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Ética Geral e Profissional

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Hans Jonas O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica TRADUÇÃO DO ORIGINAL ALEMÃO Marijane Lisboa Luiz Barros Montez CONTRAPONTO Insel Verlag Frankfurt am Main 1979 Direitos para o Brasil adquiridos por Contraponto Editora Ltda A publicação desta obra contou com o apoio do Instituto Goethe Contraponto Editora Ltda Av Franklin Roosevelt 23 1405 Rio de Janeiro RJ CEP 20021120 Telefax 21 25440206 22156148 Site wwwcontrapontoeditoracombr Email contatocontrapontoeditoracombr Editora PUCRio Rua Marquês de S Vicente 225 casa da Editora Projeto Comunicar Gávea Rio de Janeiro RJ CEP 22451900 Telefax 21 35271838 35271760 Site wwwpucriobreditorapucrio Email edpucriopucriobr Conselho Editorial Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio Cesar Romero Jacob Fernando Sá José Ricardo Bergmann Luiz Roberto A Cunha Miguel Pereira Paulo Fernando Carneiro de Andrade e Reinaldo Calixto de Campos Preparação de originais César Benjamin Revisão Debora Barros Capa e projeto gráfico Regina Ferraz Texto revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa 2ª reimpressão fevereiro de 2015 Tiragem 2000 exemplares Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por quaisquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocópia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita das editoras CIPBRASIL CATALOGAÇÃONAFONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS RJ J66p Jonas Hans 19031993 O princípio responsabilidade ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Hans Jonas tradução do original alemão Marijane Lisboa Luiz Barros Montez Rio de Janeiro Contraponto Ed PUCRio 2006 354p 23 cm Tradução de Das Prinzip Verantwortung Versuch einer ethic für die Technologische Zivilisation ISBN 9788585910846 1 Responsabilidade 2 Tecnologia Aspectos morais e éticos 3 Ética I Título CDD 17042 CDU 17 062515 II CARACTERÍSTICAS DA ÉTICA ATÉ O MOMENTO PRESENTE Tomemos do passado aquelas características do agir humano significativas para uma comparação com o estado atual de coisas 1 Todo o trato com o mundo extrahumano isto é todo o domínio da techne habilidade era à exceção da medicina eticamente neutro considerandose tanto o objeto quanto o sujeito de tal agir do ponto de vista do objeto porque a arte só afetava superficialmente a natureza das coisas que se preservava como tal de modo que não se colocava em absoluto a questão de um dano duradouro à integridade do objeto e à ordem natural em seu conjunto do ponto de vista do sujeito porque a techne como atividade compreendiase a si mesma como um tributo determinado pela necessidade e não como um progresso que se autojustifica como fim precípuo da humanidade em cuja perseguição engajamse o máximo esforço e a participação humanos A verdadeira vocação do homem encontravase alhures Em suma a atuação sobre objetos não humanos não formava um domínio eticamente significativo 2 A significação ética dizia respeito ao relacionamento direto de homem com homem inclusive o de cada homem consigo mesmo toda ética tradicional é antropocêntrica 3 Para efeito da ação nessa esfera a entidade homem e sua condição fundamental era considerada como constante quanto à sua essência não sendo ela própria objeto da techne arte reconfiguradora 4 O bem e o mal com o qual o agir tinha de se preocupar evidenciavamse na ação seja na própria práxis ou em seu alcance imediato e não requeriam um planejamento de longo prazo Essa proximidade de objetivos era válida tanto para o tempo quanto para o espaço O alcance efetivo da ação era pequeno o intervalo de tempo para previsão definição de objetivo e imputabilidade era curto e limitado o controle sobre as circunstâncias O comportamento correto possuía seus critérios imediatos e sua consecução quase imediata O longo trajeto das consequências ficava ao critério do acaso do destino ou da providência Por conseguinte a ética tinha a ver com o aqui e agora como as ocasiões se apresentavam aos homens com as situações recorrentes e típicas da vida privada e pública O homem bom era o que se defrontava virtuosa e sabiamente com essas ocasiões que cultivava em si a capacidade para tal e que no mais conformavase com o desconhecido 5 Todos os mandamentos e máximas da ética tradicional fossem quais fossem suas diferenças de conteúdo demonstram esse confinamento ao círculo imediato da ação Ama o teu próximo como a ti mesmo Faze aos outros o que gostarias que eles fizessem a ti Instrui teu filho no caminho da verdade Almeja