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Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 13 HANS JONAS UMA PROPOSTA ÉTICA À CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA Hans Jonas an ethical proposal to technological civilization Raimunda Diva de Vasconcelos Ribeiro 1 Resumo Este artigo discute a crítica de Hans Jonas ao uso da técnica afastada da racionalidade moral bem como a proposta ética por ele apresentada que tem como máxima a inclusão da técnica e da natureza na reflexão moral À luz da ética da responsabilidade serão analisadas duas questões Por que Jonas afirma ser a ética tradicional como a kantiana por exemplo incapaz de mediar a relação homemnaturezatécnica A reflexão moral jonasiana possibilita ao homo tecnologicus uma conduta ética viável em relação à natureza e à técnica Palavraschave Hans Jonas ética responsabilidade natureza técnica Abstract This paper discusses Hans Jonass criticism to the use of technique apart from moral rationality as well as his ethical proposal that is based on the inclusion of technology and nature in moral reflection Two questions were examined according to the ethics of responsibility Why does Hans Jonas claim to be the traditional ethics like the Kantian one for example unable to mediate the mannaturetechnical relationship Does Jonass moral critique enable the homo tecnologicus to a viable ethical behavior concerning the nature and technique Keywords Hans Jonas ethics responsibility nature technique A técnica e o que ela proporciona encantam cada vez mais a civilização contemporânea Embora esta juntamente com a ciência e outros ramos do saber tenha trazido vários benefícios à humanidade como por exemplo as vacinas não se pode negar que separada da ética desenvolveu os mais diversos meios de dominação do homem sobre a natureza sobretudo no século XX Além do problema ambiental fruto de um desenvolvimento voraz que consome os recursos naturais o homem do século XXI também convive com o vazio ético e o individualismo fatores que agravam ainda mais o risco de acabarmos com a capacidade que a Terra possui de manter a vida Entretanto o ponto mais preocupante em relação à técnica contemporânea está relacionado ao poder de destruição que ela oferece Na Segunda Grande Guerra por exemplo quando o homem sentiu os efeitos da destruição e violência frutos do progresso que vem na esteira da técnica e da ciência a 1 Professora da Escola Superior de Propaganda de Marketing e Doutoranda em Filosofia pela PUCSP Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 14 relação homemnaturezatécnica tornouse um dos eixos centrais da reflexão moral no século XX Um dos principais argumentos daqueles que defendem uma postura biocêntrica para o homem contemporâneo está centrada na responsabilidade que a humanidade deve ter ao utilizar meios que possam colocar em perigo a continuidade da vida na Terra bem como afastar do imaginário humano a certeza que se instalou com o prometeísmo da razão e da tecnociência Embora tenham surgido várias teorias éticas que defendem uma conduta biocêntrica como forma de preservar a vida interessanos discutir a Ética da Responsabilidade do filósofo alemão Hans Jonas por possuir maior destaque entre todas que defendem uma postura biocêntrica para o homem Duas questões serão aqui enfatizadas para entendermos a concepção ética jonasiana Por que Jonas afirma que a ética tradicional2 como a kantiana por exemplo foi considerada incapaz de mediar a relação homemnaturezatécnica A reflexão moral jonasiana possibilita ao homem uma conduta ética viável em relação à natureza e à técnica Indagações como estas serão respondidas com um exame que faremos a seguir da proposta jonasiana contida no livro O princípio responsabilidade ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Jonas desde 1979 dedicouse à análise da civilização tecnológica enfatizando a necessidade do ser humano ter uma responsabilidade metafísica desde que o poder da técnica fez do homem uma ameaça não apenas para a natureza mas para toda a humanidade Segundo Jonas nesse processo de avaliação da conduta ética que o homem deve ter ao usar a técnica três poderes devem ser levados em conta o poder que se tem sobre a natureza o poder que a técnica adquiriu e o poder que é preciso ter sobre a técnica O homem nem sempre viu a natureza apenas como fonte de recursos Na antigüidade ao contrário a natureza era percebida como uma potência superior e seus fenômenos como recompensa ou punição dos deuses O poder e o fazer humanos não ultrapassavam a esfera das relações intersubjetivas e reduziamse ao presente ou seja o bem e o mal da ação permaneciam bem próximos ao tempo da própria ação Conseqüências distantes do agir humano eram relegadas ao acaso ou à providência Em todas as esferas da ética tradicional o agente e o outro da ação partilham um presente comum O universo ético era composto somente por contemporâneos e o seu horizonte futuro confinavase à duração de suas vidas Era em torno deste raio de ação bem próximo que todas as formas do viver e agir 2 Quando nos referimos à ética tradicional estamos tratando especificamente daquelas correntes éticas que têm como foco da reflexão moral somente o homem sem levar em conta a natureza e tudo mais que nela existe Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 15 humano articulavam o que passou a ser um dos traços mais marcantes da ética tradicional Essa ética traz a visão de um homem que vive na esfera da polis e nela cria seus valores para uma vida boa e feliz O homem só precisava prestar contas das suas ações na cidade por ele construída O mundo extrahumano isto é aquilo que fazia parte da techné da capacidade produtiva era eticamente neutro A techné era vista apenas como um tributo determinado pela necessidade do homem e não um progresso que se autojustifica por ser o fim essencial da humanidade em cuja perseguição engajamse o máximo esforço e a participação humana No decorrer da história contudo movido pela eterna necessidade de novas conquistas o homem não vê mais limites à sua frente E é isto exatamente o que mais preocupa na ação humana atual a falta de prudência quando investe contra a natureza Através da tecnociência o homo faber dominou o homo sapiens e passou a introduzir ações inéditas e de grandeza incomensurável na cidade e na natureza Assim vivenciamos hoje graves problemas decorrentes da degradação do meio ambiente Nesse caso se a técnica invadiu a esfera humana e colocou em perigo a natureza e a vida do homem abrese então a perspectiva de uma ética preocupada com o futuro e com a situação limite pela qual passa a humanidade Na visão de Jonas 2006 p39 isso impõe à ética pela enormidade de suas forças uma nova dimensão nunca antes sonhada de responsabilidade Jonas acredita que para reverter esse quadro a ética deverá se preocupar com a irreversibilidade da práxis técnica sua concentração distribuição em séries causais no tempo e no espaço enfim um cenário obscuro e difícil para as questões éticas Tratase de um cenário que se modifica rapidamente e os efeitos se somam de tal modo que as situações para o agir futuro e para os seres posteriores não serão as mesmas que foram para o agente inicial De fato constatase um caráter cumulativo algo que não acontecia no contexto da ética tradicional A importância da humanidade futura para Jonas encontrase na essência intrínseca do Ser ou seja é importante que haja vida autêntica para que esta essência possa continuar a existir Desse modo diferentemente das éticas contemporâneas a ética do futuro segundo Jonas encontra seu princípio na metafísica como doutrina do Ser da qual faz parte a ideia de homem 2006 p 95 Assim Jonas ratifica sua posição contrária à filosofia moral contemporânea que está embasada no sujeito autônomo determinador e responsável por suas próprias leis e que se afastou da metafísica especialmente aquela do mundo anglo saxão Jonas para afastar o subjetivismo e o relativismo propõe uma ética fundada em uma doutrina do Ser uma ontologia Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 16 A justificativa de uma tal ética que não mais se restringe ao terreno imediatamente intersubjetivo da contemporaneidade deve estenderse até a metafísica pois só ela permite que se pergunte por que afinal homens devem estar no mundo Serão retomadas do ponto de vista ontológico as antigas questões sobre a relação entre ser e dever causa e finalidade natureza e valor de modo a fundamentar no Ser para além do subjetivismo dos valores esse novo dever do homem que acaba de surgir JONAS 2006 p 22 O porquê da existência humana em particular a existência das futuras gerações é o cerne da questão a ser resolvida Se a existência humana sempre foi considerada um objetivo primário agora frente aos riscos que a tecnociência oferece passou a ser também objeto do dever Dever esse que ultrapassa a existência do homem no presente chegando até o futuro Desse modo Jonas trata de maneira radical o papel da ética quando discute a tensão entre o Ser e o nãoSer das gerações futuras Os homens do futuro são importantes na medida em que a essência intrínseca do Ser é importante O dever de assegurar a existência da humanidade futura contudo criou um grande abismo entre o saber e o agir tecnológico pois nosso agir tomou tamanho poder e tamanha força que nosso saber ficou incompatível para equilibrar a extensão causal de nossa ação Jonas levanta então um novo questionamento quando aponta para uma modificação não só no cenário extrahumano mas também para uma modificação no conceito do próprio homem que se tornou um efeito causal neste sistema tão grande Ao pensar dessa forma Jonas se aproxima de Heidegger Segundo Heidegger 2006 p 92 o mundo do homem transformouse em um mundo técnico e por isso o homem separouse de sua essência A técnica que na Idade Antiga era um simples meio passou a ser um fim na contemporaneidade e acabou por transformar o próprio homem Diferentemente da Idade Antiga a tecnologia que o homem possui hoje pode colocar em risco todas as formas de vida Em conseqüência desse fato Jonas reavalia a categoria da responsabilidade passando a defender sua interferência em todas as dimensões da vida principalmente no que diz respeito a tudo o que o poder e o querer humanos podem atingir A tendência utópica da técnica deixa a natureza e o homem expostos a riscos antes impensados Por tudo isso o futuro precisaria ser pensado de outra forma baseado em um novo imperativo categórico e em uma responsabilidade que advém do temor pelos efeitos irreversíveis que a técnica poderá trazer em sua esteira tanto para o homem como para a natureza Por isso Jonas pensou um imperativo adaptado ao tempo e às novas exigências do agir humano endereçados aos novos sujeitos de poder e aos que recebem os efeitos das ações que envolvem a tecnologia sempre em constante transformação Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 17 O imperativo categórico jonasiano Com o passar do tempo as definições e fronteiras bem estabelecidas sobre as quais a representação do mundo havia sido construída durante séculos foram quase todas destruídas cedendo lugar a novos paradigmas na filosofia nas artes e na ciência Essas transformações suscitam discussões debates e confrontos de opiniões uma vez que estão em negociação a posição e as relações do homem com a técnica do homem com seu próprio corpo e do homem com a natureza Diante dessa nova configuração do mundo humano Jonas estabelece seu imperativo ético ampliando a categoria responsabilidade ao futuro A expressão imperativo ético remete à ética kantiana e à defesa que ele faz segundo a qual o homem deve agir baseado em máximas que possam ser transformadas em lei universal No entanto o imperativo postulado por Kant 1999 p 65 contempla apenas o homem por ele existir como um fim em si mesmo ou seja que o homem deve sempre agir tendo como fim o próprio homem e o mesmo nunca deverá ser usado como meio para se atingir qualquer objetivo Já os seres extrahumanos não são vistos como fins e sim como meios para o homem e suas realizações Na visão de Kant portanto somente o homem deve ser objeto de respeito por conseguinte os demais seres e a natureza têm apenas um valor relativo como meio para consecução dos objetivos humanos Jonas ao contrário de Kant propõe um agir proporcional ao poder adquirido pelo homem tecnológico Aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra ou expresso negativamente Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida Jonas 2006 p 4748 Daí a modificação da tradicional relação entre poder e deverser moral ou seja do deve portanto pode kantiano para o pode portanto deve jonasiano no qual ao sujeito que age implica uma obrigação objetiva sob a forma de responsabilidade externa Em Kant há uma maximização privada uma autoconcordância do subjetivo com o objetivo quando a máxima subjetiva se transforma em princípio objetivo Ao