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Cursos Gerais ·

Ética Geral e Profissional

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Natureza Humana 124074201999 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética Oswaldo Giacoia Junior Departamento de Filosofia IFCHUnicamp I Apresentação Uma reflexão sobre a época da técnica em que vivemos e a his tória da metafísica da qual essa época se originou não pode mais hoje em dia passar ao largo da obra filosófica de Hans Jonas Com efeito a obra filosófica de Jonas representa na contemporaneidade um dos mais notáveis esforços teóricos para se colocar à altura do desafio que consiste em instaurar com base em seu princípio responsabilidade um projeto de ética para a civilização tecnológica radicalmente distinto dos sistemas éticos tradicionalmente herdados da história da metafísica Em seu esfor ço por adquirir maturidade e consistência filosófica consentâneas com as pretensões desse empreendimento o pensamento de Hans Jonas especi almente sua problematização da civilização tecnológica e das característi cas distintitivas da moderna tecnociência revelase profundamente tri butário da desconstrução heideggeriana da metafísica ocidental e da re flexão de Heidegger a respeito da essência da técnica moderna Não por acaso Jonas foi aluno de Heidegger Tributário significa certamente caudatário mas de maneira nenhuma simples transporte sectário da re flexão de Heidegger para um outro plano de problematização menos ainda adesão servil ao pensamento do mestre Oswaldo Giacoia Junior 408 408 408 408 408 O propósito dessa apresentação é expor brevemente os pontos fundamentais da posição de Jonas a respeito das relações entre a ética e a técnica utilizando a tradução de seu texto Por que a técnica moderna é um objeto para a ética Tais pontos incluem de modo direito ou indire to questões relativas às práticas clínicas em particular às técnicas de in tervenção terapêutica e de engenharia biomédica O texto de Jonas se apresenta como uma reflexão singela e aparentemente despojada mas que permite entrever a profundidade e a extensão de seus vínculos com a crítica heideggeriana da metafísica ao mesmo tempo em que alude de maneira quase elíptica a diferenças e oposições profundas que separam tal reflexão da filosofia da técnica de Martin Heidegger O texto apresentado a seguir foi traduzido da versão alemã En contrase incluído na obra Technik Medizin und Ethik Zur Praxis des Prinzips Verantwortung Frankfurt aM Insel 1985 pp 4252 A ele corresponde uma versão em inglês Technology as a Subject for Ethics Social Research vol 49 n 4 1982 II Tradução Que dito de modo muito geral a Ética tem algo a dizer sobre os assuntos da técnica ou que a técnica se subordina a considerações éti cas decorre do simples fato de que a técnica é um exercício do poder hu mano isto é uma forma do agir e todo agir humano está exposto à prova moral Do mesmo modo é uma trivialidade que um e o mesmo poder se deixe utilizar tanto para o bem quanto para o mal e que se possa observar ou ferir normas éticas por ocasião de seu exercício Como poder humano imensamente intensificado a técnica se subsume inequivocamente nessa verdade geral Todavia constitui ela um caso particular que exige um esforço do pensamento ético diferente daquele apropriado para qual quer ação humana esforço que era o suficiente para todas as espécies dessa ação no passado Minha tese é que a técnica moderna constitui de 409 409 409 409 409 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética fato um caso novo e particular e dos fundamentos para isso gostaria de indicar cinco que me impressionam particularmente 1 Ambivalência dos efeitos Em geral toda capacidade como tal ou em si é boa e se torna má pelo mau uso Por exemplo é inegavelmente bom ter o poder da palavra mas é mau utilizálo para enganar os outros ou para seduzi los para sua própria ruína Por isso é totalmente sensato ordenar use esse poder aumentao mas não faça mau uso dele Está pressuposto aqui que a ética pode diferenciar claramente entre ambos entre o emprego correto e o falso de uma e mesma capacidade Mas como ficam as coisas quando nos movemos em um contexto de ação no qual toda utilização relevante da capacidade mesmo que empreendida com bom propósito traz consigo um sentido de direção incluindo efeitos que se potencializam maus efeitos ao cabo inseparáveis dos almejados e próximos bons efei tos talvez suplantandoos de muito ao final Se este devesse ser o caso da técnica moderna como temos bons motivos para admitir então a ques tão da utilização moral ou imoral de seus poderes não é mais um assunto de diferenciação autoevidente