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i i i i i i i i wwwlusosofianet A CRISE DA HUMANIDADE EUROPEIA E A FILOSOFIA Edmund Husserl Tradução e Introdução Pedro M S Alves i i i i i i i i Texto publicado in Edmund Husserl EUROPA CRISE E RENOVAÇÃO A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia f Centro de Filosofia Universitas Olisiponensis Phainomenon Clássicos de Fenomenologia Lisboa 2006 pp 119152 e aqui publicado pela LUSOSOFIANET com a benévola autorização do Tradutor e Director da Colecção Pedro M S Alves que também fez a Introdução à Edição portuguesa De acordo com os textos de Husserliana VI e XXVII Editados por Walter Biemel e Thomas Nenon Hans Rainer Sepp tradução aprovada pelos ArquivosHusserl de Lovaina i i i i i i i i Covilhã 2008 FICHA TÉCNICA Título A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia Autor Edmund Husserl Tradutor Pedro M S Alves Colecção Textos Clássicos de Filosofia Direcção da Colecção José M S Rosa Artur Morão Design da Capa António Rodrigues Tomé Composição Paginação José M S Rosa Universidade da Beira Interior Covilhã 2008 i i i i i i i i INTRODUÇÃO NA TRADUÇÃO PORTUGUESA Se bem que relativamente tardia é complexa e matizada a refle xão husserliana sobre a Cultura e em particular o significado do Ocidente Ela desenvolveuse sobretudo nas décadas de vinte e de trinta do século XX Teve porém o seu início por ocasião das vi cissitudes da Primeira Grande Guerra catastróficas para a Europa no seu todo e para Husserl também dramáticas no plano pessoal com as mortes de seu filho Wolfgang em 1916 no campo de ba talha de Verdun e de Adolf Reinach seu discípulo em 1917 nas célebres lições sobre Fichte proferidas em Friburgo no ano de 1917 e repetidas por duas vezes em 1918 Os dois opúsculos aqui reunidos os artigos para a revista japonesa Kaizo de 192324 e a conferência de Viena de 1935 apesar da distância temporal de mais de uma década são peças essenciais de uma mesma reflexão e apresentam uma unidade e complementaridade assinaláveis Neles duas ideias funcionam como motivos permanentes de re flexão Elas contêm mais que um diagnóstico acabado uma iden tificação dos sintomas a partir dos quais será possível compreender o destino da cultura europeia e agir tempestivamente sobre a sua situação presente São elas as ideias de crise e de renovação A Europa está em crise Algo novo deve suceder tais são as duas afirmações terminantes que Husserl faz em uníssono com mui tos outros pensadores contemporâneos no início da conferência de Viena de 1935 e no primeiro dos artigos para a revista japonesa Kaizo de 1923 Elas são o centro de gravidade de todo o pensamento de Hus serl nestes dois opúsculos Estas ideias de crise e de renovação estão porém ligadas de uma maneira diametralmente oposta tanto ao modo costumeiro de as relacionar como à maior parte dos diag nósticos hodiernos da cultura europeia muitos deles célebres 3 i i i i i i i i Destes últimos mencionemos apenas dois casos que estão a montante e a jusante destes opúsculos husserlianos que ora se pu blicam Primeiro o de Oswald Spengler em 1918 com a longa obra intitulada A Decadência do Ocidente Esboço de uma Morfo logia da História Mundial onde um biologismo da cultura total mente contrário ao pensamento de Husserl anuncia a desagregação e a morte da cultura ocidental Uma e outra vez na conferência de Viena e no primeiro artigo para Kaizo Husserl alude a esta tese e torna distância relativamente a esta concepção global a respeito do destino do Ocidente Por razões essenciais não há nenhuma zo ologia dos povos dirá num passo significativo da conferência de Viena De seguida e num contraste ainda mais vivo é instrutivo men cionar aquele diagnóstico que em 1936 em plena maré nazista e fascista Heidegger havia de fazer em Roma sob o título A Europa e a Filosofia Alemã uma conferência que faz um díptico a negro com a de Husserl em Viena proferida apenas um ano antes e onde se toma patente que Heidegger não é apenas o antípoda filosófico de Husserl no quadro das discussões de escola sobre Fenomenolo gia como este uma vez confessou mas o seu completo oposto no que diz respeito às questões mais vastas da Cultura da Política e da Civilização Heidegger termina sugestivamente a sua conferência com um célebre fragmento de Heraclito sobre polemos a guerra ou o combate E bem significativo que polemos aquele que nas palavras de Heraclito expõe a uns como douloi servos e a outros como eleutheroi livres seja nas palavras de Heidegger aquele que expõe uns homens como escravos Knechte e outros como Senho res Herren Ora para Senhor neste sentido preciso do domínio sobre outrem os Gregos usavam a palavra despotes e a relação de senhorio e servidão é na sua origem uma relação que se desen volve na esfera doméstica do oikos Que esta não seja a experiência originária da liberdade para os Gregos é o que o atesta o célebre verso de Menandro Na Casa oikos o único escravo é o Senhor 4 i i i i i i i i despotes A experiência grega da liberdade da eleutheria e do seu contrário a servidão é antes a experiência da inserção do indivíduo na vida da polis e do seu surgimento como cidadão na igualdade com os demais Só no mútuo reconhecimento da igual liberdade de todos pode cada um ser efectivamente livre E este o terreno político por excelência da liberdade dos Gregos que implicava na época clássica os direitos políticos muito concretos de por exemplo falar e votar na Assembleia ser arconte ou no mear os magistrados e outros E por referência a ele que se deve compreender a privação de liberdade própria do escravo A tra dução de eleutherios por Herr ou seja a submersão da liberdade política na esfera das relações de domínio e servidão é não só uma perversão do