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Ciências Sociais ·

Políticas Públicas

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Universidade Federal de São Carlos UFSCar Centro de Educação e Ciências Humanas CECH Departamento de Ciências Sociais DCSo Prova de Políticas Públicas 0608082024 Profa Dra Carolina Raquel Duarte de Mello Justo Cars aluns Leiam com atenção o que está sendo pedido em cada uma das questões e atenhamse a isso ao respondêlas O objetivo da prova é avaliar se vocês compreenderam o cerne das argumentações das e dos autores estudados se desenvolveram a capacidade de dissertar sobre elas de forma coerente se apreenderam os principais conceitos concepções teóricas e modelos analíticos para análise de políticas públicas A prova é constituída de quatro questões cujo valor avaliativo é o mesmo e encontrase entre parênteses Há ainda duas questões bônus uma das quais poderá ser escolhida e respondida e cuja nota poderá ser somada à nota da prova Procurem ser sintéticos e objetivos e atentem para a análise mais que à descrição Calculem o tempo para responder a cada questão Boa prova 1 A partir dos textos de Gabriela Lotta e Sandra Gomes disserte sobre formulação e implementação de políticas públicas 25 2 Defina insulamento da burocracia e burocracias do nível da rua e disserte sobre o papel das instituições e burocracias para as políticas públicas 25 3 Como mudam as políticas públicas Explique com base nos argumentos sobre mudança institucional e cognitiva 25 4 Caracterize os modelos ou regimes políticos do Welfare State segundo Esping Andersen e discuta com base neles sobre a história do sistema de proteção social brasileiro 25 Questõesbônus 5 Apresente e caracterize quatro modelos de análise de políticas públicas segundo Celina Souza 20 OU 6 Apresente e caracterize quatro indicadores de avaliação de processos ou implementação de políticas públicas segundo Sônia Draibe 20 1 A formulação e implementação de políticas públicas são processos complexos e interdependentes que envolvem múltiplos atores e contextos conforme destacado por Gabriela Lotta e Sandra Gomes Ressaltase que a formulação de políticas públicas referese à fase em que se definem os problemas a serem solucionados e as ações a serem tomadas para enfrentar esses problemas Esse processo muitas vezes é marcado por disputas entre diferentes interesses e visões de mundo exigindo negociações e compromissos entre os diversos atores envolvidos Sandra Gomes enfatiza a importância do desenho institucional nesse processo destacando como diferentes arranjos institucionais podem influenciar os resultados das políticas públicas Ela argumenta que a forma como as instituições são configuradas pode determinar a eficácia da implementação de uma política uma vez que essas instituições definem as regras do jogo e os incentivos para os atores envolvidos Dessa forma a formulação das políticas não pode ser vista de forma isolada mas deve ser analisada em conjunto com as condições institucionais e os recursos disponíveis para sua implementação Por outro lado Gabriela Lotta traz à tona a importância da fase de implementação destacando que essa é a etapa em que as políticas são de fato concretizadas O seu livro foca mais neste ponto tendo como escopo principal demonstrar a subestimação desta fase tentando superála Ela discute como a implementação não é um processo linear e automático mas envolve interpretações e adaptações das diretrizes estabelecidas na fase de formulação Lotta destaca o papel central dos burocratas de nível de rua que são os responsáveis por transformar as diretrizes abstratas em ações concretas Esses profissionais muitas vezes exercem um alto grau de discricionariedade tomando decisões que podem alterar significativamente os resultados esperados das políticas públicas Lotta também discute o conceito de discricionariedade que se refere ao grau de autonomia que esses burocratas possuem para interpretar e aplicar as políticas Essa discricionariedade pode ser vista tanto como uma oportunidade para adaptação criativa às realidades locais quanto como um risco de distorção dos objetivos originais Portanto a implementação das políticas públicas na visão de Lotta deve ser analisada como um processo dinâmico e complexo onde as interações entre os diversos agentes envolvidos são determinantes para o sucesso ou fracasso das políticas Assim verificase que os estudos de ambas as autoras se complementam focando em diferentes fases do ciclo das políticas públicas No mais os estudos demonstram como a formulação e a implementação das políticas são fases que conversamse constantemente entre si exigindo a articulação de vários atores sociais o que influencia diretamente no sucesso da política em si 2 O insulamento da burocracia se refere à criação de uma barreira institucional que protege os burocratas de pressões políticas externas permitindo que eles atuem de forma mais técnica e menos sujeita a influências partidárias ou populistas Esse conceito está relacionado à busca por uma burocracia profissionalizada e meritocrática onde os servidores públicos têm estabilidade e autonomia para tomar decisões baseadas em critérios técnicos ao invés de interesses políticos Além disso esse insulamento pode ser visto como uma forma de garantir a