a excelência por meio do desenvolvimento e da realização das melhores possibilidades da tua existência como homem Submete o teu bem pessoal ao bem comum Nunca trate os teus semelhantes como simples meios mas sempre como fins em si mesmos e assim por diante Em todas essas máximas aquele que age e o outro de seu agir são partícipes de um presente comum Os que vivem agora e os que de alguma forma têm trânsito comigo são os que têm alguma reivindicação sobre minha conduta na medida em que esta os afete pelo fazer ou pelo omitir O universo moral consiste nos contemporâneos e o seu horizonte futuro limitase à extensão previsível do tempo de suas vidas Com o horizonte espacial do lugar ocorre algo semelhante no qual o que age e o outro se encontram como vizinhos amigos ou inimigos como superior hierárquico e subalterno como o mais forte e o mais fraco e em todos os outros papéis nos quais os homens têm a ver uns com os outros Toda moralidade situavase dentro dessa esfera da ação Seguese daí que o saber exigido ao lado da vontade moral para afiançar a moralidade da ação corresponde a esta delimitação não é o conhecimento do cientista ou do especialista mas o saber de um tipo que se encontra ao alcance de todos os homens de boa vontade Kant chegou a dizer que em matéria de moral a razão humana pode facilmente atingir um alto grau de exatidão e perfeição mesmo entre as mentes mais simples1 Que não é necessária uma ciência ou filosofia para se saber o que deve ser feito para se ser honesto e bom e mesmo sábio e virtuoso A inteligência comum pode ambicionar alcançar o bem tão bem quanto qualquer filósofo pretenda para si2 Para saber o que devo fazer para que minha vontade 1 Fundamentação da metafísica dos costumes Prefácio 2 Ibidem Primeira parte 36 CAPÍTULO I A NATUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO seja moral para tanto não preciso de nenhuma perspicácia de longo alcance Inexperiente na compreensão do percurso do mundo incapaz de prepararme para os incidentes sucessivos do mesmo ainda assim posso saber como devo agir em conformidade com a lei moral3 Nenhum outro teórico da ética foi tão longe na diminuição do lado cognitivo do agir moral Mas mesmo quando este ganha um significado muito maior como em Aristóteles para quem o conhecimento da situação e daquilo que lhe convinha estabelece exigências consideráveis à experiência e ao juízo tal saber nada tem a ver com a ciência teórica Ele evidentemente implicava um conceito universal do bem humano como tal baseado em determinadas constantes da natureza e da situação humana e esse conceito universal do bem poderia ou não ser desenvolvido numa teoria própria Mas a sua transposição para a prática exige um conhecimento do aqui e agora e este é inteiramente nãoteórico Esse conhecimento próprio da virtude o de saber onde quando a quem e como se deve fazer o quê prendese às circunstâncias imediatas em cujo contexto definido a ação segue o seu curso como ação do ator individual nele encontrando igualmente o seu fim Se uma ação é boa ou má tal é inteiramente decidido no interior desse contexto de curto prazo Sua autoria nunca é posta em questão e sua qualidade moral é imediatamente inerente a ela Ninguém é julgado responsável pelos efeitos involuntários posteriores de um ato bemintencionado bemrefletido e bemexecutado O braço curto do poder humano não exigiu qualquer braço comprido do saber passível de predição a pequenez de um foi tão pouco culpada quanto a do outro Precisamente porque o bem humano concebido em sua generalidade é o mesmo para todas as épocas sua realização ou violação ocorre a qualquer momento e seu lugar completo é sempre o presente 3 Ibidem 37 III NOVAS DIMENSÕES DA RESPONSABILIDADE Tudo isso se modificou decisivamente A técnica moderna introduziu ações de uma tal ordem inédita de grandeza com tais novos objetos e consequências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrálas O coro da Antígona sobre o Ungeheure o fantástico poder do homem soaria bem diferente hoje assumindo a palavra fantástico um outro sentido e não mais bastaria a advertência aos indivíduos para que respeitassem as leis Também já há muito não estão mais aqui os deuses cujos direitos reconhecidos poderiam contraporse às fantásticas ações humanas Decerto que as antigas prescrições da ética do próximo as prescrições da justiça da misericórdia da honradez etc ainda são válidas em sua imediaticidade íntima para a esfera mais próxima quotidiana da interação humana Mas essa esfera tornase ensombrecida pelo crescente domínio do fazer coletivo no qual ator ação e efeito não