qualitativa nem sequer coisa de propósi tos senão que se perde no jardim de erros das conjecturas quantitativas sobre conseqüências últimas e tem que tornar sua resposta dependente do caráter aproximativo dessas conjecturas A dificuldade é a seguinte não apenas quando a técnica é perfidamente mal empregada isto é para maus fins senão que mesmo quando é beneficamente empregada para seus autênticos e altamente legítimos fins ela tem em si um lado ameaça dor que a longo prazo poderia ter a última palavra E o caráter de longo prazo está de algum modo embutido no fazer técnico Por meio de sua dinâmica interna que a impele para a frente recusase à técnica o espaço de liberdade da neutralidade ética no qual temos que nos preocupar apenas com capacidade de rendimento O risco do demasiado está sem pre presente na condição pela qual o inato germe do mau isto é do danoso é conutrido e conduzido ao amadurecimento precisamente por Oswaldo Giacoia Junior 410 410 410 410 410 meio do levar avante o bom ou seja o proveitoso O perigo reside mais no sucesso que no fracasso e o sucesso é decerto necessário sob a pressão das carências humanas Uma adequada ética da técnica tem que se ocu par com essa interna equivocidade do fazer técnico 2 Compulsoriedade da utilização Em geral a posse de uma capacidade ou poder por indivíduos ou grupos não significa ainda sua utilização Ela pode arbitrariamente permanecer em repouso por longo tempo para ocasionalmente segundo o desejo e depois da ponderação do sujeito entrar em atividade Quem é lingüisticamente talentoso não necessita falar sem cessar e considerando globalmente pode até ser calado Todo saber pode também assim pare ce reservar para si sua utilização Todavia essa relação tão óbvia entre poder e fazer saber e utilização posse e exercício de um poder não vale para o Fundus de capacitação técnica de uma sociedade que como a nos sa fundamentou sua inteira configuração da vida em trabalho e ócio so bre a atualização corrente de seu potencial técnico considerado na ação conjunta de todas as suas partes Aqui a coisa se iguala à relação entre poder respirar e ter que respirar de preferência àquela entre poder falar e falar E o que vale para o Fundus presentemente disponível se estende a cada crescimento do mesmo se esta ou aquela nova possibilidade foi uma vez aberta na maioria das vezes por meio da Ciência e desenvolvida em ponto pequeno por meio do fazer então ela traz em si o compelir à sua utilização em ponto grande e sempre maior e o tornar essa utilização uma permanente necessidade vital Dessa maneira é recusado à técnica que é poder humano intensificado em atuação permanente não apenas como mostrado anteroirmente o livre estado da neutralidade ética mas tam bém a benévola separação entre posse e exercício do poder A formação de novas espécies de fazer que ocorre incessantemente transportase aqui permanentemente em sua difusão na corrente sangüínea do agir coletivo da qual essas novas espécies não podem então ser mais separadas a não ser por meio de maduro substitutivo Por essa razão a aquisição de novas 411 411 411 411 411 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética capacidades cada acréscimo ao arsenal dos meios já traz aqui à vista com aquela dinâmica conhecida à saciedade um fardo ético que em ou tro caso pesaria apenas sobre os casos singulares de sua utilização 3 Extensão global no espaço e no tempo Além do que foi considerado anteriormente há um aspecto de simples grandeza de ação e efeito que tem significação moral A extensão e o âmbito de efeito da moderna praxis técnica como um todo e em cada um de seus empreendimentos singulares são de maneira tal que introdu zem uma dimensão completa suplementar e de espécie nova nos qua dros do cálculo ético valorativo desconhecida de todas as anteriores espé cies de ação Falamos anteriormente de uma situação na qual todo em prego em larga escala de uma capacidade traz consigo um sentido de direção incluindo efeitos que se potencializam maus efeitos ao cabo Te mos que acrescentar agora que hoje toda utilização de uma capacidade técnica pela sociedade o indivíduo singular não conta mais aqui tende a crescer em em larga escala A técnica moderna está interiormente ins talada para o emprego em larga escala e nesse processo tornase talvez demasiado grande para a extensão do palco sobre o qual ela se passa a terra e para o bemestar dos próprios atores os homens Isso pelo menos é certo ela e suas obras se propagam sobre o globo terrestre seus efeitos cumulativos se estendem possivelmente sobre inúmeras gerações futuras Com aquilo que aqui e agora fazemos e na maioria das vezes com os olhos sobre