das potenciais respostas a esses care cimentos construídas a partir dos desusos possíveis na cor respondência entre as necessidades apresentadas e os serviços bens disponíveis Dito de outro modo as necessidades podem corresponder a construções diversas dos carecimentos a de pender do tipo de resposta proporcionada na produção dos bens ou serviços Noca 2011 No caso dessa UBS as atividades oferecidas para os ho mens foram construídas mediante certa maneira de encarar suas necessidades Assim ao se definirem tais atividades como formas de produzir o cuidado à população masculina temse em conta quais os carecimentos apresentados por ela bem como as formas possíveis de o serviço lhe ofertar respostas Nas falas de nossos interlocutores quando pontuam que são os homens que devem ir mais ao serviço vemos como os pró prios serviços em suas proposições acabam por criar também outras demandas instaurando entre os sujeitos novas neces sidades como a da própria busca do serviço É importante considerar o movimento que como aponta Lilia Schraiber 2005 atribui à baixa frequência dos homens nos serviços sua suposta resistência aos cuidados à saúde não sendo reconhecida muitas vezes entre eles mesmos sua pouca inclusão em propostas assistenciais ou em atividades específi cas voltadas a suas reais necessidades Dessa forma é possível Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 207 compreender que há também uma tendência à responsabili zação por parte dos próprios usuários entrevistados dos ho mens pela menor busca dos serviços Há de se considerar que os próprios usuários acabam re produzindo também tais ideias sendo corresponsáveis pelos impasses em sua relação com os serviços Couto et al 2010 Quanto a isso cabenos questionar ao assumirem a perspec tiva de que o acesso aos serviços de saúde depende deles esses homens não estão assumindo um lugar a eles imputado his toricamente naturalizando suas posições de não cuidadores por exemplo Sobre a relação estabelecida entre os usuários homens e os serviços de saúde historicamente os serviços ofertados nas unidades de saúde são voltados para a saúde maternoinfantil eou a partir dos anos 1980 para a população idosa Couto et al 2010 Arilha Unbehaum e Medrado 1998 levando os homens a assumirem o posicionamento de distanciamento desses ambientes Figueiredo e Schraiber 2011 No ensejo dessa discussão outro elemento importante é a invisibilidade dos homens no serviço decorrente do machis mo presente nas relações entre os profissionais e os usuários já que existe uma matriz sexista que circula no tecido social em que os homens são caracterizados como fortes provedo res invulneráveis e que a doença é considerada um sinal de fragilidade 6 Considerações finais Neste trabalho buscamos discutir a partir das falas de al guns interlocutores o acesso e os usos de homensusuários a um serviço público da atenção básica à saúde Nossa intenção maior com a realização da pesquisa apresentada era situar al guns pontos por nós visibilizados que pudessem contribuir 208 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA para as discussões que têm aproximado os homens da pro dução de cuidados à saúde um campo até algumas décadas atrás ainda carente de produções e que nos últimos anos tem ganhado destaque Tomando por base as entrevistas que realizamos pode mos elencar alguns argumentos que supostamente fazem com que os homens não busquem os serviços de saúde e que esses serviços não acolhamreconheçam as demandas deles o que é encarado por nossos interlocutores como um indicativo de descuido de si e de uma porta entreaberta desses serviços que parece acolherreconhecer apenas parcialmente suas de mandas a associação do hábito de cuidar ao âmbito femini no as diferenças de horário entre trabalho e funcionamento dos serviços a precarização dos serviços no caso infraestru tura falta de materiais e recursos para promover outras ações de atenção em menor grau o medo de descobrir que está doente e ao mesmo tempo o medo de ter sua masculinidade questionada a vergonha de ficar exposto a um profissional a falta de serviços específicos e em consequência o não reco nhecimento dos serviços existentes como espaço para o cuida do à sua própria saúde É importante destacar que com a realização desta pes quisa não tínhamos o intuito de levantar responsáveis pelas dificuldades apresentadas pelos serviços em desenvolver práticas de cuidado que atendam às necessidades dos homens na saúde Não apoiamos ou legitimamos uma lógica de culpabilização mas reconhecemos a existência de uma série de aspectos que favorecem o não acesso dos homens às unidades básicas de saúde Desse modo da parte dos usuários vemos algumas reclamações sobre o atendimento dos trabalhadores sobre a burocratização da rede sobre as demoras nos atendi mentos médicos e na falta de especialistas nas unidades Gostaríamos de visibilizar também o despreparo dos trabalhadores na lida com os homens Como indicadores Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 209 podemos citar os próprios processos formativos particulares que não investem em discussões de gênero a suposta falta de costume em atender homens em seu cotidiano a posição de saberpoder ocupada pelos trabalhadores que pode encontrar resistências em face do suposto poder do masculino além dos preconceitos existentes com relação ao homem homem não se cuida homem não quer se cuidar homem é difícil Ao mes mo tempo o despreparo também acaba funcionando como uma explicação para não incluir ações voltadas ao homem no serviço Não podemos perder de vista no entanto que estamos nos referindo ao funcionamento de um serviço de saúde e que há uma racionalidade médica mais ampla ao qual ele deve ace der O que pontuamos neste trabalho seria o diálogo possível entre diferentes modos de encarar o processo saúdedoença cuidado tendo este último como objetivo maior dos serviços Acreditamos que é necessário que os serviços de saúde possam investir no desenvolvimento de atividades centradas nos processos de prevenção e promoção da saúde de maneira a incluir também os homens Estes apresentam demandas e necessidades em saúde e é preciso que os serviços se dispo nham a acolhêlas e responder a elas Reconhecemos que as atividades propostas no cotidiano do serviço pesquisado têm efeitos positivos nas ações de cuidado dos homens no entan to vemos que elas apresentam tensões Falta por exemplo continuidade Nesse sentido lançamos alguns questionamentos pois traduzir o acesso apenas como o ato de ir ao serviço nos pa rece uma forma reducionista tomando de forma unidirecio nal a discussão sobre acessibilidade à saúde É preciso resgatar princípios que orientem o funcionamento da atenção básica centrada em uma abordagem territorial que preconiza uma articulação usuárioequipecomunidade que transcende a busca da unidade Esta deve mostrarse acolhedora e acessível 210 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA a esse homem mas também proativa Assim não se trata de o usuário acessar a unidade mas de se reverem os processos que acessam trocas entre usuários e trabalhadores de saúde e que tornam o cotidiano do serviço o lugar para produzir saúde e cuidados de si Referências ARILHA M UNBEHAUM S MEDRADO B Org Homens e masculini dades outras palavras São Paulo EcosEd 34 1998 AUGUSTO M H Reflexões sobre o uso das tecnologias médicas In CAN ESQUI A M Org Ciências sociais e saúde para o ensino médico São Paulo Hucitec 2000 p 151166 BRASIL Ministério da Saúde Resolução no 196 de 10 de outubro de 1996 Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos Diário Oficial da União 10 out 1996 Ministério da Saúde Secretaria de Atenção à Saúde Departamen to de Ações Programáticas e Estratégicas Política Nacional de Atenção Inte gral à Saúde do Homem princípios e diretrizes Brasília 2009 Ministério da Saúde Secretaria de Atenção à Saúde Departa mento de Ações Programáticas Estratégicas Área Técnica de Saúde do Adolescente e do Jovem Diretrizes nacionais para a atenção integral à saúde de adolescentes e jovens na promoção proteção e recuperação da saúde Brasília 2010 BRASIL ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DA SAÚDE OPAS IDB 2006 Brasil indicadores e dados básicos para a saúde Rede Interagencial de In formações para a Saúde Ripsa Brasília Ministério da Saúde 2007 CAMARGO JR K Biomedicina saber e ciência São Paulo Hucitec 2003 COUTO M T PINHEIRO T VALENÇA O MACHIN R SILVA G S N da GOMES R SCHRAIBER L B FIGUEIREDO W dos S O homem Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 211 na atenção primária à saúde discutindo invisibilidade a partir da pers pectiva de gênero Interface Botucatu v 14 n 33 p 257270 2010 FIGUEIREDO W dos S Assistência à saúde dos homens um desafio para os serviços de atenção primária Ciência e Saúde Coletiva v 10 n 1 p 105 109 2005 SCHRAIBER L B Concepções de gênero de homens usuários e profissionais de saúde de serviços de atenção primária e os possíveis im pactos na saúde da população masculina São Paulo Brasil Ciência e Saúde Coletiva v 16 n l p 935944 2011 GOMES R NASCIMENTO E A produção do conhecimento da saúde pública sobre a relação homemsaúde uma revisão bibliográfica Cadernos de Saúde Pública v 22 n 5 p 901911 2006 SCHRAIBER L B COUTO M T VALENÇA O SILVA G S N da FIGUEIREDO W dos S MACHIN R PINHEIRO T O atendimento à saúde de homens estudo qualitativo em quatro estados brasileiros Phy sis Rio de Janeiro Uerj v 21 n 1 p 113127 2011 JOVCHELOVITCH S BAUER M Entrevista narrativa In BAUER M GASKELL G Pesquisa qualitativa com texto imagem e som um manual práti co Petrópolis Vozes 2002 p 90113 MEDRADO B Hombres y políticas públicas un abordaje feminista y de género In SANCHIS N Org Família y género aportes a una política social integral Buenos Aires ProgenConsejo Nacional de la Mujer 2003 p 7784 LYRA J Construindo um lugar para o masculino na saúde repro dutiva Informativo Elos p 7 1999 Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades Revista Estudos Feministas v 16 n 3 p 809840 2008 DANTAS L VALENTE M QUIRINO T MACHADO M FELIPE D OLIVEIRA L SILVA M C GONDIM S Paternidades no 212 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA cotidiano de uma unidade de saúde em Recife traços curvas e sombras em redes heterogêneas In TONELI M J F MEDRADO B TRINDADE Z A LYRA J Org O pai está esperando Políticas públicas de saúde para a gravi dez na adolescência Florianópolis Mulheres 2011 p 189211 NASCIMENTO P GALVÃO K Homens por quê Uma leitura da masculinidade a partir de um enfoque de gênero Revista Perspec tivas em Saúde e Direitos Reprodutivos v 3 n 1 p 1216 2000 NOCA N J M Produções discursivas sobre saúde e masculinidades em um serviço público de atenção à saúde dos homens Dissertação Mestrado Universidade Federal de Pernambuco Recife 2011 SCHRAIBER L B Equidade de gênero e saúde o cotidiano das práticas do Programa de Saúde da Família do Recife In VILLELA W MONTEIRO S Org Gênero e saúde Programa Saúde da Família em questão Rio de Janeiro Abrasco 2005 p 3061 FIGUEIREDO W dos S GOMES R COUTO M T PINHEI RO T MACHIN R SILVA G S N da VALENÇA O Necessidades de saúde e masculinidades atenção primária no cuidado aos homens Cader nos de Saúde Pública v 26 n 5 p 961970 2010 MENDESGONÇALVES R B Necessidades de saúde e atenção primária In NEMES M I B A saúde do adulto programas e ações na unidade básica São Paulo Hucitec 2000 p 2947 SCOTT J Gênero uma categoria útil para análise histórica Educação Realidade v 20 n 2 p 7199 1995 SPINK M J P Pesquisando no cotidiano recuperando memórias de pes quisa em psicologia social Psicologia e Sociedade v 19 n 1 p 714 2007 LIMA H Rigor e visibilidade a explicitação dos passos da inter pretação In SPINK M J P Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 2004 p 93122 Monitoramento de projeto social uma metodologia de pesquisaação participativa Telma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Maria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro Este texto apresenta reflexões críticas baseadas por um lado na produção científica sobre princípios e métodos para monitoramento de projetos e intervenções políticosociais e por outro nas lições aprendidas durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidadania como parte do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Essa ação foi desenvolvida pela equipe do Centro das Mulheres do Cabo CMC aqui referida como equipe executora ONG feminista baseada na região de Suape Teve por obje tivo contribuir com o empoderamento de mulheres e jovens dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com vistas à prevenção e ao enfrentamento da violência domésti ca e sexual na microrregião de Suape Para tanto focouse o desenvolvimento de atividades formativas e informativas so bre temas relacionados com as questões de gênero violência participação política das mulheres atuação e fortalecimento da rede de assistência a mulheres em situação de violência po líticas públicas controle social etc O processo de monitoramento e avaliação MA parti cipativo e contínuo foi desenvolvido pela equipe do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades Gema UFPE formada por um coordenador professor do Departa mento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco UFPE duas assistentes pesquisadoras e um grupo de cola Monitoramento de projeto social Telma Low et al 215 boradoras e estudantesestagiárias de psicologia e ciências so ciais da UFPE incluindo quatro bolsistas vinculadas ao Pro grama Diálogos Suape Essa equipe de monitoramento buscou desenvolver um processo de acompanhamento e formação éticopolítica principalmente junto às estudantesestagiárias seguindo os princípios de horizontalidade e participação que estruturavam as atividades de MA Vale destacar que as es tudantesestagiárias estavam vinculadas não somente à Ação Mulheres e Educação para Cidadania mas também ao Gema de modo mais amplo como núcleo de pesquisa com objetivos atividades e planejamento anual especificamente definidos1 Neste texto focalizaremos as atividades de monitora mento desenvolvidas pelo GemaUFPE Além de destacar al gumas das principais lições aprendidas ao longo do Programa Diálogos Suape nesses dois contextos buscaremos comparti lhar algumas discussões sobre o processo de monitoramento como fundamental para o desenvolvimento dessas ações Destacamos que a construção deste texto está fundamen tada nos registros sistematizados e produzidos a partir dos re latórios das oficinas de MA facilitadas pela equipe do Gema nos relatórios narrativos elaborados pela equipe do CMC e em outras fontes de informações geradas ao longo do Programa Diálogos Suape 1 Monitoramento de projetos sociais breve linha do tempo limites e possibilidades Historicamente o processo de avaliação de políticas pú blicas e programas sociais está intimamente ligado aos pro cessos de reajustes da administração pública ou seja do uso do recurso público Seu desenvolvimento se dá por meio de 1 Para mais informações acesse wwwgeneroorgbr 216 POSSIBILIDADES esforços do governo dos Estados Unidos em criar mecanismos de controle que possibilitassem aferir o grau de êxito ou fra casso dos programas relacionados com a pobreza O final da Segunda Guerra Mundial marcou a expansão de programas de bemestar social e favoreceu que a avaliação de políticas públicas se constituísse pouco a pouco em uma área bastante interessante para intervenção profissional A exem plo disso é notável na época uma crescente oferta de cursos pósgraduações revistas centros de pesquisas etc relaciona dos com o tema Porém este esfuerzo fue marcado por el eje comportamental y neutralista direccionado para la eficiencia y eficacia de las políticas sin considerar la evaluación de los principios y de los fundamentos y su contenido sustan tivo centrada en criterios que ignoraban las variables contextuales que pueden obstacularizar o facilitar el proceso de intervención social Lo que verificó es que este tipo de evaluación de políticas y programas socia les creó lo que la literatura nombra como industria de la investigación evaluativa Silva 2001 p 44 Segundo Derlien 2001 a década de 1980 foi marcada por mudanças profundas no mundo sendo a avaliação de po líticas públicas apresentada como um instrumento a serviço da reforma desmonte do Estado Nos Estados Unidos por exemplo o governo neoliberal de Ronald Reagan coordenou reformas no modelo econômico estabelecendo prioridades econômicas e reduzindo significativamente as subvenções di recionadas para políticas e programas sociais No outro lado do oceano as reformas administrativas do Estado se iniciaram na Inglaterra com a ascensão da também neoliberal Marga reth Thatcher A nova primeiraministra inglesa com base em estudos de avaliações de políticas e análises socioeconômi cas deu início ao processo de minimização do Estado adotan do princípios novos na administração pública e mudanças nas relações entre sociedade e governo Monitoramento de projeto social Telma Low et al 217 Ao longo dos anos 1990 alguns sistemas de avaliação fo ram influenciados pela União Europeia em especial aqueles que como Espanha e Alemanha receberam grande volume de recursos Na América Latina os países que tiveram importantes aportes de instituições como Banco Mundial Fundo Monetá rio Internacional Banco Interamericano de Desenvolvimento etc necessitaram seguir orientações internacionais e aderir ao processo de avaliação por eles impostos Porém vale ressaltar que tal processo influenciou diretamente a construção de uma cultura de monitoramento e avaliação de políticas públicas Nesse contexto Silva 2001 relata que o desenvolvimen to do processo de avaliação de políticas públicas está fundado em quatro gerações 1a Geração 2a Geração 3a Geração 4a Geração Marcada por pesquisas na área da política de educação Marcada pelo crescimento acele rado de pesquisas e aumento de programas sociais Welfare State Marcada pela introdução de juízo de valor a partir de critérios exter nos no processo de avaliação por parte doa avaliadora Marcada como a avaliação sendo uma ferramenta importante para medir a qualida de dos serviços e subvencionar decisões acerca da viabilidade de políticas públicas programas projetos Buscouse medir e classificar o desempenho de estudantes inteli gência produtivi dade resultados do processo pedagógicos etc inseridosas no campo da educação Buscouse colabo rar com a tomada de decisões para isso se utilizou de indicadores quantitativos e qua litativos para medir os resultados das políticas públicas programasproje tos objetivo Buscouse criar ins trumentos para co nhecer a realidade contextualizarse e posterior emissão de juízo de valor acerca de políticas públicasprogra masprojetos Buscouse refletir e construir parâme tros capazes de mensurar a eficá cia e eficiência de políticas públicas programas projetos 218 POSSIBILIDADES Como podemos observar o Estado passou a reconhecer que políticas públicas programas e projetos sociais subven cionados por ele não estavam sendo eficazes eou eficientes e que a destinação de recursos não garantia os resultados espe rados Nessa linha avaliar e monitorar se tornou uma estra tégia importante para observar de forma contextualizada e complexa as possibilidades de investimento do próprio Es tado e das demais agências financiadoras Dessa forma os princípios e as estratégias de MA fo ram evoluindo e tomando direções políticas que requerem também tomadas de decisões por parte doa avaliadora Um olhar mais atual acerca do monitoramento e da avalia ção conduznos para além de têlos como um instrumen to de tomada de decisões políticas Ou seja é importante ver que ambos monitoramento e avaliação podem ser um instrumento que contribui para a construção da cidadania Spósito 2009 Processos como MA podem ir além da consulta eou mensuração de resultados objetivos etc pois ao se tornarem os resultados de MA públicos podem ser construídos es paços de caráter político que impliquem o debate coletivo e público no qual sejam compartilhadas ideias possibilidades inquietações fragilidades limites avanços etc Ter o MA como um dispositivo intrínseco do processo de uma sociedade democrática é superar a noção hierarqui zada e centralizada do poder de decisão Silva 2001 Spósito 2009 favorecendo por um lado o aperfeiçoamento do pro cesso democrático e por outro a instrumentalização e a po tencialização dos sujeitos Monitoramento de projeto social Telma Low et al 219 2 Metodologia de pesquisa observações e outras formas de registro No Programa Diálogos Suape anos I e II a equipe de MA do Gema procurou construir um espaço coletivo de aprendizagem no qual o CMC e o próprio Gema pudessem dialogar democraticamente acerca do processo de MA No entanto vale salientar que desde o âmbito político e pedagó gico as ações estiveram voltadas para a construção de levanta mento de informações que possibilitaram por um lado iden tificar em que medida a metodologia utilizada pelo CMC na realização de suas ações permitiu instrumentalizar mulheres adultas e jovens no enfrentamento da violência doméstica e sexual e por outro sistematizar informações que favorece ram analisar de forma contextualizada a efetividade da Ação Mulheres e Educação para Cidadania Compreendendo a realidade como algo inesgotável Fli ck 1992 Gergen 2010 Spink 1995 a metodologia utiliza da no MA pretendeu captar um fragmento de um fenôme no levando em consideração os momentos compartilhados pelasos profissionais e estudantes envolvidasos Embarcar no desafio de MA além de construir pesquisas acadêmicas fez com que decidíssemos por fixar âncora em um campo cercado por princípios que possibilitassem uma construção reflexiva e crítica Ou seja algo que nos deixasse alçar voos e contribuir para a formação de nossas estudantes e o desenvol vimento institucional do CMC Tal como previsto realizamos entrevistas e grupos focais elaboramos questionários planilhas de MA enquetes etc e analisamos informaçõesdados produzidos no contexto do desenvolvimento das atividades do CMC O primeiro passo adotado pela equipe Gema foi reunirse com o CMC para iden tificar coerência entre o projeto proposto e as atividades que foram desenvolvidas 220 POSSIBILIDADES Nesse primeiro momento realizamos reuniões nas quais a pauta esteve fundamentada na apresentação a do Progra ma Diálogos Suape b do CMC e de sua incidência na micror região de Suape c do GemaUFPE e d da proposta de MA a ser desenvolvida pela equipe Gema Inicialmente foram ne cessários ajustes no Plano Operativo Anual POA proposto pelo CMC pois identificamos a importância de alinhar o POA à nova realidade de Suape Esse processo possibilitou aprendizados diversos como a necessidade de pensarrefletir sobre palavrastermos apre sentados no projeto A intervenção do Gema nesse caso se deu especialmente por garantir que todos os compromissos assumidos pelo CMC tivessem afetiva possibilidade de ser concretizados Não obstante o fator nitidez na escrita de um POA favorece construir relações mais transparentes entre os distintos sujeitos envolvidos no projeto Após alinhar propostas remetemonos a um segundo momento que denominamos planejamento operacional de MA Para tal realizamos reuniões visitas ao CMC parti cipação em atividades promovidas pelo CMC grupos focais com as mulheres análise de dados etc No entanto destaca mos que as oficinas de MA foram primordiais para o êxito desse processo e construção do conhecimento Elas marcam o processo sistemático de planejar do CMC e do refletir sobre cada atividade visibilizada ou invisibilizada desenvolvida pela equipe Nossa preocupação inicial se deu quando observamos que a cada atividade proposta pelo CMC havia muitas outras ativi dades invisibilizadas por ela no POA e pelas instituições finan ciadoras Como o programa de rádio por exemplo que não apenas exigia ir à rádio fazer sua gravação em alguns casos apresentações ao vivo e veiculála Pouco a pouco por meio de uma planilha refletimos sobre como uma simples atividade exigia das profissionais e como elas as registravam de fato Monitoramento de projeto social Telma Low et al 221 Partindo do princípio de que é importante visibilizar que há investimentos diversos humano material financeiro etc envolvidos nas atividades construímos instrumentos de monitoramento que possibilitassem um registro rápido e di dático destas Como exemplo o relatório narrativo dos pro gramas de rádio no qual foi possível apresentar atividades an teriores necessárias a eles a articulação com instituições e pessoas convidadas nos programas de rádio b interação com o público ouvinte c pesquisas e levantamentos realizados etc Dessa forma buscamos criar instrumentos que visibilizassem os desdobramentos que cada atividade exigia mostrando por outro lado quantos recursos eram utilizados e que algumas vezes o que parece ser suficiente pouco a pouco se torna escas so e pode comprometer o desenvolvimento da Ação A observação a reflexão e os questionamentos acerca das ideias e dos ideais pretendidos pelo CMC foram um com ponente que influenciou diretamente a construção de uma metodologia democrática e participativa de MA também funcionando como um mecanismo importante para quebrar barreiras institucionais e políticas que de certa forma pode riam comprometer o MA e talvez o próprio êxito da Ação Mulheres e Educação para Cidadania O contexto e a conjunção de uma série de fatores influen ciaram adotar uma metodologia de MA na qual a escuta era primordial e o saber respeitado e compreendido como um processo que se constrói cotidianamente Tal posicionamen to exige pela própria natureza uma flexibilidade crucial posto que falamos aqui de políticas públicasprogramaspro jetos mas antes de tudo tratamos com sujeitos que protago nizam sua existência em um mundo no qual há relações de poder forças políticas etc Possivelmente o ousado e diferencial de nossa propos ta foram os princípios feministas que primam por uma des construção dos valorespadrões patriarcais e heteronormati 222 POSSIBILIDADES vos fomentando a igualdade entre os sexos e participativos que concebem o poder de decisão como próprio das pessoas usuárias e da sociedade Posto que ainda que não temos resul tados a priori definidos e alcançados mesmo ao final de dois anos consideramos que essa experiência por si só já foi pro dutora de questionamentos e conhecimentos diversos Lyra et al 2012 3 Alguns resultados Relatamos a seguir algumas atividades do processo de MA desenvolvidas pela equipe do GemaUFPE durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidada nia Nesse processo buscamos a desenvolver um processo de MA participativo b contribuir com o êxito das atividades executadas pelo CMC c colaborar com o desenvolvimento social da população lo cal a melhoria de suas condições de vida especialmente no que tange à prevenção e ao enfrentamento da violência do méstica e sexual na microrregião de Suape a Reuniões semanais de equipe Foram realizadas reuniões semanais com o objetivo de planejar as atividades de MA analisálas debatêlas etc Todas as reuniões foram registradas em atas modelo criado pela equipe por meio de um revezamento das estudantes estagiárias que foram responsáveis por garantir o registro de cada reunião As atas continham a pauta os encaminhamen tos a avaliação e as principais discussões construídas em cada reunião Ademais a equipe também assinava uma lista de fre quência em todas as atividades a fim de ter registros de nos sas atividades Monitoramento de projeto social Telma Low et al 223 Esses são aspectos importantes especialmente quando se trabalha em grupo e com MA posto que além de favorecer o registro e a sistematização das atividades ao longo do tempo subsidiando a construção da memória do programaprojeto ação facilitam o processo de elaboração de relatórios que visam a apresentar as atividades fazer autocríticas à equipe de monitoramento rever percursos rotas ajustar propostas e ideias saberes e fazeres e por que não prestar contas aos financiadores e parceirosinstituições etc b Realização de oficinas de MA Essas oficinas eram realizadas geralmente uma vez por mês durante todo o dia no CMC ou na UFPE alternandose o lugar Participavam as integrantes de ambas as equipes que se dedicavam a debater analisar e compartilhar olhares ideiasopiniõesavaliações sobre as atividades desenvolvidas pelo CMC junto às mulheres etc A equipe Gema preparava um fôlder e o enviava por email para o CMC com uma proposta de pautaconvite para a oficina e com as responsabilidades que cada equipe deve ria assumir na atividade para democratizar o papel de cada equipe As oficinas se iniciavam com uma técnica de aquecimen to em seguida os informes eram compartilhados e depois as equipes se debruçavam sobre a pauta pactuada As oficinas foram se construindo como um espaço diverso algumas vezes polêmico e tenso nas quais eram vivenciadas e compartilha das diferentes impressões intenções opiniões visões senti dos equívocos etc sobre as atividades seus contextos interfa ces Ao mesmo tempo tornaramse um lugar de construção de um vínculo afetivo e solidário o que nos faz pensar que as equipes aprenderam a desfrutar do coletivo e a ressignificar os conflitos possibilitando novasoutras formas de entender 224 POSSIBILIDADES e construir os conhecimentos expectativas experiências par tilhadas etc Assim ao longo do processo as oficinas possibilitaram a identificação o debate a análise de questões estruturado ras relacionadas com ênfase em instrumentais planejamen to e organização das atividades identificação das fragilidades e potencialidades dos resultados esperados eou efetivados desafios encontrados expectativas relações pessoais e institu cionais e lições aprendidas c Elaboração de instrumentos de MA Uma das principais atividades realizadas pela equipe Gema foi pensar e construir instrumentais de MA que faci litassem ao CMC a identificar os elementos essenciais do projeto b planejar sistematizar monitorar e avaliar as atividades rea lizadas etc c refletir possibilidades e limites de cada atividade proposta d construir estratégia para contribuir com o êxito das ativi dades e colaborar com o desenvolvimento institucional f visibilizar atividades muitas vezes não percebidas como tais g sugerir mudança de rotas e redirecionamentos de planeja mentos entre outros Para tanto o Gema criou uma planilha de monitoramen to das principais atividadeseixo do projeto estruturação e reestruturação da equipe rodas de diálogo RD cursos de formação política programas de rádio seminários temáticos audiência popular campanhas de comunicação e elaboração de cartilha sobre a Lei Maria da Penha que foi apresentada Monitoramento de projeto social Telma Low et al 225 Metas Indicadores Instrumentos de monitora mentofonte de informação Informações necessárias Periodi cidade Datas Marco zero Quantitativos Qualitativos 200 pessoas debatendo ações de prevenção da violência doméstica e sexual No de rodas de diálogo realizadas Pessoas mais fortalecidas para discutir e disseminar informa ções sobre violência doméstica e sexual Ficha de Inscrição Nome localidade comunida de documento de identifica ção contato sexo raça etnia grau de escolaridade idade se tem filhosas ou não instituiçãosegmento de que participa participou de algum evento ou formação sobre a temática violência doméstica e sexual Trimestral Após cinco dias da roda de diálogo será enviado relato para a equipe de MA A equipe tem cinco dias para retomar o material para a equipe do CMC Levantamento do perfil das pessoas participantes No de participantes Lista de Presença Nome documento de identifi cação e assinatura No de participantes da roda de diálogos no Programa Rádio Mulher Áudios do Programa Rádio Mulher Roteiros do programa de rádio Relato escrito da roda de diálogo Fotografias Perfil das pessoas participan tes diahoralocal facilitado ras abordagem metodológica provocações depoimentos e avaliação 226 POSSIBILIDADES rar e avaliar os acordos e retornos produzidos nas oficinas de MA Além das planilhas o Gema desenhou outros instru mentos de MA que atenderam às demandas e sugestões pen sadas coletivamente como foi o caso das fichas de inscrição para o Curso de Formação Política das enquetes utilizadas nas campanhas de comunicação etc 4 Algumas considerações Neste tópico apresentaremos algumas reflexões sobre a pesquisaação que permitiram dar visibilidade ao processo de desenvolvimento político e acadêmico por parte tanto do CMC quanto do Gema nele incluindo coordenador assisten tes e estagiárias Assim pretendemos apresentar condicionan tes que interagem e que nos proporcionaram um olhar sobre limites e possibilidades das ações desenvolvidas pelo CMC e como tais limites também incidem no processo de MA pro posto pelo GEMA 41 Planejamento e desenvolvimento da Ação Ao desenvolver as oficinas de MA foi possível observar em um primeiro momento uma deficitária clareza acerca do projeto final que o CMC iria desenvolver entre tantas idas e vindas cada vez mais comuns na realidade das ONGs no Bra sil Abong 2013 No entanto vale salientar que a deficiência aqui apresentada também resulta de um complexo processo de negociação dos recursos que subvencionaram o Programa Diálogos Ou seja o tardio início das ações abalou a incidên cia do Programa especialmente em razão de a realidade não ser estática mas estar em constante transformação e quando falamos em política pública e projetos sociais a entendemos como um campo complexo e controvertido Monitoramento de projeto social Telma Low et al 227 Dessa forma podemos refletir sobre o compromisso políti co e social que existe por parte da proposta de desenvolvimento econômico gestada ao longo dos anos na microrregião de Sua pe Onde os esforços estão concentrados Quais objetivos dos escassos financiamentos de políticas sociais tornamse prioritá rios De que forma o desenvolvimento social é compreendido No contexto neoliberal as condições objetivas de mate rialização de políticas para mulheres são escassas Tomar de cisões é antes de tudo negociar em uma arena política com posta por distintos sujeitos sociaispolíticos que têm como princípio uma sociedade patriarcal portanto hierarquizada e assimétrica Rocha 2011 Spósito 2013 no es casualidad que no priorizar en sus diferentes esferas pla nificación seguimiento evaluación y asignación de presupuestos las políticas para mujeres es un aspecto generalizado tal proceso ocurre en todas las esferas del Estado especialmente por que cada área de una polí tica pública social económica estructural etc asume valor distinto y podemos estimar que estos valores evidencian un proceso que se resume en la substitución del compromiso social por el compromiso con la sub sistencia de los mercados Spósito 2013 p 173 O jogo de interesses políticos as contradições do sistema público e a correlação de forças em um processo de desenvol vimento de projetos sociais integrados ainda que sejam posi tivos do ponto de vista democrático colaboram para deterio rar o desenvolvimento social e ampliar a sombra clientelista de políticas públicas 42 Aplicação de instrumentos de monitoramento Dois dos argumentos utilizados pelo neoliberalismo com o objetivo de minimizar o Estado de bemestar social são a ineficácia dos programas e a reduzida preparação dosas profissionais da administração pública Brito 2000 Pasina 228 POSSIBILIDADES to 2009 Tais discursos funcionaram como um elemento que desqualifica o público e mina os serviços operacionaliza dos por ele Ou seja colocase em xeque a capacidade técnica dosas profissionais para enfrentar as múltiplas facetas da questão social De fato a ausência de preparo sensibilidade e capacitação de equipesprofissionais além da própria cultura patriarcal e neoliberal tem efeitos drásticos na vida das pessoas usuárias de qualquer política social seja ela executada pela administra ção pública pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Oscip por ONG etc Em nosso caso a instituição executora CMC tinha preparo sensibilidade capacidade téc nica e olhar crítico diante do patriarcado e do neoliberalismo porém a cultura de avaliação ao menos inicialmente era um tanto deficitária A ausência de rigor metodológico na aplicação dos ins trumentos de monitoramento e avaliação foi um condicio nante preocupante especialmente quando a Ação Mulheres e Educação para Cidadania era desenvolvida com o apoio e aporte financeiro de outros projetos da instituição Talvez essa realidade não seja unicamente do CMC especialmente porque Sería una equivocación establecer una relación disyuntiva determinan do cuáles elementos se podrían caracterizar como causa y cuáles como efecto o consecuencia Lo que es indudable es que sumándolos tenemos como resultado un contexto que debilita la Política de Asistencia a Muje res en Situación de Violencia y ocasiona un déficit en el carácter político de tales políticas Spósito 2013 p 196 Sem dúvida a equipe de MA poderia ter escolhido atuar de maneira que colocasse empecilhos à construção da autono mia técnica do CMC e a possível incorporação de uma cultu ra de MA Acreditando ser importante monitorar e avaliar políticas públicasprogramasprojetos de forma democrática Monitoramento de projeto social Telma Low et al 229 e portanto horizontalizar as relações optouse apesar da exis tência de riscos mas afinal onde não se arrisca por debater possibilidades e limites de aplicação dos instrumentos para monitoramento e avaliação e fortalecimento das profissionais nesse processo No entanto os resultados não foram satisfatórios O envolvimentodependência do desenvolvimento da Ação Mulheres e Educação para Cidadania com projetos institu cionais colocou em xeque o rigor metodológico exigido para MA de forma planejada e ordenada além de fragilizar ou tros elementos necessários no processo de MA democráti co relação horizontal transparência construção coletiva de instrumentos etc que permitiriam sair da perspectiva de avaliação que se baseia na auditoria externa eou fiscalização Com isso fica uma nova indagação a que tipo de MA as ins tituições que operacionalizam políticas sociaisprogramas projetos estão adaptadas Há um planejamento que prevê MA interno Há investimentos para desenvolver MA onde as relações têm perspectiva de horizontalidade 43 Dificuldade em planejar atividades Um dado importante observado durante o MA foi um escasso conhecimento da importância do planejamento e portanto do monitoramento das ações E certa dificuldade de organizar as distintas fontes de recursos humanos materiais financeiros etc Podemos afirmar que tal fator foi retratado especialmente nos primeiros momentos de contato com a instituição Ou seja por meio de reuniões de apresentação e das oficinas realizadas durante o ano I do Programa Por meio das reuniões identificamos que apesar de o projeto ser construído em um contexto diferente do que foi iniciado a linguagem generalista dificultava a compreensão dos reais objetivos e intenções nas atividades que seriam de 230 POSSIBILIDADES senvolvidos pelo CMC Não obstante em um longo e demo crático processo de diálogo os termos linguagem objetivos etc foram se modificando e tomando a forma de um projeto com possibilidades de êxito e viabilidade Todavia é importante salientar que outra dificuldade foi encontrada ao longo das oficinas de MA O CMC tinha dificuldade em dar visibilidade a suas ações Ou seja ações invisíveis exigiam investimentos de distintas características que consumiam parte representativa dos recursos distintos níveis Ao perceber essa fragilidade decidimos investir em um processo que embora lento poderia ser estruturante caso todas as profissionais tomassem para si a ideia de construção democrática Tal situação requereu da equipe do Gema um giro me todológico a construção de uma proposta que possibilitas se uma direção contrária ao reducionismo ou fragmentação das ações desenvolvidas pelo Ação Mulheres e Educação para Cidadania Isso reflete a importância de estabelecer relações com oa outroa sem transformáloa em objeto sem criar barreiras sem ignorar uma leitura contextualizada e crítica de onde e como se insere essea outroa Spósito 2013 44 Estratégias de comunicação ampliando o impacto da Ação Uma forma de potencializar essa outra ação foi traba lhada pelo CMC Os programas de rádio são atividades impor tantes para a instituição pois preveem que as participantes de seus projetosações saiam do lugar de telespectadorasouvin tes e ocupem um lugar de protagonistas no qual suas vozes experiências e conhecimentos são publicizados Ou seja a in cidência das mulheres no exercício da fala pública ocupou um lugar especial nessa atividade promovida pela Ação Mulheres e Educação para Cidadania Monitoramento de projeto social Telma Low et al 231 Os discursos das mulheres participantes das rodas de di álogo e em especial dos cursos levamnos a reconhecer que há um processo de empoderamento ainda que em níveis di ferenciados por parte dessas mulheres Sem dúvida reelabo rar uma construção de gênero requer compromisso significa investimento em vários âmbitos humano social político econômico etc Porém cabenos dizer que dificilmente os avanços ocorrerão sem a dimensão humana presente sem o empoderamento das mulheres sem que sua capacidade crí tica seja revisitada sem que exista compromisso de todas com o coletivo Nesse processo de empoderamento há movimentos con tínuos de avanços e recuos especialmente porque é muito co mum que as mulheres se sintam destituídas do poder de suas vidas e o sentimento de culpa traz movimentos que podem paralisar Como forma de enfrentamento os programas de rá dio colaboram para que elas possam reconhecerse como pro tagonistas de suas vidas buscando inicialmente construir planos assim como procurando outras formas de relacionarse consigo mesmas e com o mundo A existência de redes sociais e institucionais amplas é um elementochave para visibilizar e fortalecer o enfrentamento da violência Saffioti 1999 Alves e CouraFilho 2001 Vieira et al 2008 5 Considerações finais Em suma o processo de MA que desenvolvemos e des construímos nestes últimos dois anos se refere ao MA de um projeto executado por uma ONG como dissemos no início deste texto Para tanto nossa experiência se pautou pela pers pectiva feminista e de gênero que nos permitiu a constru ção de um processo de MA participativo de modo que nos possibilitou construir e pensar o conhecimento as relações 232 POSSIBILIDADES as intervenções o contexto a violência contra as mulheres o marco zero e o marco lógico de um projeto os sujeitos en tre outros elementos constituintes do projeto original Estes últimos os sujeitos e por que não nomear as sujeitas2 fo ram pensados não como simples reprodutores de uma norma preestabelecida e sim como protagonistas e corresponsáveis pelo contexto socialeconômicopolíticocultural de que par ticipam e que constroem Nesse sentido ao construirmos o processo de MA jun to à ONG concebemos primeiramente a existência de uma parceria entre ambos os grupos que de modo simétrico co letivo participativo e horizontal nos permitisse construir e situar qual o lugar e o papel de cada um nesse processo Diante disso nos questionamos sobre o papel e o lugar que ocupamosprotagonizamos na sociedade Da mesma forma ao desenvolvermos um processo de MA das ações da ONG que têm interface direta com as políticas públicas e o Estado também nos perguntamos como podemos produzir conheci mentos que favoreçam um olhar crítico sobre o que está posto e incidam na recriação de mecanismos de enfrentamento da violência contra as mulheres e de promoção da igualdade en tre os sexos Entretanto apesar de estarmos realizando um processo de MA das ações executadas pela ONG também oferece mos subsídios para o Estado sem não nos limitarmos a isso Especialmente porque acreditamos que o processo de MA participativo concebe que o poder decisório não deve estar circunscrito ao Estado ou a uma organização mas exercido pela sociedade Por isso a proposta que desenvolvemos visa 2 Deveríamos ter subvertido a desinência de gênero neste texto desde o início mesmo que ferisse as regras formais da língua portuguesa e a estilística na medida em que as equipes de execução do projeto bem como de monitoramento das ações eram majori tariamente compostas por mulheres com exceção apenas dos professorescoordenado res do Gema Mas essa ousadia fica para as próximas reflexações Monitoramento de projeto social Telma Low et al 233 também a fomentar o protagonismo da sociedade civil no processo de tomada de decisões e no exercício do controle so cial Com base nas teorias críticas sobre políticas públicas a concepção de avaliação participativa é uma proposta que não apenas permite analisar aspectos implícitos no desenvolvi mento de uma política pública mas também pode ser um instrumento capaz de proporcionar e fomentar o exercício da cidadania plena pela participação ativa da sociedade especial mente das pessoas atendidasbeneficiadas pela política pú blica Spink 2001 e 2007 Esse panorama apresentando anteriormente expressa portanto a necessidade de investir em projetos sociais que favoreçam a sinergia entre as organizações governamentais e não governamentais com ênfase na melhoria das políticas públicas voltadas para o enfrentamento e a prevenção da vio lência contra as mulheres Partimos do pressuposto de que as práticas sociais dos movimentos feministas e de mulheres têm apontado para a necessidade da formação política conti nuada de mulheres como ações estruturantes no sentido de permitir e fomentar que elas protagonistas de suas histórias se constituam em força social com capacidade política efe tiva para incidir em comunidades e reafirmar seus direitos e cidadania Esse tipo de ação tem se revelado estratégico para o processo de empoderamento e de formação de pessoas críticas e comprometidas com o desenvolvimento sustentável local Esperamos portanto que ao final desta experiência de reflexão tenhamos podido revisitar nossas práticas projetos participação política e processo de elaboração execução de MA das políticas públicasprojetosprogramas com ênfase na identificação dos entraves que muitas vezes parecem crista lizar as desigualdades para então fazermos de nosso protago nismo e participação uma ferramenta de fato comprometida e voltada para a promoção da igualdade Consideramos que ao desenvolvermos o processo de MA de um projeto social 234 POSSIBILIDADES que visou a incidir na questão da violência contra as mulheres tornouse extremamente necessário construílo e pensálo dentro dos parâmetros da igualdade isto é de um saberfa zerinvestigar que somente se torna crítico e ético quando re flete os princípios participativos e feministas Referências ALVES A COURAFILHO P Avaliação das ações de atenção às mulheres sob violência no espaço familiar atendidas no Centro de Apoio à Mulher Belo Horizonte entre 1996 e 1998 Revista Ciência e Saúde Coletiva Rio de Janeiro v 6 n 1 p 243257 2001 Disponível em httpwwwscielobr pdfsausocv17n312pdf Acesso em 10 maio 2011 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNA MENTAIS ABONG Abong 20102013 em defesa dos direitos e bens comuns Relatório Trienal da Abong São Paulo 2013 Disponível em httpwwwabongorgbrfinaldownloadrevistaabongpdf Acesso em 3 fev 2013 BRITO J Enfoque de gênero e relação saúdetrabalho no contexto de reestruturação produtiva e precarização do trabalho Caderno Saúde Públi ca Rio de Janeiro v 16 n 1 p 195204 janmar 2000 Disponível em httpwwwscielobrpdfcspv16n11578pdf Acesso em 1o ago 2011 DERLIEN HU Uma comparação internacional em avaliação de políticas públicas Revista do Serviço Público Rio de Janeiro v 52 n 1 p 105122 janmar 2001 FLICK U Combining methods lack of methodology discussion of Sotirakopoulou e Breakwell Ongoing Production on Social Representations threads of discussion v 7 n 1 p 4348 1992 FURTADO J P Avaliação de programas e serviços In CAMPOS G W S MINAYO M C S AKERMAN M DRUMOND JR M CARVALHO Y M Org Tratado de saúde coletiva São Paulo Hucitec Rio de Janeiro Fiocruz 2009 p 715740 Monitoramento de projeto social Telma Low et al 235 GERGEN K GERGEN M Construcionismo social um convite ao diálogo Rio de Janeiro Instituto Noos 2010 LYRA J MEDRADO B SPÓSITO D LOW T CORDEIRO A C S CORDEIRO G R S Gênero saúde das mulheres e violência uma pro posta de monitoramento e avaliação participativa In 17o ENCONTRO DA REDOR 2012 João Pessoa Anais digitais João Pessoa UFPB 2012 p 112 PASINATO W Estudo de caso Juizados especiais de violência doméstica e familiar contra a mulher e a rede de serviços para atendimento de mulheres em situação de violência em Cuiabá Mato Grosso São Paulo Observe 2009 ROCHA M S Silenciosa conveniência entre transgressão e conservadorismo tra jetórias feministas frente à epidemia da Aids no Brasil Tese Doutorado em Serviço Social Universidade Federal de Pernambuco Recife 2011 218 f SAFFIOTI H Já se mete a colher em briga de marido e mulher São Paulo em Perspectiva São Paulo v 13 n 4 p 8291 outdez 1999 SILVA M O Avaliação de políticas e programas sociais teoria e prática São Paulo Veras 2001 SPINK M O estudo empírico das representações sociais In Org O conhecimento no cotidiano as representações sociais na perspectiva da psicologia social São Paulo Brasiliense 1995 p 85108 SPINK P K Avaliação democrática propostas e práticas 2001 Coleção Abia Fundamentos de Avaliação Disponível em httpwwwabiaidsorg brimgmediacolecao20fundamentos20avaliacao20N3pdf Aces so em 4 set 2013 Processos organizativos e ação pública as possibilidades eman cipatórias do lugar In JACÓVILELA A M SATO L Org Diálogos em psicologia social Porto Alegre Evangraf 2007 p 315328 Disponível em fileCUsersUsuarioDownloadsJACOVILELASATODialogos empsicologiasocialFINAL201pdf Acesso em 16 jul 2014 236 POSSIBILIDADES SPÓSITO D Diseño de evaluación del plan de medidas del gobierno Valenciano para combatir la violencia que se ejerce contra las mujeres 20052008 Disserta ção Mestrado em Gênero e Políticas de Igualdade Institut Universitari dEstudis de la Dona Valência 2009 138 p Violencia contra las mujeres y políticas públicas evaluación de la po lítica de asistencia a las mujeres en situación de violencia de la ciudad de RecifePernambucoBrasil 20052009 Tese Doutorado em Estudos de Gênero Institut Universitari dEstudis de la Dona Valência 2013 317 p VIEIRA L et al Fatores de risco para violência contra a mulher no contex to doméstico e coletivo Revista Saúde e Sociedade São Paulo v 17 n 3 p 113 125 julset 2008 Disponível em httpwwwscielobrpdfsausoc v17n312pdf Acesso em 18 maio 2011 Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo Neste texto abordamos o aconselhamento em HIVAids como prática no campo da saúde cujo objetivo é acolher pes soas que demandam atenção nessa área Apresentamos uma proposta de análise da prática do aconselhamento como es tratégia que pode qualificálo no quadro de respostas à Aids Interessanos focalizar ocorrências no encontro aconselha dorusuário e as possíveis implicações ressonâncias impactos que tal encontro pode ter na própria prática do aconselha mento Para tanto fragmentos de sessão de aconselhamento ilustram as análises Antecede a análise propriamente dita uma contextualiza ção sobre o aconselhamento em HIVAids na realidade brasi leira O aconselhamento é uma prática preconizada pelo Mi nistério da Saúde MS para acompanhar a testagem antiHIV e compõe o quadro de políticas públicas de enfrentamento da Aids cuja origem conta com uma história específica de reivin dicações e disputas de poder protagonizada por movimentos sociais diante dos primeiros casos de Aids nos anos 1980 O trabalho em saúde é discutido como modalidade de trabalho específica na realidade capitalista que imprime marcas tam bém no aconselhamento O encontro aconselhadorusuário merece ser analisado como processo considerando o que ocorre no momento entre eles que pode assumir contornos diversos 238 POSSIBILIDADES 1 Elementos da história social da Aids As referências históricas sobre a formulação de políticas públicas para enfrentamento da Aids no Brasil Parker 2000 indicam certa letargia do Poder Executivo nacional em bus car respostas para os casos que surgiam ano após ano nos grandes centros urbanos na década de 1980 Nesse período alguns militantes de movimentos pelos direitos dos homos sexuais começaram a cobrar da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo SESSP uma posição frente à nova doença o que impulsionou os primeiros esforços para enfrentamento da situação Gianna et al 2012 Um contexto complexo sustentou essa situação e envol veu diversos aspectos Os casos de Aids nos anos 1980 esta vam altamente concentrados no estado de São Paulo Esse estado era o centro principal para o surgimento de um mo vimento pela liberação gay Parker 2000 p 12 que além de pressionar o Executivo estadual por respostas constituía eleitorado significativo que merecia ser escutado Além dis so a ditadura militar no Brasil estava chegando ao fim e o estado de São Paulo havia eleito um líder de oposição progressista o Franco Montoro que por sua vez havia nomeado figuras políticas progressistas em quase todas as áreas de seu governo Parker 2000 p 12 O movimento de reforma sanitária e o movimento gay constituíram forças importantes para pressionar o governo estadual que insti tuiu em 1983 um grupo de trabalho sobre o tema A experi ência de São Paulo inspirou a formatação de programas de Aids em outros estados da Federação e no próprio Governo Federal Em 1985 quando o Ministério da Saúde começou a se mover mais na direção da criação de um Programa Nacional de Aids o Programa Estadual de Aids já havia sido estabelecido e estava Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 239 em funcionamento em pelo menos 11 dos 27 estados brasilei ros e Distrito Federal Parker 2000 p 13 O complexo quadro que envolve a história brasileira de atenção à Aids inclui diversos aspectos e marcos envolvendo elementos da política da economia das relações internacio nais dos movimentos da sociedade civil além de aparato técnicocientífico na área Consideremos este último aspecto que nos ajuda a pensar sobre o aconselhamento como um dos esforços no amplo quadro de resposta à Aids Parker 2000 p 66 sistematiza o que identifica como as três tendências ou abordagens distintas que a humanidade foi construindo des de a década de 1980 para responder às dimensões sociais da epidemia de Aids no mundo e inspiraram também os esfor ços brasileiros na questão traduzidos por investimentos em pesquisas e orientações de políticas A partir de meados dos anos 1980 Parker 2000 a pri meira abordagem se constitui com ênfase nas pesquisas so bre comportamento de risco e identificação de conhecimen tos atitudes e práticas da população associadas ao risco de contrair HIV Investimentos foram dirigidos à persuasão das pessoas para não assumirem atitudes de risco em relação ao HIV É nesse contexto que o atendimento a pessoas em torno da temática do HIVAids tem como referência a mudança de comportamento e portanto ênfase em uma psicologia indi vidual Parker 2000 p 68 que inspiraria a formatação de programas mais amplos para a população Com o passar do tempo essa abordagem mostrouse ine ficaz e passou a ser questionada em meados a final da década de 1980 As pesquisas indicavam que investir na informação sobre como se peganão pega Aids não era suficiente para provocar mudanças de comportamento Assim a segunda abordagem para responder à Aids foi ganhando espaço dian te das argumentações de que era imprescindível considerar 240 POSSIBILIDADES para além de uma psicologia individual uma dimensão intersubjetiva dos significados culturais relacionados à sexu alidade e ao uso de drogas Parker 2000 p 71 situações de risco para infecção O foco da atenção passou a ser dirigido aos ambientes culturais que sustentavam os comportamen tos das pessoas A intervenção esperada no aconselhamento de acordo com essa tendência deixava de ser com ênfase na persuasão para mudança de comportamento e passava a ser voltada para as representações sociais ou coletivas dos temas implicados com a questão como sexualidade uso de drogas risco prevenção Coerente com essa tendência de se conside rar a dimensão cultural nos esforços de enfrentamento da Aids intervenções comunitárias ocuparam espaço como es tratégia de sensibilização e mobilização das pessoas para a questão diante da insuficiência constatada em intervenções no comportamento individual A terceira abordagem apresentada por Parker 2000 ga nha espaço no cenário a partir do final dos anos 1990 por pesquisas que destacavam a presença de fatores políticos e econômicos na disseminação do HIV A ideia dessa tendência era que as causas da Aids são muito mais complexas do que originalmente se acreditava Intervenções apenas na direção da persuasão para mudança de comportamentos ou até as mais abrangentes dirigidas às coletividades apresentaramse ineficazes no enfrentamento da Aids O argumento que ga nhava destaque é que são necessárias intervenções estrutu rais e ambientais para enfrentar a doença As decisões políti cas e o campo da economia política merece ser considerado como contribuindo para a transmissão ou controle do HIV em determinada população Esses aspectos podem indicar as condições de vulnerabilidade ao HIVAids de determina da população e assim merecem ser considerados para ade quadamente manejados construir respostas efetivas à Aids Nessa abordagem também merece destaque o modo como Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 241 as comunidades afetadas pelo HIVAids têm lidado com essa situação Ora vemos que as orientações para intervenção no cam po de HIVAids passam nos primeiros tempos da persuasão individual para mudança de comportamento a uma atenção mais efetiva a coletividades e suas construções simbólicas para enfim dedicar atenção aos aspectos políticos e sociais implicados na disseminação do HIV O aconselhamento atra vessa essa história e se mantém como prática indispensável na testagem antiHIV e na prevenção ao HIVAids Dediquemos atenção a essa prática segundo as recomendações do MS e as contribuições da literatura científica 2 O aconselhamento em HIVAids O aconselhamento é preconizado Brasil 1993 1998 e 1999 para ser realizado antes da coleta de sangue para exame antiHIV aconselhamento préteste e na entrega do resulta do pósteste por profissional de saúde capacitado para tal Caracterizase como recurso estratégico fundamental diante da constatação de que o imaginário social em torno da Aids sustenta fantasias e informações equivocadas que podem ser abordadas e manejadas no espaço de diálogo entre profissio nal de saúde e usuário do serviço O aconselhamento consti tui portanto importante dispositivo na resposta brasileira à Aids Galindo 2013 As proposições elaboradas pelo MS para o aconselhamen to são difundidas por manuais em todo o país e utilizadas na formatação de serviços e formação de aconselhadores Chama nossa atenção a fragilidade de debate teóricometodológico que fundamente o aconselhamento nos textos oficiais do MS Associado ao trabalho do psicólogo norteamericano Carl Rogers o aconselhamento é referido como prática de acordo 242 POSSIBILIDADES com a abordagem centrada na pessoa e no mesmo manual reconhecese que ao ser incorporado às práticas de saúde na América Latina o aconselhamento recebe influência da psi canálise em especial a de orientação argentina Brasil 1998 Em manual difundido no ano seguinte o MS problematiza as possíveis filiações ideológicas do aconselhamento e inscre veo como prática social e historicamente construída implica da com valores da sociedade capitalista Brasil 1999 Nessas referências não há um debate consistente sobre os fundamen tos do aconselhamento Filgueiras e Deslandes 1999 em pesquisa de avaliação das ações de aconselhamento no Brasil entrevistando profis sionais do Sistema Único de Saúde SUS analisaram experi ências a partir de um crivo construído pelas diretrizes para essa prática recomendadas pelo MS que envolvem acolhimento escuta comunicação avaliação de riscos e alternativa de pre venção orientações sobre tratamento para estimular adesão e qualidade de vida De acordo com a investigação das autoras a dimensão da escuta ficou comprometida sendo substituída pela transmissão de informações e orientações além de busca de dados sobre o usuário em atendimento Análise de manuais do MS sobre recomendações ao tra balho de aconselhadores Galindo 2013 identifica tendência diretiva e normatizante nos textos oficiais tanto na aborda gem ao usuário quanto nos procedimentos a serem tomados pelo profissional de saúde As orientações à postura adequada do aconselhador são diretivas com referências técnicas priori tariamente dirigidas a procedimentos que sugerem uma ação quase mecânica por parte do profissional o que envolve cuida dos com o ambiente garantia de sigilo avaliação de riscos atenção ao fluxo no serviço recepção aconselhamento pré teste coleta de sangue aconselhamento pósteste Enfim as orientações parecem priorizar o entorno do aconselhamento Quando se referem ao encontro profissional de saúdeusuá Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 243 rio propriamente dito e recomendam cuidado em escutar o usuário não julgálo e apoiálo emocionalmente as recomen dações não deixam claro como fazer isso A meta do aconse lhador nessa perspectiva é contribuir para a mudança de comportamento do usuário o que remete à primeira aborda gem da Aids Parker 2000 que tem como ênfase a persuasão Identificamos portanto uma significativa lacuna em relação ao que ocorre na cena do aconselhamento entre profissional e usuário que merece atenção Pesquisas sobre comportamento e atitudes diante das DSTsHIVAids Brasil 2011 indicam que a grande maioria das pessoas tem informações adequadas sobre riscos e preven ção no campo de HIVAids conhecem e têm acesso a insumos como preservativos mas continuam tendo práticas sexuais desprotegidas O aconselhamento apresentase assim como locus privilegiado para abordar questões relacionadas com o tema por ser momento de diálogo entre profissional de saúde e usuário É na perspectiva de contribuir com avanços na análise da prática do aconselhamento que construímos a proposta de análise apresentada adiante 3 O trabalho no campo da saúde Concordamos com Merhy 2007 que o trabalho em saúde é da ordem da produção não material Como nomeia o autor é um trabalho vivo em ato isto é ele é produzido no momento mesmo em que está sendo realizado Diferente por tanto da produção industrial cuja ação de um operário é par te da produção geral da qual ele não participa efetivamente de forma plena O trabalho em saúde de acordo com Merhy 2007 utilizase de tecnologias de relações de encontros de subjetividades que o autor define como tecnologias leves para 244 POSSIBILIDADES diferenciálas das leveduras saberes estruturados e duras equipamentos Fazem parte das tecnologias leves o olhar o sorriso a atenção a escuta a acolhida enfim o cuidado Uma forte contradição com que convive o trabalho em saúde trabalho vivo em ato é que em sociedades capitalistas como a nossa o setor de serviços de saúde tende a funcionar com igual lógica de mercado que o setor produtivo Traverso Yépez 2008 isto é a saúde tende a funcionar como uma mer cadoria Entendemos Galindo 2013 que o aconselhamento se inscreve também nessa lógica Decorre dessa contradição que um componente de alie nação indiscutivelmente presente na lógica capitalista de pro dução material Marx 1984 pode estar também presente na prática do aconselhamento Galindo Francisco e Rios 2013 A alteração desse quadro de alienação não se consegue apenas com investimentos racionais de compreensão dos antago nismos que envolvem o processo de trabalho mas como ar gumenta Žižek 1992 e 1996 atenção merece ser dirigida ao campo das práticas na perspectiva de alterar o jogo de forças que está na base do trabalho executado Proposições de Merhy 2009 ajudamnos a aprofundar reflexões sobre a prática profissional em saúde em especial as que se referem ao encontro entre trabalhador de saúde e usu ário Para o autor esse encontro se dá em um espaço intercessor1 que só ocorre em ato Compreender os tipos de encontro que ocorrem ajuda o profissional em saúde a conhecer as forças presentes e em disputa no processo de seu trabalho Merhy 2009 indica dois tipos de interseção no encontro trabalhador de saúdeusuário a intersecção objetal na qual os envolvidos se posicionam em espaços externos e distintos um em relação ao outro e re 1 Apoiase no conceito de intercessor de G Deleuze Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 245 produzem um modelo de atenção à saúde típico da racio nalidade capitalista Ao que podemos sugerir lidam com a questão da saúde ou do aconselhamento como uma mer cadoria a interseção partilhada na qual os envolvidos estabelecem trocas marcam a situação pelo diálogo e pelo encontro in tersubjetivo O encontro de interseção partilhada é o que deve ocorrer no processo de trabalho em saúde pois possi bilitará a emergência da relação entre profissional e usuário como cenário do atendimento Para Merhy 2009 os espaços de interseção são de pro dução instituinte isto é merecem ser considerados como trabalho vivo que se adequadamente observados analisados pelo trabalhador podem inclusive qualificar os encontros por sugeririndicar aspectos até então não considerados não instituídos no encontro 4 Análise de fragmentos de sessões de aconselhamento Selecionamos alguns relatos de sessões de aconselhamen to em DSTsHIVAids feitos por profissionais de saúde atuan do em Centro de Testagem e Aconselhamento em DSTsHIV Aids CTA no estado de Pernambuco no contexto de pesquisa de tese2 sobre o assunto 2 Tratase da tese O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids defendida em janeiro de 2013 na Universidade Católica de Pernambuco Unicap com incentivo de bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco Facepe orientação da professora doutora Ana Lúcia Francisco Unicap e coorienta ção do professor doutor Luís Felipe Rios UFPE A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética da Unicap Parecer no 0342010 As entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012 246 POSSIBILIDADES Fragmentar as entrevistas extraindolhes relatos parece incongruente com a argumentação que travamos sobre o en contro profissional de saúdeusuário e o próprio trabalho em saúde como trabalho vivo em ato Optamos por usar o recurso de discutir fragmentos de sessões como exercício que pode ser realizado por trabalhadores em saúde e equipes diante de sua própria rotina Voltandose para sua prática e contexto em que atuam trabalhadores em saúde têm maiores possibilida des de superar a dimensão alienante em sua rotina de trabalho Assim os relatos que ilustram as discussões neste texto não devem ser tomados como referências estáticas para a prática do aconselhamento em quaisquer espaço e tempo Ensejamos que as análises dos relatos possam mobilizar novas análises da realidade de profissionais de saúde e suas equipes de trabalho FRAGMENTO 1 Aconselhadora Você tem vida sexual ativa Já transou alguma vez na vida É importante fazer o exame pelo menos uma vez Usuária Ana3 Eu sou casada há 40 anos minha filha e é com a mesma pessoa Eu não tenho isso não Aconselhadora Sim eu sei que a senhora não tem mas tem que fazer o exame pelo menos uma vez na vida todo mundo deveria fazer uma vez na vida O diálogo entre a aconselhadora e a usuária Ana sugere um encontro do tipo de interseção objetal Merhy 2009 pois ambas parecem falar cada uma a partir de um referencial es pecífico sem interação com a outra A aconselhadora susten ta em uma postura imperativa que o exame deve ser feito sem abordar de forma satisfatória diante de Ana os motivos para tal Reduz a necessidade do exame ao fato de Ana ter vida sexual ativa perdendo a oportunidade de tratar com mais cui dado de riscos e formas de transmissão do HIV por exemplo Ana 3 Os nomes de usuárias são fictícios Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 247 por sua vez ao argumentar que é casada e tem contato sexual exclusivamente com o marido comunica nas entrelinhas de sua narrativa que está protegida do risco de contrair HIV Ora para Ana o casamento e a fidelidade protegemna do HIV Tal fantasia de invulnerabilidade é identificada na literatura científica como coerente com as construções sim bólicas dos primeiros tempos da Aids que equivocadamente associaram a doença aos chamados grupos de risco os homos sexuais hemofílicos usuários de heroína Souza e Czeresnia 2007 Parker 2000 Ayres et al 2003 Por ter 40 anos de casa da é possível supor que Ana vivenciou o surgimento da Aids e guarda como referência simbólica o risco de infecção associa do ao fato de se ter váriosas parceirosas É como se ter só um parceiro garantisse sua proteção Por conseguinte o HIV pode estar relacionado com as pessoas que são promíscuas para usar o termo do senso comum que parece cristalizar es sas referências de risco versus proteção e das fantasias de vul nerabilidadeinvulnerabilidade Percebese que a aconselhadora usa como recurso para o convencimento de Ana para realizar o exame uma ordem quase como uma determinação externa a elas como se alguém ausente da cena orientasse que todo mundo deve fazer esse exame uma vez na vida A dimensão subjetiva que parece sustentar a verdade de Ana de que sendo casada e fiel está protegida mantémse intocável na tentativa de diálogo pro posto pela aconselhadora Isto é a oportunidade de abordar o universo simbólico que Ana torna presente no aconselhamen to é perdida por uma postura de aparente obediência da acon selhadora à norma todos devem fazer o exame que tenta impor a Ana a partir de informação racional deve fazer Tal postura da aconselhadora é claramente indicadora de um encontro do tipo objetal Além disso ao apresentar a norma de que deve fazer o exame a aconselhadora parece não se dis por a ouvir o que pode haver de instituinte nesse encontro 248 POSSIBILIDADES Quer dizer poderia escutar o que significa para Ana a equação casamento não examenão risco E a partir do que a usuária expressasse ir tecendo o diálogo na perspectiva de contribuir para que Ana qualifique as informações sobre riscos de infec ção e se sensibilize para considerar riscos onde à primeira vis ta não existem Além disso poderia abordar outros possíveis conteúdos com os quais convive Ana em sua relação com a Aids Ao contrário a aconselhadora não abre o diálogo para essa possibilidade de escuta preenchendo o espaço do encon tro por regras instituídas ainda que não fique claro quem as definiu Aspecto curioso no Fragmento 1 é a afirmativa da acon selhadora sim eu sei que a senhora não tem Como ela po deria saber que Ana não tem HIV Estaria a aconselhadora também apoiada em fantasias de invulnerabilidade em rela ção a mulheres casadas e fiéis Nosso exercício de análise não tem como aprofundar a motivação da aconselhadora questão que pode ser objeto de investigações posteriores Aqui mais uma vez foi perdida a oportunidade de abordar questões como diferença entre HIV e Aids mudanças no perfil epide miológico da Aids sintomatologia inespecífica do HIV me canismo de vida desse vírus no corpo humano Enfim ao ser construído um encontro de intervenção objetal o diálogo não foi suficientemente capaz de envolver aconselhadora e usuá ria em contexto no qual houvesse trocas e aprofundamentos de questões em nível subjetivo Ao contrário mantiveramnas em uma abordagem superficial dos conteúdos que emergiram no encontro marcado por um investimento da aconselhadora em aspectos racionais e por sua indisposição em dialogar com as questões subjetivas Cabem algumas reflexões sobre a postura da aconselha dora no Fragmento 1 À primeira vista podemse sugerir uma inabilidade eou indisponibilidade para trabalhar usando tec nologias leves escuta olhar sorriso cuidado e uma tendência Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 249 a procurar impor tecnologias leveduras saberes estrutura dos com ênfase no saber do profissional sobre motivos para fazer o exame antiHIV A tendência mais comum de análise é responsabilizar oa profissional por sua inadequada postu ra na tentativa de diálogo Nossa proposta de análise busca incluir o máximo de fa tores coerente com a perspectiva de que a realidade é comple xa e o aconselhamento é atravessado por diversas dimensões Não desconsiderando a hipótese de fragilidade da formação de profissionais para a prática do aconselhamento conside ramos que aspectos da política local municipal de enfrenta mento das DSTsHIVAids podem estar na base das práticas de atenção à saúde que se caracterizam pelo encontro de tipo interseção objetal No caso específico de municípios de Pernambuco iden tificamos Galindo e Francisco 2011 condições de trabalho que comprometem a qualidade de atendimento à população É comum por exemplo quantidade restrita de servidores para atendimento de alta demanda de usuários nos CTAs ou opção por realizar mutirões de testagem em bairros eou dis tritos rurais de dezenas às vezes centenas de pessoas em cur to espaço de tempo e sem recursos humanos suficientes para garantir o aconselhamento Além disso a ausência de concur so público para os postos de trabalho em CTAs de vários mu nicípios mantém o funcionamento dessa unidade refém do cenário políticopartidárioeleitoral o que deixa a equipe de trabalho do CTA vulnerável às mudanças no Executivo mu nicipal Enfim as condições de trabalho de aconselhadores merecem ser consideradas ao se refletir sobre a qualidade do atendimento oferecido à população no que se refere ao acon selhamento em DSTsHIVAids Se por um lado temos frágeis condições de trabalho em CTAs por outro como vimos a população compartilha verda des sobre riscos prevenção necessidade ou não de testagem 250 POSSIBILIDADES que demandam atenção e manejo o que envolve habilidades diversas por parte dos profissionais de saúde Escutamos de nossos entrevistados diversos relatos indicando que usuários consideram a necessidade de fazer exame antiHIV quando sa bem de ex ou atual parceiroa infectadoa pelo vírus Isto é suas práticas sexuais desprotegidas se configuram como risco diante do resultado concreto ou boato em alguns casos de um resultado reagente para HIV de ex ou atual parceiroa São comuns também relatos de pessoas que buscam a tes tagem quando sabem de alguém próximo a elas parente amigoa vizinhoa que está com HIV Nesses casos o que mobiliza as pessoas a buscarem exame é a possibilidade de te rem também o HIV já que outros próximos também têm Não se trata nessas situações de fantasias de contágio por modos improváveis como ar saliva contato com a pele Um diálogo aberto para acolher conteúdos com os quais lidam os usuários configurase como estratégico para garantir um aconselhamento produtivo FRAGMENTO 2 Aconselhadora Qual é a sua idade Usuária Bruna 17 Aconselhadora Já tinha feito esse exame antes Por que veio fazer Bruna Não nunca fiz É que eu descobri que meu namorado é gay aí fiquei morrendo de medo de ter pegado Aids Aconselhadora Que bom que você veio Mas vamos conversar melhor sobre isso O fato de seu namorado ser gay não é um motivo para você pegar HIV Vocês tinham intimidade sexual sem camisinha Bruna É Tivemos sexo sem camisinha por seis meses Aconselhadora A preocupação é essa o sexo sem camisinha Vamos entender o porquê O Fragmento 2 sugere um encontro entre aconselha dora e usuária do tipo interseção partilhada As primeiras per Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 251 guntas da aconselhadora indicam um rapport com objetivo de construir um espaço para diálogo É possível supor que o olhar foi utilizado pela aconselhadora que tendo diante de si uma pessoa muito jovem inicia o diálogo indagando sua idade A questão seguinte sobre o motivo de Bruna para fazer o exame antiHIV parece indicar a preferência pelo uso de tecnologias leves como o olhar já referido pois a pergunta feita a Bruna oferecelhe acolhida às suas demandasmotiva ções E de fato ela as expressa livremente ao informar que teme ter contraído Aids porque descobriu que o namorado é gay A abertura proporcionada pela aconselhadora e o diálogo engendrado por ambas parecem ir se consolidando em um es paço no qual pode ser expresso o que se passa com Bruna suas impressões fantasias temores e comportamentos A primeira informação que Bruna expõe sobre risco de infecção salta aos olhos Segundo ela a associação entre gay e Aids é direta A relação que essa jovem faz entre orientação se xual e Aids remonta aos primeiros tempos da epidemia quan do inclusive ela nem tinha nascido Bruna reproduz a cons trução simbólica de que homossexuais fazem parte de grupo de risco para pegar Aids referência essa que orientou o desenho de políticas e de investimentos em pesquisas no setor ainda no final dos anos 1980 Souza e Czeresnia 2007 Parker 2000 Ayres et al 2003 A livre expressão do que Bruna acredita apresentase como oportunidade para ser identificado na rotina do tra balho de aconselhamento o que pesquisadores argumentam sobre construção social da realidade cujas marcas simbóli cas são passíveis de ser apreendidas por práticas discursivas Spink 2004 Bruna não precisou viver nos anos 1980 para compartilhar as referências simbólicas sobre Aids construí das naquela época Ainda que a literatura científica indique essa construção discursiva Souza e Czeresnia 2007 como 252 POSSIBILIDADES obsoleta na tarefa de enfrentar a Aids ela ainda permane ce no senso comum consolidando concepções valores e comportamentos A história social da Aids a todosas envolve mantendo nos emaranhados em sua teia de fios que articulam fatos fantasias preconceitos orientando comportamentos e inspi rando concepções sobre o assunto Como fenômeno social te mos aprendido diversas lições com a Aids além de construir mos verdades sobre essa doença Bastos 2006 argumenta que a história de vitórias do ser humano na Terra em relação a outros seres vivos vive um capítulo novo o da luta humana contra o vírus da Aids cujo desfecho é ainda desconhecido pois até então não vencemos o HIV Nos primeiros tempos da Aids no Brasil o desejo