são mais os mesmos da esfera próxima Isso impõe à ética pela enormidade de suas forças uma nova dimensão nunca antes sonhada de responsabilidade 1 A vulnerabilidade da natureza Tomese por exemplo como primeira grande alteração ao quadro herdado a crítica vulnerabilidade da natureza provocada pela intervenção técnica do homem uma vulnerabilidade que jamais fora pressentida antes de que ela se desse a conhecer pelos danos já produzidos Essa descoberta cujo choque levou ao conceito e ao surgimento da ciência do meio ambiente ecologia modifica inteiramente a representação que temos de nós mesmos como fator causal no complexo sistema das coisas Por meio de seus efeitos ela nos revela que a natureza da ação humana foi modificada de facto e que um objeto de ordem inteiramente nova nada menos do que a biosfera inteira do planeta acresceuse àquilo pelo qual temos de ser responsáveis pois sobre ela detemos poder Um objeto de uma magnitude tão impressionante diante da qual todos os antigos objetos da ação humana parecem minúsculos A natureza como uma responsabilidade humana é seguramente um novum sobre o qual uma nova teoria ética deve ser pensada Que tipo de deveres ela exigirá Haverá algo mais do que o interesse utilitário É simplesmente a prudência que reco 39 menda que não se mate a galinha dos ovos de ouro ou que não se serre o galho sobre o qual se está sentado Mas este que aqui se senta e que talvez caia no precipício quem é E qual é o meu interesse no seu sentar ou cair Enquanto for o destino do homem dependente da situação da natureza a principal razão que torna o interesse na manutenção da natureza um interesse moral ainda se mantém a orientação antropocêntrica de toda ética clássica Mesmo assim a diferença é grande Desaparecem as delimitações de proximidade e simultaneidade rompidas pelo crescimento espacial e o prolongamento temporal das sequências de causa e efeito postas em movimento pela práxis técnica mesmo quando empreendidas para fins próximos Sua irreversibilidade em conjunção com sua magnitude condensada introduz outro fator de novo tipo na equação moral Acresçase a isso o seu caráter cumulativo seus efeitos vão se somando de modo que a situação para um agir e um existir posteriores não será mais a mesma da situação vivida pelo primeiro ator mas sim crescentemente distinta e cada vez mais um resultado daquilo que já foi feito Toda ética tradicional contava somente com um comportamento não cumulativo4 A situação básica entre pessoas na qual a virtude tem de ser comprovada e o vício desmascarado permanece sempre a mesma Com ela todo ato recomeça do zero As ocasiões recorrentes que conforme a sua classe dispõem as suas alternativas de ação coragem ou covardia ponderação ou excesso verdade ou mentira etc restabelecem a cada vez as condições originárias Estas são insuperáveis Mas a autopropagação cumulativa da mudança tecnológica do mundo ultrapassa incessantemente as condições de cada um de seus atos contribuintes e transcorrer em meio a situações sem precedentes diante das quais os ensinamentos da experiência são impotentes E a acumulação como tal não contente em modificar o seu início até a desfiguração pode até mesmo destruir a condição fundamental de toda a sequência o pressuposto de si mesma Tudo isso deveria estar compreendido na vontade do ato singular caso este deva ser moralmente responsável 4 Excetuandose a autoformação e a educação Praticar a virtude por exemplo é também um exercício na virtude fortalece as forças morais e transforma a sua prática em hábito de forma análoga o vício Mas a essência fundamental nua e crua pode sempre irromper o mais virtuoso de todos pode ser arrastado na destrutiva tempestade da paixão e o mais depravado pode vivenciar o inverso Ainda é possível algo assim nas mudanças cumulativas nas condições de existência sedimentadas pela tecnologia ao longo de seu caminho 40 CAPÍTULO I A NATUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO 2 O novo papel do saber na moral Sob tais circunstâncias o saber tornase um dever prioritário mais além de tudo o que anteriormente lhe era exigido e o saber deve ter a mesma magnitude da dimensão causal do nosso agir Mas o fato de que ele realmente não possa ter a mesma magnitude isto é de que o saber previdente permaneça atrás do saber técnico que confere poder ao nosso agir ganha ele próprio significado ético O hiato entre a força da previsão e o poder do agir produz um novo problema ético Reconhecer a ignorância tornase então o outro lado da obrigação do saber e com isso tornase uma parte da ética que deve instruir o autocontrole cada