que significa liberdade para os Gregos mesmo para um préclássico como Heraclito como uma flagrante confissão do que ela estava significando para o Heidegger de 1936 Ela era como a conferência o diz logo no início o destino do povo ale mão para um projecto de autoafirmação conjugando as ideias de defesa perante o asiático certamente o nome moderno para os barbaroi de outrora que incluía na fraseologia politica alemã de então por junto a Rússia bolchevista e os judeus europeus e de superação do desenraizamento e fragmentação da Europa Coisa completamente diversa tinha Husserl para dizer acerca da Filosofia e da supranacionalidade europeia em 1935 A cultura filosófica é a cultura da Razão Nesse sentido a Filosofia não é eu ropeia Pelo contrário é a Europa que é filosófica E a grandeza da Europa filosófica o seu estatuto de arconte da Humanidade não se confunde com qualquer projecto de domínio protagonizado por um povo mas com o modo como ela na finitude das suas formas de cultura é o fenómeno da ideia infinita de uma cultura racional que pode sem limites tornarse a cultura de uma Humanidade univer sal A supranacionalidade europeia não será por isso um projecto de dominação para uso dos europeus mas a ideia de uma huma nidade autêntica congregada nas tarefas infinitas de realização da 5 i i i i i i i i Razão que jamais poderão alcançar uma forma final e definitiva apta para uma repetição regular ou para uma imitação sem critério E justamente neste contexto que a ideia de strenge Wissenschaft Ciência Estrita é relevada por Husserl como o lugar de realização de uma cultura autêntica articulada nos planos da vida cognitiva ética e social Neste contexto não tem qualquer sentido a acusação muito disseminada de um eurocentrismo de Husserl Antes de o afir mar seria de facto importante esclarecer o que a Europa verdadei ramente é para Husserl e de que é ela a fenomenalização Nesta perspectiva compreendese que o modo como nestes opúsculos as ideias de crise e de renovação aparecem conjugadas choque também como dissemos com à forma costumeira de as pensar Não se trata para Husserl da verificação no plano factual de uma qualquer crise da Europa que impusesse uma inovação na sua cul tura ou mais fundo ainda um novo começo diante da suposta fa lência do caminho até então percorrido Não se trata pois com o tema da crise da verificação de um fracasso da cultura da Ra zão Pelo contrário tratase de renovação não de inovação E a renovação não é resposta à falência de um projecto Ela consiste antes no regresso ao sentido original da cultura europeia e no cum primento da exigência de constante renovação que lhe é ínsita ou seja de constante reactualização do seu ideal de vida Em suma a crise detectada não é culminação de uma trajectória da cultura europeia que se revelaria por fim inviável mas um abandono de rumo e a renovação exigida não é por isso reinvenção mas re gresso e repristinação Husserl aponta com clareza o ponto em que a crise se originou tratase de um transvio da racionalidade de uma sua interpretação demasiado estreita sob o padrão das ciên cias matemáticas da Natureza com as inevitáveis consequências do naturalismo e do objectivismo na compreensão da essência da subjectividade Esta limitação da forma de uma cultura racional está apelando do ponto de vista de Husserl não para um abandono 6 i i i i i i i i da matriz racional de uma cultura autêntica mas para um super racionalismo e para um heroísmo da Razão que possa resta belecer as conexões perdidas entre racionalidade e vida e vencer assim essa situação crítica actual de desespero perante o silêncio da Razão no que respeita aos problemas mais fundos da subjecti vidade e da vida humana Dar a forma de uma cultura racional à vida ética individual e comunitária surpreender a renovação como exigência basilar da humanidade autêntica que a põe na rota de uma progressão ilimitada em direcção a um pólo que reside no infinito fazer também para o eidos Homem o que as ciências ma temáticas fizeram já para a Natureza segundo a forma peculiar da racionalidade prática imperativa e não apenas assertiva eis o que se impõe para a ultrapassagem da crise das ciências crise que não resulta de um falhanço da racionalidade científica mas do seu estreitamento e de uma sua compreensão unilateral metodologica mente moldada sobre o eidos Natureza A série de cinco artigos sobre renovação foi motivada por um convite da revista japonesa Kaizo feito através do seu represen tante T Akita em 8 de Agosto de 1922 O convite endereçado Husserl seguiuse aos convites feitos a Bertrand Russell e Hein rich Rickert e foi certamente motivado pelo facto de o pensamento de Husserl conhecer na altura grande divulgação entre os círcu los filosóficos japoneses suscitando mesmo a visita frequente de estudantes e docentes a Friburgo onde assistiam às suas lições e seminários No Outono e Inverno de 192223 Husserl entregouse à pre paração da sua contribuição O nome da revista Kaizo que sig nifica precisamente renovação deulhe oportunidade de recuperar de uma forma sistemática uma multiplicidade de reflexões sobre a Ética e a teoria da cultura que haviam sido despoletadas pelos acon tecimentos traumáticos da Primeira Grande Guerra colocando no meadamente a problemática Ética sobre um novo enfoque relati vamente às lições de Ética de 190810 O projecto desde cedo se 7 i i i i i i i i desdobrou numa série de artigos A 14 de Dezembro de 1922 Hus serl comunica a Roman Ingarden que escreve nesse momento qua tro artigos sobre problemas éticosociais renovação para uma re vista japonesa Os três primeiros ficaram concluídos em Janeiro de 1923 cm versão dactilografada E nessa data que Husserl os envia para o editor O primeiro aparecerá no