nós mesmos influenciamos maciçamente a vida de milhões em outros lugares e futuramente que não tiveram nenhuma voz naquilo que fazemos Sacamos hipotecas sobre a vida futura por proveitos e necessidades presentes e de curto prazo e no que concerne a isso por necessidades na maioria das vezes autogeradas Talvez não possamos evi tar de todo agir dessa maneira ou semelhantemente Porém se esse é o caso então temos que empregar a mais extrema atenção em fazêlo com honestidade em relação a nossos descendentes ou seja de maneira que as chances de eles se libertarem daquela hipoteca não fique antecipadamente Oswaldo Giacoia Junior 412 412 412 412 412 comprometida O ponto relevante aqui é que a ingerência de dimensões remotas futuras e globais em nossas decisões cotidianas práticomunda nas é uma novidade ética de que a técnica nos encarrega e a categoria ética que é principalmente chamada ao primeiro plano por esse novo fato se chama responsabilidade Que esta se coloque como jamais outrora no ponto central do palco ético inaugura um novo capítulo na história da ética que reflete as novas ordens de grandeza do poder que a ética doravante tem que ter em conta As conclamações à responsabilidade crescem proporcionalmente aos feitos do poder 4 Rompimento com o antropocentrismo Ao ultrapassar o horizonte da vizinhança espaçotemporal aque le alcance amplificado do poder humano rompe o monopólio antropocêntrico da maioria dos sistemas éticos mais tardios sejam eles religiosos ou secu lares Foi sempre o patrimônio humano que devia ser promovido os inte resses e direitos do próximo que deviam ser respeitados a injustiça que lhe sobrevinha é que devia ser reparada e seus sofrimentos deviam ser mitigados Os homens eram objeto do dever humano e no mais extremo caso a humanidade e nada além disso sobre essa terra costumeiramente o horizonte ético era traçado de modo muito mais estreito como no ama o teu próximo Nada disso perde sua força vinculante Porém agora a inteira biosfera do planeta com toda sua pletora de espécies em sua recémrevelada vulnerabilidade perante os ataques excessivos do homem exige sua parte de respeito devido a tudo aquilo que traz em si mesmo o seu fim isto é todo vivente O direito exclusivo do homem à humana consideração e à observância ética foi rompido precisamente com a con quista de um poder quase monopolístico sobre toda outra vida Com um poder planetário de primeiro nível não lhe é mais lícito pensar apenas em si mesmo Em verdade o mandamento de não legar a nossos descen dentes uma herança desertificada expressa essa ampliação do campo ético de visão sempre ainda no sentido de um dever humano perante homens como intensificação de uma solidariedade interhumana no sobreviver e 413 413 413 413 413 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética no tirar proveito na curiosidade no desfrutar e no admirarse Pois vida extrahumana empobrecida e natureza empobrecida significam também uma vida humana empobrecida Porém compreendida corretamente a inclusão da existência da plenitude enquanto tal no Bem humano e com isso a anexação de sua conservação ao dever humano vai além do ponto de vista utilitariamente orientado e de todo ponto de vista antropocêntrico A visão ampliada reúne o Bem humano com a causa da vida em sua totalidade ao invés de contrapor de maneira hostil aquele a esta e con fere à vida extrahumana seu direito próprio Seu reconhecimento signi fica que toda arbitrária e desnecessária extinção de espécies se torna já em si mesma crime com inteira independência de idênticas ponderações do competente interesse próprio e tornase transcendente dever do homem proteger todos os menos reprodutíveis os mais insubstituíveis de todos os recursos o inacreditavelmente rico pool genético deixado na seqüência dos Eônios da evolução É o excesso de poder que impõe ao homem esse dever e precisamente contra esse poder portanto contra o próprio ho mem é imprescindível sua proteção E assim ocorre que a técnica essa fria obra pragmática da astúcia humana introduz o homem num papel que apenas a religião por vezes lhe atribuiu aquele de um administrador e guardião da criação Ao ampliar o poder de seus efeitos até o ponto em que este se torna perceptivelmente perigoso para a economia global das coisas ela estende a responsabilidade do homem ao futuro da vida na terra vida que doravante está exposta indefesa ao mau uso dessa potên cia Com isso a responsabilidade humana se torna pela primeira vez cós mica pois não sabemos se o universo produziu ainda um semelhante além deste A iniciante técnica ambiental que entre nós se agita de modo verdadeiramente sem precedentes é a expressão ainda