homos sexual foi associado à morte pelo estabelecimento da íntima relação entre Aidssubjetividademorte naqueles anos 1980 Birman 1994 A associação da Aids à homossexualidade masculina contribuiu ainda para a construção de fantasias de invulnerabilidade em boa parte da população Labaki 1996 Isso é o que parece ocorrer com Bruna que esteve por seis meses com parceiro fixo em atividade sexual despro tegida e só lhe ocorreu o risco de pegar Aids quando soube que o namorado é gay Ora Bruna parece guiada por uma fantasia de invulnerabilidade que antevemos pela certeza de proteção apenas abalada diante do conhecimento de que o namorado é gay Explorar mais profundamente o que compõe tal fantasia de invulnerabilidade pode ser objeto de estudos futuros que certamente auxiliarão na prática do aconselhamento O diálogo entre a aconselhadora e Bruna prossegue e in dica mais uma vez a postura acolhedora da profissional de saúde ao destacar que foi bom a moça ter buscado o CTA e pelo fato de ter anunciado que conversarão sobre o motivo do atendimento de Bruna Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 253 Sutilmente a aconselhadora afirma que não é o fato de ter sexo com gay que torna Bruna mais exposta à Aids mas sim a prática sexual sem camisinha O modo como essas ver dades são anunciadas sugere que a aconselhadora assume um lugar de cuidadora de Bruna Ousamos dizer que a acon selhadora possivelmente tem uma percepção crítica da his tória social da Aids e supõe que Bruna tem construído seus conhecimentos sobre risco prevenção sexo protegido ancora da em preconceitos e informações equivocadas Destacamos que a postura de acolhida parece orientar os procedimentos da aconselhadora Esta não julga Bruna ou qualifica suas in formações como indevidas A aconselhadora posicionase em diálogo com Bruna preenchendo o encontro com o que tem de informações adequadas e possivelmente tentará manejar o que se apresenta como preconceito por parte da moça É co mum ouvirmos no cotidiano queixas de que o profissional de saúde não deu a devida atenção à pessoa que está atendendo Um profissional de saúde diante do que Bruna apresenta no encontro poderia ser minimalista e apenas dizer o impor tante é usar camisinha ou falar isso de que só pega com gay está errado no passado se pensou isso mas hoje não Esses procedimentos não são difíceis de ser encontrados por parte do profissional de saúde Indicamos na análise do Fragmento 2 que o tipo de re lação interseção partilhada valoriza o que o usuário traz consigo para o encontro com a aconselhadora Esta por sua vez uti lizando tecnologias leves como o olhar a escuta o cuidado possibilita a construção de espaço intersubjetivo cuja produ ção de diálogo tende a ser em benefício da usuária e de sua saúde 254 POSSIBILIDADES 5 Considerações finais Entendemos que a prática do aconselhamento é atraves sada por várias dimensõescontextos que se fazem presentes no encontro profissional de saúdeusuário Ocupam a cena do aconselhamento direta ou indiretamente valores socialmen te construídos e partilhados em torno dos temas envolvidos referências pessoais de usuários sobre os assuntos em ques tão aspectos relacionados com os investimentos financeiros e decisões políticas em torno da oferta do serviço de aconselha mento elementos da gestão interna da unidade de saúde as pectos relacionados com a formação de aconselhadores entre outros O que destacamos como desafiante para o profissional de saúde diante da tarefa do aconselhamento é posicionarse no encontro com o usuário na perspectiva de que aquelas dimen sões que povoam a cena recebam atenção devida de modo que o encontro seja producente para quem procura ajuda Acre ditamos que o encontro do tipo interseção partilhada apre sentase como mais produtivo por possibilitar um espaço de genuíno diálogo ainda que ele nem sempre ocorra diante das várias questões que podem estar implicadas na situação Neste texto apresentamos um exercício de análise das si tuações de atendimento pelas quais passam em sua rotina profissionais de saúdeaconselhadores em HIVAids Espera mos que os profissionais e suas equipes mantenham como sis temática o estudo de casos a troca de experiências a partilha de descobertas e inquietações pois acreditamos que a garan tia de espaço para os profissionais se expressarem sobre suas práticas de trabalho contribuirá para qualificar sua tarefa de escutar e ajudar as pessoas que buscam o aconselhamento em HIVAids Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 255 Referências AYRES J R C M FRANÇA JR I CALAZANS G J SALETTI FILHO H C Conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde novas perspectivas e desafios In CZERESNIA D FREITAS C M Org Promoção da saúde conceitos reflexões tendências Rio de Janeiro Fiocruz 2003 BASTOS F I Aids na terceira década Rio de Janeiro Fiocruz 2006 BIRMAN J Sexualidade entre o mal e as maledicências In LOYOLA M A Org Aids e a sexualidade o ponto de vista das ciências humanas Rio de Janeiro Relume DumaráUerj 1994 p 109115 BRASIL Aconselhamento em DST HIV e Aids diretrizes e procedimentos bá sicos 3 ed Brasília Ministério da Saúde 1998 Diretrizes dos Centros de Testagem e Aconselhamento CTA manual Brasília Ministério da Saúde 1999 Normas de organização e funcionamento dos Centros de Orientação e Apoio Sorológico Brasília Ministério da Saúde 1993 Pesquisa de conhecimentos atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 64 anos Brasília Ministério da Saúde 2011 FILGUEIRAS S L DESLANDES S F Avaliação das ações de aconselha mento análise de uma perspectiva de prevenção centrada na pessoa Cad Saúde Pública Rio de Janeiro v 15 sup 2 p 121131 1999 GALINDO W C M O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids Tese Doutorado Universidade Católica de Pernambuco Recife 2013 FRANCISCO A L Gestão municipal em ações de HIVAids In XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALAS Anais Recife UFPE 611 set 2011 RIOS L F Proposições para a formação de aconselhado res em HIVAids Physis revista de saúde coletiva Rio de Janeiro v 23 n 3 p 741761 2013 256 POSSIBILIDADES GIANNA M C KALICHMAN A DE PAULA I CERVANTES V SHIM MA E Políticas públicas e prevenção das DSTAids ontem hoje e ama nhã In PAIVA V AYRES J R BUCHALLA C M Vulnerabilidade e direitos humanos prevenção e promoção da saúde Da doença à cidadania Curiti ba Juruá 2012 livro I LABAKI M E P Aids uma clínica da indagação Cadernos de Subjetividade v 4 1o e 2o sem p 153161 1996 MARX K O capital crítica da economia política 9 ed São Paulo Difel 1984 MERHY E E Enfrentar a lógica do processo de trabalho em saúde um ensaio sobre a micropolítica do trabalho vivo em ato no cuidado In CAR VALHO S R FERIGATO S BARROS M Elizabeth Org Conexões saú de coletiva e políticas de subjetividade São Paulo Hucitec 2009 Saúde a cartografia do trabalho vivo 3 ed São Paulo Hucitec 2007 PARKER R Na contramão da Aids sexualidade intervenção política Rio de Janeiro Abia São Paulo Ed 34 2000 SOUZA V CZERESNIA D Considerações sobre os discursos do aconse lhamento nos centros de testagem antiHIV Interface comunicação saú de educação v 11 n 23 p 531548 2007 SPINK M J Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 2004 TRAVERSOYÉPEZ M A psicologia social e o trabalho em saúde Natal UFRN 2008 ŽIŽEK S Como Marx inventou o sintoma In Org Um mapa da ideologia Rio de Janeiro Contraponto 1996 Eles não sabem o que fazem o sublime objeto da ideologia Rio de Janeiro Jorge Zahar 1992 Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comunidades para a promoção à saúde e direitos humanos Camila Santos Verônica Carrazzone Renata E de S Nunes e Luís Felipe Rios Neste capítulo discutiremos a experiência da Caravana da Cidadania uma das ações de mobilização comunitária do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape1 O subprojeto teve início em maio de 2012 encerran dose em janeiro de 2015 Por meio das diferentes frentes dessa ação foram acessadas cerca de 605269 pessoas sobre os diferentes temas de que trata o Programa Carrazzone et al 20152 O capítulo está dividido em quatro partes Na primeira discutimos o canário no qual o subprojeto Caravana da Ci dadania trabalhou Na segunda apresentamos a perspectiva teórica que orientou as atividades realizadas A terceira parte é dedicada à apresentação da metodologia de trabalho Nas duas últimas partes tecemos algumas reflexões sobre o pro 1 É importante expressar nossos agradecimentos aos professores Eniel Sabino de Olivei ra e Rafael Diehl que junto com os autores deste texto formaram a equipe da Caravana da Cidadania durante boa parte do percurso aqui narrado Também queremos agrade cer aos gestores e profissionais dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Sem a participação deles definitivamente não obteríamos êxito 2 Vale ressaltar que contabilizamos as pessoas acessadas pela quantidade de material in formativo e insumos de prevenção camisinhas distribuídos Temos inteira consciência de que em uma população de cerca de 285 mil pessoas o número acima revela que uma mesma pessoa foi acessada várias vezes pelo Programa a partir de suas diferentes frentes de trabalho expressas nos temas dos materiais distribuídos É justamente essa possibi lidade de acessar uma mesma pessoa várias vezes que permite o êxito de um trabalho de promoção da saúde como o aqui proposto 258 POSSIBILIDADES cesso de interferir em comunidades de dois municípios para propor mudanças que favoreçam a promoção da saúde consi derando e respeitando as dinâmicas socioculturais locais 1 O cenário as duas faces do Complexo Suape Complexo Industrial Portuário de Suape Pernambuco preparado para grandes negócios Governo do Estado de Pernambuco Com essa frase o governo de estado de Pernambuco apre senta o Complexo Suape em encarte com exposição visual que alterna imagens de praias com beleza natural paradisíaca e imagens de imensas estruturas metálicas cuja infraestrutura se estende por 13500 hectares O Complexo é apontado como a locomotiva do desenvolvimento de Pernambuco e o polo de desenvolvimento mais dinâmico do Brasil Com empreendi mentos estruturadores como a Refinaria Abreu e Lima o Polo Naval e Offshore o Polo Petroquímico e o Polo Siderúrgico e Metalmecânico Suape anuncia que todos esses investimen tos estão em sintonia com uma política de sustentabilidade social e ambiental da região Outro ponto enfatizado é a polí tica de capacitação que procura engajar os trabalhadores per nambucanos nas diversas cadeias produtivas por um grande programa de treinamento Complexo Industrial e Portuário sd Apesar do desenvolvimento e dos números positivos con firmados a partir da implantação do Complexo Suape muitas dificuldades também se fizeram presentes Situações de vul nerabilidade social juntamente com violência uso abusivo de álcool e outras drogas e aumento nos números de DSTsAids foram alguns dos agravos identificados os quais pediam ação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 259 imediata pois fugiam ao controle da população e dos equipa mentos do governo O Complexo Industrial além de apresentar grande movi mento econômico trouxe também uma nova realidade para os moradores dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Com as mais de 100 empresas em operação e os mais de 25 mil empregos suscitados houve também grande aumen to populacional e grande diversidade de hábitos e costumes assim como benefícios e agravos para a população Diante de tal fato como a comunidade vem lidando com esse cenário Como vem se desenhando essa desconstrução e reconstrução da representação social de seu ambiente Ao longo de nossas incontáveis visitas às comunidades um dos moradores nos sinaliza que a cultura do local é bom bardeada por diversas culturas apontando seu sentimento de não pertencimento ao local que sempre sentiu como seu partilhando do sentimento de outros tantos moradores acerca de sua identidade social Afirmam assim sentirse desprepa rados para lidar com esse bombardeio de pluralidade Vale também destacar algo que pode soar contraditório Quan do as pessoas eram reunidas para discutir as implicações do Complexo Suape em suas vidas momento inicial da forma ção cuja metodologia aprofundaremos mais adiante o que para alguns era listado como agravo para outros era benefício Um exemplo disso era a supervalorização dos imóveis o de senvolvimento acelerado e a própria convivência com atores de diferentes culturas Todos esses pontos eram apresentados tanto como agravos quanto como benefícios As integrantes da ação Caravana da Cidadania perguntaram a um grupo de profissionais da comunidade de Gaibu no Cabo de Santo Agostinho quais foram os benefícios e agravos advin dos do complexo de Suape e a lista começou a ser elaborada sendo os benefícios arrumados do lado esquerdo e os agravos do lado direito o que remete a uma balança social descrita a seguir 260 POSSIBILIDADES benefícios mais emprego desenvolvimento do comércio mais ofertas de cursos técnicos mais pessoas capacitadas e novas empresas agravos violência danos ambientais prostituição tráfico de drogas furtos marginalidade perda da identidade inva são de território superlotação aumento da demanda para os serviços de saúde e serviços básicos erradicação da práti ca de esportes por causa do uso de drogas nos espaços falta de habitação ausência de vagas nas escolas e aumento do custo de vida Percebese que a lista dos agravos compreende uma quantidade expressiva de elementos apontados pelos diver sos profissionais e moradores do litoral sul de Pernambuco que afirmam não saber como lidar com o número de pessoas que chegaram de repente à região sem que houvesse a cons trução de uma base firme que pudesse sustentar a prestação de um serviço de qualidade a todosas nas áreas da saúde educação lazer moradia e segurança Relatam que a cidade sofreu um inchaço em razão da superlotação de pessoas que vieram de outras regiões do país para trabalhar nas diversas empresas do Complexo de Suape e trouxeram consigo outro jeito de falar de se comportar de comer outras drogas novos vícios Assim um novo contexto social se apresenta novos va lores novos saberes e fazeres se anunciam Nada é igual ao anteriormente estabelecido Também não é necessariamente nem pior nem melhor é simplesmente diferente Diante da rápida transformação novos modelos e padrões de conduta são criados adaptados às novas mudanças muitos sem ser questionados nascidos da urgente demanda de adaptação Esse é essencialmente o conflito expresso pelos morado res do Cabo e de Ipojuca que vivenciando essas transforma ções falam desse bombardeio cultural falam do grande vo Caravana da Cidadania Camila Santos et al 261 lume de mudança e anunciam que referências anteriores não são mais suficientes para transitar nesse novo contexto Além disso sentemse perdidos sem se darem conta do volume de transformações e assim não se apropriam mais da nova rea lidade A insegurança e a ausência de expertise para lidar com as problemáticas fragilizam a todosas enquadrandoos em uma categoria já conhecida de vulnerabilidade social Vul nerabilidade revelada no uso abusivo de álcool e drogas nas constantes cenas de violência no aumento da gravidez precoce e das DSTs etc Em nossa interpretação a expressão bombardeio cultu ral utilizada pelos moradores do Cabo e de Ipojuca tenta traduzir essa vivência de sofrimento que faz com que cada su jeito ao se deparar com a insegurança de seu mundo mergu lhe na confusão e na desorientação a respeito de si mesmo Tal sofrimento é atribuído não só às mudanças estruturais trazi das por Suape mas é personificado nos estrangeiros tra balhadores que vieram de diferentes estados do Brasil e até de outros países e que se instalaminvadem com seus costumes e vivências a dinâmica local Um sentimento velado de raiva passa a ser nutrido em relação a esses estrangeiros vistos como responsáveis pelo caos instalado Do outro lado os trabalhadores vindos dos diferentes locais do país estranhos a essa cultura local sinalizam o mal estar por estarem sendo vistos como responsáveis por esse caos Falam do sofrimento em andar pelas ruas e serem iden tificados como violentos inconsequentes e maus Homens que deixaram suas famílias e se inserem em uma cultura que também desconhecem o que requer uma imensa habilidade de observação para transitar sem desrespeitar um contexto cultural e simbólico tão diferente do seu A intensa convivên cia desses novos atores que passam a compor o cenário local com tantas diferenças aumenta o potencial para conflitos e malentendidos 262 POSSIBILIDADES 2 Reconstruindo cenários pela psicologia social comunitária Nascida após a tensão da psicologia social nos anos 1970 a psicologia comunitária sobretudo na América Latina mos trouse uma prática distinta para a entrada profissional e po lítica do psicólogo Ramos e Carvalho 2008 Vale relembrar o aspecto normalizador que marca a psi cologia como ciência e como profissão desde suas origens sempre se preocupando com o anormal e o diferente e sempre chamada a regular e colocar em ordem o que era visto como desordenado Rios 2011 No entanto por muito tempo como disse uma vez George Canguilhem sd muitos traba lhos realizados pela psicologia careceram e ainda carecem de ética e rigor deixando de fazer crítica à sociedade deixando de se perguntar se a demanda recebida para promover tal ou tal mudança era eticamente louvável Na contramão de uma psicologia da norma Góis 2003 p 280 sugere que a psicologia comunitária deveria se basear em dois pontos o do desenvolvimento humano e o da mu dança social busca de alternativas sociopolíticas a partir de uma crença positiva acerca da comunidade e dos sujeitos em que ambos possuem competências para atuar como autores de suas histórias Nesse processo contase com a participação do psicólogo comunitário como ferramenta de conscientiza ção e auxiliar na tomada de decisões dos cidadãos buscando promover condições dignas para o exercício da cidadania de mocracia e igualdade Pereira 2009 Assim a psicologia comunitária lida com diversas proble máticas como saneamento nutrição qualidade de trabalho e poluição ou seja deve abordar as dificuldades que afligem osas moradoresas da comunidade Gonçalves e Portugal 2012 Perceber e respeitar esse panorama para cada comuni dade particular tem sido essencial para a execução de ações Caravana da Cidadania Camila Santos et al 263 transformadoras Novara 2003 Esse processo de interven ção segundo Gonçalves e Portugal 2012 iniciase em geral por meio de um diagnóstico da comunidade levantando in formações buscando saber qual a necessidade específica da população sempre com o apoio dos membros da localidade E é por meio da parceria desse conjunto que a comunidade vai se desenvolvendo com a valorização dos movimentos po pulares da região pela arte história resistência e cultura local Pereira 2009 Fundamentada nessas reflexões a equipe que realizou a ação ou subprojeto Caravana da Cidadania do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape trabalhou a partir da mobilização das comunidades dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca e da instrumentalização dos profissionais das secretariais e equipamentos sociais para um movimento de promoção da saúde sexual e reprodutiva e enfrentamento à violência e ao uso abusivo do álcool e outras drogas 3 Caravana da Cidadania Essa ação foi organizada em quatro movimentos os quais passaremos a apresentar articulação da rede formação dos atores sociais Caravana da Cidadania e instrumentalização dos profissionais 31 Articulação da rede A articulação da rede se deu em dois tempos O primei ro momento consistiu em apresentar o Programa Diálogos Suape para todosas osas gestoresas das secretarias dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com o ob jetivo de firmar parcerias para a realização dos movimentos 264 POSSIBILIDADES posteriores e também conhecer o olhar desses atores sobre a realidade das comunidades que receberiam as ações O apoio veio pela indicação dos espaços para realizar as formações pelo repasse dos contatos dos responsáveis pelos equipamentos sociais de cada localidade permitindo que a equipe da Caravana tivesse uma pessoa de referência para fa cilitar o diálogo com os demais funcionários pela disponibi lização de materiais tendas caixas de som materiais infor mativos de seus serviços etc e pessoal de apoio para o dia da ação de rua que descreveremos mais adiante sempre que pos sível Ao conhecer o Programa Diálogos e a proposta de inter venção da Caravana da Cidadania osas gestoresas muitas vezes solicitaram a presença da equipe e suas ações em proje tos em andamento de iniciativa das prefeituras como o Social Itinerante uma iniciativa da Secretaria de Programas Sociais do Cabo de Santo Agostinho e o Fórum de Saúde Mental do Cabo iniciativa da coordenação de Saúde Mental do municí pio de Cabo de Santo Agostinho Após a articulação com osas gestoresas e mapeando junto com eles as comunidades mais afetadas pelo agravos em saúde e violações de direito objeto do trabalho do Diálogos Suape seguimos para o segundo momento de articulação junto a cada comunidade Identificada a comunidade que seria trabalhada a equi pe realizava uma primeira visita apresentando o projeto para Caravana da Cidadania Camila Santos et al 265 os integrantes de cada equipamento social e convidandoos a participar de uma formação Entre as diversas instituições acionadas e a depender da localidade estavam os Creas CRAs CAPs NASF PSF con selhos tutelares projetos e programas locais casas de acolhi mento postos da Polícia Militar guardas municipais escolas estaduais e municipais centros comunitários e lideranças identificadas como agentes mobilizadores em seus bairros 32 Formação dos atores sociais O segundo movimento do trabalho da Caravana da Ci dadania consistiu em promover um grande diálogo entre os atores que atuam na comunidade um encontro dos múltiplos olhares 266 POSSIBILIDADES O encontro era iniciado com a reflexão coletiva sobre a maneira como cada um dos atores posicionados por seus fa zeres e saberes percebe os agravos em seu ambiente de tra balhocomunidade Os participantes eram chamados a expor as práticas realizadas com o público beneficiário das ações A ideia era refletir sobre como os serviços formais e informais podem se ajudar a ampliar e qualificar um processo de pro moção da cidadania e saúde já em curso Vale dizer que a pró pria existência dos equipamentos sociais e ações comunitárias apontava que já existiam muitas coisas acontecendo No en tanto o que o encontro mostrou é que muitos não sabiam que várias inciativas estavam em curso e o trabalho seguia no mais das vezes solitário Os participantes da formação eram chamados a pensar na construção da grande ação de rua onde estariam reunidos os equipamentos sociais e a comunidade com o objetivo de pro mover ações de conscientização e promoção de cidadania aos cidadãos das mais variadas faixas etárias Um ensaio para um trabalho em rede Os participantes eram questionados como poderiam contribuir a partir de seus dispositivos setores e o que cada um poderia levar para a Caravana como estratégia de aproximação à comunidade e facilitação do diálogo Eles também definiam as regiões que deveriam ser contempladas pelo evento O processo formativo aconteceu de modo participativo colaborativo e dinâmico configurado a partir de uma estrutura que favoreceu o diálogo sobre os benefícios e agravos que advie ram da chegada do Complexo Suape Contaram com atividades estruturadas a priori que davam movimento e singularidade a cada formação em cada comunidade como técnicas de relaxa mento colagem e construção de painéis estudos de caso dra matizações etc distribuídas em quatro horas de duração total Finalmente a última parte do encontro consistia em apresentar aos participantes os materiais informativos Caravana da Cidadania Camila Santos et al 267 confeccionados e disponibilizados pelo Programa Diálogos Suape como filmes cartilhas fôlderes etc de modo a faci litar o diálogo sobre as possibilidades de enfrentamento às vulnerabilidades 33 Evento Caravana da Cidadania O ponto de culminância do subprojeto em tela era o evento Caravana da Cidadania que empresta o nome ao pró prio subprojeto Consistia em uma mobilização social em geral de rua a partir de atividades socioeducativas e culturais estruturadas e realizadas com o protagonismo dos atores so ciais que participaram da formação e da comunidade como um todo além da presença de alunos de diversas escolas e das 268 POSSIBILIDADES sete ações do Programa Diálogos Suape Caravanas da Cida dania Observatório Suape Ação Juvenil Chá de Damas Diá logos com os Homens das Terceirizadas Ação Mulheres e Co nhecer o Território De forma geral chegando ao local que aconteceria o mo vimento uma tenda de cidadania era montada Esse espaço servia como ponto de apoio para o que iria se desenrolar e favorecia um espaço de diálogo e troca de saberes Em seu en torno desenvolviamse ações educativas teatro jogos canto e distribuição de materiais informativos sobre violência DSTs Aids uso abusivo de álcool e outras drogas Durante a mobilização social uma equipe percorria as ruas e ladeiras da comunidade que em geral são bastante po voadas distribuindo materiais e convidando a população para integrar o evento Nessa caminhada era comum depararse com famílias sentadas nas portas de casa vendedores de pi poca crianças brincando trabalhadoresas chegando a seus Caravana da Cidadania Camila Santos et al 269 lares bares lotados Enquanto isso nesse movimento diversificado era re alizada a distribuição de informações visando a promover a tomada de cons ciência sobre seus direitos provocan do reflexões sobre as possibilidades para reduzir os agravos do cenário em que vivem Cada ambiente exibia condição e narrativa diferentes sendo necessário incorporar o caminhar da comunida de estar em movimento dialogando com histórias e sentimentos trazidos por cada morador Por exemplo em uma das ocasiões uma mãe sentada em frente à sua casa recebeu um mar cador de página falando sobre redu ção de danos Lembrouse de seu filho pediu mais um material dizendo que entregaria a ele Em outro momento uma senho ra parando de frente para um cartaz sobre exploração sexual questionou se a denúncia era mesmo sigilosa Con versamos sobre o fenômeno e modos de enfrentamento a ocorrência na re gião e ela levou um folheto sobre o as sunto na intenção de guardar o núme ro de telefone para fazer a denúncia Também vale recordar quantas vezes crianças e jovens pediam mais e mais materiais para levar para distribuir en tre seus pares nas escolas Caravana da Cidadania Camila Santos et al 271 A participação da população nas microrrodas de conver sa promovidas pelos esquetes e jogos lúdicos também foi um ponto importante das atividades das Caravanas da Cidadania sempre consolidadas com a distribuição de materiais infor mativos e insumos como camisinhas masculinas e femininas e lubrificantes íntimos 34 Instrumentalização dos profissionais do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca Finalmente o último movimento consistiu em ampliar a multiplicação das informações Nessa quarta etapa houve o 272 POSSIBILIDADES repasse de grandes quantidades dos materiais elaborados pelo Programa para os equipamentos sociais dos dois municípios visando a ampliar a rede de diálogos sobre saúde e direitos humanos A escolha das temáticas e quantidades de materiais for necidos ficou a critério dos próprios profissionais aos quais foram apresentados os materiais disponíveis no momento da formação A ideia era que eles avaliassem a adequação das peças de acordo com a pertinência e demanda do espaço de trabalho e do público acolhido Quando entregues eram rece bidos com entusiasmo As ideias começavam a ser articuladas Caravana da Cidadania Camila Santos et al 273 e cada um já ia pensando qual atividade poderia ser desen volvida a partir desses materiais Lembramos por exemplo o profissional da Secretaria de Combate às Drogas de Cabo de Santo Agostinho que sinalizou Esse material é importante para nossa ação de Carnaval referindose ao kit sobrevivên cia que ajudava a disseminar informações e distribuir camisi nhas para a população masculina 4 Promoção à saúde e direitos humanos Uma realidade complexa um mundo em movimento uma leitura crítica uma impaciência democrática são fatores que impulsionam a sair do lugar e demarcar uma interferên cia na sociedade com saberes e fazeres comprometidos com os direitos humanos e com o fomento para a estruturação de políticas públicas que não mais se conformam com a paisa gem de desigualdades colorindo assim um movimento de transformação de nossa realidade Saberes e fazeres que rompem com a ingenuidade histó rica e avançam na direção da transformação da realidade O tempo a educação a saúde o trabalho as diferentes formas de exclusão social clamam por uma perspectiva crítica dos di reitos humanos A Caravana da Cidadania como uma das estratégias do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em Sua pe assim cumpriu seu papel desarrumando saberes e práti cas consolidadas e fazendo pensar Construindo senão novas formas de agir pelo menos novas formas de desconfigurar o que já estava posto É importante destacar que o Programa Diálogos Suape teve por pilar doutrinário e organizativo as premissas do Sis tema Único de Saúde SUS caudatárias do movimento sani tarista e inscritas na Constituição de 1988 274 POSSIBILIDADES A equipe da Caravana da Cidadania em sua grande parte formada por psicólogas fez ecoar o grito muitas vezes ainda calado por uma psicologia que não mais se alie ao aparato repressivo Uma psicologia politicamente posicionada e etica mente orientada Uma psicologia que se proponha sair do enquadramento das quatro paredes dos modelos engessados e mergulhar no mundo de subjetividades de diferentes olhares no qual se in daga o para quê Eis o grande desafio Andar na corda bamba em que o passo é sempre incerto pois não há mais a crença em estrutura forte e firme para se equilibrar Uma psicologia co munitária como prática implicada no mundo e com o mun do e por isso mesmo incerta Incerteza de uma psicologia como prática que se presta a ouvir a sentir a provar a realidade não com nossas bocas nossos olhos nem nossos ouvidos mas com nossa presença no mundo É simplesmente estar lá implicada com a própria vida e aí sim os atores fazem a dança e o movimento E assim acontece na Caravana da Cidadania Os atores sociais foram para a rua fugindo ao script e à regra recons truíram a realidade elaboraram estratégias e articularam uma rede de parcerias com o desenho que só aquela comunidade é capaz de gerar Talvez uma única experiência mas que acredi tamos poder ser um exemplo de que é possível fazer algo que mobilize os atores as comunidades a trabalharem em rede Assim foi na praça da Estação no centro do Cabo de San to Agostinho um mural sendo pintado por crianças acompa nhadas pelosas professoresas e gestoresas das escolas e que lá deixavam seu recado Qual O recado de quem vai para a escola de quem tem fé de quem brinca de quem aprende e também ensina A dança de rua com Bboys que cantam e dançam sua cultura seus valores que falam das drogas das dores dos me dos das conquistas uma dança de resistência de superação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 275 276 POSSIBILIDADES Adolescentes cantam suas composições levam seus equi pamentos seu microfone sua caixa de som emprestamse para comunicar dúvidas soluções estratégias que não são só suas mas de muitos dessa idade Gestoresas da saúde edu cação infraestrutura juventude seguem no apoio e participa ção identificam os atores locais participam da organização do evento oferecem suporte e vibram juntosas em uma par ceria que também é delesas A população para com o objetivo de assistir e participar e dessa forma também constrói sugere e se insere Uma riqueza de material impresso é disponibilizado para a população que lê que tira dúvidas que questiona A psicologia comunitária na promoção da saúde tradu zindo no fazer a essência da clínica ampliada E nada é por acaso esse esforço conjunto é fruto de um grupo que se en controu na formação que pensou e idealizou esse momento que pensou junto o melhor local para fazer acontecer a ação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 277 na rua que construiu junto esse jeito de fazer diferente que saiu de sua sala e foi para a rua dançar e brincar de fazer saúde e direitos humanos Um grupo que transita da gestão para a comunidade e que na articulação trouxe seu rol de preocupações de incer tezas de impotências e de possibilidades E entra nesse jogo de brincar de fazer e vai junto para as ruas para as casas para os comércios até o quintal desse compromisso social E assim alinhava a promoção da saúde e dos direitos humanos Essa psicologia comunitária cantada dançada encenada é quebracabeça montado a cada visita no processo de articu lação Cada depoimento cada vivência e dificuldade narrada pelos atores nas visitas de articulação política viram roteiro dessa viagem e assim é possível fotografar a própria crença impregnada nesse agir de que é possível construir pelo contá gio uma epidemia de saúde e direitos humanos 5 Dar o peixe ou ensinar a pescar O protagonismo da comunidade e o respeito à cultura local Como promover saúde e direitos humanos dentro da co munidade Será que há um molde um modo único de pro mover conhecimento Diante de tal complexidade as ações da Caravana da Cidadania buscaram mobilizar os atores lo cais a integrar ativamente as intervenções do projeto A partir de cada barraca montada cada material distri buído dospor dispositivos locais cada apresentação musical dançante cartazes temáticos a partir do diálogo de comuni dade para comunidade acerca das temáticas trabalhadas nas formações promovidas pela equipe Caravana junto à popu lação foi possível facilitar a reflexão da comunidade sobre 278 POSSIBILIDADES as possibilidades presentes em seus próprios contextos para lidar com suas demandas gerando uma atividade coletiva e favorecendo o movimento de autonomia da comunidade que enxerga a possibilidade de tornarse agente de sua própria mudança A troca de conhecimentos e experiências entre Progra ma Diálogos Suape e comunidade enriquece o processo de construção de saberes e o empoderamento social acerca das temáticas envolvidas no Projeto de modo que a comunidade possa atuar como principal veículo multiplicador da promo ção de saúde e direitos humanos sendo estimulado o papel ativo de cada indivíduo para a superação de condições de vulnerabilidade e enfrentamento às situações de ameaça e ou violação de direitos A comunidade se firma como agente de transformação e exerce seu protagonismo social impul sionando a reflexão sobre os conhecimentos dialogados e facilitando a troca de saberes e possibilidades encontradas pela população Dessa forma ao entrar na comunidade e ampliar a pro posta de intervenção saindo do local de transmitir conhe cimento e adotando a postura de um diálogo aberto com a comunidade de modo a integrála às ações todas as inter venções foram pensadas de modo a respeitar cultura regras crenças e modo de funcionar de cada comunidade partindo de uma abordagem que reconhece e respeita a diversidade cul tural e de conhecimentos Pois como assegura Góis 2003 p 280 na psicologia co munitária há o reconhecimento da capacidade do indivíduo e da própria comunidade de serem responsáveis e competentes na cons trução de suas vidas bastando para isso a existência de certos processos de facilitação social baseados na ação local e na cons cientização Caravana da Cidadania Camila Santos et al 279 Nessa perspectiva a cada ação foram incorporados ele mentos característicos da cultura local elementos esses apre sentados pelos atores locais e que por tantas vezes além do caráter educativo foram capazes e responsáveis por atrair ou tros tantos moradores para a ação trazendo para esta um mo vimento próprio e único Esse modo de intervenção adotado pelo Projeto junto à comunidade foi recebido de forma positiva pelos moradores que sinalizaram a importância de entrar em contato com a realidade local ao se trabalhar a demanda comunitária de modo dialogado Assim jovens que participaram da ação informaram Essa parceria com o Programa Diálogos Suape a gente achou bem legal pelo fato de a gente ser estudante e poder fazer parte da sociedade que querendo ou não convive com tudo isso e participar foi uma ótima oportunidade para a gente conhecer e ao mesmo tempo mostrar também a opinião da gente Do mesmo modo profissionais de dispositivos locais também deixaram seu recado Foi ótima essa parceria com o Programa Diálogos Suape por que eles vieram com uma proposta muito boa que a gente já pensou em fazer mas nunca realizou e essa parceria foi pri mordial para que pudesse acontecer a ação de prevenção à saú de sexual do jovem A gente acredita que as atividades que a gente faz são ferramentas para chamar a atenção da população pra que a gente possa trabalhar os temas específicos que a gente quer levar para a população e o meio que a gente usa são as atividades culturais com a juventude Foi valorizado assim o método de aproximação dos ato res sociais da proposta interventiva Há também o depoimen to do transeunte que viu o movimento acontecendo parou para saber o que é e logo contribuiu Vou ficar e esperar a 280 POSSIBILIDADES apresentação de Bboy Vi o tapete no chão e resolvi dar uma sacada É assim que deve ser Você traz a sua informação e va loriza o que é da gente sinalizando a importância de inserir cultura local em ações como a Caravana da Cidadania enri quecendo essa alternativa metodológica que adota uma pos tura aberta ao diálogo Desse modo a Caravana da Cidadania ao facilitar o de senvolvimento do protagonismo social respeitar e incorporar a cultura local às ações aprende um novo jeito de pescar o peixe em que não se tem um único recurso sendo este cons truído a partir dos saberes e das vivências locais Cada indivíduo é capaz de construir sua rede de pesca e é desse modo participativo que se torna espontâneo e singular o processo de mobilizar as comunidades e instrumentalizar profissionais acontecendo a promoção da saúde o combate à violação dos direitos ficando claro que a ação mesmo facili tada pelo Programa Diálogos Suape só ocorre com o envolvi mento efetivo das comunidades que multiplicam o potencial de desenvolvimento social Referências CANGUILHEM G O que é a psicologia In Pensamento político contem porâneo Rio de Janeiro Departamento de Filosofia da PUCRio sd Disponível em httpgeocitiesyahoocombrguaikuru0003oquepsi htmlftnref2 Acesso em 25 maio 2011 CARRAZZONE V SANTOS C QUEIROZ T RIOS L F NUNES R OLIVEIRA E S DIEHL R Caravana da Cidadania mobilização popu lacional por cidadania e saúde em SuapePE In RIOS L F QUEIROZ T LINS M B OLIVEIRA C Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Programa Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 Caravana da Cidadania Camila Santos et al 281 COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO O que é Suape sd Dispo nível em http wwwsuapepegovbrinstitutionalinstitutionalphp Acesso em 18 ago 2014 CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA 2a Região III Seminário de Di reitos Humanos Direitos Humanos pra quem Recife Edupe 2007 GÓIS C W L Psicologia comunitária Universitas ciências da saúde Bra sília v 1 n 2 2003 Disponível em httpwwwpublicacoesacademicas uniceubbrindexphpcienciasaudearticleview511332 Acesso em 2 jul 2014 GONÇALVES M A PORTUGAL F T Alguns apontamentos sobre a tra jetória da Psicologia social comunitária no Brasil Psicol Cienc Prof Bra sília v 32 número especial 2012 Disponível em httpwwwscielobr scielophpscriptsciarttextpidS141498932012000500010lngpt nrmiso Acesso em 3 jul 2014 MACHADO L D LAVRADOR M C C BARROS M E B de Org Tex turas da psicologia subjetividade e política no contemporâneo São Paulo Casa do Psicólogo 2001 NOVARA E Promover os talentos para reduzir a pobreza Estud Av São Paulo v 17 n 48 ago 2003 Disponível em httpwwwscielobrscielo phpscriptsciarttextpidS010340142003000200009lngptnrmi so Acesso em 3 jul 2014 PEREIRA E Tecendo diálogos entre socionomia e psicologia comunitá ria Rev Bras Psicodrama São Paulo v 17 n 1 2009 Disponível em http pepsicbvsaludorgscielophpscriptsciarttextpidS01045393200900 0100006lngptnrmiso Acesso em 3 jul 2014 RAMOS C CARVALHO J E C de Espaço e subjetividade formação e intervenção em psicologia comunitária Psicol Soc Porto Alegre v 20 n 2 ago 2008 Disponível em httpwwwscielobrscielophpscriptsci arttextpidS010271822008000200004lngptnrmiso Acesso em 5 jul 2014 282 POSSIBILIDADES RIOS L F Indisciplina apontamentos de um etnopsicólogo clínico so bre as políticas do saber no campo psi e adjacências In MEDRADO B GALINDO W Org Psicologia social e seus movimentos 30 anos de Abrapso Recife AbrapsoUFPE 2011 p 295316 SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚ BLICA Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH 3 Brasília SEDH PR 2010 Sobre os autores Alessandro de Oliveira dos Santos Mestre e doutor em Psicologia professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo USP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids Ne paids da USP Tem experiência na produção de materiais teóricos e técnicos sobre promoção de direitos e prevenção às DSTsAids e ao uso abusivo de álcooldrogas Contato alosuspbr Amanda K C Guedes Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Foi estagiária no Programa de Edu cação pelo Trabalho para a Saúde PET SaúdeRedes trabalhando com a perspectiva de pesquisaintervenção na temática de prevenção às doenças crônicas Participou do Projeto de Extensão Palhaçotera pia Perto da UFPE e integrou a equipe Chá de Damas do Progra ma Diálogos Suape Contato amandacavalcantighotmailcom Ana Carolina Cordeiro Mestranda em Antropologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Formada em bacharelado no curso de Ciências Sociais pela UFPE Participa do Núcleo de Pesqui sas Família Gênero e Sexualidade Fages e também é vinculada ao Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato anacarola6hotmailcom Ana Letícia Veras Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE com grande interesse por antropo logia social compondo o Grupo de Estudos sobre Saúde Indígena que integra o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade desen volvendo pesquisa na área de meio ambiente saúde e etnodesenvol vimento Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato analeticiaverasgmailcom Ana Luísa Cataldo Graduada em Psicologia pela Universidade Fe deral de Alagoas Ufal mestranda em Psicologia pelo Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambu 284 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA co UFPE e pesquisadora do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê nero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato analuisacataldosgmailcom Andréa Paula da Silva Graduanda em Psicologia pela Universida de Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Anna de Cássia P de Lima Graduanda em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saú de Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Benedito Medrado Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUCSP Atualmente é pro fessor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco UFPE vinculado aos cursos de graduação e pósgraduação em Psicologia e colaborador do Programa de Pósgraduação em Estudos sobre a Mulher da Universidad de Valência Espanha Desenvolve projetos que aliam ensino pesquisa e extensão em temas relativos a gênero saúde e sexualidade É líder do Grupo de Estudos sobre Masculinida des GemaUFPE e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq Coordenou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Tra balhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato beneditomedradogmailcom Camila Santos Psicóloga e terapeuta comunitária em formação Participou de projetos sociais atuando com população em situação de vulnerabilidade assim como do projeto Escola Legal do Governo Federal atuando como mediadora em escolas públicas Integrou a equipe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Con tato camilasantoscbsyahoocombr Sobre os autores 285 Cinthia Oliveira Doutoranda do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE mestra em Psicologia pelo Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Sexualidade Humana UFPE e do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens da UFSC Integrou a equipe Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato cinthiaopsigmailcom Claudemir Silva Filho Graduando em Psicologia pela Universi dade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Cristiano C Ferreira Graduando do curso de Pedagogia da Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e aluno integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa em Linguagem Leitura e Letramento Gepelll Participa do Coletivo de Diversidade Sexual e de Gênero Além do Arcoíris É pesquisador nas áreas de diversidade sexual e de gênero e cultura africana Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato chryscavalcantegmailcom Daniel K dos Santos Doutorando do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e pesquisador do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Rela ções de Gênero Margens Contato dakerrygmailcom Danielly Spósito Doutora em Estudos de Gênero pela Universida de de Valência Espanha e assistente social do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco IFPE vinculada ao curso de graduação da Faculdade Anchieta do Recife e ao curso de pósgraduação da Universidade Católica de Pernambuco Unicap Concluiu Serviço Social pela Unicap É mestra em Educação Brasilei ra pela Universidade Federal do Ceará UFC em Gênero e Políticas de Igualdade Coordena o Grupo de Pesquisa e Estudos de Políticas 286 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Públicas Gestão e Avaliação do IFPE e compõe o Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidade da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato danyspositogmailcom Dayse A dos Santos Graduada em Ciências Sociais mestra e dou tora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Atualmente realiza estagio pósdoutoral no Programa de Pósgraduação em Antropologia da UPFE no qual atua como pes quisadora do Núcleo de Família Gênero e Sexualidade Fages Douglas B de Oliveira Graduando do curso de Psicologia pela Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e estagiário no Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco lotado na Vara de Infância e Juven tude da comarca de Jaboatão dos Guararapes Integrou o Laboratório de Interação Social Humana LabInt do Departamento de Psicologia da UFPE pesquisando as representações sociais sobre a gravidez na adolescência Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálo gos Suape Contato psychodog7hotmailcom Flávia Lucena Jornalista coordenadora do projeto Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape e integran te da equipe de coordenação de projetos do Centro das Mulheres do Cabo Contato flaviamlucenaigcombr Felipe Alves Graduando em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Núcleo Feminista de Pes quisas em Gênero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Gabriela A Diaz Graduada em Psicologia pela Universidade do Vale do Itajaí Univali e mestra em Psicologia pela Universidade Fe deral de Santa Catarina UFSC Atualmente é doutoranda em Psi cologia pela UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato gavypsi yahoocombr Sobre os autores 287 Gabriela Cordeiro Mestranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE graduada em Psicologia pela UFPE e pesquisadora associada ao Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê nero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato gabrielaregina88hotmailcom Jaileila Menezes Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ professora adjunta da Universidade Fede ral de Pernambuco UFPE e pesquisadora vinculada ao Programa de pósgraduação em Psicologia da UFPE orientando dissertações e teses na linha de pesquisa Processos Psicossociais Poder e Práticas Coletivas Pesquisa as temáticas participação política juventude e projeto de vida movimentos sociais Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Poder Cultura e Práticas Coletivas Gepcol Coorde nou as equipes Chá de Damas e Ação Juvenil do Programa Diálo gos Suape Contato jaileilaaraujogmailcom Jorge Lyra Professor dos cursos de Graduação e Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Psicólo go e graduado em Psicologia pela UFPE mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUCSP e doutor em Ciências Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz Fiocruz Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães CPqAMNúcleo de Estudos em Saúde Coletiva Nesc com estágio de doutorando no exterior PDDECapes na Universidad Autonoma de Barcelona É líder do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades Gema UFPE Coordenou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato jorglyragmailcom Karla Galvão Adrião Psicóloga mestra em Linguística pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e doutora em Ciências Huma nas com área de concentração em estudos de gênero pela Universidade Federal de Santa Catarina DICHUFSC É professora do Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE e pesquisadora do Labora tório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU e do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens 288 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Coordenou as equipes Chá de Damas e Ação Juvenil do Programa Diálogos Suape Contato galvaoadriaogmailcom Luís Felipe Rios Psicólogo pela Universidade Federal de Pernambu co UFPE mestre em Antropologia pela UFPE e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro Uerj Atual mente é professor associado I da UFPE coordenador do Programa de Pósgraduação em Psicologia e líder do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq Coordenou o Programa Diálogos Suape Contato lfeliperiosgmailcom Marcelo Peixoto Arteeducador do movimento de luta contra a Aids Atua com formação de profissionais e multiplicadores comuni tários em promoção de saúde sexual masculina e prevenção do HIV DSTshepatites Produziu diversos materiais educativos Contato marcelopeixoto1950hotmailcom Maria Aparecida Araujo Santos Graduada em Administração de Empresas Integrante da equipe de educadoras do Centro das Mulhe res do Cabo Educadora do projeto Mulheres e Educação para Cida dania do Programa Diálogos Suape Contato cidamulheresdocabo orgbr Maria Betânia Lins Graduada em Psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas Esuda Especialista em Atenção e Promoção da Saúde da Família nos Aspectos Psicossociais pela Faculdade Paula Frassinette Fafire Tem formação em socioeducação pela Faculdade Mauricio de Nassau relações interpessoais pela Funase e gestão em pessoas pela UFPE Atuou como psicóloga na Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho Secretaria de Promoção Social e da Mu lher no Centro de Referência Assistência Social Cras Integrou as equipes Conhecer o Território e Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato mbelamorimhotmailcom Maria Juracy F Toneli Professora titular do Departamento de Psi cologia e do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universi dade Federal de Santa Catarina UFSC Bolsista de produtividade do CNPq Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Sobre os autores 289 Gerais UFMG mestra em Educação pela UFSC e doutora em Psi cologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo USP Realizou pósdoutorado pela Psicologia Social na UFMG e na Universidade do MinhoPortugal É coordenadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato juracytoneligmailcom Marília dos S Amaral Mestra em Psicologia pela Universidade Fe deral de Santa Catarina UFSC e graduada em Psicologia pelo Cen tro Universitário Franciscano É doutoranda do Programa de Pósgra duação em Psicologia da UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato mariliapsicohotmailcom Michael Machado Professor assistente I em Saúde Coletiva na Universidade Federal do Piauí UFPI psicólogo pela Universidade Federal de Alagoas Ufal mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE e pesquisador do Núcleo de Estu dos em Saúde Pública NespUFPICampus Parnaíba Tem experi ência na área de saúde pública com ênfase em gênero Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato michael mmachadogmailcom Nivete Azevedo Graduada em Geografia É coordenadorageral do Centro das Mulheres do Cabo Contato nivetemulheresdocabo orgbr Rafael de F D Acioly Mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE e graduado em Ciências Sociais pela UFPE Atualmente exerce a função de educador social no Instituto Papai e tem experiência na área de antropologia com ênfase em teoria da antropologia metodologia sexualidade gênero geração saúde e corpo Contato aciolyrafaelgmailcom Regina Figueiredo Doutoranda em Saúde Pública pela Universi dade de São Paulo USP socióloga e mestra em Antropologia da Saúde pela USP Pesquisadora científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo membro do Núcleo 290 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA de Estudos para a Prevenção da Aids NepaidsUSP articuladora nacional da Rede Brasileira de Informações e Disponibilização da Contracepção de Emergência Rede CE e membro do Consórcio La tinoamericano de Anticoncepción de Emergencia Clae Contato reginafigueiredouolcombr Renata E de S Nunes Psicóloga especialista em avaliação e reabi litação neuropsicológica e em neuropsicologia da educação pelo Pro grama de Pósgraduação da Faculdade de Ciências Humanas Esuda Tem experiência nas áreas de psicologia clínica escolar social comu nitária e avaliação e reabilitação neuropsicológica Integrou a equi pe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato renataeshotmailcom Rocio del Pilar Bravo Shuña Mestra em Psicologia integrante do Laboratório de Estudos de Sexualidade Humana LabESHU da Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e graduada em Psicologia pela Faculdade de Psicologia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos em Lima Peru Atua principalmente nos seguintes temas estudos de gênero políticas públicas juventude direitos sexuais e re produtivos Integrou a equipe Ação Juvenil do Programa Diálogos Suape Contato rociodelpilarbravogmailcom Rosangela S de Souza Mestra em Antropologia Tem experiência na área de ciências sociais com ênfase em antropologia família gênero e sexualidade É pesquisadora do Núcleo de Família Gênero e Sexualida de Fages do Programa de Pósgraduação em Antropologia da UFPE Russell P Scott Professor titular de Antropologia do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernam buco UFPE graduado em Línguas Contemporâneas concentração Espanhol pelo Hamilton College mestre em Latin American Studies pelo Institute of Latin American Studies da University of Texas em Austin e doutor em Antropologia pela University of Texas Já passou temporadas como professor e pesquisador visitante nas Universida des de Georgetown 19841985 Harvard 19911993 e Salamanca 20062007 É líder do Núcleo de Família Gênero e Sexualidade Fa Sobre os autores 291 ges do Programa de Pósgraduação em Antropologia da UFPE Con tato rparryscottgmailcom Sarana M de S Santos Graduanda no curso de Psicologia pela Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e integrante do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU pesquisando sobre a homofobia e processos de subjetivação na comunidade homossexual do Recife Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato saranasantoshotmailcom Sirley Vieira da Silva Mestre em Antropologia pelo Programa de Pósgraduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernam buco UFPE graduado em Ciências Sociais pela Universidade Fede ral Rural de Pernambuco UFRPE e professor da Pósgraduação em Saúde Pública Saúde Mental e Dependência Química da Faculdade de Ciências Humanas Esuda Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Progra ma Diálogos Suape Contato sirleyvieiragmailcom Tacinara N de Queiroz Doutoranda em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e mestra em Psicologia pela UFPE Pesquisa temas como sexualidades infância e juventude tec nologias da informação e comunicação processos psicossociais po der e práticas coletivas É pesquisadora do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Integrou as equipes Ação Juve nil Caravana da Cidadania e Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato tacinqhotmailcom Talita Rodrigues Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE integrando o Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Conta to taliguesgmailcom Telma Low Psicóloga pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE especialista em Psicologia Social Comunitária mestra em Género y Políticas de Igualdad e doutora em Estudios de Género 292 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA ambos os cursos vinculados ao Institut Universitari dEstudis de la Dona da Universitat de València Espanha Atualmente é professora adjunta do curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas Ufal Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato telmalowgmailcom Tulio Quirino Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco Univasf e mestre em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Atualmente é doutorando do Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Tercei rizadas do Programa Diálogos Suape Contato trlquirinogmailcom Verônica Carrazzone Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE graduada em Psicologia e em Educa ção Artística pela UFPE especialista em Psicologia Escolar e Clínica Infantil e terapeuta comunitária pela Universidade Federal do Ceará UFC Atualmente é vicepresidente da ONG Espaço Família mem bro da Diretoria da Associação Brasileira do Ensino da Psicologia Abep colaboradora da comissão de Educação do CRP 02 professora e coordenadora de curso de graduação em Psicologia pesquisadora na área de violência organização social e assentamento rural com atua ção na área de psicologia escolar clínica e social comunitária Faz parte da Conexão de Saberes MECUFPE e do Gerenciamento das Ações da Reforma Agrária MDAIICA Coordenou a equipe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato vecazbolcombr Wedna C M Galindo Psicóloga mestra em Sociologia e doutora em Psicologia Clínica Desenvolve atividades como docente na Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE Acumula experiências de trabalho com psicologia em diversos campos psicoterapia em con sultório particular assessoria a pesquisas unidades de saúde do Sis tema Único de Saúde SUSRecife assessoria a movimentos sociais Integrou a equipe do Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato wednagalindogmailcom Crescimento Econômico Cidadania Saúde Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos é o quarto livro da série Gênero Sexualidade e Di reitos Humanos publicada pelo Laboratório de Estudos da Se xualidade Humana Os textos aqui reunidos apresentam as possi bilidades desafios e limites da pesquisaintervençãopesquisa no campo da promoção da saúde e cidada nia por meio de um uso consistente de gênero e sexualida de como conceitos capazes de ao mesmo tempo analisar a realidade social e melhor qualificar o marco normativo dos direitos sexuais e reprodutivos Realização Apoio
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Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos Crescimento Econômico Cidadania Saúde Série Gênero sexualidade e direitos humanos no 4 Organizadores Tacinara Nogueira de Queiroz Maria Betânia Lins Cinthia Oliveira Luís Felipe Rios Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos Organizadores Tacinara Nogueira de Queiroz Maria Betânia Lins Cinthia Oliveira Luís Felipe Rios Crescimento Econômico Cidadania Saúde RecifePE 2015 Série Gênero sexualidade e direitos humanos no 4 Publicações Especiais do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Série Gênero sexualidade e direitos humanos Editores responsáveis Luís Felipe Rios UFPE e Luciana Vieira UFPE Conselho editorial Cristina Amazonas UNICAP Fátima Lima UFRJ Ivia Maksud IFFFiocruz Jaileila de Araújo Menezes UFPE Karla Galvão Adrião UFPE Lady Selma Albernaz UFPE Marion Teodósio de Quadros UFPE Paula Sandrine Machado UFRGS e Viviane Mendonça UFSCAR O conteúdo desta obra é de inteira responsabilidade dos autores e não representa a posição oficial dos apoiadores do Programa Diálogos Suape Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Coordenadores Luís Felipe Rios e Karla Galvão Adrião Av Arquitetura sn CFCH 7o andar Cidade Universitária RecifePE CEP 50740550 Tel Fax 81 21268273 Site wwwdialogosorgbr Créditos Projeto gráfico Wilma Ferraz Revisão de textos Débora de Castro Barros Tiragem 400 exemplares 2015 Copyrigth Universidade Federal de Pernambuco 2015 É permitida a reprodução total ou parcial do texto desta publicação desde que citados a fonte e os respectivos autores DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Rua Acadêmico Hélio Ramos 20 Varzea RecifePE CEP 50740530 Fone 81 21268397 81 21268930 Fax 81 21268395 wwwufpebredufpe edufpenlinkcombr editoraufpebr ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EDITORAS UNIVERSITÁRIAS Editora associada à ABEU Montagem e impressão Catalogação na fonte Bibliotecária Joselly de Barros Gonçalves CRB41748 C919 Crescimento econômico cidadania saúde contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos organi zadores Tacinara Nogueira de Queiroz et al Recife Editora UFPE 2015 292 p il Série Gênero Sexualidade e Direitos humanos n 4 Inclui referências ISBN 9788541506786 broch 1 Pesquisaação Suape PE Microrregião 2 Direitos sexuais 3 Direitos reprodutivos Aspectos sociais 4 Desenvolvimento econômico Aspectos sociais 5 Cidadania 6 Saúde I Queiroz Tacinara Nogueira de Org II Título da Série Sumário Apresentação 5 Luís Felipe Rios Tacinara N de Queiroz Maria Betânia Lins e Cinthia Oliveira Contextos grandes obras e relações de gênero Desenvolvimento e reprodução um estudo comparativo em três polos pernambucanos 16 Dayse A dos Santos Russell P Scott Rosangela S de Souza e Rafael de F D Acioly Dialogando com homens trabalhadores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde 43 Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Filho Felipe Alves e Anna de Cássia P de Lima Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro 67 Sirley Vieira da Silva Promoção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino 91 Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto Desafios para pesquisaintervençãopesquisa Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca inícios afetos normas e prazeres 116 Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina 139 Daniel K dos Santos Gabriela A Diaz Marília dos S Amaral e Maria Juracy F Toneli Chá de Damas desafios e estratégias para a inserção no campotema prostituição 164 Jaileila Menezes Karla G Adrião Amanda K C Guedes Ana Letícia Veras Cristiano C Ferreira Douglas B de Oliveira e Sarana M de S Santos Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde 190 Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado Possibilidades Monitoramento de projeto social uma metodologia de pesquisaação participativa 214 Telma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Maria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro Análise da prática do aconselhamento em HIVAids 237 Wedna C M Galindo Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comunidades para a promoção à saúde e direitos humanos 257 Camila Santos Verônica Carrazzone Renata E de S Nunes e Luís Felipe Rios Sobre os autores 283 Apresentação Luís Felipe Rios Tacinara N de Queiroz Maria Betânia Lins e Cinthia Oliveira Este é o quarto livro da série Gênero Sexualidade e Di reitos Humanos publicada pelo Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Ele apresenta textos resultantes de refle xões sobre as atividades do Programa Diálogos para o Desen volvimento Social de Suape Diálogos Suape executado en tre maio de 2012 e janeiro de 2015 nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca que juntos formam a microrregião de Suape em Pernambuco A peculiaridade dessa região é a de abrigar e de sofrer impactos das grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimento PAC do Governo Federal que envolve a construção do Complexo Industrial e Portuário de Suape porto estaleiros refinaria de petróleo petroquímica e outros empreendimentos Em 2007 com o início das obras houve aumento da oferta de postos de trabalho na construção civil o que provocou a migração de milhares de homens para essa região incrementando um conjunto de relações sociais de desigualdade já historicamente presentes naquele contexto Rios et al 2015 Em 2009 a UFPE foi convidada pela Refinaria Abreu e Lima da Petrobras a tomar parte nessa dinâmica elaborando um programa de pesquisaintervenção Diálogos Suape sobre os impactos da dinâmica instituída com as obras do PAC nas condições de vida da população dos dois municípios focando os seguintes temas gravidez na adolescência doenças sexual mente transmissíveis DSTs exploração sexual de crianças e adolescentes violência masculina e violência contra as mulhe res e uso abusivo de álcool e outras drogas Rios et al 2015 6 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O plano de trabalho do Diálogos Suape foi constituído de sete projetos ou grandes ações que em sinergia mobiliza ram jovens mulheres trabalhadores do complexo Suape pro fissionais do sexo profissionais em geral ativistas em direitos humanos e mais amplamente a população dos municípios para o enfrentamento das condições que fazem os agentes so ciais da região mais suscetíveis a um conjunto de agravos à saúde e violações de direitos grosso modo marcados em suas emergências por gênero sexualidade classe e idadegeração Rios et al 2015 Vale ainda que brevemente caracterizar o conjunto de projetos que formam o Programa Diálogos Suape conside rando seus objetivos Para mais informações sobre o desenvol vimento e principais resultados de cada projetoação remete mos o leitor a Rios Queiroz Lins e Teófilo 2015 1 Conhecer o Território Identificar as políticas os programas e os equipamentos sociais existentes nos municípios os indicadores sociais e as concepções da população sobre os agravos que são objeto da inter venção Ação Juvenil Instrumentalizar jovens de 16 a 19 anos de ambos os sexos como lideranças capa zes de atuar na produção e na disseminação de in formações qualificadas nos campos dos direitos da criança e do adolescente da saúde sexual e reprodu tiva do uso abusivo de álcool e de outras drogas e no enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos 2 Caravana da Cidadania Mobilizar as comunidades locais e instrumentalizar profissionais dos campos da saúde da educação e da responsabilização para a pro moção da saúde sexual e reprodutiva o combate à vio lação dos direitos sexuais e o enfrentamento do uso abusivo do álcool e de outras drogas Apresentação Luís Felipe Rios et al 7 3 Chá de Damas Engajar e capacitar profissionais do sexo adultos dos municípios no enfrentamento das DSTs Aids e da exploração sexual de crianças e adolescentes 4 Mulheres e Educação para a Cidadania Contribuir para o empoderamento de mulheres e jovens dos dois municípios com ações formativas e informativas para o enfrentamento da violência doméstica e sexual na microrregião de Suape 5 Homens Gênero e Práticas de Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas Sensibilizar e informar os trabalhadores das empresas terceirizadas para a promoção da saúde sexual e reprodutiva da prevenção da violência e do uso abusivo de álcool e de outras drogas 6 Observatório Suape Disseminar informações e recur sos desenvolvidos no âmbito do projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Para ampliar os debates sobre as contribuições teóricas e práticas do Programa sua equipe executiva formada por pro fessorespesquisadores do Laboratório de Estudos da Sexuali dade Humana LabESHU do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Poder Cultura e Práticas Coletivas Gepcol e do Grupo de Estudos sobre Masculinidades Gema ligados ao Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE PPGPSIUFPE convidou parceiros de outros núcleos de pesquisa do país para apresentarem propostas de textos resultantes de trabalhos de pesquisa e extensão em variados contextos socioculturais de atuação mas afins em termos de marcos éticopolíticos à postura assumida pelo Programa dialógica e afinada ao qua dro de garantia dos direitos humanos Várias dos textos sub metidos foram aceitos e esta coletânea conta com importantes contribuições de nossosas parceirosas do MargensUFSC NepaidsUSP e FagesUFPE 8 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA 1 Gênero e sexualidadedireitos sexuais e reprodutivos Não parece ser por acaso que a maior parte dos agravos à saúde e violações de direitos apresentados como carecendo de mitigação pelo relatório disponibilizado pela Petrobras à UFPE Rebouças e Associados 2009 e que serviu de subsídio inicial para elaborar o plano de trabalho do Diálogos Suape remetia diretamente às relações de gênero e de sexualidade DSTsAids gravidez na adolescência violência sexual e de gênero Mesmo o entendimento do uso abusivo de álcool e outras drogas ou mais amplamente o acesso à saúde é social mente marcado pelas relações de gênero Assim um eixo que atravessa todos os trabalhos aqui publicados é o de apresentarem discussões consistentes so bre gênero eou sexualidade como sistemas eou marcadores sociais organizadores da vida social e subjetiva e por conse guinte dos contextos que criam as condições para os agravos e violações ocorrerem Todos os textos buscam de diferen tes modos desvelar a operação dessas marcas socialmente constituídas na emergência de desigualdades e situações opressivas Outro compromisso dos pesquisadores e de seus textos é o de empenharem esforços para fazer dialogar os conceitos e leituras acadêmicos de gênero eou de sexualidade com os marcos normativos dos direitos sexuais e reprodutivos uma nova legalidade em processo de legitimação social mais am pla que busca se oferecer como alternativa para reorganizar as práticas sociais de modo a dirimir as opressões e desigual dades A partir desse eixo comum os textos vão ler e proble matizar crescimento econômico cidadania saúde Destaca mos ainda que em diferentes níveis todos os trabalhos desta coletânea atualizam a perspectiva da pesquisaintervenção pesquisa como situada por Adrião 2014 p 70 Apresentação Luís Felipe Rios et al 9 O termo pesquisaintervençãopesquisa é uma tentativa de construção de um significante que marque discursivamente a busca de um fazer contínuo e que trate de um continuum que sela a coalizão entre pesquisa e intervenção Nestes termos não há um início nem um final prédemarcados ou seja a pesquisa não é o início assim como tampouco a intervenção é a con clusão de um processo Antes pesquisa e intervenção atuam reflexivamente e coparticipativamente como dispositivos que possuem especificidades mas que necessitam um do outro no cotidiano dos fazeres saberes e poderes 2 Eixos transversais Para organizar a coletânea optamos por categorizar os tex tos produzidos a partir de três eixos contextos desafios e possi bilidades Vale de início dizer que nem sempre essa classificação se mostrou muito profícua afinal muitos dos textos aqui apre sentados caberiam nas três rubricas De todo modo é o produto final o diálogo entre os 11 textos que realmente contribui para a discussão que queremos propor com esta coletânea contribuir para melhor qualificar propostas acadêmicas que investem em metodologias participativas de pesquisaintervençãopesquisa como estratégias científicas para compreender melhor a reali dade social em permanente transformação e ao mesmo tempo fomentar a promoção dos direitos sexuais e reprodutivos 21 Contextos grandes obras e relações de gênero Os quatro primeiros capítulos desta coletânea se pro põem analisar e discutir o próprio contexto das grandes obras de desenvolvimento econômico e seus impactos para nativos e migrantes focando temáticas concernentes à garantia dos di reitos sexuais e reprodutivos e mais amplamente para a pro moção da saúde 10 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O primeiro capítulo intitulado Desenvolvimento e re produção um estudo comparativo em três polos pernambu canos de Dayse Amâncio dos Santos Russell Parry Scott Rosangela Silva de Souza e Rafael de Freitas Dias Acioly foca as mulheres jovens de três polos de desenvolvimento em Per nambuco o Complexo Portuário e Industrial de Suape o Complexo Turístico de Porto de Galinhas e a Agricultura Irri gada de Petrolina buscando repercussões do dinamismo eco nômico sobre suas vidas sexuais e reprodutivas O segundo capítulo Dialogando com homens trabalha dores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde de Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Fi lho Felipe Alves e Anna de Cássia Pessôa de Lima apresenta os resultados de um estudo quantitativo sobre os conhecimen tos atitudes e práticas dos trabalhadores da construção civil atuantes em Suape em relação a saúde sexualidade e violência O terceiro capítulo Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro de Sirley Vieira da Silva tam bém foca os homens trabalhadores de Suape e adensa as dis cussões sobre saúde e sexualidade aprofundando os significa dos sobre risco e saúde com uma abordagem etnográfica com homens migrantes O quarto capítulo Promoção da saúde sexual e re produtiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino de Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto discute a migração de trabalhadores para execução de obras de infra estrutura em municípios do interior e do litoral brasileiro focalizando os efeitos negativos desse fluxo migratório em suas relações com questões de saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos Com base na experiência em projetos de in tervenção com essa população osas autoresas finalizam o texto estabelecendo recomendações para mitigação de vul Apresentação Luís Felipe Rios et al 11 nerabilidades promoção da saúde sexual e reprodutiva e proteção de direitos em contextos de migração temporária de trabalho masculino 22 Desafios para pesquisaintervençãopesquisa O segundo eixo do livro discute alguns desafios e entraves para a realização de atividades de pesquisaintervenção sobre direitos sexuais eou saúde sexual e reprodutiva com vários públicos homens e mulheres jovens profissionais dos servi ços trabalhadoras do sexo homens adultos etc O quinto capítulo Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Inícios afetos normas e prazeres de Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião tece reflexões sobre o modo como jovens residentes em Suape significam o início da vida sexual e dos prazeres o namoro e outros vínculos afetivosexuais na inter face com o campo dos direitos sexuais e reprodutivos Na linha de discutir a disseminação dos novos marcos normativos direitos sexuais entre profissionais dos servi ços públicos o sexto capítulo Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina de Daniel Kerry dos Santos Gabriela Andrea Diaz Marília dos Santos Amaral e Maria Juracy Filgueiras Toneli reflete sobre as dificuldades e os desafios para a realização de capacitações sobre políticas de equidade para a população LGBT oferecidas aosàs servidoresas públicosas de Santa Catarina O sétimo capítulo Chá de Damas desafios e estraté gias para a inserção no campotema prostituição de Jaileila de Araújo Menezes Karla Galvão Adrião Amanda Kamylle Cavalcanti Guedes Ana Letícia Veras Cristiano Cavalcante Ferreira Douglas Batista de Oliveira e Sarana Maria de Sousa 12 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Santos reflete sobre os processos para entrada no campo da prostituição de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca vivencia dos por jovens universitáriosas executoresas das atividades de pesquisa e intervenção O oitavo capítulo Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde de Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado discute os desafios para a promoção de cuidado de saúde para homens a partir de uma leitura psicossocial sobre os modos como usuários homens e trabalhadores de saúde produzem o cuidado à saúde do homem no cotidiano da aten ção básica 23 Possibilidades No terceiro eixo temos três textos que discutem impor tantes elementos potencializadores de boas práticas de pes quisaintervençãopesquisa o monitoramento participativo e sistemático das atividades e a abertura para a alteridade como condições de acolhimento e diálogo seja no aconselhamento em HIVAids seja em intervenções populacionais mais am pliadas como o caso da Caravana da Cidadania Assim o nono capítulo Monitoramento de projeto so cial uma metodologia de pesquisaação participativa de Tel ma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Ma ria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro discute metodologias de monitoramento participativo a par tir das lições aprendidas durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidadania executada pelo Centro das Mulheres do Cabo no âmbito do Diálogos Suape No décimo capítulo Análise da prática do aconselhamen to em HIVAids Wedna Cristina Marinho Galindo discute as modalidades de aconselhamento em HIVAids focalizando Apresentação Luís Felipe Rios et al 13 o encontro aconselhadorusuário e as possíveis implicações ressonâncias e impactos que tal encontro pode ter na própria prática do aconselhamento e no que dela resulta Finalmente no décimo primeiro capítulo Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comuni