continuidade e a consistência das políticas públicas independentemente das mudanças de governo Noutro lado as burocracias de nível de rua dizem respeito a um conceito introduzido por Michael Lipsky e se referem aos funcionários que operam na linha de frente da implementação das políticas públicas interagindo diretamente com os cidadãos Esses profissionais como policiais professores e assistentes sociais desempenham um papel crucial na materialização das políticas públicas pois são eles que traduzem as diretrizes gerais em ações concretas Ou seja são os burocratas que atuam de forma mais ativa e mais próxima da política pública que está sendo implementada vendo em primeira mão quais os reflexos causados na sociedade Outrossim as instituições e burocracias assim como discorre amplamente Sandra Gomes em sua obra são elementos que se conectam a todos os momentos sendo as instituições dependentes das burocracias no que tange à implementação de políticas públicas Primeiramente o desenho institucional conforme destacado por Sandra Gomes molda significativamente a maneira como as políticas são formuladas e implementadas Assim um arranjo institucional bem estruturado pode facilitar a coordenação entre diferentes níveis de governo e setores da sociedade promovendo uma implementação mais eficaz e alinhada aos objetivos das políticas As burocracias especialmente as de nível de rua representam a face do Estado para a população e são vitais na transformação das políticas em benefícios tangíveis para os cidadãos A maneira como essas burocracias operam e são estruturadas determina em grande parte o sucesso ou fracasso das políticas públicas Ou seja a formulação e a implementação de políticas públicas não podem ser vistas como processos isolados mas como interações complexas entre o desenho institucional o insulamento burocrático e a atuação das burocracias de nível de rua Cada um desses elementos contribui para a construção de políticas públicas mais eficazes e que realmente atendam às necessidades da sociedade 3 Com relação às mudanças institucionais tratamse das transformações que ocorrem nas estruturas e regras que governam a formulação e a implementação das políticas públicas De acordo com a teoria institucional as instituições são compostas por regras formais leis regulamentos e informais normas valores que moldam o comportamento dos atores envolvidos As políticas públicas mudam portanto quando essas regras são alteradas seja por meio de reformas legislativas novas regulações ou mudanças no arranjo de poder entre os diferentes atores políticos e sociais A mudança cognitiva por outro lado foca nas transformações nas ideias percepções e entendimentos dos atores que participam do processo de políticas públicas Esta perspectiva enfatiza que as políticas mudam não apenas porque as instituições mudam mas porque os atores envolvidos começam a ver o mundo de forma diferente A mudança cognitiva pode ocorrer através de processos de aprendizagem onde novos conhecimentos e informações levam à reavaliação das crenças e suposições que sustentam as políticas públicas existentes 4 EspingAndersen propôs uma tipologia dos regimes de Welfare State que se tornou amplamente reconhecida na literatura sobre o tema classificandoos em três modelos principais O primeiro deles é o regime liberal caracterizado por um papel limitado do Estado na provisão de bemestar social onde os benefícios são modestos e geralmente restritos àqueles identificados como pobres Nesse modelo o mercado desempenha um papel central incentivando a dependência de serviços e seguros privados Já o segundo modelo é o regime conservadorcorporativo que se distingue por um forte papel do Estado na provisão de bemestar mas com o foco na preservação das diferenças sociais preexistentes Nesse caso os benefícios são distribuídos de acordo com a posição ocupacional reforçando a estratificação social Além disso a família desempenha um papel crucial na provisão de cuidados com uma ênfase na manutenção dos valores tradicionais Países como Alemanha Áustria e França são exemplos desse modelo que busca equilibrar a proteção social com a manutenção das hierarquias sociais e de mercado Por fim o terceiro modelo conhecido como regime socialdemocrata é predominante nos países nórdicos e se caracteriza por uma intervenção estatal robusta e universalista Nesse regime todos os cidadãos têm direito a benefícios generosos e serviços sociais independentemente de sua posição no mercado de trabalho Há um forte compromisso com a igualdade social sendo que o objetivo é minimizar as desigualdades de renda e garantir altos níveis de bem estar para todos No contexto nacional há algumas peculiaridades em que pese também haver forte influência nas tipologias de Anersen A história do sistema de proteção social brasileiro embora distinta reflete influências dos diferentes regimes descritos por EspingAndersen mas também apresenta características únicas Inicialmente o sistema brasileiro foi estruturado sob influência do modelo conservadorcorporativo especialmente durante o governo de Getúlio Vargas na década de 1930 Inspirado pelo modelo europeu particularmente o alemão o sistema brasileiro atendeu primeiramente a segmentos específicos da sociedade como trabalhadores urbanos formais por meio de benefícios