hesitante dessa extensão inusitada de nossa responsabilidade que corresponde por sua vez à extensão sem precedentes do alcance de nossas ações Foi necessária a ameaça global fazendose visível do começo efetivo da destruição do todo para nos levar a descobrir ou redescobrir nossa solidariedade com ele um vexatório pensamento Oswaldo Giacoia Junior 414 414 414 414 414 5 A colocação da questão metafísica Finalmente o potencial apocalíptico da técnica sua capacida de para pôr em perigo a sobrevivência do gênero humano ou corromper sua integridade genética ou alterála arbitrariamente ou até mesmo des truir as condições de uma vida mais elevada sobre a terra coloca a ques tão metafísica com a qual a ética nunca fora anteriormente confrontada qual seja se e por que deve haver uma humanidade por que portanto o homem deve ser mantido tal como a evolução o produziu por que deve ser respeitada sua herança genética sim por que em geral deve haver vida A pergunta não é ociosa como parece na ausência de alguém que seriamente negue todos esses imperativos pois a resposta a ela é signifi cativa acerca do quanto permitidamente nos é lícito arriscar em nossas grandes apostas tecnológicas e quais riscos são inteiramente inadmissí veis Se existir é um imperativo categórico para a humanidade então todo jogo suicida com essa existência está categoricamente proibido e ousadias técnicas nas quais esta é a aposta ainda que apenas remotíssima devem ser desde o início excluídas Essas são portanto algumas razões pelas quais a técnica é um caso novo e particular de considerações éticas razões para perscrutar até os fundamentos da ética em geral Ao fazêlo há que se apontar particu larmente para o concurso dos motivos 1 e 3 dos argumentos da Ambivalência e da Extensão À primeira vista parece fácil diferenciar entre a técnica benéfica e prejudicial na medida em que se olha para a finalidade da utilização dos instrumentos Arados são bons espadas são ruins Na era messiânica as espadas serão refundidas em arados Traduzi do em moderna tecnologia bombas atômicas são ruins adubos químicos que ajudam a alimentar a humanidade são bons Porém aqui salta aos olhos o embaraçoso dilema da técnica moderna Os arados dela podem a longo prazo ser tão nocivos quanto suas espadas e o longo prazo de efeitos crescentes está como foi mencionado intimamente ligado ao emprego da técnica moderna Nesse caso são eles porém o próprio pro blema os arados ricamente abençoados e seus similares Pois podemos 415 415 415 415 415 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética deixar a espada em sua bainha mas não o arado no celeiro De fato uma guerra atômica total seria de um golpe apocalíptica porém embora ela possa irromper a qualquer momento e o pesadelo dessa possibilidade pos sa ensombrecer todos os nossos dias futuros ela não precisa irromper pois aqui se encontra ainda a salvadora distância entre potencialidade e atua lidade entre posse de um equipamento e seu uso e isso nos dá esperan ça de que o uso seja evitado o que de fato constitui a paradoxal finalida de de sua posse Mas há inúmeras outras coisas inteiramente desprovi das de violência contendo sua própria ameaça apocalíptica e que nós agora e doravante simplesmente temos que fazer para em geral nos man termos à tona Enquanto o malvado irmão Caim a bomba jaz atado em sua caverna o bom irmão Abel o pacífico reator continua discre tamente a estocar seu veneno para futuros milênios Mesmo aqui podemos talvez encontrar a tempo alternativas menos perigosas para extinguir a crescente sede de energia de uma civilização global que confronta o de saparecimento das fontes convencionais se a sorte caminhar junto com nosso sério esforço Nós podemos até chegar a reduzir a extensão da vora gem e voltar a poder viver com menos antes que um esgotamento catas trófico ou a poluição do planeta nos constranjam a algo pior que a tempe rança Contudo é por exemplo éticamente impensável que a técnica biomédica deixe de reduzir a mortalidade infantil nos países subdesen volvidos com elevados índices de natalidade mesmo que a miséria em conseqüência da superpopulação pudesse ser ainda mais terrível Mui tas outras quaisquer ousadias da grande tecnologia originariamente vi toriosas poderiam ser mencionadas para ilustrar a dialética a faca de dois gumes da maioria dessas ousadias O ponto principal é que precisa mente as bênçãos da técnica quanto mais somos dependentes delas con têm a ameaça de se transformar em maldição Sua hereditária tendência à desmesura torna aguda a ameaça E é claro que a humanidade graças às mesmas bênçãos da técnica tornouse demasiadamente numerosa para ainda ser livre para