contrário de Kant o imperativo jonasiano conclama para um outro tipo de concordância não a do ato consigo mesmo mas a dos seus efeitos finais para com a continuidade da atividade humana no futuro E a universalização que ele visualiza não é hipotética isto é a transferência meramente lógica do eu individual para um todos imaginário sem conexão causal com ele se cada um fizesse assim ao contrário as ações subordinadas ao novo imperativo ou seja as ações do todo coletivo assumem a característica de universalidade na medida real de sua eficácia JONAS 2006 p49 Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 18 Compreendese então que éticas como a kantiana por exemplo não contemplam a natureza os seres extrahumanos e a ideia de futuro O futuro encontravase na esfera da religião onde toda conduta do homem no presente era uma preparação para a vida futura mas no reino dos céus Tampouco previram problemas como os advindos da tecnologia porque a techné àquela época não tinha o poder ameaçador e o alcance que a tecnociência adquiriu tornandose capaz de encerrar a possibilidade de um futuro e cegandonos para nossa responsabilidade sobre ele Por isso Jonas coloca o futuro como objeto prioritário da consciência moral devido ao máximo risco que corre hoje a permanência da vida do homem na Terra Na visão de Jonas a ética deve passar a ser pensada do ponto de vista do que pode vir a fazer o homem com a tecnologia A responsabilidade portanto recai e provém simultaneamente do futuro ou melhor dizendo da exigência para que haja um futuro O que não existe ainda passa a exigir uma postura ética no presente assumindo a forma de um imperativo categórico que visa à continuidade da vida na Terra A ética deixa de ser meramente contemporânea fincada no presente Nessa perspectiva novos horizontes são abertos para a ética como responsabilidade com tudo que embora ainda não existente possa ser afetado por nosso agir atual e não mais como indivíduos isolados cuja dimensão ética se dá no agir próximo mas num mundo onde o agir é coletivo e deve estar compromissado com a permanência da vida no presente e no futuro O imperativo jonasiano dirigese à dimensão pública e não somente à ação privada como o kantiano por exemplo A universalização do imperativo da ética da responsabilidade se dá a partir da objetividade da ação coletiva que atinge de maneira dramática toda a vida no planeta Terra O poder adquirido através da técnica e da ciência o vazio ético o niilismo e o materialismo impulsionado pelo exagerado consumismo colocam a sociedade em constante estado de risco Por conseguinte o novo imperativo jonasiano representa uma confissão de respeito e humildade frente a todo o poderio destruidor do homo tecnologicus propondo uma nova conduta que pode contribuir para superar também o relativismo predominante da sociedade contemporânea No entender de Giacóia Júnior 2000 p 200 não nos é lícito sobretudo escolher o não ser das futuras gerações O que propõe Jonas ao homem contemporâneo é a discussão da importância do ser frente ao nãoser e a responsabilidade diante do risco tecnológico da incerteza do futuro com a constante ameaça nuclear Diante deste quadro Jonas indica sempre a precaução a prudência pois a ação do homem deve ser medida em função dos piores Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 19 prognósticos Daí a necessidade na visão de Wolin 2003 p 120 de o homem lembrar que é preciso temer pelo que pode acontecer com a vida em meio a tanto poder alcançado A heurística do temor versus utopias tecnológicas O temor jonasiano advém da utopia que o progresso da técnica gerou ou melhor da ameaça de catástrofe que vem na esteira do êxito excessivo que a técnica atingiu A compulsão desenfreada da tecnociência revela a falta de cuidado com o presente e conseqüentemente com o futuro quando não demonstra preocupação com a natureza humana nem com a extrahumana que há tempos apresentam sinais de exaustão O temor descrito por Jonas não tem a finalidade de paralisar o homem mas o agir egoísta O que ele defende é o temor que desperta a responsabilidade para manter a continuidade da vida Vale ressaltar que o temor jonasiano vem antes do agir é precaução é o instinto de preservação levado a sério Ou seja o temor proíbe a aposta que o homem contemporâneo faz do tudo ou nada nos assuntos da humanidade Mas acima de tudo ele é imperativo recusando o cálculo interessado de perdas e ganhos essa imposição se faz de um dever primário com o Ser em oposição ao nada JONAS 2006 p 87 Jonas justifica seu projeto de reformular a ética em vista da nova e grande ameaça que paira no horizonte humano Esta ameaça entretanto não deve estacionar nem paralisar o homem mas fazer com que ele busque princípios capazes de proteger a continuidade da vida no futuro Segundo Ricoeur 1996 p 230 devese temer os perigos porque eles são possíveis apesar de não prováveis Nesse caso o temor da catástrofe possui um sentido ontológico positivo que emerge da possibilidade do homem destruir a vida humana na Terra O ponto inicial é a constatação da modificação essencial das ações humanas Pela compulsão da técnica o homo sapiens cedeu o seu lugar ao homo faber e por isso segundo Sève 1990 p 61 não podemos prever os efeitos em longo prazo da moderna tecnologia nem sabemos na verdade o que deve ser protegido Entretanto são estas as duas coisas que serão mostradas pela antecipação do perigo pelo temor A técnica idealizada para a felicidade do homem tornouse pela desmesura pelo exagero de seu sucesso que se estende agora igualmente à natureza do próprio homem o maior desafio para o ser humano nunca antes provocado pelo seu agir pelo seu fazer A tecnologia desenvolvese de forma exponencial e o crescimento apresentado pela mesma se reverte em autoproliferação Com esse processo a técnica parece ganhar vida própria tomando o lugar do homem e com isso passa a comandar as ações humanas ou melhor a sua finalidade Esta situação a que chegou o homem com a técnica demonstra ser a materialização do ideal cartesiano e baconiano isto é tudo o que é possível deve ser Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 20 realizado desconhecendo contudo qualquer limite que não seja o da exequibilidade A escalada inelutável da técnica não diz respeito somente à sorte do homem mas igualmente à imagem do homem não só à sobrevivência física sobretudo à integridade de sua essência Portanto a ética que deve assegurar uma e outra deve ser uma ética baseada no princípio responsabilidade E o temor ocupa um papel importante nessa construção ética Nesta perspectiva Jonas insiste que o homem ao atender à dimensão escatológica da tecnologia torna a ética indispensável e obrigatória para qualquer ação responsável Desse modo o temor segundo Jonas evidencia a representação do mal do qual a teoria ética não poderia fugir Ele se torna à primeira obrigação preliminar de uma ética da responsabilidade É do temor fundado que deriva a atitude ética fundamental o respeito repensado a partir da vontade de evitar o pior Tratase então de preservar a integridade do homem Ciente da ameaça inerente a seu poder tecnocientífico poder de dominação e acima de tudo de destruição o homem deve assumir no seu querer o sim geral da natureza pelo fato de que A técnica moderna transcende a racionalidade de fins que deixa de existir para fazer surgir meios que buscam posteriormente os seus fins A transformação da técnica em técnica moderna se dá com esta perda do caráter finalístico da técnica ou melhor com a prevalência da técnica como um meio aberto Assim entramos no mundo do imprevisível onde a trajetória linear está sendo substituída por saltos quânticos onde algo é necessariamente assim mas também poderia ser diferente BRÜSEKE 2002 p 139 Assim sendo desvelase a necessidade do homem pensar nos maus prognósticos com prudência e cautela Jonas considera a prudência porque ela revela o acaso realça a possibilidade do risco da incerteza coisas que permeiam a realidade com a qual trabalha a ciência na contemporaneidade Nesse caso a prudência phronesis ressaltada por Jonas condiz com o pensamento de Platão República 434b isto é regula o conjunto das ações humanas em direção ao que é melhor na nossa vida prática Por conseguinte também discerne pondera e decide pelo melhor meio para a consecução dos nossos objetivos como afirma Aristóteles Ética a Nicômaco II 2 Daí porque para Jonas a prudência leva o homem a temer por aquilo que é duvidoso Na heurística do temor jonasiano a dúvida é vista do modo contrário ao de Descartes Discurso do Método p 15 ou seja da dúvida sobre o que poderá acontecer no futuro surge a certeza do risco Ricoeur 2000 p 78 nesse sentido aproximase de Jonas ao afirmar que até mesmo as intenções positivas da ciência devem ser vistas com cuidado porque existe sempre o risco dos efeitos de tais experimentos fugirem ao controle acarretando problemas no futuro Novamente a prudência no sentido aristotélico sabedoria na deliberação deve Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 21 ser o motor a priori das ações tanto individuais quanto coletivas Para onde vai o homem com todo esse artificialismo tecnocientífico Segundo Jonas a ética da responsabilidade fundada sobre a heurística do temor supõe uma radical mudança na orientação da ação humana tanto aquela direcionada aos seres naturais quanto àquela dirigida para os seres humanos não mais uma simples vontade de dominação mas controlar essa dominação Tratase não apenas de gerir da melhor forma possível os problemas atuais mas de propor alternativas que não coloquem em risco o futuro da humanidade No entendimento de Sève 1990 p 82 o temor descrito por Jonas representa um motivo racional para sermos responsáveis pela continuidade da vida tornandose assim o móvel sensível da mesma forma que é o respeito para Kant A responsabilidade na compreensão de Hans Jonas A responsabilidade jonasiana quer fundar uma proposta capaz de trazer uma reflexão profunda sobre o papel do homem contemporâneo na condução dos destinos do planeta capaz de proteger a natureza frente ao homem proteger o homem de si mesmo e assim a própria natureza humana Segundo Jonas buscar um princípio que fundamente o agir moral do homem contemporâneo é abrir um diálogo sobre a possibilidade da permanência de um mundo viável habitável A responsabilidade jonasiana busca os ideais gregos de moderação limite austeridade por serem as únicas atitudes capazes de frear a hybris do homem A responsabilidade estabelecida por Jonas emergiu em função do grande e impetuoso poder da técnica que afeta o futuro através da magnitude de seus efeitos remotos e também da sua irreversibilidade A responsabilidade jonasiana pretende preservar o homem da permanente ambigüidade da sua liberdade bem como a integridade de seu mundo e de sua essência frente aos abusos de seu poder Morin 2001 p 35 a este respeito faz o seguinte comentário a sociedade contemporânea tem uma extraordinária necessidade de responsabilidade para gerir a liberdade que possui porque nem mesmo o poder coercitivo encontrase capacitado para controlar tamanha complexidade que o homem atingiu Responsabilidade portanto é algo que advém do poder e da vontade humana atrelada à ideia de valor O argumento jonasiano é no sentido de nos dizer que se o Ser em si mesmo possui um valor e dele surge o dever de que os detentores de poder ajam de forma responsável logo a fragilidade e a precariedade do Ser diante de um poder extremo apelam para a responsabilidade O filósofo recorre à responsabilidade porque se preocupa com o alcance do poder destruidor que a técnica conferiu à humanidade ao longo do Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 22 tempo Nesta mesma direção de Jonas Vaz comenta as questões do nosso tempo evidenciando também a necessidade de mudança no ethos contemporâneo Como no tempo de Sócrates em que o ethos tradicional se desagregava ao choque da crítica sofística nosso tempo vê os grandes sistemas éticos que se entrelaçavam na sucessão de uma vigorosa e rica tradição intelectual e espiritual questionados nos seus fundamentos e refundados nas suas conclusões pela dissolução crítica que a postura científica opera sobre o próprio sujeito ético despojado do seu título mais nobre ou seja do seu poder de autodeterminarse e da especificidade mesma do seu agir implacavelmente absorvido pelo imperialismo do fazer VAZ 1993 p 223 A obrigação do sujeito ético contemporâneo nasce portanto da necessidade de proteger a biosfera e o ser humano da ciência que afastada da racionalidade moral achase detentora de uma supremacia inquestionável Em Jonas ao contrário nenhum agir humano pode ficar fora da reflexão ética pois existe o risco desta atitude resultar em problemas complexos como o agravamento do aquecimento global por exemplo Daí a necessidade de colocarmos parâmetros éticos em todas as ações do homem e não esquecermos a dialética que envolve o poder