previdenciários e sociais atrelados à ocupação Isso resultou em políticas sociais fragmentadas que contribuíram para a consolidação de uma sociedade estratificada onde apenas alguns grupos tinham acesso a determinados benefícios Essa fase inicial criou uma forte vinculação entre trabalho formal e direitos sociais deixando grande parte da população especialmente trabalhadores rurais e informais sem proteção social adequada A cidadania social plena era portanto limitada com direitos profundamente entrelaçados ao mercado de trabalho formal A partir da década de 1980 com o processo de redemocratização o Brasil começou a ampliar seu sistema de proteção social A Constituição de 1988 marcou um ponto de inflexão nesse processo introduzindo princípios universalistas na saúde e na assistência social inspirados pelo modelo social democrata A criação do Sistema Único de Saúde SUS e políticas como a Assistência Social representaram um esforço significativo para desmercantilizar o bemestar e oferecer proteção social a todos os cidadãos independentemente de sua vinculação ao mercado de trabalho Além disso a inclusão de trabalhadores rurais no sistema previdenciário e a criação de programas como o Bolsa Família indicam uma tentativa de expandir a proteção social para além dos limites tradicionais do trabalho formal movendose em direção a um modelo mais universalista Contudo apesar desses avanços o sistema de proteção social brasileiro ainda enfrenta desafios que refletem a persistente influência do modelo conservador corporativo como a segmentação dos benefícios previdenciários e as desigualdades regionais e de classe Nos últimos anos as pressões para a contenção dos gastos sociais e as reformas que visam limitar a generosidade dos benefícios especialmente na previdência indicam uma possível retração para um modelo mais próximo do regime liberal onde o mercado e a responsabilidade individual ganham destaque em detrimento da intervenção estatal Ou seja em que pese haver uma preocupação com o bemestar social as políticas públicas brasileiras não alcançaram ainda um modelo específico das tipologias estabelecidas pelo autor Há na verdade um hibridismo entre todas elas 5 Celina Souza apresenta e caracteriza quatro modelos de análise que são amplamente utilizados para entender e estudar o processo de formulação implementação e avaliação de políticas públicas O modelo de ciclo de políticas públicas é um dos mais tradicionais e amplamente utilizados Ele propõe que o processo de políticas públicas pode ser dividido em várias fases ou etapas como a identificação do problema a formulação de alternativas a tomada de decisão a implementação e a avaliação Esse modelo é útil para organizar o estudo das políticas públicas de maneira sistemática permitindo que se identifiquem os principais desafios e oportunidades em cada fase No entanto uma crítica comum a esse modelo é que ele pode simplificar excessivamente o processo ignorando a complexidade e as interações dinâmicas que ocorrem na prática Outro modelo importante é o modelo do incrementalismo proposto por Charles Lindblom e aprofundado por outros autores incluindo Celina Souza Esse modelo argumenta que as políticas públicas raramente resultam de grandes mudanças ou decisões radicais Em vez disso elas geralmente evoluem de maneira incremental com pequenas modificações sendo feitas com base nas políticas existentes Esse modelo reflete a realidade de que os tomadores de decisão muitas vezes preferem mudanças graduais que são menos arriscadas e mais facilmente aceitas pelos diferentes atores envolvidos O incrementalismo enfatiza a importância de negociações e compromissos entre os atores políticos mas também pode ser criticado por ser conservador e por manter o status quo limitando a possibilidade de inovações significativas O modelo de coalizão de defesa é outro modelo relevante destacado por Souza Desenvolvido por Paul Sabatier e Hank JenkinsSmith esse modelo sugere que as políticas públicas são influenciadas por coalizões de atores que compartilham crenças e valores semelhantes Essas coalizões lutam para promover suas preferências políticas e influenciar o processo de formulação de políticas ao longo do tempo O modelo de coalizão de defesa é particularmente útil para entender como as políticas podem se manter estáveis ou mudar em contextos onde há intensa competição ideológica e política Ele destaca a importância das crenças e dos valores na formação de políticas e na luta entre diferentes grupos para moldar os resultados políticos Finalmente o modelo do equilíbrio pontuado proposto por Frank Baumgartner e Bryan Jones argumenta que as políticas públicas são caracterizadas por longos períodos de estabilidade ou seja de mudanças incrementais intercalados por breves períodos de mudança radical ou disruptiva Este modelo sugere que as políticas públicas podem passar por um período de estagnação até que ocorra uma crise ou mudança significativa no ambiente político econômico ou social que desencadeia uma reavaliação das políticas existentes e leva a mudanças substanciais O modelo do equilíbrio pontuado é eficaz para explicar como mudanças políticas significativas podem ocorrer de repente após anos de estabilidade e ajuda a identificar os fatores que podem desencadear essas mudanças