dades para a promoção à saúde e direitos humanos Cami la Santos Verônica Carrazzone Renata Evangelista de Sena Nunes e Luís Felipe Rios discutem a experiência da Caravana da Cidadania uma das ações de mobilização comunitária do Diálogos Suape apontando para a necessidade de respeito às dinâmicas socioculturais locais como condição para o sucesso de intervenções de promoção de cidadania e saúde Sublinhando mais uma vez os textos aqui reunidos apre sentam as possibilidades desafios e limites da pesquisainter vençãopesquisa no campo da promoção da saúde e cidada nia por meio de um uso consistente de gênero e sexualida de como conceitos capazes de ao mesmo tempo analisar a realidade social e melhor qualificar o marco normativo dos direitos sexuais e reprodutivos Nossa expectativa é a de que divulgar as reflexões tecidas nesta coletânea possa fomentar outras iniciativas de promoção de uma sociedade que prese pela equidade e cidadania Desejamos uma boa leitura Referências ADRIÃO K Perspectivas feministas na interface com o processo de pes quisaintervençãopesquisa com grupos no campo psi Labrys edição em português online v 26 p 7085 2014 Disponível em httpwwwla brysnetbrlabrys26psyKARLAhtm REBOUÇAS E ASSOCIADOS Estudos técnicos Refinaria Abreu e Lima 2009 mimeo 14 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA RIOS L F MEDRADO B AMARAL A PERUZZO J Diálogos Suape pesquisaintervençãopesquisa sobre saúde e cidadania de populações afetadas pelas grandes obras do Programa de Aceleração do Crescimen to PAC em Pernambuco In RIOS LF QUEIROZ T LINS MB TEÓ FILO I Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Programa Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 RIOS LF QUEIROZ T LINS MB TEÓFILO I Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Progra ma Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Desenvolvimento e reprodução um estudo comparativo em três polos pernambucanos1 Dayse A dos Santos Russell P Scott Rosangela S de Souza e Rafael de F D Acioly 1 Introdução Este trabalho busca compreender as repercussões do di namismo econômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mu lheres jovens em polos de desenvolvimento A análise é parte da pesquisa Três polos de desenvolvimento e a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens apoiada pela Facepe em rea lização desde novembro de 2010 pelo Fages da UFPE2 A adolescência tem despertado forte interesse da mídia e das políticas públicas Uma das razões para tal interesse é a mudança que ocorreu quanto às expectativas sociais diante dessa etapa da vida no sentido de reservála prioritariamen te aos estudos com vistas a capacitar os jovens sujeitos para o ingresso em melhores condições no mercado de trabalho Frequentemente incorrese em uma naturalização do proces so de transição da infância à vida adulta e ao mesmo tempo reiterase o caráter imaturo e irresponsável dos jovens Um dos riscos dessa etapa é a possibilidade de uma gra videz Entretanto a gravidez na adolescência não é um fenô meno recente Historicamente as mulheres vêm tendo filhos nesse momento da vida e mesmo em um contexto de intensa 1 Trabalho inicialmente apresentado no XVIII Encontro Nacional de Estudos Popu lacionais Abep realizado em Águas de LindoiaSP de 19 a 23 de novembro de 2012 2 Pesquisa APQ014970310 financiada pelo Edital Facepe 032010 Estudos e Pesqui sas para Políticas Públicas Estaduais Gravidez na Adolescência FacepeSecMulher Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 17 redução da fecundidade não se constatou no Brasil um des locamento correspondente da reprodução para faixas etárias mais velhas tal como ocorreu em países industrializados cen trais Aquino et al 2003 Estudos recentes trazem críticas ao enfoque de risco pre sente na literatura sobre sexualidade e reprodução na adoles cência Essas perspectivas destacam a complexidade do fenô meno e os desafios colocados para sua adequada investigação No que concerne às implicações sobre as trajetórias escolares e profissionais das jovens mulheres os autores argumentam que grande proporção de gestações na adolescência não pode ser considerada determinante da pobreza mas possivelmente por ela condicionada Aquino et al 2003 No presente estudo buscamos refletir sobre a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens e a gravidez na adolescência em contextos de grande desenvolvimento econômico O estudo está sendo realizado no estado de Pernambu co que tem se destacado pelo desenvolvimento expressivo nas últimas décadas Na página oficial do governo desse estado3 um dos destaques é a liderança nacional na geração de em pregos com carteira assinada A reportagem destaca que de acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego MTE Pernambuco é o terceiro estado no país que mais criou emprego formal em agosto de 2011 com 18613 empregos celetistas sendo superado apenas por São Paulo 53033 e pelo Rio de Janeiro 19865 Entretanto a ênfase é que considerados o tamanho da economia de São Paulo e a proximidade dos valores absolutos do Rio de Janeiro Pernam buco está gerando proporcionalmente mais empregos que os grandes estados do Sudeste4 3 Disponível em httpwwwpegovbr 4 Disponível em httpwwwpegovbrblog20110914pernambucoelidernacio nalnageracaodeempregoscomcarteiraassinadadizmte 18 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO O desenvolvimento do estado tem sido decorrência dos polos de desenvolvimento da região Este estudo enfoca três dessas áreas que têm tido destaque o Complexo Portuário industrial de Suape o Complexo Turístico de Porto de Gali nhas e a Agricultura Irrigada de Petrolina Tais áreas estão situadas em três municípios do estado O complexo turístico de Porto de Galinhas localizase na cidade de Ipojuca o Complexo de Suape embora tenha influência nos municípios próximos localizase nas cidades de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca e a agricultura irrigada está situa da em Petrolina Os três municípios tiveram na última década um cres cimento populacional acima da média do estado como de monstram os dados do Censo 2010 Todos estão na faixa mais populosa definida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE acima de 45180 habitantes Tabela 1 Crescimento populacional dos municípios estudados Município População em 2000 População em 20105 Aumento Cabo de Santo Agostinho 152977 185025 2095 Ipojuca 59281 80637 3602 Petrolina 218538 293962 3451 Fonte IBGE Esse aumento populacional devese em parte à chegada de trabalhadores em busca de oportunidades nesses locais A 5 Disponível em httpwwwcenso2010ibgegovbrsinopseindexphpuf26dados1 Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 19 vinda de migrantes com um número expressivo de homens traz repercussões para a vida das comunidades locais Assim o trabalho busca compreender o dinamismo eco nômico sobre a vida sexual e reprodutiva de mulheres jovens nesses polos de desenvolvimento 2 Metodologia Para compreender as especificidades e interrelações dos locais pesquisados fazse necessário destacar alguns aspectos caracterizadores de cada um dos polos O Complexo Turísti co de Porto de Galinhas tem como centro a praia de mesmo nome que se localiza em Ipojuca O Complexo Portuário do Suape localizase fisicamente nos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca mas tem grande influência nas cidades vizinhas e na capital do es tado Recife Diariamente circulam centenas de ônibus que transportam trabalhadores dessas cidades para o Complexo Assim esses dois complexos vizinhos localizados no litoral sul do estado constituem duas forças de criação de vocações ora convergentes ora divergentes que se somam de maneira interligada proporcionando um ambiente de possibilidades de vida entre as quais as jovens populações locais transitam Petrolina apresenta um contexto mais particular Distan te geograficamente área de sertão que se desenvolveu com o uso da tecnologia da irrigação no plantio inserese na rede de desenvolvimento do estado e liga sua atividade à zona litorâ nea por meio da exportação de seus produtos pelo novo porto instalado A pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa FagesUFPE teve uma equipe composta por um professor coordenador uma pesquisadora doutora e dois pesquisadores estudantes do mestrado em antropologia 20 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO No início da pesquisa de campo orientados pelos órgãos promotores de atividades que são da vocação dos polos e por uma pesquisa prévia sobre atividades econômicas desen volvidas no local foram escolhidos dois locais em cada polo para entender de forma mais aprofundada como se dão as relações de trabalho nos locais com atenção especial para as relações de gênero e de geração que ocorrem em função deles e em todos os locais com atenção especial para as percepções sobre a inserção de mulheres jovens nesses espaços Em cada um desses locais trabalhamos em cooperação com duas equipes da Estratégia de Saúde da Família ESF ouvindo os profissionais da equipe multidisciplinar com des taque para os agentes comunitários sobre a vida sexual e re produtiva das jovens e também solicitando sua ajuda para assegurar contatos para a pesquisa Assim em cada município foram elencados dois locais e nestes trabalhamos com o apoio de duas equipes de ESF totalizando seis áreas cobertas pelo ESF que foram espaços mais intensos da realização da pesquisa Em Ipojuca os lo cais foram Porto de GalinhasMaracaípe e Nossa Senhora do Ó no Cabo de Santo Agostinho Ponte dos Carvalhos e Gai bu e em Petrolina as comunidades de São Gonçalo e João de Deus Nesses locais foram realizadas entrevistas aprofundadas com meninasjovens que passaram pela experiência de gravi dez na adolescência e com mulheres avós cujas filhas engra vidaram na adolescência Os dados coletados pela equipe abrangem a pesquisa documental documentos oficiais e recortes de jornais e de sites b pesquisa de campo que resultou em centenas de pá ginas de diários de campo ao longo de mais de um ano de pesquisa de observação e convivência intermitente c 68 en trevistas abertas com roteiros sobre a experiência de gravidez com mães jovens 44 entre 16 e 24 anos de idade e avós 24 Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 21 entre 32 e 65 anos de idade que foram gravadas transcritas e analisadas tematicamente e d 418 questionários sobre na moros gravidez mobilidade e avaliações de oportunidades de trabalho e efeitos dos projetos de desenvolvimento nos locais totalizando 418 questionários com mulheres jovens entre 16 e 24 anos independentemente de terem passado pela expe riência da gravidez Houve uma ênfase na pesquisa nos dois polos litorâne os de Suape e da Indústria Turística em Porto de Galinhas Ao polo da agricultura irrigada de Petrolina foi reservado um papel de contraponto comparativo para alertar contra possí veis generalizações incabíveis Em decorrência de tal ênfase os questionários foram aplicados apenas nas áreas dos polos litorâneos 3 Discussão e resultados 31 Os cenários A praia de Porto de Galinhas há décadas recebe forte in vestimento para a indústria turística Os dados da prefeitura destacam a grandiosidade do turismo enfatizando que esse trecho do litoral sul de Pernambuco já dispõe de 13 grandes hotéis e resorts de luxo mais de 250 pousadas de várias clas sificações formando um conjunto de 10 mil leitos tendo re cebido um fluxo superior a 700 mil turistas ao longo do ano 20106 A página oficial da praia7 traz em destaque que ela é a única escolhida 10 vezes consecutivas a melhor praia do Bra sil Porto de Galinhas tem papel importante no fluxo de turis mo do estado 6 Disponível em httpwwwipojucapegovbr 7 Disponível em httpwwwvisiteportodegalinhascom 22 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Tabela 2 Fluxo de turistas em Pernambuco Ano Chegada de turistas sobre o ano anterior sobre o anobase 2005 2005 3498219 2006 3530046 090 090 2007 3643038 320 413 2008 3775588 363 792 2009 3944895 448 1276 Fonte Empetur Os moradores locais que tradicionalmente se ocupavam de atividades como a pesca no mar e no mangue e o trabalho rural vêm se transformando em jangadeiros caseiros assala riados prestadores de serviço ou autônomos Uma única unidade da ESF opera entre as áreas de Mara caípe e Porto de Galinhas O outro local no qual atuamos jun to com a equipe do ESF foi o bairro de Nossa Senhora do Ó O antigo distrito de Nossa Senhora do Ó fica a 9 km da vila de turismo de Porto de Galinhas no caminho de acesso à praia Em razão da proximidade e do menor custo de sobre vivência é o local que agrega grande parte dos trabalhadores de Porto tendo tido crescimento expressivo nos últimos anos Por causa da proximidade dessa área com o Complexo de Suape Nossa Senhora do Ó também é local de moraria de muitos funcionários do Complexo Embora haja uma política estadual de desestímulo à criação de alojamentos de funcio nários as casas e pousadas têm sido utilizadas como local de moradia dessa população É a junção dessas duas vocações que deixa o município de Ipojuca em uma situação econômica favorável Segundo dados da prefeitura Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 23 Ipojuca cresce a taxas astronômicas Abrigando dois dos principais polos da moderna economia de Pernambuco o terri tório ipojucano foi contemplado nas três ultimas décadas com investimentos da ordem de R 35 bilhões e 400 milhões resul tantes do processo de industrialização no complexo industrial e portuário de Suape e na expansão do Turismo em seu litoral notadamente em Porto de Galinhas8 O Cabo de Santo Agostinho teve seu desenvolvimento im pulsionado com o Complexo Industrial e Portuário de Suape que diferentemente de Porto de Galinhas é um projeto com mais de três décadas de planejamento no estado de Pernam buco A fase de implantação intensiva do complexo foi inicia da em 2007 O site do Complexo9 veicula informações sobre a vocação e a dinamicidade do projeto Informa que Suape abarca além do porto em si o maior estaleiro do hemisfério Sul uma refinaria de petróleo três plantas petroquímicas mais de 100 empresas já instaladas e ainda tem previsão de instalação de pelo menos 50 novas indústrias Os promotores do Complexo ressaltam que Suape se insere em uma vocação histórica de comércio estabelecida desde a descoberta do Brasil remon tando à criação de um mito de origem nacional de comércio internacional No Cabo de Santo Agostinho a pesquisa se desenvolveu mais intensamente junto às áreas atendidas pela unidade da ESF uma no bairro de Ponte dos Carvalhos e outra em Gaibu Ponte dos Carvalhos fica como entreposto a pleno ca minho de toda a Zona da Mata Sul para os municípios de Jaboatão e Recife Cresceu mais intensivamente a partir dos anos 1950 e 1960 com o êxodo da zona canavieira da Zona da Mata Sul Muitos se estabeleceram firmemente em serviços 8 Disponível em httpwwwipojucapegovbr 9 Disponível em httpwwwsuapepegovpe 24 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO comerciais de reparo de veículos e de recreação ao longo da estrada Hoje o bairro se expandiu muito ocupando gran de extensão em ambos os lados da estrada com múltiplas residências individuais de variadas qualidades e uma base econômica mais variada É um dos distritos de referência do município do Cabo e já tem um colégio com ensino muito qualificado em período integral e a maternidade de referência do município Gaibu é um aglomerado urbano situado na estrada que leva à vila de Suape Motta 1979 uma vila de antigos pesca dores que fica colada à beira norte do Complexo de Suape se parada por um braço de mar Em GaibuSuape residem anti gos e atuais pescadores e marisqueiros junto com surfistas e sobretudo outros trabalhadores do comércio e de serviços que trabalhavam e trabalham no comércio local ou cada vez menos em residências de veranistas É a área com acesso mais direto a Jaboatão e ao Recife por uma estrada litorânea com pedágio que passa por um empreendimento imobiliário de alto luxo implantado em função do desenvolvimento espera do por causa do Complexo A unidade da ESF que opera em Gaibu está com sua equipe reduzida e precisando de amplia ção com muitas áreas de novas residências descobertas em decorrência do aumento expressivo de moradores Gaibu por ser uma praia e ter muitas casas da população do Cabo que ia veranear tornouse um lugar com oferta de imóveis disponíveis para os migrantes As casas de veraneio e as pousadas passaram a ser residência permanente dos traba lhadores vindos de outros locais Situação distinta de Porto de Galinhas onde as pousadas e hotéis destinamse a um públi co turista de poder aquisitivo mais elevado No Cabo também estão situados muitos alojamentos de homens trabalhadores do Complexo Petrolina é um município que tem tido destaque no cres cimento econômico De acordo com os últimos dados dos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 25 produtos internos brutos PIBs municipais de Pernambuco coletados pelo IBGE o município de Petrolina se situa em sex to lugar em ordem de grandeza de seu PIB cerca de R 262 bilhões a preços de 2010 Fica abaixo de Recife Jaboatão Ipo juca Cabo e bem próximo a Olinda R 263 bilhões Merece destaque o fato de Petrolina ser sertão e interior e todos os demais situaremse na região metropolitana À exceção de Ipojuca importante sede dos investimen tos estruturadores que atualmente se implantam no estado a taxa de crescimento anual de Petrolina no período 19992008 da ordem de 45 ao ano ultrapassa a dos demais municípios citados Em 2010 Petrolina foi matéria na revista Veja10 como destaque nacional na geração de empregos Com o chamativo título O milagre do São Francisco a reportagem destacava a produção da agricultura irrigada que produz 1 milhão de toneladas de frutas avaliadas em 13 bilhão de dólares Tabela 3 Área produção e valor da produção das principais culturas de Petrolina safra 2009 Cultura Área ha Produção t Valor da produção R Manga 7500 150000 60000000 Uva 3800 106000 276000000 Goiaba 2300 71400 64240000 Coco mil frutos 1500 45000 12600000 Banana 2700 45900 22900000 Fonte IBGE 2010 Preços de 2009 10 Veja edição 2180 1o set 2010 26 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Em Petrolina a pesquisa se desenvolveu mais intensa mente nas comunidades de João de Deus e São Gonçalo Essas comunidades foram formadas há pouco mais de duas déca das em áreas doadas pela Companhia de Desenvolvimento do Vale de São Francisco Codevasf para construir residências Formadas por favelados vindos de outros lugares já foram conhecidas pela violência e perigo mas hoje são consideradas áreas de trabalhadores um lugar bom para viver 32 Os atores e suas estratégias 321 Vida sexual e reprodutiva das jovens como objeto de preocupação estratégica O desenvolvimento do estado tem sido objeto de preocu pação pela possibilidade de influenciar a vida sexual e repro dutiva das mulheres de maneira não desejada Isto é a pre sença de muitos homens trabalhadores migrantes que vêm sozinhos pode resultar também em aumento de gravidezes na adolescência Como destaca Ribeiro 1992 os trabalhadores estão ex postos a um cotidiano bastante típico de uma força de tra balho imobilizada pela moradia A vida no acampamento de um grande projeto é penetrada em todas as suas esferas pelos interesses e necessidades da obra monitorados por uma ad ministração central à maneira de uma instituição total Os trabalhadores não especializados estão sujeitos a um controle muito maior a presença de suas famílias é inclusive impossí vel pois só há em termos de moradia a alternativa de ocupar os alojamentos coletivos para solteiros Esse tipo de preocupação ganhou espaço na mídia Em 2011 o jornal Diário de Pernambuco um dos principais jornais locais publicou uma série jornalística intitulada Os filhos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 27 de Suape11 que denunciava o abandono paterno de crian ças nascidas de relações entre as adolescentes locais moças entre 11 e 19 anos e os trabalhadores migrantes Ao longo da semana em que a série foi publicada saíram reportagens que abordavam o fato de vir uma massa de trabalhadores homens separados de suas famílias e agrupados em grandes alojamentos A reportagem destacava a cegueira dos governos para os casos de exploração sexual estupro e gravidez na adolescência Os textos enfatizavam a vulnerabilidade das mulheres lo cais especialmente as mais jovens que sonhavam em encon trar um parceiro e construir uma família mas que eram aban donadas pelos homens que já tinham famílias em seus locais de origem Essas relações chamadas de A sedução da farda Sonho de Cinderela e Hora extra dos prazeres destacam a relação assimétrica entre os homens que têm emprego e ren da e as mulheres que estão à procura de um parceiro também provedor em um contexto em que as oportunidades de empre go não são para elas Apesar do tom denunciativo da reportagem os dados do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca não permitem dizer que o problema da gravidez na adolescência se agravou com a chegada de Suape Isso se deve em parte às estratégias das pró prias envolvidas como veremos a seguir Entretanto a série chamou a atenção do poder público para o possível aumento das taxas de gravidez e exploração sexual No mês posterior à série veiculada a Assembleia Legisla tiva estadual realizou uma audiência pública para discutir a exploração sexual na área do Complexo de Suape Nesse even to discutiuse a necessidade de verbas públicas para tratar o problema e de ações concretas para implementar os planos 11 Série de reportagens publicadas pelo Diário de Pernambuco de 8 a 13 de maio de 2011 28 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO elaborados de combate à exploração sexual contra crianças e adolescentes Uma das participantes da sociedade civil destaca que esse problema devese também à falta do poder público A falta de estado referese a um modelo de desenvolvimento focado no setor empresarial em detrimento das condições da população E também o não desenvolvimento de muitas ações no plano social A preocupação com a vida sexual das jovens e com o ris co de uma gravidez na adolescência tem sido presente tam bém nas empresas privadas Com toda a crítica à presença massiva de homens em alojamentos que chegam a concen trar mais de 3500 trabalhadores ter ações preventivas se configura como atuação de responsabilidade social das empresas È o caso da Camargo Correa Esse grupo é um dos maio res grupos empresariais privados do Brasil Tem atuado for temente no Complexo de Suape no setor de engenharia e construção civil ramo que abarca o maior número de traba lhadores pouco qualificados que vêm para trabalhar no perío do da duração da obra A Camargo Correia tem promovido no Cabo de Santo Agostinho um curso de formação dos profissionais da rede pública de saúde e educação para a redução da gravidez na adolescência Na etapa inicial foram escolhidas quatro unida des de saúde da família considerando os critérios de índices de gravidez na adolescência baixo poder aquisitivo da popu lação local e local de atração dos migrantes como é o caso de Gaibu Em razão do crescimento expressivo do Complexo nesta última década Suape tem atraído mais olhares para a sexua lidade das adolescentes buscando evitar a exploração sexual e a gravidez na adolescência Em Porto de Galinhas essa é tam bém uma inquietude presente Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 29 Há uma preocupação em evidenciar que o turismo de Porto de Galinhas é um turismo familiar Difere de outros lo cais no Nordeste marcados pelo turismo sexual A prefeitura destaca que tem medidas administrativas junto aos hotéis e operadoras de turismo que vão atuar na região para verificar o perfil de turistas Há uma vigilância dos empreendedores em preservar a noção que o turismo de Porto de Galinhas tem para as famí lias e que empresários que querem aproveitar as oportuni dades de turismo sexual não são bemvindos Um hotel que escolheu proibir a hospedagem de crianças para aproveitar o mercado de casais em lua de mel que estariam buscando sos sego para suas núpcias sofreu pressão de outros hoteleiros que perceberam que tal caminho poderia levar a uma suspeita de também estarem promovendo encontros para experiências sexuais o que desvirtuaria a imagem familiar da praia Em pouco tempo o hotel reverteu sua estratégia alegando que os casais muito satisfeitos com o atendimento durante a lua de mel haviam pressionado para que seus familiares e eles mesmos no futuro com filhos pudessem se hospedar em um lugar tão bom Os mesmos empresários comemoraram o fim de voos fretados de países europeus conhecidos como bate e volta que traziam turistas propensos a encarar as praias do Nor deste como destino privilegiado para encontros sexuais Um dos voos fretados promovidos por um expiloto de Fórmula Um que trazia italianos sucumbiu diante das pressões con tra a prostituição infantil segundo o relato de um oficial de segurança Ainda no espírito de promoção de turismo familiar e al ternativo individual houve fechamento de mais de uma de zena de pousadas que hospedaram trabalhadores de Suape sem tomar as devidas precauções de definição de estada curta que rege o princípio da Associação Já as pessoas que vêm pas 30 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO sar períodos variados de tempo em suas casas na praia e que eventualmente as alugam particularmente ou por meio de corretores também fazem muito mais parte dos que almejam manter a qualidade familiar e de distinção do local Petrolina por sua vez tem uma maior inserção das mu lheres como mão de obra inclusive as menores de 18 anos seguindo as regras do Ministério do Trabalho A gravidez na adolescência não é um problema preocupante As jovens tra balhadoras da agricultura irrigada são percebidas como mui to mais cuidadosas com relação a uma gravidez vista como precoce que as mulheres de gerações anteriores O foco de lu tas são direitos e condições adequadas de trabalho 322 Escolhas sexuais e reprodutivas das jovens 3221 Complexo de Suape e região turística de Porto de Galinhas A parte do Complexo e a região de Porto de Galinhas realçada pela pesquisa incluem os locais habitados mais dire tamente impactados Abrangem as sedes dos municípios do Cabo e de Ipojuca A maior parte da pesquisa de campo se realizou em quatro locais urbanos nos distritos desses muni cípios Porto de GalinhasMaracaípe e Nossa Senhora do Ó em Ipojuca Ponte dos Carvalhos e Gaibu no Cabo Esses locais como já destacado têm sofrido o aumento expressivo de migrantes A população local interage de mui tas formas com esses migrantes outsiders cuja chegada afeta a vida dos estabelecidos sobre os quais se costuma elaborar imagens que refletem tanto desconfiança quanto expectativas positivas Sua presença nesses locais pode ser entendida a partir das formulações de Ribeiro 1992 e Oliveira 2000 Ribeiro destaca a construção das identidades fragmentadas e utiliza Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 31 a expressão bichos de obras para se referir a um contexto no qual há um segmento de uma população estruturada a partir de processos migratórios vinculados à formação do mercado de trabalho de um grande projeto em construção Os bichos de obra são pessoas desterritorializadas no sentido da perda da possibilidade de realizar uma identificação uní voca entre territórioculturaidentidade fato que se expres sa nos rótulos usados por eles mesmos ou por outros para descrevêlos desenraizados expatriados ciganos cidadãos do mundo Sua desterritorialização cultural é preenchida por uma territorialização definida pela esfera do trabalho Em nosso contexto essa desterritorialização é demons trada a partir da generalização dos migrantes identificados na categoria de baianos Essa definição engloba os traba lhadores em um grupo identificado como propenso a brigas e confusões e por se envolver com mulheres locais mesmo as casadas Embora possuam emprego e uma potencial condi ção de provedores não são vistos como homens preferenciais para relacionamentos afetivos e conjugais como veremos nos dados quantitativos e também transparece no trecho a seguir É porque eles são muito exibidos eles não querem namorar e elas as moças do local sabem que eles é só um uma tempo rada O pessoal daqui é diferente é pescador mas tem família namora e é pra casar E eles os migrantes é tudo sem futuro Entrevista com mãe jovem de Gaibu As informações do Quadro 1 são dados dos questionários aplicados nos quatro locais com jovens mulheres buscando compreender aspectos do contexto como suas escolhas de parceiros trajetórias sexuais e reprodutivas e a influência de trabalho e estudo nesses locais de desenvolvimento Apresen tamos dados de mobilidade e educação e a seguir aprofunda mos a discussão de reprodução e sexualidade 32 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Quadro 1 Mobilidade educação e trabalho das jovens e suas famílias nos quatro locais Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Nascimento no local a jovem 260 423 443 157 Mãe 242 313 388 97 Pai 236 345 469 118 Nascimento em outro município ou estado a jovem 610 327 420 598 Mãe 586 437 480 645 Pai 606 453 408 588 Moradia no local 10 anos ou menos 471 288 333 392 Educação Estuda atualmente 413 346 425 245 Segundo grau completo 490 510 198 333 Não trabalha 721 798 714 667 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Os dados demonstram que muitas das jovens e seus pais são naturais de Ponte dos Carvalhos e de Nossa Senhora do Ó sugerindo a importância de seus padrões históricos de aglomerados de populações emigradas principalmente de en genhos ao longo de mais de meio século Dois terços das jo Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 33 vens moram há mais de 10 anos em Ponte dos Carvalhos e em Nossa Senhora do Ó Ponte dos Carvalhos mesmo estando no caminho da BR que conecta a Zona da Mata Sul e o Reci fe abriga proporcionalmente mais emigrantes expulsos dos engenhos do próprio município Cabo do que Ó em Ipojuca que soma mais migrantes de origens de fora do município provavelmente em função da atração da proximidade a Porto de Galinhas Em comparação os locais situados nas praias Porto de GalinhasMaracaípe e Gaibu tiveram incrementos propor cionalmente muito mais pesados em suas populações a dife rença sendo que em Porto de Galinhas a maior acentuação é em décadas recentes quando há poucos naturais do local na geração dos pais das jovens enquanto em Gaibu a imigração é muito mais concentrada nos últimos 10 anos A baixa qualificação da população em torno do complexo turístico se destaca tanto por ter poucas jovens com segundo grau completo mais notável em Ó que em Porto de Galinhas quanto por revelar um menor número de jovens atualmen te estudando pois quem quer completar o segundo grau em Porto de Galinhas se queixa da precariedade da escola local e da distância que precisa percorrer para chegar a Ó onde há melho res opções Trabalhar em Suape não se configura como opção sig nificativa para mulheres em nenhum dos locais pesquisados havendo apenas 1 delas que responderam ao questionário reportando trabalhar no complexo portuário e industrial Enquanto um pouco mais das jovens de Porto de Galinhas consegue encontrar trabalho nos outros locais há constantes reclamações de baixa remuneração e de precariedade sazonal O primeiro namoro começa antes de 14 anos para mais da metade das meninas Os parceiros são mais residentes do pró prio local Em Gaibu e em Porto de Galinhas a busca de par ceiros de fora é muito mais intensa que nos outros dois locais 34 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Quadro 2 Escolhas de parceiros Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Primeiro namoro 14 anos 610 443 510 543 Sobre o primeiro namorado De outro município ou estado 441 144 262 448 Conheceu na escola 200 258 167 200 na vizinhança 370 258 314 410 na igreja 30 144 49 42 em bar ou festa 80 113 196 168 Com relações sexuais 471 495 553 663 Usou prevenção na primeira vez 813 633 804 619 Primeira preocupação gravidez 395 469 400 269 Engravidou dele 333 408 464 508 Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Sobre o parceiro atual é do local 442 775 753 583 de outro municípioestado 455 176 185 250 Conheceu na escola 118 88 111 85 na vizinhança 289 225 272 493 na Igreja 79 175 49 56 em bar ou festa 158 263 235 141 Ele não trabalha 211 225 244 99 Trabalha no local 105 288 179 211 Trabalha em Suape 408 225 269 127 Trabalha em Porto 39 13 218 479 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 35 A vizinhança é mais importante que a escola como local para conhecer o primeiro namorado embora em Ponte dos Carvalhos a escola e a igreja sejam ainda mais importantes es paços institucionais para identificar quem se quer namorar Ainda no que tange a conhecer os primeiros namorados os ambientes de festa ou de bar embora não predominantes são identificados mais pelas que residem próximo ao complexo turístico de Porto de Galinhas A proteção na primeira relação sexual foi usada mais pe las jovens de Gaibu e de Nossa Senhora do Ó que tomaram precaução em 80 dos casos Em Porto usouse menos pro teção 619 e se ao usar se preocupou muito mais com do enças que com gravidez E foram justamente essas jovens que mais frequentemente ficaram grávidas do primeiro namora do 50312 Pode ter havido mais confiança nas relações se xuais com os primeiros namorados em Ponte dos Carvalhos pois além de boa parte não usar proteção na primeira rela ção as que a usaram estavam mais preocupadas com gravi dez e não com doenças do que as jovens em outros locais Em função da migração massiva recente de trabalhado res em Suape para Gaibu a origem desses parceiros é bem mais acentuadamente de fora do local do que nos outros três lugares pesquisados Em Nossa Senhora do Ó e em Ponte dos Carvalhos os parceiros são predominantemente locais e sem desprezar a importância da escola e da vizinhança as jovens mudaram os espaços de sociabilidade para en contrar esses parceiros recorrendo mais frequentemente a bares e festas em ambos os locais e a igrejas em Ponte dos Carvalhos Para esses parceiros mais uma vez encontrar trabalho é mais fácil em Porto mas igualmente ao que ocorre com as jovens é um trabalho mal remunerado precário e sazonal 12 Excluindo as que reportaram não ter relações sexuais com seus primeiros namorados 36 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Como a pesquisa foi feita no mês de janeiro havia muita in fluência da alta estação de turismo na declaração de estar tra balhando Suape revela ser um crescente polo empregador não somente em Gaibu mas também em Ponte dos Carvalhos e em Nossa Senhora do Ó Entre todos os locais Gaibu ofere ce menores oportunidades locais para trabalhar Quadro 3 Vida sexual e reprodutiva Gaibu Ponte dos Carvalhos Nossa Senhora do Ó Porto de Galinhas e Maracaípe Idade da primeira gravidez da mãe 16 anos 222 253 303 286 19 anos 544 518 618 557 Idade da jovem na primeira relação sexual 13 anos 24 27 58 96 14 anos 153 120 186 205 16 anos 459 373 488 614 Idade da jovem na primeira gravidez Nunca engravidou 533 524 443 392 Engravidou 16 anos 167 204 305 339 Engravidou 19 anos 604 653 746 790 Experiência de gravidez Mais de uma vez 370 326 456 468 Fonte Questionário da pesquisa Três Polos de Desenvolvimento FagesUFPE Mais da metade das jovens entre 16 e 24 anos já engra vidou com uma diferença entre os dois polos de desenvolvi Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 37 mento As que residem mais próximo ao complexo turístico e cujas origens reportam mais ao trabalho rural são mais pro pensas a engravidar cedo 15 anos ou menos que as que mo ram nos locais no município de Cabo Também continua com proporções mais altas as jovens que tenham engravidado até 18 anos de idade Elas apresentam ainda taxas significativa mente mais elevadas de multiparidade Uma das observações frequentes de pesquisadores sobre a vida reprodutiva e sexual das jovens é de que elas estão se guindo um padrão estabelecido pela própria mãe ver revisão de literatura em Heilborn et al 2006 De fato em Ponte dos Carvalhos e em Gaibu tanto pelas gravidezes com idade in ferior a 16 anos quanto pelas gravidezes com idade inferior a 19 anos as avós nome que adotamos para nos referirmos às mães das jovens tendiam a ter filhos em idade mais nova que suas filhas enquanto em Nossa Senhora do Ó a idade é equivalente apenas havendo na situação de Porto de Galinhas uma idade menor para a geração mais nova de mães Mais do que as outras jovens mães as jovens mães de Porto se expuse ram mais cedo à probabilidade de engravidar e de adoecer em função de sua vida sexual 3222 Agricultura irrigada de Petrolina No contexto de Petrolina como destacamos a pesquisa não utilizou a aplicação de questionários Nesse polo a análi se foi feita com o uso de observações e entrevistas tendo sido reservado um papel de contraponto comparativo com os ou tros polos Em Petrolina há uma maior inserção das mulheres na força de trabalho sendo esse um fator que contribui para menores taxas de gravidezes em relação às mulheres que não trabalham A grande produtividade de uvas demanda mão de obra feminina por ser considerada uma atividade que neces sita de destreza 38 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Para as mulheres assalariadas da agricultura a gravidez é evitada mais frequentemente por ser um fator que dificultará o trabalho Assim são alcançadas maiores taxas de gravidez de mulheres jovens nas áreas de pequena produção Os incen tivos governamentais de apoio às gestantes são percebidos como estímulo à gravidez em detrimento do incentivo a opor tunidades de trabalho mais amplas e com direitos assegura dos Assim ouvimos relatos de que o saláriomaternidade isto é o direito ao recebimento de quatro salários mínimos da mulher gestante acima de 17 anos estimula que as mulheres tenham filho ao chegar a essa idade Em um caso citado a mu lher grávida se referia à gravidez alisando a barriga aqui é a moto fazendo referência à moto que pretendia comprar com o dinheiro Outra disse que ia comprar duas vacas para beber leite Já fazem planos para o dinheiro a receber Petrolina conta com um sindicato de trabalhadores ru rais muito estruturado que reivindica os direitos trabalhistas inclusive garantias de direitos às mulheres trabalhadoras As representantes do sindicato relatam que a convenção de tra balho tem cláusula que protege a mulher como o direito de faltar ao trabalho para realizar o exame preventivo de câncer de colo do útero ou regras para coibir o assédio Elas dão um exemplo de assédio moral uma mulher que foi chamada de cachorrinha Ela ganhou na justiça pouquinho mas em tor no de 1200 ou 1300 reais Citando outros direitos lembram que a mulher cujo filho adoecer pode faltar ao trabalho Essa convenção existe desde 1994 para proteger os agricultores O trabalho na agricultura é intenso e desgastante mas oferece à população uma perspectiva de maiores ganhos que o trabalho na cidade no comércio por exemplo Como citam os moradores locais No comércio tem ar condicionado Na agricultura é sol e veneno Assim o relato das mulheres sobre o trabalho demonstra as ambiguidades é uma boa oportuni dade mas com desgastes e riscos diversos Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 39 Mas eu já trabalhei raliando Raliando é assim o cacho de uva é cheio de bago um cacho normal aí você tem que pegar e tirar as bagas miúdas e os talos daquele cacho deixar ele bem solti nho pra quando for dobrar ele pra todo canto quando ele tiver no ponto Aí vai afrouxando ele pra ficar um cacho perfeito Sou apaixonada pela área de irrigação fiz dois anos trabalho de irrigação gosto muito do trabalho de irrigação É muito bom Aí eu não quis ficar lá mais não por causa do veneno Eu peguei uma alergia lá do veneno das formigas Fiquei toda em polada Entrevista com jovem Esse trecho demonstra claramente o paradoxo de um trabalho bom para as condições locais no qual a jovem não quis permanecer por causa dos agrotóxicos Outra in formante destaca que a atividade é rápida e o braço cansa muito Outro fator para as que não são assalariadas ou seja são contratadas apenas para a safra é o período sem atividades e a jornada extensa no período da safra como demonstra esta fala de uma avó que trabalha embalando manga uma ativi dade de safra que faz com que as trabalhadoras passem um tempo sem atividades nem renda Trabalho assim agora mesmo eu tô desempregada Só por época mesmo Embalando as caixinhas de manga É muito cansativo Cansativo é Porque quando começa ai ai ai Ô A gente tem que tem que levar a marmita da gente comer comi da de marmita E é pra é pra é embalando manga todo dia num tem hora Tem dia que de 4h até 7h 8h da noite tem dia que entra de 7h da manhã de 7h30 8h a gente num tem um horário só tem a hora do almoço aquela hora de descanso e pronto Entrevista com avó Para as trabalhadoras assalariadas um programa im portante é o Chapéu de Palha que pode beneficiar a si pró pria ou a outra pessoa da família como no relato a seguir 40 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO É uma estratégia para amenizar as condições precárias de trabalho Porque eu tô fazendo cinco cursos Eles falaram com a mi nha mãe que minha mãe faz Chapéu de Palha que ela é tra balhadora rural trabalha na uva Aí eles falaram e ela não po dia fazer porque tava trabalhando Aí ela foi e me deu a vaga dela Porque foi quando surgiu a oportunidade porque são todos gratuitos Aí surgiu a oportunidade Primeiramente eu comecei a fazer o de informática lá no Senai É porque é pelo Chapéu de Palha Aí depois do de informática surgiu a opor tunidade de fazer o de mecânica de motos aí eu conheci uma pessoa lá e ela disse que ia ter o de técnicas bancárias Aí eu fui e fiz tô fazendo né tô cursando E também o de ética e outro de informática porque esse de informática lá também já é pra trabalhar no banco talvez de lá a gente já vá trabalhar no banco Entrevistadora E tua mãe gosta de trabalhar na uva Gosta Não é tanto gostar é porque é a opção que tem Porque é melhor trabalhar na uva do que em casa de família Minha mãe diz isso eu prefiro trabalhar mil vezes com a uva do que em casa de família Casa de família você aguenta muito Tem pessoas legais e tem pessoas chatas né Aí ela não tem muita sorte de pegar patrão bom aí ela optou pela uva Faz uns anos já que ela trabalha na uva Bastante tempo Entrevista com jovem O trabalho na agricultura aparece como uma opção em um cenário de poucas oportunidades para a população mas isso não significa que essa oportunidade ocorra sem paradoxos 4 Considerações finais Os resultados preliminares da pesquisa em andamento demonstram que os polos de Porto e especialmente de Suape atraem para si um contingente populacional especialmente Desenvolvimento e reprodução Dayse A dos Santos et al 41 masculino propiciando o encontro entre populações atin gidas e populações atraídas no qual as práticas e estratégias de reprodução humana adquirem significados marcados por esse encontro Cada polo busca a realização de seus objetivos de implantação e reificação de vocações locais e nesse contex to os jovens são alvo de políticas de uso de força de trabalho para alcançar as metas econômicas da dinâmica vocacional idealizada para o local Os dados sugerem que a sexualidade preferencial é com parceiros estabelecidos pois os outsiders representam muito risco e desconhecimento As mulheres jovens ao exercerem sua sexualidade e sua capacidade reprodutiva abrem um cam po de construção de significados e práticas A gravidez estimu la morais tradicionais e a inserção dessas jovens mulheres e mães no mercado de trabalho apresenta diferenças de acordo com os tipos de atividades nos polos e o tempo de implemen tação das vocações locais No Complexo de Suape quase nenhum espaço tem sido destinado às mulheres fazendo com que elas fiquem à mar gem do desenvolvimento Na indústria turística também não há uma ampla inclusão Em Petrolina vemos mulheres com acesso ao trabalho mas um trabalho precarizado que leva a uma inserção intermitente Os dados encontrados de monstram semelhanças com a literatura sobre gravidez na adolescência que revela uma relação entre a precariedade e as altas taxas de gravidez e não o inverso Assim os resultados preliminares sugerem que políticas e programas que busquem reduzir índices de gravidez na adolescência serão insuficientes se não relacionados com uma efetiva inserção em condições adequadas das mulheres nessas alardeadas oportunidades desses polos 42 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Referências AQUINO E et al Adolescência e reprodução no Brasil a heterogeneidade dos perfis sociais Cad Saúde Pública v 19 supl 2 2003 ELIAS N SCOTSON J The established and the outsiders a sociological enquiry into community problems Londres F Cass 1965 HEILBORN M L AQUINO E M L BOZON M KNAUTH D R O aprendizado da sexualidade reprodução e trajetória sociais de jovens brasi leiros Rio de Janeiro GaramondFiocruz 2006 MOTTA R O povoado de Suape economia sociedade e atitudes Revista Pernambucana de Desenvolvimento Recife Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco v 6 n 2 p 209247 1979 OLIVEIRA R C Os descaminhos da identidade RBCS v 15 n 4 fev 2000 RIBEIRO G Bichos de obra fragmentação e construção de identidades Revista Brasileira de Ciências Sociais n 18 p 3040 1992 Dialogando com homens trabalhadores de Suape demandas necessidades atitudes e práticas em saúde Benedito Medrado Jorge Lyra Túlio Quirino Ana Luísa Cataldo Andréa Paula da Silva Claudemir Silva Filho Felipe Alves e Anna de Cássia P de Lima Este texto versa sobre um componente de pesquisa do projeto Homens gênero e atenção à saúde que integrou o programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Sua pe Esta pesquisa de natureza quantitativa teve o objetivo de produzir um levantamento de informações sobre conhe cimentos atitudes e práticas dos trabalhadores de Suape em temas relativos a saúde sexualidade e violência Para tanto foram realizadas e validadas 421 entrevistas estruturadas com homens que na época 20122014 atuavam nas empresas terceirizadas 11 responsáveis pela construção dos principais empreendimentos do Complexo Suape O ro teiro das entrevistas continha questões organizadas em blocos temáticos envolvendo práticas de saúde e autocuidado pa ternidade e cuidado e violência Na pesquisa de campo foram envolvidos 24 pesquisadoresas selecionados e treinados No texto a seguir apresentaremos os principais resultados dessa pesquisa tendo por base uma leitura feminista de gênero 1 Homens como categoria politicamente útil e gênero para além da fotografia Analisando o quadro geral da saúde dos homens e os ín dices de morbimortalidade masculina temse como referência 44 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO o documento Indicadores e dados básicos para a saúde IDB 2006 Brasil publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE em parceria com o Ministério da Saúde que expôs nessa edição o tema Saúde do homem1 Essa pu blicação apresenta os principais indicadores de morbimor talidade masculina agregados por região faixa etária renda entre outros critérios além de revelar que os homens jovens são aqueles que apresentam maiores índices de internamen to e morte por causas externas homicídio violência e uso abusivo de drogas Estas últimas apresentamse diretamente relacionadas com os processos de socialização que em geral orientam vulnerabilidades pessoais e programáticas Nessa mesma direção informações do Datasus mostram que as principais causas de adoecimento e morte dos homens na microrregião de Suape especialmente os mais jovens estão relacionadas com o que se define em saúde como causas ex ternas ou seja aquelas resultantes de violência acidentes de trânsito e uso abusivo de drogas A saúde do homem ou mais precisamente seu adoecimento e morte está portanto dire tamente relacionada com modos de vida e padrões de gênero machista Em outras palavras esses homens aprendem des de pequenos que ser homem é ser naturalmente violento e que prevenção em saúde é coisa de mulher pois os padrões de gênero potencializam práticas baseadas em crenças de que a doença é considerada um sinal de fragilidade e que os ho mens por consequência seria invulneráveis Vale ressaltar que infelizmente apesar de toda leitura crí tica sobre o uso desse conceito Scott 1988 Izquierdo 1992 gênero ainda é em geral tomado como construção social sobre os sexos e as pesquisas sobre gênero ainda tendem a construir fotografias quase óbvias sobre a dicotomia e as desi 1 Disponível em httptabnetdatasusgovbrcgiidb2006folderhtm Acessado em 20 dez 2014 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 45 gualdades entre homens e mulheres No entanto cremos que construção social sobre o sexo é propriamente a definição de papel sexual conceito que antecede o debate sobre gê nero e contra o qual os estudos sobre gênero se construíram especialmente depois de Joan Scott 1988 quando definiu gênero em linhas gerais como institucionalização primária do poder Também autoresas como Gayle Rubin 1986 e suas lei turas sobre o sistema sexogênero contribuíram sobremaneira para a expansão desse conceito Mais recentemente a divulga ção das leituras de Thomas Laqueur 1990 sobre a constru ção social do sexo resultou em um inevitável de nosso ponto de vista deslocamento em relação à conceitualização original de gênero Ou seja essas produções nos levaram a uma leitu ra sobre o sexo também como construção social baseada em uma diferenciação fabricada entre o masculino e o feminino entre os homens e as mulheres uma diferenciação estratégica e politicamente útil Costa 1995 Felizmente como bem nos adverte Scott 1988 nossas vidas são mais criativas do que nos oferecem nossas categorias de análises e nossas categorias políticas especialmente as que se baseiam em identidades Assim falar decom os homens é muito importante e necessário desde que reconheçamos a categoria homem como uma produção política ou nas palavras de Gayatri Spivak 1987 um essencialismo estratégico um sujeito fa bricado tendo em conta nossos interesses éticos e políticos com vistas a produzir transformações nas desigualdades de gênero Em síntese é necessário entender essa categoria homem sempre a como categoria política estratégica não como uma condi ção natural de existência 46 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO b como categoria situada portanto provisória precária e parcial Haraway 1991 c como uma construção que se desenvolve em níveis relacio nais pessoais mas também institucionais simbólicos e culturais Aliada a essa leitura crítica dos usos da categoria homem a perspectiva feminista de gênero de inspiração psicossocial adotada nesta pesquisa para pensar os homens e masculini dades tem por base as reflexões apresentadas por Lyra e Me drado 2008 Neste capítulo a saúde pública é compreendida como um campo de relações interpessoais e institucionais que se organizam em dispositivos e relações de poder e que marcam posições de sujeito e modos de ser de saber e de fazer orientadas por gênero Nessa perspectiva para produzirmos uma leitura feminista de gênero segundo esses autores é preciso romper com modelos explicativos que via de regra reafirmam a diferença e que nos permitem somente ex plicar como ou por que as coisas assim são mas que não apon tam contradições fissuras rupturas brechas frestas que nos permitam visualizar caminhos de transformação progressiva e efetiva Apostamos na necessidade de abrirmos espaço para novas construções teóricas que resgatem o caráter plural po lissêmico e crítico das leituras feministas Lyra e Medrado 2008 p 833 2 Sobre a produção das informações Esta pesquisa exploratória com amostragem por conve niência foi produzida a partir de entrevistas semiestrutura das com homens com idade a partir de 18 anos residentes na microrregião de Suape que atuavam na construção da Refina ria Abreu e Lima e na Petroquímica Pernambuco Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 47 O Complexo Industrial Portuário de Suape mais conhe cido como Complexo de Suape é um polo de desenvolvimen to do Brasil considerado um portoindústria com mais de 100 empresas em operação2 A presente pesquisa foi realizada nessa microrregião no canteiro de obras da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape dois empreendimentos de grande porte responsáveis pela criação do maior número de postos de trabalho na região que envolve os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca integrantes da Região Metropolitana de Recife Para este estudo foram acessadas no total 11 empresas Foi construído e testado um instrumento próprio com vistas a produzir informações sobre atitudes conhecimentos e práticas desses homens no que se refere a cuidados em saú de sexualidade vida reprodutiva e violência de gênero Esse instrumento foi produzido a partir dos seguintes instrumen tos já existentes adaptados à realidade local bem como aos objetivos da pesquisa 1 pesquisa internacional Men sexuality rights and self construction coordenada pelo International Reproduc tive Rights Research Action Group IRRRAG 19992003 Portela et al 2004 2 pesquisa multicêntrica nacional Homens nos Serviços pú blicos de saúde rompendo barreiras culturais institucio nais e individuais regiões Nordeste Sul e Sudeste coor denada pelo Instituto Papai 20052007 Lyra et al 2009 3 pesquisa multicêntrica nacional Masculinidades repre sentações e práticas de saúde coordenada pela Rede de Es tudos e Pesquisas em Psicologia Social REPPSO da Uni versidade Federal do Espírito Santo 20072009 Trindade et al 2011 2 Disponível em httpwwwsuapepegovbrinstitutionalinstitutionalphp 48 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO 4 pesquisa International men and gender equality survey Images coordenada pelo Instituto Promundo Ricardo et al 2009 Os critérios para participar dessa atividade foram se au todefinir como homem trabalhar em uma das empresas res ponsáveis pela construção da Refinaria Abreu e Lima eou Petroquímica Suape ter idade igual ou superior a 18 anos e expressar desejo de participar voluntariamente da pesquisa prontificandose a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido TCLE Foram excluídos os que 1 não se en quadravam nesse perfil 2 tinham algum comprometimento físico ou mental que impedia sua participação ou 3 não ex pressavam desejo de participar voluntariamente da pesquisa No total foram realizadas entrevistas estruturadas com 434 homens trabalhadores das empresas terceirizadas contu do foram validadas 421 entrevistas e 13 não o foram por apre sentarem falhas no processo de condução como informações incompletas ou inexistentes e ausência do TCLE O roteiro das entrevistas continha 85 questões sendo estas abertas e em sua maioria questões fechadas organizadas em um bloco ge ral com informações sociodemográficas e seis blocos temáti cos práticas de saúde e autocuidado álcool e outras drogas paternidade acompanhante paternidade licença violência vida sexual e reprodutiva O processo de condução das entrevistas desenvolveuse no interior da Refinaria especificamente nas áreas de lazer dos trabalhadores durante o horário destinado ao almoço Participaram do processo 24 pesquisadoresas previamente selecionadosas e capacitadosas3 Os entrevistados foram in formados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram o TCLE 3 Osas pesquisadoresas foram selecionadosas a partir de convocatória tendo como principal critério ser estudantes de graduação ou pósgraduação com experiência em pesquisas sobre gênero eou com essa abordagem metodológica Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 49 As questões contidas no instrumento foram lidas pelosas pesquisadoresas assinalando a opção correspondente às res postas dadas e no caso das questões abertas foi anotada a fala proferida pelo entrevistado em sua íntegra Quanto aos cuidados éticos esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Pernambuco UFPE e segue as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde Resolução no 1961996 De todo modo é impor tante informar que esta pesquisa está assumindo três estraté gias com vistas a garantir um maior respeito em relação aos entrevistados conforme Mary Jane Spink 2000 consideran Tabela 1 Quantitativo de entrevistas realizadas por empresa Empresa Quantidade de trabalhadores Entrevistas realizadas Consórcio Alusa CBM 1259 15 Alusa Cafor 2000 27 Consórcio Camargo Corrêa CNEC CCN 5618 73 Consórcio Conduto Egesa Coeg 1505 19 Consórcio Rnest Conest 9500 122 Consórcio EITEngevix 1400 18 Consórcio ETDI EgesaTKK Engenharia 1500 21 Galvão Engenharia 1475 20 Tomé Engenharia 1982 26 EBE Alusa 673 9 Consórcio Ipojuca Interligações 6691 84 Total 34338 434 Foram validadas 421 entrevistas 50 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO do implicações e cuidados éticos que pretendemos desenvol ver na condução das entrevistas consentimento livre e esclarecido que consiste na solicitação aosàs informantes e às instituições de um consentimento por escrito de que elesas se dispõem a colaborar com o es tudo e autorizam o uso do material discursivo e documen tal produzido durante a pesquisa ou fornecido por elesas Esse acordo selado é obviamente passível de ser revisto durante o desenvolvimento da pesquisa é um direito que assiste aos informantes anonimato mesmo obtendo por parte dosas informan tes autorização para uso e referência aos relatos e opiniões isso não isenta a necessidade de manter em sigilo a identifi cação dosas participantes resguardo das relações de poder abusivo consiste em uma rela ção de confiança entre pesquisadora e participantes consi derando que não há nem deve haver relações hierárquicas nem abuso de poder dos pesquisadoresas no trato com osas informantes ou seja que oa pesquisadora não se deixe levar pela curiosidade pessoal respeitando inclusive o direito de não resposta por parte doa entrevistadoa 3 Alguns resultados As respostas produzidas foram tabuladas em programa estatístico específico para pesquisa em ciências sociais SPSS versão 18 As questões abertas foram compiladas como apre sentadas pelos entrevistados e posteriormente alocadas em categorias construídas em discussão coletiva entre osas pesquisadoresas envolvidosas Foi empreendido então um exaustivo processo de recodificação além de correção de erros como equívocos de digitação e alteração no sistema de Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 51 codificação de respostas Posteriormente foram geradas fre quências simples e alguns cruzamentos Organizamos assim a análise em quatro grandes eixos temáticos 1 caracterização da amostra 2 práticas de saú de prevenção e autocuidado 3 paternidade e cuidado e 4 violência 31 Caracterização da amostra Do total de 421 trabalhadores entrevistados quatro ti nham 18 anos idade mínima e apenas um tinha 66 anos ida de máxima A média registrada foi de 33 anos sendo 28 anos a idade mais frequente moda e a faixa etária mais frequente entre 20 e 30 anos correspondente a 466 da amostra Quanto à cidade de origem ou seja onde nasceram observamos uma diversidade de referências incluindo além de Cabo 13 Ipojuca 3 outras cidades da Região Metro politana 23 mas também outras cidades de Pernambuco 26 outros estados da região Nordeste 25 e de outras re giões 10 Do total 50 disse morar na ocasião da pesquisa entre Cabo 38 e Ipojuca 12 e 50 em outra cidade da Região Metropolitana de Recife especialmente Jaboatão dos Guararapes Recife e Escada A maior parte dos trabalhadores apresenta como local de morada residência própria 44 e residência alugada 28 evidenciando que apesar de a maio ria ter vindo de outras cidades na época eles encontravamse instalados próximos a Suape Com relação à escolaridade a maior parte dos entrevista dos tem ensino médio completo 513 e não realizou cur so técnico 703 Quando questionados sobre sua corraça responderam ser parda 378 branca 271 preta 181 amarelaoriental 21 indígena 14 e não sabenão res pondeu 23 Entre os homens que marcaram a opção outra 112 destacase a nomeação moreno e suas de 52 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO rivações moreno claro moreno escuro etc Seguindo orien tações do IBGE ao somarmos os pardos e pretos temos um percentual de 559 de entrevistados autodeclarados na cate goria negros Quanto ao estado conjugal a maior parte dos homens encontravase casada 451 enquanto alguns nunca haviam sido casados 29 e viviam com companheiroa 204 Apenas 304 afirmaram frequentar alguma religião dos quais 561 disseram estar vinculados à Igreja Católica e 395 à Igreja Evangélica especialmente à Assembleia de Deus Quanto à ocupação profissional predominou entre os entrevistados a opção operário 632 com renda mensal mé dia de R 208495 sendo R 120000 a renda mais frequente dividida em média para três ou quatro pessoas 824 dos trabalhadores são os responsáveis pela renda principal de sua família Estavam trabalhando em Suape em sua maioria há pelo menos um ano na região 32 Práticas de saúde prevenção e autocuidado Nesse eixo temático focalizamos as respostas produzi das pelos entrevistados em relação a práticas de cuidado em saúde em geral e sobre sexualidade em particular De acordo com as respostas 748 dos homens entrevistados afirmaram ter procurado ajuda para cuidar da saúde no último ano Essa informação é importante tendo em vista que pelo menos do ponto de vista deles há demandas e procura de ajuda Quan to ao motivo para buscar ajuda houve uma diversidade de respostas entre elas 176 dos entrevistados apontaram os exames médicos 157 mencionaram dores 31 disseram ser motivados pela ocorrência de acidentes e 4 procuraram o serviço de saúde para realizar alguma cirurgia Os grupos mais frequentes que são acessados para dar suporte eou apoio psicossocial sendo buscados quando os Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 53 homens se sentem tristes frustrados eou despontados são amigosas 278 companheira 204 e parentes 223 Logo esses grupos podem ser importantes parceiros para uma intervenção integral à saúde dos homens Assistente social foi referido por 07 e profissional de saúde por apenas 02 dos entrevistados Ao perguntarmos diretamente sobre os serviços de saúde acessados em algum momento da vida para a prevenção eou recuperação dos agravos à saúde observamos que 494 dos entrevistados afirmaram que procuram médico particular as sim como 19 utilizam o serviço de saúde da empresa A gran de surpresa foi a terceira opção no que diz respeito ao acesso e uso da rede de saúde o posto de saúde atenção básica apare ce com 178 das respostas Essa informação se torna mais re levante quando contrastamos com os serviços de emergência que aparecem com 83 das respostas indicando que mesmo com acesso ao sistema privado de saúde boa parte desses ho mens acessam os serviços públicos de saúde Tabela 2 Respostas dos entrevistados à pergunta Quando você tem um problema de saúde a quem você recorre Resposta Percentual Médico particular 494 Serviço de saúde da empresa 190 Posto de saúde 178 Família 107 Serviço de emergência 83 Ninguém 17 Farmácia 12 Outro 12 Múltiplas opções de resposta 54 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Além disso ao serem questionados sobre as estratégias e os recursos utilizados para a prevenção de ISTs vimos que quanto à realização do teste de HIV 577 dos homens traba lhadores afirmaram nunca ter realizado tal testagem 238 afirmaram ter realizado o teste no último ano e 102 entre um e dois anos Essa alta frequência de homens que responde ram nunca ter realizado a testagem do HIV é uma informação importante principalmente para subsidiar e justificar estraté gias de prevenção ao HIVAids4 Com relação ao uso de camisinha 361 dos homens afir maram que sempre usam o preservativo em todas as suas re lações sexuais mas 337 responderam que nunca usam Essa frequência é alta principalmente quando associada aos 181 que utilizam às vezes o preservativo Tais informações são importantes na medida em que pelo menos 577 dos entre vistados desconhecem sua condição sorológica No que tange à prevenção 653 dos entrevistados afir maram que a camisinha serve para prevenir as DSTs e 29 afirmaram que serve para prevenir as DSTs e a gravidez in desejada também serve como método anticonceptivo Essa taxa de homens que sabem a funcionalidade do preservativo não se traduz em uma prática cotidiana de uso em suas re lações sexuais Essa informação é importante na medida em que o conhecimento aparentemente não está ligado a uma prática cotidiana de uso Quando perguntados sobre o local em que costumam ad quirir preservativos 482 dos entrevistados afirmaram ser a farmácia e 181 que têm acesso a esse insumo no posto de saúde 4 Outros documentos que ajudam na problematização desse quadro são os últimos bo letins epidemiológicos do Departamento de DSTAids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde que apontam as cidades da microrregião de Suape como as localidades onde a taxa de infecção pelo HIV está mais elevada no país Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 55 No que se refere aosàs parceirosas sexuais 347 afir maram já ter tido relações sexuais com uma profissional do sexo A grande maioria afirmou nunca ter feito sexo com um garoto de programa mas três homens afirmaram que já o fize ram Da mesma maneira a maioria dos entrevistados afirmou que nunca fez sexo com travestis mas 10 homens afirmaram que já se relacionaram sexualmente com travestis Quatro ho mens entrevistados afirmaram já terem forçado uma mulher a fazer sexo Em comparação nenhum homem afirmou ter for çado outro homem a fazer sexo com ele Há de se considerar essas informações como subnotificadas tendo em vista tabus que caracterizam essas temáticas Quando questionados sobre se concordavam ou não com certas afirmativas encontramos a seguinte distribuição 585 concordaram sim ou talvez que o homem precisa mais de sexo do que a mulher 784 afirmaram que teriam um amigo gay 929 responderam que discordam da afirmação de que o homem só deve procurar o serviço de saúde quando o pro blema for grave 629 discordaram de que é a mulher quem deve se cuidar para evitar a gravidez Por fim ao investigarmos a percepção dos homens tra balhadores no tocante aos serviços especializados para a saú de do homem observamos que 534 responderam que os serviços de saúde não estão bem preparados para atender os homens Essa informação é valiosa na medida em que es ses homens utilizam com uma frequência regular os serviços de saúde mas sentem que estes não estão preparados para atendêlos Em complemento quando questionados sobre a neces sidade de existência de serviços especializados para a saúde do homem 917 dos entrevistados responderam afirmativa 56 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO mente o que pode estar indicando que esses homens reconhe cem a necessidade de que suas demandas em saúde bem como questões específicas possam ser contempladas e respondidas pelos serviços públicos 33 Paternidade e cuidado Nesse eixo temático focalizamos as respostas dos entre vistados em relação à vida reprodutiva especialmente sobre paternidade e cuidado Para isso questionamos seus conheci mentos práticas e experiências Ressaltase que dos 421 tra balhadores entrevistados 271 65 afirmaram ser pais e 07 afirmou não saber responder a essa pergunta Assim os resultados apresentados nesse eixo temático referemse aos 271 trabalhadores que são pais Quanto ao número de filhosas a predominância foi de um 454 e doisduas filhosas 384 em que a maioria é filhoa biológicoa 952 672 dos trabalhadores afir maram que os filhos são da mesma mulher 225 tiveram fi lhos com mais de uma mulher e 10 só tiveram um filho Quando questionados se convivem com a família 756 responderam que convivem com a mãe de seusua últimoa filhoa 598 convivem com osas filhosas enquanto os outros 402 não convivem com osas filhosas por razões diversas conforme a Figura 2 Essas percentagens mostram que a maioria dos trabalhadores que são pais convive com seus filhos sendo uma informação importante visto que a convivência pode facilitar o contato eou aproximação com a prole Sobre a ajuda financeira aosàs filhosas que não convi vem com o entrevistado destacamse as respostas não sabe não respondeu 601 e ajuda frequentemente 251 Con sideramos que a percentagem foi alta para a resposta não Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 57 sabenão respondeu pois essa pergunta diz respeito aos pais que não convivem com seussuas filhosas e como foi apre sentando anteriormente 598 dos trabalhadores convivem com seus filhos Apenas 52 não ajudam financeiramente osas filhosas com quem não convivem logo a convivência não é um fator que prejudica esse tipo de ajuda Com relação aoà primeiroa filhoa quase metade dos pais 41 informou ter planejado a gravidez enquanto a outra metade 491 não planejou A média de idade do homem e da mulher quando tiveram oa primeiroa filhoa foi 22 e 21 anos respectivamente Nos homens a faixa etária mais frequente está entre 20 e 27 anos correspondendo a 55 da amostra enquanto nas mulheres está entre 16 e 24 anos 654 Assim podemos observar que as mulheres são mães mais novas do que os homens são pais Quanto à participação no parto entre os 271 trabalha dores que são pais apenas 165 dos homens participaram Figura 1 Número de entrevistados que responderam ter filhosas 07 3 Sim Não Não sabe 6506 271 3307 139 07 3 Sim Não Não sabe Sim Não Não sabe 58 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO do parto de algum de seussuas filhosas Os principais mo tivos da ausência foram o fato de estarem trabalhandovia jando a trabalho 317 visto que alguns homens que estão trabalhando em Suape moram atualmente em Cabo de Santo Agostinho 351 e Ipojuca 144 mas suas famílias conti nuam morando em suas cidades de origem Mas há também relatos de 122 dos pais que foram impedidos de participar do parto evidenciando o descumprimento da Lei do Acom panhante Lei no 111082005 que faculta à gestante o direi to de ter uma acompanhante de sua livre escolha durante o préparto parto e pósparto imediato No que diz respeito à participação do trabalhador em ou tras atividades relacionadas com os outros momentos do par to obtivemos as respostas explicitadas na Tabela 2 Figura 2 Distribuição percentual das respostas dosentrevistados em relação à coabitação com filhosas Sim sou separado e a guarda dos meus filhos está com a mãe deles Sim meus filhos estão com minha mulher que vive em outra cidade Sim meus filhos moram com outros parentes Sim outra resposta Sim meus filhos são casados Não meus filhos moram comigo Não sabe não respon deu 247 55 37 11 3 598 22 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 59 Tabela 2 Respostas dos entrevistados em relação à sua participação no prénatal préparto e pósparto de seusua filhoa Prénatal Préparto Pósparto Participou 609 339 664 Não participou 351 616 292 Não sabenão respondeu 41 45 45 A partir dessas informações podemos observar que apesar de a maioria dos homens não estar presente durante o parto eles participaram em algum momento de atividades que diz respeito a seus filhos seja acompanhando suas com panheiras aos exames de prénatal 609 seja estando com elas logo após o nascimento 664 Com relação ao conhecimento dos trabalhadores entre vistados sobre a Lei do Acompanhante quando questionados sobre a existência de alguma lei que garanta que os homens podem acompanhar suas companheiras durante o parto 368 afirmaram existir alguma lei 209 falaram que não existia e 423 disseram não saber Apesar de alguns trabalha dores afirmarem existir alguma lei nenhum soube responder corretamente sobre o conteúdo dela Essa informação eviden cia a importância da ampla divulgação da lei junto a esses ho mens de modo a fomentar a maior participação masculina nesse contexto Quanto ao conhecimento sobre a licençapaternidade a maior parte dos entrevistados 955 afirmou ter conheci mento sobre ela e 986 415 reconheceram a licençamater nidade como direito das mulheres Quanto à vigência em dias da referida licença o quantitativo de homens que respondeu 60 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO corretamente diminuiu 72 mencionaram cinco dias Os demais afirmaram ser entre três e sete dias Além de conhecerem seus direitos esses trabalhadores em sua maioria 649 também o fizeram valer usufruin do de sua licençapaternidade Em comparação em relação à licençamaternidade eles responderam que apenas 251 mu lheres a tiraram 683 dos entrevistados afirmaram que suas companheiras não tiraram a licença pois não trabalhavam Quando os trabalhadores foram questionados sobre o que fariam se tivessem um mês de licençapaternidade as res postas foram diversificadas como desde cuidar da criança até considerar a ampliação desse período como desnecessário Essas informações nos permitem observar uma diversida de de opiniões dos trabalhadores sobre a licençapaternidade que nos faz refletir sobre o estranhamento dos homens quan do são convocados à esfera privada esfera essa que julgam ser das mulheres visto que consideram sua participação como uma ajuda Além disso também há homens que afirmam que boicotariam essa inserção na esfera do cuidado pois mes mo com licença de seu trabalho eles arranjariam uma forma de retornar à esfera pública seja para se divertir no bar jogar futebol ir à praia etc seja arrumando algum serviço fora os chamados bicos Por fim sobre a afirmação homem sabe cuidar de crian ça pequena os trabalhadores responderam 525 concordo 266 discordo 20 talvez 09 não sabenão respondeu5 Mais da metade dos trabalhadores entrevistados 221 con sidera que homem sabe cuidar de criança pequena não pen sando no cuidado apenas como atividade das mulheres mas como atividade que podem desenvolver 5 Como se trata de uma questão de opinião essa resposta envolve os 421 trabalhadores entrevistados e não apenas os 271 que são pais Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 61 34 Violência No eixo temático sobre violência buscamos identificar aspectos da relação entre masculinidades e violência de gê nero junto aos entrevistados Ao identificar se esses homens estiveram envolvidos em situações de violência 93 estive ram envolvidos em brigas armados faca ou outra arma ao menos uma vez e 43 destes estiveram envolvidos mais de uma vez 74 afirmaram que já agrediram fisicamente uma mulher e quatro homens afirmam já ter forçado uma mulher a fazer sexo com eles nenhum dos homens afirma ter forçado um homem a fazer sexo com eles quatro homens dizem ter sofrido alguma incapacidade física decorrente de episódio de violência Tabela 4 Respostas dos entrevistados em relação às possibilidades durante o período de licençapaternidade ampliado Respostas Percentagem Ajudar a companheira a cuidar da criança 328 Acompanhar parceira e criança família 235 Cuidar da criança 138 Ajudar a esposa em casa atividades domésticas 97 Não sabenão respondeu 95 Descansar ou se divertir 38 Tempo desnecessário 19 Prejudica a relação com o trabalho 17 Cuidar da documentação 14 Trabalhar para ter renda extra 12 Outros 07 Total 100 62 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO A partir das informações produzidas chamounos a atenção o número relativamente alto 10 dos homens que relataram já terem sido presosdetidos conduzidos a uma delegacia por alguma prática violenta Outro aspecto que en fatizamos diz respeito ao percentual de homens que afirma ram já terem se envolvido em brigas com uso de algum tipo de arma inclusive aqueles 43 que se envolveram em tais episódios mais de uma vez Ressaltamos a percentagem de homens que admitiram ter agredido fisicamente uma mulher 74 bem como aque les mesmo em uma quantidade pouco expressiva que afirma ram ter forçado uma mulher a fazer sexo com eles No tocante aos motivos que estão relacionados com a violência física esta aparece como consequência ou efeito de brigas com mulheres de suas relações afetivas que os ho mens denominam brigas conjugais de casal de família domésticas e familiares O ciúme também é citado como um dos motivos principais que levam à agressão física sendo mencionado por oito dos 30 homens que disseram já ter agre dido Chamanos a atenção também entre os motivos apre sentados a justificativa da agressão física como um revide de uma agressão anterior proferida pela mulher o que apare ce nestes termos ela agrediu primeiro ela deu um tapa na cara dele e levou um tapa e descontou Considerando que a violência de gênero é ainda um tema velado sobre o qual não se fala muito e que felizmen te em virtude da implementação da Lei no 11340 Lei Maria da Penha tem se ampliado a vigilância social sobre tais possíveis práticas criminosas surpreende sobremaneira o número de homens que relatam esse tipo de prática Mais nos preocupa o fato de que esses números são possivelmen te subnotificados Vale ressaltar que 983 dos homens entrevistados afir mam saber da existência de uma lei específica no Brasil sobre Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 63 violência contra a mulher Do total 945 sabem o nome da lei É significativo o número de homens que afirma ter algum conhecimento acerca da legislação nacional sobre violência contra as mulheres Quanto à reação das mulheres que foram agredidas pelos homens entrevistados podemos destacar que 13 das 31 mu lheres revidaram a agressão sofrida Sobre esse aspecto na ca tegoria outras apareceram respostas como ameaçou pro curar a polícia e foi embora para a delegacia o que aponta para uma possibilidade de denúncia Ressaltamos por fim que quatro homens afirmaram que a mulher agredida não teve nenhuma reação o que nos faz questionar o significado dessa suposta não reação diante da violência sofrida Por fim impressiona o quantitativo de homens 15 que concorda sim ou talvez que há momentos em que as mulhe res merecem apanhar 4 Algumas considerações Vale ressaltar que no desenho desta etapa da pesquisa não tivemos a intenção de constituir uma leitura generalizante tomando por base a opinião