da técnica Assim o modus vivendi do homem contemporâneo atrelado ao vazio ético juntamente com o mito da neutralidade da ciência e o saber contemporâneo não vê a natureza como sendo possuidora de valor Agora tememos pelo que pode resultar da união de uma técnica sem limites com o niilismo que envolve a civilização contemporânea No século XXI o ponto de partida de qualquer ação sobretudo ações envolvendo o uso da tecnociência deve ser orientado pela prudência porque sacamos hipotecas sobre a vida futura por proveitos e necessidades presentes e de curto prazo e no que concerne a isso por necessidades na maioria das vezes autogeradas JONAS 1999 p 411 Neste contexto Jonas faz alguns esclarecimentos precisos a respeito da sua teoria da responsabilidade A responsabilidade advém do risco das catástrofes que já aconteceram e das que podem acontecer É formulada de maneira distinta e por isso tornase fundamental compreender que a responsabilidade não está mais na esfera do agente ou do ato individual nem do efeito imediato e sim na esfera do agir coletivo É uma categoria construída para conter os abusos da ciência e da técnica e se fundamenta em uma heurística do temor compreendida como princípio de precaução cuidado e prevenção Jonas com a finalidade de caracterizar a responsabilidade por ele pensada mostra a diferença entre a responsabilidade jurídica a moral a contratual e a natural Na responsabilidade jurídica as conseqüências e imputação do poder que se tem quando se é o Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 23 agente da ação nos obriga a responder juridicamente por essa mesma ação assim também é a responsabilidade pelas conseqüências de nossos atos No entanto se a ação causou um dano a outrem este deverá ser reparado independentemente de ter havido ou não intenção quanto ao resultado Para que alguém seja considerado responsável juridicamente em face de determinado resultado necessita que este alguém seja o agente ativo da ação Entretanto essa imputação só é possível quando há uma estreita relação causal entre ato e resultado de modo incontestável e objetivo Outro ponto importante acerca da responsabilidade jurídica é que à noção de compensação legal misturouse a ideia de punição que tem origem moral e qualifica o ato causal como sendo moralmente culpável Neste caso o castigo ou a pena tem como objetivo restaurar uma ordem moral perturbada com tal atitude pois o castigo poderá não restituir o dano causado O móvel causador responderá não só pela causalidade do ato mas também por sua qualidade Em suma a responsabilidade moral é representada pela disposição do sujeito de assumir seus atos A responsabilidade contratual como a do coletor de impostos por exemplo é construída de modo artificial de acordo com a tarefa tendo conteúdo e tempo determinados para ser cumprida Por isso existe a possibilidade de renunciála se o sujeito assim o quiser No entanto a responsabilidade do político mesmo sendo rescindível é considerada por Jonas como sendo um caso excepcional de responsabilidade contratual Segundo Jonas a responsabilidade do autêntico político é um caso singular de responsabilidade contratual O político autêntico para Jonas 2006 p 172 desejará que se possa dizer dele que fez o melhor possível por aqueles sobre os quais tinha poder ou seja para aqueles em virtude de quem ele tinha poder Que o sobre se torne para constitui a essência da responsabilidade Em relação à responsabilidade paterna Jonas diz ser esta o arquétipo original e intemporal da responsabilidade 2006 p 219 Ela é sobretudo o exemplo maior do dever para com o futuro A criança recémnascida não consegue sozinha sobreviver Por conseguinte para que continue a existir necessita de cuidados Mesmo que este cuidado não seja dado pelos pais biológicos alguém terá que assumir esta responsabilidade para que sua vida se conserve O político e o pai portanto representam a responsabilidade nos dois extremos da natureza e da liberdade A responsabilidade de ser pai é direcionada a alguns indivíduos em particular causada diretamente pela procriação em relação íntima e direta de parentesco ou de adoção A do político por outro lado é dirigida ao público sem acepção de pessoa Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 24 dependendo da iniciativa espontânea é realizada à distância e por meios institucionais A responsabilidade que Jonas denomina de natural é um sentimento em virtude do qual eu me sinto responsável em primeiro lugar não por minha conduta e suas conseqüências mas pelo objeto que reivindica meu agir Responsabilidade por exemplo pelo bemestar de outro É o que diz respeito ao olhar para a conta a pagar pela ação a determinação pelo que se há de fazer que vá além das formalidades que tratam da responsabilidade sobre atos e suas conseqüências O homem é responsável por si bem como pelo que se encontra à sua volta por estar ao mesmo tempo no raio de ação do seu poder submetido às suas decisões e vontades ainda quando esteja ameaçado por elas Assim sendo no objeto que exige de mim um sentimento que reconheça a sua bondade própria há um comprometimento que afeta a sensibilidade e que cala o egoísmo de poder Então o que está sob meu controle e meu poder por um direito intrínseco pode se converter no mandante e eu pela causalidade de detentor do poder posso me transformar em possuidor da obrigação do dever Depois de tomar consciência dessa ideia de responsabilidade é que haverá um compromisso efetivo em cumprir o dever que o objeto suscita no agente causal Segundo Jonas 2006 p 164 é a esse tipo de responsabilidade e de sentimento de responsabilidade e não àquela responsabilidade formal e vazia de cada ator por seu ato que temos em vista quando falamos na necessidade de ter hoje uma ética da responsabilidade futura É pensando nesse outro contingente imperfeito e vulnerável que surge a força para motivar a vontade de lutar por sua existência autêntica Desse modo para Jonas o sustentáculo desse sentimento de responsabilidade é o cuidado com a descendência contido na responsabilidade paterna 2006 p 223 A partir desse sentimento para com a prole a natureza colocou no ser humano a capacidade de ser responsável além do simples instinto A responsabilidade que aprendemos com a própria natureza que Jonas denomina de responsabilidade natural é irrevogável irrescindível e global O principal fato a ser entendido é o de que a responsabilidade é motivada pelo deverser da coisa e a relação de responsabilidade está em proteger as relações de fidelidade sobre as quais toda a sociedade está assentada para uma convivência adequada entre os seus indivíduos Para Jonas entretanto sermos responsáveis por um bem depende exclusivamente de nós visto que nossa vontade é portadora da liberdade de aceitar ou não determinadas responsabilidades como a contratual por exemplo No entanto a responsabilidade defendida por Jonas possui caráter ontológico o fato de a natureza ter Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 25 dotado o homem com a capacidade de possuir responsabilidade mesmo possuindo a liberdade de escolha nos obriga a sermos responsáveis pela continuidade da vida na Terra pois somos guardiões do Ser Nesses moldes podese aprender sobre a essência da responsabilidade que se mostra de muitos modos mas que contemplada no seu todo tem pontos comuns e leva à essência da própria natureza humana Por isso o que há de comum nestes exemplos de responsabilidade são os conceitos de totalidade de continuidade e de futuro em relação à existência e à felicidade do ser humano Impõese destacar ainda que Jonas primeiramente direciona aos governos e aos governantes a tarefa de controlar as conseqüências em curto prazo das opções políticas por eles tomadas cujos resultados só serão sentidos em longo prazo A importância das decisões políticas deve portanto remeter à prudência no sentido aristotélico diante da força do grande crescimento do corpo social e do esgotamento do ambiente natural Esse apelo que Jonas faz ao homem contemporâneo no tocante à responsabilidade para com o poder que possui demonstra que seu pensamento em relação à responsabilidade é mais abrangente do que o das éticas tradicionais Certamente que em todas essas éticas a responsabilidade encontravase presente até porque sem responsabilidade não é possível construir qualquer edifico ético Mas em Jonas o apelo é feito de maneira mais enfática ao homem com toda a sua ambigüidade e insondável liberdade Por outro lado Jonas sabe que até mesmo a responsabilidade não dará ao homem um futuro perfeito porque a imperfeição faz parte da condição humana No entanto essa responsabilidade por ele defendida poderá preservar a vida futura na Terra já que nesse ponto a utopia da tecnologia falhou A pretensão da ética jonasiana portanto não é a de oferecer à humanidade um mundo perfeito mas proteger e preservar o futuro da vida ao alargar o horizonte da responsabilidade à totalidade do mundo vivente Assim a humanidade e o planeta Terra estarão protegidos da tecnociência que acredita possuir um poder demiúrgico capaz de moldar modificar e criar um mundo novo Na realidade entretanto o que se percebe é a progressiva devastação em todos os quadrantes da Terra A crítica de Jonas à utopia do mundo tecnológico No entendimento de Jonas essa crença no progresso como solução para os problemas do homem é extremamente prejudicial pois esse ideal não se realiza sem a destruição da natureza O fato de a natureza ser vista pelo homem como uma fornecedora de matéria prima faz com que a cada dia em nome de um suposto desenvolvimento Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 26 ocorra a extinção de milhares de espécies bem como o agravamento do aquecimento global Frente a problemas como esses evidenciamse cada vez mais os perigos da utopia do progresso disfarçada pelas inovações técnicas No entanto este progresso material se dá à custa de uma tecnologia que tem preço e efeitos diversos Na agricultura a irrigação traz a salinização do solo o desflorestamento e a diminuição das taxas de oxigênio dentre outros Isso sem falar no consumo exagerado das reservas de energia não renováveis nos países ricos industrializados Na visão de Jonas tudo o que é possível dizer é que na zona onde penetramos com nossa técnica e onde de agora em diante devemos nos movimentar a senha é a prudência e não o exagero O encanto da utopia é a última coisa que deveria turvar a lucidez de que necessitamos 2006 p 295 Segundo Jonas o sentido da crítica à utopia não é de um simples exercício teórico somente mas está dirigido principalmente à prática A existência de um futuro não é pensada nesta época de urgências em curto prazo Atualmente parece que as sociedades têm conflitos com a temporalidade dado que privilegiam unicamente o presente sem levar em conta a vida futura Na visão jonasiana isso ocorre devido ao êxito econômico cuja ligação com a técnica leva à exaustão dos recursos naturais visto que o homem de hoje vive e consome muito mais do que o de antigamente Jonas rechaça assim qualquer utopia tecnológica por acreditar que a técnica sozinha não trará a felicidade ao homem e porque as ciências naturais não dizem toda a verdade sobre os efeitos da técnica em longo prazo O incremento cada vez maior na produção apesar da diminuição do trabalho tem trazido êxito econômico que empolga a sociedade dando a falsa impressão de progresso Conter tal progresso a qualquer custo deveria ser visto como nada mais do que uma precaução inteligente acompanhada de uma simples decência em relação aos nossos descendentes Em razão dos problemas enfrentados pela civilização tecnológica não podemos deixar de concordar com Leff 2001 p 35 quando afirma ser essa situação fruto de uma razão cegante que trouxe avanços em muitas áreas entretanto seus efeitos nocivos são devastadores Basta olharmos para a superexploração do Sul e o consumo desenfreado do Norte que a cada dia incrementa ainda mais o aquecimento global A antevisão da destruição defendida por Jonas revela a importância da responsabilidade para com o poder e isto faz com que o homem sintase responsável por tudo o que existe Jonas defende a necessidade de parâmetros éticos que possam frear a compulsão da tecnociência porque a moralidade encontrase agora também na obrigação Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 27 com o futuro do outro que é frágil e por isso exige cuidado para que possa um dia chegar a viver O que Jonas procura não é o afastamento da ética tradicional mas sair do enfraquecimento das doutrinas éticas frente ao novo agir do homem hodierno A pretensão da ética da responsabilidade é afastar o mito do progresso representante do sucesso imediato e mostrar que por trás dessa utopia existe a possibilidade da morte Daí surge à necessidade de sair do paradigma da ética do presente do imediato e procurar pensar as conseqüências futuras das ações humanas através da ética do futuro da