retornar a uma fase anterior Ela só pode seguir adiante e tem que obter da própria técnica com uma dose de temperante Oswaldo Giacoia Junior 416 416 416 416 416 moral os remédios para sua doença Esse é o ponto crucial de uma ética da técnica Essas breves reflexões deveriam mostrar quão estreitamente a ambivalência da técnica está vinculada à sua grandeza ou seja ao caráter excessivo de seus efeitos no espaço e no tempo O que é grande e o que é pequeno se determina por meio da finitude de nosso palco terrestre algo dado o que nunca estamos autorizados a perder de vista Precisos valoreslimite de tolerância não são conhecidos para nenhuma das muitas direções nas quais avança o expansionismo do homem Mas sabese o suficiente para poder afirmar que algumas de nossas cadeias técnicas de ação entre elas algumas vitais atingiram pelo menos a ordem de grandeza em que se encontram aqueles valoreslimite e que outras cadeias irão se associar a elas se for permitido um ulterior cresci mento no ritmo atual Os sinais advertem que nos encontramos na zona de perigo Se alguma vez for alcançada uma medida crítica em uma ou em outra direção então a coisa pode nos escapar uma reação positiva poderia começar ou um processo exponencial se desencadear no qual os custos devoram as vantagens em um potencializador talvez num irreversível crescendo A responsabilidade de longo prazo tem que buscar evitar precisamente isso Porém uma vez que o lado glamouroso das aqui sições técnicas ofusca a vista que o lucro próximo suborna o juízo e as carências muitos reais do presente para não falar de suas manias cla mam por prioridade as pretensões da posteridade que estão confiadas àquela responsabilidade encontrarão uma situação difícil No que foi dito tornouse visível ainda um ulterior traço de caráter da síndrome tecnológica ao lado da ordem de grandeza e da ambivalência que é de significação ética própria o elemento quasecom pulsivo em seu marchar avante que por assim dizer hipostasia nossas próprias modalidades de poder numa espécie de força automática da qual nós seus executores paradoxalmente nos tornamos sujeitos Em verdade a restrição à liberdade humana por meio da reificação de seus próprios feitos sempre existiu tanto nos cursos de vida individual como 417 417 417 417 417 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética sobretudo na história coletiva Desde sempre a humanidade foi em parte determinada por seu próprio passado porém isso atuou em geral mais no sentido de uma força inibidora que propulsora o poder do passado era antes aquele da inércia tradição do que o da propulsão As criações da técnica todavia atuam precisamente no último sentido e com isso dão à muito devorada história da liberdade e dependência humana uma nova e grave inflexão Colocamonos já a cada novo passo o mesmo que pro gresso da grande técnica sob a compulsão do próximo passo e legamos a mesma compulsão à posteridade que finalmente tem que pagar a con ta Porém mesmo sem essa visão de longo alcance o elemento tirânico enquanto tal na técnica atual que transforma nossas obras em nossos senhores e nos coage a seguir multiplicandoas já apresenta em si um desafio ético para além da pergunta sobre o bom ou ruim de cada uma daquelas obras singularmente Em razão da autonomia humana da dig nidade que exige que nós tenhamos a posse de nós próprios e não nos deixemos possuir por nossas máquinas temos que trazer sob controle extratecnológico o galope tecnológico III Comentários Para encerrar esta apresentação gostaria de fazer uso de uma reflexão efetuada a propósito da leitura da obra principal de Jonas deno minada O princípio responsabilidade Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica Refirome ao aspecto tematizado por Jonas ao final do artigo que apresentamos e que poderíamos denominar dialética interna do po der tecnológico envolvendo de um lado o domínio sobre a natureza e de outro lado a compulsão à sua utilização Como se torna manifesto pelos termos mesmos dessa dialética um poder compulsivo se revela no limite não como poder mas como sujeição Estamos em face do aspecto paradoxal da técnica moderna que segundo Jonas pode levar à ameaça de uma catástrofe pelo excesso de Oswaldo Giacoia Junior 418 418 418 418 418 sucesso onerando de modo irreversível o ideário programático da ciência moderna formulado por Bacon segundo o qual esta comportaria a apro priação tecnológica da natureza como meio para realização do universal domínio humano De acordo com esse ideal ciência seria um saber sobre a natureza cuja essência seria domínio e apropriação com a finalidade de utilizar seus recursos e potencialidades para a melhoria do