mesmo ano em edição bilingue Os segundo e terceiro artigos surgirão em 1924 apenas na tradução japonesa Para todos eles desconhecese a identidade do tradutor Por força de discordâncias entretanto surgidas entre Husserl e o editor os dois artigos remanescentes da série prevista por Husserl nunca chegarão a aparecer Deles existe apenas a versão manus crita sem clara indicação da ordem por que deveriam ser publica dos e o artigo que na presente edição surge em último lugar não está sequer terminado A conferência de Viena sobre A Crise da Humanidade Euro peia e a Filosofia tem também uma génese ocasional apesar da extraordinária eficácia que o tema da crise das ciências terá na der radeira fase da actividade de Husserl Em Março de 1935 o Kultur bund vienense convida Husserl para proferir uma conferência O convite é aceite em pleno trabalho de preparação da contribuição para o Congresso de Praga promovido pelo Cercle Philosophique de Prague pour les Recherches sur 1Entendement Humain A 5 de Maio Husserl deslocase a Viena passando por Munique No dia 7 pelas 20 horas a conferência é dada na sala de conferências do Österreichisches Museum Mais uma vez a Roman Ingarden Husserl dirá que venceu a fadiga e que falou com um sucesso inesperado Por força dessa recepção a conferência será repetida a 10 de Maio A 19 de Junho Husserl confidencia a Dorion Caims que tra balha na conferência dada em Viena melhorandoa do ponto de vista literário aprofundandoa e fundamentandoa para leitores alemães O resultado dessa reelaboração permaneceu porém iné 8 i i i i i i i i dito Desse cadinho havia de sair o que seria a derradeira e para muitos decisiva obra de Husserl o seu verdadeiro testamento filo sófico A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Trans cendental aparecida em 1936 A presente edição segue o texto publicado na colecção Husser liana Assim para os cinco artigos sobre Renovação a tradução tem por base o volume XXVII intitulado Auftätze und Vorträge 19221937 editado por Thomas Nennon e Hans Rainer Sepp e publicado em Dordrecht pela Kluwer Academic Publishers em 1989 Os artigos traduzidos ocupam nessa edição as páginas 3 a 94 sob o título geral Fünf Aufsätze über Erneuerung A tradu ção da Conferência de Viena baseiase no volume VI de Husser liana intitulado Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie editado por Walter Biemel e publicado em Haia por Martinus Nijhoff em 1962 A conferência figura nessa edição como um texto complementar sob o título Die Krisis des europäischen Menschentums und die Philosophie entre as páginas 314 e 348 A tradução que ora se apresenta resultou da colaboração entre Pedro M S Alves e Carlos Aurélio Morujão Da responsabilidade de Pedro M S Alves é a tradução dos quatro primeiros artigos sobre Renovação e da Conferência de Viena Carlos A Morujão traduziu o quinto artigo sobre Renovação Nesta edição portuguesa mantémse entre e a negrito as páginas da edição da Husserliana As palavras que aparecem en tre simples sem negrito são inserções dos editores da Husser liana motivadas por faltas de partículas de ligação principalmente conjunções ou por ausência de títulos em algumas subdivisões do 9 i i i i i i i i texto lacunas que foi necessário colmatar As notas dos tradutores estão assinaladas pela sigla Nota do Tradutor As anotações dos editores da Husser1iana estão assinaladas pela sigla Nota da Hua As notas assinaladas por um asterisco são do próprio Husserl Completa esta edição portuguesa um Glossário AlemãoPortuguês onde as principais opções terminológicas são expressamente indi cadas Por fim seja dito que o título deste volume Europa Crise e Renovação é da responsabilidade do director desta colecção de Obras de Edmund Husserl Pedro M S Alves 10 i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia Edmund Husserl VI 314 I Quero arriscar nesta conferência a tentativa de suscitar um novo interesse pelo tema tantas vezes tratado da crise europeia desen volvendo a ideia históricofilosófica ou o sentido teleológico da humanidade europeia Ao mostrar a função essencial que têm a exercer neste sentido a Filosofia e suas ramificações ou seja as nossas ciências a crise europeia receberá também uma nova luz Comecemos com o que é mais bem conhecido com a dife rença entre a Medicina científiconatural e a chamada medicina naturalista Enquanto esta última surge na vida comum do povo a partir da empina e da tradição ingénuas a Medicina científico natural surge do aproveitamento de intelecções das ciências pura mente teóricas das ciências da corporalidade humana desde logo a Anatomia e a Fisiologia Todavia estas repousam de novo elas próprias nas ciências fundamentais que explicam em geral a natu reza a Física e a Química 11 i i i i i i i i 12 Edmund Husserl Voltemos agora os nossos olhos da corporalidade para a espi ritualidade humana para o tema das chamadas Ciências do Espí rito Nelas o interesse teórico vai exclusivamente para os homens enquanto pessoas e para a sua vida e realizações pessoais bem como correlativamente para as figuras dessas realizações Vida pessoal significa viver num horizonte comunitário enquanto eu e nós comunalizados Certamente em comunidades de formas di versas simples ou estratificadas tais como 315 a comunidade familiar nacional ou supranacional A palavra vida não tem aqui um sentido fisiológico ela significa vida activa em vista de fins re alizadora de formações espirituais no sentido mais lato vida cri adora de cultura na unidade de uma historicidade Tudo isto é tema das diversas ciências do espírito Manifestamente há também para as comunidades para os povos e para os estados uma diferença en tre florescimento vigoroso e definhamento por conseguinte uma diferença entre saúde e