responsabilidade principalmente porque os problemas ambientais causados pela ação do homem são globais e alguns deles irreversíveis Considerações finais Voltando às questões que desencadearam essas reflexões podese afirmar com Jonas a necessidade premente de incluir a natureza e a técnica na reflexão moral contemporânea A ética tradicional ao contrário deixa de lado esses dois elementos acarretando com isso o agravamento dos problemas advindos da relação do homem com a natureza e com a técnica O homem do século XXI com a sua técnica e modos predadores não pode deixar de lado a responsabilidade e levarse pela audácia das descobertas prodigiosas A reflexão moral deve andar lado a lado com a tecnociência para que a humanidade não perca a sua morada a Terra que o mantém vivo Também se confirma a exeqüibilidade da ética jonasiana por entenderse que o resgate feito por Jonas da categoria responsabilidade na ética destinada ao século XXI é um fator importante para salvaguardar a natureza das ações predatórias do ser humano A situação do homem contemporâneo mostra que nenhuma ética até então levou em consideração a possibilidade das ações humanas extinguirem do planeta a própria espécie Tal situação contudo passou a exigir uma ética que permita no presente preservar a humanidade do futuro A ética jonasiana não só defende a continuidade da vida humana como também a extrahumana por isso tornase compatível com as necessidades do homem na atual conjuntura tecnocientífica em que se encontra envolvida não apenas toda a humanidade mas toda a biosfera Com a ética da responsabilidade Jonas foi acusado de formular uma moral naturalista No entanto conservar a Terra é interesse nosso pois não há possibilidade de vida que não seja na Terra Como acentuou Ricoeur o interesse do homem coincide com o resto dos viventes e o da natureza inteira na medida em que ela é nossa pátria 1996 p 241 Se a natureza é nosso único lar então é necessário e urgente cuidarmos deste lar pois Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 28 não existe no horizonte humano nenhum outro lugar no qual possamos viver pelo menos é o que revela a própria tecnociência Bernstein 1995 p 39 diz existir na ética jonasiana um forte apelo ao antropocentrismo Para ele em várias passagens isso fica evidente quando Jonas escreve que o dever primeiro da ética é preservar a vida humana Esta interpretação entretanto não afeta em nada a teoria da responsabilidade jonasiana pois esta não defende somente a vida humana mas a vida em todas as suas dimensões Em Jonas não há a negação do homem o traço antropolítico da ética é mantido mas sem antropocentrismo Por outro lado o próprio Bernstein 1995 p 48 reconhece a importância das reflexões jonasianas ao dizer que o imperativo da responsabilidade é reconhecidamente um chamado para a modéstia tão ausente no mundo da tecnociência Bernstein considera também a força da construção ética jonasiana ao dizer que Jonas falava de problemas essenciais a um público temeroso com a questão ecológica e as perigosas conseqüências da dinâmica da tecnologia Aqui existiu um filósofo que desafiava algumas de nossas reservas mais fortes no tocante ao progresso e à perfeição da utopia advertindonos para sermos cuidadosos e equilibrados para conseguirmos preservar a continuidade da vida Por conseguinte ao propor a ética da responsabilidade para solucionar o problema da relação homemnatureza Jonas responde a uma das importantes questões de nosso tempo ou seja a crise ambiental global e os efeitos muitas vezes irreversíveis de uma técnica posta em prática sem antes avaliar as conseqüências que poderão advir com tal prática Para todos que se empenham em salvar a vida na terra a ética da responsabilidade oferece bons caminhos Referências ARISTÓTELES Ética a Nicômaco Trad Leonel Vallandro e Gerd Bornheim Rio de Janeiro Abril Cultural 1973 Coleção Os Pensadores BERSTEIN R J Rethinking responsibility The Hastings Center Report New York v 25 n 7 p 1325 Special Issue1995 BRÜSEKE F J Pressão modernizante Estado territorial e sustentabilidade In CAVALCANTI Clóvis Org Meio ambiente desenvolvimento sustentável e políticas públicas São Paulo Cortez 2002 p 112130 DESCARTES R Discurso do método Trad J Guinsburg e Bento Prado Júnior São Paulo Abril 2000 Coleção Os Pensadores GIACOIA JÚNIOR O Hans Jonas O princípio responsabilidade In Oliveira Manfredo Org Correntes fundamentais da ética contemporânea Petrópolis Vozes 2000 p 193206 HEIDEGGER M Que é isto a filosofia Identidade e diferença Petrópolis Vozes 2006 JONAS H The imperative of responsibility In search of an ethics for the technological age Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 29 Translated by Hans Jonas with the collaboration of David Herr Chicago University of Chicago Press 1984 Por que a técnica é um objeto para a ética Trad Oswaldo Giacoia Jr Revista Internacional de Filosofia e práticas Psicoterápicas São Paulo Educ v 1 n 2 1999 p 407422 O princípio vida fundamentos para uma biologia filosófica Trad Carlos Almeida Pereira Petrópolis Vozes 2004 O princípio responsabilidade ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Trad Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez Rio de janeiro ContrapontoEditora da PUCRIO 2006 KANT I Fundamentação da metafísica dos costumes Trad Paulo Quintela Lisboa Edições 70 1999 LEFF E Saber ambiental sustentabilidade racionalidade complexidade e poder Petrópolis Vozes 2001 MORIN E Para sair do século XX Rio de Janeiro Nova Fronteira 2001 PLATÃO A República Trad Enrico Corvisieri Rio de Janeiro Abril Cultural 2000 Coleção Os Pensadores RICOEUR P A região dos filósofos São Paulo Loyola 1996 The concept of responsibility an essay in semantic analysis Chicago The University of Chicago Press 2000 SÈVE Bernard Hans Jonas et léthique de la responsabilité Revue Espirit Paris n 165 p 7288 octobre 1990 VAZ H C L Escritos de filosofia I São Paulo Loyola 1993 VIEIRA Antônio Sermões do padre Vieira Porto Alegre LPM Editores 2006 WOLIN Richard Heideggers children Hannah Arendt Karl Löwith Hans Jonas and Herbet Marcuse New Jersey Princeton University Press 2003 UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMIÁRIDO CAMPUS PAU DOS FERROS RN Ética e Legislação Profª Drª Katia Santos PSH1877 T1 e T2 20221 Reposição Data de entrega 23112022 Local de entrega sala de aula durante o período da aula normal Atentar para o que diz a Resolução CONSEPEUFERSA N 0042018 de 13 de setembro de 2018 Art 17 O discente que não comparecer a um ou mais procedimento avaliativo terá direito a apenas uma avaliação de reposição por componente curricular 1º O prazo para a realização da reposição é de no mínimo 3 três dias úteis após a realização da 3ª avaliação 2º Para realizar a avaliação de reposição o discente deverá requerer no SIGAA a solicitação de reposição com justificativa em até 2 dois dias antes da realização da reposição 3º Ao discente que não realizar a reposição será atribuída nota 00 zero Para qualquer avaliação que tenha sido perdida Elaborar uma resenha crítica do seguinte artigo RIBEIRO Raimunda Diva de Vasconcelos Hans Jonas uma proposta ética à civilização tecnológica Cadernos PET de Filosofia Volume 1 n 2 2010 pp 1329 Disponível em PDF no SIGAA e também no link httpsperiodicosufpibrindexphppetarticleview21431967 Critérios de avaliação da resenha Cumprimento de todos os itens da resenha 1 ponto Correção gramatical 1 ponto Clareza 1 Descrição correta do conteúdo do artigo 4 pontos Boa análise crítica pessoal 3 pontos IMPORTANTE 1 caso seja constatado plágio na resenha mesmo que seja uma única frase a nota atribuída será 0 2 caso haja duas resenhas iguais ou muito semelhantes será atribuída a nota 0 a ambas 3 O texto deverá estar preferencialmente digitado UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMIÁRIDO CAMPUS PAU DOS FERROS RN Ética e Legislação Profª Drª Katia Santos PSH1877 T1 e T2 20221 COMO FAZER UMA RESENHA CRÍTICA httpsedisciplinasuspbrpluginfilephp3708392modfoldercontent0Como20fazer20u ma20resenhadocforcedownload1 Como um gênero textual uma resenha nada mais é do que um texto em forma de síntese que expressa a opinião do autor sobre um determinado fato cultural que pode ser um livro um filme peças teatrais exposições shows etc O objetivo da resenha é guiar o leitor pelo emaranhado da produção cultural que cresce a cada dia e que tende a confundir até os mais familiarizados com todo esse conteúdo Como uma síntese a resenha deve ir direto ao ponto mesclando momentos de pura descrição com momentos de crítica direta O resenhista que conseguir equilibrar perfeitamente esses dois pontos terá escrito a resenha ideal No entanto sendo um gênero necessariamente breve é perigoso recorrermos ao erro de sermos superficiais demais Nosso texto precisa mostrar ao leitor as principais características do fato cultural sejam elas boas ou ruins mas sem esquecer de argumentar em determinados pontos e nunca usar expressões como Eu gostei ou Eu não gostei Na resenha acadêmica crítica os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa 1 Identifique a obra coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar 2 Apresente a obra situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado 3 Descreva a estrutura fale sobre a divisão em capítulos em seções sobre o foco narrativo ou até de forma sutil o número de páginas do texto completo 4 Descreva o conteúdo Aqui sim utilize de 3 a 5 parágrafos para resumir claramente o texto resenhado 5 Analise de forma crítica Nessa parte e apenas nessa parte você vai dar sua opinião Argumente baseandose em teorias de outros autores fazendo comparações ou até mesmo utilizandose de explicações que foram dadas em aula É difícil encontrarmos resenhas que utilizam mais de 3 parágrafos para isso porém não há um limite estabelecido Dê asas ao seu senso crítico 6 Recomende a obra Você já leu já resumiu e já deu sua opinião agora é hora de analisar para quem o texto realmente é útil se for útil para alguém Utilize elementos sociais ou pedagógicos baseiese na idade na escolaridade na renda etc 7 Identifique o autor Cuidado Aqui você fala quem é o autor da obra que foi resenhada e não do autor da resenha no caso você Fale brevemente da vida e de algumas outras obras do escritor ou pesquisador 8 Assine e identifiquese Agora sim No último parágrafo você escreve seu nome e fala algo como Acadêmico do Curso de Letras da Universidade de Caxias do Sul UCS RESENHA CRÍTICA O artigo inicia abordando os aspectos positivos que a tecnologia possibilita à sociedade entretanto aponta que sem a conduta ética necessária para sua aplicação acaba ocorrendo um conflito generalizado O autor aponta da seguinte forma Quanto maior o poder maior o individualismo gerado Aborda que um dos questionamentos mais fortes durante o século XX foi a relação entre homem natureza e tecnologia e seus respectivos impactos na sociedade e no mundo A partir de alguns posicionamentos de autores podemos abordar dois uma postura que defende o avanço tecnológico e seus benefícios ao mundo e o posicionamento da conduta ética de responsabilidade que remete a um posicionamento equilibrado entre avanço tecnológico e preservação de natureza mediando assim a relação entre ambos Será possível haver um contraponto entre avanços tecnológicos e preservação da natureza O autor complementa que o ser humano pode ser visto como um ser destrutivo tanto para ele próprio como para os seus iguais e isso pode repercutir na natureza Para tal é preciso haver um discernimento entre técnica e natureza Mas para que esse discernimento ocorra é preciso que uma sociedade inteira consiga compreender sua profundidade e que seus posicionamentos sejam similares no caso o de preservação Entretanto em um meio social onde a tecnologia possui bastante influencia é difícil quebrar esse padrão já inserido no meio social O autor evidencia sua visão sobre a mudança da moral do ser humano que antes consistia em dar importância as leis naturais e a preservação da natureza e atualmente visa um pensamento mais egocêntrico e individualista A partir dessa premissa podemos concluir que há uma grande diferença no aspecto ser e agir A tecnologia que em seu início era vista como algo para somar hoje é o principal eixo para direcionamento de decisões e pensamentos A natureza por sua vez hoje é vista como uma forma de obtenção de bens materiais A partir desse cenário me posiciono da seguinte forma É importante compreendermos dois conceitos importantes o de querer e o de poder A responsabilidade ética que direciona ambos os conceitos e é a partir dela que uma sociedade inteira pode ter um sentido A melhor forma de mudarmos o futuro é através da consciência do momento atual O maior problema do egocentrismo é a ausência de preocupação com o futuro Existe uma busca constante tecnológica de melhorias mas há um esquecimento generalizado sobre as consequências do mesmo