da população estudada Reco nhecemos que a produção de instrumentos de pesquisas é dia lógica portanto coconstruída com osas pesquisadoresas Nesse sentido adotamos o rigor metodológico como explici tação de procedimentos e escolhas negociadas e justificadas Spink e Menegon 1999 legitimadas a partir de parâmetros usuais em pesquisas epidemiológicas Compreendemos que as informações ora apresentadas podem contribuir para o delineamento metodológico de ou tras pesquisas como também subsidiar iniciativas de planeja mento monitoramento e avaliação de políticas públicas bem 64 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO como o próprio controle social desenvolvido pelos movimen tos sociais organizados Assim dada a escassez de informações qualificadas so bre homens gênero e saúde especialmente mas não apenas nessa região e o rigor metodológico empregado nesta pes quisa as informações aqui apresentadas constituemse rele vantes para discussões e potenciais mudanças no contexto da produção de conhecimento e elaboraçãoavaliação de polí ticas públicas no contexto da atenção integral à saúde dos homens Certamente as análises aqui apresentadas não dão con ta da complexidade quantidade e diversidade de informações produzidas Sua apresentação neste livro tem sobretudo a intenção de compartilhálas de modo que possam ser úteis a diferentes interpretações e usos Contudo em linhas gerais é evidente a diversidade de experiências e relatos que consti tuem esse cenário o que remete à necessidade de elaboração de políticas públicas que sejam mais flexíveis de modo a dar conta dessa diversidade em consonância com princípios do Sistema Único de Saúde SUS que valorizem a abordagem singular Referências COSTA J F A face e o verso estudos sobre o homoerotismo II São Paulo Escuta 1995 HARAWAY D Situated knowledges the science question in feminism and the privilege of partial perspective In HARAWAY D Ed Symians cyborgs and women the reinvention of nature Nova York Routledge 1991 p 183202 IZQUIERDO M J Uso y abuso del concepto de género In VILANOVA M Org Pensar las diferencias Barcelona Promociones y Publicaciones Universitárias 1992 p 3153 Dialogando com homens trabalhadores de Suape Benedito Medrado et al 65 LAQUEUR T Making sex body and gender from the Greeks to Freud Cambridge MA Harvard University Press 1990 LYRA J MEDRADO B Gênero homens e masculinidades percursos pe los campos da pesquisa e da ação em defesa de direitos In BERNARDES J MEDRADO B Org Psicologia social e políticas de existência fronteiras e conflitos Maceió Abrapso 2009 p 139150 Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades Revista Estudos Feministas Florianópolis v 16 n 3 dez 2008 PORTELA A P MEDRADO B SOUZA C de M NASCIMENTO P DINIZ S Homens sexualidades direitos e construção da pessoa Recife SOS CorpoInstituto Papai 2004 144 p RICARDO C SEGUNDO M NASCIMENTO M Experiências e atitudes de homens e mulheres relacionados com equidade de gênero e saúde resultados preliminares de uma pesquisa domiciliar realizada no Rio de Janeiro Bra sil Rio de Janeiro Promundo 2009 RUBIN G El tráfico de mujeres notas sobre la economía política del sexo Nueva Antropología México v VIII n 30 p 95145 1986 BUTLER J Tráfico sexual entrevista Cadernos Pagu Campinas n 21 2003 Disponível em httpwwwscielobrscielophpscriptsci arttextpidS010483332003000200008lngennrmiso Acesso em 20 dez 2014 SCOTT J W Gender and the politics of history Nova York Columbia Univer sity Press 1988 p 2850 Obra consultada Gênero uma categoria útil para análise histórica Educação Realidade Porto Alegre v 20 n 2 p 7199 1995 SPINK M J A ética na pesquisa social da perspectiva prescritiva à intera nimação dialógica Revista Semestral da Faculdade de Psicologia da PUCRS v 31 n 1 p 722 janjul 2000 66 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO MENEGON V A pesquisa como prática discursiva In SPINK M J Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 1999 p 6392 SPIVAK G In other worlds essays in Cultural Politics Nova York Methuen 1987 TRINDADE Z MENANDRO M C NASCIMENTO C R R Org Mas culinidades e práticas de saúde Vitória GM 2011 Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro1 Sirley Vieira da Silva 1 Introdução Tenho por objetivo neste texto mostrar como a iden tidade de homens trabalhadores migratórios comporta um conjunto de normas e regras que vão sendo incorporadas na prática e vivência desses sujeitos e fundamentam um estilo de vida para esse grupo que os leva a incorporar o risco como parte indissociável de suas vivências tanto dentro quanto fora do trabalho A abordagem utilizada é qualitativa e de base etnográfica Os sujeitos da pesquisa são homens que circulam por vários estados do Brasil trabalhando em obras que denominam tre cho vivendo a rodar por várias regiões por força do traba lho que exercem Nessa situação esses homens muitas vezes ficam residindo em alojamentos ou dividem casas alugadas com outros trabalhadores na mesma situação O estilo de vida deles simbolicamente compõe um ethos de identidade que une três símbolos trabalho tempo e deslo camento Identificamse como trabalhadores migratórios pela denominação pião trecheiro Vivem aventuras nas cidades onde trabalham e lidam com vários riscos que fazem parte da vida de um pião rodado pois como revelado por um deles o pião roda para se manter em pé 1 Este texto é um recorte da dissertação Pião trecheiro trabalho sexualidade e risco no cotidiano de homens em situação de alojamento em Suape PE 68 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO 2 Metodologia A metodologia utilizada para realizar a pesquisa com os homens trabalhadores migratórios constou de observação participante e entrevista semiestruturada Utilizei a observação participante da forma mais próxima como foi preconizada por Malinowski 1976 ou seja tentei seguir as três regras sugeridas por esse autor que são guiarse por objetivos verdadeiramente científicos e conhecer as nor mas e critérios da etnografia moderna providenciar boas con dições para o trabalho inclusive viver efetivamente entre os nativos e recorrer a certos números de métodos especiais de recolher informações diário de campo mapas etc Porém o tempo previsto para a realização da pesquisa além de outras questões que me acometeram2 não me pos sibilitou utilizar a observação participante na forma clássica Optei então por usar dois métodos de registro e coleta de in formações mais próximos ao que desejava adaptando a forma clássica da observação participante no item viver efetivamente entre os nativos Contudo visitei regularmente a região como também dormi alguns dias na localidade Para realizar a leitura do cotidiano desses sujeitos em seus diversos espaços de interação adotei metaforicamente o con ceito de moldura do teatro esta construída a partir de uma per formance Goffman 1986 Nessa perspectiva criase imagina riamente uma linha divisória separando o palco da plateia e aquilo que acontece no palco conforme Goffman 1986 p 124155 é algo que pode ser visto por todos os lados e em toda a sua extensão sem ofensa Assim a performance é uma maneira específica de articular a interpretação sobre o que ocorre e foi utilizada como modelo de compreensão social 2 Questões de saúde me obrigaram a ficar afastado durante alguns meses das ativida des do campo Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 69 Para acessar o local de trabalho desses sujeitos solicitei autorização para acompanhar as atividades desenvolvidas pela organização não governamental ONG Instituto Papai na obra da refinaria Essa instituição é uma das organizações parceiras da Universidade Federal de Pernambuco UFPE no projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Outra opção metodológica adotada foi a realização de entrevistas semiestruturadas Optei também por esse modelo por entender que facilita a apreensão de dados objetivos e sub jetivos dos sujeitos da pesquisa Minayo 2010 Realizar as entrevistas não foi uma tarefa tão fácil Por várias questões ligadas à aproximação com os sujeitos da pes quisa a relação de confiança foi sendo construída com len tidão Para conseguir entrevistar esses trabalhadores foram necessárias várias tentativas e persistência Na verdade o processo de entrevista só avançou quando me tornei amigo de Toni3 que é um dos trabalhadores de Su ape que residem na comunidade de Gaibu Expliquei a ele a pesquisa e ele se mostrou bem disponível para ajudar Com a referência de ser amigo de um trabalhador nas mesmas con dições dos alojados os outros trabalhadores alojados me aco lheram de forma diferente Depois disso realizar as entrevis tas ficou mais fácil 3 Os sujeitos da pesquisa Tive a oportunidade de dialogar e conviver diretamente com mais de 60 homens sem contar a interação com os vários operários nas visitas que realizei nas empresas Em comum todos residiam em alojamentos ou em casas alugadas pelas empresas situação também considerada uma condição de 3 Os nomes foram trocados para manter o sigilo e o anonimato dos entrevistados 70 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO alojamento e eram oriundos de outras regiões outro estado ou cidades do interior de Pernambuco Entre todos os homens com quem tive a oportunidade de dialogar para realizar a pesquisa seis foram entrevistados em profundidade com roteiro préelaborado É importante destacar que ao mencionar esses seis trabalhadores todos são citados por nomes fictícios Os outros com os quais dialoguei quando citados faço apenas a referência ao lugar que ocupam na cena por exemplo trabalhador vindo do interior de Per nambuco amigo de jovem trabalhador da cidade tal etc Dos entrevistados listo uma breve descrição que servirá para dar uma ideia das diversas regiões de onde vieram assim como da diversidade cultural que representam Nome Características Toni 48 anos da cidade de Ca xiasRJ Função na obra Encarre gado de equipe Branco residiu por quase dois anos em um alojamento em Gaibu4 está no se gundo casamento pai de dois filhos já adultos Miro 46 anos da cidade São LuísMA Função na obra Encar regado de equipe Pardo divide o alojamento com outros três trabalhadores pai de três filhos Joel 35 anos da cidade de Gua dalupePI Função na obra Me cânico montador Branco divide o alojamento com outros três companheiros pai de uma filha Diniz 47 anos carioca da ci dade de NiteróiRJ Função na obra Instrutor de solda Preto divide o alojamento com outros três trabalhadores pai de quatro filhos todos de relacionamentos diferentes Gael 33 anos da cidade de São LuísMA Função na obra Soldador Pardo divide o alojamento com outros três companheiros é noivo não tem fi lhos 4 Há cerca de seis meses conseguiu trazer a esposa para morar com ele em uma casa alu gada na mesma localidade mas isso na perspectiva da empresa também é considerado uma situação de alojamento Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 71 Breno 24 anos da cidade de AracajuSE Função na obra Mecânico industrial Pardo formado em geografia com pós graduação em meio ambiente divide o alojamento com outros três trabalhadores um deles é pai de sua noiva não tem filhos 4 A região e o contexto local O Cabo de Santo Agostinho é uma das cidades ao sul da Região Metropolitana do Recife RMR e faz parte da subre gião de Suape Tem praias belíssimas natureza exuberante e seu marco de origem de acordo com Galvão 1863 apud Bra sil 1970 está no ano 1560 quando foi instituído o Morga do5 de Nossa Senhora da Madre de Deus do Cabo de Santo Agostinho vinculando o Engenho Madre de Deus depois chamado de Engenho Velho Posteriormente em 1618 foi criado o povoado de Vila de Nazaré onde grande parte das construções ficou concentrada no ponto mais alto da cidade Essa foi uma das primeiras regiões a serem povoadas no Brasil tendo como principal economia até bem pouco tem po a monocultura da canadeaçúcar O município do Cabo como popularmente é chamado segundo o Instituto Brasilei ro de Geografia e Estatística IBGE tinha em 1991 população de 127036 habitantes Porém entre 1991 e 2010 constatase um crescimento superior a 31 em menos de duas décadas o que significa aproximadamente 163 de crescimento ao ano Mas se tomarmos por comparação o crescimento verifi cado entre 2007 e 2010 calculamse 12 de crescimento em um período de apenas três anos ou algo em torno dos 4 ao ano Ou seja nos últimos anos o ritmo de crescimento popu lacional da região foi bastante acelerado 5 Forma de organização familiar que cria uma linhagem bem como um código para designar seus sucessores estatutos e comportamentos 72 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Os investimentos em Suape ao longo das décadas trans formaram a realidade social dos moradores dessas áreas Um dos grandes responsáveis pelas mudanças no perfil socioeco nômico da região foi a instalação do Complexo Portuário e Industrial de Suape Esse investimento ao longo das décadas atraiu muitas empresas para essa localidade e consequente mente aumentou a oferta de emprego o que atraiu muitos trabalhadores de todas as regiões do Brasil Os investimentos econômicos nessa área têm seus pri mórdios pensados ainda no período do regime militar duran te a década de 1960 Foi já nesse período que o município do Cabo de Santo Agostinho passou a receber altos investimen tos públicos por meio da Superintendência do Desenvolvi mento do Nordeste Sudene Na década seguinte em 1970 foi realizado o Plano Dire tor para implantação do complexo e o lançamento da pedra fundamental do Porto de Suape Como parte desse processo foram desapropriados 135 mil hectares de terra para dar iní cio às obras de infraestrutura e outras necessárias ao funcio namento do porto Na década de 1980 o porto começou a operar efetiva mente Um episódio trágico contribuiu para impulsionar esse investimento no ano 19856 ocorreu um grande incêndio em um navio de combustível no porto do Recife A proporção do incêndio foi tão grande que colocou em risco grande parte do bairro do Recife Antigo Felizmente o incêndio foi controla do mas isso fez com que o governo de Pernambuco após o episódio ordenasse a transferência de todas as empresas de combustíveis instaladas no porto do Recife para o porto do Suape 6 Para mais detalhes sobre esse incêndio acessar httpbasiliofundajgovbrpesqui saescolarindexphpoptioncomcontenteviewarticleeid209eItemid193 Acesso em 23 ago 2012 Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 73 Após a virada do século XX foi construído na região o estaleiro Atlântico Sul e lançada a pedra fundamental da Re finaria General José Ignácio Abreu e Lima popularmente co nhecida por Refinaria Abreu e Lima Muito do que foi realizado fez com que o índice de de senvolvimento humano IDH de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Pnud7 consi derando o período de 1991 a 2000 passasse de 0630 para 0707 Pnud 2003 Porém se consideramos o ano 2010 constatouse a redução desse índice para 0686 Pnud 2010 O Complexo Portuário e Industrial de Suape está situa do a 40 quilômetros do Recife Segundo dados do Governo Federal de 2007 a 2010 foram investidos nessa região cer ca de 17 bilhões de dólares aplicados em especial na imple mentação de empreendimentos estruturadores que geraram cerca de 15 mil novos empregos e outros 45 mil só na cons trução civil8 Como esperado os investimentos promoveram muitas mudanças econômicas e sociais como o aumento da oferta de emprego e o surgimento de novas funções que poderiam ser desempenhadas por moradores locais A população local pas sou a ver aí uma grande oportunidade de conseguir empregos principalmente na construção civil por causa da instalação da obra da refinaria O governo de Pernambuco criou programas de qualifica ção profissional para moradores da região com o intuito de formar mão de obra qualificada e preencher as novas vagas de emprego oferecidas Porém a demanda de oferta de empregos era maior que a quantidade de mão de obra formada nesses 7 Disponível em httpwwwpnudorgbratlasrankingIDHM2091200020 Ranking20decrescente20pelos20dados20de202000htm Acesso em 22 jul 2012 8 Disponível em httpwwwsuapepegovbrinstitutionalhistoricphp Acesso em 20 jul 2012 74 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO cursos Somandose a isso havia a necessidade de trabalha dores experientes para desenvolver funções específicas e ne cessárias em uma obra de tamanho porte com características peculiares exigindo especificidades para a instalação de uma refinaria de petróleo Todos esses fatores fizeram com que as empresas respon sáveis pela obra buscassem muitos trabalhadores de outras regiões do Brasil com experiência comprovada formados em outros estados cuja maioria tinha histórico de vivência em grandes obras já havia circulado por várias regiões do país ou até fora dele Vieram então para Suape operários de várias regiões brasileiras com qualificação tão diversificada quanto suas idades e cargas culturais 5 Os homens das firmas e as residências temporárias Segundo informações das empresas responsáveis pelas obras de Suape as idades dos trabalhadores vindos de outras regiões variam entre 18 a 68 anos mas a grande maioria está entre 24 e 40 anos9 Uma característica dessa migração é que com exceção de trabalhadoresas da parte administrativa os operários vindos de fora de Pernambuco são todos homens e grande parte de les fica instalada em alojamentos eou repúblicas mantidos pela empresa contratante De acordo com informações das empresas estimase um quantitativo de mais de 12 mil homens instalados em alo jamentos o que pode significar cerca de 30 do efetivo de pessoas que trabalham na obra da construção da refinaria A maioria dos alojamentos foi instalada em regiões litorâneas 9 Fonte Empresas terceirizadas da Refinaria Abreu e Lima Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 75 do Cabo de Santo Agostinho como também no município de Ipojuca Também houve alojamentos nas áreas próximas ao centro dessas cidades As empresas que têm os maiores quadros de pessoal aci ma de 5 mil operários têm alojamentos próprios enquanto as outras com menor contingente optaram por alugar pré dios inteiros ou casas que funcionam como repúblicas de homens Outra opção adotada pelas empresas foi a locação de pousadas ou alojamentos adaptados galerias de lojas por exemplo para que esses trabalhadores fossem instalados 6 Complexo de questões com a chegada dos homens das firmas A presença desses homens trabalhadores das firmas10 nas comunidades transformou a dinâmica dessas cidades sob o ponto de vista econômico e social11 Várias foram as ques tões que surgiram a partir da chegada desses sujeitos Alguns dos problemas apontados dizem respeito a gra videzes de mulheres locais pelos homens trabalhadores das firmas12 sem que estes reconhecessem a paternidade o que fez com que crescesse13 o número de ações judiciais para pa gamento de pensão alimentícia após ações de investigação de paternidade movidas por mulheres da região contra trabalha dores das obras Outra problemática que também envolve a chegada dos homens das firmas alardeada também em 10 Essa é a forma como as pessoas que residem na região se referem aos trabalhadores 11 Violência se espalha rapidamente pelo Litoral Sul Jornal do Commercio 3 dez 2011 Disponível em httpwwwolddiariodepernambucocombrassinantesacesso dpasp Acessado em 15 set 2012 12 Ver a reportagem Filhos de Suape Diário de Pernambuco 813 maio 2012 13 Segundo informações das firmas responsáveis pela obra da refinaria 76 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO reportagens referese a denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes Além das questões referidas destaco o registro do aumen to de casos de doenças sexualmente transmissíveis DSTs e Aids na região De acordo com o Boletim epidemiológico Aids e DST 2011 das cidades do Nordeste o Cabo de Santo Agosti nho e Ipojuca aparecem entre as regiões de maior incidência de casos de Aids notificados Figurando respectivamente com taxas de 379 Cabo de Santo Agostinho e 377 Ipojuca por grupo de 100 mil habitantes no Brasil esses municípios fica ram atrás apenas da cidade de São LuísMA que apresentou taxa de 405 por grupo de 100 mil habitantes Em 2000 o Boletim epidemiológico registrava para essas ci dades taxas de 144 Cabo de Santo Agostinho e 34 Ipojuca por grupo de 100 habitantes Isso fornece indicativos de que a problemática pode ter relação direta com o aumento da po pulação na região que foi impulsionado pelas obras e investi mentos em Suape Há mais questões que envolvem esse complexo de pos sibilidades como o aumento dos casos de violência inclusi ve homicídios na região Por exemplo de acordo com dados do Mapa da Violência 2012 se considerarmos os anos 2008 a 2010 a cidade do Cabo de Santo Agostinho apresentou taxa média de homicídios de 777 por grupo de 100 mil habitan tes a terceira maior taxa de homicídios de Pernambuco O município de Ipojuca aparece no mapa com a taxa de 638 por grupo de 100 mil habitantes sendo apontado no ranking do estado como o oitavo município mais violento Ou seja os dois principais municípios da região em relação ao Comple xo de Suape estão entre as 10 cidades com maiores taxas de homicídios de Pernambuco Os dados revelam uma faceta triste da dinâmica que se instaurou nessa região intensificada com a chegada dos ho mens trabalhadores de outros estados Essas questões envol Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 77 vem aspectos relacionados com as questões de saúde e mas culinidades tendo como foco as questões da interação social como também aspectos do exercício da sexualidade masculi na que perpassam a formulação da identidade desses traba lhadores migratórios 7 Pião trecheiro uma identidade social Diz Ribeiro 2000 que em relação a deslocamento o mercado de trabalho de circuitos migratórios das grandes obras exige trabalhadores especializados e em geral os mi grantes recémingressos no mercado de trabalho entram nas posições inferiores Para Sarti 2005 p 88 a identidade masculina na fa mília e fora dela associase diretamente ao valor do trabalho O trabalho seria mais que um instrumento da sobrevivência material para os homens pois constitui o substrato da iden tidade masculina forjando um jeito de ser homem Partindo de uma perspectiva relacional de gênero po demos refletir que as pessoas carregam ideias sobre o tipo de trabalho aos quais corpos masculinos ou femininos mais se adaptam ou que devempodem exercer Isso reflete a maneira como geralmente as pessoas diferenciam as atribuições mas culinas e femininas em nossa sociedade demonstrando desi gualdades que implicam questões de gênero e poder Santana 2010 Podemse perceber todas essas questões ao dialogar com esses homens que trabalham em Suape pois nos diálogos dos trabalhadores sempre aparecerem referências como o traba lho é essencial ou sem trabalho o homem não é nada Pelo exercício do trabalho assalariado e pela especificida de da vida que levam exigências de longas viagens enfrenta mento de situações de perigo convivência com outras cultu 78 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO ras etc as especificidades da profissão fornecem a ideia da identidade social do grupo Eckert 1995 Ribeiro 2000 No entendimento da comunidade local esses homens são referidos como os homens das firmas ou peões de obra Porém ao conviver com esse grupo de trabalhadores que re sidem em alojamento percebi que há uma diferença crucial entre ser peão de obra e ser pião trecheiro como eles se autoproclamam Isso aponta para características peculiares de um estilo de vida que afirma as vivências desses sujeitos e os interligam a símbolos que estruturam um ethos coletivo Embora trate de contexto diferente Eckert 1995 p 166 em pesquisa realizada com grupos de homens trabalhadores de minas de carvão ao tecer referências à natureza de traba lho desses operários da mina afirma que questões vivenciadas no cotidiano desses sujeitos fundamentam elementos que es truturam a construção da identidade social do grupo Com o grupo de piões de trecho também se identificam elemen tos elencados como características próprias da profissão Estes remetem a ideias de força aventura coragem sacrifício entre outros atributos que compõem simbolicamente a identidade social desses operários e conferem uma ideia de grupo seleto A curiosidade sobre o que significava ser um pião tre cheiro me fez sondar essa especificidade e em pouco tempo pelas respostas que recebi percebi que essa denominação in dica uma identidade composta entre outras coisas pela dico tomia fazer parte e não fazer parte do lugar Entre os indicativos do que considero fazer parte destaco os trabalhadores residem em alojamento na região por lon go tempo participam ativamente da vida cotidiana da comunidade local interferem na influenciam e sofrem a influência da dinâmi ca local Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 79 criam relações de amizade e interagem com moradores locais Essas questões enfatizam como esses homens se fazem presentes na localidade e demonstram sua relação com a di nâmica local pelas características que os fazem fazer parte do contexto da região Contudo há elementos presentes nessa relação que os mantêm deslocados do lugar não sendo eles vistos como membros da comunidade Esses elementos refle tem o que chamo de não fazer parte Vejamos alguns indicativos do que considero não fazer parte os alojados não se identificam como moradores locais não são identificados como moradores locais pelas pessoas que residem na região referemse ao lugar deles como o lugar onde reside a família os relacionamentos amorosos que desenvolvem na região são geralmente referidos como temporários sem compro misso emocional assumem como característica da profissão não se prender a um lugar por muito tempo Os trabalhadores alojados deixam claro que sua relação com o lugar é fluida e passageira Residir na localidade para a maioria não é uma escolha permanente mas uma necessida de uma condição transitória que é uma característica da pro fissão deles Percebese essa especificidade na referência que esses sujeitos fazem à profissão que exercem Terminou o trabalho aqui já vou procurar outro Todo mun do tá já pensando em outro trabalho o pião não escolhe um lugar Ele não tem um lugar permanente Ele tá aqui um tempo tá ali por mais um tempo Não nos fixamos num lugar Diniz 47 anos da cidade de PetrópolisRJ 80 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Em si pião trecheiro não é uma profissão de registro na carteira de trabalho Na verdade eles são registrados como soldadores mecânicos industriais pedreiros encanadores in dustriais etc Porém na prática são identificados e eles pró prios se identificam pela expressão pião trecheiro Eu pensava logo no início que a denominação correta era peão e não pião Na minha cabeça essa designação era uma ligação direta com o peão de obra como são denomi nadas as pessoas que trabalham em obras da construção ci vil Intrigado sobre a diferenciação linguística entre peão e pião resolvi nas conversas com esses trabalhadores enfati zar a palavra peão forçando o som do e Acontecia que em todas as vezes que me referia a eles como peão enfatizando o e me corrigiam dizendo Sou pião trecheiro Não entendi logo o porquê da correção e até achava ser apenas a questão da diferença do sotaque provoca da por mim Um dia perguntei diretamente o motivo de en fatizarem sempre que eram peões trecheiros Recebi como resposta a afirmação Por que você diz peão Não é peão É pião Pião trecheiro Foi aí que compreendi que havia uma diferença essencial entre o peão e o pião Ao investigar melhor essa questão percebi que a junção dessas palavras pião e trecho é uma analogia que une três atributos valorizados por eles Além disso a denominação pião trecheiro comporta certas experiências vividas pelos operários Só depois de muitas conversas e observações che guei a esse entendimento do que seria pião trecheiro Mas para explicar melhor fazse necessário entender o que vem a ser trecho na compreensão desses homens Metaforicamente eles assemelham a palavra trecho a obras instaladas em determinada região Trecho pode se referir também a um período de tempo período em que os homens trabalham em uma região onde a obra está sen do realizada Ao se deslocarem para trabalhar em uma dessas Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 81 obras consideram estar em um trecho durante um interva lo de tempo cientes de que logo estarão em outro trecho Isso faz com que não se sintam pertencentes àquela região pois o trecheiro não se prende ao lugar Podese observar isso nas afirmações dos piões como no depoimento de Toni Pião trecheiro é porque ele não tem estadia ele está num trecho Por exemplo ele está no Rio aí alguém diz Olha tem uma obra pra gente lá em Manaus quem é que vai o fulano vai Quer dizer ele não se apega ao Rio de Janeiro A gente não se apega à cidade O pião não passa muito tempo num lugar Porque ele vai onde tem trabalho Toni 48 anos da cidade de CaxiasRJ Já em relação ao pião essa denominação carrega um sentido de como se percebem Em toda obra existem os pe ões com e mas som de i em algumas existem também piões No caso da construção da refinaria coexistem os dois grupos Os peões de obra que são trabalhadores da própria região e ainda não adentraram a vida de pião de trecho pois o pião acumula em sua bagagem a experiência do desloca mento ou circulação territorial O pião vai onde tem trabalho como me disse Toni Os piões circulam rodam pelo mundo e para o peão se tornar pião tem de conhecer bem essa profissão na prática e a prática do pião é rodar só assim se passa a fazer parte desse grupo Miro utilizou uma metáfora muito interessante para ex plicar a necessidade do pião de estar circulando e nunca parar em um lugar por muito tempo Disse que a referência ao pião diz respeito ao brinquedo que ao ser acionado em movimen tos circulares fica a girar e não pode parar pois o que é o pião O piãozinho ele gira ele roda Quer dizer o pião roda do Ele está circulando ele não está parado Se parar ele cai 82 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO A metáfora de girar para se manter em pé reflete bem a ideia que esses homens guardam sobre a mobilidade territo rial além de comportar outras ideias como força e dinamis mo Enquanto está girando o pião tem força só para se per der a força aí ele cai Esse cair a meu ver pode ser comparado à morte invalidez ou aposentadoria Percebemse algumas dessas ideias nas palavras de Diniz Uma vez que sente gos ta E se pegar gosto né Não sai mais dessa vida A não ser quando se aposentar ou morrer Podese então entender que a junção entre pião e tre cho significa a união de três condições compostas de valores que são 1 pião trabalhador que roda não fica fixo em um lugar circula 2 trecho espaço geográfico onde a obra está instalada e 3 trecho espaço de tempo período Assim ser pião trecheiro é fazer parte de um grupo identificado com trabalho deslocamento e tempoperíodo 8 A vivência do risco como marca da vida do pião Por ser ambígua a noção de risco é associada tanto a pe rigo quanto a instabilidade probabilidade e até vulnerabilida de sendo transversal aos mais diversos setores da sociedade do local ao global Queirós 2000 No que se refere à natureza do trabalho a profissão de pião trecheiro é cercada por características particulares em relação ao convívio com riscos o que faz com que esses ope rários adotem uma linguagem carregada de símbolos Nesta subsiste a ideia de risco e segurança como algo que está sem pre junto No trabalho temos risco Por isso que se tem toda uma pre ocupação com profissionais para treinamento Profissionais Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 83 para orientar sobre o uso dos EPI14 de dispositivos para segu rança pois o nível de acidentes de risco são muito alto Tem uns que dizem que os EPI são muito ruins Por isso se preocupam em colocar pessoas pra orientar pra treinar Todos sabem o que se deve fazer na obra A segurança de um depende de todos Aí tem os riscos daqui15 não só na empresa mas eu diria principalmente fora da empresa nós estamos correndo riscos Mas lá tem gente que está alertando supervisionando todo mundo Aqui fora não Vai pela consciência de cada um Miro 46 anos da cidade de São LuísMA Percebese na fala de Miro que o pião sabe dos riscos que corre dentro e fora do trabalho No convívio diário fora do ambiente do trabalho também porém a dimensão se dá de forma diferente Vejamos o que Toni diz sobre isso Todo mundo sabe que tem que tomar cuidado É exigência das empresas que se trabalhe com segurança Aqui fora e lá na empresa também Quer dizer Lá tem gente que reclama mas tem os que tá lá pra dizer que tem que usar os EPI Se o nego não ficar em cima tem uns que não usa não Aqui fora tem a questão da violência Do sexo De várias coisas Aí o cara tem que fazer o quê Se prevenir Toni 48 anos da cida de de CaxiasRJ Os entrevistados disseram que estão cercados de riscos também quando saem do trabalho Nas ações cotidianas o risco sempre está presente como enfatizado por Toni tem a questão da violência Do sexo De várias coisas E da mes ma forma que se referem ao risco a segurançaproteção é um fator constantemente reafirmado 14 Equipamento de proteção individual 15 Esse trabalhador se referia ao lugarcomunidade onde fica instalado o alojamento não ao local de trabalho 84 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Douglas e Wildavsky 1982 afirmam que o risco sempre tem caráter coletivo Apesar de os homens reconhecerem seu caráter coletivo nem sempre os riscos são reportados como coletivos Uma forma de perceber essa divisão diz respeito ao ambiente no qual os riscos são vivenciados No ambiente de trabalho as normas e exigências ajudam a prevenir riscos físi cos Nesse espaço o cumprimento das regras é constantemen te monitorado para que seja realizada a rotina de segurança Alegase que a vigilância sobre o cumprimento das regras é necessária para o bem de todos assim a prevenção dos riscos nesse ambiente assume uma dimensão coletiva Porém fora do ambiente de trabalho o risco nem sempre é dimensionado da mesma forma Uma coisa muito repetida nas conversas nos bares alojamentos e até nas empresas é que se alguém toma uma atitude que coloca apenas ele e seus fa miliares em risco ninguém deve se meter Essa decisão indivi dual que não compromete o coletivo não deve sofrer vigília Mas se a decisão de um operário coloca em risco o grupo aí deixa de ser um problema individual e passa a ser coletivo nesse caso todos têm o direito de interferir e devem interferir Um grupo com o qual conversei relatou sobre a prisão de um colega que era usuário de drogas e acabou se envolvendo em roubo Disseram que esse operário usava drogas e todos sabiam Como essa atitude era uma questão individual nin guém se meteu Mas ele acabou se envolvendo em roubo tam bém sem ninguém do alojamento saber segundo informa ram Determinado dia a polícia bateu no alojamento deles para prender esse rapaz e acabou levando outros três colegas do alojamento presos Os outros três que dividiam o alojamento com ele disse ram que não sabiam nem estavam envolvidos com o crime mas mesmo assim tiveram de prestar esclarecimentos na dele gacia e só foram liberados quando ficou comprovada sua ino cência atestada pela confissão do responsável Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 85 Um dos homens que contaram essa história relatou o se guinte Enquanto ele só usava drogas não atrapalhava a vida de ninguém o problema era só dele Aí ele se meteu com coisa ruim e quase que ferra todo mundo Aí o problema é de todo mundo Todos ficaram alertas após esse episódio e uns passaram a vigiar os outros Isso exemplifica bem o entendimento deles sobre o risco a partir da dimensão individual ou coletiva Ou seja quando a questão pode prejudicar apenas um consi deramna um risco individual pois não afeta o coletivo Mas quando afeta vários como no caso citado então todos devem passar a exercer o controle dos riscos coletivos A linha que separa os riscos individuais dos coletivos na prática é tênue Para Douglas e Wildavsky 1982 a decisão de se expor ou não a determinado risco embora aparente ser individual não o é pois está inserida em um contexto mais amplo dado pela cultura à qual a pessoa pertence Como afirmam os mesmos autores as percepções dos riscos são determinadas pela orga nização social e pela cultura pois estas fornecem ao indivíduo os filtros que estruturam suas percepções de risco Talvez por isso os piões reconheçam a necessidade de tomar cuidado mas também falam sobre coragem Usam es tratégias para minimizar os riscos mas dizem que nem tudo está sob controle Acreditam que essas características vão se incorporando à sua vida pela profissão e não têm como sepa rar Lidar com os desafios é parte dessa profissão e a figura do pião é moldada pela vontade do desbravamento do des conhecido e pela satisfação da aventura características tidas como elementos importantes na construção da identidade so cial desse grupo Alguns argumentos carregam a ideia de que a convivência e o enfrentamento dessas questões fazem com que se acostu mem em lidar com os riscos já que eles estão em toda parte Beck 2010 Como se observa no relato dos entrevistados 86 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO É uma vida que quando você entra ou se acostuma ou sai fora para ser pião tem que gostar de se aventurar tam bém O pião gosta disso Toni 48 anos da cidade de Ca xiasRJ A vida do pião é arriscada A gente sabe dos riscos mas é nossa vida Fazer o quê A gente se acostuma Eu já me acostu mei Joel 35 anos da cidade de GuadalupePI Nós vivemos com o risco a gente encara meio Assim É é uma aventura Somos homens temos que encarar essas dificuldades Só assim a gente vive nessa vida Gael 33 anos da cidade de São LuísMA Por causa do costume Muitos aí acredito também es tão nessa vida Vida de pião porque querem ter suas coisas e porque gostam de ser pião Diniz 47 anos da cidade de PetrópolisRJ Conforme Ribeiro 2000 com base nos estudos de traba lhadores da construção de uma usina em determinados mo mentos esses indivíduos entram em um processo de recons trução assumindo a identidade de habitantes permanentes do circuito migratório dos grandes projetos Miro fez uma analogia da convivência do pião com os riscos Comparou o dia a dia do trabalhador de trecho a viver eternamente sobre uma ponte De um lado da ponte estão os riscos ao quais estão expostos no cotidiano do traba lho do outro estão os riscos vivenciados fora dele Completou a explicação afirmando que o pião é aquele que vive nessa ponte Em geral guardam uma ideia do risco como algo peri goso que está em toda parte não se sabe onde ele se esconde Breno disse em entrevista que o risco é um perigo oculto sendo fácil se exporem a ele por questões como relaxamento descuido e mesmo os momentos de prazer Assim o risco faz Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 87 parte da vida do pião mesmo na dimensão do prazer pois este leva ao relaxamento e deixa a pessoa desatenta Com base na vivência desses trabalhadores é possível re alizar a análise dos riscos interligados ao campo da sexuali dade masculina incluindo suas interações e práticas sexuais Dessa forma podese perceber como essa dimensão se amplia e se incorpora à identidade masculina por essa via Porém nosso objetivo aqui foi demonstrar como o risco está presen te na vida desse grupo como algo intrínseco à vida do pião de trecho o que vincula a ideia da identidade masculina per passada por símbolos e atributos como trabalho coragem aventura e liberdade Quadros 2004 Quadros e Scott 1999 Sarti 1994 9 Considerações finais Observar as relações sociais desse grupo ajuda a com preender vários aspectos da vida dos homens trabalhadores migratórios que se autodenominam piões trecheiros Olhar para essa questão no cotidiano desses homens tanto no am biente de trabalho quanto fora dele ajuda a dimensionar as questões de risco presentes nessas interações O contexto histórico e social da região pesquisada Su ape indica a importância de explorar os vários elementos presentes na identidade de um pião trecheiro pois a forma como lidam com o risco indissociável do trabalho que exer cem fornece importantes indicativos de como o trabalho para esse grupo fomenta a ideia de uma identidade coletiva Eckert 1995 Ribeiro 2000 interligada com a ideia de ser homem Como se viu a identidade de um pião trecheiro é com posta por símbolos como trabalho profissão deslocamento mudança trânsito migração mobilidade e período tempo 88 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Esses símbolos juntos compõem o ethos desse grupo e confor mam um habitus Bourdieu 1983 Assim percebese que a simbologia da profissão de pião trecheiro influencia diretamente a forma de interação e cons tituição de vínculos em que o estilo de vida faz com que esses homens não se prendam a uma região fixa o que comporta um tipo de relação simbólica com o lugar região mediada pela ideia de fazer parte e não fazer parte sendo sempre uma relação fluida e passageira com o lugar e as pessoas da região Olhar para o risco pela relação que esse grupo estabele ce diretamente interligada com o trabalho ajuda a perceber como essas dimensões se correlacionam com outras e conse quentemente se refletem na forma como esses homens car regam esses símbolos como marcas centrais dessa identidade masculina Pois o risco aparece como referência presente na vida desses trabalhadores entendido como elemento intrínse co à profissão do pião trecheiro A vida dos profissionais que conforme a metáfora uti lizada por um dos trabalhadores rodam reporta elemen tos como aventura força e coragem aos que fazem parte desse grupo O estilo de vida que levam faz com que se exponham a vários perigos como também expõe outras pessoas com as quais se relacionam e isso é intensificado por causa das exi gências de deslocamentomigração E a amplitude dos riscos a que estão sujeitos abarca questões interligadas pela convivên cia na comunidade tanto quanto pela natureza do trabalho que realizam Os atributos tidos como masculinos apareceram ligados à questão de liberdade autonomia aventura prazer e res ponsabilidade Sarti 2005 Quadros 2004 Por meio desses atributos esses sujeitos compõem seus caminhos e as formas de vivência e percepção dos riscos estão ligadas à identidade masculina reforçada pelo estilo de vida que a profissão lhes Trabalho e risco na composição da identidade do pião trecheiro Sirley Vieira da Silva 89 impõe influenciando diretamente a formação da identidade coletiva desse grupo Referências BECK U Sociedade de risco rumo a uma outra modernidade Tradução de Sebastião Nascimento São Paulo Ed 34 2010 1985 BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2000 Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de DST Aids e Hepati tes Virais Brasília 2012 BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO AIDS E DST 2011 Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde Departamento de DST Aids e Hepati tes Virais Brasília ano VIII n 1 2012 BOURDIEU P Gostos de classe e estilos de vida In ORTIZ R Org Pierre Bourdieu sociologia São Paulo Ática 1983 n 39 p 82121 Coleção Grandes Cientistas Sociais DOUGLAS M WILDAVSKY A Risk and culture an essay on the selection of technical and environmental dangers Berkeley CA University of Cali fornia Press 1982 ECKERT C Do corpo dilapidado à memória reencantada In Corpo e signi ficado ensaios de antropologia social Organização de Ondina Fachel Leal Porto Alegre UFRGS 1995 p 139154 GOFFMAN E Frame analysis an essay on the organization of experience 2 ed Boston Northeastern University Press 1986 1974 INSTITUTO SANGARI Mapa da violência 2012 os novos padrões da vio lência homicida no Brasil 1 ed São Paulo 2011 MALINOWSKI B Argonautas do Pacífico ocidental São Paulo Abril 1976 90 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO MINAYO M C de S O desafio do conhecimento pesquisa qualitativa em saú de 7 ed São Paulo Hucitec Rio de Janeiro Abrasco 2010 QUADROS M T Homens e a contracepção práticas ideias e valores mascu linos na periferia do Recife Tese Doutorado Programa de Pósgradu ação em Sociologia Universidade Federal de Pernambuco Recife 2004 SCOTT R P O masculino na saúde sexual e reprodutiva em Per nambuco In II CONGRESSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E SAÚDE Anais São Paulo 1999 QUEIRÓS M Uma reflexão sobre as perspectivas metodológicas na análi se do risco ambiental In COLÓQUIO GEOGRAFIA DOS RISCOS Plani geo FLUL Anais Lisboa 2000 RIBEIRO G L Bichos de obra fragmentação e reconstrução de identida des In Cultura e política no mundo contemporâneo Brasília UnB 2000 SANTANA A M Mulher mantenedorahomem chefe de família uma questão de gênero e poder Revista Fórum Identidades Itabaiana Gepiadde ano 4 v 8 juldez 2010 SARTI C A A família como espelho um estudo sobre a moral dos pobres 3 ed São Paulo Cortez 2005 Promoção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino Regina Figueiredo Alessandro de Oliveira dos Santos e Marcelo Peixoto 1 Introdução No Brasil grandes obras de infraestrutura de base vi sando ao desenvolvimento econômico do país necessitam de aprovação pelo poder público por meio de Estudos de Impac to Ambiental EIA seguidos da elaboração de um Relatório de Impacto Ambiental RIMA Esse relatório e sua análise foram uma conquista do movimento ambientalista visando a evitar ou pelo menos a minimizar e antecipar para resolu ção as interferências que esses projetos pudessem causar ao meio ambiente Acselrad 2010 Sabese que os impactos ambientais não se reduzem ao ambiente físico fauna e flora devendo ser considerados tam bém sob o ponto de vista de sua capacidade de influência so bre o meio social No entanto no Brasil ainda não são reque ridos como obrigatórios os estudos de previsão de impactos de grandes obras de engenharia sobre o meio social e as po pulações por elas atingidas apesar de tais obras produzirem quase invariavelmente deslocamento de mão de obra agre gando uma população flutuante estranha por dado perío do de tempo às localidades onde essas obras serão realizadas Esse movimento costuma gerar uma série de impactos sociais negativos para os municípios receptores visto que na maio ria das vezes os poderes locais não dispõem de planejamento 92 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO recursos meios legais e instrumentos capazes de minimizar seus efeitos De 2010 a 2011 a construção da Usina de Belo Monte no Pará por exemplo fez crescer a população de Altamira de 100 mil para 145 mil habitantes representando um acréscimo de 45 Clam 2012 Segundo o Movimento de Mulheres de Altamira do Campo e da Cidade essa vinda de trabalhadores homens contribuiu para o crescimento das notificações dos casos de exploração abusos e violência sexual e agressão física Os casos de abuso sexual praticamente dobraram em termos de notificação entre menores passaram de 43 para 75 casos entre 2010 e 2011 e furtos roubos e crimes de violência con tra as mulheres também registraram um aumento de 28 no mesmo período Clam 2012 Oliveira e Pinho 2014 Além disso a prostituição aumentou na localidade após o recebimento de salários pelos trabalhadores Os casos en volvendo trocas sexuais entre esses profissionais e o público infantojuvenil registraram crescimento havendo relatos in clusive de programas pagos com uso de valealimentação Talento 2014b Entre as índias de aldeias localizadas nas áreas afetadas pela construção de Belo Monte também tem ocorrido troca de sexo com os trabalhadores por bens mate riais ouro ou dinheiro Oliveira e Pinho 2014 Os casos de abuso sexual de mulheres adultas e adolescentes dessas tribos muitas vezes têm ocorrido com a conivência das próprias co munidades reféns de interesses de circulação desses recursos e dinheiro Talento 2014a Tais episódios invariavelmente associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas já ha viam sido observados nos arredores na época da construção dos 4224 km da Rodovia Transamazônica projetada na dé cada de 1970 pelo governo militar para interligar as regiões Norte e Nordeste do país Clam 2012 No município de São Bernardo do Campo na Grande São Paulo as obras do trecho sul do Rodoanel desenvolvido Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 93 para interligar as estradas do estado e reduzir a entrada de caminhões e veículos na capital envolveram a contratação de 4 mil operários homens que ficaram instalados em alo jamentos de 2007 até 2010 Nesse mesmo período segundo reportagem da Folha de SPaulo Castro e Brito 2011 as uni dades de saúde da região registraram aumento do número de gestantes adolescentes de 73 para 91 Na região das obras do Rodoanel foram geradas dezenas de crianças nascidas sem contato apoio ou auxílio financeiro de seus pais biológicos que foram embora após o término das obras na maioria das vezes sem estabelecer vínculo duradouro com as mães A re portagem também relata que no mesmo período houve mais registros de casos de violência física consumo e tráfico de dro gas e prostituição na região Na construção da Refinaria de Abreu e Lima e do Polo Petroquímico de Suape no estado de Pernambuco conforme a série veiculada pelo Diário de Pernambuco 2011 houve um aumento populacional de 148 para 5436 por causa da presença de mais de 32 mil homens contratados como traba lhadores temporários Gestações advindas de relações sexuais e afetivas ocasionais filhos sem pai biológico exploração se xual de adolescentes e estupro foram eventos que explodiram na região conforme as reportagens além do crescimento de casos de doenças sexualmente transmissíveis DSTs incluin do Aids Fenômenos semelhantes também ocorrem em municí pios que recebem grande contingência de turistas homens Pesquisas mostram que há descuido na proteção sexual principalmente associada ao consumo de álcool aumento dos casos de DSTs Aids e hepatites entre a população local por causa das relações sexuais envolvendo os turistas incre mento do mercado do sexo incluindo tanto a prostituição profissional quanto a exploração sexual comercial aumen to das emergências médicas decorrentes do uso abusivo de 94 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO álcool e outras drogas pelos turistas e intensificação do con sumo dessas substâncias entre os jovens moradores Figuei redo e McBritton 2006 Santos e Paiva 2007 Santos e Fi gueiredo 2009 Os fluxos populacionais como a migração de trabalha dores e de turistas e seus efeitos negativos sobre as popula ções das localidades que os recebem têm sido foco de nossa atenção e objeto de intervenção desde o ano 2000 A experi ência em diversos projetos no contexto de migração de pes soas nos levou a uma série de discussões e paralelos sobre as semelhanças e diferenças entre comunidades que recebem turistas e comunidades que recebem trabalhadores para exe cução de grandes obras Isso favoreceu a análise das relações entre os fluxos populacionais e a produção de vulnerabilida des e agravos à saúde Também permitiu o desenvolvimento de estratégias práticas de promoção de saúde sexual e repro dutiva incluindo prevenção à exploração sexual comercial de crianças e adolescentes gestações não planejadas e DSTs Aids Este capítulo pretende disseminar as experiências acu muladas com os projetos que realizamos envolvendo especi ficamente o trabalhotrabalhador migrante e a comunidade morador em diferentes regiões brasileiras por meio das orga nizações não governamentais Centro Vergueiro de Atenção à Mulher Instituto IngOng de Planejamento Socioambiental e Instituto Cultural Barong Inicialmente descrevemos as ca racterísticas e a situação do trabalhotrabalhador em grandes obras e destacamos aspectos dos projetos de saúde sexual e re produtiva realizados Ao final são feitas recomendações para municípios e estados que venham a lidar com grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino e indica ções de portais eletrônicos e leituras para o aprofundamento dos temas abordados Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 95 2 Características do trabalhotrabalhador temporário em grandes obras De forma geral algumas características são comuns em todas as obras de base que promovem a estruturação do de senvolvimento econômico conforme o modelo de avanço tecnológico atualmente no país essas obras de infraestrutura envolvem a engenharia de construção civil e para serem execu tadas necessitam de mão de obra braçal portanto empregam a força e a habilidade majoritariamente masculinas Esses trabalhadores braçais são requisitados entre segmentos po pulacionais de baixo poder socioeconômico e escolar que têm menor qualificação profissional e empregos sem estabilidade Tal perfil favorece a aceitação do trabalho temporário in cluindo a necessidade de deslocamento por médios ou gran des períodos e produz uma série de relações de trabalho que não seguem em geral o padrão de adequação adotado em empresas que empregam mão de obra fixa Por uma questão de situação de desenvolvimento econômico e escolar brasilei ro que concentra grande parte da população em situação de trabalho sem qualificação a concorrência para ocupação das vagas desse tipo de trabalho braçal temporário é grande ha vendo mais oferta de mão de obra do que procura Desse modo a situação de trabalho incluindo jornadas instalações higiene e moradias oferecidas é prontamente acei ta embora nem sempre seja digna de organização e salubrida de ficando a cargo de cada empresa sua ordenação conforme as legislações existentes Por uma questão de conquistas com relação à organização do trabalho advindas do período de in dustrialização do país a legislação brasileira foca a condição de saúde do trabalhador do ponto de vista da redução de ris co do corpo físico salientando a importância de condições de segurança e alimentação durante a jornada de trabalho As pectos e peculiaridades que fogem a essa exposição corpotra 96 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO balho entretanto são pouco avaliados e exigidos facilitando a precariedade dos ambientes que não estejam associados di retamente ao local de ocupação como alojamentos e locais de descanso e lazer Outro aspecto importante é que no caso dos grandes deslocamentos de mão de obra masculina os trabalhadores fi cam isolados do grupo familiar por médios e até grandes perí odos de tempo já que as obras são distantes Isso impossibili ta o retorno ao lar em finais de semanas e feriados e por vezes até em férias Ademais os recursos necessários para manter visitas aos familiares em geral não compensam os ganhos do trabalho por isso estas não são feitas com regularidade A maioria dos trabalhadores portanto se mantém em alojamentos ou residências temporárias para homens segre gados de mulheres locais nos quais as características de com portamento de gênero se tornam mais arraigadas Os padrões da cultura masculina se exacerbam nesses ambientes não ape nas no espaço de trabalho mas também no de moradia São comuns valores ligados à força e à virilidade com demonstra ções de independência de potência sexual restrição a conta tos físicos afetivos e desvalorização da sensibilidade Vale ressaltar que esses padrões da cultura masculina que regulam práticas e comportamentos referemse a um modelo exterior patriarcal pois interiormente as necessidades desses trabalhadores de cuidado carinho afeto e complementari dade do universo feminino não desaparecem o que vai levar juntamente com a necessidade sexual à busca de parcerias lo cais quanto maior for o tempo de estadia Observase um afastamento desses homens de suas re des de proteção social originais e sociabilidade Além de se rem desconhecidos e recémchegados onde se instalam não possuem vínculos sociais portanto adotam comportamen tos distintos atípicos e por vezes mais soltos desinibidos e até inconsequentes se comparados aos comportamentos que Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 97 mantêm em sua região de origem Esse modo de agir menos comum e mais desprendido de controle social pode exacerbar situações como bebedeiras frequência à busca de prostitui ção envolvimento com violência tal como são verificadas em situações de turismo de massa envolvendo a população mas culina Figueiredo e McBritton 2006 e 2007 A esse contexto normalmente se soma a falta de previ são preparo ou interesse das empresas contratantes em an tecipar remediar eou evitar os efeitos negativos da migração de trabalhadores temporários na localidade onde se realizará a obra Isso inclui a ausência de ações de promoção da saúde sexual e reprodutiva junto aos empregados eou com os mo radores locais com quem esses trabalhadores passarão a ter contato Praticamente nenhuma empresa qualifica sua mão de obra para esse entrosamento deixando a forma como guia rão seu novo cotidiano à mercê de suas próprias formações e padrões culturais de comportamento A atenção do trabalhador se restringe a se oferecer como mão de obra trabalhar e ganhar quase sempre visando o en vio de dinheiro para sustentar a família que vive em outro lo cal A preocupação com o futuro por isso está mais ligada ao trabalho que irá desempenhar após o término da obra onde se empregará depois do que propriamente às condições locais que enfrenta no presente Nesse sentido quanto maior o pe ríodo da obra mais despreocupação futura e sensação irreal de amparo e estabilidade no emprego Por outro lado o poder público local não costuma aten tar para os efeitos sociais negativos que advirão dessa chegada numerosa de pessoas focando mais o aspecto de desenvolvi mento econômico tecnológico e de recursos e taxações ou até de destaque e visibilidade que a obra trará ao município Assim prefeituras e estados pouco avaliam e incluem nas dis cussões com as empresas que irão se instalar o dispêndio com a estruturação de uma rede social de proteção capaz de rece 98 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO ber os trabalhadores Há falta de percepção da necessidade de equipamentos de lazer e de contato social como necessários para essa mão de obra Ao contrário dessa postura é impor tante frisar que locais de lazer e recreação para o período de não serviço não são detalhes mas pontos fundamentais da condição desse tipo de emprego visto que a situação de traba lho implica necessariamente momentos de desfrute desses e revezamentos entre períodos de ócio e ocupação Além disso historicamente o poder público local tem se omitido na preparação de sua população para a chegada dos trabalhadores e os efeitos que esse evento poderá causar em suas vidas Quando pensamos em saúde sexual e reprodutiva esse despreparo fica mais evidente tendo em vista que temas como cuidado à saúde sexualidade e parcerias afetivosexuais são em geral atribuídos à vida privada e à responsabilidade individual das pessoas 3 Relações de gênero e afetivosexuais entre trabalhadores e moradores locais É nas classes mais desfavorecidas da população brasileira que o padrão de divisão sexual do trabalho é mais exacerba do ainda é a mulher a responsável pela maioria ou totalidade do trabalho doméstico e o homem aquele que tem o dever de prover a casa com recursos Isso é típico tanto em uniões nas quais as mulheres são donas de casa quanto naquelas em que elas têm empregos remunerados e nesse caso devem buscar ocupações que possam conciliar os dois papéis em uma dupla jornada de trabalhadora remunerada e dona de casa França e Schimansky 2009 Esse aspecto das relações de gênero está presente nos en contros estabelecidos entre os trabalhadores e as mulheres locais Em geral a mão de obra masculina que se instala por Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 99 grandes períodos em alojamentos ou moradias distantes da família perde o referencial de cuidado do espaço privado e de si alguns membros inclusive passam a se alimentar mal des cuidar da higiene da roupa utensílios de uso pessoal porque são afazeres que não costumam estar habituados a desempe nhar e que consideram das mulheres A falta das mulheres assim é sentida para as questões práticas de organização de si e do espaço de moradia Além disso a ausência das mulheres também é sentida para o contato afetivo e sexual como necessidade de recebi mento de carinho e prazer físico necessários para evitar a so lidão e alimentar os momentos de acolhimento e escuta que também permeiam as noites e os horários de folga desses tra balhadores Padrões de conversa entre homens colegas de tra balho e de alojamento são muito diferentes do acolhimento fornecido por parceiras já que nos códigos de conduta de am bientes masculinos em geral não há espaço para queixumes atenção individualizada e intensa Apesar de satisfazer sexualmente nem sempre os rela cionamentos pontuais e mercantilizados com profissionais do sexo promovem o contato acolhedor como se dá com parceiras afetivas Isso torna comum que esses trabalhadores busquem mulheres nas novas localidades onde estão para se relacionar também afetivamente Descrita superficialmente apenas como interesse sexual com o objetivo de usar a mu lher a busca de parceiras na comunidade de estada na verda de se amplia conforme o tempo dessa permanência fazendo a junção de duas necessidades a de disponibilidade e dese jo sexual e a da necessidade afetiva desses homens que estão sós e carentes e por conseguinte mais sensíveis a situações de apaixonamento É fato que trabalhadoresas do sexo se aproximam de comunidades receptoras de grandes obras e de trabalho tem porário masculino com a oportunidade de obter maior clien 100 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO tela ao mesmo tempo mulheres adultas e adolescentes da própria localidade também sentem atração e encantamento pelos recémchegados que representam novidade possibili dade de status e de estabilidade por terem registro em carteira serem de empresas muitas vezes renomadas e estarem sós e disponíveis Não é à toa que esse fenômeno se repete mas sas de homens desacompanhados não só para trabalho mas também para turismo e estudo aumentam a probabilidade de ocorrência de situações de envolvimento afetivo e sexual com moradoresas jovens das comunidades Santos e Figueiredo 2009 Belenzani 2012 Tais situações de encontro se dão em condições ainda típicas da população brasileira ou seja onde há falha de uso de métodos contraceptivos e preservativos pouca orientação e fornecimento destes às adolescentes e um padrão de cul tura masculina que não associa os comportamentos sexuais à preocupação de cuidado com a saúde ou com a gravidez e filhos Isso contribui para que ocorram gestações nascimen tos de crianças sem paternidade e DSTs incluindo a Aids As vulnerabilidades expressas no encontro trabalhadoresmo radores das comunidades anfitriãs refletem os problemas do sexo sem proteção oriundo de comportamentospadrão que ambos os grupos já adotavam porém agora potencializados por uma situação de crescimento populacional concentra ção geográfica e incremento da quantidade de sexo casual e descomprometido O aumento da prostituição observado em situações de chegada de mão de obra masculina não se refere apenas à quantidade maior de mulheres locais disponíveis para es tabelecer trocas sexuais em busca de status ou remuneração mas também à inclusão de profissionais do sexo que se deslo cam de outras localidades Tanto mulheres quanto travestis e transexuais ou gays que se prostituem veem oportunidade de mais ganhos com essa nova clientela independentemente Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 101 da idade que possuam Por isso em geral a exploração sexual de crianças e adolescentes cresce na mesma proporção que a prostituição em geral os profissionais do sexo e as famílias que são coniventes em relação à prostituição de filhos e filhas sabem que há possibilidade de os trabalhadores contratarem programas sexuais pagos uma vez que não estão à procura de parcerias fixas porque a maioria possui mulher e filhos em seus locais de origem Dessa forma relações sexuais mas também afetivas são inerentes ao deslocamento de homens desacompanhados por médios ou longos períodos em razão da impossibilidade de poderem trazer suas parceiras habituais A quase totalidade dessas novas relações será temporária enquanto durar o tra balho raríssimas terão continuidade geralmente ocorrendo quando envolvem homens mais jovens solteiros e sem parce ria fixa anterior Já situações que envolvem o deslocamento de trabalha dores junto com o grupo familiar e filhos reduzem essa pos sibilidade pois permitem a transferência para as localidades dos padrões de comportamento afetivosexuais anteriores aos quais esses homens estavam habituados como ocorrem nos modelos de construção de vilas operárias de trabalhadores tal como adotado na década de 1970 na construção da Usina Hi drelétrica de Itaipu em Foz do Iguaçu Jesus 2008 A falta de referências sociais e de vinculação com o novo grupo que comporão por um período de tempo também faci lita a adoção de comportamentos atípicos pelos trabalhado res Em razão da falta de familiares parceiros e filhos para es tabelecer o lazer ao qual estavam acostumados trabalhadores deslocados invariavelmente procuram mais profissionais do sexo do que o faziam anteriormente como também adotam formas de lazer que incluem o uso de álcool e outras drogas de forma mais intensa do que realizavam visto que são os comércios incluindo bares as únicas opções de socialização e 102 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO lazer disponíveis Isso aumenta o envolvimento em confusões violência verbal física sexual e de gênero 4 Projetos realizados em localidades que receberam trabalhadores Desde 2008 por meio de projetos do Cevam IngOng e Barong e com o apoio de órgãos públicos e da iniciativa pri vada foi possível atuar com homens trabalhadores braçais de várias empresas brasileiras para disponibilizar conteúdos e habilidades no que se refere à cidadania saúde e direitos se xuais e reprodutivos e ao autocuidado incluindo prevenção de DSTsHIV Aids Paralelamente também foram executa dos projetos envolvendo ações realizadas com as comunida des afetadas objetivando mitigar as vulnerabilidades sociais e os agravos em saúde sexual e reprodutiva e promover a cidadania 41 Ações com trabalhadores Em 2009 realizamos projeto de promoção de saúde sexu al e reprodutiva dirigido a trabalhadores de gasodutos e oleo dutos do interior e litoral paulista abrangendo os municípios de Suzano Mogi Mirim Mogi das Cruzes Caraguatatuba Taubaté e São José dos Campos Foram formados 14 grupos educativos envolvendo cerca de 200 trabalhadores homens que geraram oportunidade de aproximação com suas dificul dades relativas ao autocuidado condições de trabalho e de hi giene incentivandoos à adoção de cuidados no trato sexual e reprodutivo incluindo uso de preservativos e a prevenção de DSTsAids e da paternidade não planejada do câncer de prós tata e pênis Esse projeto além da sensibilização dos trabalha Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 103 dores propiciou a distribuição de mais de 20 mil cartilhas de prevenção de DSTsAids e a entrega de cerca de 80 mil preser vativos gratuitamente além da orientação dos trabalhadores e da população em geral à busca de serviços de saúde pública e realização de exames preventivos como a testagem para o HIVsífilis e hepatites B e C e o exame clínico de prevenção ao câncer de próstata Essa experiência motivou a ampliação de ações voltadas aos trabalhadores braçais e o desenvolvimento de materiais educativos específicos cartilha e DVD abordando os prin cipais temas de saúde que acometem homens utilizando lin guagem direta e masculina para divulgar a importância do cuidado com a saúde sexual e reprodutiva Figueiredo Mc Britton e Peixoto 2012 Assim projetos com homens foram estendidos e entre 2009 e 2013 foram desenvolvidos projetos de promoção à saúde sexual e reprodutiva e prevenção de DSTsAidshepa tites e tuberculose junto a caminhoneiros e mineradores da extração mineral do município de Niquelândia em Goiás Durante esse período foram distribuídos aproximadamen te 20 mil cartilhas de saúde do homem1 60 mil folhetos so bre testagem de HIV e sintomas de DSTs e 100 mil preser vativos masculinos A maioria desses materiais foi entregue diretamente à população em diferentes formatos e eventos programados em pontos estratégicos de acesso a esses traba lhadores em datas comemorativas como Dia Internacional do Homem Dia do Caminhoneiro Dia de Luta contra a Aids etc além da realização de festivais locais de cinema exibindo filmes temáticos sobre masculinidade saúde sexual sexuali dade HIVAids e uso abusivo de álcool e outras drogas Nes sas ações além dos trabalhadores houve envolvimento de 1 Para ter acesso à cartilha ver httpwwwyoublishercomp134551GuiadeSaude SexualeReprodutivadoHomemeOutrosCuidados 104 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO familiares e de equipamentos sociais públicos e do terceiro setor das comunidades de modo a facilitar a promoção da cidadania a busca de serviços públicos e o autocuidado em saúde Em 2012 foi possível confeccionar entrevistas com tra balhadores locais para a confecção do DVD educativo Cui dando deles Saúde sexual e reprodutiva do homem2 Esse curtametragem contém trechos de depoimentos recolhidos intercalados com ficção em que o personagem principal des taca aspectos da educação e cultura masculina que expõem o homem a situações de vulnerabilidade com relação ao cuida do com sua saúde e sexualidade Tanto a cartilha de saúde do homem quanto o DVD desenvolvido se mostraram de gran de sucesso entre o público de homens trabalhadores porque utilizam linguagem e situações típicas masculinas além de muito bom humor para promover a comunicação dos temas tratados 42 Ações voltadas à população local Entre 2008 e 2009 tivemos a oportunidade de realizar projetos de promoção de saúde sexual e reprodutiva redução de gravidez não planejada DSTsAids e vulnerabilidades lo cais junto a 16 comunidades localizadas nos municípios de Mariana e Ouro Preto em Minas Gerais e de Guarapari An chieta e Piúma no Espírito Santo A chegada de operários li gados à mineração havia acelerado o processo de crescimento de periferias e contribuído para o aumento da prostituição e dos casos de gravidez na adolescência e uso abusivo de álcool e outras drogas 2 Para ter acesso ao vídeo ver httpwwwbarongorgbrprojetossaudedohomem2 html Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 105 A partir de uma iniciativa conjunta envolvendo o setor privado o terceiro setor lideranças das comunidades e o po der público foi possível formar cinco turmas amplamente divulgadas para a capacitação de multiplicadores locais Es ses encontros abordaram os temas saúde e direitos sexuais e reprodutivos e prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas resultando na formação de 213 multiplicadores en volvimento de 101 instituições locais e 17 campanhas de pro moção da saúde sexual e reprodutiva na forma de eventos pontuais realizados em comemoração ao Dia Internacional de Luta contra a Aids Além dos multiplicadores formados os projetos também equiparam as comunidades participantes dos projetos com 12 malas de materiais educativos para abordagem da saúde sexu al e reprodutiva Estimase que por meio das ações aproxima damente 7500 pessoas das comunidades tenham sido benefi ciadas indiretamente sendo 2500 no Espírito Santo e 5 mil em Minas Gerais Além disso por meio dos multiplicadores formados foi possível ampliar a articulação local em torno do tema o que gerou aumento das ações de promoção da saúde e prevenção de agravos junto a moradores escolas associações comunitárias e pelo poder público IngOng e Cevam 2008 e 2009 5 Considerações finais Com base nas lições aprendidas com os projetos foi pos sível delinear um quadrosíntese apresentado a seguir con tendo as principais características do contexto do trabalho trabalhador temporário de grandes obras associadas às rela ções eou efeitos gerados nas comunidadesmoradores 106 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Características de contexto Relações e efeitos Maioria da população masculina trabalhadora formada por adultos jovens entre 18 a 45 anos Maior tempo e energia física e necessida de de busca de diversão e lazer Falta de equipamentos de lazer e cultura para entretenimento em mo mentos de folgadescanso Improviso de situações de lazer por meio de bares de pequeno porte que priorizam o consumo de bebidas de alto teor alcoó lico como pinga oferecendo poucas op ções de consumo aos trabalhadores Afastamento dos trabalhadores de suas redes de proteção social e fa miliar originais Ausência de vínculo social e anonimato facilitando comportamentos atípicos in cluindo maior busca de sexo casual e abu so de álcool e outras drogas Disponibilidade de homens traba lhadores com situação financeira estável Aumento dos casos de assédio a mulheres adolescentes gravidez não planejada violência sexual DSTs Legislação trabalhista que prioriza aspectos de saúde do trabalhador ligados a riscos físicos e de insalu bridade no local de trabalho Ausência de legislação que exija das em presas ações voltadas para o bemestar psicossocial dos trabalhadores nos perío dos de lazerdescanso Nossa experiência de trabalho mostra que é possível atuar em prol da promoção da saúde sexual e reprodutiva tanto di retamente com os próprios trabalhadores quanto com a co munidademoradores que os recebem durante a realização das obras Porém independentemente das ações específicas com os trabalhadores e com as comunidades toda a sociedade inclusive o poder público deveria encampar as orientações e considerações com relação à saúde do homem já incluídas no Programa Nacional de Saúde do Homem Ministério da Saú de 2008 e nas legislações de proteção e promoção à saúde do trabalhador elaboradas pelo Ministério do Trabalho Ministé rio da Saúde 2005 Também é importante que empresas envolvidas nas obras de infraestrutura se comprometam com a promoção da saúde Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 107 sexual e reprodutiva desde o início das obras evitando o que ocorreu no Rodoanel em São Paulo onde houve distribuição de preservativos aos trabalhadores de forma pontual e apenas tardiamente Castro e Brito 2011 Além disso é fundamental envolver e estimular o pro tagonismo da sociedade civil local como é observado com a atuação do Movimento de Mulheres de Altamira do Campo e da Cidade no Pará que tem feito proposições políticas com vistas ao funcionamento da Delegacia da Mulher no local e denúncias dos problemas associados às obras de Belo Monte Clam 2012 A sociedade civil organizada pode agir junto ao poder público para que ações visando à promoção da ci dadania das populações locais e dos direitos dos trabalhado res sejam implementadas incentivando empresas a se com prometerem e dividirem responsabilidades com o custeio da mitigação de vulnerabilidades associadas à saúde sexual e reprodutiva Poderes municipais têm importante papel em exigir essa participação e antecipar e acompanhar situações e ações que impactem a vulnerabilidade associada à presença desses trabalhadores masculinos vindos para instalação de gran des obras de infraestrutura Essas ações devem ser feitas em parceria com as empresas de preferência antes do início das obras e se possível ser regulamentadas localmente pelo po der legislativo A seguir a título de conclusão fazemos recomendações para mitigação de vulnerabilidades e promoção da saúde sexual e reprodutiva e proteção de direitos em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário mascu lino que podem ser adotadas a distribuir de forma permanente e gratuita preservativos masculinos para os trabalhadores e moradores das comu nidades desde início até o final da obra 108 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO b distribuir gratuitamente materiais educativos sobre pre venção de gravidez DSTsAids prostituição álcool e ou tras drogas para os trabalhadores e moradores das comu nidades c sensibilizar e orientar os trabalhadores antes ou logo nos primeiros meses das obras realizando orientações em en contros que abordem os temas promoção de cuidado em saúde sexual e sexualidade orientações de prevenção quan to à exploração sexual e abuso infantojuvenil promoção da contracepção e prevenção de gravidez e DSTs Aids e hepatite B prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas d estimular os profissionais dos serviços de saúde pública envolvendo a empresa a realizar ações de aconselhamento teste de gravidez testagem de HIV sífilis e hepatites enca minhamento de casos de DSTsAids nos alojamentos dos trabalhadores e estimular as secretarias de saúde a intensificar a orientação preventiva de contracepção e de uso de preservativos nas unidades básicas de saúde e junto às associações comunitá rias clubes ONGs e escolas f articular com as secretarias de educação para que as escolas da região discutam o tema da vinda de trabalhadores tem porários para o município com educandos de Ensino Fun damental II Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos EJA g articular com secretarias de assistência social e saúde e in tensificar a atuação em prol da prevenção de DSTsAids em locais e pontos de prostituição e compra e uso de álcool e drogas antes e até o final das obras h orientar a Polícia incluindo a Delegacia da Mulher e a Justiça local quanto à prioridade e à necessidade de ação imediata diante de situações de violência contra a mulher crianças e adolescentes Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 109 i exigir que empresas mantenham por até dois anos ao final das obras um cadastro com foto de trabalhadores com seus endereços e contatos de origem para que pais biológicos e sua localização possam ser identificados por mulheres que venham a ter filhos j preparar os Conselhos Tutelares Fóruns e Justiça local para que auxiliem mulheres a localizar e pedir apoio para a criação de filhos advindos de relacionamentos com traba lhadores temporários k exigir que empresas criem locais de lazer para os