doença como também poderíamos dizer Assim não estamos longe da pergunta como se explica que a este respeito não se tenha chegado nunca à Medicina científica a uma medicina das nações e das comunidades supranacionais As nações europeias estão doentes a própria Europa dizse está em crise Não falta aqui de todo qualquer coisa como mezinhas na turais Estamos a ficar decididamente submergidos por uma maré de propostas de reforma ingénuas e exaltadas Mas por que razão as Ciências do Espírito tão ricamente desenvolvidas não prestam aqui o serviço que as Ciências da Natureza cumprem na sua esfera de um modo excelente Os que estão familiarizados com o espírito das ciências mo dernas ripostarão de pronto A grandeza das Ciências da Natureza consiste em que elas não se contentam com uma empina intuitiva porque para elas toda a descrição da natureza quer ser apenas uma passagem metódica para a explicação exacta em última instância físicoquímica Eles opinam ciências simplesmente descritivas amarramnos às finitudes do mundo circundante terreno A ciên wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 13 cia matematicamente exacta da natureza porém abarca com o seu método as infinitudes nas suas efectividades e possibilidades reais Ela compreende o intuitivamente dado como uma simples aparição subjectivamente relativa e ensina a investigar a própria natureza suprasubjectiva a Natureza objectiva numa aproximação sis temática segundo os seus elementos e leis incondicionadamente gerais Em unidade com isso ensina ela a explicar todas as concre ções intuitivamente prédadas sejam homens animais ou cor pos celestes a partir daquilo que ultimamente é a saber a partir das aparições fácticas de cada vez dadas ensina a induzir possi bilidades e probabilidades futuras que ultrapassam em extensão e precisão toda a empina intuitivamente limitada O resultado do desenvolvimento consequente das ciências exactas 316 na Mo dernidade foi uma verdadeira revolução no domínio técnico sobre a natureza Totalmente diferente é infelizmente no sentido da concepção que já se nos tornou completamente compreensível a situação nas Ciências do Espírito e certamente por razões internas A espiri tualidade humana está decerto fundada na physis humana toda e qualquer vida anímica humana individual está fundada na corpo ralidade e por conseguinte também toda e qualquer comunidade está fundada nos corpos dos indivíduos humanos que são mem bros dessa comunidade Se portanto deve ser possível uma ex plicação realmente exacta dos fenómenos científicoespirituais e assim uma práxis científica de alcance semelhante ao da esfera da natureza os investigadores das Ciências do Espírito não devem então considerar o espírito simplesmente enquanto espírito mas retornar à base corpórea subjacente e conduzir as explicações por intermédio da Física e da Química exactas Isto fracassa porém e tal não poderá mudar no futuro previsível perante as complica ções da necessária investigação psicofísica exacta tanto a respeito do homem individual como por maioria de razão a respeito das grandes comunidades históricas Se o mundo fosse por assim di wwwlusosofianet i i i i i i i i 14 Edmund Husserl zer construído a partir de duas esferas de realidade com direitos iguais a Natureza e o Espírito nenhuma delas privilegiada metó dica ou substantivamente em relação à outra então a situação seria diferente Todavia apenas a natureza pode ser tratada por si como um mundo fechado só a Ciência Natural pode com uma coerência sem quebras abstrair de tudo o que é espiritual e investigar a natu reza puramente como natureza Por outro lado uma tal abstracção consequente da natureza por parte do investigador das ciências do espírito interessado apenas no puramente espiritual não conduz viceversa a um mundo em si mesmo fechado a um mundo de interconexão puramente espiritual que pudesse ser o tema de uma Ciência do Espírito universal e pura enquanto paralelo da ciência pura da natureza Porque a espiritualidade animal a das almas dos homens e das bestas a que toda outra espiritualidade reconduz esta causalmente fundada de um modo singular na corporalidade Assim se compreende que o investigador do espírito interessado no puramente espiritual enquanto tal não vá além da descrição não vá além de uma história do espírito e permaneça portanto amarrado às finitudes intuitivas Todo e qualquer exemplo o mos tra Um historiador não pode por exemplo tratar a história da Antiguidade Grega 317 sem tomar em linha de conta a geogra fia física da Grécia Antiga não pode tratar a sua arquitectura sem tomar em linha de conta a corporalidade dos edifícios etc etc Isto parece plenamente elucidativo Como ficaríamos porém se o inteiro modo de pensar que se manifesta nesta exposição repousasse sobre preconceitos funestos e se ele próprio fosse nas suas consequências corresponsável pela doença europeia De facto tal é a minha convicção e espero tor nar também compreensível que aqui reside igualmente uma fonte essencial para o modo óbvio como o cientista moderno nem sequer considera a possibilidade de fundamentação de uma ciência geral do espírito em si mesma fechada e por isso mesmo sem rodeios a nega wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 15 E do interesse do nosso problemaEuropa ir um pouco mais além e desarreigar a argumentação acima desenvolvida à primeira vista tão esclarecida O historiador o investigador do espírito e da cultura de qualquer esfera tem certamente também a natureza física constantemente entre os seus fenómenos a natureza da Gré cia Antiga no nosso exemplo Contudo esta natureza não é a na tureza no sentido das ciências da natureza mas antes o que para os Gregos valia como natureza o que tinham diante dos