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Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 13 HANS JONAS UMA PROPOSTA ÉTICA À CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA Hans Jonas an ethical proposal to technological civilization Raimunda Diva de Vasconcelos Ribeiro 1 Resumo Este artigo discute a crítica de Hans Jonas ao uso da técnica afastada da racionalidade moral bem como a proposta ética por ele apresentada que tem como máxima a inclusão da técnica e da natureza na reflexão moral À luz da ética da responsabilidade serão analisadas duas questões Por que Jonas afirma ser a ética tradicional como a kantiana por exemplo incapaz de mediar a relação homemnaturezatécnica A reflexão moral jonasiana possibilita ao homo tecnologicus uma conduta ética viável em relação à natureza e à técnica Palavraschave Hans Jonas ética responsabilidade natureza técnica Abstract This paper discusses Hans Jonass criticism to the use of technique apart from moral rationality as well as his ethical proposal that is based on the inclusion of technology and nature in moral reflection Two questions were examined according to the ethics of responsibility Why does Hans Jonas claim to be the traditional ethics like the Kantian one for example unable to mediate the mannaturetechnical relationship Does Jonass moral critique enable the homo tecnologicus to a viable ethical behavior concerning the nature and technique Keywords Hans Jonas ethics responsibility nature technique A técnica e o que ela proporciona encantam cada vez mais a civilização contemporânea Embora esta juntamente com a ciência e outros ramos do saber tenha trazido vários benefícios à humanidade como por exemplo as vacinas não se pode negar que separada da ética desenvolveu os mais diversos meios de dominação do homem sobre a natureza sobretudo no século XX Além do problema ambiental fruto de um desenvolvimento voraz que consome os recursos naturais o homem do século XXI também convive com o vazio ético e o individualismo fatores que agravam ainda mais o risco de acabarmos com a capacidade que a Terra possui de manter a vida Entretanto o ponto mais preocupante em relação à técnica contemporânea está relacionado ao poder de destruição que ela oferece Na Segunda Grande Guerra por exemplo quando o homem sentiu os efeitos da destruição e violência frutos do progresso que vem na esteira da técnica e da ciência a 1 Professora da Escola Superior de Propaganda de Marketing e Doutoranda em Filosofia pela PUCSP Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 14 relação homemnaturezatécnica tornouse um dos eixos centrais da reflexão moral no século XX Um dos principais argumentos daqueles que defendem uma postura biocêntrica para o homem contemporâneo está centrada na responsabilidade que a humanidade deve ter ao utilizar meios que possam colocar em perigo a continuidade da vida na Terra bem como afastar do imaginário humano a certeza que se instalou com o prometeísmo da razão e da tecnociência Embora tenham surgido várias teorias éticas que defendem uma conduta biocêntrica como forma de preservar a vida interessanos discutir a Ética da Responsabilidade do filósofo alemão Hans Jonas por possuir maior destaque entre todas que defendem uma postura biocêntrica para o homem Duas questões serão aqui enfatizadas para entendermos a concepção ética jonasiana Por que Jonas afirma que a ética tradicional2 como a kantiana por exemplo foi considerada incapaz de mediar a relação homemnaturezatécnica A reflexão moral jonasiana possibilita ao homem uma conduta ética viável em relação à natureza e à técnica Indagações como estas serão respondidas com um exame que faremos a seguir da proposta jonasiana contida no livro O princípio responsabilidade ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Jonas desde 1979 dedicouse à análise da civilização tecnológica enfatizando a necessidade do ser humano ter uma responsabilidade metafísica desde que o poder da técnica fez do homem uma ameaça não apenas para a natureza mas para toda a humanidade Segundo Jonas nesse processo de avaliação da conduta ética que o homem deve ter ao usar a técnica três poderes devem ser levados em conta o poder que se tem sobre a natureza o poder que a técnica adquiriu e o poder que é preciso ter sobre a técnica O homem nem sempre viu a natureza apenas como fonte de recursos Na antigüidade ao contrário a natureza era percebida como uma potência superior e seus fenômenos como recompensa ou punição dos deuses O poder e o fazer humanos não ultrapassavam a esfera das relações intersubjetivas e reduziamse ao presente ou seja o bem e o mal da ação permaneciam bem próximos ao tempo da própria ação Conseqüências distantes do agir humano eram relegadas ao acaso ou à providência Em todas as esferas da ética tradicional o agente e o outro da ação partilham um presente comum O universo ético era composto somente por contemporâneos e o seu horizonte futuro confinavase à duração de suas vidas Era em torno deste raio de ação bem próximo que todas as formas do viver e agir 2 Quando nos referimos à ética tradicional estamos tratando especificamente daquelas correntes éticas que têm como foco da reflexão moral somente o homem sem levar em conta a natureza e tudo mais que nela existe Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 15 humano articulavam o que passou a ser um dos traços mais marcantes da ética tradicional Essa ética traz a visão de um homem que vive na esfera da polis e nela cria seus valores para uma vida boa e feliz O homem só precisava prestar contas das suas ações na cidade por ele construída O mundo extrahumano isto é aquilo que fazia parte da techné da capacidade produtiva era eticamente neutro A techné era vista apenas como um tributo determinado pela necessidade do homem e não um progresso que se autojustifica por ser o fim essencial da humanidade em cuja perseguição engajamse o máximo esforço e a participação humana No decorrer da história contudo movido pela eterna necessidade de novas conquistas o homem não vê mais limites à sua frente E é isto exatamente o que mais preocupa na ação humana atual a falta de prudência quando investe contra a natureza Através da tecnociência o homo faber dominou o homo sapiens e passou a introduzir ações inéditas e de grandeza incomensurável na cidade e na natureza Assim vivenciamos hoje graves problemas decorrentes da degradação do meio ambiente Nesse caso se a técnica invadiu a esfera humana e colocou em perigo a natureza e a vida do homem abrese então a perspectiva de uma ética preocupada com o futuro e com a situação limite pela qual passa a humanidade Na visão de Jonas 2006 p39 isso impõe à ética pela enormidade de suas forças uma nova dimensão nunca antes sonhada de responsabilidade Jonas acredita que para reverter esse quadro a ética deverá se preocupar com a irreversibilidade da práxis técnica sua concentração distribuição em séries causais no tempo e no espaço enfim um cenário obscuro e difícil para as questões éticas Tratase de um cenário que se modifica rapidamente e os efeitos se somam de tal modo que as situações para o agir futuro e para os seres posteriores não serão as mesmas que foram para o agente inicial De fato constatase um caráter cumulativo algo que não acontecia no contexto da ética tradicional A importância da humanidade futura para Jonas encontrase na essência intrínseca do Ser ou seja é importante que haja vida autêntica para que esta essência possa continuar a existir Desse modo diferentemente das éticas contemporâneas a ética do futuro segundo Jonas encontra seu princípio na metafísica como doutrina do Ser da qual faz parte a ideia de homem 2006 p 95 Assim Jonas ratifica sua posição contrária à filosofia moral contemporânea que está embasada no sujeito autônomo determinador e responsável por suas próprias leis e que se afastou da metafísica especialmente aquela do mundo anglo saxão Jonas para afastar o subjetivismo e o relativismo propõe uma ética fundada em uma doutrina do Ser uma ontologia Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 16 A justificativa de uma tal ética que não mais se restringe ao terreno imediatamente intersubjetivo da contemporaneidade deve estenderse até a metafísica pois só ela permite que se pergunte por que afinal homens devem estar no mundo Serão retomadas do ponto de vista ontológico as antigas questões sobre a relação entre ser e dever causa e finalidade natureza e valor de modo a fundamentar no Ser para além do subjetivismo dos valores esse novo dever do homem que acaba de surgir JONAS 2006 p 22 O porquê da existência humana em particular a existência das futuras gerações é o cerne da questão a ser resolvida Se a existência humana sempre foi considerada um objetivo primário agora frente aos riscos que a tecnociência oferece passou a ser também objeto do dever Dever esse que ultrapassa a existência do homem no presente chegando até o futuro Desse modo Jonas trata de maneira radical o papel da ética quando discute a tensão entre o Ser e o nãoSer das gerações futuras Os homens do futuro são importantes na medida em que a essência intrínseca do Ser é importante O dever de assegurar a existência da humanidade futura contudo criou um grande abismo entre o saber e o agir tecnológico pois nosso agir tomou tamanho poder e tamanha força que nosso saber ficou incompatível para equilibrar a extensão causal de nossa ação Jonas levanta então um novo questionamento quando aponta para uma modificação não só no cenário extrahumano mas também para uma modificação no conceito do próprio homem que se tornou um efeito causal neste sistema tão grande Ao pensar dessa forma Jonas se aproxima de Heidegger Segundo Heidegger 2006 p 92 o mundo do homem transformouse em um mundo técnico e por isso o homem separouse de sua essência A técnica que na Idade Antiga era um simples meio passou a ser um fim na contemporaneidade e acabou por transformar o próprio homem Diferentemente da Idade Antiga a tecnologia que o homem possui hoje pode colocar em risco todas as formas de vida Em conseqüência desse fato Jonas reavalia a categoria da responsabilidade passando a defender sua interferência em todas as dimensões da vida principalmente no que diz respeito a tudo o que o poder e o querer humanos podem atingir A tendência utópica da técnica deixa a natureza e o homem expostos a riscos antes impensados Por tudo isso o futuro precisaria ser pensado de outra forma baseado em um novo imperativo categórico e em uma responsabilidade que advém do temor pelos efeitos irreversíveis que a técnica poderá trazer em sua esteira tanto para o homem como para a natureza Por isso Jonas pensou um imperativo adaptado ao tempo e às novas exigências do agir humano endereçados aos novos sujeitos de poder e aos que recebem os efeitos das ações que envolvem a tecnologia sempre em constante transformação Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 17 O imperativo categórico jonasiano Com o passar do tempo as definições e fronteiras bem estabelecidas sobre as quais a representação do mundo havia sido construída durante séculos foram quase todas destruídas cedendo lugar a novos paradigmas na filosofia nas artes e na ciência Essas transformações suscitam discussões debates e confrontos de opiniões uma vez que estão em negociação a posição e as relações do homem com a técnica do homem com seu próprio corpo e do homem com a natureza Diante dessa nova configuração do mundo humano Jonas estabelece seu imperativo ético ampliando a categoria responsabilidade ao futuro A expressão imperativo ético remete à ética kantiana e à defesa que ele faz segundo a qual o homem deve agir baseado em máximas que possam ser transformadas em lei universal No entanto o imperativo postulado por Kant 1999 p 65 contempla apenas o homem por ele existir como um fim em si mesmo ou seja que o homem deve sempre agir tendo como fim o próprio homem e o mesmo nunca deverá ser usado como meio para se atingir qualquer objetivo Já os seres extrahumanos não são vistos como fins e sim como meios para o homem e suas realizações Na visão de Kant portanto somente o homem deve ser objeto de respeito por conseguinte os demais seres e a natureza têm apenas um valor relativo como meio para consecução dos objetivos humanos Jonas ao contrário de Kant propõe um agir proporcional ao poder adquirido pelo homem tecnológico Aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra ou expresso negativamente Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida Jonas 2006 p 4748 Daí a modificação da tradicional relação entre poder e deverser moral ou seja do deve portanto pode kantiano para o pode portanto deve jonasiano no qual ao sujeito que age implica uma obrigação objetiva sob a forma de responsabilidade externa Em Kant há uma maximização privada uma autoconcordância do subjetivo com o objetivo quando a máxima subjetiva se transforma em princípio objetivo Ao contrário de Kant o imperativo