destino huma no na terra O paradoxo consiste no fato de que a realização do ideal conduz efetivamente a uma dinâmica de sucesso e realização que necessa riamente suscita uma desmesura de produção e consumo que no desdo bramento de sua dinâmica compulsória presumivelmente subjuga qual quer tipo de organização social e política das forças humanas O perigo emergente desse superdimensionamento da civiliza ção tecnológica em escala planetária é o apocalipse de uma catástrofe universal como conseqüência do curso e do rumo atual da própria reali zação do ideal baconiano de dominação tecnológica da natureza Esse perigo é uma resultante direta não do fracasso mas da exorbitância do sucesso daquele programa ideal Tal paradoxo se torna especialmente agudo na dinâmica de re lacionamento entre as duas principais vertentes do sucesso desse progra ma o sucesso econômico e o sucesso biológico O primeiro é representado pelo significativo aumento per capita da produção de bens com diminui ção de dispêndio de trabalho de onde decorre ao menos das nações desenvolvidas do assim chamado primeiro mundo um crescente au mento de bemestar e uma elevação até mesmo involuntária do consumo para potencialmente todos no interior do sistema Disso resulta uma intensificação gigantesca no metabolismo entre o corpo social e o meio ambiente natural Esse aspecto que por si só representaria um desafio para os recursos naturais finitos potencializase e se acelera em razão do sucesso biológico do programa baconiano representado pelo aumento exponencial da população em toda área sob efeito do poder tecnológico ou seja atualmente em todo planeta Tal explosão da curva de cresci mento populacional conduz à necessidade de aceleração e multiplicação 419 419 419 419 419 Hans Jonas Por que a técnica moderna é um objeto para a ética dos recursos do sucesso econômico bem como de seus efeitos retirando da vertente econômica do programa a possibilidade de se impor limites no interior de seu próprio curso Visto como problema de metabolismo planetário a explosão populacional retira do anseio ao bemestar a faca e o queijo da mão e constrangerá uma humanidade que empobrece para garantir a sua sobrevivência àquilo que para prover à felicidade ela podia fazer ou não fazer isto é à sempre crescentemente impiedosa pilha gem do planeta até que este pronuncie sua palavra de força e se furte à exigência excessiva Como depois disso um resto de hu manidade poderá começar de novo sobre a terra desertificada isto se subtrai a toda especulação Jonas 1979 p 252 A fórmula baconiana diz que saber é poder No entanto a rea lização dessa fórmula no ápice de seu triunfo tornou manifesta a dialética em que se envolve esse poder o grau mais avançado de exploração técni ca da natureza para sujeição desta à vontade de poder humana revela sob o signo da iminente catástrofe ecológica sua insuficiência e sua autocontradição Esta se apresenta sob a figura da perda de controle so bre si mesmo em que mergulha o programa baconiano por sua incapaci dade de proteger não somente o homem de si mesmo mas também de proteger do homem a natureza e a própria natureza humana tal como esta se revelou em sua essência até aqui Essa dupla necessidade de prote ção surge justamente por meio da extensão desmedida do poder alcança do no percurso do progresso técnico e da compulsão paralelamente cres cente a seu emprego que conduziu à espantosa impotência de pôr termo ao extensivo e previsível progresso destrutivo de si mesmo e de suas obras A profunda paradoxia jamais suspeitada por Bacon do poder criado pelo saber consiste em que ele na verdade conduziu a algo como domínio sobre a natureza isto é a seu aproveitamento potencializado mas com isso ao mesmo tempo à mais completa Oswaldo Giacoia Junior 420 420 420 420 420 sujeição a si mesmo O poder se tornou autosuficiente selbstmächtig enquanto sua promessa se converteu em ameaça sua perspectiva de salvação em apocalipse Jonas 1979 p 253 O que seria necessário fazer para que o limite derradeiro não fosse imposto pela própria catástrofe é alcançar uma potência de terceiro grau isto é uma nova posição de poder sobre o poder da tecnologia tornada autônoma que seria a superação da impotência em relação à compulsão autoimposta ao exercício do poder tecnológico Esse novo poder que se manifestaria no limite como renúncia à compulsão ao poder da tecnociência não emergiria da esfera do saber e da conduta privada mas da sociedade como um todo de um novo sentimento coletivo de responsabilidade e temor Referência bibliográfica Jonas Hans 1979 Das Prinzip Verantwortung Versuch einer Ethik für die technologische Zivilisation Frankfurt aM Suhrkamp