olhos no seu mundo circundante enquanto efectividade natural Dito de um modo mais perfeito o mundo circundante histórico dos Gregos não é o mundo objectivo no nosso sentido mas antes a sua re presentação do mundo ou seja a sua própria validação subjectiva com todas as efectividades que aí valem incluindo por exemplo os deuses os demónios etc Mundo circundante é um conceito que tem o seu lugar exclu sivamente na esfera espiritual Que nós vivamos no nosso mundo circundante respectivo que vale para todos os nossos cuidados e esforços tal designa um facto que se passa puramente na esfera do espírito O nosso mundo circundante é uma formação espiri tual em nós e na nossa vida histórica Para quem toma como seu tema o espírito enquanto espírito não há aqui por conseguinte qualquer razão para exigir outra explicação para ele que não seja uma explicação puramente espiritual E isto é válido em geral é um contrasenso olhar a natureza circummundana como em si mesma alheia ao espírito e em consequência alicerçar as Ciências do Espírito nas Ciências da Natureza de modo a pretensamente tomálas exactas Manifestamente foi completamente esquecido que a Ciência da Natureza tal como toda e qualquer ciência em geral é um tí tulo para realizações espirituais 318 a saber as dos cientistas naturais colaborantes enquanto tal elas pertencem tal como todos os eventos espirituais ao âmbito daquilo que deve ser explicado pelas Ciências do Espírito Não será então um contrasenso e um wwwlusosofianet i i i i i i i i 16 Edmund Husserl círculo querer explicar o acontecimento histórico Ciência da Na tureza científiconaturalmente explicálo por importação para a Ciência da Natureza e suas leis naturais que enquanto realização espiritual pertencem elas próprias ao problema a resolver Obcecados pelo naturalismo por mais que o combatam ver balmente os cientistas do espírito têm descurado total e comple tamente até o próprio levantamento do problema de uma Ciência do Espírito universal e pura e o questionamento do espírito pura mente enquanto espírito segundo uma doutrina eidética doutrina que indagasse o incondicionadamente universal da espiritualidade de acordo com os seus elementos e leis com a finalidade de obter por aí explicações científicas num sentido absolutamente conclu sivo As reflexões precedentes sobre a Filosofia do Espírito fornecem nos a atitude correcta para captar e tratar o nosso tema da Eu ropa espiritual como um problema puro das Ciências do Espírito desde logo por conseguinte históricoespiritualmente Tal como foi dito desde logo nas palavras introdutórias por este caminho deve tornarse visível uma assinalável teleologia inata por assim dizer apenas à nossa Europa e certamente como intimamente co nectada com a erupção ou irrupção da Filosofia e suas ramificações ou seja as ciências no espírito dos Gregos antigos Pressenti mos já que se tratará com isso de uma clarificação das razões mais fundas da origem do funesto naturalismo ou também coisa que se mostrará como equivalente do dualismo na interpretação do mundo que é característico da Modernidade Finalmente de verá por esse meio vir à luz do dia o sentido autêntico da crise da humanidade europeia Levantamos a questão como se caracteriza a forma espiritual da Europa Por conseguinte não a Europa compreendida geográ fica ou cartograficamente como se com isso fosse delimitado enquanto humanidade europeia o círculo dos homens que aqui vi vem territorialmente em conjunto No sentido espiritual é mani wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 17 festo que os domínios ingleses os Estados Unidos etc pertencem à Europa não porém os esquimós ou os indianos das exposições nas feiras anuais 319 ou ainda os ciganos que perpetuamente circunvagueiam pela Europa Sob o título de Europa tratase aqui manifestamente da unidade de uma vida de um agir de um criar espirituais com todas as finalidades interesses cuidados e esfor ços com as formações finalisticamente produzidas as instituições as organizações Aí agem os homens individuais em múltiplas so ciedades de diversos níveis em famílias tribos nações todas ín tima e espiritualmente ligadas e como disse na unidade de uma forma espiritual Às pessoas às associações de pessoas e a todas as suas realizações culturais deve ser outorgado com isso um ca rácter que universalmente as vincula A forma espiritual da Europa que é isso E mostrar a ideia filosófica imanente à história da Europa da Europa espiritual ou o que é o mesmo a sua teleologia imanente que se dá a conhe cer do ponto de vista da humanidade universal enquanto tal como rompimento e começo do desenvolvimento de uma nova idade do homem a época da humanidade que doravante não mais pode e não mais quer viver a não ser na livre formação da sua existência da sua vida histórica a partir de ideias da razão a partir de tare fas infinitas Cada forma espiritual está por essência num espaço histórico universal ou numa unidade particular de tempo histórico segundo a coexistência e a sucessão ela tem a sua história Por conseguinte se seguirmos as conexões históricas e como é neces sário partirmos de nós próprios e da nossa nação então a conti nuidade histórica conduznos sempre mais além da nossa nação até nações vizinhas e assim de nações a nações de um tempo a outro tempo ainda Por fim na Antiguidade somos conduzidos dos Romanos aos Gregos aos Egípcios Persas e assim sucessiva mente não há aqui manifestamente qualquer termo final Vamos dar aos tempos primitivos e não podemos evitar considerar a obra significativa e rica em ideias de Menghin sobre a História Uni wwwlusosofianet i i i i i i i i 18 Edmund Husserl versal da Idade da Pedra1Com este procedimento a humanidade aparece como uma única vida de homens