jonasiano conclama para um outro tipo de concordância não a do ato consigo mesmo mas a dos seus efeitos finais para com a continuidade da atividade humana no futuro E a universalização que ele visualiza não é hipotética isto é a transferência meramente lógica do eu individual para um todos imaginário sem conexão causal com ele se cada um fizesse assim ao contrário as ações subordinadas ao novo imperativo ou seja as ações do todo coletivo assumem a característica de universalidade na medida real de sua eficácia JONAS 2006 p49 Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 18 Compreendese então que éticas como a kantiana por exemplo não contemplam a natureza os seres extrahumanos e a ideia de futuro O futuro encontravase na esfera da religião onde toda conduta do homem no presente era uma preparação para a vida futura mas no reino dos céus Tampouco previram problemas como os advindos da tecnologia porque a techné àquela época não tinha o poder ameaçador e o alcance que a tecnociência adquiriu tornandose capaz de encerrar a possibilidade de um futuro e cegandonos para nossa responsabilidade sobre ele Por isso Jonas coloca o futuro como objeto prioritário da consciência moral devido ao máximo risco que corre hoje a permanência da vida do homem na Terra Na visão de Jonas a ética deve passar a ser pensada do ponto de vista do que pode vir a fazer o homem com a tecnologia A responsabilidade portanto recai e provém simultaneamente do futuro ou melhor dizendo da exigência para que haja um futuro O que não existe ainda passa a exigir uma postura ética no presente assumindo a forma de um imperativo categórico que visa à continuidade da vida na Terra A ética deixa de ser meramente contemporânea fincada no presente Nessa perspectiva novos horizontes são abertos para a ética como responsabilidade com tudo que embora ainda não existente possa ser afetado por nosso agir atual e não mais como indivíduos isolados cuja dimensão ética se dá no agir próximo mas num mundo onde o agir é coletivo e deve estar compromissado com a permanência da vida no presente e no futuro O imperativo jonasiano dirigese à dimensão pública e não somente à ação privada como o kantiano por exemplo A universalização do imperativo da ética da responsabilidade se dá a partir da objetividade da ação coletiva que atinge de maneira dramática toda a vida no planeta Terra O poder adquirido através da técnica e da ciência o vazio ético o niilismo e o materialismo impulsionado pelo exagerado consumismo colocam a sociedade em constante estado de risco Por conseguinte o novo imperativo jonasiano representa uma confissão de respeito e humildade frente a todo o poderio destruidor do homo tecnologicus propondo uma nova conduta que pode contribuir para superar também o relativismo predominante da sociedade contemporânea No entender de Giacóia Júnior 2000 p 200 não nos é lícito sobretudo escolher o não ser das futuras gerações O que propõe Jonas ao homem contemporâneo é a discussão da importância do ser frente ao nãoser e a responsabilidade diante do risco tecnológico da incerteza do futuro com a constante ameaça nuclear Diante deste quadro Jonas indica sempre a precaução a prudência pois a ação do homem deve ser medida em função dos piores Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 19 prognósticos Daí a necessidade na visão de Wolin 2003 p 120 de o homem lembrar que é preciso temer pelo que pode acontecer com a vida em meio a tanto poder alcançado A heurística do temor versus utopias tecnológicas O temor jonasiano advém da utopia que o progresso da técnica gerou ou melhor da ameaça de catástrofe que vem na esteira do êxito excessivo que a técnica atingiu A compulsão desenfreada da tecnociência revela a falta de cuidado com o presente e conseqüentemente com o futuro quando não demonstra preocupação com a natureza humana nem com a extrahumana que há tempos apresentam sinais de exaustão O temor descrito por Jonas não tem a finalidade de paralisar o homem mas o agir egoísta O que ele defende é o temor que desperta a responsabilidade para manter a continuidade da vida Vale ressaltar que o temor jonasiano vem antes do agir é precaução é o instinto de preservação levado a sério Ou seja o temor proíbe a aposta que o homem contemporâneo faz do tudo ou nada nos assuntos da humanidade Mas acima de tudo ele é imperativo recusando o cálculo interessado de perdas e ganhos essa imposição se faz de um dever primário com o Ser em oposição ao nada JONAS 2006 p 87 Jonas justifica seu projeto de reformular a ética em vista da nova e grande ameaça que paira no horizonte humano Esta ameaça entretanto não deve estacionar nem paralisar o homem mas fazer com que ele busque princípios capazes de proteger a continuidade da vida no futuro Segundo Ricoeur 1996 p 230 devese temer os perigos porque eles são possíveis apesar de não prováveis Nesse caso o temor da catástrofe possui um sentido ontológico positivo que emerge da possibilidade do homem destruir a vida humana na Terra O ponto inicial é a constatação da modificação essencial das ações humanas Pela compulsão da técnica o homo sapiens cedeu o seu lugar ao homo faber e por isso segundo Sève 1990 p 61 não podemos prever os efeitos em longo prazo da moderna tecnologia nem sabemos na verdade o que deve ser protegido Entretanto são estas as duas coisas que serão mostradas pela antecipação do perigo pelo temor A técnica idealizada para a felicidade do homem tornouse pela desmesura pelo exagero de seu sucesso que se estende agora igualmente à natureza do próprio homem o maior desafio para o ser humano nunca antes provocado pelo seu agir pelo seu fazer A tecnologia desenvolvese de forma exponencial e o crescimento apresentado pela mesma se reverte em autoproliferação Com esse processo a técnica parece ganhar vida própria tomando o lugar do homem e com isso passa a comandar as ações humanas ou melhor a sua finalidade Esta situação a que chegou o homem com a técnica demonstra ser a materialização do ideal cartesiano e baconiano isto é tudo o que é possível deve ser Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 20 realizado desconhecendo contudo qualquer limite que não seja o da exequibilidade A escalada inelutável da técnica não diz respeito somente à sorte do homem mas igualmente à imagem do homem não só à sobrevivência física sobretudo à integridade de sua essência Portanto a ética que deve assegurar uma e outra deve ser uma ética baseada no princípio responsabilidade E o temor ocupa um papel importante nessa construção ética Nesta perspectiva Jonas insiste que o homem ao atender à dimensão escatológica da tecnologia torna a ética indispensável e obrigatória para qualquer ação responsável Desse modo o temor segundo Jonas evidencia a representação do mal do qual a teoria ética não poderia fugir Ele se torna à primeira obrigação preliminar de uma ética da responsabilidade É do temor fundado que deriva a atitude ética fundamental o respeito repensado a partir da vontade de evitar o pior Tratase então de preservar a integridade do homem Ciente da ameaça inerente a seu poder tecnocientífico poder de dominação e acima de tudo de destruição o homem deve assumir no seu querer o sim geral da natureza pelo fato de que A técnica moderna transcende a racionalidade de fins que deixa de existir para fazer surgir meios que buscam posteriormente os seus fins A transformação da técnica em técnica moderna se dá com esta perda do caráter finalístico da técnica ou melhor com a prevalência da técnica como um meio aberto Assim entramos no mundo do imprevisível onde a trajetória linear está sendo substituída por saltos quânticos onde algo é necessariamente assim mas também poderia ser diferente BRÜSEKE 2002 p 139 Assim sendo desvelase a necessidade do homem pensar nos maus prognósticos com prudência e cautela Jonas considera a prudência porque ela revela o acaso realça a possibilidade do risco da incerteza coisas que permeiam a realidade com a qual trabalha a ciência na contemporaneidade Nesse caso a prudência phronesis ressaltada por Jonas condiz com o pensamento de Platão República 434b isto é regula o conjunto das ações humanas em direção ao que é melhor na nossa vida prática Por conseguinte também discerne pondera e decide pelo melhor meio para a consecução dos nossos objetivos como afirma Aristóteles Ética a Nicômaco II 2 Daí porque para Jonas a prudência leva o homem a temer por aquilo que é duvidoso Na heurística do temor jonasiano a dúvida é vista do modo contrário ao de Descartes Discurso do Método p 15 ou seja da dúvida sobre o que poderá acontecer no futuro surge a certeza do risco Ricoeur 2000 p 78 nesse sentido aproximase de Jonas ao afirmar que até mesmo as intenções positivas da ciência devem ser vistas com cuidado porque existe sempre o risco dos efeitos de tais experimentos fugirem ao controle acarretando problemas no futuro Novamente a prudência no sentido aristotélico sabedoria na deliberação deve Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 21 ser o motor a priori das ações tanto individuais quanto coletivas Para onde vai o homem com todo esse artificialismo tecnocientífico Segundo Jonas a ética da responsabilidade fundada sobre a heurística do temor supõe uma radical mudança na orientação da ação humana tanto aquela direcionada aos seres naturais quanto àquela dirigida para os seres humanos não mais uma simples vontade de dominação mas controlar essa dominação Tratase não apenas de gerir da melhor forma possível os problemas atuais mas de propor alternativas que não coloquem em risco o futuro da humanidade No entendimento de Sève 1990 p 82 o temor descrito por Jonas representa um motivo racional para sermos responsáveis pela continuidade da vida tornandose assim o móvel sensível da mesma forma que é o respeito para Kant A responsabilidade na compreensão de Hans Jonas A responsabilidade jonasiana quer fundar uma proposta capaz de trazer uma reflexão profunda sobre o papel do homem contemporâneo na condução dos destinos do planeta capaz de proteger a natureza frente ao homem proteger o homem de si mesmo e assim a própria natureza humana Segundo Jonas buscar um princípio que fundamente o agir moral do homem contemporâneo é abrir um diálogo sobre a possibilidade da permanência de um mundo viável habitável A responsabilidade jonasiana busca os ideais gregos de moderação limite austeridade por serem as únicas atitudes capazes de frear a hybris do homem A responsabilidade estabelecida por Jonas emergiu em função do grande e impetuoso poder da técnica que afeta o futuro através da magnitude de seus efeitos remotos e também da sua irreversibilidade A responsabilidade jonasiana pretende preservar o homem da permanente ambigüidade da sua liberdade bem como a integridade de seu mundo e de sua essência frente aos abusos de seu poder Morin 2001 p 35 a este respeito faz o seguinte comentário a sociedade contemporânea tem uma extraordinária necessidade de responsabilidade para gerir a liberdade que possui porque nem mesmo o poder coercitivo encontrase capacitado para controlar tamanha complexidade que o homem atingiu Responsabilidade portanto é algo que advém do poder e da vontade humana atrelada à ideia de valor O argumento jonasiano é no sentido de nos dizer que se o Ser em si mesmo possui um valor e dele surge o dever de que os detentores de poder ajam de forma responsável logo a fragilidade e a precariedade do Ser diante de um poder extremo apelam para a responsabilidade O filósofo recorre à responsabilidade porque se preocupa com o alcance do poder destruidor que a técnica conferiu à humanidade ao longo do Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 22 tempo Nesta mesma direção de Jonas Vaz comenta as questões do nosso tempo evidenciando também a necessidade de mudança no ethos contemporâneo Como no tempo de Sócrates em que o ethos tradicional se desagregava ao choque da crítica sofística nosso tempo vê os grandes sistemas éticos que se entrelaçavam na sucessão de uma vigorosa e rica tradição intelectual e espiritual questionados nos seus fundamentos e refundados nas suas conclusões pela dissolução crítica que a postura científica opera sobre o próprio sujeito ético despojado do seu título mais nobre ou seja do seu poder de autodeterminarse e da especificidade mesma do seu agir implacavelmente absorvido pelo imperialismo do fazer VAZ 1993 p 223 A obrigação do sujeito ético contemporâneo nasce portanto da necessidade de proteger a biosfera e o ser humano da ciência que afastada da racionalidade moral achase detentora de uma supremacia inquestionável Em Jonas ao contrário nenhum agir humano pode ficar fora da reflexão ética pois existe o risco desta atitude resultar em problemas complexos como o agravamento do aquecimento global por exemplo Daí a necessidade de colocarmos parâmetros éticos em todas as ações do homem e não esquecermos a dialética que envolve o poder da técnica Assim o modus