trabalha dores usufruírem nos momentos de folga espaço para fu tebol sala de jogos que possa ser usada à noite e finais de semana televisão cinema circo ou teatro entre outros l priorizar a adoção do formato de vilas operárias em obras de mais de 12 meses de modo a incentivar a vinda de famí lias nucleares em vez de trabalhadores sozinhos 6 Para saber mais Nesta seção indicamos alguns portais eletrônicos de or ganizações públicas e da sociedade civil e estudos contendo informações referências e materiais para o trabalho de pro moção da saúde sexual e reprodutiva em contextos de grandes obras de infraestrutura e trabalho temporário masculino Para obter informações sociodemográficas sobre as condições de vida da população masculina vale a pena visitar o portal eletrô nico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Ipea que disponibiliza dados dessa população segundo sexo ida de corraça focalizando a mobilidade social e o mercado de trabalho as diferenças de acesso na educação saúde habi tação etc wwwipeagovbr 110 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO Para saber mais sobre saúde da população masculina e obter dados gerais consultar portal eletrônico do Ministério da Saúde sobre dados de morbidade ou mortalidade www datasusorgbr Sobre a incidência de DSTsAids o uso de álcool e outras drogas os padrões de morbimortalidade segundo sexo idade raçacor ou orien tação sexual conferir o portal eletrônico do Departamento de DSTAidsHepatites do Ministério da Saúde que mantém um conjunto de dados atualizados wwwaidsgovbr Para obter mais informações sobre direitos proteção da in fância combate à exploração sexual comercial o portal infantil do Fundo das Nações Unidas para a Infância Unicef traz informações além de abordar temas como HIVAids vio lência e políticas públicas Há materiais lúdicos para inte ratividade como histórias desenhos jogos testes vídeos enquetes etc wwwunicefkidsorgbr Para denúncias e serviços e informações sobre direitos da infância o portal da Agência de Notícias dos Direitos da Infância Andi que publica diariamente notícias sobre a popula ção infantojuvenil organiza fóruns de debates e enquetes sobre o tema além de fornecer contatos de serviço de de núncias de agressão contra crianças e adolescentes www andiorgbr Para conhecer exemplos de utilização de novos projetos e tecnolo gias de promoção da saúde sexual e reprodutiva o Instituto Cul tural Barong3 dispõe informações e materiais sobre projetos de promoção em saúde sexual e reprodutiva e prevenção de DSTsAids e abuso de álcool e outras drogas com diferen tes populações incluindo homens trabalhadores http wwwbarongorgbr 3 Entre as organizações não governamentais em que atuamos mencionadas no texto atualmente apenas o Barong mantém atividades concentrando a expertise dos projetos e materiais que foram realizados em parceria anteriormente Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 111 Por fim para o aprofundamento de conteúdos mencio nados neste texto vale a pena conferir os estudos de Laurenti Jorge e Gotlied 2005 Andrade e NóbregaTherrien 2005 Lyra Medrado e Lopes 2007 Martins Santos e Paiva 2009 e Almeida Santos e Paiva 2012 abordando respectivamente os temas masculinidades vulnerabilidades e agravos à saúde promoção de saúde sexual e reprodutiva do homem comuni dades anfitriãs de turismo e a promoção de direitos formação de multiplicadores em projetos de promoção da saúde Referências ACSELRAD H Ambientalização das lutas sociais o caso do movimento por justiça ambiental Estudos Avançados v 24 n 68 p 10119 2010 ALMEIDA A de C SANTOS A de O PAIVA V O incremento da parti cipação comunitária em pesquisas sociais a estratégia de trabalho com o agente local In PAIVA V PUPO L R SEFFNER F Org Vulnerabilidade e direitos humanos Prevenção e promoção da saúde pluralidade de vozes e ino vação de práticas Curitiba Juruá 2012 v III p 253268 ANDRADE L NÓBREGATHERRIEN S M A sexualidade masculina e a vulnerabilidade ao HIV DST jornal brasileiro de doenças sexualmente transmissíveis v 17 n 2 p 121126 2005 BELENZANI R Saúde e direitos vulnerabilidades à saúde sexual juvenil em comunidades litorâneas brasileiras Psicologia Saúde Doenças v 13 p 459479 2012 CASTRO C M de BRITO A Obras do rodoanel deixam órfãos na região do ABC Folha de SPaulo São Paulo 24 jul 2011 Caderno Cotidiano Dispo nível em httpwww1folhauolcombrfspcotidianff2407201101htm CENTRO LATINO EM SEXUALIDADE E DIREITOS HUMANOS CLAM Feminismo e sustentabilidade Rio de Janeiro 12 set 2012 Disponível em httpwwwclamorgbrnoticiasclamconteudoaspcod9818 112 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO DIÁRIO DE PERNAMBUCO Série Filhos de Suape Caderno Vida Ur bana Recife 813 maio 2011 Disponível em httpwwwslidesharenet jairoblimafilhosdesuape FIGUEIREDO R MCBRITTON M Cultura de turismo e população li torânea contatos afetivosexuais de verão Boletim do Instituto de Saúde São Paulo n 41 abr 2007 Relato de pesquisa e proposta de intervenção comportamento sexual reprodutivo e uso de álcool pelos jovens no carnaval São Paulo Instituto Cultural Barong 2006 Disponível em httpwwwbarongorg brphpATMindexphpPHPSESSIDbd6e0ecb9b4494381cf318bb20f82 63bdirection0ordernomdirectoryBARONG PEIXOTO M Promoção de saúde integral e abordagem de gênero como estratégia de ação em saúde sexual e reprodutiva de ho mens heterossexuais Bis boletim do Instituto de Saúde São Paulo v 14 n 1 p 6572 2012 FRANÇA A E SCHIMANSKY É Mulher trabalho e família uma análise sobre a dupla jornada feminina e seus reflexos no âmbito familiar Eman cipação v 9 n 1 p 6578 2009 Disponível em httpeventosuepgbr ojs2indexphpemancipacaoarticleviewArticle687 INSTITUTO INGONG DE PLANEJAMENTO SOCIOAMBIENTAL INGONG CENTRO VERGUEIRO DE ATENÇÃO À MULHER CE VAM Relatório do projeto Despertar para a Vida São Paulo IngOngCEVAM 2008 30 p Relatório do projeto Despertar para a Vida São Paulo IngOng CEVAM 2009 44 p JESUS R P Aspectos da constituição urbana de Foz do Iguaçu experiên cia dos moradores do bairro Vila C 19762006 In III SIMPÓSIO LUTAS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA TRABALHADOREAS EM MOVIMEN TO CONSTITUIÇÃO DE UM NOVO PROLETARIADO Anais Londri na 2426 set 2008 Disponível em httpwwwuelbrgrupopesquisa gepalterceirosimposiorodrigopaulopdf Promoção da saúde sexual e reprodutiva Regina Figueiredo et al 113 LAURENTI R JORGE M H P M GOTLIED S L D Perfil epidemioló gico da morbimortalidade masculina Ciência e Saúde Coletiva Rio de Janei ro v 10 n 1 p 3546 2005 LYRA J MEDRADO B LOPES F Homens também cuidam Diálogos so bre direitos saúde sexual e reprodutiva paternidade e relações de cuidado Recife Fundo de População das Nações Unidas UNFPAInstituto PAPAI 2007 MARTINS A B M SANTOS A de O PAIVA V Promovendo direitos de mulheres crianças e jovens de comunidades anfitriãs de turismo do Vale do Ribeira São Paulo Ministério do TurismoInstituto IngOng de Plane jamento Socioambiental 2009 Disponível em httpwwwturismogov brexportsitesdefaultturismoprogramasacoesprogramasustenta velinfanciadownloadstsiPromovendoosDireitosdemulherese crianxasINGONGpdf MINISTÉRIO DA SAÚDE Caderno de legislação em saúde do trabalhador Bra sília 2005 Série E Legislação de Saúde Disponível em httpbvsms saudegovbrbvspublicacoescadernolegislacaost1pdf Política nacional de atenção integral à saúde do homem Brasília 2008 Disponível em httpdtr2001saudegovbrsasPORTARIASPort2008 PT09CONSpdf OLIVEIRA A da C PINHO V de A Coord Relatório final do diagnóstico rápido participativo complementar enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes no município de Altamira PA Altamira UFPA Fundação TocaiaSociArte Brasília Secretaria de Direitos Humanos 2014 SANTOS A de O dos FIGUEIREDO R Agravos à saúde e relacionamen tos afetivos sexuais em comunidades anfitriãs de turismo In SANTOS M MENEZES J de RIOS L F Org Violência sexual contra crianças e ado lescentes reflexões sobre condutas posicionamentos e práticas de enfrenta mento EdUFPE 2009 p 6074 PAIVA V Vulnerabilidade ao HIV turismo e uso de álcool e ou tras drogas Revista de Saúde Pública São Paulo v 41 supl 2 p 8086 2007 114 CONTEXTOS GRANDES OBRAS E RELAÇÕES DE GÊNERO TALENTO A Belo Monte leva índios à prostituição diz pesquisa Folha de SPaulo São Paulo 8 jun 2014a Caderno Cotidiano Disponível em httpwww1folhauolcombrcotidiano2014061466790belomonte levaindiosaprostituicaodizpesquisashtml Operários de Belo Monte pagam sexo com valealimentação Folha de SPaulo São Paulo 13 jun 2014b Caderno Cotidiano Disponível em httpwww1folhauolcombrcotidiano2014061469550operariosde belomontepagamsexocomvalealimentacaoshtml DESAFIOS PARA PESQUISA INTERVENÇÃOPESQUISA Diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca inícios afetos normas e prazeres Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião1 Neste capítulo trazemos nossa experiência e nossas in quietações surgidas a partir dos diálogos sobre sexualidades com asos jovens de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca em Pernambuco surgidos dentro de um trabalho dissertativo Shuña 2014 cuja abordagem teóricometodológica feminis ta pósestrutural Piscitelli 2004 Haraway 2009 Butler 2012 embasou a realização de uma pesquisaintervençãopesqui sa Adrião 2014 As rodas de conversa Nascimento e Silva 2009 foram o instrumento de intervenção e o espaço propício no qual asos jovens sentiamse à vontade para dialogar de bater e posicionarse sobre sua sexualidade No contexto das rodas de conversa a participação se deu tendo como mote 70 questionários aplicados em 37 mulheres e 33 homens jovens estudantes de ensino médio moradores de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca2 durante o Curso de Mídias Móveis em julho 20123 1 Karla Galvão Adrião contou com apoio da CAPES por meio de uma bolsa pós douto ral para a produção desse texto 2 Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca são municípios que têm sofrido grandes mudan ças populacionais sociais e econômicas em razão do desenvolvimento do Complexo de Suape por grandes empresas como a Petrobras e pela chegada de milhares de homens trabalhadores na zona 3 Esse curso tinha como objetivo capacitar um grupo de jovens para a produção de roteiros audiovisuais captação de imagens e edição de vídeos Tal capacitação foi planejada como ferramenta de diálogo e de debate sobre temas relacionados com os direitos da criança e do adolescente a saúde sexual e reprodutiva o uso abusivo de álcool e outras drogas e o Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 117 As rodas de conversa contaram com 14 participantes sendo nove mulheres e cinco homens estudantes do 3o ano do ensino médio4 que também tinham participado do Curso de Mídias Moveis e foram convidadasos a participar na cons trução de questionamentos e reflexões surgidas a partir dos resultados dos debates em torno dos resultados dos questio nários supracitados relacionados com os debates no campo da sexualidade e as práticas sexuais e direitos sexuais e repro dutivos dasos jovens participantes Os diálogos apresentados no capítulo estão organizados em duas temáticas sendo a primeira sobre o início da vida sexual e dos prazeres e a segunda sobre o namoro e outros vínculos afetivosexuais Buscamos compreendêlas a partir do diálogo entre as experiências trazidas por nossasos inter locutores e as produções relacionadas com esses temas 1 A primeira transa e os primeiros prazeres Pensar que asos jovens têm uma vida sexual visível ou clandestina é ainda difícil de assimilar pela família pela es cola e mais ainda pela Igreja cristã Nessas instituições que conformam circuitos desintegrados Haraway 2009 Qua dros Adrião e Xavier 2011 a sexualidade é vedada para aqueles que estão na idade de somente estudar e não de ter safadezas Queiroz 2013 Assim elases são obrigadasos a acreditar nas etapas da vida que cria uma idade certa enfrentamento a agravos de saúde e violações de direitos entre outros temas de relevân cia social abordados pelo Ação Juvenil uma das sete ações do projeto Diálogos Suape 4 Esses encontros foram desenvolvidos entre os meses de maio e dezembro de 2013 uma vez por semana considerando os recessos e períodos de férias próprios do calen dário acadêmico Os encontros estiveram registrados nos diários de campo e gravados com duas filmadoras arquivos que permitiram fazer as reflexões apresentadas neste capítulo 118 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA para tudo inclusive para saber para ouvir e para ter relações sexuais Tal como Mariana 17 anos indica Eu acho que se você ouve dessas coisas e tal fala sobre isso aí o moço vai entender como algo normal E aí você vai agir como se fosse nada né Mas se você cresce e você raramente ouve falar sobre isso aí quando você vê um vídeo e já tem uns 17 anos aí vai ser mais difícil de você ter esse tipo de relação Mas como você cresce ouvindo o tempo todo E todo mundo fala e você vê Aí é bem mais chance de acontecer Mariana 17 anos Falar de sexualidade como algo normal diz nossa in terlocutora pode incitar a relações sexuais mais cedo como se não existissem práticas sexuais independentes de se falar delas ou não e certamente em idades muito mais prematu ras das esperadas pelo mundo adulto Encontramos que 51 14 mulheres e 27 homens dasos jovens que responderam ao questionário durante o Curso de Mídias Moveis já tinham transado sendo as idades de 14 e 15 anos as mais referidas idades também encontradas em outros estudos relacionados com esse tema Castro Abramovay e Silva 2004 Paiva et al 2008 Mas contraditório a essas práticas chamanos a atenção que 70 22 mulheres e 27 homens de jovens que responde ram ao mencionado questionário ainda acreditem em uma idade ideal para que as meninas tenham a primeira transa sendo as idades de 17 e 18 anos as mais informadas Diferente do almejado para os homens em que 60 24 mulheres e 18 homens de jovens manifestaram que não existe essa tal ida de ideal dados esses que mostram portanto expectativas e desigualdades de gênero Observações que foram foco de dis cussão nas rodas de conversa Aqui alguns diálogos a respeito É porque a sociedade já é um padrão né acha que o homem tem que ser mais solto que a mulher Lucas 17 anos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 119 Ele já falou tudo é cultural Kelly 17 anos A gente aprende isso Mariana 17 anos Nas palavras dasos jovens participantes é na sociedade e na cultura que elases vão aprendendo um padrão específico de ser mulher e de ser homem roteiros sexuais aprendidos muitas vezes antes de ter a primeira transa Gagnon 2006 formas coercitivas de gênero característicassintomas de viver a sexualidade e seus prazeres O que também observamos na fala de Kelly quando se refere à masturbação eu acho que não era para ter esse negócio de masturbação não Porque eu acho que a relação é a dois eu acho que para homem ainda vale Mas para mulher eu acho que não combina muito não como se a mulher não tivesse desejos sexuais sem neces sariamente estar acompanhada ou não Mariana aponta isso como um preconceito tão interiorizado que reprime muitas vezes os desejos das mulheres as meninas mesmas suben tendem isso né a gente entende que menino pode mais Inclusive elas podem até querer fazer mas elas não fazem porque têm esse preconceito Desse modo ainda é uma surpresa o fato de que a mulher possa ter e sentir desejos e prazeres sexuais mesmo na primeira relação sexual Vejamos a seguinte conversa Eu tinha 16 anos quando teve relações sexuais Kelly 17 anos estudante qual foi tua sensação quando tu Kelly praticaste o sexo Aldo 16 anos Rapaz eu gostei visse Kelly 17 anos Aldo fica surpreso com a resposta de Kelly Pensou que ia surpreender ela Kelly e não conseguiu Ruan5 entrevistador 5 Ruan e José Mario estagiários da Ação Juvenil apoiaram a realização das rodas de conversa 120 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA A reação de Aldo nos permite discutir sobre a tradição patriarcal que instaura essa dupla moral sexual no imaginá rio de homens e mulheres colocandoos em lugares opostos O homem é exigido ser o comedor e reprodutor e a mulher inferior e sujeita aos prazeres dele o que contribuiu para legitimar e reforçar a ordem aparentemente natural da hierar quia de gênero Parker 1991 p 58 Essa situação é denunciada há anos por feministas como Simone de Beauvoir 1980 que com seu manifesto Nin guém nasce mulher tornase mulher acusa o lugar que ocu pa a mulher em uma sociedade patriarcal e capitalista bases para manter um sistema heterossexual compulsório a ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais Butler 2012 ordem que busca controlar a sexualidade e os prazeres das jovens mu lheres negando na prática seus direitos o que estudos como os de Marion Teodósio Quadros Karla Galvão Adrião e Ana Karina Xavier 2011 p 88 também afirmam Embora existam regulamentações e leis no sentido de garantir o direito a cuidados de atenção nos espaços privados e públi cos os mesmos ainda perpetuam uma lógica que nega a exis tência de desejo e sexualidade de mulheres solteiras sobretudo das jovens Assim apesar dos ganhos obtidos pelas lutas dos mo vimentos feministas e de outros movimentos sociais como os grupos LGBT pelo reconhecimento dos direitos sexuais e reprodutivos ainda impera a heteronorma que reproduz e afirma desigualdades dentro dos circuitos desintegrados como a casa a escola os centros de saúde e a Igreja cristã Rios et al 2008 A Igreja cristã tem participação significativa na sexuali dade dasos jovens que é trazida à tona nos discursos de Ma riana 17 anos e Eduarda 17 anos Elas que asseguram não Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 121 terem transado ainda insistiram em seus depoimentos que o certo é ter sexo só depois do casamento Na Igreja evangélica a gente pensa nessa coisa de fazer sexo só depois do casamento mas tem gente que não vai pela Igreja não Sabe Faz o que quer Mas eu vou pela Igreja Eduar da 17 anos É pecado Eu acho que mesmo se casar amanhã e fazer sexo hoje tá errado Mariana 17 anos Quando você é crente o jovem que casa muito cedo é porque já quer transar Isabela 17 anos A religião cristã convertese em um mecanismo de contro le das práticas sexuais de seus fiéis e com a criação do pecado e especificamente dos pecados da carne implanta nas cons ciências de seus adeptos a culpa o arrependimento do peca dor os quais procuram nas orações confissões o perdão por ter transgredido as regras Rios et al 2008 Foucault 2012 Contudo as mulheres jovens vão subvertendo em suas práticas sexuais esses parâmetros instaurados na Igreja cristã e nos demais circuitos que tentam instaurar mecanismos de repressão como escutamos de nossos interlocutores Eu acho que isso é uma coisa normal para quem saber usar né Paloma 17 anos Lá perto de casa com 12 anos 12 anos Já não é mais virgem a maioria das meninas Aldo 16 anos Mas você chegar e perguntar a uma menina de 23 anos se é vir gem E ela dizer sim Meu Deus do céu Eu acho que isso vai ser motivo de mangação Paloma 17 anos Assim o sexo como menciona Gayle Rubin 2003 é sempre político As práticas sexuais e eróticas são formas de responder às políticas de desigualdades em que muitas re cebem sustento de discursos científicos questionáveis que intentam negar ou adiar o início da vida sexual das jovens 122 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Nessa linha encontramos pesquisas que ressaltam ne gativamente o fato de que as mulheres estejam iniciando sua vida sexual cada vez mais cedo e em idades mais próximas às idades dos homens isso as torna mais vulneráveis a DSTs HIV a uma gestação não planejada eou ao aborto Taquette e Vilhena 2008 Mas será que o problema é o iniciar cedo Ou que não exista mais diferença entre as práticas sexuais de jovens mu lheres e a de jovens homens Ou é não ter acesso a seus di reitos sexuais e reprodutivos não ter facilidades para saber e obter métodos contraceptivos e de proteção o que os torna elas e eles vulneráveis Parece ser que é mais fácil negar a se xualidade das e também dos jovens que observar a efetividade de políticas de acesso a educação sexual e cuidados em saúde sexual e reprodutiva Além das desigualdades com que essas políticas são executadas A esse respeito nossasos interlocutorases manifestam a necessidade de receber informação na escola sobre como usar a camisinha Na escola deve ter uma foto para entender isso Aldo 16 anos Uma aula Mariana 17 anos A forma como evitar engravidar e mais Porque muitas pesso as não sabem Aí na hora de praticar vai sem saber como colocar aí a camisinha estoura E tudo mais Aldo 17 anos Diante dessa carência de informação na escola nem todasos asos jovens procuram outros meios ou têm o cos tume de procurar os serviços de saúde para esclarecer dúvidas sobre sua sexualidade Paiva et al 2008 Às vezes por desco nhecimento desses serviços como vemos na fala de Mariana 17 anos não é que uma pessoa chegue lá e peça isso ou por entraves que apresenta o próprio serviço Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 123 Assim as práticas sexuais e reprodutivas dasos jovens não são assimiladas com tranquilidade e respeito a seus di reitos e sim cobradas em maior medida às mulheres que aos homens E se elas confirmarem publicamente sua atividade sexual podem ser vítimas de críticas morais e inclusive violên cia como observamos na seguinte conversa Os pais dela souberam que já transo Que poderia acontecer Rocio entrevistadora Eles a matariam Lara 17 anos Poderia ser expulsa de casa Luana 17 anos Botavam eles pra se casar Isabela 17 anos No primeiro momento seria um espanto mas depois levar uma surra na menina não adianta nada né Não vai voltar o lacre virgindade né Lucas 17 anos Dessa forma a mulher é punida por ter perdido o lacre a virgindade ter perdido o sinal de sua pureza diante dos perigos do sexo Ela é até maltratada por transgredir a norma de abstinência e revelar que é sujeito sexuado com uma car reira sexual em curso Heilborn 1999 Por isso em um quo tidiano marcado por desigualdades muitas vezes até naturali zadas elas apresentam maiores dificuldades para acessar seus direitos sexuais e reprodutivos e procurar serviços de saúde Entretanto quais práticas sexuais são essas que asos jo vens indicam como marcando o início de sua vida sexual Ou se de fato é o sexo com penetração que marca o início da vida sexual delases como algumas pesquisas pressupõem Villela e Doreto 2006 Para responder a esse quesito trazemos algu mas respostas de nossasos interlocutorases Eu acho que quando tem uma relação sexual Tem o sexo oral sexo anal eou normal que é a vagina Aldo 16 anos eu tenho um amiga que é virgem da frente e de atrás não é Ela é meio virgem Kelly 17 anos 124 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Mas se for só pela frente Nunca por atrás Ruan entrevistador Nem existe esse negócio de meio virgem pra falar o verda deiro eu acho que não é mais Kelly 17 anos Uma pessoa masturba a outra Isso é considerado sexo Ruan entrevistador É Se for pra mim é homem com mulher né beijo amasso6 também Aldo 16 anos Aquele chameguinho Kelly 17 anos Em tais diálogos observamos que as práticas sexuais que definem o início da vida sexual dao jovem estão atreladas a aprendizados do que é considerado normal e à virgindade atribuindo diferentes conotações e hierarquias a esse início Isso convida a organizálo em três categorias a primeira com o ato sexual de penetração sendo o sexo vaginal o normal e responsável pela perda completa da virgindade e o sexo anal ou forma antihigiênica de ter sexo que mantém a pessoa meio virgem como Kelly mencionou pois sua amiga tinha iniciado a vida sexual praticando só sexo anal e ainda manti nha pela frente parte de sua virgindade De outro lado ao considerar que o normal é o sexo vaginal desconsideramse ou desapreciamse outros estilos outros exercícios sexuais de lésbicas travestis gays entre outros inclusive de heterossexu ais que subvertem em seus lençóis a própria heteronorma Na segunda categoria temos o sexo oral considerado uma prática sexual diferente sendo sua virgindade duvido sa Pensar em bocagenital pode ser ofensivo para algumas pessoas daí a procura de acordos Já a terceira categoria reúne as práticas sexuais que não disputam a virgindade e que não implicam a penetração de genitais como as carícias os beijos a masturbação comparti 6 Amasso é um termo êmico que no grupo significa quando duas pessoas ficam juntas e naquele momento muitas coisas podem acontecer além de beijos carícias abraços e às vezes até contatos sexuais definição dada por Luana e Eduarda Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 125 lhada o amasso o chamego7 e outras ainda não ouvidas ou não nomeadas O início da vida sexual para nossasos participantes acontece em parceria daí que a prática da masturbação feita de maneira solitária não é considerada marcador dessa experi ência Esta é mais aceita como exercício sexual mais de meni nos que de meninas que têm ainda muito preconceito sobre isso pois elas acham que o ato sexual deve conter tudo isso não precisando se masturbar como forma de conhecer seus prazeres Além de ser proibido pela religião cristã Outro ponto importante a mencionar é como o desen volvimento corporal associado à idade serve para muitasos jovens como indicador para que as mulheres sejam considera das aptas para iniciar sua sexualidade Observemos algumas conversas Tem a ver também pelo corpo Tem a ver com o corpo também Aldo indicando a Eduarda Ela não tem seios não aparecem muitos seios ainda entendeu Aldo 16 anos tipo deixar o corpo crescer amadurecer mais muito pron to também prejudica pode deixar com deformações no corpo Roberta 18 anos Desse modo o corpo e suas estruturas anatômicas são carregados de significados que no cotidiano sexual dao jo vem estão atrelados à maturidade corpórea à maior idade do sujeito Ser considerado mais velho em um contexto adul tocêntrico e desenvolvimentista parece ser uma saída para conseguir certas liberdades mobilidades e reconhecimento de direitos de prazeres e da sexualidade Daí que crianças Quei roz 2013 e jovens que ainda não alcançam esse status de maior idade são quase obrigados a mobilizar certas estratégias para 7 Chamego é uma demonstração de afeto que inclui abraços e beijos É ficar grudadi nho nao parceirao definição dada por Luana 126 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA apresentar uma performance de maior idade e procurar espaços na clandestinidade para exercer suas práticas sexuais fora dos olhos do mundo adulto 2 Namorar quem tem direito Lucas 17 anos compartilhou em um encontro conosco que tinha começado a namorar sério e que esteve disposto a apresentarse aos pais da namorada mas ela não quis Ela ti nha temor de falar com os pais e preferia cumprir os 18 anos ou seja ser considerada de maior idade para conversar sobre isso com eles Assim eles mantêm um relacionamento ilegal fora dos olhos da família Com esse relato abrimos o debate sobre quem está permitido namorar Que significados tem para eles namorar E em que condições as relações afetivo sexuais se desenvolvem Lucas entende por que sua namorada prefere se calar ele já tinha afirmado que a sociedade exige da mulher ser mais reservada e se guardar dos prazeres da sexualidade reafirman do assim as desigualdades de gênero e por conseguinte a heteronorma E se alguma jovem mulher tem certas liberdades de na morar essa união tem de reunir certas características Como experiência trazemos o depoimento de Isabela que nos conta incomodada sobre as exigências que sua mãe tem sobre o fu turo genro Tem que ser alguém da religião ela quer fazer o relatório todinho se ele trabalha se estuda de que religião ele é quantos anos ele tem quem são os pais Exemplo que demonstra como a família e a religião são circuitos que se integram para intervir na escolhaimposição de um parcei ro Instituições que ditam regras para manter o patriarcado a heteronorma em que a mulher é assujeitada a seguir esse destino heterossexual E não somente elas também os grupos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 127 LGBT são obrigados a esconder seus vínculos afetivosexuais para que a ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais não se veja quebrantada Entretanto os homens também são afetados pela ló gica heterossexista pois precisam demonstrar na sexualidade sua masculinidade Como diz Isabela Tenho um colega que o pai levou ele pra iniciarse num cabaré Eu acho que o homem também sofre preconceito pelo fato de ser obriga do a ter relações sexuais com uma mulher O que confir ma que a heterossexualidade ainda se vende como a forma mais natural de viver a sexualidade Como indica Welzer Lang 2001 p 468 De fato o duplo paradigma naturalista que define por um lado a superioridade masculina sobre as mulheres e por outro lado normatiza o que deve ser a sexualidade masculina produz uma norma política androheterocentrada e homofóbica que nos diz o que deve ser o verdadeiro homem o homem normal Este homem viril na apresentação pessoal e em suas práticas logo não afeminado ativo dominante pode aspirar a privilé gios do gênero Os outros ao grupo dos dominadasos que compreendem mulheres crianças e qualquer pessoa que não seja um homem normal grifo nosso A escola como o lugar de maior socialização dasos jovens também participa lamentavelmente da manutenção desse sistema heterossexista Vejamos a respeito alguns depoimentos Em minha escola já teve um caso parecido Só que com me ninas elas estavam começando a alisar aí uma colega veio e gravou pegou o vídeo e espalhou por toda a escola e os colegas da sala começaram a encher o saco delas a puxar as cadeiras tratando mal sabe Aí elas saíram da escola Aí depois delas teve outro caso dos meninos que estavam se beijando no cor redor da sala aí os meninos da escola começaram a xingar 128 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA insultar a cara deles Eduarda 17 anos Uma vez encontraram dois amigos meus se beijando cha maram seus pais ao conselho tutelar no final os dois saíram da escola Lucas 17 anos Para asos própriasos alunasos ver casais homosse xuais convertese em algo raro esquisito que precisa ser repri mido e punido de alguma forma Daí que alguns jovens LGBT criaram estratégias para ocultar sua sexualidade aos olhos de seus colegas da escola Destarte a falta de educação sexual efetiva na escola em especial em temas relacionados com o gênero converte esse espaço em reprodutor de desigualdades e discriminações como Neil Almeida 2011 p 16 diz A homofobia permane ce marcando de diferentes maneiras o cotidiano escolar nas relações estabelecidas entre todasos que ali estão alunasos e docentes Tanto assim que parece que professorases e alunasos são tacitamente heterossexuais E se alguma cole ga se atreve a manifestar o contrário é rapidamente repelidoa assim como manifestam nossasos interlocutorases eu acho que deve ter coragem né Aline 17 anos Se ele quer se assumir que assuma né Eu fico na minha Mi chael 19 anos Eu não tenho problema nenhum se você é de Umbanda Evan gélica Mas eu acho que é pelo homossexualismo porque a pessoa pensa eu não vou andar com homossexual porque vão dizer que eu sou Lucas 17 anos Como observamos nas conversas uma pessoa que deseje reconhecerse homossexual perante a sociedade necessita ter força para conseguir afrontar a sobrecarga de discriminações e abandonos dos quais será alvo inclusive daquelases que são mais próximasos como asos amigasos grupo afetivo considerado importante na vida das pessoas além da família Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 129 Assim ter uma amigoa homossexual pode provocar ten sões e dúvidas diante dos outros sobre sua masculinidade ou feminilidade constrangimento que muitos preferem evi tar No entanto é preciso dizer que algumasns de nossasos interlocutorases não estiveram de acordo com o dito pelos colegas Elases afirmaram que apoiariam suaseu amigao para que assumissem sua sexualidade Nas palavras de Carlos 17 anos Eu chegaria a falar do assunto com ela ou ele certo que tu gosta dela ou dele Massa Felipe Rios 2009 ressalta que a maioria de marginaliza ções e exclusões sofridas por pessoas homossexuais provém do grupo de amigos vizinhos e do próprio ambiente da esco la ou da faculdade o que põe em evidência a violência insti tucional que sofrem essas pessoas em lugares que possuem aparentemente a missão de promover a cidadania e os direi tos Para o autor é preciso que asos educadorases fiquem atentasos a seu papel no campo de saberes poderes e desejos sobre a sexualidade e o gênero tanto no que se refere ao con teúdo curricular quanto nas demandas do cotidiano escolar que determinam o que é inteligível ou não Daí a importância de se desconstruírem essas naturalizações Contudo nas relações afetivosexuais não só as des igualdades de gênero são as que atuam como marcadores so ciais que respondem quem pode ou não ter direito a namorar Também as tensões relacionadas com a raça eou a classe so cial intervêm na formação ou na manutenção de um casal A esse respeito nossasos interlocutorases nos trazem algumas de suas experiências Mas assim é muito difícil um homem pobre namorar uma mulher rica Rocio entrevistadora Os pais não iriam aceitar um homem pobre mas quando é uma menina é mais clássico Michael 19 anos E também se pode levar este negócio para a profissão O homem por exemplo se sente um pouco retraído ao namorar 130 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA uma juíza é tanto pelo preconceito não sei lá pela sociedade né A ideia da sociedade que a mulher tem que ser menor do que o homem Isabela 17 anos E alguma vez vocês presenciaram algum problema com respei to à cor Rocio entrevistadora Sim Eu vou contar de minha prima ela namorava mas agora já tá casada né Mas ela esteve namorando com um rapaz bem moreninho negro e a família dela não queria porque era bem clássico fazendo referência à cor entendeu por causa da pobreza dele também Kelly 17 anos Mas se ele fosse de uma classe social melhor eles aceitariam José Mario entrevistador Eu acho que a família iria aceitar mas não por causa da cor dele e sim porque ele tinha e ela não entendeu Kelly 17 anos A classe social proveniente do desenvolvimento econômi co e profissional parece ser mais atrativa e importante para que o casal receba a aprovação familiar No entanto esperase também que o homem e não a mulher seja quem demonstre as melhores condições sociais e econômicas características de sua masculinidade para levar adiante o namoro eou casa mento algo próprio do amor romântico o que reforça hie rarquias sociais entre gênero raça e classe Segundo Márcio Mucedula Aguiar 2007 a raça atrela da à cor configura uma construção social que guarda certo significado simbólico para pensar as diferenças e a estrutura de classes Por isso a diferença entre elas é muito tênue No Brasil por exemplo esperase que as pessoas afrodescenden tes se encontrem em camadas mais pobres por seu passado escravista a que foram expostas como se a pobreza tivesse a cor negra Algo que também observamos na fala de Kelly ela evita mencionar a raça negra usando palavras como bem moreninho para embranquecer essa raça Entendo que a simples menção à raça pode resultar em algo pejo rativo e remarcar a posição do sujeito subalterno Spivak 2010 Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 131 E nesse cenário de desigualdades é que asos jovens se relacionam e formam vínculos afetivosexuais como mencio nam nossasos interlocutorases Ninguém é feliz sozinho né Todo mundo precisa é contar conversar com sei lá Uma pessoa que tenha as mesmas ideias que você né Mariana 17 anos Vocês todos aqui já namoraram Ruan entrevistador Só ficar namoro sério não Luana 17 anos O que é sério Ruan entrevistador É você se comprometer e ter a intenção de formar uma família Mariana 17 anos Eu acho que depende se uma pessoa gostar e não rolar gaia traição aí pode sim é curtir É ir às festas praticar outras coisas hahaha Ir ao cinema ir à casa dela O pra zer Para mim é essencial o prazer Aldo 16 anos A descrição do namoro como a busca da felicidade por meio de um relacionamento de encontrar uma pessoa certa de um compromisso sério da confiança mútua de objetivos em comum de formar uma família engatado a momentos de curtição e de prazer remetenos a pensar que mesmo com os avanços tecnológicos a globalização e a flutuação nas relações contemporâneas asos jovens ainda mantêm na ideia de na moro certas expectativas do amor romântico Tatiana Meirelles 2011 destaca que a expressão namo ro sério é referida ainda hoje como um tipo de relaciona mento amoroso que se preocupa em manter a fidelidade e a durabilidade além de requerer no caso das jovens a autoriza ção e o reconhecimento pelo paimãe embora a não aceitação dos pais ou a não solicitação da permissão não signifique o fim do namoro como a experiência de Lucas e sua namorada que mencionamos no início desse tema Para Parker 1991 são os sistemas de sexualidade e gêne ro que articulam claramente repertórios de práticas sexuais 132 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA em que algumas são definidas como aceitáveis e outras como proibidas o que dificulta que asos jovens tenham uma vida sexual responsável por causa do pouco apoio social e logísti co que recebem para essa prática Esse contexto leva muitos jovens a transgredir os limites para vivenciar outras possibi lidades sexuais sentidas como algo erótico e excitante abrin do outras formas de reinterpretação da vida sexual e também outras possibilidades de prazer Desse modo surgiram na ilegalidade outros tipos de vínculos afetivosexuais para que ao jovem desfrute de sua sexualidade Nossasos participantes descreveram três mo dalidades a primeira o ficar em que pode rolar desde um beijo um amasso até a transa em si com alguma pessoa des conhecida ou não O que caracteriza esse tipo de vínculo é seu caráter passageiro embora alguns possam passar de fican tes ocasionais a fixos até namoro sério O ficar também foi uma saída para que as jovens pu dessem viver sua sexualidade com certa tranquilidade na medida em que ao praticálo escondido da família não ti nham de dar satisfações a ninguém quando o vínculo amo roso acabasse Diógenes 2007 Embora se espere que a mu lher fique com menos frequência que o homem porque pode ser mal vista Eu acho isso feio diz Paloma 17 anos ao referirse à mulher que fica com um e outro diferente mente de Aldo 16 anos que diz é bom pegar um e ou tro Assim o ficar parece também ser um comportamen to que advém de velhos preconceitos apresentando uma hierarquização de valores que dividem as mulheres boas para namorar e casar daquelas só boas para ficar Nasci mento 2009 Amizade colorida foi a segunda modalidade menciona da pelasos jovens e significa aquela amizade com direito a ter outro tipo de relações ou seja relações sexuais Nesse mo delo encaixamse amizades com os exnamorados Eduarda Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 133 17 anos Luana 17 aos e Kelly 17 anos afirmam ter expe rimentado esse vínculo como algo prazeroso em que existe a confiança de conversar e fazer coisas diversas embora não exista o compromisso da fidelidade E a última modalidade o conheceremse que Roberta 18 anos nos descreve como um tipo de relacionamento no qual duas pessoas estão apreciando a possibilidade de namo rar ou não Nesse processo os parceiros podem se beijar dar um amasso ter um chamego são expressões sexuais que não implicam o coito Como observamos para nossasos interlocutorases existem duas formas de manifestar sua sociabilidade sexual por um lado as práticas românticas comprometidas como o namoro sério advindas do ideário clássico E por outro as que acontecem na clandestinidade em que suas vivências sexuais são mais fluidas e transitórias surgidas a partir do contexto da contemporaneidade Segundo Anthonny Giddens 1993 o amor romântico passou a ter maior presença no final do século XVIII quan do as práticas sexuais consentidas e por prazer dentro de um relacionamento amoroso passaram a ser importantes para o casamento Totalmente diferente da Idade Média período em que o casamento era um contrato estipulado pelos pais para afiançar alianças econômicas entre famílias e concretizar a descendência mediante a reprodução Aos homens era permi tida a paixão nos relacionamentos extraconjugais liberdade que as mulheres não tinham Mas a propagação desse amor aparentemente subversi vo desse amor romântico foi um enredo engendrado pelos homens contra as mulheres para encher suas cabeças com sonhos fúteis e impossíveis Giddens 1993 p 52 A ideia de um amor puro eterno de igualdade sexual e emocional só serviu para posicionar a mulher no lar no priva do e seu irremediável destino como esposa e mãe 134 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA O amor romântico vendese na categoria de drama no velas contos de fadas garantese uma história de sofrimento amoroso como os que conta Kelly ele pode ter feito o que for ele pode ter traído mas naquele momento que você diz que vai acabar Na sua cabeça nunca vem o que ele fez na primeira hora vejo o que a gente viveu Posiciona mento que pode tornálas vulneráveis no sentido de esquecer os cuidados de si pela manutenção do namoro Como indica Nascimento 2009 algumas práticas de violência são enco bertas como amor e justificadas por esse sentimento como algo normal e socialmente aceitável em um relacionamento amoroso o que não é restrito ao casal heterossexual Para Sofia Neves 2007 o amor romântico reproduz e legitima desigualdades reforça as relações de poder desnive ladas garantindo a continuidade do sistema patriarcal De modo que muitas mulheres são como encantadas pelo ideal do amor para sempre para assumir características e funções diferenciadas no espaço doméstico e público Daí a impor tância de entender como se configuram os comportamentos e sentimentos entre os casais a fim de atingir os objetivos de programas de educação e promoção de direitos sexuais e reprodutivos 3 Notas nem tão finais As discussões trazidas são evidências de como o poder cir cula se reproduz e assujeita a sexualidade dasos jovens por ideologias patriarcais em um cenário capitalista e heterosse xista Essas formas hegemônicas de constituição das relações mantêm micro e macropolíticas para sustentar a exigência da ordem do sexogênerodesejopráticas sexuais Desse modo as desigualdades coexistem dentro da fa mília da escola na Igreja cristã no posto de saúde circuitos Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 135 que se integram e na outra hora se desintegram gerando di ficuldades àsaos jovens para ter acesso a seus direitos e sua saúde sexual e reprodutiva sendo cenários mais constrange dores para as mulheres e para os grupos LGBT Com tudo isso asos jovens encontraram nos espaços da ilegalidade formas de subverter a norma e os parâmetros tradicionais de viver a sexualidade e seus prazeres embora es sas formas de agência sejam muitas vezes paradoxais e por conseguinte nem totalmente libertárias sendo mais manifes to no modo como se desenvolvem os vínculos afetivosexuais e nas regras sobre quem tem direito a ter prazer ou não A esse respeito Butler 2006 p 16 menciona esse caráter complexo e paradoxal da agência que implica questionar as normas que restringem a vida e convocam modos diferentes de viver Mi agencia no consiste en negar la condición de tal constitución Si tengo alguna agencia es la que se deriva del hecho de que soy constituida por un mundo social que nunca escogí Que mi agencia esté repleta de paradojas no significa que sea imposible Significa sólo que la paradoja es la condición de su posibilidad Como resultado el yo que soy se en cuentra constituido por normas y depende de ellas pero también aspira a vivir de maneras que mantengan con ellas una relación crítica y trans formadora Desse modo estar atentasos a como opera a categoria de gênero em interseção com as categorias de raça classe so cial e geração enriquece o processo de pesquisa facilitanos entender e visibilizar as diferenças reproduzidas em uma so ciedade desigual e no contexto das cidades de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Por último ainda se tem muito a fazer para que mulheres e homens jovens lésbicas gays bissexuais travestis transexuais possam desfrutar de sua sexualidade e seus prazeres em um am biente de cuidado e responsabilidade com suas práticas sexuais 136 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Referências ADRIÃO K G Perspectivas feministas na interface com o processo de pesquisaintervençãopesquisa com grupos no campo psi In labrys coletânea feminismos e psicologia n 26 Jul dez 2014 AGUIAR M M A construção das hierarquias sociais classe raça gênero e etnicidade Cadernos de Pesquisa do CDHIS UFU v 3637 p 8388 2007 ALMEIDA N F P Homosexualidades e gênero nos documentos oficiais da educação In REUNIÃO ANUAL DA ANPED 34 2011 Natal Anais Natal Associação Nacional de Pósgraduação e Pesquisa em Educação 2011 39GT23 BEAUVOIR S de O segundo sexo a experiência vivida 2 ed Rio de Janeiro Nova Fronteira 1980 BUTLER J Deshacer el género Barcelona Paidós Ibérica 2006 Problemas de gênero feminismo e subversão de identidade 4 ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2012 CASTRO M G ABRAMOVAY M SILVA L B da Juventudes e sexualida des Brasília Unesco Brasil 2004 DIÓGENES K M O ficar um estudo fenomenológico sobre os novos vínculos afetivos entre mulheres e homens adultos na cidade de Fortaleza Dissertação Mestrado em Psicologia Unifor Fortaleza 2007 FOUCAULT M História da sexualidade a vontade de saber 22 impr Rio de Janeiro Graal 2012 v I GAGNON J H Os roteiros e a coordenação da conduta sexual In Uma interpretação do desejo ensaios sobre o estudado da sexualidade Rio de Janeiro Garamond 2006 p 111149 GIDDENS A A transformação da intimidade sexualidade amor e erotismo nas sociedades modernas São Paulo Universidade Estadual Paulista 1993 Diálogos sobre sexualidades Rocio del Pilar Bravo Shuña e Karla Galvão Adrião 137 HARAWAY D Manifesto ciborgue ciência tecnologia e feminismosocia lista no final do século XX In TADEU T Org Antropologia do ciborgue as vertigens do póshumano Belo Horizonte Autêntica 2009 p 33118 HEILBORN M L Construção de si gênero e sexualidade In Org Sexualidade o olhar das ciências sociais IMSUERJ Rio de Janeiro Zahar 1999 p 4059 MEIRELLES T Pegar ficar namorar jovens mulheres e suas práticas afetivosexuais na contemporaneidade Dissertação Mestrado em Educa ção UFRGS Porto Alegre 2011 NASCIMENTO F S Namoro e violência um estudo sobre amor namoro e violência para jovens de grupos populares e camadas médias Dissertação Mestrado em Psicologia PPGPUFPE Recife 2009 144 f NASCIMENTO M A G do SILVA C N M da Rodas de conversa e ofici nas temáticas experiências metodológicas de ensinoaprendizagem em ge ografia In 10o ENCONTRO NACIONAL DE PRÁTICA DE ENSINO EM GEOGRAFIA 10 2009 Porto Alegre AnaisPorto Alegre UFRGS 2009 NEVES S As mulheres e os discursos genderizados sobre o amor a cami nho do amor confluente ou o retorno ao mito do amor romântico Re vista Estudos Feministas v 15 n 3 p 609627 2007 PAIVA V et al Idade e uso de preservativo na iniciação sexual de ado lescentes brasileiros Revista de Saúde Pública São Paulo v 42 supl 1 jun 2008 PARKER R G Corpos prazeres e paixões a cultura sexual no Brasil contem porâneo 3 ed São Paulo BestSeller 1991 PISCITELLI A Reflexões em torno do gênero e feminismo In COSTA C de L SCHMIDT S P Org Poéticas e políticas feministas Florianópolis Mulheres 2004 p 5455 QUADROS M T ADRIÃO K G XAVIER A K Circuitos desintegra dos Relações de convivência entre mulheres jovens e profissionais de saú de numa comunidade de periferia da cidade do Recife PE In NASCI 138 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA MENTO P RIOS L F Org Gênero saúde e práticas profissionais Recife UFPE 2011 p 7394 QUEIROZ T N de Significados de sexualidades entre crianças em uma escola municipal de Cabo de Santo AgostinhoPE Dissertação Mestrado em Psicolo gia UFPE Recife 2013 RIOS L F Homossexualidade no plural dos gêneros reflexões para in crementar o debate sobre diversidade sexual nas escolas In SCOTT P LEWIS L QUADROS M Org Gênero diversidade e desigualdades na edu cação interpretações e reflexões para formação docente Recife UFPE 2009 p 97116 et al Os cuidados com a carne na socialização sexual dos jo vens Psicologia em Estudo Maringá v 13 n 4 dez 2008 RUBIN G Pensando o sexo notas para uma teoria radical das políticas da sexualidade Cadernos Pagu n 21 p 188 2003 SHUÑA R del P B Diálogos sobre sexualidade com asos adolescentes jovens de Cabo de Santo Agostinho e IpojucaPE Dissertação Mestrado em Psicologia UFPE Recife 2014 SPIVAK G Pode o subalterno falar Belo Horizonte UFMG 2010 133 p TAQUETTE S R VILHENA M M de Uma contribuição ao entendi mento da iniciação sexual feminina na adolescência Psicologia em Estudo Maringá v 13 n 1 mar 2008 VILLELA W V DORETO D T Sobre a experiência sexual dos jovens Cadernos de Saúde Pública Rio de Janeiro v 22 n 11 p 24672472 nov 2006 WELZERLANG D A construção do masculino dominação das mulheres e homofobia Rev Estud Fem v 9 n 2 p 460482 2001 Políticas de equidade para a população LGBT relato de experiências sobre capacitações dosas profissionais das políticas públicas do estado de Santa Catarina Daniel K dos Santos Gabriela A Diaz Marília dos S Amaral e Maria Juracy F Toneli 1 Introdução O presente trabalho tem sua origem em um projeto maior elaborado e executado em parceria entre o Núcleo Margens Modos de Vida Família e Relações de Gênero PSI UFSC e a Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade Adeh organização não governa mental com sede em Florianópolis e diretoria associada à população travesti e transexual intitulado Direitos e vio lências na experiência de travestis e transexuais em Santa Catarina construção de perfil psicossocial e mapeamento de vulnerabilidades Duas grandes frentes de trabalho compunham o proje to que contou com apoio da Secretaria de Direitos Huma nos por meio de edital Uma delas fortemente caracteriza da como pesquisa mapeou as vulnerabilidades violências e acesso às políticas públicas da população de lésbicas gays bissexuais travestis transexuais e transgêneros LGBT no município de Florianópolis por meio de questionários 200 e grupos focais com pessoas LGBT bem como entrevistas com gestoresas de políticas públicas e participantes de or ganizações não governamentais ONGs que trabalham nes sa área Na segunda frente mais voltada para intervenção a 140 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA atividade central foi composta por cursos de capacitação ofe recidos a operadoresas das políticas públicas de educação saúde assistência social segurança pública turismo cultura e esporte É neles que centraremos nosso olhar no presente texto Elaboramos um programa de capacitação para cada secre taria de modo que pudemos nos concentrar em temas especí ficos e focar as particularidades de cada área Cada capacitação teve duração de 20 horas as quais foram divididas em dife rentes dias dependendo da disponibilidade das secretarias Entre osas participantes estavam presentes servidoresas técnicosas conselheirosas e gestoresas As capacitações visaram a sensibilizar osas servidoresas públicosas das respectivas secretarias sobre questões perti nentes à diversidade sexual e de gênero no cotidiano de suas ati vidades profissionais e em suas práticas como operadoresas de políticas públicas Entendemos que para que políticas de equidade sejam efetivadas não basta apenas a criação de leis portarias e programas mas é preciso também que os sujeitos que operam na ponta dessas políticas aqueles e aquelas que estão de fato em contato direto com as populações e grupos que podem ser beneficiados por elas apropriemse do conte údo e do significado histórico político e social que elas repre sentam Desse modo procuramos articular a realidade coti diana dosas profissionais de cada secretaria a um contexto macropolítico relativo às políticas de gênero e de sexualidade na esfera tanto nacional quanto internacional Em nosso relato problematizaremos a forma como es truturamos nossas capacitações o conteúdo desenvolvido as especificidades de cada secretaria no trabalho com questões de diversidade sexual e de gênero as dificuldades encontradas durante nossas intervenções os discursos e enunciados que circularam entre participantes e facilitadoresas assim como os impasses e possíveis avanços que intervenções como essas Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 141 podem proporcionar no âmbito das políticas públicas e dos direitos humanos Consideramos que as capacitações ofereci das funcionaram como um dispositivo de interlocução entre universidade movimento social e profissionais das políticas públicas bem como uma forma de sensibilização para se pen sar e efetivar políticas de equidade para a população LGBT no contexto das políticas públicas de assistência educação saú de turismo cultura e esporte 2 Equidade para a população LGBT um breve apontamento sobre contornos políticos e sociais Como mencionado as capacitações tiveram como obje tivo principal sensibilizar osas servidoresas públicosas sobre a questão da diversidade sexual e de gênero em suas áre as de atuação no que diz respeito à efetiva implementação de políticas públicas voltadas para a população LGBT de modo a garantir seus direitos nesse campo Nesse sentido quando falamos em políticas de equidade para a população LGBT estamos nos referindo a todo um processo de construções históricas e de lutas de movimentos sociais que há algumas décadas vem formulando uma agen da política que reivindica o alargamento dos direitos sociais sexuais humanos e da noção de cidadania Tais lutas pelo re conhecimento político de grupos minoritários como a popu lação LGBT as mulheres a população negra e a população indígena vêm mobilizando diversas iniciativas nos âmbitos jurídicos sociais e políticos tanto na esfera nacional como pode ser observado em políticas de governo e de Estado quan to na esfera internacional presentes em princípios e tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil é signa 142 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA tário como aqueles produzidos por instituições como a Orga nização das Nações Unidas ONU e a Anistia Internacional e por grupos de especialistas militantes e ativistas como os Princípios de Yogyakarta1 por exemplo No Brasil no âmbito dos direitos LGBT temos como marco histórico o documento Brasil sem homofobia programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e de promoção da cidadania homossexual lançado em 2004 pelo Governo Federal Esse programa tem como um dos objetivos centrais a edu cação e a mudança de comportamento de gestores públicos e a integração interministerial visando à erradicação das violências contra as diversidades sexuais e de gênero à não discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero e à garantia dos direitos humanos da população LGBT O Brasil sem homofobia entende que o combate à ho mofobia é um compromisso do Estado e de toda a sociedade brasileira Também merece destaque a Política nacional de saúde in tegral de lésbicas gays bissexuais travestis e transexuais Brasil 2010a criada pelo Ministério da Saúde em 2010 para ser im plementada pelo Sistema Único de Saúde SUS e fundada a partir de diretrizes do Programa Brasil sem Homofobia Brasil 2004 e do Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH 3 Brasil 2010b Tal política caracterizada por um caráter transversal que envolve diversas áreas do Ministério da Saúde foi formulada por vários setores da sociedade e aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde após consulta pública Apesar dos esforços dos movimentos sociais e das escas sas conquistas no campo dos direitos humanos ainda falta 1 Os Princípios de Yogyakarta são produto da reunião de 29 especialistas na questão da sexualidade e direitos humanos de 25 países diferentes na Universidade Gadjah Mada em Yogyakarta Indonésia em novembro de 2006 Os 29 princípios tratam da aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e iden tidade de gênero Princípios de Yogyakarta 2007 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 143 muito para alcançarmos de fato uma sociedade mais justa democrática e menos excludente Temos testemunhado co tidianamente situações de violências simbólicas psicológi cas físicas assassinatos de LGBT cerceamento de direitos como a dificuldade para retificação de nome civil no caso das pessoas trans a dificuldade para oficializar união estável e casamento civil entre pessoas do mesmo sexo bem como para adotar crianças a dificuldade de garantir acesso a direi tos básicos como educação e saúde especialmente para tra vestis e transexuais etc Tais impasses se materializam no boicote à aprovação de políticas públicas por parte de grupos conservadores e fundamentalistas que vêm ganhando espaço nas diversas esferas governamentais Como exemplo de obs táculos impostos por esses grupos políticos podemos citar a censura do Ministério da Saúde às propagandas de prevenção ao HIVAids direcionadas às profissionais do sexo e à popula ção LGBT o veto ao material didáticopedagógico populari zado como kit antihomofobia que seria direcionado à edu cação e mais recentemente a retirada da diretriz do Plano Nacional de Educação PNE2 que propunha a superação das desigualdades educacionais com ênfase na promoção da igualdade racial regional de gênero e de orientação sexual A retirada das categorias desigualdade de gênero e de orien tação sexual indica a influência das bancadas conservadoras na deslegitimação do próprio PNE que foi construído a partir da Conferência Nacional de Educação em 2010 da qual par ticiparam diversos segmentos da sociedade civil Além disso acontecimentos como esses fragilizam as lutas contra as dis criminações por causa de orientação sexual e identidade de gênero sobretudo em espaços considerados de fundamental 2 O Plano Nacional de Educação foi aprovado a partir da Lei no 13005 de 25 junho de 2014 que estabelece 20 metas a serem cumpridas na área da educação em um período de 10 anos 144 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA importância na socialização e na constituição dos sujeitos como a escola Diante desse quadro ainda que os documentos oficiais como o Brasil sem homofobia norteiem ações e sejam importan tes marcos na construção dos direitos humanos da popula ção LGBT temos vivido um tenso campo de forças no cená rio político brasileiro que vem inviabilizando a construção e a efetivação de políticas de Estado que protejam sujeitos que destoam da heteronorma3 do heterossexismo4 e do cissexis mo5 Foi a partir da constatação da precariedade das vidas de muitos desses sujeitos e da negligência do Estado em relação às violências que a população LGBT sofre e a partir de um compromisso ético e político do Núcleo Margens e da Adeh que este projeto de intervenção foi pensado 3 Quando falamos em heteronorma referimonos a um conjunto de práticas e discursos normativos que se materializam de forma implícita eou explícita e que preveem eou predeterminam que a única forma de orientação sexual possível legítima normal e aceita é a heterossexualidade A heteronormatividade pressupõe uma suposta coerên cia interna e linear entre um sistema sexogênerodesejo Butler 2003 Assim diante desse quadro de referência qualquer orientação sexual não heterossexual será margina lizada considerada desviante ininteligível e entendida como anormal Localizarse como um sujeito que destoa da heteronormatividade implica um risco de estar exposto a violências de toda ordem física verbal psicológica simbólica de Estado etc 4 Segundo Rogério Junqueira 2013 o termo homofobia se aproxima da noção de heterossexismo mas não a sobrepõe Ao considerar a centralidade das discussões de gênero o autor considera adequado empregar heterossexismo ao lado de homofobia e enfatizar que a última deriva do primeiro p 495 Assim também a partir dos ideais regulatórios sobre a sexualidade e o gênero que tomam a heterossexualidade como modelo e o masculino como referência universal o heterossexismo engloba as atitudes de preconceito discriminação e manifestações de ódio contra qualquer sexualidade não heterossexual e perpetuando a ideologia de que existe um sexo superior a outro 5 Segundo Jaqueline Gomes de Jesus 2012 p 28 o cissexismo seria uma ideologia resultante do binarismo ou dimorfismo sexual que se fundamenta na crença estereoti pada de que características biológicas relacionadas com o sexo são correspondentes às características psicossociais relacionadas com o gênero O cissexismo no nível institu cional redunda em prejuízos ao direito à autoexpressão de gênero das pessoas criando mecanismos legais e culturais de subordinação das pessoas cisgênero e transgênero ao gênero que lhes foi atribuído ao nascimento Para as pessoas trans em particular o cis sexismo invisibiliza e estigmatiza suas práticas sociais Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 145 3 As experiências de capacitações como um dispositivo político No planejamento dos cursos algumas considerações ini ciais mostraramse importantes Tínhamos consciência de que as capacitações funcionariam mais como um espaço de sensibilização e reflexão do que como um curso de formação ou capacitação propriamente dito Isso porque acreditamos que as discussões sobre diversidades sexuais e de gênero de vem ser conduzidas como tópicos pertinentes às formações continuadas e não como um assunto que possa se encerrar em algumas horas As temáticas apresentadas nos encontros envolveram questões que afetam e confrontam diretamente crenças pessoais tabus valores morais e religiosos Assim es ses debates pressupunham uma relação dialógica constante que questionasse perspectivas individualizantes e problema tizassem as sexualidades e as relações de gênero a partir da perspectiva política dos direitos humanos Procuramos destacar que na posição de servidoresas públicosas de um Estado laico a diversidade sexual e de gê nero deve ser tratada pela perspectiva dos direitos humanos e não por vieses que tomam a heterossexualidade e a cisge nereidade6 como norma e como única forma legítima de ex pressão da sexualidade e do gênero Essa nossa postura gera o risco da polêmica e do desconforto causado pelo questiona mento da heterocisnormatividade presente nas relações so ciais e institucionais No entanto acreditamos que seja exata mente nesse confronto agonístico7 que podemos vislumbrar o 6 O termo cisgenereidade corresponde às identidades cisgêneras Segundo Jesus 2012 p 10 chamamos de cisgênero ou de cis as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi atribuído quando ao nascimento 7 A filósofa Chantal Mouffe 2005 ao propor a ideia de pluralismo agonístico para pensar um modelo de política democrática defende que um consenso racional na esfera política não pode ser alcançado Nessa perspectiva o consenso só existe como resulta 146 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA afrouxamento de alguns axiomas8 normativos que produzem e mantêm hierarquias sociais sexuais e de gênero Obviamen te que isso não é fácil Ainda que quase a totalidade dosas servidoresas que participaram das capacitações tivesse se inscrito de livre e espontânea vontade e estivesse aberta ao diálogo era evidente a presença de alguns discursos hetero normativos cissexistas e misóginos que dificilmente eram reconhecidos como tais Não se trata aqui de apontar eou acusar osas participantes de homofóbicos ou sexistas mas de problematizar como discursos heterocisnormativos ressoam e se proliferam de modo naturalizado e invisibilizado nos mais diversos contextos Para a construção das capacitações foram organizadas reuniões com pesquisadoresas do Núcleo Margens e integran tes da Adeh a fim de preparar o material e o conteúdo a ser trabalhado O núcleo comum a todas as capacitações foi esco lhido de acordo com temas relevantes e transversais a todas as áreas como gênero sexualidades corpo feminismo violên cias homolesbotransfobia movimentos LGBT e direitos hu manos Além desse núcleo comum aprofundamos em temas específicos a cada área problematizando questões pertinentes a educação saúde assistência social turismo cultura e esporte A Adeh encaminhou convites às secretarias de cada área de abrangência do projeto oferecendo 20 vagas gratuitas para do temporário de uma hegemonia provisória como estabilização do poder que sem pre acarreta alguma forma de exclusão p 21 Mouffe ao salientar a diferença entre os termos antagonismo luta entre inimigos e agonismo luta entre adversários sugere que na perspectiva de um pluralismo agonístico o objetivo da política é transformar an tagonismo em agonismo tarefa essa que não elimina as contradições os dissensos e as paixões do campo político Para a autora a tarefa primordial da política democrática não é eliminar as paixões da esfera do público de modo a tornar possível um consenso racional mas mobilizar tais paixões em prol de desígnios democráticos p 21 Assim a confrontação agonística seria a própria condição de existência da democracia 8 Para uma discussão sobre alguns axiomas presentes no pensamento ocidental que mantém hierarquias sexuais e de gênero conferir Rubin 2003 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 147 cada capacitação de 20 horas Coube às secretarias eleger os setores e osas servidoresas que participariam dos cursos As datas horários e locais foram firmados de acordo com a disponibilidade de cada secretaria Cada capacitação foi ministrada por dois facilitadoresas uma integrante da Adeh a maioria mulheres trans estudan tes de graduação e uma pesquisadora do Núcleo Margens todosas estudantes de doutorado As metodologias utili zadas nos cursos foram bem variadas aulas expositivodialo gadas grupos de discussão e reflexão filmes documentários análise de propagandas debates sobre documentos oficiais relatos de experiências de convidados e dosas própriosas participantes estudos de casos emblemáticos e dinâmicas de grupo foram algumas das estratégias utilizadas durante as ca pacitações Apostilas com textosbase foram solicitadas pelas secretarias e por isso construídas e distribuídas para cada área durante os encontros como uma forma de osas participan tes poderem compartilhar com osas colegas de trabalho que não puderam participar das capacitações Vale a pena salientar que no projeto inicial apenas quatro esferas seriam contempladas com capacitações saúde educa ção assistência social e segurança pública No entanto fomos procurados pela Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte que se mostrou interessada em nossas atividades de capacitação o que nos possibilitou abranger mais essa área nesse processo multiplicador 4 Discussão sobre alguns modos de se reconhecer e repensar as práticas Durante as atividades de capacitação desenvolvidas jun to aosàs servidoresas das políticas públicas no município de Florianópolis foi recorrente o fato de algumas falas não 148 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA serem reconhecidas como a reprodução de enunciados que reforçam as normativas de gênero e de sexualidade ou que funcionam como destaca Rogério Junqueira 2011 como modos de vigilância das normas de gênero Em diversos mo mentos a heterocisnormatividade presente nos discursos dosas participantes passava despercebida mesmo com nos sos apontamentos que visavam a evidenciar a contradição entre discursos tolerantes em relação à diversidade sexual e de gênero e a perpetuação de enunciados e práticas nor mativas Homofobia machismo e transfobia por exemplo pareciam fenômenos que só acontecem nas outras escolas nunca na minha evidenciando uma estratégia discursi va que nega a existência de discursos heterocisnormativos como também observou Rogério Junqueira 2009 em suas pesquisas junto a educadoresas O não reconhecimento e a não enunciação dessas microviolências no âmbito da educação da saúde da assistência social e da segurança pú blica funcionam como operações que invisibilizam lógicas excludentes na escola nos centros de referência em assistên cia social Cras e Creas nas delegacias no sistema prisional nas unidades básicas de saúde nos centros de atenção psicos social entre tantas outras instituições públicas Negar eou não reconhecer esses fenômenos são estratégias que afastam o incômodo de precisar repensar sobre as próprias práticas discursos projetos e políticas institucionais eou mesmo va lores pessoais Se por um lado osas participantes concordavam que o machismo está presente na escola por outro também ou vimos algumas falas como garotas andam muito malcom portadas elas vão à escola com roupas provocantes e andam mais bagunceiras que os garotos As divisões de gênero mantidas pela instituição escolar também dificilmente eram questionadas de modo que pudemos ouvir repetidas vezes que na escola têm coisas que só podem ser feitas por meni Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 149 nas e outras só por meninos como o uso de determinados tipos de roupas o acesso a determinados espaços da escola a prática de determinadas modalidades esportivas e a deli mitação de certos tipos de comportamentos específicos para cada sexo Também foi recorrente o uso de concepções essencialistas sobre gênero como meninas gostam mais de coisas delica das de rosa enquanto meninos são naturalmente mais agres sivos mais fortes e mais ativos Tais concepções produziam espanto desconforto eou um não saber o que fazer quando osas estudantes evidenciam a fragilidade dessas normas e de sestabilizam algumas concepções rígidas sobre gênero Assim uma menina agressiva bagunceira ou que fala palavrão um menino delicado ou afeminado e uma travesti que reivindica usar o banheiro feminino na escola incorporam um espectro de ininteligibilidade na visão de algunsmas educadoresas e fazem questionar práticas institucionais e pedagógicas insti tuídas Esses questionamentos podem tanto funcionar como elemento transformador da realidade escolar quando oa professora propõe uma discussão em sala de aula uma roda de conversa um debate sobre um filme etc quanto encontrar discursos que barram sua expressão reprimindo ou negando a existência desses sujeitos na escola como pudemos ouvir nos relatos de algunsmas educadoresas Em relação à possibilidade de se discutir diversidade sexual e homofobia na escola também testemunhamos al gumas falas que sustentavam que osas educadoresas não têm obrigação de tratar de tais temas Algunsmas alega vam que essas temáticas poderiam ir contra os princípios morais doda professora e que portanto elea não teria responsabilidade de tratar desses assuntos Essa desimplica ção por parte de algunsmas educadoresas denota o des conhecimento ou mesmo o negligenciamento de políticas e diretrizes educacionais já estabelecidas como os Parâmetros 150 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Curriculares Nacionais PCNs que pressupõem que a plu ralidade cultural e a sexualidade sejam assuntos que devem transversalizar os currículos Essa desresponsabilização aliada ao desconhecimento das realidades da população LGBT também foi percebida nos encontros com servidoras da assistência social quando se discutiu por exemplo a problemática dos albergues munici pais para moradoresas de rua Em relação à possibilidade de aceitar e acolher mulheres trans travestis e transexuais em albergues públicos femininos evocavase a retórica da lógica do perigo que sustentava que a presença de mulheres trans e travestis geraria medo e a iminência de relações sexuais com as usuárias mulheres Do mesmo modo essa estigmatização da população trans se impôs quando o assunto foi o acolhi mento de mulheres trans na Casa de Passagem para Mulheres em Situação de Violência Outro discurso que nos impressionou pautado pelo risco e pelo perigo foi o desconhecimento por parte de algunsmas poucosas educadoresas sobre a questão do vírus HIV e da Aids Um dos professores presentes na capa citação oferecida à Secretaria de Educação disse que resolveu fazer o curso porque alegava desconhecer como proceder em casos de haver na escola alguma estudante vivendo com HIV Segundo o professor seria importante reconhecer oa alunoa soropositivoa para proteger osas demais estudan tes e osas própriosas professoresas O professor apresen tava uma concepção bastante problemática e discriminató ria sustentando que em nome da proteção de um coletivo seria necessário marcar o sujeito soropositivo revelando sua sorologia para a comunidade escolar pais de estudantes professoresas e funcionáriosas da escola Ao tentarmos problematizar junto a ele sobre os efeitos segregadores discri minatórios estigmatizantes e preconceituosos desse tipo de prática ele insistia em que osas professoresas e osas cole Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 151 gas corriam grande risco com a presença oculta de uma estudante portadora do vírus na escola Para argumentar sobre tal perigo inerente o professor apresentava a hipóte se de situações como acidentes com possíveis sangramentos ferimentos eou cortes que poderiam acontecer nas aulas de educação física e o início da vida sexual doa estudante soropositivoa que poderiam expor outrosas estudantes ao risco da infecção É evidente que tais argumentos denotam um pânico mo ral e sexual Rubin 2003 Miskolci 2007 sobre o HIV e um nítido desconhecimento sobre as formas de transmissão do vírus Não ficou claro para nós o nível de compreensão e de conhecimento que esse professor tinha sobre HIVAids po rém deduzimos que seu entendimento sobre a questão era bastante limitado e carregado de estereótipos Por mais que nós e algunsmas outrosas integrantes do grupo tentásse mos relativizar suas percepções sobre pessoas vivendo com HIV e sobre formas de cuidado e de transmissão do vírus o professor parecia insistir para que oferecêssemos uma respos ta que aparentemente ele já tinha formulado para si mesmo sobre como agir com uma estudante soropositivoa na es cola A noção de indivíduo perigoso Foucault 2006 associada à vigilância típica promovida pelo dispositivo da sexualidade Foucault 1988 sobre os corpos dosas jovens e das crian ças encontrava ressonância no discurso do professor dei xando evidente como algumas práticas discursivas orientam posturas normativas e discriminatórias no ambiente escolar Destacamos que não concebemos o discurso desse professor como um caso isolado ou como apenas uma perspectiva individual sobre o tema em questão É importante conside rar que alguns retrocessos e entraves observados nas políticas de Aids nos últimos anos como a censura a algumas campa nhas de prevenção e a políticas relativas aos direitos sexuais interferem e afetam as possibilidades de políticas mais efeti 152 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA vas de prevenção e de direitos humanos Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids Abia 20149 A posição do referido professor reflete uma carência de formação continuada e crí tica que deveria ser oferecida a todosas osas profissionais da educação da saúde e da assistência social O que esse tipo de discurso nos indica é que os retrocessos das políticas de prevenção afetam não somente os grupos considerados mais vulneráveis mas também osas profissionais que atuam na ponta das políticas públicas e que ficam sem ferramentas e formações que contribuam com o debate sobre direitos hu manos e sexuais Em nossas experiências de capacitações percebemos que se por um lado a vigilância e o controle em torno das sexuali dades e dos corpos dosas jovens estudantes é uma constante a preocupação não parece se propagar com a mesma urgência no que diz respeito a identificação denúncia acolhimento e proteção aosàs jovens LGBT vítimas de homolesbo e trans fobia Durante o curso com a assistência social ficou clara a impotência das profissionais diante da ineficiência de locais de acolhimento quando um sujeito maior de 18 anos sofre al gum tipo de violência homofóbica Em função da maioridade sua violação de direitos não confere mais ao Conselho Tutelar tendo apenas a delegacia como local para recorrer caso oa jovem tenha condições de denunciar Referimosnos às con dições de denunciar levando em conta que na ausência de es paços de proteção a maior parte dosas jovens é obrigadoa a retornar para seus lares frequentemente o espaço no qual acontecem as agressões Segundo o relato dosas profissio nais quando os serviços oferecidos pela assistência social são buscados pela família na maioria das vezes a intencionalidade 9 Conferir também a Carta da Abia em repúdio à censura da campanha sobre prostitui ção e HIVAids pelo Ministério da Saúde Disponível em httpwwwsxpoliticsorg ptp3417sthashnit7qDXfdpuf Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 153 dessa demanda é tratar a sexualidade doa jovem Nesses casos a homofobia frequentemente acaba sendo encarada tanto pela equipe despreparada quanto pela família como um problema familiar individual e privado colaborando para que recaia sobre a vítima a culpa da agressão sofrida Osas servidoresas da área da saúde também manifes taram dificuldades em reconhecer indicadores de possíveis violências homofóbicas lesbofóbicas eou transfóbicas até o momento da capacitação No entanto durante os encontros oferecidos a essesas profissionais muitosas delesas come çaram a expressar preocupações sobre os efeitos das violências na vida de pessoas LGBT Notamos também que algunsmas participantes passaram a questionar com certa angústia como proceder em casos de usuáriosas dos serviços de saúde que estejam vivenciando situações de violênciadiscriminação por causa de orientação sexual eou identidade de gênero es pecialmente quando se trata de crianças e jovens Apesar da presença de discursos normativos entre osas educadoresas não podemos deixar de mencionar que havia pessoas bastante implicadas e interessadas nas discussões sobre diversidades sexuais e de gênero Algumas já haviam participado de outros cursos de formação como o curso Gê nero e Diversidade na Escola