vez mais necessário sobre o nosso excessivo poder Nenhuma ética anterior virase obrigada a considerar a condição global da vida humana e o futuro distante inclusive a existência da espécie O fato de que hoje eles estejam em jogo exige numa palavra uma nova concepção de direitos e deveres para a qual nenhuma ética e metafísica antiga pode sequer oferecer os princípios quanto mais uma doutrina acabada 3 Um direito moral próprio da natureza E se o novo modo do agir humano significasse que devêssemos levar em consideração mais do que somente o interesse do homem pois nossa obrigação se estenderia para mais além e que a limitação antropocêntrica de toda ética antiga não seria mais válida Ao menos deixou de ser absurdo indagar se a condição da natureza extrahumana a biosfera no todo e em suas partes hoje subjugadas ao nosso poder exatamente por isso não se tornaram um bem a nós confiados capaz de nos impor algo como uma exigência moral não somente por nossa própria causa mas também em causa própria e por seu próprio direito Se assim for isso requereria alterações substanciais nos fundamentos da ética Isso significaria procurar não só o bem humano mas também o bem das coisas extrahumanas isto é ampliar o reconhecimento de fins em si para além da esfera do humano e incluir o cuidado com estes no conceito de bem humano Nenhuma ética anterior além da religião nos preparou para um tal papel de fiel depositário e a visão científica de natureza menos ainda Esta última recusanos até mesmo peremptoriamente qualquer direito teórico de pensar a natureza como algo que devamos respeitar uma vez que ela a reduziu à indiferença da necessidade e do acaso despindoa de toda 41 dignidade de fins Entretanto um apelo mudo pela preservação de sua integridade parece escapar da plenitude ameaçada do mundo vital Devemos ouvilo reconhecer sua exigência como obrigatória porque sancionada pela natureza das coisas ou então devemos ver nele pura e simplesmente um sentimento nosso com o qual devemos transigir quando quisermos ou na medida em que pudermos nos dar ao luxo de fazêlo A primeira alternativa se tomada a sério em suas implicações teóricas nos impeliria a estender a reflexão sobre as alterações mencionadas e avançar além da doutrina do agir ou seja da ética até a doutrina do existir ou seja da metafísica na qual afinal toda ética deve estar fundada Mais não pretendo tratar aqui desse objeto especulativo a não ser dizendo que deveríamos nos manter abertos para a ideia de que as ciências naturais não pronunciam toda a verdade sobre a natureza 42 IV TECNOLOGIA COMO VOCAÇÃO DA HUMANIDADE 1 Homo faber acima do homo sapiens Se retornarmos às ponderações estritamente interhumanas há ainda um outro aspecto ético no fato de que a techne como esforço humano tenha ultrapassado os objetivos pragmaticamente delimitados dos tempos antigos Àquela época como vimos a técnica era um tributo cobrado pela necessidade e não o caminho para um fim escolhido pela humanidade um meio com um grau finito de adequação a fins próximos claramente definidos Hoje na forma da moderna técnica a techne transformouse em um infinito impulso da espécie para adiante seu empreendimento mais significativo Somos tentados a crer que a vocação dos homens se encontra no contínuo progresso desse empreendimento superandose sempre a si mesmo rumo a feitos cada vez maiores A conquista de um domínio total sobre as coisas e sobre o próprio homem surgiria como a realização do seu destino Assim o triunfo do homo faber sobre o seu objeto externo significa ao mesmo tempo o seu triunfo na constituição interna do homo sapiens do qual ele outrora costumava ser uma parte servil Em outras palavras mesmo desconsiderando suas obras objetivas a tecnologia assume um significado ético por causa do lugar central que ela agora ocupa subjetivamente nos fins da vida humana Sua criação cumulativa isto é o meio ambiente artificial em expansão reforça por um contínuo efeito retroativo os poderes especiais por ela produzidos aquilo que já foi feito exige o emprego inventivo incessante daqueles mesmos poderes para manterse e desenvolverse recompensandoo com um sucesso ainda maior o que contribui para o aumento de suas ambições Esse feedback positivo de necessidade funcional e recompensa em cuja dinâmica o orgulho pelo desempenho não deve ser esquecido alimenta a superioridade crescente de um dos lados da natureza humana sobre todos os outros e inevitavelmente às custas deles Não há nada melhor que o sucesso e nada nos aprisiona mais que o sucesso O que quer que pertença à plenitude do homem fica eclipsado em