e povos ligada apenas por relações espirituais com uma profusão de tipos de humani dade e de cultura que porém correm fluentemente uns para os outros E como um mar no qual os homens e os povos são como ondas que fugazmente se formam se alteram e de novo desapa recem umas encrespandose mais rica e complexamente outras de maneira mais primitiva 320 No entanto por uma conside ração mais consequente e voltada para o interior notamos traços de união e diferenças novas e peculiares Por mais que as nações europeias possam estar inimizadas elas têm porém um especial parentesco interno no plano do espírito que a todas atravessa e que sobreleva as diferenças nacionais E qualquer coisa como uma irmandade que nos dá nestes círculos a consciência de um solo pátrio Isto prontamente sobressai assim que queiramos compre ender por exemplo a historicidade indiana com os seus múltiplos povos e formações culturais Neste círculo há de novo unidade de um parentesco familiar mas que é estranho para nós Por outro lado os Indianos vivemnos como estranhos e só entre si se vi vem como confrades No entanto esta diferença de essência entre ser compatriota e estrangeiro uma categoria fundamental de toda a historicidade relativizandose em múltiplos níveis não pode bas tar A humanidade histórica não se articula de um modo sempre igual de acordo com esta categoria Sentimos isso precisamente na nossa Europa Há nela qualquer coisa singular que todos os outros grupos humanos sentem também em nós como algo que abstraindo de todas as considerações de utilidade se toma para eles um mo tivo para sempre se europeizarem apesar da vontade inquebrável de autopreservação espiritual enquanto nós se bem nos compre endermos a nós próprios jamais nos quereremos por exemplo in dianizar Quero com isto dizer que sentimos e apesar de toda a 1 Oswald Menghin Weltgeschichre der Steinzeit Wien A Schroll Co 1931 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 19 falta de clareza este sentimento tem plenamente a sua razão de ser que na nossa humanidade europeia está inata uma enteléquia que rege de uma ponta a outra a deveniência das formas europeias e lhes confere o sentido de um desenvolvimento para uma forma de vida e de ser ideais como para um pólo eterno Não como se se tratasse aqui de um dos bem conhecidos esforços em direcção a fins que dão o seu carácter ao domínio físico dos seres orgâni cos por conseguinte de qualquer coisa como o desenvolvimento biológico em graus sucessivos de uma forma embrionária até a maturidade com o sequente envelhecimento e morte Por razões essenciais não há nenhuma zoologia dos povos Eles são unidades espirituais não têm e particularmente não o tem a supranacionali dade Europa nenhuma forma madura já alcançada ou a alcançar enquanto forma para uma repetição regular O telos espiritual da humanidade europeia no 321 qual estão encerrados os telê par ticulares das nações isoladas e dos homens individuais reside no infinito é uma ideia infinita para a qual por assim dizer tende de modo oculto o inteiro devir espiritual Assim que no curso do desenvolvimento ele se torna consciente enquanto telos torna se também de modo necessário algo prático enquanto fim para a vontade e com isso se introduz um novo e mais elevado nível de desenvolvimento que está sob a direcção de normas de ideias normativas Tudo isto porém não pretende ser uma interpretação especu lativa da nossa historicidade mas antes a expressão de um pres sentimento vivido que se eleva na reflexão sem preconceitos Este dános contudo uma guia intencional para discernir na história da Europa conexões altamente significativas em cuja prossecução o pressentimento se torna para nós certeza comprovada Pressenti mento é segundo o modo do sentimento o indicador de caminhos em todas as descobertas Passemos ao desenvolvimento A Europa espiritual tem um lugar de nascimento Não quero dizer com isto um lugar de nas wwwlusosofianet i i i i i i i i 20 Edmund Husserl cimento geográfico num território se bem que também isso su ceda mas antes um lugar de nascimento espiritual numa nação ou seja nos homens individuais e grupos humanos dessa nação Essa nação é a Grécia Antiga dos séculos VII e VI aC Nela surge uma atitude de tipo novo dos indivíduos para com o mundo circun dante Como sua consequência verificase a irrupção de um tipo de formações espirituais completamente novas crescendo rapida mente para uma forma cultural sistematicamente fechada sobre si os Gregos denominaramna Filosofia Correctamente traduzida no sentido originário esta palavra não quer dizer outra coisa senão Ci ência Universal ciência do todo mundano da unidade total de tudo aquilo que é Bem depressa começa o interesse pelo todo e com isso a pergunta pelo devir omnienglobante e pelo ser no devir co meça a particularizarse segundo as formas e regiões gerais do ser assim se ramifica a Filosofia a Ciência una numa diversidade de ciências particulares Na irrupção da Filosofia neste sentido na qual todas as ci ências estão por conseguinte incluídas vejo eu por mais para doxal que isso possa soar o protofenómeno da Europa espiritual Por meio de explanações mais detalhadas por mais sucintas que tenham de ser a aparência de paradoxo depressa será afastada 322 Filosofia Ciência é o título para uma classe especial de formações culturais O movimento histórico que tomou a forma e o estilo da supranacionalidade europeia avança para uma forma normativa que reside no infinito mas não para uma que fosse já legível na mutação das formas por meio de uma simples consi deração morfológica exterior O permanente estar dirigido para a norma habita interiormente a vida intencional das pessoas indivi duais e a partir daí das nações e das suas sociedades