GDE oferecido pela Univer sidade Federal de Santa Catarina UFSC e já tinham desen volvido em suas escolas experiências e projetos interessantes relativos às questões de sexualidade e gênero No caso da as sistência social algumas participantes atuam no Centro de Referência de Atendimento à Mulher em Situação de Violên cia CREMV e por isso já participaram de formações sobre gênero e violências contra a mulher além de cursos sobre feminismo oferecidos pelo Instituto de Estudos de Gênero IEGUFSC No entanto nenhuma das profissionais havia participado de um curso voltado especificamente para a po pulação LGBT 154 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Na área da saúde osas participantes relataram não te rem participado anteriormente de nenhuma capacitação cur so ou treinamento sobre as questões LGBT Disseram porém ter tido cursos e informações diversas sobre DSTs e HIVAids ocasiões nas quais estabeleceram uma relação problemática e linear entre homossexualidades transexualidades e temas como de DSTs HIVAids e prostituição Pareceunos evidente que no âmbito da saúde as necessidades da população LGBT ainda estão muito relacionadas apenas com a busca de pre servativos eou prevenção diagnóstico e tratamento do HIV Aids e outras DSTs Entre osas profissionais da saúde notamos uma atitude de interesse atenção e vontade de compreender a temática até então não muito aprofundada pelosas participantes Isso pode sinalizar já algum efeito da existência da Política Nacio nal de Saúde LGBT Brasil 2010b que orienta que osas servidoresas públicosas da área da saúde conheçam e com preendam mais essa população em questão Por esse motivo ressaltamos a importância da Política Nacional LGBT base ada na carta de usuários do Sistema Único de Saúde SUS Para refletir sobre formas de implementação dessa política foram tratados temas como identidade de gênero orientação sexual processo transexualizador uso do nome social em ins tituições de saúde entre outros Procuramos articular essas questões aos temas já conhecidos dosas profissionais da saú de pública como os princípios do SUS a Estratégia Saúde da Família Atenção Básica em Saúde etc Procuramos dar maior ênfase à discussão dos documen tos que não eram conhecidos pelosas participantes como a Política Nacional de Saúde LGBT e as portarias que regu lamentam o processo transexualizador no âmbito do SUS Em referência à Política Nacional de Saúde LGBT ouvimos o questionamento esta é mais uma política assim como a do idoso a da mulher a do homem porque tem que estar tudo Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 155 em casinhas Verificamos nessa fala um desconhecimento sobre as especificidades da população LGBT no âmbito da saúde bem como uma dificuldade de reconhecer a necessida de de se pensar a saúde LGBT a partir do princípio da equida de tão caro ao SUS As iniciativas do Governo Federal relativas à saúde LGBT são resultado de um longo processo de reivindicações do mo vimento social que nos últimos anos vem pressionando todas as esferas governamentais municípios estados e Governo Fe deral para a implementação de políticas públicas voltadas à população LGBT Tais políticas indubitavelmente constituem importantes avanços no entanto ainda constatamos inúme ras dificuldades para implementar e incorporar seus conteú dos no cotidiano das práticas como mostrou Díaz 2012 em sua pesquisa sobre as concepções de psicólogosas que atuam nas unidades básicas de saúde da cidade de FlorianópolisSC acerca da diversidade sexual Durante a capacitação com ser vidoresas da área da saúde observamos que de forma geral elesas desconhecem as políticas públicas dirigidas à popula ção LGBT Em relação à capacitação oferecida à Secretaria de Esta do de Turismo Cultura e Esporte em função da complexida de das três áreas abrangidas por essa secretaria optouse por uma proposta metodológica diferente das demais capacita ções Durante esse curso após apresentarmos um panorama geral de gênero e sexualidade trabalhamos com alguns estu dos de caso10 com situaçõesproblema e com perguntas disparadoras que objetivaram estimular a problematização entre osas participantes As situações e as perguntas dispa radoras para cada área foram organizadas da seguinte forma 10 Os estudos de caso foram selecionados a partir de situações emblemáticas para cada área que tiveram alguma repercussão na mídia tanto nas grandes mídias quanto em mídias alternativas 156 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Turismo Debate sobre pink money e mercados GLS Afinal turismo para quem Discussão sobre mercado versus direitos humanos é pos sível resolver essa tensão Turismo GLS ou LGBT Gayfriendly como estratégia de mercado seria possível lesfriendly transfriendly Debate sobre inclusão versus exclusão o turismo é real mente inclusivo Quem ele inclui e quem ele exclui Quem viaja no Brasil Quem circula na própria cidade Pensar na relação entre turismo e mobilidade urbana Relativizar discursos midiáticos sobre o caráter gayfrien dly de Florianópolis e dos destinos turísticos no Brasil em geral Cultura Ações e políticas culturais podem promover os direitos humanos As artes música teatro literatura cinema artes visuais podem ser um meio de discussão sobre diversidade sexual e de gênero Problematizar as categorias políticas culturais LGBT e cultura LGBT O que querem dizer Como aparecem nos documentos oficiais Eventos de visibilidade massiva as Paradas do Orgulho LGBT pelo Brasil Como osas gestoresas da cultura podem inserir o tema da diversidade sexual e de gênero em suas agendas Como as questões de diversidade sexual e de gênero se integram às discussões sobre pluralidades culturais Esporte Esporte como pedagogias do corpo do gênero e das sexualidades Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 157 O esporte reproduz estereótipos de gênero Por que alguns esportes são considerados mais para homens ex futebol artes marciais e outros mais para mu lheres ex balé ginástica rítmica ginástica olímpica Qual o efeito desses padrões O esporte pode ser sexista Homofóbico Transfóbico O esporte pode ser um espaço de resistência contra as desigualdades de gênero e sexuais Como pensar políticas de direitos humanos especifica mente as relativas à orientação sexual e identidade de gênero de modo transversal no esporte Durante a capacitação aosàs servidoresas da Secre taria de Estado de Turismo Cultura e Esporte também nos deparamos com estratégias discursivas que silenciavam a questão da heteronormatividade Foi recorrente um discur so complacente em relação às diversidades sexuais mas ao mesmo tempo também identificamos a dificuldade de algu mas pessoas em reconhecer a proliferação das normas de gê nero e sexuais em suas áreas de atuação Osas servidoresas que atuam na área do esporte por exemplo conheciam al guns casos de homofobia no esporte que levamos para discus são durante a capacitação como o caso do jogador de vôlei Michael que sofreu injúria homofóbica da torcida adversária de seu time durante um jogo e a repercussão homofóbica gerada pela publicação da foto de um selinho que o jo gador de futebol Sheiki deu em um amigo Embora osas participantes reconhecessem a existência da homofobia no esporte e reprovassem tais atitudes também notamos no grupo a dificuldade de pensar o tema de diversidade sexual e de gênero como uma questão a ser trabalhada em políticas relativas ao esporte e em suas atuações na própria Secretaria do Esporte Pudemos observar uma vontade de fazer algo porém esse desejo esbarrava na dificuldade em articular o 158 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA esporte aos direitos humanos e à temática da diversidade se xual de gênero Com osas servidoresas do turismo procuramos rela tivizar discursos midiáticos sobre o caráter gayfriendly de Flo rianópolis destacando que por trás da aparente tolerância em relação à população LGBT ainda testemunhamos cotidianos casos de homofobia lesbofobia e transfobia na cidade Procu ramos estimular um debate que problematizasse as tensões entre mercado economia e turismo e as questões de direitos humanos Quanto aosàs servidoresas que atuam na área da cul tura muitosas reconheciam a importância da temática de gênero e sexualidade nas políticas culturais no entanto a falta de verba e incentivo à cultura em geral parecia ser algo mais urgente Assim apesar de concordarem que ações culturais podem contribuir com a minimização das discriminações por causa de orientação sexual e identidade de gênero a pre ocupação com a escassez de recursos destinados à cultura era mais evidente Como sugestão sobre como políticas culturais podem fortalecer as discussões sobre direitos humanos da população LGBT11 apresentamos alguns exemplos de ações concretizadas no país como o Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade a mostra audiovisual sobre o cineasta Vagner de Almeida Homossexualidades feminismos raça e violên cias a obra de Vagner de Almeida realizada em Florianópolis em 2011 o projeto CineD realizado na própria sede da Adeh que divulga e debate filmes com a temática da diversidade se xual e de gênero o Concurso de Cartazes sobre Lesbofobia Transfobia Homofobia e Heterossexismo nas escolas promo vido pelo Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades NIGSUFSC entre outros exemplos 11 Para uma discussão mais aprofundada sobre o que tem sido chamado de Cultura LGBT no âmbito das políticas de cultura no Brasil conferir Braz 2013 Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 159 Em relação às dificuldades enfrentadas sem dúvida a distribuição do tempo de discussão e a especificidade de cada área foram os principais desafios Nas capacitações aosàs servidoresas da saúde e da educação o desafio foi construir uma proposta de curso concentrada em 20 horas distribuídas em dois intensos dias de trabalho sob o risco de que o cansaço levasse osas participantes à desistência do curso Ao contrá rio das áreas mencionadas na capacitação às profissionais da assistência social a dificuldade foi elaborar uma proposta de curso distribuída em cinco dias espaçados com quatro horas de duração Manter a assiduidade em todos os encontros se mostrou um desafio porém o interesse das profissionais e a implicação política com os temas discutidos fizeram com que esse risco fosse minimizado Já o curso oferecido à Secretaria de Estado de Turismo Cultura e Esporte teve duração menor em relação às outras secretarias Tivemos o desafio de ter apenas 10 horas para aprofundar as discussões somado à dificuldade de termos de tratar em um mesmo grupo sobre a articulação entre gêne ro e sexualidade com três áreas diferentes turismo cultura e esporte 5 Algumas considerações Acreditamos que as capacitações oferecidas para as Secre tarias de Educação de Assistência Social de Saúde e de Tu rismo Cultura e Esporte funcionaram como um dispositivo de sensibilização em relação à importância de pensar políticas de equidade para a população LGBT nos âmbitos de atuação desses órgãos Ainda que ações como essas sejam limitadas o simples fato de nomear localizar e reconhecer fenômenos que muitas vezes são naturalizados e passam despercebidos como algumas sutilezas da heteronormatividade do sexismo da 160 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA homofobia e da transfobia já se constitui em uma potência para transformações sociais Acreditamos também que essas sensibilizações necessitam de continuidade para se tornarem efetivamente capacitações promotoras de alguma mudança na atual conjuntura das políticas públicas Em nossos encontros com osas profissionais das políti cas públicas buscamos firmar um compromisso de urgência de esforços de implicação de responsabilização e de politiza ção diante das violências Tais violências não apenas se carac terizam pela agressão física ou verbal contra pessoas LGBT mas também pelo apagamento e silenciamento dessas opres sões e discriminações nos serviços públicos que permitem consentem formas de violências simbólicas Pudemos observar que em geral osas participantes das capacitações até conseguiam apreender a existência do ma chismo do sexismo da homofobia da transfobia etc Tais expressões da violência são de certa forma demonstráveis a partir de exemplos concretos como vídeos filmes reporta gens dados de pesquisa e exercícios de reflexão Apreender e perceber certamente já são um passo considerando que as de sigualdades sociais baseadas no gênero e nas sexualidades são extremamente naturalizadas em nossa cultura o que dificul ta produzir uma dobra sobre aquilo que está estratificado no campo social No entanto pensamos que um dos grandes desafios reside na dificuldade de reconhecer as mais diversas modalidades de violências bem como as vidas que em alguns contextos são consideradas de menor valor ou precárias ou nem mesmo são apreendidas como vidas Judith Butler 2010 p 18 sinaliza as diferenças entre apreensão e reconheci mento tal vez sea necesario considerar la posible manera de distinguir en tre aprehender y reconocer una vida El reconocimiento es un término más fuerte un término derivado de textos hegelianos que ha Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 161 estado sujeto a revisiones y a críticas durante muchos años La aprehen sión por su parte es un término menos preciso ya que puede implicar el marcar registrar o reconocer sin pleno reconocimiento Si es una for ma de conocimiento está asociada con el sentir y el percibir pero de una manera que no es siempre o todavía no una forma conceptual de co nocimiento Lo que podemos aprehender viene sin duda facilitado por las normas del reconocimiento pero sería un error afirmar que estamos completamente limitados por las normas de reconocimiento en curso cuando aprehendemos una vida Podemos aprehender por ejemplo que algo no es reconocido por el reconocimiento De hecho esa aprehensión puede convertirse en la base de una crítica de las normas del reconoci miento grifos nossos Assim as capacitações quando conduzidas de modo a fazer com que possamos pensar identificar apreender e sobretudo reconhecer os problemas que afetam a nós mes mos e os grupos considerados mais vulneráveis podem fazer como que o invisível opere visibilidade e o impensado se tor ne enunciável Fernández 2008 p 31 Nesse sentido acre ditamos que espaços como os produzidos durante os cursos podem funcionar como importantes dispositivos políticos nas lutas pelos direitos humanos e contra todas as formas de violências discriminações e preconceitos baseados não ape nas no gênero e nas sexualidades mas também na raçaetnia na classe social na idade no local de origem entre outros marcadores sociais de diferença que estabelecem hierarquias e exclusões Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA INTERDISCIPLINAR DE AIDS ABIA Abia responsabiliza perda da ousadia na resposta brasileira pelo aumento de infecções por HIV no país 18 jul 2014 Disponível em httpabiaidsorgbrp26647 Acesso em 29 ago 2014 162 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA BRASIL Conselho Nacional de Combate à Discriminação Brasil sem Ho mofobia programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e de promoção da cidadania homossexual Brasília 2004 Ministério da Saúde Política nacional de saúde integral de lésbicas gays bissexuais travestis e transexuais Brasília 2010a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Re pública Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH3 Brasília 2010b BRAZ C Políticas culturais LGBT no Brasil contemporâneo interpreta ções antropológicas de uma cultura adjetivada In CONGRESS OF THE LATIN AMERICAN STUDIES ASSOCIATION Anais Washington DC 29 maio1o jun 2013 BUTLER J Marcos de guerra las vidas lloradas Barcelona Paidós Ibérica 2010 Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2003 1990 DÍAZ G A Sexualidades concepções de psicólogosas de unidades bá sicas de saúde de Florianópolis Dissertação Mestrado em Psicologia Programa de Pósgraduação em Psicologia Universidade Federal de Santa Catarina Florianópolis 2012 175 p FERNÁNDEZ A M Las lógicas colectivas imaginários cuerpos y multiplici dades 2 ed Buenos Aires Biblos 2008 FOUCAULT M A evolução da noção de indivíduo perigoso na psiquia tria legal do século XIX In Ditos escritos ética sexualidade e política 2 ed Rio de Janeiro Forense Universitária 2006 v V História da sexualidade a vontade de saber São Paulo Graal 1988 v 1 JESUS J G Orientações sobre identidade de gênero conceitos e termos Guia técnico sobre pessoas transexuais travestis e demais transgêneros para for madores de opinião 2 ed Brasília 2012 Disponível em httpwwwser taoufgbrup16oORIENTAC387C395ESSOBREIDENTIDA Políticas de equidade para a população LGBT Daniel K dos Santos et al 163 DEDEGC38ANEROCONCEITOSETERMOS2C2AA EdiC3A7C3A3opdf Acesso em 30 ago 2014 JUNQUEIRA R D Aqui não temos gays nem lésbicas estratégias dis cursivas de agentes públicos ante medidas de promoção do reconhecimen to da diversidade sexual nas escolas Bagoas Natal n 4 p 171189 2009 Heterossexismo e vigilância de gênero no cotidiano escolar a pe dagogia do armário In SILVA F F da Org Corpos gêneros sexualidades e relações étnicoraciais na educação Uruguaiana Unipampa 2011 Pedagogia do armário a normatividade em ação Revista Retratos da Escola Brasília v 7 n 13 p 481498 juldez 2013 MISKOLCI R Pânicos morais e controle social reflexões sobre o casamen to gay Cadernos Pagu Campinas n 28 p 101128 janjun 2007 MOUFFE C Por um modelo agonístico de democracia Rev Sociol Polít Curitiba n 25 p 1123 nov 2005 PANEGASSI J Ativistas criticam Padilha por veto aos quadrinhos sobre sexualidade e comparam medida à censura imposta pela ditadura Agência de Notícias da Aids São Paulo 16 mar 2013 Disponível em httpwww agenciaaidscombrnoticiasinternaphpid20477 Acesso em 29 ago 2014 PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero 2007 Disponível em httpwwwclamorgbrpdfprincipiosde yogyakartapdf Acesso em 30 ago 2014 RUBIN G Pensando o sexo notas para uma teoria radical das políticas da sexualidade Cadernos Pagu Campinas n 21 p 188 2003 Chá de Damas desafios e estratégias para a inserção no campotema prostituição Jaileila Menezes Karla G Adrião Amanda K C Guedes Ana Letícia Veras Cristiano C Ferreira Douglas B de Oliveira e Sarana M de S Santos O presente texto tem por finalidade realizar uma reflexão sobre a ação Chá de Damas integrante do Programa Diálo gos para o Desenvolvimento Social em Suape1 Esta tem como eixo norteador o uso de metodologias e estratégias que visem a ao empoderamento2 de mulheres profissionais do sexo b ao protagonismo delas na conscientização quanto ao uso de preservativos durante as relações sexuais no combate à explo ração sexual infantojuvenil por parte de agenciadoresas ou estabelecimentos e c ao combate ao uso abusivo de álcool e outras drogas Para o desenvolvimento das ações junto às prostitutas3 dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca a equi 1 Queremos expressar nossos agradecimentos às professoras Luciana Vieira e Wedna Galindo que estiveram à frente do trabalho do Chá de Damas entre maio de 2012 e junho de 2013 Decerto muito do aqui narrado e discutido tem a contribuição delas Também gostaríamos de agradecer a Nanci Feijo da Associação Pernambucana de Pro fissionais do Sexo APPS O próprio capítulo mostrará o quanto sua participação no Chá de Damas foi importante para o êxito do projeto A Nanci dedicamos este texto 2 Apesar das tensões em torno do termo empoderamento optamos por utilizálo com preendendo que ao considerarmos a polissemia que o caracteriza ao ser trazido para o português e o deslocarmos de seu uso inicial em inglês ele ganha configurações que condizem com nossa proposta metodológica Empoderar significa retomar o poder que já existe a partir da tomada de consciência de que ele pode e deve ser acessado nas vidas das mulheres 3 Usaremos neste texto os termos prostituta e profissional do sexo como sinônimos conscientes das distinções que carregam Para nós o termo prostituta reatualiza a partir dos deslocamentos do que seria abjeto para o centro do debate A expressão Chá de Damas Jaileila Menezes et al 165 pe realizou um processo de formação teóricometodológica a fim de subsidiar a entrada no campo e o delineamento de estratégias para conhecimento dos pontos de prostituição e interação direta com as profissionais do sexo Essa primeira etapa de trabalho teve inspiração etnográfica pautada pela vi vência de diferentes níveis de estranhamento pela equipe de trabalho no processo de aproximação da cultura local desse determinado grupo A intenção era da experiência com o diferentea diferença questionar nossas matrizes culturais admitindo o olhar parcial e subjetivo doa pesquisadora Geertz 2005 A entrada no campo implicou conhecer a rede de causalidades intersubjetivas as diversas vozes implicadas os artefatos e materialidades que constituem e dinamizam as práticas cotidianas desse universo de atoresatrizes sociais Adotamos a estratégia de mapeamento Menezes e Costa 2010 que tem por objetivo dar visibilidade à circunscrição geográfica de pessoas eou grupos sociais no território iden tificando pontos que se interconectam e permitem o enten dimento de fluxos sociais políticos e financeiros Durante o mapeamento a equipe distribuía os materiais de redução de danos como preservativos femininos e masculinos e marca dores de texto e folhetos informativos produzidos pelo Pro grama Diálogos com informações sobre DSTs e HIVAids e orientação acerca do não uso abusivo de álcool e outras dro gas assim como alguns telefones e endereços importantes para as mulheres crianças eou adolescentes em situações de vulnerabilidade social Ao viver o estranhamento a equipe também se depa rou causando estranhamentos afinal as pessoas locais não pareciam familiarizadas com procedimentos de distribuição de preservativos e algumas se mostraram desconfiadas inqui profissional do sexo em contrapartida aporta o debate no campo do acesso a direitos particularmente os trabalhistas questão central para o cotidiano de lutas das prostitutas 166 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA rindonos se não seríamos vinculadosas a órgãos governa mentais ou mesmo à polícia já que andávamos procurando pontos de prostituição pela cidade A vivência desse tipo de dificuldade foi fundamental para a equipe compreender as pectos da cultura sexual do local A chegada de uma assisten te de pesquisa com experiência no campotema prostituição trouxe novo fôlego para o mapeamento dado seu conheci mento da rede de relações do mercado sexual do local Como fechamento desse primeiro momento de inserção no campo aplicamos um questionário junto às prostitutas sobre o per fil delas As respostas ao questionário colaboraram para a montagem de nossa segunda intervenção agora por meio de um formato de oficinas para o trabalho mais contínuo com os temas do projeto e também com os temas sugeridos pelas próprias prostitutas O presente texto está dividido em três partes os pressu postos teóricometodológicos do trabalho de intervenção es tratégias de entrada no campotema prostituição conhecen do as Damas e elaborando novas ações 1 Pressupostos teóricometodológicos do trabalho de intervenção O projeto Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape é uma pesquisaintervenção e tem como finalidade in vestigar quais foram os impactos causados nos municípios de Cabo de Santo Agostinho Ipojuca e entorno com a chegada das principais empresas e a Refinaria Abreu e Lima Petrobras a Suape Por se caracterizar como uma pesquisaintervenção a metodologia utilizada em tal projeto é voltada para uma atuação potencializadora de mudança nos sujeitos eou gru pos sociais que vivenciam dada realidade sociopolítica Os ca minhos traçados durante a pesquisa são tematizados como Chá de Damas Jaileila Menezes et al 167 possibilidades de garantia da participação dos sujeitos envol vidos ao longo do processo A presença doa pesquisadora interfere na dinâmica do grupo social e esse aspecto ganha re levo em uma perspectiva que abdica da neutralidade e quer dá visibilidade aos efeitos de poder do próprio ato de pesquisar intervir Rocha e Aguiar 2003 Consideramos os diversos níveis de intervenção da pes quisa na realidade social bem como seus efeitos de mudança O trabalho com grupos em condição de vulnerabilidade social em contexto de desenvolvimento econômico parece já anun ciar que os riscos existentes no projeto de desenvolvimento afetam de modo desigual diferentes grupos populacionais a exemplo de mulheres jovens e crianças Nesse cenário o projeto se propõe discutir as consequências da instalação do complexo industrial na região e estabelecer soluções para de mandas da população local como o enfrentamento à explo ração sexual infantil a prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas a violência física e sexual contra as mulheres e o agenciamento sexual de profissionais do sexo assim como a conscientização do uso de preservativos durante as relações sexuais A ação Chá de Damas tomou como referência propo sições do campo dos direitos sexuais DS e dos direitos re produtivos DR para o entendimento da complexidade que envolve a prática da prostituição as possibilidades de ações que visem à redução de danos no exercício da profissão e as condições sociais que envolvem entrada permanência e sa ída das mulheres desse mercado sexual Em consonância com Sonia Corrêa e Rosalind Petchesky 1996 entendemos o campo dos DS e dos DR a partir da dinâmica poder e re cursos Logo do ponto de vista das demandas das mulheres em condição de prostituição importa entre outras ações proporcionarlhes informações qualificadas e recursos que garantam sua atividade sexual e profissional pautada pela 168 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA segurança existencial recursos objetivos e subjetivos que possibilitem sua integridade corporal É ampla a literatura que relaciona precariedade das condições de vida com entra da na prostituição o que nos leva a ratificar o argumento das autoras quanto à necessária vinculação dos DS e dos DR aos direitos sociais As práticas de autonomia que o projeto intenta fomen tar estão em consonância com o discurso político dos movi mentos feministas brasileiros que visam a fortalecer grupos historicamente subalternizados para que possam desenvolver um senso crítico sobre as condições sociais que circunscre vem suas opressões de modo a modificálas Adrião 2008 Nesse sentido há também diversos níveis de autonomização e mesmo das negociações com relação ao acesso e uso de pre servativos em uma situação de trabalho caso da prostituição e este pode figurarse como uma dimensão importante do processo de modificação da situação de opressão por parte das mulheres A ação de entrada em campo do Chá de Damas foi pau tada por práticas educativas que incentivam o sexo mais segu ro em relação às doenças sexualmente transmissíveis DSTs além de formar lideranças políticas e sociais que possam dar continuidade às reflexões sobre temas como violência cons trução de identidade na prostituição e sexismomachismo O plano de ação consta de três eixos gerais 1 mapeamento dos espaços de prostituição 2 elaboração e distribuição de ma terial informativo e insumos camisinhas e gel entre as pro fissionais e clientes e 3 realização de oficinas para discutir a vulnerabilidade de mulheres e travestis engajadas no trabalho sexual e fomento de acesso à cidadania e à saúde O grupo Chá de Damas foi composto por estudantes de ciências sociais psicologia e pedagogia seguindo a proposta interdisciplinar que perpassa o projeto Diálogos e coordena do por professoras vinculadas ao curso de graduação em psi Chá de Damas Jaileila Menezes et al 169 cologia e pedagogia e ao Programa de Pósgraduação em Psico logia O processo de formação do grupo contou com reuniões semanais para discussão das temáticas de gênero e sexualida de assim como estudos etnográficos aplicados ao campote ma prostituição e conteúdos de trabalho em grupo principal mente em relação a oficinas e trabalhos com grupos A partir das reuniões de orientação teóricometodológica passamos a sistematizar discutir e refletir sobre as ações que aconteciam e a planejar as futuras além de nos familiarizarmos com expe riências e contextos antes de adentrarmos o campo A prostituição é uma prática social com significativo las tro histórico tem sido estudada nas mais diversas áreas do saber e é marcada pela pluralidade de pontos de vista quanto a seu caráter opressorlibertador No debate feminista há uma vertente que ressalta a relação da prostituição com o tráfico de seres humanos a opressão patriarcal advinda do machismo e demais práticas de subordinação que posicionam as mulheres prostitutas como vítimas do assédio e abuso sexual Outras correntes atuam rejeitando a ideia de que a prostituição é inerentemente degradante valorizamna como uma forma de serviço de trabalho traçando nítidas distinções entre a prostituição voluntária exercida por adultos e a prostituição forçada infantil Piscitelli 2013 p 118 Na tentativa de de finição mais ampla encontramos em Letícia Barreto Cláudia Mayorga e Míriam Grossi 2013 a referência a uma prática que envolve trocas financeiras afetivas e sexuais não necessa riamente envolvendo a prática sexual Como postura éticopolítica que orientou as ações do Chá de Damas a equipe não buscou atribuir juízo de valor às práticas das profissionais do sexo o objetivo não era tirar nin guém da prostituição nem questionar os motivos pessoais de cada uma Desde o início nosso trabalho em campo consistia em proporcionar discussões sobre cidadania e saúde e favore cer a formação de lideranças 170 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Antes mesmo da entrada no campo físico fomos afetadosas pelos efeitos do tema do projeto em nós Segun do Marisa Peirano 1995 na pesquisa de campo é preciso interesse e empatia Pelo fato de sermos seres sociais pesqui sando outros certamente somos direcionados por nossa sub jetividade dentro e fora do campo A trajetória de vida doa pesquisadora exerce grande influência no estudo e na for ma de compreendermos e nos relacionarmos com os sujeitos e com suas práticas sociais Por esse motivo a identificação com o estudo funciona como um incentivo o reconhecimen to da importância do que se está fazendo funciona como mo tivação E certamente foi isso que nos levou adiante enfren tando dificuldades que surgiram ao longo do processo Sobre essas questões acompanhemos o que diz o diário de campo de dois dos participantes de nossa equipe Dentre todas as temáticas estudadas no projeto Diálogos o Chá de Damas foi o primeiro que me chamou a atenção Sem pre gostei de estudar assuntos referentes à sexualidade e nunca tinha tido a oportunidade de ver este tema relacionado à pros tituição tema que na minha cabeça ainda era constituído por diversos estereótipos e tabus Eu tive a intenção de me surpre ender com a temática depois que li o edital ousado do projeto Chá de Damas Amanda extraído do diário de campo Quando soube da proposta do Chá de Damas e seu públicoal vo de intervenção o interesse despertado em mim foi imediato Era uma oportunidade de experiência atípica dentro da temáti ca que me interesso e se pensava que tinha conhecimento sobre a área vi o quanto ainda tinha de aprender e aprendi com as prostitutas Douglas extraído do diário de campo Esse momento de preparação do grupo de estudantes foi bastante enriquecedor já que era possível colocar opini ões dúvidas inquietações e satisfações As leituras e discus sões teóricometodológicas também foram importantes para vivenciarmos deslocamentos em nossos próprios discursos Chá de Damas Jaileila Menezes et al 171 preconceituosos e normatizantes além da necessidade de cons truir familiaridade com formas de organização discursos e có digos do grupo específico com o qual estávamos trabalhando A inspiração etnográfica foi fundamental ao processo de estranhamento e à reflexão sobre os efeitos e implicações doa pesquisadora no campo Assim sem desconsiderar a análise de documentos elaborados por terceiros resolvemos investir na produção de dados próprios dando relevo a nossos registros em diário de campo operando por meio de descri ção e interpretação das cenas e cenários que pudemos acessar Trabalhamos na perspectiva de que costumes e crenças têm significados de acordo com contextos socioculturais Assim a ação humana é orientada pelo significado canônico que re gula a complexidade da vida social buscando coerência e inte gração Por outro lado sabemos dos efeitos da política sobre a cultura e a diferençao diferente impõese em dada ordem ora ratificando a organização ora desestabilizando os códigos da cultura local Entendemos que as prostitutas estão integra das aos códigos da cultura sexual local desde que seus corpos circulem nos locais reservados à sua presença Nós pesquisadorespesquisadoras não fazemos parte da paisagem local e quando adentramos o território produzimos diferença damos visibilidade a pessoas eou temáticas até en tão silenciadas e passamos a compor o campo de referências semióticas daquela população Essas pistas sobre as possíveis intervenções aqui entendidas como ação que intervém sobre outras que operaríamos no campo nortearam a produção dos diários de campo De acordo com Florence Weber 2009 p 168 É o diário que permite o distanciamento indispensável na pesquisa de campo e que permitirá mais tarde a análise do desenvolvimento da pesquisa Um de nossos desafios foi relacionar o trabalho teóri co com o trabalho de campo Para nós conhecer teorias não significa que oa pesquisadora irá ao campo cheio de ideias 172 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA preconcebidas e fixas Devese ir com questões norteadoras no entanto com disposição para mudálas levando problemá ticas e sendo flexível na formulação de novas questões sobre os fenômenos observados como nos aponta Roberto Cardo so de Oliveira 1998 Os estudos teóricos nos serviram como inspiração na relação com o campo que por sua vez é marca do pela complexidade da dinâmica social e cultural 2 Primeiras inserções e desafios no território Nossa primeira visita de campo ocorreu em março de 2012 no município de Cabo de Santo Agostinho Esse foi um momento de exploração e formação de redes de contato Hou ve a visita ao Mercadão do Cabo e a equipamentos da área de saúde e de assistência social como o Centro de Testagem e Aconselhamento em DSTAids o Centro de Prevenção em Violência Doméstica e Sexista e o Centro de Apoio Psicosso cial em Álcool e outras Drogas CAPSAD com o objetivo de localizar uma rede que pudesse interagir com demandas das prostitutas É válido salientar que nessa visita assim como durante a aplicação de questionários PCAP4 realizada pelo programa Diálogos e em conversas informais dos componen tes do projeto com a população a busca de pontos de prosti tuição era constante Lembramos que essa busca visava ao atendimento ao primeiro eixo do plano de ação a saber o mapeamento dos espaços de prostituição A técnica de mapeamento consiste 4 A Pesquisa de Conhecimentos Atitudes e Práticas PCAP constituiu os primeiros pas sos práticos do projeto Diálogos reunindo as diversas ações que integram tal projeto para a aplicação de questionários nos domicílios da população de 15 a 64 anos de idade das diversas áreas dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca As perguntas do questionário envolviam indicadores de conhecimentos atitudes e práticas relaciona das com a infecção pelo HIV e outras DSTs Chá de Damas Jaileila Menezes et al 173 em montar um mapa em que se possam visualizar e localizar os pontos de prostituição verificando aspectos sociais eco nômicos culturais e políticos que circunscrevem as práticas sociais locais Esse procedimento foi considerado fundamen tal para o desempenho das atividades do projeto Chá de Da mas tendo em vista que estávamos lidando com um campo dinâmico pois pelo fato de o agenciamento ser considera do ilegal é muito provável que casas de prostituição abram e fechem de maneira repentina e até mesmo sigilosa Esse é portanto um campo no qual há diversas mudanças de bares e pontos onde o trabalho é desempenhado com repercussões para o processo de localização das prostitutas conhecimen to das condições em que desempenham seu trabalho atores atrizes sociais que compõem a rede de prostituição atuação destesdestas como fatores de proteção ou mesmo contri buindo para uma maior vulnerabilização das mulheres A intenção era que o mapeamento possibilitasse nosso enten dimento da dinâmica do campotema prostituição conhe cendo as pessoas envolvidas direta e indiretamente nesse co mércio os lugares de negociação e exercício da prostituição e mesmo nossa entrada no campo como representantes de um projeto de intervenção no âmbito da saúde e dos direitos A partir desse momento também passamos a fazer parte do circuito da prostituição na subregião de Suape e os efeitos de nossa presença nesse campo também serão aqui relatados e problematizados Nessa primeira visita poucas foram as pessoas que sa biam informar locais onde poderíamos encontrar as profis sionais do sexo mas dois nos foram indicados um bar em Gaibu5 e o Mercadão Municipal do Cabo Almejando averi 5 Gaibu é um dos bairros que compõem o município do Cabo de Santo Agostinho e sua praia é uma das mais famosas e movimentadas de todo o litoral pernambucano recebendo grande número de turistas 174 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA guar tais informações dois dos bolsistas de pesquisa do sexo masculino se dispuseram a visitar o bar de Gaibu em caráter informal sem explicitar a condição de bolsistas de um projeto de pesquisaintervenção Em consenso foi decidido que não seria estratégico que todo o grupo adentrasse o local e como maior parte do grupo era composta por integrantes do sexo feminino havia certo receio das próprias pesquisadoras sobre os possíveis impactos oriundos da chegada de um grupo de jovens mulheres em um espaço de prostituição Trabalhando com uma perspectiva de gênero na qual as relações de poder regulam os corpos e as subjetividades das pessoas a partir de marcadores binários da ordem do sexo gênero na interface com outros marcadores de desigualdades Butler 2003 Piscitelli 2013 por que reiterar uma regra na qual a circulação de corpos em espaços públicos e à noite é legitimada para aquelas pessoas que performatizam o gêne ro no masculino Nossa resposta fala dos próprios limites do campo e da potência de estar atentos a essas restrições Não reproduzimos práticas desiguais antes utilizamonos delas para entrarmos em um campo tenso e complexo de forma tal que pudéssemos trabalhar homens e mulheres nas mesmas condições Feitas as negociações na equipe os dois pesquisadores fo ram ao estabelecimento e já na entrada receberam a informa ção dada por um segurança de que era necessário pagar uma taxa É importante registrar que as mulheres tinham entrada gratuita e os pagantes recebiam um papel que permitia saída e nova entrada sem que houvesse outra cobrança O bar estava pouco movimentado e logo após a entrada podiamse ver as prostitutas sentadas na frente com figurinos que evidencia vam seus corpos umas próximas às outras e algumas já nas mesas com os frequentadores Sentamonos pedimos uma bebida e agimos como clientes comuns de um bar Chá de Damas Jaileila Menezes et al 175 Lá atentamos para a estrutura do local uma espécie de casa gradeada que funcionava como bar e que em seu quintal de limitado por um muro ficavam as mesas para os clientes O local possuía uma jukebox onde era possível escolher músicas para tocar a partir da compra de fichas no bar O local também contava com um jogo de luzes além de um palco Inclusive uma banda estava marcada para tocar música ao vivo O bar só tinha banheiro masculino e nesse havia um grande buraco em que era possível ver o lado da casa onde tinha vários quartinhos que as prostitutas utilizavam aos quais se tinha acesso através do interior da casa Douglas extraído do diário de campo A estrutura do local revela bem o cenário da prostitui ção exercida em estabelecimentos para esse fim As mulheres ficam dispostas no salão e o palco além de shows de músi ca também abriga performances de striptease O uso de grades chama atenção como procedimento de segurança evitando a entrada de pessoas e principalmente a saída sem pagamento da consumação E a existência de um único banheiro como identificado para homens traz à tona uma compreensão de que a organização desse espaço é pautada pela heterossexua lidade espaço de homens que vão em busca de mulheres da casa Não se espera uma clientela feminina que pode inclu sive ameaçar o negócio da casa gerando concorrência entre frequentadoras e prostitutas Os pesquisadores escutaram uma conversa entre um cliente e uma prostituta na qual havia uma negociação do programa A profissional disse que cobrava 50 reais e logo depois os dois foram ao interior da casa A prostituta deu a quantia para o responsável pelo bar De acordo com Letícia Barreto e Marco Aurélio Prado 2010 há variações na práti ca da prostituição a depender do local onde ela ocorre o que repercute entre outras coisas no preço médio e no tipo de programa Devese atentar para as condições que circunscre vem o trabalho no sentido do enfrentamento às situações de 176 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA exploração econômica que marcam historicamente a inserção das mulheres no mercado de trabalho ainda mais quando a ocupação que exercem é mantida na clandestinidade por cau sa do preconceito social o forte estigma relacionado à prostituição seu status ilegal e sua exclusão de proteções so ciais que habitualmente são oferecidas a outras profissões im plicam numa sic maior vulnerabilidade à violação de direi tos Barreto e Prado 2010 p 201 A primeira visita institucionalizada do Programa Diálo gos aconteceu no Mercado Municipal do Cabo de Santo Agos tinho o Mercadão Tratase de um local espaçoso onde há uma área para venda de legumes frutas verduras entre outros objetos como roupas e panelas Há um local ao lado que tam bém faz parte do Mercado que agrega bares muitas mesas e cadeiras um pequeno palco e um pátio livre onde prova velmente as pessoas devem dançar quando há show Esse é um local central da cidade do Cabo próximo ao Terminal Integra do ao metrô ao comércio sendo portanto de fácil acesso e considerado ponto de encontro na cidade O Mercado pare ce reunir uma diversidade de frequentadores como famílias casais namorando pessoas sozinhas e grupos de amigos No tamos que o local é bastante frequentado por funcionários de Suape por causa do uniforme Quando chegamos não havia muita gente provavelmente por ser uma quintafeira e pelo horário relativamente cedo da noite6 A institucionalização de nossa presença em campo ficou evidente pelo transporte utilizado van devidamente identifi cada com o símbolo da Universidade Federal de Pernambuco UFPE e a camisa utilizada pelos membros da equipe com a logomarca do Diálogos da UFPE e dos principais apoiadores 6 Comumente nossas idas a campo ocorriam às quintas e sextasfeiras à noite com che gada a partir das 19h Chá de Damas Jaileila Menezes et al 177 do Programa A ação teve o caráter de explorar o território e também para procedermos à entrega de insumos para a po pulação fôlder de divulgação do Programa Diálogos explici tando seus objetivos eixos temáticos atividades alvo popula cional e apoiadores e executores do projeto panfleto Vamos conversar sobre sexualidade com informações sobre doen ças sexualmente transmissíveis DSTs a importância do uso do preservativo e a indicação de locais de distribuição marca dores de página abordando temas como redução de danos de álcool e outras drogas visibilidade trans e respeito à mulher Os relatos do diário de campo revelam nuanças dessa inserção em campo Aquela quintafeira de fato era um dia regado de alegria por ser um momento que tanto esperávamos e um caminho que es tava sendo traçado há meses de expectativa pela ânsia de conhe cer o campo a ser explorado as informações que poderíamos explorar de lá e de insegurança pelo desconhecimento das sur presas positivas ou negativas que o campo poderia nos reservar e a angústia em saber que aquele primeiro contato poderia não resultar na fluidez que desejávamos Neste primeiro momen to o grupo em geral se apresentava bastante nervoso pois tí nhamos palavras prontas para um discurso estrategicamente ligeiro que comportasse as minúcias de um campo ainda des conhecido uma fala mais ou menos ensaiada onde ainda não estávamos inteirados completamente acerca do que o projeto se propunha havendo o temor de surgir alguma pergunta e não sabermos responder Sarana extraído do diário de campo Antes da visita foi acordado que todosas iriam obser var distribuir o material informar sobre o Projeto Diálogos e se houvesse abertura falar dos diversos eixos de ação inclusi ve do Chá de Damas Também foi planejado que não houves se comentários entre osas pesquisadoresas sobre o que foi observado durante a visita reservando a troca de informações para um momento posterior Por esse motivo cada integrante 178 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA estava com caneta e papel para se necessário anotar observa ções que serviriam como base para a organização do diário de campo após a visita Antes das intervenções o grupo foi divi dido em duplas que iriam abordar os frequentadores do local Realizamos uma abordagem na qual entregamos os kits aos diversos cidadãos que circulavam pelo local de ambos os sexos e diversas faixas etárias e conversamos um pouco sobre a proposta do Programa Diálogos e sobre sexo seguro e exploração sexual infantil Denominamos kit uma embala gem de plástico devidamente etiquetada com a logomarca do programa na qual colocávamos uma cartela com três preser vativos masculinos uma camisinha feminina dois sachês de gel lubrificante panfletos informativos sobre o projeto sobre métodos de prevenção às DSTs demonstrativo de como co locar as camisinhas com ilustração e uma cartilha com in formações de endereços locais e números nacionais do Con selho Tutelar disquedenúncia para os casos de exploração sexual e de ONGs como o Centro das Mulheres do Cabo7 Os kits funcionaram como bons mediadores do contato da equipe com a população local pois havia interesse em abrir a embalagem ver os materiais e a equipe aproveitava a oportu nidade para falar sobre algo que literalmente estava nas mãos da população Nessa visita ao Mercadão começamos por abordar as pessoas nas mesas dos bares mas antes pedimos permissão para os funcionários dos estabelecimentos e explicamos qual 7 O Centro das Mulheres do Cabo CMC é uma organização feminista constituída como entidade privada sem fins econômicos e organizada como associação de mulheres tendo como missão construir a igualdade de gênero e afirmar os direitos de cidadania das mulheres A ação do CMC contribuiu para interiorizar o movimento de mulheres e feministas em Pernambuco além de ampliar e fortalecer as organizações autônomas de mulheres Disponível em httpwwwmulheresdocaboorgbrwordpressp404 Acesso em 9 ago 2014 O CMC integra um dos projetos vinculados ao Programa Diá logos em Suape e se destaca pelo uso da rádio comunitária como tecnologia fundamen tal para a mobilização comunitária Chá de Damas Jaileila Menezes et al 179 era nossa função ali Percebemos que algumas pessoas ficaram um pouco incomodadas com nossa abordagem recusaramse a receber os insumos enquanto outras não permitiram que falássemos do Programa Contudo aquelas que permitiram recebiam os kits e agradeciam por nosso trabalho Muitas vezes nossa presença foi solicitada Íamos até as mesas ou mesmo para dentro dos bares a pedido de donos e funcioná rios As pessoas tinham muitas dúvidas em relação à nossa presença e chegamos a escutar alguns comentários como O que será que eles querem aqui Por que estão dando camisi nha de graça Será que são mandados da prefeitura Durante a entrega dos preservativos observamos situa ções que merecem ser relatadas Expressões como me dá mais pois hoje a noite vai ser longa eram frequentemente ditas por homens deixando clara a forte necessidade de demonstração de virilidade e da intensa atividade sexual A dominação mas culina em relação à mulher também já que era comum es cutar frases de homens no momento da entrega como não quero mulher minha com isso Também foi comum a reação de homens que não aceitaram camisinhas justificando que possuem apenas uma parceira fixa Mas na sequência a essa afirmação surgia a seguinte se eu chegar com camisinha a mulher me bota para fora de casa demonstrando que o pre servativo não é utilizado entre casais com relacionamento fixo certo fechamento das possibilidades de negociação de uso en tre o casal o posicionamento da mulher como intolerante e a representação da camisinha como ameaça ao relacionamento do casal possivelmente significando quebra de confiança rela cionada com a infidelidade A recusa em receber o preservati vo informa sobre os códigos sexuais da cultura local em que um homem bem casado com parceira fixa não é bem visto quando tem em sua posse preservativos Esse comportamento sugere também que a camisinha não é utilizada como método anticoncepcional entre casais casados 180 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Nessa ocasião as jovens mulheres da equipe também so freram investidas que demonstram códigos de gênero e sexu alidade da cultura local As pesquisadoras receberam convites para tomar uma cervejinha depois do trabalho ou foram questionadas de modo malicioso sobre como se usa isso a camisinha Essas situações de saia justa vivenciadas no campo serviram como dado de que mulheres circulando em determinados locais públicos da cidade e sem a devida com panhia de seus parceiros estão disponíveis para investidas dos homens do lugar Ainda mais em se tratando de mulheres jo vens oferecendo produtos para uso durante relações sexuais ou seja ousando ter conhecimento em uma dimensão da vida que tem forte inscrição como símbolo de masculinidade e viri lidade a sexualidade A adesão às práticas sexuais frequentes a forte disposição para a atividade sexual estar sempre pronto para ter relações sexuais com uma mulher foram observados em várias situações nas quais os homens foram abordados Quadros 2011 p 70 As informações coletadas em situações de conversas in formais mediadas pela entrega dos kits possibilitaram o enten dimento de uma cultura sexual local marcada por uma com plexa lógica de permissões e proibições Práticas sexuais entre homens são condenadas assumirse homossexual exige forte disposição para lidar com o preconceito e por que não dizer também com o medo8 Além disso a complexidade do campo e dosdas atoresatrizes que o compõem é grande Em nossas inserções encontramos informantes que indicaram a presen ça de travestis que se montam e dançam no local nas sextas e sábados a partir das 21h o que caracteriza também uma for 8 Matéria veiculada em 22 de julho de 2013 por um jornal virtual informou sobre os as sassinatos de sete homossexuais em um período de pouco mais de um ano registrados no município do Cabo de Santo Agostinho na Região Metropolitana do Recife RMR Chá de Damas Jaileila Menezes et al 181 ma de comercialização de sexo9 Em relação às travestis houve um comentário que merece ser salientado alguns motoboys informaram que um travesti foi morto porque falava muito sugerindo que ela comentava sobre seus clientes E uma gar çonete de um dos bares do Mercadão relatou que seu colega de trabalho é gay mas tem vergonha de assumir Além dis so um motoboy que estava próximo afirmou ter um parceiro sexual mas que essa relação não era explícita nem pública Nessa primeira visita também aproveitamos para per guntar sobre a presença de mulheres prostitutas no local A impressão deixada foi de que a prostituição é silenciada Em geral o questionamento a respeito da prostituição foi reali zado com os próprios funcionários dos bares no entanto a maioria do grupo não conseguiu informações não tendo fi cado claro para nós se os funcionários não sabiam ou se não queriam falar No entanto duas pessoas da equipe consegui ram a informação de que as prostitutas ocupavam os arredo res do Mercadão aos sábados por volta das 21h Elas ficavam dançando no centro da praça tornando fácil identificálas Algumas já eram conhecidas ali e uma funcionária chegou a dizer que tem uma que sempre passa toda roxa por aqui dando a entender que ela sofre violência física Alertaram também que elas talvez fossem resistentes a qualquer contato pois não queriam saber de ninguém e que até em momen tos de brigas elas não aceitavam a ajuda de nenhuma pessoa mostrandose inclusive hostis a esse auxílio A informação mais concreta que obtivemos a respeito da prostituição nas proximidades foi de que havia na rua 9 A prostituição foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações CBO em 2002 e compõe a descrição profissionais do sexo Nesta cabem diversos profissionais como transexuais e travestis o que torna evidente que a ocupação não é exclusivamente de mulheres Estão inclusos na definição da área de atividade batalhar programa produ zirse visualmente e dançar para o cliente Barreto 2008 Tais descrições e definições colaboram para a compreensão da complexidade social do comércio sexual corrobo rando a ampliação dos significados das práticas sexuais 182 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA lá pra cima Um mototaxista também confirmou dizendo que se continuássemos subindo a rua encontraríamos uma praça onde havia alta concentração dessas profissionais Com essa informação voltamos à van e procuramos o local indica do pelo rapaz em vão Após algum tempo procurando pela praça decidimos interromper nossa busca naquele dia Fina lizado esse primeiro contato voltamos para casa com muitas dúvidas receios e observações sobre o campo o que nos moti vou para as próximas inserções Percebemos que o Mercadão não se caracterizava exa tamente como um ponto de concentração das prostitutas Sentíamos portanto que precisávamos ir em busca de ou tros locais a fim de encontrar esses pontos mas estávamos extremamente perdidos sentindo necessidade do apoio de alguém que facilitasse o mapeamento 3 Entre nós e elas mediação como estratégia de mapeamento Diante das dificuldades vivenciadas pela equipe em loca lizar os pontoslugares de prostituição e acessar as profissio nais do sexo foco de nosso trabalho de intervenção passa mos a contar com a presença de uma assistente de pesquisa qualificada a presidente da Associação Pernambucana de Profissionais do Sexo APPS Nanci Feijó Por seu papel de liderança e militante em diversas causas relacionadas com a garantia de direitos para as profissionais do sexo Nanci pas sou a nos acompanhar no trabalho de campo contribuindo sobremaneira para o mapeamento Sua abordagem segura sua fala militante de conscientização das mulheres com rela ção ao preconceito direitos e deveres da profissão violência atenção ao sexo seguro e o papel da APPS em Pernambuco possibilitaram nossa aproximação dos estabelecimentos co Chá de Damas Jaileila Menezes et al 183 merciais e das próprias mulheres prostitutas Notamos que as prostitutas ficaram muito à vontade com a presença e a fala da coordenadora da APPS e que isso tornou nossa chegada leve e agradável No total visitamos cinco pontos de prostituição no Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca ao longo de seis meses de atua ção Nossas visitas ao Mercadão continuavam pois acreditáva mos que ali podíamos encontrar clientes das prostitutas mes mo que elas não estivessem necessariamente no local Conti nuávamos a distribuir os kits aos frequentadores do lugar e utilizamos esse material também como mediador de nosso contato com as profissionais nos bares boates e cabarés Na situação de entrega dos materiais podíamos conver sar de modo mais informal com as mulheres profissionais do sexo que relataram entre outras coisas a dificuldade de uso do preservativo feminino Muitas disseram que o preserva tivo incomoda que com ele não é possível fazer sexo em vá rias posições faz barulho temem que ele entre na região da vagina A intervenção da assistente do projeto nesse cenário de reclamações consistiu em fazer uma demonstração do uso seguro do preservativo feminino e orientar as mulheres para que sempre o tivessem na bolsa Isso porque há também uma resistência muito grande dos homensclientes em usar o pre servativo masculino principalmente homens casados Essa recusa parecenos estar relacionada entre outros aspectos com uma não familiaridade com a camisinha pois ela não faz parte do cotidiano de suas práticas sexuais com a parceira fixa e acaba não sendo usada também com as parceiras ocasionais o que vulnerabiliza ambas as mulheres a contrair doenças e in fecções sexualmente transmissíveis Nesse cenário assistente e pesquisadoresas sustentavam a importância de as profissio nais terem um preservativo seu para garantir sua segurança no exercício de seu trabalho não contrair DST ou HIV ou ainda gravidez indesejada 184 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Chegar aos locais de prostituição com uma assistente de pesquisa qualificada experiencialmente na temática nos deu a segurança necessária para futuras investidas e mesmo nos afirmou junto à população local como representantes de um projeto de intervenção e não informantes da polícia A coor denadora da APPS era conhecida por alguns donos de esta belecimentos e pelas prostitutas logo por estarmos em sua companhia ia ficando claro que não tínhamos ali uma função policialesca Fomos paulatinamente incorporadosas no cir cuito da prostituição e os episódios de cerceamento de nossa presença no interior de bares e boates foram se tornando me nos frequentes Esse processo de entrada no campo deixou clara a im portância do informantechave e de seu papel mediador Ficou evidente também a importância da experiência como solo de compartilhamento de vivências de dificuldades desi gualdades resistências Se por um lado nós da comunida de acadêmica pessoal da universidade como passamos a ser denominados no campo não tínhamos um solo comum de experiência profissional com aquelas mulheres por outro passamos a entender que em vários outros pontos podíamos nos encontrar compartilhando também nossas experiências com relação ao uso de preservativo e sendo propositivosas no sentido de indicar formas de superação das dificuldades vivenciadas Passamos a observar situações que poderíamos propor para deixálas à vontade bem como a nós mesmos para compartilhar experiências É importante afirmar que até mesmo o não dado isto é a ausência de alguns comparti lhamentos também foi levado em consideração já que essa ausência exprime as formas de relações entre os diferentes su jeitos envolvidos Já com certa aceitação e familiaridade no campo a assis tente nos alertou sobre a importância de ser feito um perfil das profissionais do sexo O objetivo era termos um arquivo Chá de Damas Jaileila Menezes et al 185 com as informações das mulheres com as quais estávamos trabalhando Elaboramos em conjunto um questionário com perguntas referentes ao cotidiano das prostitutas no es paço de trabalho e as condições socioeconômicas vivenciadas por elas A coleta das informações ocorreu em três bares mapea dos como lugares onde havia o exercício da prostituição na cidade do Cabo de Santo Agostinho Aproveitamos os dias de entrega dos preservativos e panfletos educativos para convi dar e aplicar o questionário deixando explícito o caráter vo luntário da participação No fim contabilizamos os dados de 30 mulheres Entre as 30 profissionais 25 eram naturais de cidades de Pernambuco e cinco eram de outros estados três da Paraíba duas da Bahia e uma do Rio de Janeiro Em relação à orien tação sexual 25 se afirmaram como heterossexuais quatro como bissexuais e uma como homossexual A maioria delas tinha o ensino médio 16 completo e oito incompleto e 24 delas tinham filhos Quanto à prostituição nove mulheres estavam no exer cício há no máximo um ano quatro dentro de um período de seis a nove anos 16 de dois a cinco anos e uma há mais de 10 anos Um dado interessante foi que quando questiona das sobre o fato de encarar ou não a prostituição como traba lho 24 das 30 mulheres disseram considerar a prostituição um trabalho Esse dado foi questionado e modificado quan do começamos a realizar as oficinas rodas de conversas com elas10 Sobre o Código Brasileiro de Ocupação 26 mulheres não o conheciam e quando perguntadas acerca da existên cia da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo as que conheciam era por causa da presença da coordenadora em nossas intervenções 10 Esse aspecto será objeto de discussão em um próximo texto da ação Chá de Damas 186 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA No campo que compreende as DSTs todas as partici pantes do questionário afirmaram fazer exames preventivos regularmente e só uma afirmou já ter tido alguma DST não informou qual A maioria também alegou usar preservativos em todas as relações sexuais só uma que disse não usar com o companheiro Mesmo com essas informações que evidenciam um bom cuidado com a saúde íntima as profissionais do sexo evidenciaram grande demanda referente a esses assuntos que foram exploradas nos encontros do grupo Em relação à violência contra a mulher foram questiona das sobre a Lei Maria da Penha e as 30 participantes afirma ram ter algum conhecimento sobre ela metade afirmou já ter sofrido algum tipo de violência 12 delas violência física e três violência sexual e 25 conheciam a Delegacia da Mulher 4 Reconsiderações iniciais Mesmo com as tensões e dificuldades o trabalho de cam po foi muito prazeroso e nos levou a montar estratégias mais eficientes para o próximo passo realizar as oficinas e nos sen tirmos mais à vontade para adequar as temáticas que gostaría mos de utilizar a partir da exploração e investigação do campo que fizemos em torno de um ano e quatro meses com a entre ga dos materiais do projeto e as conversas informais com a população local e as prostitutas É interessante observar como o trabalho de entrega de materiais kits que inicialmente parecia enfadonho foi se mostrando um eficiente mediador de nossa inserção e rela ção com o circuito da prostituição As visitas aos pontos de prostituição com o objetivo de entregarmos os insumos pos sibilitaramnos o contato direto com osas diferentes atores atrizes sociais envolvidos na cena Encaramos esse primeiro momento de entrada no campo com uma boa dose de enten Chá de Damas Jaileila Menezes et al 187 dimento das práticas sociais culturais e sexuais do cenário de pesquisaintervenção e problematizando os diferentes signifi cados que a atividade de prostituição tem para os diferentes grupos inclusive para nós mesmos O mapeamento dos pon tos de prostituição a abordagem direta aos donos dos estabe lecimentos comerciais as conversarsas com as prostitutas e a aplicação do questionário constituíram etapas fundamentais para o entendimento do outro Segundo Marisa Peirano 1995 p 4 a antropologia tem como projeto formular uma ideia de humanidade construída pelas diferenças resultado do contraste dos nossos conceitos teóricos ou de senso comum com outros conceitos nativos Como já dito tinhamos questões norteadoras advindas de nossos referentes culturais e teóricos No entanto tínhamos o propósito e a disponibilidade de nos deslocarmos e desestabi lizarmos nossas certezas a partir do encontro e da convivência com a alteridade Ainda durante o processo de formação teórica elabora mos uma primeira proposta de oficina para realizamos com as prostitutas com a temática Cuidados de si envolvendo cabelo unhas maquiagem corpo violência DSTs de modo a realizar uma aproximação gradual e a formação de víncu lo com o grupo Contudo após termos contato com as da mas pela ação de mapeamento percebemos que seria mais estratégico escutar a demanda delas com relação aos temas que consideravam relevantes para trabalharmos no contexto das oficinas11 A partir do desenvolvimento de uma postura de escuta e de uma perspectiva de trabalho participativo pautado pela pesquisaintervenção Rocha e Aguiar 2003 acreditamos que 11 No momento de escuta de suas demandas alteramos a proposta inicial de modo a contemplar temas como família identidade e movimentos sociais A experiência das oficinas com o grupo de prostitutas será abordada em outro texto 188 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA conseguimos construir um bom vínculo com o campo o que nos possibilitou a realização posterior das oficinas com boa adesão por parte das prostitutas Já em perspectiva para esse segundo momento nossas voltas para casa após o trabalho de campo tarde da noite traziamnos mais estímulo prin cipalmente por sabermos que a expectativa era recíproca por parte das mulheres que passamos a conhecer melhor Referências ADRIÃO K G Encontros do feminismo uma análise do campo feminista brasileiro a partir das esferas do movimento do governo e da academia Tese Doutorado UFSC Florianópolis 2008 301 p BARRETO L C Prostituição gênero e sexualidade hierarquias sociais e en frentamentos no contexto de Belo Horizonte Dissertação Mestrado Programa de Pósgraduação em Psicologia Universidade Federal de Minas Gerais Belo Horizonte 2008 MAYORGA C GROSSI M P Pesquisando e intervindo na pros tituição reflexões sobre subjetividade experiências e militância In SEMI NÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 10 DESAFIOS ATUAIS DOS FEMINISMOS Anais Florianópolis 2013 PRADO M A M Identidade das prostitutas em Belo Horizonte as representações as regras e os espaços Pesquisas e Práticas Psicossociais São João delRei v 5 n 2 dez 2010 BUTLER J Problemas de gênero feminismo e subversão da identidade Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2003 Série Sujeito e História CORRÊA S PETCHESKY R Direitos sexuais e reprodutivos uma pers pectiva feminista Physis revista de saúde coletiva Rio de Janeiro v 6 n 12 p 147177 1996 Chá de Damas Jaileila Menezes et al 189 GEERTZ C Obras e vidas o antropólogo como autor 2 ed Rio de Janeiro UFRJ 2005 MENEZES J de A COSTA M R Desafios para a pesquisa o campotema movimento hiphop Psicologia Sociedade v 22 n 3 p 457465 2010 OLIVEIRA R C De O trabalho do antropólogo Brasília Paralelo Quinze São Paulo Unesp 1998 PEIRANO M A favor da etnografia Rio de Janeiro Relume Dumará 1995 PISCITELLI A Tensões tráfico de pessoas prostituição e feminismos no Brasil Desafios da Antropologia Brasileira Brasília ABA 2013 QUADROS M T de Homens valores e práticas relacionadas à contracepção em grupos populares Recife UFPE 2011 Publicações especiais do Programa de Pósgraduação em AntropologiaFages ROCHA M L da AGUIAR K F de Pesquisaintervenção e a produção de novas análises Psicol Cienc Prof Brasília v 23 n 4 dez 2003 WEBER F A entrevista a pesquisa e o íntimo ou por que censurar seu diário de campo Horizontes Antropológicos Porto Alegre v 15 n 32 dez 2009 Portas entreabertas à produção de cuidados o acesso dos homens à atenção básica em saúde Túlio Quirino Benedito Medrado Jorge Lyra e Michael Machado Este texto foi construído a partir de análises relativas a re sultados da pesquisa intitulada Homens nos Serviços Públi cos de Saúde Rompendo Barreiras Culturais Institucionais e Pessoais1 Este estudo em particular teve por objetivo desen volver uma leitura psicossocial dos modos como usuários ho mens e trabalhadores de saúde produzem o cuidado à saúde do homem no cotidiano da atenção básica Alguns elementos nos ajudam a situar a relevância do tema do acessouso dos serviços de saúde no contexto das po líticas públicas voltadas à população masculina no Brasil Um desses elementos é a Política Nacional de Atenção Integral a Saúde do Homem PNAISH Brasil 2009 cujo texto ressalta a importância de ações voltadas aos homens no contexto da atenção integral à saúde reconhecendo em consonância com pesquisas e recomendações da Organização Mundial da Saúde OMS que o envolvimento dos homens no contexto da saú de pode contribuir para melhorar os resultados de programas voltados 1 à prevenção de doenças sexualmente transmissí veis DSTs 2 ao controle da violência de gênero e 3 à saúde reprodutiva minimizando o sofrimento das mulheres e dos próprios homens e garantindo o exercício pleno da cidadania Dando sustentação a esta proposta informações publica das nos Indicadores e Dados Básicos para a Saúde IDB 2006 Brasil e Opas 2007 ressaltam que 1 A pesquisa foi realizada em três cidades brasileiras RecifePE CampinasSP e Floria nópolisSC Neste texto privilegiamos as informações de Recife Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 191 o sexo masculino apresenta maior mortalidade em todas as idades até os 79 anos sendo o excedente de mortes mascu linas mais acentuado nos grupos etários de 15 a 29 80 e de 30 a 39 anos 73 em 2004 84 dos óbitos notificados por causas externas ocorreram entre a população masculina lesões decorrentes de causas externas motivaram parcela considerável 28 da hospitalização de homens de 15 a 29 anos em 2005 A leitura crítica de determinantes sociais em saúde nos leva a reconhecer que as informações citadas denunciam por um lado a construção social de modos de ser homem Me drado et al 2000 e por outro a necessidade de investirmos esforços em pesquisas e projetos de intervenção a partir do enfoque de gênero que permitam ampliar a procura da popu lação masculina por serviços de saúde e compreender como se dá o acesso à rede de saúde reconhecendo seus limites e obstáculos É também a partir do reconhecimento da dimensão simbólica institucional e relacional de gênero Scott 1995 e das transformações nas relações e redes sociais que é pro posta uma abordagem feminista também para o masculino e para os modos de ser homem em nossa cultura Nesse sen tido como afirmam Benedito Medrado e Jorge Lyra 2008 a leitura do sistema sexogênero não deve reificar a dicotomia naturezacultura mas buscar compreender os usos e efeitos que práticas sociais entre as quais podemos incluir aquelas que operam serviços de saúde produzem a partir do exercício constante de oposição entre o masculino e o feminino Esses autores apostam na complexa teia que define as re lações de gênero que nos aponta mais para a diversidade do que para a diferença como resposta à dicotomia e à desigual dade Ao mesmo tempo afirmam que as discussões sobre os 192 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA homens e as masculinidades a partir de leituras críticas são resultados dos desafios e avanços dos debates científicos e po líticos originalmente produzidos pelo movimento feminista e pelo movimento em defesa da diversidade sexual Segundo eles Quando se pretende refazer perguntas ao campo da produção de conhecimento ainda fortemente sexista e androcêntrico ou quando se deseja ressignificar relações sociais de poder e desconstruir o machismo institucionalizado é necessário adotar essa matriz analítica e de compreensão éticoconceitual Medrado e Lyra 2008 p 824 Assim diante da análise crítica do estado da arte de estu dos e pesquisas sobre homens e masculinidades esses autores postulam que é preciso romper com modelos explicativos que em geral reafirmam a diferença e que nos permitem somen te explicar como ou por que as coisas assim o são mas que não apontam contradições fissuras rupturas brechas fres tas que nos permitam visualizar caminhos de transformação progressiva e efetiva Logo devemos apostar na necessidade de abrirmos espaço para novas construções teóricas que res gatem o caráter plural polissêmico político e crítico das lei turas feministas para pensar os homens e as masculinidades Medrado e Lyra 2008 Além disso esses autores enfatizam que não existe uma única masculinidade e que não devemos falar em formas binárias que supõem a divisão entre formas hegemôni cas e subordinadas de ser homem Tais formas dicotômicas baseiamse nas posições de poder social dos homens mas são assumidas de modo complexo por homens particula res que também desenvolvem relações diversas com outras masculinidades No que se refere à atenção básica até o momento os pro gramas governamentais de saúde existentes nesse nível de Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 193 atenção têm aberto pouco espaço para a discussão sobre as necessidades específicas dos homens e sobre a importância da participação masculina no compartilhamento do cuidado dos outros Muitos profissionais de saúde têm admitido ter difi culdades em obter empatia e cumplicidade dos homens nos serviços públicos de saúde o que nos dificulta conhecer mais claramente as necessidades específicas dos homens e nos impede também de definir melhores estratégias para envolvêlos Ao pensarmos a rede do Sistema Único de Saúde SUS os serviços oferecidos pela atenção básica são aqueles mais próximos do cotidiano das pessoas Por meio da Estratégia de Saúde da Família ESF é disponibilizada uma série de pro cedimentos que visam sobretudo à melhoria da qualidade de vida e à prevenção promoção e recuperação dos agravos em saúde Informações do Ministério da Saúde Brasil 2010 apontam que 80 dos problemas de saúde podem ser solucio nados na atenção básica Assim em um território sanitário é possível realizar uma verdadeira sinergia e acessar elementos da rede gerando uma corresponsabilização em uma constru ção coletiva da equidade Além disso é importante ressaltar que um dos objetivos da PNAISH é o fortalecimento e a qualificação da atenção bá sica à saúde de modo que esta esteja preparada para atrair e acolher as demandas dos homens na saúde Compreendese que muitos dos agravos à saúde dos homens poderiam ser evitados se eles realizassem periodicamente as medidas de proteção primária No entanto percebese uma resistência da população masculina na adesão a esse tipo de cuidado com a própria saúde Brasil 2009 mas também uma resistência dos serviços de saúde à incorporação da leitura feminista de gênero e consequentemente uma percepção equivocada de que cuidados em saúde são atribuições exclusivamente femi 194 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA ninas Medrado 2003 Medrado e Lyra 1999 Medrado et al 2000 A partir do posicionamento das microrrelações estabe lecidas pelas pessoas com o território os saberesfazeres em saúde e os serviços oferecidos pelo Estado essa configuração possibilita outras formas de produção de cuidados em saú de Isso porque a ESF permite a utilização de todos os recur sos disponíveis no território por ela coberto havendo espaço para o desenvolvimento de práticas alternativas em que osas comunitáriosas são ao mesmo tempo públicoalvo e autor além de que é nesse lugar em que as políticas desenvolvidas pelo Estado se encontram com a população ocorrendo aí os espaços de negociação resistência controle burla entre ou tras estratégias 1 Contexto da pesquisa Este estudo foi desenvolvido a partir de uma abordagem qualitativa por meio da realização de uma pesquisa explora tóriodescritiva O trabalho de campo procedeu em meio aos contextos institucionais destinados às práticas públicas de produção do cuidado à saúde mais especificamente no âmbi to da atenção básica Optamos como campo de investigação pelo espaço de uma Unidade Básica de Saúde UBS referenciada ao cuidado à saúde do homem na Região Metropolitana de RecifePE A escolha dessa UBS foi orientada pelo fato de ela ser a única na cidade que oferecia na época alguma atividade voltada espe cificamente para o público masculino permitindonos uma maior aproximação ao acesso e à adesão de homensusuários às atividades propostas Assim a UBS escolhida tem como diferencial iniciati vas da equipe de trabalhadores que buscam contemplar os Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 195 homens em seu cotidiano Entre essas iniciativas citamse o Grupo de Homens reunião semanal em espaço extrasserviço na qual homens da comunidade discutem temáticas diversas sob a mediação de algum trabalhador de saúde da unidade orientada nos princípios da educação popular em saúde e o Dia do Homem atividade pontual que tem por objetivo o atendimento exclusivo à população masculina com o ofereci mento de ações habituais do serviço como exames consultas médicas vacinação etc A referida UBS cobre um território povoado por 2 mil famílias distribuídas em 15 microáreas atendidas por duas equipes de Saúde da Família SF Cada equipe de SF é com posta por médicoa enfermeiroa e auxiliar de enfermagem dentista e auxiliar de saúde bucal e de cinco a sete agentes comunitários de saúde A unidade é bastante movimentada e costuma abrigar acolher pesquisadoresvisitantes estagiários de diversas espe cialidades na saúde profissionais residentes e desenvolve par cerias com ONGs e equipamentos sociais do próprio bairro e também de outras localidades no município As ações da equi pe de saúde nessa unidade também são potencializadas com a participação de uma equipe dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família que trabalha com matriciamento e suporte a casos identificados no território 2 Produção das informações em campo Como procedimentos para a produção de informações foram utilizadas a observação no cotidiano Spink 2007 com registro e escritura em diários de bordo Medrado et al 2011 e a realização de entrevistas com os atores do serviço A observação no cotidiano reconhece a coprodução no contexto da pesquisa levandonos a perceber as dinâmicas de interação 196 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA entre os atores envolvidos profissionaistrabalhadores usu ários e comunidade bem como os modos de cuidado desen volvidos no dia a dia do serviço de saúde Os momentos de observação foram registrados em diários de bordo Medrado et al 2011 os quais se relacionam com um posicionamento do pesquisador em direção ao campo de modo a permitirse ser conduzido pelas imprevisibilidades do contexto da pesquisa Tais diários mais que meros instru mentos de registro dos dados do campo funcionaram como elementos coconstrutores