vivendi do homem contemporâneo atrelado ao vazio ético juntamente com o mito da neutralidade da ciência e o saber contemporâneo não vê a natureza como sendo possuidora de valor Agora tememos pelo que pode resultar da união de uma técnica sem limites com o niilismo que envolve a civilização contemporânea No século XXI o ponto de partida de qualquer ação sobretudo ações envolvendo o uso da tecnociência deve ser orientado pela prudência porque sacamos hipotecas sobre a vida futura por proveitos e necessidades presentes e de curto prazo e no que concerne a isso por necessidades na maioria das vezes autogeradas JONAS 1999 p 411 Neste contexto Jonas faz alguns esclarecimentos precisos a respeito da sua teoria da responsabilidade A responsabilidade advém do risco das catástrofes que já aconteceram e das que podem acontecer É formulada de maneira distinta e por isso tornase fundamental compreender que a responsabilidade não está mais na esfera do agente ou do ato individual nem do efeito imediato e sim na esfera do agir coletivo É uma categoria construída para conter os abusos da ciência e da técnica e se fundamenta em uma heurística do temor compreendida como princípio de precaução cuidado e prevenção Jonas com a finalidade de caracterizar a responsabilidade por ele pensada mostra a diferença entre a responsabilidade jurídica a moral a contratual e a natural Na responsabilidade jurídica as conseqüências e imputação do poder que se tem quando se é o Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 23 agente da ação nos obriga a responder juridicamente por essa mesma ação assim também é a responsabilidade pelas conseqüências de nossos atos No entanto se a ação causou um dano a outrem este deverá ser reparado independentemente de ter havido ou não intenção quanto ao resultado Para que alguém seja considerado responsável juridicamente em face de determinado resultado necessita que este alguém seja o agente ativo da ação Entretanto essa imputação só é possível quando há uma estreita relação causal entre ato e resultado de modo incontestável e objetivo Outro ponto importante acerca da responsabilidade jurídica é que à noção de compensação legal misturouse a ideia de punição que tem origem moral e qualifica o ato causal como sendo moralmente culpável Neste caso o castigo ou a pena tem como objetivo restaurar uma ordem moral perturbada com tal atitude pois o castigo poderá não restituir o dano causado O móvel causador responderá não só pela causalidade do ato mas também por sua qualidade Em suma a responsabilidade moral é representada pela disposição do sujeito de assumir seus atos A responsabilidade contratual como a do coletor de impostos por exemplo é construída de modo artificial de acordo com a tarefa tendo conteúdo e tempo determinados para ser cumprida Por isso existe a possibilidade de renunciála se o sujeito assim o quiser No entanto a responsabilidade do político mesmo sendo rescindível é considerada por Jonas como sendo um caso excepcional de responsabilidade contratual Segundo Jonas a responsabilidade do autêntico político é um caso singular de responsabilidade contratual O político autêntico para Jonas 2006 p 172 desejará que se possa dizer dele que fez o melhor possível por aqueles sobre os quais tinha poder ou seja para aqueles em virtude de quem ele tinha poder Que o sobre se torne para constitui a essência da responsabilidade Em relação à responsabilidade paterna Jonas diz ser esta o arquétipo original e intemporal da responsabilidade 2006 p 219 Ela é sobretudo o exemplo maior do dever para com o futuro A criança recémnascida não consegue sozinha sobreviver Por conseguinte para que continue a existir necessita de cuidados Mesmo que este cuidado não seja dado pelos pais biológicos alguém terá que assumir esta responsabilidade para que sua vida se conserve O político e o pai portanto representam a responsabilidade nos dois extremos da natureza e da liberdade A responsabilidade de ser pai é direcionada a alguns indivíduos em particular causada diretamente pela procriação em relação íntima e direta de parentesco ou de adoção A do político por outro lado é dirigida ao público sem acepção de pessoa Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 24 dependendo da iniciativa espontânea é realizada à distância e por meios institucionais A responsabilidade que Jonas denomina de natural é um sentimento em virtude do qual eu me sinto responsável em primeiro lugar não por minha conduta e suas conseqüências mas pelo objeto que reivindica meu agir Responsabilidade por exemplo pelo bemestar de outro É o que diz respeito ao olhar para a conta a pagar pela ação a determinação pelo que se há de fazer que vá além das formalidades que tratam da responsabilidade sobre atos e suas conseqüências O homem é responsável por si bem como pelo que se encontra à sua volta por estar ao mesmo tempo no raio de ação do seu poder submetido às suas decisões e vontades ainda quando esteja ameaçado por elas Assim sendo no objeto que exige de mim um sentimento que reconheça a sua bondade própria há um comprometimento que afeta a sensibilidade e que cala o egoísmo de poder Então o que está sob meu controle e meu poder por um direito intrínseco pode se converter no mandante e eu pela causalidade de detentor do poder posso me transformar em possuidor da obrigação do dever Depois de tomar consciência dessa ideia de responsabilidade é que haverá um compromisso efetivo em cumprir o dever que o objeto suscita no agente causal Segundo Jonas 2006 p 164 é a esse tipo de responsabilidade e de sentimento de responsabilidade e não àquela responsabilidade formal e vazia de cada ator por seu ato que temos em vista quando falamos na necessidade de ter hoje uma ética da responsabilidade futura É pensando nesse outro contingente imperfeito e vulnerável que surge a força para motivar a vontade de lutar por sua existência autêntica Desse modo para Jonas o sustentáculo desse sentimento de responsabilidade é o cuidado com a descendência contido na responsabilidade paterna 2006 p 223 A partir desse sentimento para com a prole a natureza colocou no ser humano a capacidade de ser responsável além do simples instinto A responsabilidade que aprendemos com a própria natureza que Jonas denomina de responsabilidade natural é irrevogável irrescindível e global O principal fato a ser entendido é o de que a responsabilidade é motivada pelo deverser da coisa e a relação de responsabilidade está em proteger as relações de fidelidade sobre as quais toda a sociedade está assentada para uma convivência adequada entre os seus indivíduos Para Jonas entretanto sermos responsáveis por um bem depende exclusivamente de nós visto que nossa vontade é portadora da liberdade de aceitar ou não determinadas responsabilidades como a contratual por exemplo No entanto a responsabilidade defendida por Jonas possui caráter ontológico o fato de a natureza ter Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 25 dotado o homem com a capacidade de possuir responsabilidade mesmo possuindo a liberdade de escolha nos obriga a sermos responsáveis pela continuidade da vida na Terra pois somos guardiões do Ser Nesses moldes podese aprender sobre a essência da responsabilidade que se mostra de muitos modos mas que contemplada no seu todo tem pontos comuns e leva à essência da própria natureza humana Por isso o que há de comum nestes exemplos de responsabilidade são os conceitos de totalidade de continuidade e de futuro em relação à existência e à felicidade do ser humano Impõese destacar ainda que Jonas primeiramente direciona aos governos e aos governantes a tarefa de controlar as conseqüências em curto prazo das opções políticas por eles tomadas cujos resultados só serão sentidos em longo prazo A importância das decisões políticas deve portanto remeter à prudência no sentido aristotélico diante da força do grande crescimento do corpo social e do esgotamento do ambiente natural Esse apelo que Jonas faz ao homem contemporâneo no tocante à responsabilidade para com o poder que possui demonstra que seu pensamento em relação à responsabilidade é mais abrangente do que o das éticas tradicionais Certamente que em todas essas éticas a responsabilidade encontravase presente até porque sem responsabilidade não é possível construir qualquer edifico ético Mas em Jonas o apelo é feito de maneira mais enfática ao homem com toda a sua ambigüidade e insondável liberdade Por outro lado Jonas sabe que até mesmo a responsabilidade não dará ao homem um futuro perfeito porque a imperfeição faz parte da condição humana No entanto essa responsabilidade por ele defendida poderá preservar a vida futura na Terra já que nesse ponto a utopia da tecnologia falhou A pretensão da ética jonasiana portanto não é a de oferecer à humanidade um mundo perfeito mas proteger e preservar o futuro da vida ao alargar o horizonte da responsabilidade à totalidade do mundo vivente Assim a humanidade e o planeta Terra estarão protegidos da tecnociência que acredita possuir um poder demiúrgico capaz de moldar modificar e criar um mundo novo Na realidade entretanto o que se percebe é a progressiva devastação em todos os quadrantes da Terra A crítica de Jonas à utopia do mundo tecnológico No entendimento de Jonas essa crença no progresso como solução para os problemas do homem é extremamente prejudicial pois esse ideal não se realiza sem a destruição da natureza O fato de a natureza ser vista pelo homem como uma fornecedora de matéria prima faz com que a cada dia em nome de um suposto desenvolvimento Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 26 ocorra a extinção de milhares de espécies bem como o agravamento do aquecimento global Frente a problemas como esses evidenciamse cada vez mais os perigos da utopia do progresso disfarçada pelas inovações técnicas No entanto este progresso material se dá à custa de uma tecnologia que tem preço e efeitos diversos Na agricultura a irrigação traz a salinização do solo o desflorestamento e a diminuição das taxas de oxigênio dentre outros Isso sem falar no consumo exagerado das reservas de energia não renováveis nos países ricos industrializados Na visão de Jonas tudo o que é possível dizer é que na zona onde penetramos com nossa técnica e onde de agora em diante devemos nos movimentar a senha é a prudência e não o exagero O encanto da utopia é a última coisa que deveria turvar a lucidez de que necessitamos 2006 p 295 Segundo Jonas o sentido da crítica à utopia não é de um simples exercício teórico somente mas está dirigido principalmente à prática A existência de um futuro não é pensada nesta época de urgências em curto prazo Atualmente parece que as sociedades têm conflitos com a temporalidade dado que privilegiam unicamente o presente sem levar em conta a vida futura Na visão jonasiana isso ocorre devido ao êxito econômico cuja ligação com a técnica leva à exaustão dos recursos naturais visto que o homem de hoje vive e consome muito mais do que o de antigamente Jonas rechaça assim qualquer utopia tecnológica por acreditar que a técnica sozinha não trará a felicidade ao homem e porque as ciências naturais não dizem toda a verdade sobre os efeitos da técnica em longo prazo O incremento cada vez maior na produção apesar da diminuição do trabalho tem trazido êxito econômico que empolga a sociedade dando a falsa impressão de progresso Conter tal progresso a qualquer custo deveria ser visto como nada mais do que uma precaução inteligente acompanhada de uma simples decência em relação aos nossos descendentes Em razão dos problemas enfrentados pela civilização tecnológica não podemos deixar de concordar com Leff 2001 p 35 quando afirma ser essa situação fruto de uma razão cegante que trouxe avanços em muitas áreas entretanto seus efeitos nocivos são devastadores Basta olharmos para a superexploração do Sul e o consumo desenfreado do Norte que a cada dia incrementa ainda mais o aquecimento global A antevisão da destruição defendida por Jonas revela a importância da responsabilidade para com o poder e isto faz com que o homem sintase responsável por tudo o que existe Jonas defende a necessidade de parâmetros éticos que possam frear a compulsão da tecnociência porque a moralidade encontrase agora também na obrigação Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 27 com o futuro do outro que é frágil e por isso exige cuidado para que possa um dia chegar a viver O que Jonas procura não é o afastamento da ética tradicional mas sair do enfraquecimento das doutrinas éticas frente ao novo agir do homem hodierno A pretensão da ética da responsabilidade é afastar o mito do progresso representante do sucesso imediato e mostrar que por trás dessa utopia existe a possibilidade da morte Daí surge à necessidade de sair do paradigma da ética do presente do imediato e procurar pensar as conseqüências futuras das ações humanas através da ética do futuro da responsabilidade principalmente