particulares e finalmente do organismo das nações ligadas enquanto Europa certamente que não habita todas as pessoas não está plenamente desenvolvido nas personalidades de nível superior constituídas por actos intersubjectivos mas apesar de tudo habitaas sob a forma wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 21 de uma marcha necessária do desenvolvimento e propagação de um espírito de normas universalmente válidas isto tem ao mesmo tempo porém o significado de uma progressiva transformação da humanidade no seu todo por via da formação de ideias que se tor nam eficazes em pequenos pequeníssimos círculos As ideias ou seja as formações de sentido produzidas nas pessoas individuais com o maravilhoso modo novo de albergar em si infinitudes inten cionais não são como as coisas reais no espaço que entrando no campo da experiência humana não têm ainda qualquer significado para os homens enquanto pessoas Com a primeira concepção de ideias tornase o homem gradualmente um novo homem O seu ser espiritual entra no movimento de uma reformação progressiva Este movimento desenrolase desde o início comunicativa mente no seu próprio círculo de vida ele desperta um novo estilo de exis tência pessoal e através da recompreensão do outro um correspon dente novo devir Nele se difunde desde logo e no seguimento também para lá dele uma humanidade especial que vivendo na fi nitude vive para o pólo da infinitude Precisamente com isso surge um novo modo de comunalização e uma nova forma de comuni dade duradoura cuja vida espiritual comunalizada pelo amor das ideias pela produção de ideias e a normalização ideal da vida traz em si a infinitude como horizonte de futuro a de uma infinitude de gerações que se renovam a partir do espírito das ideias Isto consumase primeiro no espaço espiritual de uma nação a nação grega enquanto desenvolvimento da Filosofia e da comunidade fi losófica Em unidade com isso surge nesta nação desde logo um espírito de cultura universal 323 que atrai com o seu sortilégio o todo da humanidade e assim se produz uma progressiva mutação sob a forma de uma nova historicidade Este esboço grosseiro ganhará plenitude e maior compreensibi lidade se seguirmos no encalço da origem histórica da humanidade filosófica e científica esclarecendo a partir daí o sentido da Eu wwwlusosofianet i i i i i i i i 22 Edmund Husserl ropa e com isso do novo tipo de historicidade que se destaca da história universal com esta nova espécie de desenvolvimento Para começar aclaremos a assinalável peculiaridade da Filoso fia desdobrada em sempre novas ciências especiais Contrastemo la com outras formas culturais já disponíveis na humanidade pré científica contrastemola com os ofícios a cultura do solo com a cultura doméstica etc Todas elas designam classes de produtos culturais com os correspondentes métodos para a produção bem sucedida De resto elas têm uma existência transitória no mundo circundante Por outro lado as aquisições científicas depois de para elas terem sido obtidos os métodos de produção bem suce dida têm um modo de ser totalmente diferente uma totalmente diferente temporalidade Elas não se desgastam são imperecíveis a produção repetida não produz algo semelhante algo de igual mente utilizável no melhor dos casos ela produz sim qualquer que seja o número de produções da mesma pessoa e de quaisquer outras pessoas identicamente o mesmo algo idêntico segundo o seu sentido e validade As pessoas ligadas umas às outras na com preensão recíproca actual não podem deixar de experienciar o que foi produzido pelos companheiros respectivos em actos de produ ção iguais como identicamente o mesmo que o que elas próprias produzem Por outras palavras aquilo que o fazer científico ob tém não é algo real mas sim ideal Mas há mais ainda o que é assim obtido como válido como verdade serve de material para a possível produção de idealidades de nível superior e de sempre ou tras novas No interesse teórico desenvolvido tudo o que é obtido conserva de antemão o sentido de uma finalidade simplesmente re lativa tornase ponto de passagem para finalidades sempre novas sempre de um nível superior numa infinitude prefigurada como campo de trabalho universal como domínio da Ciência Ciência designa portanto a ideia de uma infinitude de tarefas das quais em cada tempo uma parte finita está já acabada e é conservada como uma validade persistente Esta 324 parte forma ao mesmo wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 23 tempo o fundo de premissas para um horizonte infinito de tarefas enquanto unidade de uma tarefa omnienglobante Todavia algo importante deve ser aqui notado em jeito de com plemento Na Ciência a idealidade dos produtos do trabalho cien tífico as verdades não significa a simples repetibilidade sob identificação do sentido e da comprovação a ideia de verdade no sentido da Ciência apartase e teremos ainda de falar disso da verdade da vida pré científica Ela quer ser verdade incondicio nada Reside aí uma infinitude que dá a cada verdade e comprova ção fácticas o carácter de ser apenas relativa de ser uma simples aproximação referida precisamente ao horizonte infinito no qual a verdade em si vale por assim dizer como ponto infinitamente distante Correlativamente esta infinitude reside também então no ser efectivo em sentido científico assim como de novo na validade universal para qualquer um entendido este qualquer um enquanto sujeito de todas as fundamentações a realizar não mais se trata pois de falar de qualquer um no sentido finito da vida précientífica Depois desta caracterização da peculiar idealidade científica com as infinitudes ideais multiplamente implicadas no seu sentido sobressai diante do nosso conspecto histórico um contraste que