de informações O modelo de entrevista que utilizamos assemelhase à en trevista narrativa Jovchelovitch e Bauer 2002 Segundo essa modalidade de entrevista o sujeito é convidado a falar de si como se contasse uma história a qual vai sendo construída a partir do compartilhar de seus pensamentos e opiniões A entrevista serviu como possibilidade de aprofundamento das informações produzidas nos momentos de interação em cam po a partir da produção discursiva dos profissionaistraba lhadores e usuários do serviço 3 Interlocutores Neste texto optamos por focalizar as entrevistas realiza das com 12 homensusuários que frequentavam a UBS Elas foram audiogravadas com a utilização de aparelho digital mp3 e posteriormente transcritas na íntegra de modo a subsidiar o processo de análise das informações produzidas Entre os entrevistados oito eram participantes do Grupo de Homens e os demais quatro foram contatados no dia a dia da unidade de saúde especificamente no corredorsala de espera O contato com os homens entrevistados ocorreu de ma neira diferente para os dois grupos destacados Os usuários Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 197 que frequentavam o Grupo de Homens foram contatados e con vidados a conversar nos momentos posteriores às reuniões se manais do próprio grupo Quanto aos homens da sala de espera o contato se deu após os atendimentos que iriam receber na unidade Não houve critério a priori para definir quais homens seriam contatados e entrevistados Entrevistamos aqueles que estavam disponíveis para a conversa Quadro 1 Informações sobre os homens entrevistados Grupo de Homens Sala de Espera Pseudônimo Idade Pseudônimo Idade Marcelo 49 anos Felipe 33 anos Roberto 66 anos Tomás 23 anos Péricles 41 anos Vítor 22 anos Vinícius 62 anos Romeu 26 anos Santiago 48 anos Luís 23 anos Tarcísio 18 anos Cristiano 52 anos Vale ressaltar que este estudo se orientou pela Resolução no 196 do Conselho Nacional de Saúde Brasil 1996 que dis põe sobre os cuidados e procedimentos que devem ser segui dos para a realização de pesquisas com seres humanos Garan timos que não se tornaram públicos quaisquer aspectos que possam causar danos pessoais aos participantes envolvidos no estudo e buscamos respeitar o mais alto sigilo no tocante à identificação dos entrevistados de modo a resguardar o ano nimato e a preservação da identidade deles Neste texto os no mes foram substituídos por pseudônimos com essa finalidade 198 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA 4 Análise Para o processo de análise as entrevistas transcritas fo ram organizadas em quadros previamente construídos se gundo estratégia metodológica inspirada no uso dos Mapas Spink e Lima 2004 A perspectiva dos Mapas nos pareceu interessante por favorecer a construção dialógica e a preserva ção do contexto interativo em que as conversas operam Construímos e trabalhamos com nossos quadros analíti cos a partir desses princípios Um primeiro quadro foi produ zido a partir das questões que orientaram a pesquisa e cons tituiuse em uma espécie de painel temático que contemplava diferentes aspectos de nosso objeto os quais foram abordados durante as entrevistas mediante roteiro A disposição desse quadro possibilitou o estabelecimen to de comparações nas falas entre diferentes interlocutores Dessa organização partimos à produção de outro quadro sin tético em que os pontos em comum favoreceram a constru ção de sínteses analíticas e em contrapartida os dissonantes marcaram rupturas e ressignificações possíveis dos sentidos produzidos As sínteses resultantes desse quadro foram importantes elos de condução da análise e escrita dos resultados do estu do Optamos por organizar nossas informações considerando três segmentos que se subdividem e se estruturam a partir de questõeseixo de análise As questõeseixo orientadoras são respondidas a partir das sínteses construídas Neste texto dedicamonos a responder à seguinte questãoeixo Como os homensusuários acessam e produzem sentidos sobre os ser viços de saúde da atenção básica A seguir apresentamos e discutimos esse aspecto da pesquisa Em sua construção buscamos seguir uma linha argumentativa tal que possibilitasse uma maior compreen são dos sentidos produzidos a partir do contato com as falas Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 199 dos interlocutores supracitados Ao longo do texto fazemos tentativas de articulação teóricoanalítica e trazemos como ilustração recortes de falas de nossos interlocutores que em certa medida exemplificam cada aspecto que pretendemos visibilizar 5 Discussão As informações produzidas pelo estudo desenvolvido no Recife de certa maneira corroboram resultados de pesquisas realizadas em outros contextos que destacam a baixa frequên cia dos homens nos serviços de saúde da atenção básica Go mes e Nascimento 2006 Schraiber et al 2010 Couto et al 2010 Gomes et al 2011 Os homens entrevistados mesmo apresentando o profis sional médico como o elemento central para o cuidado à pró pria saúde não costumam buscálo ou acessar os serviços em busca desse atendimento de maneira preventiva O movimento de ir à unidade tem como fundamento maior uma resposta ao adoecimento Esses homens só pro curam a rede de serviços de saúde quando estão sentindo al guma coisa quando a doença já está instalada ou quando há uma piora no quadro clínico Isso porque a unidade de saúde não é a primeira opção de busca ou a equipe da ESF A maioria dos entrevistados recorre aos serviços de urgência e emergên cia como os hospitais e as Unidades de ProntoAtendimento UPA O argumento utilizado por eles para explicar tal prática decorre da própria situação de adoecimento que requer cui dados e procedimentos imediatos aliado a uma agilidade no atendimento e rapidez da resposta pois segundo os colabo radores do estudo na unidade é necessário aguardar em filas enormes e ter que retornar para ser atendido 200 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Esse aspecto foi abordado por Wagner Figueiredo 2005 que ressalta a preferência entre os homens pela utilização de farmácias ou prontossocorros uma vez que tais serviços apresentam respostas mais rápidas a suas demandas pois as sociam tais serviços à não existência de filas de espera e à reso lução de seus problemas com maior facilidade Um componente importante para a discussão é que mes mo com essas reclamações acerca do atendimento e de não co mumente frequentarem a unidade a maioria dos homens en trevistados tece elogios aos serviços e à equipe de saúde além de avaliar de maneira geral positivamente a UBS O recorte de uma das entrevistas ilustra tal posicionamento Pesquisador Tá E quando o senhor chega à unidade como é que o senhor é recebido Roberto Rapaz é tranquilo de todo modo É porque a turma reclama muito mas essa é uma uma das melhores equipes é essa agora O povo num num nunca tá satisfeito sempre quer mais né Desunião Do jeito mesmo que a menina falou Doutor diz o nome do médico passou o remédio caseiro ela queria o antibiótico Aí é bronca Pesquisador O senhor já sempre que o senhor quis algum atendimento na unidade conseguiu tranquilamente Roberto Tranquilo Toda vez que eu vou é tranquilo lá Aten dem bem eles Pesquisador Tem alguma coisa que o senhor gostaria que lá mudasse Que mudasse na unidade pra melhorar Roberto Rapaz por enquanto não Consideramos que uma das razões para a avaliação po sitiva pelos usuários está centrada na efetivação de um aten dimento imediato quando ele ocorre o serviço é bem avalia do Outra explicação para a avaliação positiva do serviço pela maioria de nossos entrevistados presente na fala de Roberto citado anteriormente relacionase com um tradicional mo vimento assistencialista que marca o processo de construção Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 201 do SUS a partir da incorporação da saúde como um direto e da compreensão de que se trata de um sistema voltado para o pobre Assim ao mencionar a turma reclama muito ou o povo nunca tá satisfeito podemos pensar na existência de uma lógica clientelista que remete à ideia de que se tá ruim com ele é pior sem ele Desse modo a existência de serviços voltados ao homem nessa unidade per se acaba sendo reconhecida positivamente como um ato de concessão benevolente do Estado e de preo cupação com o bemestar da população Quanto a isso Noe mi Jéssica Noca 2011 argumenta que a assistência à saúde tomada como um atendimento público universal ainda não foi apropriada pelos usuários dos serviços como um direito de cidadania e dever do Estado o que faz com que essa lógica assis tencialista ainda seja um imperativo no interior desses serviços Quando suas necessidades não são atendidas como aconteceu com Tomás que acabou precisando ir a outro ser viço por encaminhamento para conseguir o que queria a avaliação tornase negativa em função da articulação com os demais elementos da rede conforme o trecho Tomás Não só fiquei meio frustrado porque eu como dia bético eu falei né fiquei você tem que pegar a insulina só te nho uma insulina em casa um pouco né então eu encontrei o médico ele Não vá lá quatro horas eu vim mas ele só me deu um encaminhamento pra o cita o nome de um serviço de saúde né só que eu não sei se eu chegar lá eu vou receber como é que vai ser e se a que tá em casa acabar É aquela questão né então eu acho que o posto de saúde poderia fornecer né já que tem um médico aqui capacitado e tal acho que podia ficar sendo acompanhado por ele e também receber a insulina aqui quando realmente precisasse não que recebesse de um e de outro Dessa maneira o atendimento recebido por esse homem foi visto como frustrante uma vez que tinha a expectativa 202 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA de resolução de seu problema de maneira imediata o que aca bou não acontecendo Outro ponto de reflexão é que se outrora exames e medi camentos eram utilizados como artefatos de apoio à prática de saúde auxiliando no combate aos sintomas e na elabo ração de diagnósticos atualmente tais materiais são consu midos incessantemente pelos usuários dos serviços sendo demandados por eles Tal prática faz com que muitas vezes um trabalhador de saúde ou um atendimento realizado sejam bem avaliados por tais usuários a partir do uso ou recomenda ção de tais recursos exemplificado neste trecho Pesquisador E o que é que tu achou assim do atendimento daqui das vezes que tu veio Vítor Eu acho que foi bom né Tirando a demora o resto tá bom demais Pesquisador Tu acha O que é que tu mais gostou Vítor Eu gostei porque eu contei um problema a ela ela pas sou a doutora passou vários exames fez um checkup geral coi sa que nunca mais eu tinha feito aí achei o atendimento bom Logo um atendimento só é bom se houver prescrições e encaminhamentos o que auxilia na manutenção de uma cul tura de cuidado normatizado em constante retroalimentação Além disso há de se levar em consideração a relação eco nômica existente na produção da saúde pela via da tecnologiza ção das práticas médicas o que é referido por Maria Helena Au gusto 2000 como economicina O estímulo cada vez maior à realização dos chamados exames de rotina por exemplo constitui uma prática que reflete essa lógica Nesse caso uti lizamse recomendações médicas complementares para o cui dado pautadas por processos biotecnológicos que na verdade pouco contribuem para a saúde das pessoas mas que consti tuem grande atividade lucrativa para seus propositores sendo tais práticas supervalorizadas pela população que as consome Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 203 Sobre isso concordamos com o argumento de que a re gularidade no uso e na produção da tecnologia em saúde ao mesmo tempo que contribui para a revelação de alguns pro cessos acaba acelerando outros como a crescente medicaliza ção da saúde Assim o direito à saúde é confundido com o direito à assistência médica Noca 2011 Acerca das considerações dos participantes do Grupo de Homens organizado pela unidade o estar no grupo é tam bém uma forma de acessar e de utilizar as atividades oferecidas no serviço de saúde Além disso apesar de eles reconhecerem mudanças em suas práticas de autocuidado após começarem a frequentar o grupo vemos certa centralidade dessas práti cas na autoridade do trabalhador de saúde uma vez que é ele quem supostamente sabe o que é certo ou errado para a minha saúde Assim pensamos que as atividades de educa ção em saúde realizadas no grupo por alguns trabalhadores ainda parecem se realizar no plano da transmissão de infor mações e não na aprendizagem e no desenvolvimento de ou tras práticas pelos homens os quais ainda parecem tutelados pelas indicações desses trabalhadores Quando aparecem críticas ao funcionamento da unidade básica de saúde estas parecem se situar mais no sistema atra sos burocracia e na estrutura física do serviço lugar onde a unidade está situada nunca sendo referidas as relações entre usuários e trabalhadores ou os processos de trabalho e oferta de serviços específicos à população masculina Há de modo geral uma compreensão positivada dos trabalhadores de saú de e das relações apesar de poucas estabelecidas com os usu ários os quais afirmam não ter do que reclamar Por outro lado quando são solicitados a sugerir mudan ças na unidade para melhorar e atrair mais o homem mais uma vez a infraestrutura é bastante citada Surge também o desenvolvimento de atividades de lazer as quais têm sua au sência justificada pelos próprios usuários em razão da ine 204 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA xistência na comunidade de um espaço que possibilite essa prática Entre os entrevistados da sala de espera aparecem ainda a realização de campanhas para atrair mais o homem a ampliação das vagas de atendimento e a facilitação do acesso para a marcação de consultas por exemplo Convém pontuar acerca das campanhas a inexistência de programas que contemplem as necessidades dos homens Outro ponto para reflexão são as estratégias de comunicação em saúde presentes na unidade que privilegiam as crianças idosos ou mulheres gestantes mesmo com o material produ zido a partir da PNAISH Brasil 2009 Outra demanda apresentada por um de nossos entrevis tados foi a necessidade de um profissional especialista para o homem no caso o urologista na UBS o que nos chamou a atenção tendo em vista a grande centralidade atribuída pe los trabalhadores às questões da próstata para os homens O que não significa no entanto que nossos entrevistados não tenham tal preocupação mas que quando conversamos sobre a produção de sua saúde em geral nem sempre a próstata ti nha tanto destaque Por fim um aspecto merece ser assinalado os homens re conhecem que a unidade tem feito ações voltadas para eles citando por exemplo o próprio Grupo de Homens e o Dia do Homem Para eles depende do homem ir mais ao serviço pois já existem ações direcionadas a ele o que mais uma vez nos re mete à percepção positivada do serviço em vias de uma cultu ra assistencialista sem que tais homens reflitam por exemplo se as atividades oferecidas pela unidade estão de acordo com suas necessidades particulares Pesquisador E tu acha que é a unidade de saúde poderia fazer alguma coisa pra melhorar o cuidado ao homem Tu acha que precisa de alguma coisa lá Marcelo Precisa Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 205 Pesquisador O que por exemplo O que poderia Se fosse di zer ah eh pra melhorar o atendimento ao homem na unida de eu queria que isso existisse uma sugestão ou poderia ter mais o quê Ou tu acha que talvez Marcelo Rapaz se se melhorar o homem não vai porque o homem não vai A gente vê a gente conta a dedo Se tiver vinte mulher tem dois homens A ocupação é a mesma a gente quer melhorar mas a própria o próprio homem num deixa Pesquisador E tu acha que poderia fazer o que pra que o ho mem começasse a ir mais Marcelo Não ele mesmo ele deve ele mesmo ir que nem as mulheres vão Homem não homem é medroso pra ir ao médico Pesquisador O agente de saúde não podia fazer nada com re lação a isso Marcelo Não Eu creio que não A esse respeito uma discussão é realizada por Lilia Schrai ber e Ricardo MendesGonçalves 2000 no tocante às neces sidades e demandas apresentadas pelos homens na saúde Uma necessidade se configura no momento em que alguém tem diante de si um impedimento que dificulta seu viver e gera sofrimento Podemos compreender que as necessidades encontramse em todos os domínios da vida no trabalho na família no meio sociocultural no lazer etc Uma pessoa quando apresenta determinada necessidade recorre na cole tividade a um meio para a resolução de sua situação Assim acaba endereçando a outrem a possibilidade de ter atendidos seus desejos legitimandoo como aquele que pode intervir de modo a responder a seus carecimentos A necessidade então se formula a partir do resultado das intervenções sobre os ca recimentos da população e a demanda por sua vez se situa na busca ativa da intervenção Schraiber e MendesGonçalves 2000 No caso das necessidades em saúde consideramolas como resultado de uma compreensão particular do aparelho 206 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA social ao qual a pessoa recorre em busca de ajuda nesse caso tratase de uma produção dialética que se realiza na compre ensão de alguém sobre seu próprio sofrimento e nas respostas e recursos tecnológicos possíveis situados em códigos cultu rais específicos e disponíveis para lidar com aquele sofrimento Camargo Jr 2003 Desse modo as necessidades são construções sociais Schraiber e MendesGonçalves 2000 Isso implica que as pessoas para reconhecer determinados carecimentos como necessidades direcionadas para um ou outro serviço depen dem do reconhecimento das potenciais respostas a esses care cimentos construídas a partir dos desusos possíveis na cor respondência entre as necessidades apresentadas e os serviços bens disponíveis Dito de outro modo as necessidades podem corresponder a construções diversas dos carecimentos a de pender do tipo de resposta proporcionada na produção dos bens ou serviços Noca 2011 No caso dessa UBS as atividades oferecidas para os ho mens foram construídas mediante certa maneira de encarar suas necessidades Assim ao se definirem tais atividades como formas de produzir o cuidado à população masculina temse em conta quais os carecimentos apresentados por ela bem como as formas possíveis de o serviço lhe ofertar respostas Nas falas de nossos interlocutores quando pontuam que são os homens que devem ir mais ao serviço vemos como os pró prios serviços em suas proposições acabam por criar também outras demandas instaurando entre os sujeitos novas neces sidades como a da própria busca do serviço É importante considerar o movimento que como aponta Lilia Schraiber 2005 atribui à baixa frequência dos homens nos serviços sua suposta resistência aos cuidados à saúde não sendo reconhecida muitas vezes entre eles mesmos sua pouca inclusão em propostas assistenciais ou em atividades específi cas voltadas a suas reais necessidades Dessa forma é possível Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 207 compreender que há também uma tendência à responsabili zação por parte dos próprios usuários entrevistados dos ho mens pela menor busca dos serviços Há de se considerar que os próprios usuários acabam re produzindo também tais ideias sendo corresponsáveis pelos impasses em sua relação com os serviços Couto et al 2010 Quanto a isso cabenos questionar ao assumirem a perspec tiva de que o acesso aos serviços de saúde depende deles esses homens não estão assumindo um lugar a eles imputado his toricamente naturalizando suas posições de não cuidadores por exemplo Sobre a relação estabelecida entre os usuários homens e os serviços de saúde historicamente os serviços ofertados nas unidades de saúde são voltados para a saúde maternoinfantil eou a partir dos anos 1980 para a população idosa Couto et al 2010 Arilha Unbehaum e Medrado 1998 levando os homens a assumirem o posicionamento de distanciamento desses ambientes Figueiredo e Schraiber 2011 No ensejo dessa discussão outro elemento importante é a invisibilidade dos homens no serviço decorrente do machis mo presente nas relações entre os profissionais e os usuários já que existe uma matriz sexista que circula no tecido social em que os homens são caracterizados como fortes provedo res invulneráveis e que a doença é considerada um sinal de fragilidade 6 Considerações finais Neste trabalho buscamos discutir a partir das falas de al guns interlocutores o acesso e os usos de homensusuários a um serviço público da atenção básica à saúde Nossa intenção maior com a realização da pesquisa apresentada era situar al guns pontos por nós visibilizados que pudessem contribuir 208 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA para as discussões que têm aproximado os homens da pro dução de cuidados à saúde um campo até algumas décadas atrás ainda carente de produções e que nos últimos anos tem ganhado destaque Tomando por base as entrevistas que realizamos pode mos elencar alguns argumentos que supostamente fazem com que os homens não busquem os serviços de saúde e que esses serviços não acolhamreconheçam as demandas deles o que é encarado por nossos interlocutores como um indicativo de descuido de si e de uma porta entreaberta desses serviços que parece acolherreconhecer apenas parcialmente suas de mandas a associação do hábito de cuidar ao âmbito femini no as diferenças de horário entre trabalho e funcionamento dos serviços a precarização dos serviços no caso infraestru tura falta de materiais e recursos para promover outras ações de atenção em menor grau o medo de descobrir que está doente e ao mesmo tempo o medo de ter sua masculinidade questionada a vergonha de ficar exposto a um profissional a falta de serviços específicos e em consequência o não reco nhecimento dos serviços existentes como espaço para o cuida do à sua própria saúde É importante destacar que com a realização desta pes quisa não tínhamos o intuito de levantar responsáveis pelas dificuldades apresentadas pelos serviços em desenvolver práticas de cuidado que atendam às necessidades dos homens na saúde Não apoiamos ou legitimamos uma lógica de culpabilização mas reconhecemos a existência de uma série de aspectos que favorecem o não acesso dos homens às unidades básicas de saúde Desse modo da parte dos usuários vemos algumas reclamações sobre o atendimento dos trabalhadores sobre a burocratização da rede sobre as demoras nos atendi mentos médicos e na falta de especialistas nas unidades Gostaríamos de visibilizar também o despreparo dos trabalhadores na lida com os homens Como indicadores Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 209 podemos citar os próprios processos formativos particulares que não investem em discussões de gênero a suposta falta de costume em atender homens em seu cotidiano a posição de saberpoder ocupada pelos trabalhadores que pode encontrar resistências em face do suposto poder do masculino além dos preconceitos existentes com relação ao homem homem não se cuida homem não quer se cuidar homem é difícil Ao mes mo tempo o despreparo também acaba funcionando como uma explicação para não incluir ações voltadas ao homem no serviço Não podemos perder de vista no entanto que estamos nos referindo ao funcionamento de um serviço de saúde e que há uma racionalidade médica mais ampla ao qual ele deve ace der O que pontuamos neste trabalho seria o diálogo possível entre diferentes modos de encarar o processo saúdedoença cuidado tendo este último como objetivo maior dos serviços Acreditamos que é necessário que os serviços de saúde possam investir no desenvolvimento de atividades centradas nos processos de prevenção e promoção da saúde de maneira a incluir também os homens Estes apresentam demandas e necessidades em saúde e é preciso que os serviços se dispo nham a acolhêlas e responder a elas Reconhecemos que as atividades propostas no cotidiano do serviço pesquisado têm efeitos positivos nas ações de cuidado dos homens no entan to vemos que elas apresentam tensões Falta por exemplo continuidade Nesse sentido lançamos alguns questionamentos pois traduzir o acesso apenas como o ato de ir ao serviço nos pa rece uma forma reducionista tomando de forma unidirecio nal a discussão sobre acessibilidade à saúde É preciso resgatar princípios que orientem o funcionamento da atenção básica centrada em uma abordagem territorial que preconiza uma articulação usuárioequipecomunidade que transcende a busca da unidade Esta deve mostrarse acolhedora e acessível 210 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA a esse homem mas também proativa Assim não se trata de o usuário acessar a unidade mas de se reverem os processos que acessam trocas entre usuários e trabalhadores de saúde e que tornam o cotidiano do serviço o lugar para produzir saúde e cuidados de si Referências ARILHA M UNBEHAUM S MEDRADO B Org Homens e masculini dades outras palavras São Paulo EcosEd 34 1998 AUGUSTO M H Reflexões sobre o uso das tecnologias médicas In CAN ESQUI A M Org Ciências sociais e saúde para o ensino médico São Paulo Hucitec 2000 p 151166 BRASIL Ministério da Saúde Resolução no 196 de 10 de outubro de 1996 Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos Diário Oficial da União 10 out 1996 Ministério da Saúde Secretaria de Atenção à Saúde Departamen to de Ações Programáticas e Estratégicas Política Nacional de Atenção Inte gral à Saúde do Homem princípios e diretrizes Brasília 2009 Ministério da Saúde Secretaria de Atenção à Saúde Departa mento de Ações Programáticas Estratégicas Área Técnica de Saúde do Adolescente e do Jovem Diretrizes nacionais para a atenção integral à saúde de adolescentes e jovens na promoção proteção e recuperação da saúde Brasília 2010 BRASIL ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DA SAÚDE OPAS IDB 2006 Brasil indicadores e dados básicos para a saúde Rede Interagencial de In formações para a Saúde Ripsa Brasília Ministério da Saúde 2007 CAMARGO JR K Biomedicina saber e ciência São Paulo Hucitec 2003 COUTO M T PINHEIRO T VALENÇA O MACHIN R SILVA G S N da GOMES R SCHRAIBER L B FIGUEIREDO W dos S O homem Portas entreabertas à produção de cuidados Túlio Quirino et al 211 na atenção primária à saúde discutindo invisibilidade a partir da pers pectiva de gênero Interface Botucatu v 14 n 33 p 257270 2010 FIGUEIREDO W dos S Assistência à saúde dos homens um desafio para os serviços de atenção primária Ciência e Saúde Coletiva v 10 n 1 p 105 109 2005 SCHRAIBER L B Concepções de gênero de homens usuários e profissionais de saúde de serviços de atenção primária e os possíveis im pactos na saúde da população masculina São Paulo Brasil Ciência e Saúde Coletiva v 16 n l p 935944 2011 GOMES R NASCIMENTO E A produção do conhecimento da saúde pública sobre a relação homemsaúde uma revisão bibliográfica Cadernos de Saúde Pública v 22 n 5 p 901911 2006 SCHRAIBER L B COUTO M T VALENÇA O SILVA G S N da FIGUEIREDO W dos S MACHIN R PINHEIRO T O atendimento à saúde de homens estudo qualitativo em quatro estados brasileiros Phy sis Rio de Janeiro Uerj v 21 n 1 p 113127 2011 JOVCHELOVITCH S BAUER M Entrevista narrativa In BAUER M GASKELL G Pesquisa qualitativa com texto imagem e som um manual práti co Petrópolis Vozes 2002 p 90113 MEDRADO B Hombres y políticas públicas un abordaje feminista y de género In SANCHIS N Org Família y género aportes a una política social integral Buenos Aires ProgenConsejo Nacional de la Mujer 2003 p 7784 LYRA J Construindo um lugar para o masculino na saúde repro dutiva Informativo Elos p 7 1999 Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades Revista Estudos Feministas v 16 n 3 p 809840 2008 DANTAS L VALENTE M QUIRINO T MACHADO M FELIPE D OLIVEIRA L SILVA M C GONDIM S Paternidades no 212 DESAFIOS PARA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA cotidiano de uma unidade de saúde em Recife traços curvas e sombras em redes heterogêneas In TONELI M J F MEDRADO B TRINDADE Z A LYRA J Org O pai está esperando Políticas públicas de saúde para a gravi dez na adolescência Florianópolis Mulheres 2011 p 189211 NASCIMENTO P GALVÃO K Homens por quê Uma leitura da masculinidade a partir de um enfoque de gênero Revista Perspec tivas em Saúde e Direitos Reprodutivos v 3 n 1 p 1216 2000 NOCA N J M Produções discursivas sobre saúde e masculinidades em um serviço público de atenção à saúde dos homens Dissertação Mestrado Universidade Federal de Pernambuco Recife 2011 SCHRAIBER L B Equidade de gênero e saúde o cotidiano das práticas do Programa de Saúde da Família do Recife In VILLELA W MONTEIRO S Org Gênero e saúde Programa Saúde da Família em questão Rio de Janeiro Abrasco 2005 p 3061 FIGUEIREDO W dos S GOMES R COUTO M T PINHEI RO T MACHIN R SILVA G S N da VALENÇA O Necessidades de saúde e masculinidades atenção primária no cuidado aos homens Cader nos de Saúde Pública v 26 n 5 p 961970 2010 MENDESGONÇALVES R B Necessidades de saúde e atenção primária In NEMES M I B A saúde do adulto programas e ações na unidade básica São Paulo Hucitec 2000 p 2947 SCOTT J Gênero uma categoria útil para análise histórica Educação Realidade v 20 n 2 p 7199 1995 SPINK M J P Pesquisando no cotidiano recuperando memórias de pes quisa em psicologia social Psicologia e Sociedade v 19 n 1 p 714 2007 LIMA H Rigor e visibilidade a explicitação dos passos da inter pretação In SPINK M J P Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 2004 p 93122 Monitoramento de projeto social uma metodologia de pesquisaação participativa Telma Low Danielly Spósito Flávia Lucena Nivete Azevedo Maria Aparecida Araujo Santos Jorge Lyra Benedito Medrado Talita Rodrigues Ana Carolina Cordeiro e Gabriela Cordeiro Este texto apresenta reflexões críticas baseadas por um lado na produção científica sobre princípios e métodos para monitoramento de projetos e intervenções políticosociais e por outro nas lições aprendidas durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidadania como parte do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em Suape Essa ação foi desenvolvida pela equipe do Centro das Mulheres do Cabo CMC aqui referida como equipe executora ONG feminista baseada na região de Suape Teve por obje tivo contribuir com o empoderamento de mulheres e jovens dos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com vistas à prevenção e ao enfrentamento da violência domésti ca e sexual na microrregião de Suape Para tanto focouse o desenvolvimento de atividades formativas e informativas so bre temas relacionados com as questões de gênero violência participação política das mulheres atuação e fortalecimento da rede de assistência a mulheres em situação de violência po líticas públicas controle social etc O processo de monitoramento e avaliação MA parti cipativo e contínuo foi desenvolvido pela equipe do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades Gema UFPE formada por um coordenador professor do Departa mento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco UFPE duas assistentes pesquisadoras e um grupo de cola Monitoramento de projeto social Telma Low et al 215 boradoras e estudantesestagiárias de psicologia e ciências so ciais da UFPE incluindo quatro bolsistas vinculadas ao Pro grama Diálogos Suape Essa equipe de monitoramento buscou desenvolver um processo de acompanhamento e formação éticopolítica principalmente junto às estudantesestagiárias seguindo os princípios de horizontalidade e participação que estruturavam as atividades de MA Vale destacar que as es tudantesestagiárias estavam vinculadas não somente à Ação Mulheres e Educação para Cidadania mas também ao Gema de modo mais amplo como núcleo de pesquisa com objetivos atividades e planejamento anual especificamente definidos1 Neste texto focalizaremos as atividades de monitora mento desenvolvidas pelo GemaUFPE Além de destacar al gumas das principais lições aprendidas ao longo do Programa Diálogos Suape nesses dois contextos buscaremos comparti lhar algumas discussões sobre o processo de monitoramento como fundamental para o desenvolvimento dessas ações Destacamos que a construção deste texto está fundamen tada nos registros sistematizados e produzidos a partir dos re latórios das oficinas de MA facilitadas pela equipe do Gema nos relatórios narrativos elaborados pela equipe do CMC e em outras fontes de informações geradas ao longo do Programa Diálogos Suape 1 Monitoramento de projetos sociais breve linha do tempo limites e possibilidades Historicamente o processo de avaliação de políticas pú blicas e programas sociais está intimamente ligado aos pro cessos de reajustes da administração pública ou seja do uso do recurso público Seu desenvolvimento se dá por meio de 1 Para mais informações acesse wwwgeneroorgbr 216 POSSIBILIDADES esforços do governo dos Estados Unidos em criar mecanismos de controle que possibilitassem aferir o grau de êxito ou fra casso dos programas relacionados com a pobreza O final da Segunda Guerra Mundial marcou a expansão de programas de bemestar social e favoreceu que a avaliação de políticas públicas se constituísse pouco a pouco em uma área bastante interessante para intervenção profissional A exem plo disso é notável na época uma crescente oferta de cursos pósgraduações revistas centros de pesquisas etc relaciona dos com o tema Porém este esfuerzo fue marcado por el eje comportamental y neutralista direccionado para la eficiencia y eficacia de las políticas sin considerar la evaluación de los principios y de los fundamentos y su contenido sustan tivo centrada en criterios que ignoraban las variables contextuales que pueden obstacularizar o facilitar el proceso de intervención social Lo que verificó es que este tipo de evaluación de políticas y programas socia les creó lo que la literatura nombra como industria de la investigación evaluativa Silva 2001 p 44 Segundo Derlien 2001 a década de 1980 foi marcada por mudanças profundas no mundo sendo a avaliação de po líticas públicas apresentada como um instrumento a serviço da reforma desmonte do Estado Nos Estados Unidos por exemplo o governo neoliberal de Ronald Reagan coordenou reformas no modelo econômico estabelecendo prioridades econômicas e reduzindo significativamente as subvenções di recionadas para políticas e programas sociais No outro lado do oceano as reformas administrativas do Estado se iniciaram na Inglaterra com a ascensão da também neoliberal Marga reth Thatcher A nova primeiraministra inglesa com base em estudos de avaliações de políticas e análises socioeconômi cas deu início ao processo de minimização do Estado adotan do princípios novos na administração pública e mudanças nas relações entre sociedade e governo Monitoramento de projeto social Telma Low et al 217 Ao longo dos anos 1990 alguns sistemas de avaliação fo ram influenciados pela União Europeia em especial aqueles que como Espanha e Alemanha receberam grande volume de recursos Na América Latina os países que tiveram importantes aportes de instituições como Banco Mundial Fundo Monetá rio Internacional Banco Interamericano de Desenvolvimento etc necessitaram seguir orientações internacionais e aderir ao processo de avaliação por eles impostos Porém vale ressaltar que tal processo influenciou diretamente a construção de uma cultura de monitoramento e avaliação de políticas públicas Nesse contexto Silva 2001 relata que o desenvolvimen to do processo de avaliação de políticas públicas está fundado em quatro gerações 1a Geração 2a Geração 3a Geração 4a Geração Marcada por pesquisas na área da política de educação Marcada pelo crescimento acele rado de pesquisas e aumento de programas sociais Welfare State Marcada pela introdução de juízo de valor a partir de critérios exter nos no processo de avaliação por parte doa avaliadora Marcada como a avaliação sendo uma ferramenta importante para medir a qualida de dos serviços e subvencionar decisões acerca da viabilidade de políticas públicas programas projetos Buscouse medir e classificar o desempenho de estudantes inteli gência produtivi dade resultados do processo pedagógicos etc inseridosas no campo da educação Buscouse colabo rar com a tomada de decisões para isso se utilizou de indicadores quantitativos e qua litativos para medir os resultados das políticas públicas programasproje tos objetivo Buscouse criar ins trumentos para co nhecer a realidade contextualizarse e posterior emissão de juízo de valor acerca de políticas públicasprogra masprojetos Buscouse refletir e construir parâme tros capazes de mensurar a eficá cia e eficiência de políticas públicas programas projetos 218 POSSIBILIDADES Como podemos observar o Estado passou a reconhecer que políticas públicas programas e projetos sociais subven cionados por ele não estavam sendo eficazes eou eficientes e que a destinação de recursos não garantia os resultados espe rados Nessa linha avaliar e monitorar se tornou uma estra tégia importante para observar de forma contextualizada e complexa as possibilidades de investimento do próprio Es tado e das demais agências financiadoras Dessa forma os princípios e as estratégias de MA fo ram evoluindo e tomando direções políticas que requerem também tomadas de decisões por parte doa avaliadora Um olhar mais atual acerca do monitoramento e da avalia ção conduznos para além de têlos como um instrumen to de tomada de decisões políticas Ou seja é importante ver que ambos monitoramento e avaliação podem ser um instrumento que contribui para a construção da cidadania Spósito 2009 Processos como MA podem ir além da consulta eou mensuração de resultados objetivos etc pois ao se tornarem os resultados de MA públicos podem ser construídos es paços de caráter político que impliquem o debate coletivo e público no qual sejam compartilhadas ideias possibilidades inquietações fragilidades limites avanços etc Ter o MA como um dispositivo intrínseco do processo de uma sociedade democrática é superar a noção hierarqui zada e centralizada do poder de decisão Silva 2001 Spósito 2009 favorecendo por um lado o aperfeiçoamento do pro cesso democrático e por outro a instrumentalização e a po tencialização dos sujeitos Monitoramento de projeto social Telma Low et al 219 2 Metodologia de pesquisa observações e outras formas de registro No Programa Diálogos Suape anos I e II a equipe de MA do Gema procurou construir um espaço coletivo de aprendizagem no qual o CMC e o próprio Gema pudessem dialogar democraticamente acerca do processo de MA No entanto vale salientar que desde o âmbito político e pedagó gico as ações estiveram voltadas para a construção de levanta mento de informações que possibilitaram por um lado iden tificar em que medida a metodologia utilizada pelo CMC na realização de suas ações permitiu instrumentalizar mulheres adultas e jovens no enfrentamento da violência doméstica e sexual e por outro sistematizar informações que favorece ram analisar de forma contextualizada a efetividade da Ação Mulheres e Educação para Cidadania Compreendendo a realidade como algo inesgotável Fli ck 1992 Gergen 2010 Spink 1995 a metodologia utiliza da no MA pretendeu captar um fragmento de um fenôme no levando em consideração os momentos compartilhados pelasos profissionais e estudantes envolvidasos Embarcar no desafio de MA além de construir pesquisas acadêmicas fez com que decidíssemos por fixar âncora em um campo cercado por princípios que possibilitassem uma construção reflexiva e crítica Ou seja algo que nos deixasse alçar voos e contribuir para a formação de nossas estudantes e o desenvol vimento institucional do CMC Tal como previsto realizamos entrevistas e grupos focais elaboramos questionários planilhas de MA enquetes etc e analisamos informaçõesdados produzidos no contexto do desenvolvimento das atividades do CMC O primeiro passo adotado pela equipe Gema foi reunirse com o CMC para iden tificar coerência entre o projeto proposto e as atividades que foram desenvolvidas 220 POSSIBILIDADES Nesse primeiro momento realizamos reuniões nas quais a pauta esteve fundamentada na apresentação a do Progra ma Diálogos Suape b do CMC e de sua incidência na micror região de Suape c do GemaUFPE e d da proposta de MA a ser desenvolvida pela equipe Gema Inicialmente foram ne cessários ajustes no Plano Operativo Anual POA proposto pelo CMC pois identificamos a importância de alinhar o POA à nova realidade de Suape Esse processo possibilitou aprendizados diversos como a necessidade de pensarrefletir sobre palavrastermos apre sentados no projeto A intervenção do Gema nesse caso se deu especialmente por garantir que todos os compromissos assumidos pelo CMC tivessem afetiva possibilidade de ser concretizados Não obstante o fator nitidez na escrita de um POA favorece construir relações mais transparentes entre os distintos sujeitos envolvidos no projeto Após alinhar propostas remetemonos a um segundo momento que denominamos planejamento operacional de MA Para tal realizamos reuniões visitas ao CMC parti cipação em atividades promovidas pelo CMC grupos focais com as mulheres análise de dados etc No entanto destaca mos que as oficinas de MA foram primordiais para o êxito desse processo e construção do conhecimento Elas marcam o processo sistemático de planejar do CMC e do refletir sobre cada atividade visibilizada ou invisibilizada desenvolvida pela equipe Nossa preocupação inicial se deu quando observamos que a cada atividade proposta pelo CMC havia muitas outras ativi dades invisibilizadas por ela no POA e pelas instituições finan ciadoras Como o programa de rádio por exemplo que não apenas exigia ir à rádio fazer sua gravação em alguns casos apresentações ao vivo e veiculála Pouco a pouco por meio de uma planilha refletimos sobre como uma simples atividade exigia das profissionais e como elas as registravam de fato Monitoramento de projeto social Telma Low et al 221 Partindo do princípio de que é importante visibilizar que há investimentos diversos humano material financeiro etc envolvidos nas atividades construímos instrumentos de monitoramento que possibilitassem um registro rápido e di dático destas Como exemplo o relatório narrativo dos pro gramas de rádio no qual foi possível apresentar atividades an teriores necessárias a eles a articulação com instituições e pessoas convidadas nos programas de rádio b interação com o público ouvinte c pesquisas e levantamentos realizados etc Dessa forma buscamos criar instrumentos que visibilizassem os desdobramentos que cada atividade exigia mostrando por outro lado quantos recursos eram utilizados e que algumas vezes o que parece ser suficiente pouco a pouco se torna escas so e pode comprometer o desenvolvimento da Ação A observação a reflexão e os questionamentos acerca das ideias e dos ideais pretendidos pelo CMC foram um com ponente que influenciou diretamente a construção de uma metodologia democrática e participativa de MA também funcionando como um mecanismo importante para quebrar barreiras institucionais e políticas que de certa forma pode riam comprometer o MA e talvez o próprio êxito da Ação Mulheres e Educação para Cidadania O contexto e a conjunção de uma série de fatores influen ciaram adotar uma metodologia de MA na qual a escuta era primordial e o saber respeitado e compreendido como um processo que se constrói cotidianamente Tal posicionamen to exige pela própria natureza uma flexibilidade crucial posto que falamos aqui de políticas públicasprogramaspro jetos mas antes de tudo tratamos com sujeitos que protago nizam sua existência em um mundo no qual há relações de poder forças políticas etc Possivelmente o ousado e diferencial de nossa propos ta foram os princípios feministas que primam por uma des construção dos valorespadrões patriarcais e heteronormati 222 POSSIBILIDADES vos fomentando a igualdade entre os sexos e participativos que concebem o poder de decisão como próprio das pessoas usuárias e da sociedade Posto que ainda que não temos resul tados a priori definidos e alcançados mesmo ao final de dois anos consideramos que essa experiência por si só já foi pro dutora de questionamentos e conhecimentos diversos Lyra et al 2012 3 Alguns resultados Relatamos a seguir algumas atividades do processo de MA desenvolvidas pela equipe do GemaUFPE durante a implementação da Ação Mulheres e Educação para Cidada nia Nesse processo buscamos a desenvolver um processo de MA participativo b contribuir com o êxito das atividades executadas pelo CMC c colaborar com o desenvolvimento social da população lo cal a melhoria de suas condições de vida especialmente no que tange à prevenção e ao enfrentamento da violência do méstica e sexual na microrregião de Suape a Reuniões semanais de equipe Foram realizadas reuniões semanais com o objetivo de planejar as atividades de MA analisálas debatêlas etc Todas as reuniões foram registradas em atas modelo criado pela equipe por meio de um revezamento das estudantes estagiárias que foram responsáveis por garantir o registro de cada reunião As atas continham a pauta os encaminhamen tos a avaliação e as principais discussões construídas em cada reunião Ademais a equipe também assinava uma lista de fre quência em todas as atividades a fim de ter registros de nos sas atividades Monitoramento de projeto social Telma Low et al 223 Esses são aspectos importantes especialmente quando se trabalha em grupo e com MA posto que além de favorecer o registro e a sistematização das atividades ao longo do tempo subsidiando a construção da memória do programaprojeto ação facilitam o processo de elaboração de relatórios que visam a apresentar as atividades fazer autocríticas à equipe de monitoramento rever percursos rotas ajustar propostas e ideias saberes e fazeres e por que não prestar contas aos financiadores e parceirosinstituições etc b Realização de oficinas de MA Essas oficinas eram realizadas geralmente uma vez por mês durante todo o dia no CMC ou na UFPE alternandose o lugar Participavam as integrantes de ambas as equipes que se dedicavam a debater analisar e compartilhar olhares ideiasopiniõesavaliações sobre as atividades desenvolvidas pelo CMC junto às mulheres etc A equipe Gema preparava um fôlder e o enviava por email para o CMC com uma proposta de pautaconvite para a oficina e com as responsabilidades que cada equipe deve ria assumir na atividade para democratizar o papel de cada equipe As oficinas se iniciavam com uma técnica de aquecimen to em seguida os informes eram compartilhados e depois as equipes se debruçavam sobre a pauta pactuada As oficinas foram se construindo como um espaço diverso algumas vezes polêmico e tenso nas quais eram vivenciadas e compartilha das diferentes impressões intenções opiniões visões senti dos equívocos etc sobre as atividades seus contextos interfa ces Ao mesmo tempo tornaramse um lugar de construção de um vínculo afetivo e solidário o que nos faz pensar que as equipes aprenderam a desfrutar do coletivo e a ressignificar os conflitos possibilitando novasoutras formas de entender 224 POSSIBILIDADES e construir os conhecimentos expectativas experiências par tilhadas etc Assim ao longo do processo as oficinas possibilitaram a identificação o debate a análise de questões estruturado ras relacionadas com ênfase em instrumentais planejamen to e organização das atividades identificação das fragilidades e potencialidades dos resultados esperados eou efetivados desafios encontrados expectativas relações pessoais e institu cionais e lições aprendidas c Elaboração de instrumentos de MA Uma das principais atividades realizadas pela equipe Gema foi pensar e construir instrumentais de MA que faci litassem ao CMC a identificar os elementos essenciais do projeto b planejar sistematizar monitorar e avaliar as atividades rea lizadas etc c refletir possibilidades e limites de cada atividade proposta d construir estratégia para contribuir com o êxito das ativi dades e colaborar com o desenvolvimento institucional f visibilizar atividades muitas vezes não percebidas como tais g sugerir mudança de rotas e redirecionamentos de planeja mentos entre outros Para tanto o Gema criou uma planilha de monitoramen to das principais atividadeseixo do projeto estruturação e reestruturação da equipe rodas de diálogo RD cursos de formação política programas de rádio seminários temáticos audiência popular campanhas de comunicação e elaboração de cartilha sobre a Lei Maria da Penha que foi apresentada Monitoramento de projeto social Telma Low et al 225 Metas Indicadores Instrumentos de monitora mentofonte de informação Informações necessárias Periodi cidade Datas Marco zero Quantitativos Qualitativos 200 pessoas debatendo ações de prevenção da violência doméstica e sexual No de rodas de diálogo realizadas Pessoas mais fortalecidas para discutir e disseminar informa ções sobre violência doméstica e sexual Ficha de Inscrição Nome localidade comunida de documento de identifica ção contato sexo raça etnia grau de escolaridade idade se tem filhosas ou não instituiçãosegmento de que participa participou de algum evento ou formação sobre a temática violência doméstica e sexual Trimestral Após cinco dias da roda de diálogo será enviado relato para a equipe de MA A equipe tem cinco dias para retomar o material para a equipe do CMC Levantamento do perfil das pessoas participantes No de participantes Lista de Presença Nome documento de identifi cação e assinatura No de participantes da roda de diálogos no Programa Rádio Mulher Áudios do Programa Rádio Mulher Roteiros do programa de rádio Relato escrito da roda de diálogo Fotografias Perfil das pessoas participan tes diahoralocal facilitado ras abordagem metodológica provocações depoimentos e avaliação 226 POSSIBILIDADES rar e avaliar os acordos e retornos produzidos nas oficinas de MA Além das planilhas o Gema desenhou outros instru mentos de MA que atenderam às demandas e sugestões pen sadas coletivamente como foi o caso das fichas de inscrição para o Curso de Formação Política das enquetes utilizadas nas campanhas de comunicação etc 4 Algumas considerações Neste tópico apresentaremos algumas reflexões sobre a pesquisaação que permitiram dar visibilidade ao processo de desenvolvimento político e acadêmico por parte tanto do CMC quanto do Gema nele incluindo coordenador assisten tes e estagiárias Assim pretendemos apresentar condicionan tes que interagem e que nos proporcionaram um olhar sobre limites e possibilidades das ações desenvolvidas pelo CMC e como tais limites também incidem no processo de MA pro posto pelo GEMA 41 Planejamento e desenvolvimento da Ação Ao desenvolver as oficinas de MA foi possível observar em um primeiro momento uma deficitária clareza acerca do projeto final que o CMC iria desenvolver entre tantas idas e vindas cada vez mais comuns na realidade das ONGs no Bra sil Abong 2013 No entanto vale salientar que a deficiência aqui apresentada também resulta de um complexo processo de negociação dos recursos que subvencionaram o Programa Diálogos Ou seja o tardio início das ações abalou a incidên cia do Programa especialmente em razão de a realidade não ser estática mas estar em constante transformação e quando falamos em política pública e projetos sociais a entendemos como um campo complexo e controvertido Monitoramento de projeto social Telma Low et al 227 Dessa forma podemos refletir sobre o compromisso políti co e social que existe por parte da proposta de desenvolvimento econômico gestada ao longo dos anos na microrregião de Sua pe Onde os esforços estão concentrados Quais objetivos dos escassos financiamentos de políticas sociais tornamse prioritá rios De que forma o desenvolvimento social é compreendido No contexto neoliberal as condições objetivas de mate rialização de políticas para mulheres são escassas Tomar de cisões é antes de tudo negociar em uma arena política com posta por distintos sujeitos sociaispolíticos que têm como princípio uma sociedade patriarcal portanto hierarquizada e assimétrica Rocha 2011 Spósito 2013 no es casualidad que no priorizar en sus diferentes esferas pla nificación seguimiento evaluación y asignación de presupuestos las políticas para mujeres es un aspecto generalizado tal proceso ocurre en todas las esferas del Estado especialmente por que cada área de una polí tica pública social económica estructural etc asume valor distinto y podemos estimar que estos valores evidencian un proceso que se resume en la substitución del compromiso social por el compromiso con la sub sistencia de los mercados Spósito 2013 p 173 O jogo de interesses políticos as contradições do sistema público e a correlação de forças em um processo de desenvol vimento de projetos sociais integrados ainda que sejam posi tivos do ponto de vista democrático colaboram para deterio rar o desenvolvimento social e ampliar a sombra clientelista de políticas públicas 42 Aplicação de instrumentos de monitoramento Dois dos argumentos utilizados pelo neoliberalismo com o objetivo de minimizar o Estado de bemestar social são a ineficácia dos programas e a reduzida preparação dosas profissionais da administração pública Brito 2000 Pasina 228 POSSIBILIDADES to 2009 Tais discursos funcionaram como um elemento que desqualifica o público e mina os serviços operacionaliza dos por ele Ou seja colocase em xeque a capacidade técnica dosas profissionais para enfrentar as múltiplas facetas da questão social De fato a ausência de preparo sensibilidade e capacitação de equipesprofissionais além da própria cultura patriarcal e neoliberal tem efeitos drásticos na vida das pessoas usuárias de qualquer política social seja ela executada pela administra ção pública pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público Oscip por ONG etc Em nosso caso a instituição executora CMC tinha preparo sensibilidade capacidade téc nica e olhar crítico diante do patriarcado e do neoliberalismo porém a cultura de avaliação ao menos inicialmente era um tanto deficitária A ausência de rigor metodológico na aplicação dos ins trumentos de monitoramento e avaliação foi um condicio nante preocupante especialmente quando a Ação Mulheres e Educação para Cidadania era desenvolvida com o apoio e aporte financeiro de outros projetos da instituição Talvez essa realidade não seja unicamente do CMC especialmente porque Sería una equivocación establecer una relación disyuntiva determinan do cuáles elementos se podrían caracterizar como causa y cuáles como efecto o consecuencia Lo que es indudable es que sumándolos tenemos como resultado un contexto que debilita la Política de Asistencia a Muje res en Situación de Violencia y ocasiona un déficit en el carácter político de tales políticas Spósito 2013 p 196 Sem dúvida a equipe de MA poderia ter escolhido atuar de maneira que colocasse empecilhos à construção da autono mia técnica do CMC e a possível incorporação de uma cultu ra de MA Acreditando ser importante monitorar e avaliar políticas públicasprogramasprojetos de forma democrática Monitoramento de projeto social Telma Low et al 229 e portanto horizontalizar as relações optouse apesar da exis tência de riscos mas afinal onde não se arrisca por debater possibilidades e limites de aplicação dos instrumentos para monitoramento e avaliação e fortalecimento das profissionais nesse processo No entanto os resultados não foram satisfatórios O envolvimentodependência do desenvolvimento da Ação Mulheres e Educação para Cidadania com projetos institu cionais colocou em xeque o rigor metodológico exigido para MA de forma planejada e ordenada além de fragilizar ou tros elementos necessários no processo de MA democráti co relação horizontal transparência construção coletiva de instrumentos etc que permitiriam sair da perspectiva de avaliação que se baseia na auditoria externa eou fiscalização Com isso fica uma nova indagação a que tipo de MA as ins tituições que operacionalizam políticas sociaisprogramas projetos estão adaptadas Há um planejamento que prevê MA interno Há investimentos para desenvolver MA onde as relações têm perspectiva de horizontalidade 43 Dificuldade em planejar atividades Um dado importante observado durante o MA foi um escasso conhecimento da importância do planejamento e portanto do monitoramento das ações E certa dificuldade de organizar as distintas fontes de recursos humanos materiais financeiros etc Podemos afirmar que tal fator foi retratado especialmente nos primeiros momentos de contato com a instituição Ou seja por meio de reuniões de apresentação e das oficinas realizadas durante o ano I do Programa Por meio das reuniões identificamos que apesar de o projeto ser construído em um contexto diferente do que foi iniciado a linguagem generalista dificultava a compreensão dos reais objetivos e intenções nas atividades que seriam de 230 POSSIBILIDADES senvolvidos pelo CMC Não obstante em um longo e demo crático processo de diálogo os termos linguagem objetivos etc foram se modificando e tomando a forma de um projeto com possibilidades de êxito e viabilidade Todavia é importante salientar que outra dificuldade foi encontrada ao longo das oficinas de MA O CMC tinha dificuldade em dar visibilidade a suas ações Ou seja ações invisíveis exigiam investimentos de distintas características que consumiam parte representativa dos recursos distintos níveis Ao perceber essa fragilidade decidimos investir em um processo que embora lento poderia ser estruturante caso todas as profissionais tomassem para si a ideia de construção democrática Tal situação requereu da equipe do Gema um giro me todológico a construção de uma proposta que possibilitas se uma direção contrária ao reducionismo ou fragmentação das ações desenvolvidas pelo Ação Mulheres e Educação para Cidadania Isso reflete a importância de estabelecer relações com oa outroa sem transformáloa em objeto sem criar barreiras sem ignorar uma leitura contextualizada e crítica de onde e como se insere essea outroa Spósito 2013 44 Estratégias de comunicação ampliando o impacto da Ação Uma forma de potencializar essa outra ação foi traba lhada pelo CMC Os programas de rádio são atividades impor tantes para a instituição pois preveem que as participantes de seus projetosações saiam do lugar de telespectadorasouvin tes e ocupem um lugar de protagonistas no qual suas vozes experiências e conhecimentos são publicizados Ou seja a in cidência das mulheres no exercício da fala pública ocupou um lugar especial nessa atividade promovida pela Ação Mulheres e Educação para Cidadania Monitoramento de projeto social Telma Low et al 231 Os discursos das mulheres participantes das rodas de di álogo e em especial dos cursos levamnos a reconhecer que há um processo de empoderamento ainda que em níveis di ferenciados por parte dessas mulheres Sem dúvida reelabo rar uma construção de gênero requer compromisso significa investimento em vários âmbitos humano social político econômico etc Porém cabenos dizer que dificilmente os avanços ocorrerão sem a dimensão humana presente sem o empoderamento das mulheres sem que sua capacidade crí tica seja revisitada sem que exista compromisso de todas com o coletivo Nesse processo de empoderamento há movimentos con tínuos de avanços e recuos especialmente porque é muito co mum que as mulheres se sintam destituídas do poder de suas vidas e o sentimento de culpa traz movimentos que podem paralisar Como forma de enfrentamento os programas de rá dio colaboram para que elas possam reconhecerse como pro tagonistas de suas vidas buscando inicialmente construir planos assim como procurando outras formas de relacionarse consigo mesmas e com o mundo A existência de redes sociais e institucionais amplas é um elementochave para visibilizar e fortalecer o enfrentamento da violência Saffioti 1999 Alves e CouraFilho 2001 Vieira et al 2008 5 Considerações finais Em suma o processo de MA que desenvolvemos e des construímos nestes últimos dois anos se refere ao MA de um projeto executado por uma ONG como dissemos no início deste texto Para tanto nossa experiência se pautou pela pers pectiva feminista e de gênero que nos permitiu a constru ção de um processo de MA participativo de modo que nos possibilitou construir e pensar o conhecimento as relações 232 POSSIBILIDADES as intervenções o contexto a violência contra as mulheres o marco zero e o marco lógico de um projeto os sujeitos en tre outros elementos constituintes do projeto original Estes últimos os sujeitos e por que não nomear as sujeitas2 fo ram pensados não como simples reprodutores de uma norma preestabelecida e sim como protagonistas e corresponsáveis pelo contexto socialeconômicopolíticocultural de que par ticipam e que constroem Nesse sentido ao construirmos o processo de MA jun to à ONG concebemos primeiramente a existência de uma parceria entre ambos os grupos que de modo simétrico co letivo participativo e horizontal nos permitisse construir e situar qual o lugar e o papel de cada um nesse processo Diante disso nos questionamos sobre o papel e o lugar que ocupamosprotagonizamos na sociedade Da mesma forma ao desenvolvermos um processo de MA das ações da ONG que têm interface direta com as políticas públicas e o Estado também nos perguntamos como podemos produzir conheci mentos que favoreçam um olhar crítico sobre o que está posto e incidam na recriação de mecanismos de enfrentamento da violência contra as mulheres e de promoção da igualdade en tre os sexos Entretanto apesar de estarmos realizando um processo de MA das ações executadas pela ONG também oferece mos subsídios para o Estado sem não nos limitarmos a isso Especialmente porque acreditamos que o processo de MA participativo concebe que o poder decisório não deve estar circunscrito ao Estado ou a uma organização mas exercido pela sociedade Por isso a proposta que desenvolvemos visa 2 Deveríamos ter subvertido a desinência de gênero neste texto desde o início mesmo que ferisse as regras formais da língua portuguesa e a estilística na medida em que as equipes de execução do projeto bem como de monitoramento das ações eram majori tariamente compostas por mulheres com exceção apenas dos professorescoordenado res do Gema Mas essa ousadia fica para as próximas reflexações Monitoramento de projeto social Telma Low et al 233 também a fomentar o protagonismo da sociedade civil no processo de tomada de decisões e no exercício do controle so cial Com base nas teorias críticas sobre políticas públicas a concepção de avaliação participativa é uma proposta que não apenas permite analisar aspectos implícitos no desenvolvi mento de uma política pública mas também pode ser um instrumento capaz de proporcionar e fomentar o exercício da cidadania plena pela participação ativa da sociedade especial mente das pessoas atendidasbeneficiadas pela política pú blica Spink 2001 e 2007 Esse panorama apresentando anteriormente expressa portanto a necessidade de investir em projetos sociais que favoreçam a sinergia entre as organizações governamentais e não governamentais com ênfase na melhoria das políticas públicas voltadas para o enfrentamento e a prevenção da vio lência contra as mulheres Partimos do pressuposto de que as práticas sociais dos movimentos feministas e de mulheres têm apontado para a necessidade da formação política conti nuada de mulheres como ações estruturantes no sentido de permitir e fomentar que elas protagonistas de suas histórias se constituam em força social com capacidade política efe tiva para incidir em comunidades e reafirmar seus direitos e cidadania Esse tipo de ação tem se revelado estratégico para o processo de empoderamento e de formação de pessoas críticas e comprometidas com o desenvolvimento sustentável local Esperamos portanto que ao final desta experiência de reflexão tenhamos podido revisitar nossas práticas projetos participação política e processo de elaboração execução de MA das políticas públicasprojetosprogramas com ênfase na identificação dos entraves que muitas vezes parecem crista lizar as desigualdades para então fazermos de nosso protago nismo e participação uma ferramenta de fato comprometida e voltada para a promoção da igualdade Consideramos que ao desenvolvermos o processo de MA de um projeto social 234 POSSIBILIDADES que visou a incidir na questão da violência contra as mulheres tornouse extremamente necessário construílo e pensálo dentro dos parâmetros da igualdade isto é de um saberfa zerinvestigar que somente se torna crítico e ético quando re flete os princípios participativos e feministas Referências ALVES A COURAFILHO P Avaliação das ações de atenção às mulheres sob violência no espaço familiar atendidas no Centro de Apoio à Mulher Belo Horizonte entre 1996 e 1998 Revista Ciência e Saúde Coletiva Rio de Janeiro v 6 n 1 p 243257 2001 Disponível em httpwwwscielobr pdfsausocv17n312pdf Acesso em 10 maio 2011 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNA MENTAIS ABONG Abong 20102013 em defesa dos direitos e bens comuns Relatório Trienal da Abong São Paulo 2013 Disponível em httpwwwabongorgbrfinaldownloadrevistaabongpdf Acesso em 3 fev 2013 BRITO J Enfoque de gênero e relação saúdetrabalho no contexto de reestruturação produtiva e precarização do trabalho Caderno Saúde Públi ca Rio de Janeiro v 16 n 1 p 195204 janmar 2000 Disponível em httpwwwscielobrpdfcspv16n11578pdf Acesso em 1o ago 2011 DERLIEN HU Uma comparação internacional em avaliação de políticas públicas Revista do Serviço Público Rio de Janeiro v 52 n 1 p 105122 janmar 2001 FLICK U Combining methods lack of methodology discussion of Sotirakopoulou e Breakwell Ongoing Production on Social Representations threads of discussion v 7 n 1 p 4348 1992 FURTADO J P Avaliação de programas e serviços In CAMPOS G W S MINAYO M C S AKERMAN M DRUMOND JR M CARVALHO Y M Org Tratado de saúde coletiva São Paulo Hucitec Rio de Janeiro Fiocruz 2009 p 715740 Monitoramento de projeto social Telma Low et al 235 GERGEN K GERGEN M Construcionismo social um convite ao diálogo Rio de Janeiro Instituto Noos 2010 LYRA J MEDRADO B SPÓSITO D LOW T CORDEIRO A C S CORDEIRO G R S Gênero saúde das mulheres e violência uma pro posta de monitoramento e avaliação participativa In 17o ENCONTRO DA REDOR 2012 João Pessoa Anais digitais João Pessoa UFPB 2012 p 112 PASINATO W Estudo de caso Juizados especiais de violência doméstica e familiar contra a mulher e a rede de serviços para atendimento de mulheres em situação de violência em Cuiabá Mato Grosso São Paulo Observe 2009 ROCHA M S Silenciosa conveniência entre transgressão e conservadorismo tra jetórias feministas frente à epidemia da Aids no Brasil Tese Doutorado em Serviço Social Universidade Federal de Pernambuco Recife 2011 218 f SAFFIOTI H Já se mete a colher em briga de marido e mulher São Paulo em Perspectiva São Paulo v 13 n 4 p 8291 outdez 1999 SILVA M O Avaliação de políticas e programas sociais teoria e prática São Paulo Veras 2001 SPINK M O estudo empírico das representações sociais In Org O conhecimento no cotidiano as representações sociais na perspectiva da psicologia social São Paulo Brasiliense 1995 p 85108 SPINK P K Avaliação democrática propostas e práticas 2001 Coleção Abia Fundamentos de Avaliação Disponível em httpwwwabiaidsorg brimgmediacolecao20fundamentos20avaliacao20N3pdf Aces so em 4 set 2013 Processos organizativos e ação pública as possibilidades eman cipatórias do lugar In JACÓVILELA A M SATO L Org Diálogos em psicologia social Porto Alegre Evangraf 2007 p 315328 Disponível em fileCUsersUsuarioDownloadsJACOVILELASATODialogos empsicologiasocialFINAL201pdf Acesso em 16 jul 2014 236 POSSIBILIDADES SPÓSITO D Diseño de evaluación del plan de medidas del gobierno Valenciano para combatir la violencia que se ejerce contra las mujeres 20052008 Disserta ção Mestrado em Gênero e Políticas de Igualdade Institut Universitari dEstudis de la Dona Valência 2009 138 p Violencia contra las mujeres y políticas públicas evaluación de la po lítica de asistencia a las mujeres en situación de violencia de la ciudad de RecifePernambucoBrasil 20052009 Tese Doutorado em Estudos de Gênero Institut Universitari dEstudis de la Dona Valência 2013 317 p VIEIRA L et al Fatores de risco para violência contra a mulher no contex to doméstico e coletivo Revista Saúde e Sociedade São Paulo v 17 n 3 p 113 125 julset 2008 Disponível em httpwwwscielobrpdfsausoc v17n312pdf Acesso em 18 maio 2011 Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo Neste texto abordamos o aconselhamento em HIVAids como prática no campo da saúde cujo objetivo é acolher pes soas que demandam atenção nessa área Apresentamos uma proposta de análise da prática do aconselhamento como es tratégia que pode qualificálo no quadro de respostas à Aids Interessanos focalizar ocorrências no encontro aconselha dorusuário e as possíveis implicações ressonâncias impactos que tal encontro pode ter na própria prática do aconselha mento Para tanto fragmentos de sessão de aconselhamento ilustram as análises Antecede a análise propriamente dita uma contextualiza ção sobre o aconselhamento em HIVAids na realidade brasi leira O aconselhamento é uma prática preconizada pelo Mi nistério da Saúde MS para acompanhar a testagem antiHIV e compõe o quadro de políticas públicas de enfrentamento da Aids cuja origem conta com uma história específica de reivin dicações e disputas de poder protagonizada por movimentos sociais diante dos primeiros casos de Aids nos anos 1980 O trabalho em saúde é discutido como modalidade de trabalho específica na realidade capitalista que imprime marcas tam bém no aconselhamento O encontro aconselhadorusuário merece ser analisado como processo considerando o que ocorre no momento entre eles que pode assumir contornos diversos 238 POSSIBILIDADES 1 Elementos da história social da Aids As referências históricas sobre a formulação de políticas públicas para enfrentamento da Aids no Brasil Parker 2000 indicam certa letargia do Poder Executivo nacional em bus car respostas para os casos que surgiam ano após ano nos grandes centros urbanos na década de 1980 Nesse período alguns militantes de movimentos pelos direitos dos homos sexuais começaram a cobrar da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo SESSP uma posição frente à nova doença o que impulsionou os primeiros esforços para enfrentamento da situação Gianna et al 2012 Um contexto complexo sustentou essa situação e envol veu diversos aspectos Os casos de Aids nos anos 1980 esta vam altamente concentrados no estado de São Paulo Esse estado era o centro principal para o surgimento de um mo vimento pela liberação gay Parker 2000 p 12 que além de pressionar o Executivo estadual por respostas constituía eleitorado significativo que merecia ser escutado Além dis so a ditadura militar no Brasil estava chegando ao fim e o estado de São Paulo havia eleito um líder de oposição progressista o Franco Montoro que por sua vez havia nomeado figuras políticas progressistas em quase todas as áreas de seu governo Parker 2000 p 12 O movimento de reforma sanitária e o movimento gay constituíram forças importantes para pressionar o governo estadual que insti tuiu em 1983 um grupo de trabalho sobre o tema A experi ência de São Paulo inspirou a formatação de programas de Aids em outros estados da Federação e no próprio Governo Federal Em 1985 quando o Ministério da Saúde começou a se mover mais na direção da criação de um Programa Nacional de Aids o Programa Estadual de Aids já havia sido estabelecido e estava Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 239 em funcionamento em pelo menos 11 dos 27 estados brasilei ros e Distrito Federal Parker 2000 p 13 O complexo quadro que envolve a história brasileira de atenção à Aids inclui diversos aspectos e marcos envolvendo elementos da política da economia das relações internacio nais dos movimentos da sociedade civil além de aparato técnicocientífico na área Consideremos este último aspecto que nos ajuda a pensar sobre o aconselhamento como um dos esforços no amplo quadro de resposta à Aids Parker 2000 p 66 sistematiza o que identifica como as três tendências ou abordagens distintas que a humanidade foi construindo des de a década de 1980 para responder às dimensões sociais da epidemia de Aids no mundo e inspiraram também os esfor ços brasileiros na questão traduzidos por investimentos em pesquisas e orientações de políticas A partir de meados dos anos 1980 Parker 2000 a pri meira abordagem se constitui com ênfase nas pesquisas so bre comportamento de risco e identificação de conhecimen tos atitudes e práticas da população associadas ao risco de contrair HIV Investimentos foram dirigidos à persuasão das pessoas para não assumirem atitudes de risco em relação ao HIV É nesse contexto que o atendimento a pessoas em torno da temática do HIVAids tem como referência a mudança de comportamento e portanto ênfase em uma psicologia indi vidual Parker 2000 p 68 que inspiraria a formatação de programas mais amplos para a população Com o passar do tempo essa abordagem mostrouse ine ficaz e passou a ser questionada em meados a final da década de 1980 As pesquisas indicavam que investir na informação sobre como se peganão pega Aids não era suficiente para provocar mudanças de comportamento Assim a segunda abordagem para responder à Aids foi ganhando espaço dian te das argumentações de que era imprescindível considerar 240 POSSIBILIDADES para além de uma psicologia individual uma dimensão intersubjetiva dos significados culturais relacionados à sexu alidade e ao uso de drogas Parker 2000 p 71 situações de risco para infecção O foco da atenção passou a ser dirigido aos ambientes culturais que sustentavam os comportamen tos das pessoas A intervenção esperada no aconselhamento de acordo com essa tendência deixava de ser com ênfase na persuasão para mudança de comportamento e passava a ser voltada para as representações sociais ou coletivas dos temas implicados com a questão como sexualidade uso de drogas risco prevenção Coerente com essa tendência de se conside rar a dimensão cultural nos esforços de enfrentamento da Aids intervenções comunitárias ocuparam espaço como es tratégia de sensibilização e mobilização das pessoas para a questão diante da insuficiência constatada em intervenções no comportamento individual A terceira abordagem apresentada por Parker 2000 ga nha espaço no cenário a partir do final dos anos 1990 por pesquisas que destacavam a presença de fatores políticos e econômicos na disseminação do HIV A ideia dessa tendência era que as causas da Aids são muito mais complexas do que originalmente se acreditava Intervenções apenas na direção da persuasão para mudança de comportamentos ou até as mais abrangentes dirigidas às coletividades apresentaramse ineficazes no enfrentamento da Aids O argumento que ga nhava destaque é que são necessárias intervenções estrutu rais e ambientais para enfrentar a doença As decisões políti cas e o campo da economia política merece ser considerado como contribuindo para a transmissão ou controle do HIV em determinada população Esses aspectos podem indicar as condições de vulnerabilidade ao HIVAids de determina da população e assim merecem ser considerados para ade quadamente manejados construir respostas efetivas à Aids Nessa abordagem também merece destaque o modo como Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 241 as comunidades afetadas pelo HIVAids têm lidado com essa situação Ora vemos que as orientações para intervenção no cam po de HIVAids passam nos primeiros tempos da persuasão individual para mudança de comportamento a uma atenção mais efetiva a coletividades e suas construções simbólicas para enfim dedicar atenção aos aspectos políticos e sociais implicados na disseminação do HIV O aconselhamento atra vessa essa história e se mantém como prática indispensável na testagem antiHIV e na prevenção ao HIVAids Dediquemos atenção a essa prática segundo as recomendações do MS e as contribuições da literatura científica 2 O aconselhamento em HIVAids O aconselhamento é preconizado Brasil 1993 1998 e 1999 para ser realizado antes da coleta de sangue para exame antiHIV aconselhamento préteste e na entrega do resulta do pósteste por profissional de saúde capacitado para tal Caracterizase como recurso estratégico fundamental diante da constatação de que o imaginário social em torno da Aids sustenta fantasias e informações equivocadas que podem ser abordadas e manejadas no espaço de diálogo entre profissio nal de saúde e usuário do serviço O aconselhamento consti tui portanto importante dispositivo na resposta brasileira à Aids Galindo 2013 As proposições elaboradas pelo MS para o aconselhamen to são difundidas por manuais em todo o país e utilizadas na formatação de serviços e formação de aconselhadores Chama nossa atenção a fragilidade de debate teóricometodológico que fundamente o aconselhamento nos textos oficiais do MS Associado ao trabalho do psicólogo norteamericano Carl Rogers o aconselhamento é referido como prática de acordo 242 POSSIBILIDADES com a abordagem centrada na pessoa e no mesmo manual reconhecese que ao ser incorporado às práticas de saúde na América Latina o aconselhamento recebe influência da psi canálise em especial a de orientação argentina Brasil 1998 Em manual difundido no ano seguinte o MS problematiza as possíveis filiações ideológicas do aconselhamento e inscre veo como prática social e historicamente construída implica da com valores da sociedade capitalista Brasil 1999 Nessas referências não há um debate consistente sobre os fundamen tos do aconselhamento Filgueiras e Deslandes 1999 em pesquisa de avaliação das ações de aconselhamento no Brasil entrevistando profis sionais do Sistema Único de Saúde SUS analisaram experi ências a partir de um crivo construído pelas diretrizes para essa prática recomendadas pelo MS que envolvem acolhimento escuta comunicação avaliação de riscos e alternativa de pre venção orientações sobre tratamento para estimular adesão e qualidade de vida De acordo com a investigação das autoras a dimensão da escuta ficou comprometida sendo substituída pela transmissão de informações e orientações além de busca de dados sobre o usuário em atendimento Análise de manuais do MS sobre