prestígio pela extensão de seu poder de modo que essa expansão na medida em que vincula mais e mais as forças humanas à sua empresa é acompanhada de uma contração do conceito do homem sobre si próprio e de seu Ser Na imagem que ele 43 HANS JONAS O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE conserva de si mesmo na representação programática que determina o seu Ser atual tão bem quanto o reflete o homem atual é cada vez mais o produtor daquilo que ele produziu e o feitor daquilo que ele pode fazer mais ainda é o preparador daquilo que ele em seguida estará em condição de fazer Mas quem é ele Nem vocês nem eu importam aqui o ator coletivo e o ato coletivo não o ator individual e o ato individual e o horizonte relevante da responsabilidade é fornecido muito mais pelo futuro indeterminado do que pelo espaço contemporâneo da ação Isso exige imperativos de outro tipo Se a esfera do produzir invadiu o espaço do agir essencial então a moralidade deve invadir a esfera do produzir da qual ela se mantinha afastada anteriormente e deve fazêlo na forma de política pública Nunca antes a política pública teve de lidar com questões de tal abrangência e que demandassem projeções temporais tão longas De fato a natureza modificada do agir humano altera a natureza fundamental da política 2 A cidade universal como segunda natureza e o dever ser do homem no mundo Pois a fronteira entre Estado pólis e natureza foi suprimida a cidade dos homens outrora um enclave no mundo nãohumano espalhase sobre a totalidade da natureza terrestre e usurpa o seu lugar A diferença entre o artificial e o natural desapareceu o natural foi tragado pela esfera do artificial simultaneamente o artefato total as obras do homem que se transformaram no mundo agindo sobre ele e por meio dele criaram um novo tipo de natureza isto é uma necessidade dinâmica própria com a qual a liberdade humana defrontase em um sentido inteiramente novo Outrora se podia dizer fiat iustitia pereat mundus que se faça justiça mesmo que o mundo pereça onde mundo significava evidentemente o enclave renovável na totalidade imperecível essa frase não pode mais ser empregada sequer retoricamente quando o perecer da totalidade se tornou uma possibilidade real por causa dos feitos humanos justos ou injustos Questões que nunca foram antes objeto de legislação ingressam no circuito das leis que a cidade global tem de formular para que possa existir um mundo para as próximas gerações de homens 44 CAPÍTULO I A NATUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO humanidade digna desse nome ideia tão convincente e tão improvável como a assertiva de que a existência de um mundo é sempre melhor do que a existência de nenhum mas como proposição moral isto é como uma obrigação prática perante a posteridade de um futuro distante e como princípio de decisão na ação presente a assertiva é muito distinta dos imperativos da antiga ética da simultaneidade e ela somente ingressou na cena moral com os nossos novos poderes e o novo alcance da nossa capacidade de previsão A presença do homem no mundo era um dado primário e indiscutível de onde partia toda ideia de dever referente à conduta humana agora ela própria tornouse um objeto de dever isto é o dever de proteger a premissa básica de todo o dever ou seja precisamente a presença de meros candidatos a um universo moral no mundo físico do futuro isso significa entre outras coisas conservar este mundo físico de modo que as condições para uma tal presença permaneçam intactas e isso significa proteger a sua vulnerabilidade diante de uma ameaça dessas condições Um exemplo poderá ilustrar a diferença que isso traz para a ética 45 V VELHOS E NOVOS IMPERATIVOS 1 O imperativo categórico de Kant dizia Aja de modo que tu também possas querer que tua máxima se torne lei geral Aqui o que tu possas invocado é aquele da razão e de sua concordância consigo mesma a partir da suposição da existência de uma sociedade de atores humanos seres racionais em ação a ação deve existir de modo que possa ser concebida sem contradição como exercício geral da comunidade Chamese atenção aqui para o fato de que a reflexão básica da moral não é propriamente moral mas lógica o poder ou não poder querer expressa autocompatibilidade ou incompatibilidade e não aprovação moral ou desaprovação Mas não existe nenhuma contradição em si na ideia de que a humanidade cesse de existir e dessa forma também nenhuma contradição em si na ideia de que a felicidade das gerações presentes e seguintes possa ser paga com a infelicidade ou mesmo com a nãoexistência de gerações pósteras tampouco afinal