porque os problemas ambientais causados pela ação do homem são globais e alguns deles irreversíveis Considerações finais Voltando às questões que desencadearam essas reflexões podese afirmar com Jonas a necessidade premente de incluir a natureza e a técnica na reflexão moral contemporânea A ética tradicional ao contrário deixa de lado esses dois elementos acarretando com isso o agravamento dos problemas advindos da relação do homem com a natureza e com a técnica O homem do século XXI com a sua técnica e modos predadores não pode deixar de lado a responsabilidade e levarse pela audácia das descobertas prodigiosas A reflexão moral deve andar lado a lado com a tecnociência para que a humanidade não perca a sua morada a Terra que o mantém vivo Também se confirma a exeqüibilidade da ética jonasiana por entenderse que o resgate feito por Jonas da categoria responsabilidade na ética destinada ao século XXI é um fator importante para salvaguardar a natureza das ações predatórias do ser humano A situação do homem contemporâneo mostra que nenhuma ética até então levou em consideração a possibilidade das ações humanas extinguirem do planeta a própria espécie Tal situação contudo passou a exigir uma ética que permita no presente preservar a humanidade do futuro A ética jonasiana não só defende a continuidade da vida humana como também a extrahumana por isso tornase compatível com as necessidades do homem na atual conjuntura tecnocientífica em que se encontra envolvida não apenas toda a humanidade mas toda a biosfera Com a ética da responsabilidade Jonas foi acusado de formular uma moral naturalista No entanto conservar a Terra é interesse nosso pois não há possibilidade de vida que não seja na Terra Como acentuou Ricoeur o interesse do homem coincide com o resto dos viventes e o da natureza inteira na medida em que ela é nossa pátria 1996 p 241 Se a natureza é nosso único lar então é necessário e urgente cuidarmos deste lar pois Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 28 não existe no horizonte humano nenhum outro lugar no qual possamos viver pelo menos é o que revela a própria tecnociência Bernstein 1995 p 39 diz existir na ética jonasiana um forte apelo ao antropocentrismo Para ele em várias passagens isso fica evidente quando Jonas escreve que o dever primeiro da ética é preservar a vida humana Esta interpretação entretanto não afeta em nada a teoria da responsabilidade jonasiana pois esta não defende somente a vida humana mas a vida em todas as suas dimensões Em Jonas não há a negação do homem o traço antropolítico da ética é mantido mas sem antropocentrismo Por outro lado o próprio Bernstein 1995 p 48 reconhece a importância das reflexões jonasianas ao dizer que o imperativo da responsabilidade é reconhecidamente um chamado para a modéstia tão ausente no mundo da tecnociência Bernstein considera também a força da construção ética jonasiana ao dizer que Jonas falava de problemas essenciais a um público temeroso com a questão ecológica e as perigosas conseqüências da dinâmica da tecnologia Aqui existiu um filósofo que desafiava algumas de nossas reservas mais fortes no tocante ao progresso e à perfeição da utopia advertindonos para sermos cuidadosos e equilibrados para conseguirmos preservar a continuidade da vida Por conseguinte ao propor a ética da responsabilidade para solucionar o problema da relação homemnatureza Jonas responde a uma das importantes questões de nosso tempo ou seja a crise ambiental global e os efeitos muitas vezes irreversíveis de uma técnica posta em prática sem antes avaliar as conseqüências que poderão advir com tal prática Para todos que se empenham em salvar a vida na terra a ética da responsabilidade oferece bons caminhos Referências ARISTÓTELES Ética a Nicômaco Trad Leonel Vallandro e Gerd Bornheim Rio de Janeiro Abril Cultural 1973 Coleção Os Pensadores BERSTEIN R J Rethinking responsibility The Hastings Center Report New York v 25 n 7 p 1325 Special Issue1995 BRÜSEKE F J Pressão modernizante Estado territorial e sustentabilidade In CAVALCANTI Clóvis Org Meio ambiente desenvolvimento sustentável e políticas públicas São Paulo Cortez 2002 p 112130 DESCARTES R Discurso do método Trad J Guinsburg e Bento Prado Júnior São Paulo Abril 2000 Coleção Os Pensadores GIACOIA JÚNIOR O Hans Jonas O princípio responsabilidade In Oliveira Manfredo Org Correntes fundamentais da ética contemporânea Petrópolis Vozes 2000 p 193206 HEIDEGGER M Que é isto a filosofia Identidade e diferença Petrópolis Vozes 2006 JONAS H The imperative of responsibility In search of an ethics for the technological age Caldas Raimunda Diva R Hans Jonas uma proposta ética Cadernos do PET Filosofia Volume 1 Nº 2 2010 ISSN 21785880 29 Translated by Hans Jonas with the collaboration of David Herr Chicago University of Chicago Press 1984 Por que a técnica é um objeto para a ética Trad Oswaldo Giacoia Jr Revista Internacional de Filosofia e práticas Psicoterápicas São Paulo Educ v 1 n 2 1999 p 407422 O princípio vida fundamentos para uma biologia filosófica Trad Carlos Almeida Pereira Petrópolis Vozes 2004 O princípio responsabilidade ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Trad Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez Rio de janeiro ContrapontoEditora da PUCRIO 2006 KANT I Fundamentação da metafísica dos costumes Trad Paulo Quintela Lisboa Edições 70 1999 LEFF E Saber ambiental sustentabilidade racionalidade complexidade e poder Petrópolis Vozes 2001 MORIN E Para sair do século XX Rio de Janeiro Nova Fronteira 2001 PLATÃO A República Trad Enrico Corvisieri Rio de Janeiro Abril Cultural 2000 Coleção Os Pensadores RICOEUR P A região dos filósofos São Paulo Loyola 1996 The concept of responsibility an essay in semantic analysis Chicago The University of Chicago Press 2000 SÈVE Bernard Hans Jonas et léthique de la responsabilité Revue Espirit Paris n 165 p 7288 octobre 1990 VAZ H C L Escritos de filosofia I São Paulo Loyola 1993 VIEIRA Antônio Sermões do padre Vieira Porto Alegre LPM Editores 2006 WOLIN Richard Heideggers children Hannah Arendt Karl Löwith Hans Jonas and Herbet Marcuse New Jersey Princeton University Press 2003 UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMIÁRIDO CAMPUS PAU DOS FERROS RN Ética e Legislação Profª Drª Katia Santos PSH1877 T1 e T2 20221 Reposição Data de entrega 23112022 Local de entrega sala de aula durante o período da aula normal Atentar para o que diz a Resolução CONSEPEUFERSA N 0042018 de 13 de setembro de 2018 Art 17 O discente que não comparecer a um ou mais procedimento avaliativo terá direito a apenas uma avaliação de reposição por componente curricular 1º O prazo para a realização da reposição é de no mínimo 3 três dias úteis após a realização da 3ª avaliação 2º Para realizar a avaliação de reposição o discente deverá requerer no SIGAA a solicitação de reposição com justificativa em até 2 dois dias antes da realização da reposição 3º Ao discente que não realizar a reposição será atribuída nota 00 zero Para qualquer avaliação que tenha sido perdida Elaborar uma resenha crítica do seguinte artigo RIBEIRO Raimunda Diva de Vasconcelos Hans Jonas uma proposta ética à civilização tecnológica Cadernos PET de Filosofia Volume 1 n 2 2010 pp 1329 Disponível em PDF no SIGAA e também no link httpsperiodicosufpibrindexphppetarticleview21431967 Critérios de avaliação da resenha Cumprimento de todos os itens da resenha 1 ponto Correção gramatical 1 ponto Clareza 1 Descrição correta do conteúdo do artigo 4 pontos Boa análise crítica pessoal 3 pontos IMPORTANTE 1 caso seja constatado plágio na resenha mesmo que seja uma única frase a nota atribuída será 0 2 caso haja duas resenhas iguais ou muito semelhantes será atribuída a nota 0 a ambas 3 O texto deverá estar preferencialmente digitado UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMIÁRIDO CAMPUS PAU DOS FERROS RN Ética e Legislação Profª Drª Katia Santos PSH1877 T1 e T2 20221 COMO FAZER UMA RESENHA CRÍTICA httpsedisciplinasuspbrpluginfilephp3708392modfoldercontent0Como20fazer20u ma20resenhadocforcedownload1 Como um gênero textual uma resenha nada mais é do que um texto em forma de síntese que expressa a opinião do autor sobre um determinado fato cultural que pode ser um livro um filme peças teatrais exposições shows etc O objetivo da resenha é guiar o leitor pelo emaranhado da produção cultural que cresce a cada dia e que tende a confundir até os mais familiarizados com todo esse conteúdo Como uma síntese a resenha deve ir direto ao ponto mesclando momentos de pura descrição com momentos de crítica direta O resenhista que conseguir equilibrar perfeitamente esses dois pontos terá escrito a resenha ideal No entanto sendo um gênero necessariamente breve é perigoso recorrermos ao erro de sermos superficiais demais Nosso texto precisa mostrar ao leitor as principais características do fato cultural sejam elas boas ou ruins mas sem esquecer de argumentar em determinados pontos e nunca usar expressões como Eu gostei ou Eu não gostei Na resenha acadêmica crítica os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa 1 Identifique a obra coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar 2 Apresente a obra situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado 3 Descreva a estrutura fale sobre a divisão em capítulos em seções sobre o foco narrativo ou até de forma sutil o número de páginas do texto completo 4 Descreva o conteúdo Aqui sim utilize de 3 a 5 parágrafos para resumir claramente o texto resenhado 5 Analise de forma crítica Nessa parte e apenas nessa parte você vai dar sua opinião Argumente baseandose em teorias de outros autores fazendo comparações ou até mesmo utilizandose de explicações que foram dadas em aula É difícil encontrarmos resenhas que utilizam mais de 3 parágrafos para isso porém não há um limite estabelecido Dê asas ao seu senso crítico 6 Recomende a obra Você já leu já resumiu e já deu sua opinião agora é hora de analisar para quem o texto realmente é útil se for útil para alguém Utilize elementos sociais ou pedagógicos baseiese na idade na escolaridade na renda etc 7 Identifique o autor Cuidado Aqui você fala quem é o autor da obra que foi resenhada e não do autor da resenha no caso você Fale brevemente da vida e de algumas outras obras do escritor ou pesquisador 8 Assine e identifiquese Agora sim No último parágrafo você escreve seu nome e fala algo como Acadêmico do Curso de Letras da Universidade de Caxias do Sul UCS RESENHA CRÍTICA O artigo inicia abordando os aspectos positivos que a tecnologia possibilita à sociedade entretanto aponta que sem a conduta ética necessária para sua aplicação acaba ocorrendo um conflito generalizado O autor aponta da seguinte forma Quanto maior o poder maior o individualismo gerado Aborda que um dos questionamentos mais fortes durante o século XX foi a relação entre homem natureza e tecnologia e seus respectivos impactos na sociedade e no mundo A partir de alguns posicionamentos de autores podemos abordar dois uma postura que defende o avanço tecnológico e seus benefícios ao mundo e o posicionamento da conduta ética de responsabilidade que remete a um posicionamento equilibrado entre avanço tecnológico e preservação de natureza mediando assim a relação entre ambos Será possível haver um contraponto entre avanços tecnológicos e preservação da natureza O autor complementa que o ser humano pode ser visto como um ser destrutivo tanto para ele próprio como para os seus iguais e isso pode repercutir na natureza Para tal é preciso haver um discernimento entre técnica e natureza Mas para que esse discernimento ocorra é preciso que uma sociedade inteira consiga compreender sua profundidade e que seus posicionamentos sejam similares no caso o de preservação Entretanto em um meio social onde a tecnologia possui bastante influencia é difícil quebrar esse padrão já inserido no meio social O autor evidencia sua visão sobre a mudança da moral do ser humano que antes consistia em dar importância as leis naturais e a preservação da natureza e atualmente visa um pensamento mais egocêntrico e individualista A partir dessa premissa podemos concluir que há uma grande diferença no aspecto ser e agir A tecnologia que em seu início era vista como algo para somar hoje é o principal eixo para direcionamento de decisões e pensamentos A natureza por sua vez hoje é vista como uma forma de obtenção de bens materiais A partir desse cenário me posiciono da seguinte forma É importante compreendermos dois conceitos importantes o de querer e o de poder A responsabilidade ética que direciona ambos os conceitos e é a partir dela que uma sociedade inteira pode ter um sentido A melhor forma de mudarmos o futuro é através da consciência do momento atual O maior problema do egocentrismo é a ausência de preocupação com o futuro Existe uma busca constante tecnológica de melhorias mas há um esquecimento generalizado sobre as consequências do mesmo