recomendações ao tra balho de aconselhadores Galindo 2013 identifica tendência diretiva e normatizante nos textos oficiais tanto na aborda gem ao usuário quanto nos procedimentos a serem tomados pelo profissional de saúde As orientações à postura adequada do aconselhador são diretivas com referências técnicas priori tariamente dirigidas a procedimentos que sugerem uma ação quase mecânica por parte do profissional o que envolve cuida dos com o ambiente garantia de sigilo avaliação de riscos atenção ao fluxo no serviço recepção aconselhamento pré teste coleta de sangue aconselhamento pósteste Enfim as orientações parecem priorizar o entorno do aconselhamento Quando se referem ao encontro profissional de saúdeusuá Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 243 rio propriamente dito e recomendam cuidado em escutar o usuário não julgálo e apoiálo emocionalmente as recomen dações não deixam claro como fazer isso A meta do aconse lhador nessa perspectiva é contribuir para a mudança de comportamento do usuário o que remete à primeira aborda gem da Aids Parker 2000 que tem como ênfase a persuasão Identificamos portanto uma significativa lacuna em relação ao que ocorre na cena do aconselhamento entre profissional e usuário que merece atenção Pesquisas sobre comportamento e atitudes diante das DSTsHIVAids Brasil 2011 indicam que a grande maioria das pessoas tem informações adequadas sobre riscos e preven ção no campo de HIVAids conhecem e têm acesso a insumos como preservativos mas continuam tendo práticas sexuais desprotegidas O aconselhamento apresentase assim como locus privilegiado para abordar questões relacionadas com o tema por ser momento de diálogo entre profissional de saúde e usuário É na perspectiva de contribuir com avanços na análise da prática do aconselhamento que construímos a proposta de análise apresentada adiante 3 O trabalho no campo da saúde Concordamos com Merhy 2007 que o trabalho em saúde é da ordem da produção não material Como nomeia o autor é um trabalho vivo em ato isto é ele é produzido no momento mesmo em que está sendo realizado Diferente por tanto da produção industrial cuja ação de um operário é par te da produção geral da qual ele não participa efetivamente de forma plena O trabalho em saúde de acordo com Merhy 2007 utilizase de tecnologias de relações de encontros de subjetividades que o autor define como tecnologias leves para 244 POSSIBILIDADES diferenciálas das leveduras saberes estruturados e duras equipamentos Fazem parte das tecnologias leves o olhar o sorriso a atenção a escuta a acolhida enfim o cuidado Uma forte contradição com que convive o trabalho em saúde trabalho vivo em ato é que em sociedades capitalistas como a nossa o setor de serviços de saúde tende a funcionar com igual lógica de mercado que o setor produtivo Traverso Yépez 2008 isto é a saúde tende a funcionar como uma mer cadoria Entendemos Galindo 2013 que o aconselhamento se inscreve também nessa lógica Decorre dessa contradição que um componente de alie nação indiscutivelmente presente na lógica capitalista de pro dução material Marx 1984 pode estar também presente na prática do aconselhamento Galindo Francisco e Rios 2013 A alteração desse quadro de alienação não se consegue apenas com investimentos racionais de compreensão dos antago nismos que envolvem o processo de trabalho mas como ar gumenta Žižek 1992 e 1996 atenção merece ser dirigida ao campo das práticas na perspectiva de alterar o jogo de forças que está na base do trabalho executado Proposições de Merhy 2009 ajudamnos a aprofundar reflexões sobre a prática profissional em saúde em especial as que se referem ao encontro entre trabalhador de saúde e usu ário Para o autor esse encontro se dá em um espaço intercessor1 que só ocorre em ato Compreender os tipos de encontro que ocorrem ajuda o profissional em saúde a conhecer as forças presentes e em disputa no processo de seu trabalho Merhy 2009 indica dois tipos de interseção no encontro trabalhador de saúdeusuário a intersecção objetal na qual os envolvidos se posicionam em espaços externos e distintos um em relação ao outro e re 1 Apoiase no conceito de intercessor de G Deleuze Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 245 produzem um modelo de atenção à saúde típico da racio nalidade capitalista Ao que podemos sugerir lidam com a questão da saúde ou do aconselhamento como uma mer cadoria a interseção partilhada na qual os envolvidos estabelecem trocas marcam a situação pelo diálogo e pelo encontro in tersubjetivo O encontro de interseção partilhada é o que deve ocorrer no processo de trabalho em saúde pois possi bilitará a emergência da relação entre profissional e usuário como cenário do atendimento Para Merhy 2009 os espaços de interseção são de pro dução instituinte isto é merecem ser considerados como trabalho vivo que se adequadamente observados analisados pelo trabalhador podem inclusive qualificar os encontros por sugeririndicar aspectos até então não considerados não instituídos no encontro 4 Análise de fragmentos de sessões de aconselhamento Selecionamos alguns relatos de sessões de aconselhamen to em DSTsHIVAids feitos por profissionais de saúde atuan do em Centro de Testagem e Aconselhamento em DSTsHIV Aids CTA no estado de Pernambuco no contexto de pesquisa de tese2 sobre o assunto 2 Tratase da tese O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids defendida em janeiro de 2013 na Universidade Católica de Pernambuco Unicap com incentivo de bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco Facepe orientação da professora doutora Ana Lúcia Francisco Unicap e coorienta ção do professor doutor Luís Felipe Rios UFPE A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética da Unicap Parecer no 0342010 As entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012 246 POSSIBILIDADES Fragmentar as entrevistas extraindolhes relatos parece incongruente com a argumentação que travamos sobre o en contro profissional de saúdeusuário e o próprio trabalho em saúde como trabalho vivo em ato Optamos por usar o recurso de discutir fragmentos de sessões como exercício que pode ser realizado por trabalhadores em saúde e equipes diante de sua própria rotina Voltandose para sua prática e contexto em que atuam trabalhadores em saúde têm maiores possibilida des de superar a dimensão alienante em sua rotina de trabalho Assim os relatos que ilustram as discussões neste texto não devem ser tomados como referências estáticas para a prática do aconselhamento em quaisquer espaço e tempo Ensejamos que as análises dos relatos possam mobilizar novas análises da realidade de profissionais de saúde e suas equipes de trabalho FRAGMENTO 1 Aconselhadora Você tem vida sexual ativa Já transou alguma vez na vida É importante fazer o exame pelo menos uma vez Usuária Ana3 Eu sou casada há 40 anos minha filha e é com a mesma pessoa Eu não tenho isso não Aconselhadora Sim eu sei que a senhora não tem mas tem que fazer o exame pelo menos uma vez na vida todo mundo deveria fazer uma vez na vida O diálogo entre a aconselhadora e a usuária Ana sugere um encontro do tipo de interseção objetal Merhy 2009 pois ambas parecem falar cada uma a partir de um referencial es pecífico sem interação com a outra A aconselhadora susten ta em uma postura imperativa que o exame deve ser feito sem abordar de forma satisfatória diante de Ana os motivos para tal Reduz a necessidade do exame ao fato de Ana ter vida sexual ativa perdendo a oportunidade de tratar com mais cui dado de riscos e formas de transmissão do HIV por exemplo Ana 3 Os nomes de usuárias são fictícios Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 247 por sua vez ao argumentar que é casada e tem contato sexual exclusivamente com o marido comunica nas entrelinhas de sua narrativa que está protegida do risco de contrair HIV Ora para Ana o casamento e a fidelidade protegemna do HIV Tal fantasia de invulnerabilidade é identificada na literatura científica como coerente com as construções sim bólicas dos primeiros tempos da Aids que equivocadamente associaram a doença aos chamados grupos de risco os homos sexuais hemofílicos usuários de heroína Souza e Czeresnia 2007 Parker 2000 Ayres et al 2003 Por ter 40 anos de casa da é possível supor que Ana vivenciou o surgimento da Aids e guarda como referência simbólica o risco de infecção associa do ao fato de se ter váriosas parceirosas É como se ter só um parceiro garantisse sua proteção Por conseguinte o HIV pode estar relacionado com as pessoas que são promíscuas para usar o termo do senso comum que parece cristalizar es sas referências de risco versus proteção e das fantasias de vul nerabilidadeinvulnerabilidade Percebese que a aconselhadora usa como recurso para o convencimento de Ana para realizar o exame uma ordem quase como uma determinação externa a elas como se alguém ausente da cena orientasse que todo mundo deve fazer esse exame uma vez na vida A dimensão subjetiva que parece sustentar a verdade de Ana de que sendo casada e fiel está protegida mantémse intocável na tentativa de diálogo pro posto pela aconselhadora Isto é a oportunidade de abordar o universo simbólico que Ana torna presente no aconselhamen to é perdida por uma postura de aparente obediência da acon selhadora à norma todos devem fazer o exame que tenta impor a Ana a partir de informação racional deve fazer Tal postura da aconselhadora é claramente indicadora de um encontro do tipo objetal Além disso ao apresentar a norma de que deve fazer o exame a aconselhadora parece não se dis por a ouvir o que pode haver de instituinte nesse encontro 248 POSSIBILIDADES Quer dizer poderia escutar o que significa para Ana a equação casamento não examenão risco E a partir do que a usuária expressasse ir tecendo o diálogo na perspectiva de contribuir para que Ana qualifique as informações sobre riscos de infec ção e se sensibilize para considerar riscos onde à primeira vis ta não existem Além disso poderia abordar outros possíveis conteúdos com os quais convive Ana em sua relação com a Aids Ao contrário a aconselhadora não abre o diálogo para essa possibilidade de escuta preenchendo o espaço do encon tro por regras instituídas ainda que não fique claro quem as definiu Aspecto curioso no Fragmento 1 é a afirmativa da acon selhadora sim eu sei que a senhora não tem Como ela po deria saber que Ana não tem HIV Estaria a aconselhadora também apoiada em fantasias de invulnerabilidade em rela ção a mulheres casadas e fiéis Nosso exercício de análise não tem como aprofundar a motivação da aconselhadora questão que pode ser objeto de investigações posteriores Aqui mais uma vez foi perdida a oportunidade de abordar questões como diferença entre HIV e Aids mudanças no perfil epide miológico da Aids sintomatologia inespecífica do HIV me canismo de vida desse vírus no corpo humano Enfim ao ser construído um encontro de intervenção objetal o diálogo não foi suficientemente capaz de envolver aconselhadora e usuá ria em contexto no qual houvesse trocas e aprofundamentos de questões em nível subjetivo Ao contrário mantiveramnas em uma abordagem superficial dos conteúdos que emergiram no encontro marcado por um investimento da aconselhadora em aspectos racionais e por sua indisposição em dialogar com as questões subjetivas Cabem algumas reflexões sobre a postura da aconselha dora no Fragmento 1 À primeira vista podemse sugerir uma inabilidade eou indisponibilidade para trabalhar usando tec nologias leves escuta olhar sorriso cuidado e uma tendência Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 249 a procurar impor tecnologias leveduras saberes estrutura dos com ênfase no saber do profissional sobre motivos para fazer o exame antiHIV A tendência mais comum de análise é responsabilizar oa profissional por sua inadequada postu ra na tentativa de diálogo Nossa proposta de análise busca incluir o máximo de fa tores coerente com a perspectiva de que a realidade é comple xa e o aconselhamento é atravessado por diversas dimensões Não desconsiderando a hipótese de fragilidade da formação de profissionais para a prática do aconselhamento conside ramos que aspectos da política local municipal de enfrenta mento das DSTsHIVAids podem estar na base das práticas de atenção à saúde que se caracterizam pelo encontro de tipo interseção objetal No caso específico de municípios de Pernambuco iden tificamos Galindo e Francisco 2011 condições de trabalho que comprometem a qualidade de atendimento à população É comum por exemplo quantidade restrita de servidores para atendimento de alta demanda de usuários nos CTAs ou opção por realizar mutirões de testagem em bairros eou dis tritos rurais de dezenas às vezes centenas de pessoas em cur to espaço de tempo e sem recursos humanos suficientes para garantir o aconselhamento Além disso a ausência de concur so público para os postos de trabalho em CTAs de vários mu nicípios mantém o funcionamento dessa unidade refém do cenário políticopartidárioeleitoral o que deixa a equipe de trabalho do CTA vulnerável às mudanças no Executivo mu nicipal Enfim as condições de trabalho de aconselhadores merecem ser consideradas ao se refletir sobre a qualidade do atendimento oferecido à população no que se refere ao acon selhamento em DSTsHIVAids Se por um lado temos frágeis condições de trabalho em CTAs por outro como vimos a população compartilha verda des sobre riscos prevenção necessidade ou não de testagem 250 POSSIBILIDADES que demandam atenção e manejo o que envolve habilidades diversas por parte dos profissionais de saúde Escutamos de nossos entrevistados diversos relatos indicando que usuários consideram a necessidade de fazer exame antiHIV quando sa bem de ex ou atual parceiroa infectadoa pelo vírus Isto é suas práticas sexuais desprotegidas se configuram como risco diante do resultado concreto ou boato em alguns casos de um resultado reagente para HIV de ex ou atual parceiroa São comuns também relatos de pessoas que buscam a tes tagem quando sabem de alguém próximo a elas parente amigoa vizinhoa que está com HIV Nesses casos o que mobiliza as pessoas a buscarem exame é a possibilidade de te rem também o HIV já que outros próximos também têm Não se trata nessas situações de fantasias de contágio por modos improváveis como ar saliva contato com a pele Um diálogo aberto para acolher conteúdos com os quais lidam os usuários configurase como estratégico para garantir um aconselhamento produtivo FRAGMENTO 2 Aconselhadora Qual é a sua idade Usuária Bruna 17 Aconselhadora Já tinha feito esse exame antes Por que veio fazer Bruna Não nunca fiz É que eu descobri que meu namorado é gay aí fiquei morrendo de medo de ter pegado Aids Aconselhadora Que bom que você veio Mas vamos conversar melhor sobre isso O fato de seu namorado ser gay não é um motivo para você pegar HIV Vocês tinham intimidade sexual sem camisinha Bruna É Tivemos sexo sem camisinha por seis meses Aconselhadora A preocupação é essa o sexo sem camisinha Vamos entender o porquê O Fragmento 2 sugere um encontro entre aconselha dora e usuária do tipo interseção partilhada As primeiras per Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 251 guntas da aconselhadora indicam um rapport com objetivo de construir um espaço para diálogo É possível supor que o olhar foi utilizado pela aconselhadora que tendo diante de si uma pessoa muito jovem inicia o diálogo indagando sua idade A questão seguinte sobre o motivo de Bruna para fazer o exame antiHIV parece indicar a preferência pelo uso de tecnologias leves como o olhar já referido pois a pergunta feita a Bruna oferecelhe acolhida às suas demandasmotiva ções E de fato ela as expressa livremente ao informar que teme ter contraído Aids porque descobriu que o namorado é gay A abertura proporcionada pela aconselhadora e o diálogo engendrado por ambas parecem ir se consolidando em um es paço no qual pode ser expresso o que se passa com Bruna suas impressões fantasias temores e comportamentos A primeira informação que Bruna expõe sobre risco de infecção salta aos olhos Segundo ela a associação entre gay e Aids é direta A relação que essa jovem faz entre orientação se xual e Aids remonta aos primeiros tempos da epidemia quan do inclusive ela nem tinha nascido Bruna reproduz a cons trução simbólica de que homossexuais fazem parte de grupo de risco para pegar Aids referência essa que orientou o desenho de políticas e de investimentos em pesquisas no setor ainda no final dos anos 1980 Souza e Czeresnia 2007 Parker 2000 Ayres et al 2003 A livre expressão do que Bruna acredita apresentase como oportunidade para ser identificado na rotina do tra balho de aconselhamento o que pesquisadores argumentam sobre construção social da realidade cujas marcas simbóli cas são passíveis de ser apreendidas por práticas discursivas Spink 2004 Bruna não precisou viver nos anos 1980 para compartilhar as referências simbólicas sobre Aids construí das naquela época Ainda que a literatura científica indique essa construção discursiva Souza e Czeresnia 2007 como 252 POSSIBILIDADES obsoleta na tarefa de enfrentar a Aids ela ainda permane ce no senso comum consolidando concepções valores e comportamentos A história social da Aids a todosas envolve mantendo nos emaranhados em sua teia de fios que articulam fatos fantasias preconceitos orientando comportamentos e inspi rando concepções sobre o assunto Como fenômeno social te mos aprendido diversas lições com a Aids além de construir mos verdades sobre essa doença Bastos 2006 argumenta que a história de vitórias do ser humano na Terra em relação a outros seres vivos vive um capítulo novo o da luta humana contra o vírus da Aids cujo desfecho é ainda desconhecido pois até então não vencemos o HIV Nos primeiros tempos da Aids no Brasil o desejo homos sexual foi associado à morte pelo estabelecimento da íntima relação entre Aidssubjetividademorte naqueles anos 1980 Birman 1994 A associação da Aids à homossexualidade masculina contribuiu ainda para a construção de fantasias de invulnerabilidade em boa parte da população Labaki 1996 Isso é o que parece ocorrer com Bruna que esteve por seis meses com parceiro fixo em atividade sexual despro tegida e só lhe ocorreu o risco de pegar Aids quando soube que o namorado é gay Ora Bruna parece guiada por uma fantasia de invulnerabilidade que antevemos pela certeza de proteção apenas abalada diante do conhecimento de que o namorado é gay Explorar mais profundamente o que compõe tal fantasia de invulnerabilidade pode ser objeto de estudos futuros que certamente auxiliarão na prática do aconselhamento O diálogo entre a aconselhadora e Bruna prossegue e in dica mais uma vez a postura acolhedora da profissional de saúde ao destacar que foi bom a moça ter buscado o CTA e pelo fato de ter anunciado que conversarão sobre o motivo do atendimento de Bruna Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 253 Sutilmente a aconselhadora afirma que não é o fato de ter sexo com gay que torna Bruna mais exposta à Aids mas sim a prática sexual sem camisinha O modo como essas ver dades são anunciadas sugere que a aconselhadora assume um lugar de cuidadora de Bruna Ousamos dizer que a acon selhadora possivelmente tem uma percepção crítica da his tória social da Aids e supõe que Bruna tem construído seus conhecimentos sobre risco prevenção sexo protegido ancora da em preconceitos e informações equivocadas Destacamos que a postura de acolhida parece orientar os procedimentos da aconselhadora Esta não julga Bruna ou qualifica suas in formações como indevidas A aconselhadora posicionase em diálogo com Bruna preenchendo o encontro com o que tem de informações adequadas e possivelmente tentará manejar o que se apresenta como preconceito por parte da moça É co mum ouvirmos no cotidiano queixas de que o profissional de saúde não deu a devida atenção à pessoa que está atendendo Um profissional de saúde diante do que Bruna apresenta no encontro poderia ser minimalista e apenas dizer o impor tante é usar camisinha ou falar isso de que só pega com gay está errado no passado se pensou isso mas hoje não Esses procedimentos não são difíceis de ser encontrados por parte do profissional de saúde Indicamos na análise do Fragmento 2 que o tipo de re lação interseção partilhada valoriza o que o usuário traz consigo para o encontro com a aconselhadora Esta por sua vez uti lizando tecnologias leves como o olhar a escuta o cuidado possibilita a construção de espaço intersubjetivo cuja produ ção de diálogo tende a ser em benefício da usuária e de sua saúde 254 POSSIBILIDADES 5 Considerações finais Entendemos que a prática do aconselhamento é atraves sada por várias dimensõescontextos que se fazem presentes no encontro profissional de saúdeusuário Ocupam a cena do aconselhamento direta ou indiretamente valores socialmen te construídos e partilhados em torno dos temas envolvidos referências pessoais de usuários sobre os assuntos em ques tão aspectos relacionados com os investimentos financeiros e decisões políticas em torno da oferta do serviço de aconselha mento elementos da gestão interna da unidade de saúde as pectos relacionados com a formação de aconselhadores entre outros O que destacamos como desafiante para o profissional de saúde diante da tarefa do aconselhamento é posicionarse no encontro com o usuário na perspectiva de que aquelas dimen sões que povoam a cena recebam atenção devida de modo que o encontro seja producente para quem procura ajuda Acre ditamos que o encontro do tipo interseção partilhada apre sentase como mais produtivo por possibilitar um espaço de genuíno diálogo ainda que ele nem sempre ocorra diante das várias questões que podem estar implicadas na situação Neste texto apresentamos um exercício de análise das si tuações de atendimento pelas quais passam em sua rotina profissionais de saúdeaconselhadores em HIVAids Espera mos que os profissionais e suas equipes mantenham como sis temática o estudo de casos a troca de experiências a partilha de descobertas e inquietações pois acreditamos que a garan tia de espaço para os profissionais se expressarem sobre suas práticas de trabalho contribuirá para qualificar sua tarefa de escutar e ajudar as pessoas que buscam o aconselhamento em HIVAids Análise da prática do aconselhamento em HIVAids Wedna C M Galindo 255 Referências AYRES J R C M FRANÇA JR I CALAZANS G J SALETTI FILHO H C Conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde novas perspectivas e desafios In CZERESNIA D FREITAS C M Org Promoção da saúde conceitos reflexões tendências Rio de Janeiro Fiocruz 2003 BASTOS F I Aids na terceira década Rio de Janeiro Fiocruz 2006 BIRMAN J Sexualidade entre o mal e as maledicências In LOYOLA M A Org Aids e a sexualidade o ponto de vista das ciências humanas Rio de Janeiro Relume DumaráUerj 1994 p 109115 BRASIL Aconselhamento em DST HIV e Aids diretrizes e procedimentos bá sicos 3 ed Brasília Ministério da Saúde 1998 Diretrizes dos Centros de Testagem e Aconselhamento CTA manual Brasília Ministério da Saúde 1999 Normas de organização e funcionamento dos Centros de Orientação e Apoio Sorológico Brasília Ministério da Saúde 1993 Pesquisa de conhecimentos atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 64 anos Brasília Ministério da Saúde 2011 FILGUEIRAS S L DESLANDES S F Avaliação das ações de aconselha mento análise de uma perspectiva de prevenção centrada na pessoa Cad Saúde Pública Rio de Janeiro v 15 sup 2 p 121131 1999 GALINDO W C M O dispositivo do aconselhamento na resposta à Aids Tese Doutorado Universidade Católica de Pernambuco Recife 2013 FRANCISCO A L Gestão municipal em ações de HIVAids In XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALAS Anais Recife UFPE 611 set 2011 RIOS L F Proposições para a formação de aconselhado res em HIVAids Physis revista de saúde coletiva Rio de Janeiro v 23 n 3 p 741761 2013 256 POSSIBILIDADES GIANNA M C KALICHMAN A DE PAULA I CERVANTES V SHIM MA E Políticas públicas e prevenção das DSTAids ontem hoje e ama nhã In PAIVA V AYRES J R BUCHALLA C M Vulnerabilidade e direitos humanos prevenção e promoção da saúde Da doença à cidadania Curiti ba Juruá 2012 livro I LABAKI M E P Aids uma clínica da indagação Cadernos de Subjetividade v 4 1o e 2o sem p 153161 1996 MARX K O capital crítica da economia política 9 ed São Paulo Difel 1984 MERHY E E Enfrentar a lógica do processo de trabalho em saúde um ensaio sobre a micropolítica do trabalho vivo em ato no cuidado In CAR VALHO S R FERIGATO S BARROS M Elizabeth Org Conexões saú de coletiva e políticas de subjetividade São Paulo Hucitec 2009 Saúde a cartografia do trabalho vivo 3 ed São Paulo Hucitec 2007 PARKER R Na contramão da Aids sexualidade intervenção política Rio de Janeiro Abia São Paulo Ed 34 2000 SOUZA V CZERESNIA D Considerações sobre os discursos do aconse lhamento nos centros de testagem antiHIV Interface comunicação saú de educação v 11 n 23 p 531548 2007 SPINK M J Org Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano aproximações teóricas e metodológicas São Paulo Cortez 2004 TRAVERSOYÉPEZ M A psicologia social e o trabalho em saúde Natal UFRN 2008 ŽIŽEK S Como Marx inventou o sintoma In Org Um mapa da ideologia Rio de Janeiro Contraponto 1996 Eles não sabem o que fazem o sublime objeto da ideologia Rio de Janeiro Jorge Zahar 1992 Caravana da Cidadania a psicologia comunitária mobilizando as comunidades para a promoção à saúde e direitos humanos Camila Santos Verônica Carrazzone Renata E de S Nunes e Luís Felipe Rios Neste capítulo discutiremos a experiência da Caravana da Cidadania uma das ações de mobilização comunitária do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape1 O subprojeto teve início em maio de 2012 encerran dose em janeiro de 2015 Por meio das diferentes frentes dessa ação foram acessadas cerca de 605269 pessoas sobre os diferentes temas de que trata o Programa Carrazzone et al 20152 O capítulo está dividido em quatro partes Na primeira discutimos o canário no qual o subprojeto Caravana da Ci dadania trabalhou Na segunda apresentamos a perspectiva teórica que orientou as atividades realizadas A terceira parte é dedicada à apresentação da metodologia de trabalho Nas duas últimas partes tecemos algumas reflexões sobre o pro 1 É importante expressar nossos agradecimentos aos professores Eniel Sabino de Olivei ra e Rafael Diehl que junto com os autores deste texto formaram a equipe da Caravana da Cidadania durante boa parte do percurso aqui narrado Também queremos agrade cer aos gestores e profissionais dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Sem a participação deles definitivamente não obteríamos êxito 2 Vale ressaltar que contabilizamos as pessoas acessadas pela quantidade de material in formativo e insumos de prevenção camisinhas distribuídos Temos inteira consciência de que em uma população de cerca de 285 mil pessoas o número acima revela que uma mesma pessoa foi acessada várias vezes pelo Programa a partir de suas diferentes frentes de trabalho expressas nos temas dos materiais distribuídos É justamente essa possibi lidade de acessar uma mesma pessoa várias vezes que permite o êxito de um trabalho de promoção da saúde como o aqui proposto 258 POSSIBILIDADES cesso de interferir em comunidades de dois municípios para propor mudanças que favoreçam a promoção da saúde consi derando e respeitando as dinâmicas socioculturais locais 1 O cenário as duas faces do Complexo Suape Complexo Industrial Portuário de Suape Pernambuco preparado para grandes negócios Governo do Estado de Pernambuco Com essa frase o governo de estado de Pernambuco apre senta o Complexo Suape em encarte com exposição visual que alterna imagens de praias com beleza natural paradisíaca e imagens de imensas estruturas metálicas cuja infraestrutura se estende por 13500 hectares O Complexo é apontado como a locomotiva do desenvolvimento de Pernambuco e o polo de desenvolvimento mais dinâmico do Brasil Com empreendi mentos estruturadores como a Refinaria Abreu e Lima o Polo Naval e Offshore o Polo Petroquímico e o Polo Siderúrgico e Metalmecânico Suape anuncia que todos esses investimen tos estão em sintonia com uma política de sustentabilidade social e ambiental da região Outro ponto enfatizado é a polí tica de capacitação que procura engajar os trabalhadores per nambucanos nas diversas cadeias produtivas por um grande programa de treinamento Complexo Industrial e Portuário sd Apesar do desenvolvimento e dos números positivos con firmados a partir da implantação do Complexo Suape muitas dificuldades também se fizeram presentes Situações de vul nerabilidade social juntamente com violência uso abusivo de álcool e outras drogas e aumento nos números de DSTsAids foram alguns dos agravos identificados os quais pediam ação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 259 imediata pois fugiam ao controle da população e dos equipa mentos do governo O Complexo Industrial além de apresentar grande movi mento econômico trouxe também uma nova realidade para os moradores dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca Com as mais de 100 empresas em operação e os mais de 25 mil empregos suscitados houve também grande aumen to populacional e grande diversidade de hábitos e costumes assim como benefícios e agravos para a população Diante de tal fato como a comunidade vem lidando com esse cenário Como vem se desenhando essa desconstrução e reconstrução da representação social de seu ambiente Ao longo de nossas incontáveis visitas às comunidades um dos moradores nos sinaliza que a cultura do local é bom bardeada por diversas culturas apontando seu sentimento de não pertencimento ao local que sempre sentiu como seu partilhando do sentimento de outros tantos moradores acerca de sua identidade social Afirmam assim sentirse desprepa rados para lidar com esse bombardeio de pluralidade Vale também destacar algo que pode soar contraditório Quan do as pessoas eram reunidas para discutir as implicações do Complexo Suape em suas vidas momento inicial da forma ção cuja metodologia aprofundaremos mais adiante o que para alguns era listado como agravo para outros era benefício Um exemplo disso era a supervalorização dos imóveis o de senvolvimento acelerado e a própria convivência com atores de diferentes culturas Todos esses pontos eram apresentados tanto como agravos quanto como benefícios As integrantes da ação Caravana da Cidadania perguntaram a um grupo de profissionais da comunidade de Gaibu no Cabo de Santo Agostinho quais foram os benefícios e agravos advin dos do complexo de Suape e a lista começou a ser elaborada sendo os benefícios arrumados do lado esquerdo e os agravos do lado direito o que remete a uma balança social descrita a seguir 260 POSSIBILIDADES benefícios mais emprego desenvolvimento do comércio mais ofertas de cursos técnicos mais pessoas capacitadas e novas empresas agravos violência danos ambientais prostituição tráfico de drogas furtos marginalidade perda da identidade inva são de território superlotação aumento da demanda para os serviços de saúde e serviços básicos erradicação da práti ca de esportes por causa do uso de drogas nos espaços falta de habitação ausência de vagas nas escolas e aumento do custo de vida Percebese que a lista dos agravos compreende uma quantidade expressiva de elementos apontados pelos diver sos profissionais e moradores do litoral sul de Pernambuco que afirmam não saber como lidar com o número de pessoas que chegaram de repente à região sem que houvesse a cons trução de uma base firme que pudesse sustentar a prestação de um serviço de qualidade a todosas nas áreas da saúde educação lazer moradia e segurança Relatam que a cidade sofreu um inchaço em razão da superlotação de pessoas que vieram de outras regiões do país para trabalhar nas diversas empresas do Complexo de Suape e trouxeram consigo outro jeito de falar de se comportar de comer outras drogas novos vícios Assim um novo contexto social se apresenta novos va lores novos saberes e fazeres se anunciam Nada é igual ao anteriormente estabelecido Também não é necessariamente nem pior nem melhor é simplesmente diferente Diante da rápida transformação novos modelos e padrões de conduta são criados adaptados às novas mudanças muitos sem ser questionados nascidos da urgente demanda de adaptação Esse é essencialmente o conflito expresso pelos morado res do Cabo e de Ipojuca que vivenciando essas transforma ções falam desse bombardeio cultural falam do grande vo Caravana da Cidadania Camila Santos et al 261 lume de mudança e anunciam que referências anteriores não são mais suficientes para transitar nesse novo contexto Além disso sentemse perdidos sem se darem conta do volume de transformações e assim não se apropriam mais da nova rea lidade A insegurança e a ausência de expertise para lidar com as problemáticas fragilizam a todosas enquadrandoos em uma categoria já conhecida de vulnerabilidade social Vul nerabilidade revelada no uso abusivo de álcool e drogas nas constantes cenas de violência no aumento da gravidez precoce e das DSTs etc Em nossa interpretação a expressão bombardeio cultu ral utilizada pelos moradores do Cabo e de Ipojuca tenta traduzir essa vivência de sofrimento que faz com que cada su jeito ao se deparar com a insegurança de seu mundo mergu lhe na confusão e na desorientação a respeito de si mesmo Tal sofrimento é atribuído não só às mudanças estruturais trazi das por Suape mas é personificado nos estrangeiros tra balhadores que vieram de diferentes estados do Brasil e até de outros países e que se instalaminvadem com seus costumes e vivências a dinâmica local Um sentimento velado de raiva passa a ser nutrido em relação a esses estrangeiros vistos como responsáveis pelo caos instalado Do outro lado os trabalhadores vindos dos diferentes locais do país estranhos a essa cultura local sinalizam o mal estar por estarem sendo vistos como responsáveis por esse caos Falam do sofrimento em andar pelas ruas e serem iden tificados como violentos inconsequentes e maus Homens que deixaram suas famílias e se inserem em uma cultura que também desconhecem o que requer uma imensa habilidade de observação para transitar sem desrespeitar um contexto cultural e simbólico tão diferente do seu A intensa convivên cia desses novos atores que passam a compor o cenário local com tantas diferenças aumenta o potencial para conflitos e malentendidos 262 POSSIBILIDADES 2 Reconstruindo cenários pela psicologia social comunitária Nascida após a tensão da psicologia social nos anos 1970 a psicologia comunitária sobretudo na América Latina mos trouse uma prática distinta para a entrada profissional e po lítica do psicólogo Ramos e Carvalho 2008 Vale relembrar o aspecto normalizador que marca a psi cologia como ciência e como profissão desde suas origens sempre se preocupando com o anormal e o diferente e sempre chamada a regular e colocar em ordem o que era visto como desordenado Rios 2011 No entanto por muito tempo como disse uma vez George Canguilhem sd muitos traba lhos realizados pela psicologia careceram e ainda carecem de ética e rigor deixando de fazer crítica à sociedade deixando de se perguntar se a demanda recebida para promover tal ou tal mudança era eticamente louvável Na contramão de uma psicologia da norma Góis 2003 p 280 sugere que a psicologia comunitária deveria se basear em dois pontos o do desenvolvimento humano e o da mu dança social busca de alternativas sociopolíticas a partir de uma crença positiva acerca da comunidade e dos sujeitos em que ambos possuem competências para atuar como autores de suas histórias Nesse processo contase com a participação do psicólogo comunitário como ferramenta de conscientiza ção e auxiliar na tomada de decisões dos cidadãos buscando promover condições dignas para o exercício da cidadania de mocracia e igualdade Pereira 2009 Assim a psicologia comunitária lida com diversas proble máticas como saneamento nutrição qualidade de trabalho e poluição ou seja deve abordar as dificuldades que afligem osas moradoresas da comunidade Gonçalves e Portugal 2012 Perceber e respeitar esse panorama para cada comuni dade particular tem sido essencial para a execução de ações Caravana da Cidadania Camila Santos et al 263 transformadoras Novara 2003 Esse processo de interven ção segundo Gonçalves e Portugal 2012 iniciase em geral por meio de um diagnóstico da comunidade levantando in formações buscando saber qual a necessidade específica da população sempre com o apoio dos membros da localidade E é por meio da parceria desse conjunto que a comunidade vai se desenvolvendo com a valorização dos movimentos po pulares da região pela arte história resistência e cultura local Pereira 2009 Fundamentada nessas reflexões a equipe que realizou a ação ou subprojeto Caravana da Cidadania do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social de Suape trabalhou a partir da mobilização das comunidades dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca e da instrumentalização dos profissionais das secretariais e equipamentos sociais para um movimento de promoção da saúde sexual e reprodutiva e enfrentamento à violência e ao uso abusivo do álcool e outras drogas 3 Caravana da Cidadania Essa ação foi organizada em quatro movimentos os quais passaremos a apresentar articulação da rede formação dos atores sociais Caravana da Cidadania e instrumentalização dos profissionais 31 Articulação da rede A articulação da rede se deu em dois tempos O primei ro momento consistiu em apresentar o Programa Diálogos Suape para todosas osas gestoresas das secretarias dos municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca com o ob jetivo de firmar parcerias para a realização dos movimentos 264 POSSIBILIDADES posteriores e também conhecer o olhar desses atores sobre a realidade das comunidades que receberiam as ações O apoio veio pela indicação dos espaços para realizar as formações pelo repasse dos contatos dos responsáveis pelos equipamentos sociais de cada localidade permitindo que a equipe da Caravana tivesse uma pessoa de referência para fa cilitar o diálogo com os demais funcionários pela disponibi lização de materiais tendas caixas de som materiais infor mativos de seus serviços etc e pessoal de apoio para o dia da ação de rua que descreveremos mais adiante sempre que pos sível Ao conhecer o Programa Diálogos e a proposta de inter venção da Caravana da Cidadania osas gestoresas muitas vezes solicitaram a presença da equipe e suas ações em proje tos em andamento de iniciativa das prefeituras como o Social Itinerante uma iniciativa da Secretaria de Programas Sociais do Cabo de Santo Agostinho e o Fórum de Saúde Mental do Cabo iniciativa da coordenação de Saúde Mental do municí pio de Cabo de Santo Agostinho Após a articulação com osas gestoresas e mapeando junto com eles as comunidades mais afetadas pelo agravos em saúde e violações de direito objeto do trabalho do Diálogos Suape seguimos para o segundo momento de articulação junto a cada comunidade Identificada a comunidade que seria trabalhada a equi pe realizava uma primeira visita apresentando o projeto para Caravana da Cidadania Camila Santos et al 265 os integrantes de cada equipamento social e convidandoos a participar de uma formação Entre as diversas instituições acionadas e a depender da localidade estavam os Creas CRAs CAPs NASF PSF con selhos tutelares projetos e programas locais casas de acolhi mento postos da Polícia Militar guardas municipais escolas estaduais e municipais centros comunitários e lideranças identificadas como agentes mobilizadores em seus bairros 32 Formação dos atores sociais O segundo movimento do trabalho da Caravana da Ci dadania consistiu em promover um grande diálogo entre os atores que atuam na comunidade um encontro dos múltiplos olhares 266 POSSIBILIDADES O encontro era iniciado com a reflexão coletiva sobre a maneira como cada um dos atores posicionados por seus fa zeres e saberes percebe os agravos em seu ambiente de tra balhocomunidade Os participantes eram chamados a expor as práticas realizadas com o público beneficiário das ações A ideia era refletir sobre como os serviços formais e informais podem se ajudar a ampliar e qualificar um processo de pro moção da cidadania e saúde já em curso Vale dizer que a pró pria existência dos equipamentos sociais e ações comunitárias apontava que já existiam muitas coisas acontecendo No en tanto o que o encontro mostrou é que muitos não sabiam que várias inciativas estavam em curso e o trabalho seguia no mais das vezes solitário Os participantes da formação eram chamados a pensar na construção da grande ação de rua onde estariam reunidos os equipamentos sociais e a comunidade com o objetivo de pro mover ações de conscientização e promoção de cidadania aos cidadãos das mais variadas faixas etárias Um ensaio para um trabalho em rede Os participantes eram questionados como poderiam contribuir a partir de seus dispositivos setores e o que cada um poderia levar para a Caravana como estratégia de aproximação à comunidade e facilitação do diálogo Eles também definiam as regiões que deveriam ser contempladas pelo evento O processo formativo aconteceu de modo participativo colaborativo e dinâmico configurado a partir de uma estrutura que favoreceu o diálogo sobre os benefícios e agravos que advie ram da chegada do Complexo Suape Contaram com atividades estruturadas a priori que davam movimento e singularidade a cada formação em cada comunidade como técnicas de relaxa mento colagem e construção de painéis estudos de caso dra matizações etc distribuídas em quatro horas de duração total Finalmente a última parte do encontro consistia em apresentar aos participantes os materiais informativos Caravana da Cidadania Camila Santos et al 267 confeccionados e disponibilizados pelo Programa Diálogos Suape como filmes cartilhas fôlderes etc de modo a faci litar o diálogo sobre as possibilidades de enfrentamento às vulnerabilidades 33 Evento Caravana da Cidadania O ponto de culminância do subprojeto em tela era o evento Caravana da Cidadania que empresta o nome ao pró prio subprojeto Consistia em uma mobilização social em geral de rua a partir de atividades socioeducativas e culturais estruturadas e realizadas com o protagonismo dos atores so ciais que participaram da formação e da comunidade como um todo além da presença de alunos de diversas escolas e das 268 POSSIBILIDADES sete ações do Programa Diálogos Suape Caravanas da Cida dania Observatório Suape Ação Juvenil Chá de Damas Diá logos com os Homens das Terceirizadas Ação Mulheres e Co nhecer o Território De forma geral chegando ao local que aconteceria o mo vimento uma tenda de cidadania era montada Esse espaço servia como ponto de apoio para o que iria se desenrolar e favorecia um espaço de diálogo e troca de saberes Em seu en torno desenvolviamse ações educativas teatro jogos canto e distribuição de materiais informativos sobre violência DSTs Aids uso abusivo de álcool e outras drogas Durante a mobilização social uma equipe percorria as ruas e ladeiras da comunidade que em geral são bastante po voadas distribuindo materiais e convidando a população para integrar o evento Nessa caminhada era comum depararse com famílias sentadas nas portas de casa vendedores de pi poca crianças brincando trabalhadoresas chegando a seus Caravana da Cidadania Camila Santos et al 269 lares bares lotados Enquanto isso nesse movimento diversificado era re alizada a distribuição de informações visando a promover a tomada de cons ciência sobre seus direitos provocan do reflexões sobre as possibilidades para reduzir os agravos do cenário em que vivem Cada ambiente exibia condição e narrativa diferentes sendo necessário incorporar o caminhar da comunida de estar em movimento dialogando com histórias e sentimentos trazidos por cada morador Por exemplo em uma das ocasiões uma mãe sentada em frente à sua casa recebeu um mar cador de página falando sobre redu ção de danos Lembrouse de seu filho pediu mais um material dizendo que entregaria a ele Em outro momento uma senho ra parando de frente para um cartaz sobre exploração sexual questionou se a denúncia era mesmo sigilosa Con versamos sobre o fenômeno e modos de enfrentamento a ocorrência na re gião e ela levou um folheto sobre o as sunto na intenção de guardar o núme ro de telefone para fazer a denúncia Também vale recordar quantas vezes crianças e jovens pediam mais e mais materiais para levar para distribuir en tre seus pares nas escolas Caravana da Cidadania Camila Santos et al 271 A participação da população nas microrrodas de conver sa promovidas pelos esquetes e jogos lúdicos também foi um ponto importante das atividades das Caravanas da Cidadania sempre consolidadas com a distribuição de materiais infor mativos e insumos como camisinhas masculinas e femininas e lubrificantes íntimos 34 Instrumentalização dos profissionais do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca Finalmente o último movimento consistiu em ampliar a multiplicação das informações Nessa quarta etapa houve o 272 POSSIBILIDADES repasse de grandes quantidades dos materiais elaborados pelo Programa para os equipamentos sociais dos dois municípios visando a ampliar a rede de diálogos sobre saúde e direitos humanos A escolha das temáticas e quantidades de materiais for necidos ficou a critério dos próprios profissionais aos quais foram apresentados os materiais disponíveis no momento da formação A ideia era que eles avaliassem a adequação das peças de acordo com a pertinência e demanda do espaço de trabalho e do público acolhido Quando entregues eram rece bidos com entusiasmo As ideias começavam a ser articuladas Caravana da Cidadania Camila Santos et al 273 e cada um já ia pensando qual atividade poderia ser desen volvida a partir desses materiais Lembramos por exemplo o profissional da Secretaria de Combate às Drogas de Cabo de Santo Agostinho que sinalizou Esse material é importante para nossa ação de Carnaval referindose ao kit sobrevivên cia que ajudava a disseminar informações e distribuir camisi nhas para a população masculina 4 Promoção à saúde e direitos humanos Uma realidade complexa um mundo em movimento uma leitura crítica uma impaciência democrática são fatores que impulsionam a sair do lugar e demarcar uma interferên cia na sociedade com saberes e fazeres comprometidos com os direitos humanos e com o fomento para a estruturação de políticas públicas que não mais se conformam com a paisa gem de desigualdades colorindo assim um movimento de transformação de nossa realidade Saberes e fazeres que rompem com a ingenuidade histó rica e avançam na direção da transformação da realidade O tempo a educação a saúde o trabalho as diferentes formas de exclusão social clamam por uma perspectiva crítica dos di reitos humanos A Caravana da Cidadania como uma das estratégias do Programa Diálogos para o Desenvolvimento Social em Sua pe assim cumpriu seu papel desarrumando saberes e práti cas consolidadas e fazendo pensar Construindo senão novas formas de agir pelo menos novas formas de desconfigurar o que já estava posto É importante destacar que o Programa Diálogos Suape teve por pilar doutrinário e organizativo as premissas do Sis tema Único de Saúde SUS caudatárias do movimento sani tarista e inscritas na Constituição de 1988 274 POSSIBILIDADES A equipe da Caravana da Cidadania em sua grande parte formada por psicólogas fez ecoar o grito muitas vezes ainda calado por uma psicologia que não mais se alie ao aparato repressivo Uma psicologia politicamente posicionada e etica mente orientada Uma psicologia que se proponha sair do enquadramento das quatro paredes dos modelos engessados e mergulhar no mundo de subjetividades de diferentes olhares no qual se in daga o para quê Eis o grande desafio Andar na corda bamba em que o passo é sempre incerto pois não há mais a crença em estrutura forte e firme para se equilibrar Uma psicologia co munitária como prática implicada no mundo e com o mun do e por isso mesmo incerta Incerteza de uma psicologia como prática que se presta a ouvir a sentir a provar a realidade não com nossas bocas nossos olhos nem nossos ouvidos mas com nossa presença no mundo É simplesmente estar lá implicada com a própria vida e aí sim os atores fazem a dança e o movimento E assim acontece na Caravana da Cidadania Os atores sociais foram para a rua fugindo ao script e à regra recons truíram a realidade elaboraram estratégias e articularam uma rede de parcerias com o desenho que só aquela comunidade é capaz de gerar Talvez uma única experiência mas que acredi tamos poder ser um exemplo de que é possível fazer algo que mobilize os atores as comunidades a trabalharem em rede Assim foi na praça da Estação no centro do Cabo de San to Agostinho um mural sendo pintado por crianças acompa nhadas pelosas professoresas e gestoresas das escolas e que lá deixavam seu recado Qual O recado de quem vai para a escola de quem tem fé de quem brinca de quem aprende e também ensina A dança de rua com Bboys que cantam e dançam sua cultura seus valores que falam das drogas das dores dos me dos das conquistas uma dança de resistência de superação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 275 276 POSSIBILIDADES Adolescentes cantam suas composições levam seus equi pamentos seu microfone sua caixa de som emprestamse para comunicar dúvidas soluções estratégias que não são só suas mas de muitos dessa idade Gestoresas da saúde edu cação infraestrutura juventude seguem no apoio e participa ção identificam os atores locais participam da organização do evento oferecem suporte e vibram juntosas em uma par ceria que também é delesas A população para com o objetivo de assistir e participar e dessa forma também constrói sugere e se insere Uma riqueza de material impresso é disponibilizado para a população que lê que tira dúvidas que questiona A psicologia comunitária na promoção da saúde tradu zindo no fazer a essência da clínica ampliada E nada é por acaso esse esforço conjunto é fruto de um grupo que se en controu na formação que pensou e idealizou esse momento que pensou junto o melhor local para fazer acontecer a ação Caravana da Cidadania Camila Santos et al 277 na rua que construiu junto esse jeito de fazer diferente que saiu de sua sala e foi para a rua dançar e brincar de fazer saúde e direitos humanos Um grupo que transita da gestão para a comunidade e que na articulação trouxe seu rol de preocupações de incer tezas de impotências e de possibilidades E entra nesse jogo de brincar de fazer e vai junto para as ruas para as casas para os comércios até o quintal desse compromisso social E assim alinhava a promoção da saúde e dos direitos humanos Essa psicologia comunitária cantada dançada encenada é quebracabeça montado a cada visita no processo de articu lação Cada depoimento cada vivência e dificuldade narrada pelos atores nas visitas de articulação política viram roteiro dessa viagem e assim é possível fotografar a própria crença impregnada nesse agir de que é possível construir pelo contá gio uma epidemia de saúde e direitos humanos 5 Dar o peixe ou ensinar a pescar O protagonismo da comunidade e o respeito à cultura local Como promover saúde e direitos humanos dentro da co munidade Será que há um molde um modo único de pro mover conhecimento Diante de tal complexidade as ações da Caravana da Cidadania buscaram mobilizar os atores lo cais a integrar ativamente as intervenções do projeto A partir de cada barraca montada cada material distri buído dospor dispositivos locais cada apresentação musical dançante cartazes temáticos a partir do diálogo de comuni dade para comunidade acerca das temáticas trabalhadas nas formações promovidas pela equipe Caravana junto à popu lação foi possível facilitar a reflexão da comunidade sobre 278 POSSIBILIDADES as possibilidades presentes em seus próprios contextos para lidar com suas demandas gerando uma atividade coletiva e favorecendo o movimento de autonomia da comunidade que enxerga a possibilidade de tornarse agente de sua própria mudança A troca de conhecimentos e experiências entre Progra ma Diálogos Suape e comunidade enriquece o processo de construção de saberes e o empoderamento social acerca das temáticas envolvidas no Projeto de modo que a comunidade possa atuar como principal veículo multiplicador da promo ção de saúde e direitos humanos sendo estimulado o papel ativo de cada indivíduo para a superação de condições de vulnerabilidade e enfrentamento às situações de ameaça e ou violação de direitos A comunidade se firma como agente de transformação e exerce seu protagonismo social impul sionando a reflexão sobre os conhecimentos dialogados e facilitando a troca de saberes e possibilidades encontradas pela população Dessa forma ao entrar na comunidade e ampliar a pro posta de intervenção saindo do local de transmitir conhe cimento e adotando a postura de um diálogo aberto com a comunidade de modo a integrála às ações todas as inter venções foram pensadas de modo a respeitar cultura regras crenças e modo de funcionar de cada comunidade partindo de uma abordagem que reconhece e respeita a diversidade cul tural e de conhecimentos Pois como assegura Góis 2003 p 280 na psicologia co munitária há o reconhecimento da capacidade do indivíduo e da própria comunidade de serem responsáveis e competentes na cons trução de suas vidas bastando para isso a existência de certos processos de facilitação social baseados na ação local e na cons cientização Caravana da Cidadania Camila Santos et al 279 Nessa perspectiva a cada ação foram incorporados ele mentos característicos da cultura local elementos esses apre sentados pelos atores locais e que por tantas vezes além do caráter educativo foram capazes e responsáveis por atrair ou tros tantos moradores para a ação trazendo para esta um mo vimento próprio e único Esse modo de intervenção adotado pelo Projeto junto à comunidade foi recebido de forma positiva pelos moradores que sinalizaram a importância de entrar em contato com a realidade local ao se trabalhar a demanda comunitária de modo dialogado Assim jovens que participaram da ação informaram Essa parceria com o Programa Diálogos Suape a gente achou bem legal pelo fato de a gente ser estudante e poder fazer parte da sociedade que querendo ou não convive com tudo isso e participar foi uma ótima oportunidade para a gente conhecer e ao mesmo tempo mostrar também a opinião da gente Do mesmo modo profissionais de dispositivos locais também deixaram seu recado Foi ótima essa parceria com o Programa Diálogos Suape por que eles vieram com uma proposta muito boa que a gente já pensou em fazer mas nunca realizou e essa parceria foi pri mordial para que pudesse acontecer a ação de prevenção à saú de sexual do jovem A gente acredita que as atividades que a gente faz são ferramentas para chamar a atenção da população pra que a gente possa trabalhar os temas específicos que a gente quer levar para a população e o meio que a gente usa são as atividades culturais com a juventude Foi valorizado assim o método de aproximação dos ato res sociais da proposta interventiva Há também o depoimen to do transeunte que viu o movimento acontecendo parou para saber o que é e logo contribuiu Vou ficar e esperar a 280 POSSIBILIDADES apresentação de Bboy Vi o tapete no chão e resolvi dar uma sacada É assim que deve ser Você traz a sua informação e va loriza o que é da gente sinalizando a importância de inserir cultura local em ações como a Caravana da Cidadania enri quecendo essa alternativa metodológica que adota uma pos tura aberta ao diálogo Desse modo a Caravana da Cidadania ao facilitar o de senvolvimento do protagonismo social respeitar e incorporar a cultura local às ações aprende um novo jeito de pescar o peixe em que não se tem um único recurso sendo este cons truído a partir dos saberes e das vivências locais Cada indivíduo é capaz de construir sua rede de pesca e é desse modo participativo que se torna espontâneo e singular o processo de mobilizar as comunidades e instrumentalizar profissionais acontecendo a promoção da saúde o combate à violação dos direitos ficando claro que a ação mesmo facili tada pelo Programa Diálogos Suape só ocorre com o envolvi mento efetivo das comunidades que multiplicam o potencial de desenvolvimento social Referências CANGUILHEM G O que é a psicologia In Pensamento político contem porâneo Rio de Janeiro Departamento de Filosofia da PUCRio sd Disponível em httpgeocitiesyahoocombrguaikuru0003oquepsi htmlftnref2 Acesso em 25 maio 2011 CARRAZZONE V SANTOS C QUEIROZ T RIOS L F NUNES R OLIVEIRA E S DIEHL R Caravana da Cidadania mobilização popu lacional por cidadania e saúde em SuapePE In RIOS L F QUEIROZ T LINS M B OLIVEIRA C Org Diálogos para o desenvolvimento social em contextos de grandes obras a experiência do Programa Diálogos Suape Recife EdUFPE 2015 Caravana da Cidadania Camila Santos et al 281 COMPLEXO INDUSTRIAL E PORTUÁRIO O que é Suape sd Dispo nível em http wwwsuapepegovbrinstitutionalinstitutionalphp Acesso em 18 ago 2014 CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA 2a Região III Seminário de Di reitos Humanos Direitos Humanos pra quem Recife Edupe 2007 GÓIS C W L Psicologia comunitária Universitas ciências da saúde Bra sília v 1 n 2 2003 Disponível em httpwwwpublicacoesacademicas uniceubbrindexphpcienciasaudearticleview511332 Acesso em 2 jul 2014 GONÇALVES M A PORTUGAL F T Alguns apontamentos sobre a tra jetória da Psicologia social comunitária no Brasil Psicol Cienc Prof Bra sília v 32 número especial 2012 Disponível em httpwwwscielobr scielophpscriptsciarttextpidS141498932012000500010lngpt nrmiso Acesso em 3 jul 2014 MACHADO L D LAVRADOR M C C BARROS M E B de Org Tex turas da psicologia subjetividade e política no contemporâneo São Paulo Casa do Psicólogo 2001 NOVARA E Promover os talentos para reduzir a pobreza Estud Av São Paulo v 17 n 48 ago 2003 Disponível em httpwwwscielobrscielo phpscriptsciarttextpidS010340142003000200009lngptnrmi so Acesso em 3 jul 2014 PEREIRA E Tecendo diálogos entre socionomia e psicologia comunitá ria Rev Bras Psicodrama São Paulo v 17 n 1 2009 Disponível em http pepsicbvsaludorgscielophpscriptsciarttextpidS01045393200900 0100006lngptnrmiso Acesso em 3 jul 2014 RAMOS C CARVALHO J E C de Espaço e subjetividade formação e intervenção em psicologia comunitária Psicol Soc Porto Alegre v 20 n 2 ago 2008 Disponível em httpwwwscielobrscielophpscriptsci arttextpidS010271822008000200004lngptnrmiso Acesso em 5 jul 2014 282 POSSIBILIDADES RIOS L F Indisciplina apontamentos de um etnopsicólogo clínico so bre as políticas do saber no campo psi e adjacências In MEDRADO B GALINDO W Org Psicologia social e seus movimentos 30 anos de Abrapso Recife AbrapsoUFPE 2011 p 295316 SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚ BLICA Programa Nacional de Direitos Humanos PNDH 3 Brasília SEDH PR 2010 Sobre os autores Alessandro de Oliveira dos Santos Mestre e doutor em Psicologia professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo USP e pesquisador do Núcleo de Estudos e Prevenção da Aids Ne paids da USP Tem experiência na produção de materiais teóricos e técnicos sobre promoção de direitos e prevenção às DSTsAids e ao uso abusivo de álcooldrogas Contato alosuspbr Amanda K C Guedes Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Foi estagiária no Programa de Edu cação pelo Trabalho para a Saúde PET SaúdeRedes trabalhando com a perspectiva de pesquisaintervenção na temática de prevenção às doenças crônicas Participou do Projeto de Extensão Palhaçotera pia Perto da UFPE e integrou a equipe Chá de Damas do Progra ma Diálogos Suape Contato amandacavalcantighotmailcom Ana Carolina Cordeiro Mestranda em Antropologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Formada em bacharelado no curso de Ciências Sociais pela UFPE Participa do Núcleo de Pesqui sas Família Gênero e Sexualidade Fages e também é vinculada ao Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato anacarola6hotmailcom Ana Letícia Veras Graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE com grande interesse por antropo logia social compondo o Grupo de Estudos sobre Saúde Indígena que integra o Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Etnicidade desen volvendo pesquisa na área de meio ambiente saúde e etnodesenvol vimento Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato analeticiaverasgmailcom Ana Luísa Cataldo Graduada em Psicologia pela Universidade Fe deral de Alagoas Ufal mestranda em Psicologia pelo Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambu 284 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA co UFPE e pesquisadora do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê nero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato analuisacataldosgmailcom Andréa Paula da Silva Graduanda em Psicologia pela Universida de Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Anna de Cássia P de Lima Graduanda em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saú de Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Benedito Medrado Doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUCSP Atualmente é pro fessor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco UFPE vinculado aos cursos de graduação e pósgraduação em Psicologia e colaborador do Programa de Pósgraduação em Estudos sobre a Mulher da Universidad de Valência Espanha Desenvolve projetos que aliam ensino pesquisa e extensão em temas relativos a gênero saúde e sexualidade É líder do Grupo de Estudos sobre Masculinida des GemaUFPE e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq Coordenou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Tra balhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato beneditomedradogmailcom Camila Santos Psicóloga e terapeuta comunitária em formação Participou de projetos sociais atuando com população em situação de vulnerabilidade assim como do projeto Escola Legal do Governo Federal atuando como mediadora em escolas públicas Integrou a equipe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Con tato camilasantoscbsyahoocombr Sobre os autores 285 Cinthia Oliveira Doutoranda do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC É graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE mestra em Psicologia pelo Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Sexualidade Humana UFPE e do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens da UFSC Integrou a equipe Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato cinthiaopsigmailcom Claudemir Silva Filho Graduando em Psicologia pela Universi dade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Cristiano C Ferreira Graduando do curso de Pedagogia da Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e aluno integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa em Linguagem Leitura e Letramento Gepelll Participa do Coletivo de Diversidade Sexual e de Gênero Além do Arcoíris É pesquisador nas áreas de diversidade sexual e de gênero e cultura africana Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato chryscavalcantegmailcom Daniel K dos Santos Doutorando do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC e pesquisador do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Rela ções de Gênero Margens Contato dakerrygmailcom Danielly Spósito Doutora em Estudos de Gênero pela Universida de de Valência Espanha e assistente social do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Pernambuco IFPE vinculada ao curso de graduação da Faculdade Anchieta do Recife e ao curso de pósgraduação da Universidade Católica de Pernambuco Unicap Concluiu Serviço Social pela Unicap É mestra em Educação Brasilei ra pela Universidade Federal do Ceará UFC em Gênero e Políticas de Igualdade Coordena o Grupo de Pesquisa e Estudos de Políticas 286 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Públicas Gestão e Avaliação do IFPE e compõe o Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidade da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato danyspositogmailcom Dayse A dos Santos Graduada em Ciências Sociais mestra e dou tora em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Atualmente realiza estagio pósdoutoral no Programa de Pósgraduação em Antropologia da UPFE no qual atua como pes quisadora do Núcleo de Família Gênero e Sexualidade Fages Douglas B de Oliveira Graduando do curso de Psicologia pela Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e estagiário no Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco lotado na Vara de Infância e Juven tude da comarca de Jaboatão dos Guararapes Integrou o Laboratório de Interação Social Humana LabInt do Departamento de Psicologia da UFPE pesquisando as representações sociais sobre a gravidez na adolescência Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálo gos Suape Contato psychodog7hotmailcom Flávia Lucena Jornalista coordenadora do projeto Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape e integran te da equipe de coordenação de projetos do Centro das Mulheres do Cabo Contato flaviamlucenaigcombr Felipe Alves Graduando em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE Compõe a equipe do Núcleo Feminista de Pes quisas em Gênero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe de estagiários do projeto Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Gabriela A Diaz Graduada em Psicologia pela Universidade do Vale do Itajaí Univali e mestra em Psicologia pela Universidade Fe deral de Santa Catarina UFSC Atualmente é doutoranda em Psi cologia pela UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato gavypsi yahoocombr Sobre os autores 287 Gabriela Cordeiro Mestranda em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE graduada em Psicologia pela UFPE e pesquisadora associada ao Núcleo Feminista de Pesquisas em Gê nero e Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato gabrielaregina88hotmailcom Jaileila Menezes Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ professora adjunta da Universidade Fede ral de Pernambuco UFPE e pesquisadora vinculada ao Programa de pósgraduação em Psicologia da UFPE orientando dissertações e teses na linha de pesquisa Processos Psicossociais Poder e Práticas Coletivas Pesquisa as temáticas participação política juventude e projeto de vida movimentos sociais Integra o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Poder Cultura e Práticas Coletivas Gepcol Coorde nou as equipes Chá de Damas e Ação Juvenil do Programa Diálo gos Suape Contato jaileilaaraujogmailcom Jorge Lyra Professor dos cursos de Graduação e Pósgraduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco UFPE Psicólo go e graduado em Psicologia pela UFPE mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUCSP e doutor em Ciências Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz Fiocruz Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães CPqAMNúcleo de Estudos em Saúde Coletiva Nesc com estágio de doutorando no exterior PDDECapes na Universidad Autonoma de Barcelona É líder do Núcleo Feminista de Pesquisas em Gênero e Masculinidades Gema UFPE Coordenou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato jorglyragmailcom Karla Galvão Adrião Psicóloga mestra em Linguística pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e doutora em Ciências Huma nas com área de concentração em estudos de gênero pela Universidade Federal de Santa Catarina DICHUFSC É professora do Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE e pesquisadora do Labora tório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU e do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens 288 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA Coordenou as equipes Chá de Damas e Ação Juvenil do Programa Diálogos Suape Contato galvaoadriaogmailcom Luís Felipe Rios Psicólogo pela Universidade Federal de Pernambu co UFPE mestre em Antropologia pela UFPE e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro Uerj Atual mente é professor associado I da UFPE coordenador do Programa de Pósgraduação em Psicologia e líder do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU É bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq Coordenou o Programa Diálogos Suape Contato lfeliperiosgmailcom Marcelo Peixoto Arteeducador do movimento de luta contra a Aids Atua com formação de profissionais e multiplicadores comuni tários em promoção de saúde sexual masculina e prevenção do HIV DSTshepatites Produziu diversos materiais educativos Contato marcelopeixoto1950hotmailcom Maria Aparecida Araujo Santos Graduada em Administração de Empresas Integrante da equipe de educadoras do Centro das Mulhe res do Cabo Educadora do projeto Mulheres e Educação para Cida dania do Programa Diálogos Suape Contato cidamulheresdocabo orgbr Maria Betânia Lins Graduada em Psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas Esuda Especialista em Atenção e Promoção da Saúde da Família nos Aspectos Psicossociais pela Faculdade Paula Frassinette Fafire Tem formação em socioeducação pela Faculdade Mauricio de Nassau relações interpessoais pela Funase e gestão em pessoas pela UFPE Atuou como psicóloga na Prefeitura Municipal do Cabo de Santo Agostinho Secretaria de Promoção Social e da Mu lher no Centro de Referência Assistência Social Cras Integrou as equipes Conhecer o Território e Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato mbelamorimhotmailcom Maria Juracy F Toneli Professora titular do Departamento de Psi cologia e do Programa de Pósgraduação em Psicologia da Universi dade Federal de Santa Catarina UFSC Bolsista de produtividade do CNPq Graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Sobre os autores 289 Gerais UFMG mestra em Educação pela UFSC e doutora em Psi cologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo USP Realizou pósdoutorado pela Psicologia Social na UFMG e na Universidade do MinhoPortugal É coordenadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato juracytoneligmailcom Marília dos S Amaral Mestra em Psicologia pela Universidade Fe deral de Santa Catarina UFSC e graduada em Psicologia pelo Cen tro Universitário Franciscano É doutoranda do Programa de Pósgra duação em Psicologia da UFSC e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Modos de Vida Família e Relações de Gênero Margens Contato mariliapsicohotmailcom Michael Machado Professor assistente I em Saúde Coletiva na Universidade Federal do Piauí UFPI psicólogo pela Universidade Federal de Alagoas Ufal mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE e pesquisador do Núcleo de Estu dos em Saúde Pública NespUFPICampus Parnaíba Tem experi ência na área de saúde pública com ênfase em gênero Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Programa Diálogos Suape Contato michael mmachadogmailcom Nivete Azevedo Graduada em Geografia É coordenadorageral do Centro das Mulheres do Cabo Contato nivetemulheresdocabo orgbr Rafael de F D Acioly Mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE e graduado em Ciências Sociais pela UFPE Atualmente exerce a função de educador social no Instituto Papai e tem experiência na área de antropologia com ênfase em teoria da antropologia metodologia sexualidade gênero geração saúde e corpo Contato aciolyrafaelgmailcom Regina Figueiredo Doutoranda em Saúde Pública pela Universi dade de São Paulo USP socióloga e mestra em Antropologia da Saúde pela USP Pesquisadora científica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo membro do Núcleo 290 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA de Estudos para a Prevenção da Aids NepaidsUSP articuladora nacional da Rede Brasileira de Informações e Disponibilização da Contracepção de Emergência Rede CE e membro do Consórcio La tinoamericano de Anticoncepción de Emergencia Clae Contato reginafigueiredouolcombr Renata E de S Nunes Psicóloga especialista em avaliação e reabi litação neuropsicológica e em neuropsicologia da educação pelo Pro grama de Pósgraduação da Faculdade de Ciências Humanas Esuda Tem experiência nas áreas de psicologia clínica escolar social comu nitária e avaliação e reabilitação neuropsicológica Integrou a equi pe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato renataeshotmailcom Rocio del Pilar Bravo Shuña Mestra em Psicologia integrante do Laboratório de Estudos de Sexualidade Humana LabESHU da Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e graduada em Psicologia pela Faculdade de Psicologia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos em Lima Peru Atua principalmente nos seguintes temas estudos de gênero políticas públicas juventude direitos sexuais e re produtivos Integrou a equipe Ação Juvenil do Programa Diálogos Suape Contato rociodelpilarbravogmailcom Rosangela S de Souza Mestra em Antropologia Tem experiência na área de ciências sociais com ênfase em antropologia família gênero e sexualidade É pesquisadora do Núcleo de Família Gênero e Sexualida de Fages do Programa de Pósgraduação em Antropologia da UFPE Russell P Scott Professor titular de Antropologia do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernam buco UFPE graduado em Línguas Contemporâneas concentração Espanhol pelo Hamilton College mestre em Latin American Studies pelo Institute of Latin American Studies da University of Texas em Austin e doutor em Antropologia pela University of Texas Já passou temporadas como professor e pesquisador visitante nas Universida des de Georgetown 19841985 Harvard 19911993 e Salamanca 20062007 É líder do Núcleo de Família Gênero e Sexualidade Fa Sobre os autores 291 ges do Programa de Pósgraduação em Antropologia da UFPE Con tato rparryscottgmailcom Sarana M de S Santos Graduanda no curso de Psicologia pela Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE e integrante do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU pesquisando sobre a homofobia e processos de subjetivação na comunidade homossexual do Recife Integrou a equipe Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato saranasantoshotmailcom Sirley Vieira da Silva Mestre em Antropologia pelo Programa de Pósgraduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernam buco UFPE graduado em Ciências Sociais pela Universidade Fede ral Rural de Pernambuco UFRPE e professor da Pósgraduação em Saúde Pública Saúde Mental e Dependência Química da Faculdade de Ciências Humanas Esuda Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Terceirizadas do Progra ma Diálogos Suape Contato sirleyvieiragmailcom Tacinara N de Queiroz Doutoranda em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE e mestra em Psicologia pela UFPE Pesquisa temas como sexualidades infância e juventude tec nologias da informação e comunicação processos psicossociais po der e práticas coletivas É pesquisadora do Laboratório de Estudos da Sexualidade Humana LabESHU Integrou as equipes Ação Juve nil Caravana da Cidadania e Observatório Suape do Programa Diálogos Suape Contato tacinqhotmailcom Talita Rodrigues Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE integrando o Grupo de Estudos sobre Masculinidades GemaUFPE Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Conta to taliguesgmailcom Telma Low Psicóloga pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE especialista em Psicologia Social Comunitária mestra em Género y Políticas de Igualdad e doutora em Estudios de Género 292 CONTEXTOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA PESQUISAINTERVENÇÃOPESQUISA ambos os cursos vinculados ao Institut Universitari dEstudis de la Dona da Universitat de València Espanha Atualmente é professora adjunta do curso de Psicologia da Universidade Federal de Alagoas Ufal Integrou a equipe Mulheres e Educação para Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato telmalowgmailcom Tulio Quirino Graduado em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco Univasf e mestre em Psicologia pela Univer sidade Federal de Pernambuco UFPE Atualmente é doutorando do Programa de Pósgraduação em Psicologia da UFPE Integrou a equipe Homens Gênero e Saúde Diálogos com os Trabalhadores das Tercei rizadas do Programa Diálogos Suape Contato trlquirinogmailcom Verônica Carrazzone Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE graduada em Psicologia e em Educa ção Artística pela UFPE especialista em Psicologia Escolar e Clínica Infantil e terapeuta comunitária pela Universidade Federal do Ceará UFC Atualmente é vicepresidente da ONG Espaço Família mem bro da Diretoria da Associação Brasileira do Ensino da Psicologia Abep colaboradora da comissão de Educação do CRP 02 professora e coordenadora de curso de graduação em Psicologia pesquisadora na área de violência organização social e assentamento rural com atua ção na área de psicologia escolar clínica e social comunitária Faz parte da Conexão de Saberes MECUFPE e do Gerenciamento das Ações da Reforma Agrária MDAIICA Coordenou a equipe Caravana da Cidadania do Programa Diálogos Suape Contato vecazbolcombr Wedna C M Galindo Psicóloga mestra em Sociologia e doutora em Psicologia Clínica Desenvolve atividades como docente na Uni versidade Federal de Pernambuco UFPE Acumula experiências de trabalho com psicologia em diversos campos psicoterapia em con sultório particular assessoria a pesquisas unidades de saúde do Sis tema Único de Saúde SUSRecife assessoria a movimentos sociais Integrou a equipe do Chá de Damas do Programa Diálogos Suape Contato wednagalindogmailcom Crescimento Econômico Cidadania Saúde Contextos desafios e possibilidades da pesquisaintervençãopesquisa em direitos sexuais e reprodutivos é o quarto livro da série Gênero Sexualidade e Di reitos Humanos publicada pelo Laboratório de Estudos da Se xualidade Humana Os textos aqui reunidos apresentam as possi bilidades desafios e limites da pesquisaintervençãopesquisa no campo da promoção da saúde e cidada nia por meio de um uso consistente de gênero e sexualida de como conceitos capazes de ao mesmo tempo analisar a realidade social e melhor qualificar o marco normativo dos direitos sexuais e reprodutivos Realização Apoio