como a ideia contrária de que a existência e a felicidade das gerações futuras seja paga com a infelicidade e mesmo com a eliminação parcial da presente O sacrifício do futuro em prol do presente não é logicamente mais refutável do que o sacrifício do presente a favor do futuro A diferença está apenas em que em um caso a série segue adiante e no outro não Mas que ela deva seguir adiante independentemente da distribuição de felicidade e infelicidade e até com o predomínio da infelicidade sobre a felicidade e mesmo com o da imoralidade sobre a moralidade5 tal não se pode deduzir da regra da coerência no interior da série por maior ou menor que seja a sua extensão Tratase de um mandamento de um tipo inteiramente diferente externo e prévio àquela série e cujo fundamento último só pode ser metafísico 2 Um imperativo adequado ao novo tipo de agir humano e voltado para o novo tipo de sujeito atuante deveria ser mais ou menos assim Aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra ou expresso negativamente Aja de modo a que os efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a possibilidade futura de uma tal vida ou simplesmente Não ponha em perigo as condições necessárias para a conservação indefinida da humanidade sobre a Terra ou em um uso novamente positivo Inclua na tua escolha presente a futura integridade do homem como um dos objetos do teu querer 3 É fácil perceber que a infração desse tipo de imperativo não conduz a nenhuma contradição Eu posso querer o bem presente ao preço do sacrifício do bem futuro Eu posso querer assim como o meu próprio fim também o fim da humanidade Sem cair em contradição posso preferir no meu caso pessoal bem como no da humanidade uma breve queima de fogos de artifício que permita a mais completa autorealização à monotonia de uma continuação interminável na mediocridade Mas o novo imperativo diz que podemos arriscar a nossa própria vida mas não a da humanidade que Aquiles tinha sim o direito de escolher para si uma vida breve cheia de atos gloriosos em vez de uma vida longa em uma segurança sem glórias sob o pressuposto tácito de que haveria uma posteridade que saberia contar os seus feitos mas que nós não temos o direito de escolher a nãoexistência de futuras gerações em função da existência da atual ou mesmo de as colocar em risco Não é fácil justificar teoricamente e talvez sem religião seja mesmo impossível por que não temos esse direito por que ao contrário temos um dever diante daquele que ainda não é nada e que não precisa existir como tal e que seja como for na condição de nãoexistente não reivindica existência De início o nosso imperativo se apresenta sem justificativa como um axioma 4 Além disso é evidente que o nosso imperativo voltase muito mais à política pública do que à conduta privada não sendo esta última a dimensão causal na qual podemos aplicálo O imperativo categórico de Kant era voltado para o indivíduo e seu critério era momentâneo Ele exortava cada um de nós a ponderar sobre o que aconteceria se a máxima de sua ação atual fosse transformada em um princípio da legislação geral a coerência ou incoerência de uma tal generalização hipotética transformase na prova da minha escolha privada Mas em nenhuma parte dessa reflexão racional se admitia qualquer probabilidade de que minha escolha privada fosse de fato lei geral ou que pudesse de alguma maneira contribuir para tal generalização De fato não estamos considerando em absoluto consequências reais O princípio não é aquele da responsabilidade objeti CAPÍTULO I A NATUREZA MODIFICADA DO AGIR HUMANO va e sim o da constituição subjetiva de minha autodeterminação O novo imperativo clama por outra coerência não a do ato consigo mesmo mas a dos seus efeitos finais para a continuidade da atividade humana no futuro E a universalização que ele visualiza não é hipotética isto é a transferência meramente lógica do eu individual para um todos imaginário sem conexão causal com ele se cada um fizesse assim ao contrário as ações subordinadas ao novo imperativo ou seja as ações do todo coletivo assumem a característica de universalidade na medida real de sua eficácia Elas totalizam a si próprias na progressão de seu impulso desembocando forçosamente na configuração universal do estado das coisas Isso acresce ao cálculo moral o horizonte temporal que falta na operação lógica e instantânea do imperativo kantiano se este último se estende sobre uma ordem sempre atual de compatibilidade abstrata nosso imperativo se estende em direção a um previsível futuro concreto que constitui a dimensão inacabada de nossa responsabilidade