enunciamos nesta proposição nenhuma outra forma de cultura no horizonte histórico antes da Filosofia é num sentido tal cultura de ideias nenhuma conhece tarefas infinitas nenhuma conhece tais universos de idealidades que segundo o seu sentido são porta dores da infinitude tanto enquanto totalidades como segundo as suas individualidades bem como ainda segundo os seus métodos de produção A cultura extracientífica não ainda tocada pela Ciência é tarefa e realização do homem na finitude O horizonte aberto sem fim no qual ele vive não é descerrado os seus fins e o seu agir o seu modo de viver a sua motivação pessoal de grupo nacional mítica tudo isso se movimenta na circummundaneidade da circunspecção wwwlusosofianet i i i i i i i i 24 Edmund Husserl finita Não há aí nenhuma tarefa infinita nenhum adquirido ideal cuja infinitude seja o próprio campo de trabalho e sem dúvida o seja de um modo tal que para aquele mesmo que trabalha tenha conscientemente como seu modo de ser o sentido de um campo infinito de tarefas 325 Todavia com o surgimento da Filosofia Grega e a sua primeira formulação numa idealização consequente do novo sen tido da infinitude consumase a este respeito uma transformação continuada que finalmente atrai para a sua esfera todas as ideias da finitude e com isso a inteira cultura espiritual e a humanidade que lhe é correlativa Para nós Europeus há ainda fora da esfera filo sófico científica variadíssimas ideias infinitas se esta expressão é aqui permitida mas elas têm de agradecer o carácter análogo de infinitude tarefas infinitas finalidades comprovações verdades verdadeiros valores bens autênticos normas absolutamente válidas à transformação da humanidade através da Filosofia e das suas idealidades Cultura científica sob ideias de infinitude significa por conse guinte um revolucionamento da cultura no seu todo um revolucio namento do inteiro modo de ser da humanidade enquanto criadora de cultura Ela significa também um revolucionamento da his toricidade a qual é agora história do desfazerse da humanidade finita no fazerse humanidade de tarefas infinitas Encontramos aqui a objecção fácil de que a Filosofia a Ciên cia dos Gregos não é para eles emblemática não é algo que com eles por vez primeira tivesse vindo ao mundo Ao fim ao cabo eles próprios nos falam dos sábios egípcios babilónios etc e apren deram de facto muitas coisas com eles Possuímos hoje em dia uma profusão de trabalhos sobre a Filosofia Indiana a Filosofia Chinesa etc nos quais estas são postas no mesmo plano que a Fi losofia Grega e são tomadas como simples enformações históricas diversas no interior de uma mesma ideia de cultura Naturalmente que não falta aqui algo comum No entanto não devemos permitir wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 25 que o geral simplesmente morfológico encubra as profundezas in tencionais e nos torne cegos para as mais essenciais diferenças de princípio Antes do mais a própria atitude de ambos os filósofos a di recção universal do seu interesse é já fundamentalmente diferente Podemos verificar num lado e noutro um interesse abrangendo o mundo um interesse que conduz de ambos os lados por conse guinte também nas filosofias indiana chinesa e semelhantes a conhecimentos universais do mundo operando por todo lado como um interesse vocacional de vida e conduzindo através de motivações compreensíveis 326 a comunidades de vocação em que de geração em geração os resultados gerais se propagam e correspondentemente se aperfeiçoam Só com os Gregos temos porém um interesse de vida universal cosmológico na forma de tipo essencialmente novo de uma atitude puramente teórica e isto enquanto forma comunitária em que este interesse tem eficácia a partir de fundamentos internos a correspondente comunidade de tipo novo dos filósofos dos cientistas os matemáticos os astróno mos etc Eles são os homens que não isoladamente mas antes uns com os outros e uns para os outros portanto em trabalho co munitário ligado interpessoalmente almejam e alcançam a teoria e nada de diferente da teoria cujo crescimento e permanente aper feiçoamento com o alargamento do círculo de colaboradores e a sucessão das gerações de investigadores são finalmente assumidos pela vontade com o sentido de uma tarefa infinita a todos comum A atitude teórica tem nos Gregos a sua origem histórica Falando em termos gerais atitude significa um estilo habitual mente fixo da vida volitiva em direcções da vontade ou interesses por ele prefigurados em fins últimos em realizações culturais cujo estilo de conjunto fica portanto deste modo determinado Neste estilo persistente enquanto forma normal decorre a vida em cada caso determinada Os teores concretos da cultura mudam numa historicidade relativamente fechada Na sua situação histórica a wwwlusosofianet i i i i i i i i 26 Edmund Husserl humanidade ou seja uma comunidade fechada como a nação a tribo etc vive sempre em uma ou outra atitude A sua vida tem sempre um estilo normal e nele uma constante historicidade ou desenvolvimento Por conseguinte na sua novidade a atitude teórica referese re trospectivamente a uma atitude precedente que era antes a norma ela caracterizase como conversão de atitude2 Considerando uni versalmente a historicidade da existência humana em todas as suas formas comunitárias e nos seus níveis históricos é agora visível que uma certa atitude é por essência a atitude em si primeira ou seja que um certo estilo normal do existente humano dito numa generalidade formal marca uma primeira historicidade no inte rior da qual o estilo normal de cada vez facticamente actual do existente criador de cultura permanece formalmente o mesmo em toda ascensão decadência ou estagnação 327 Falamos a este respeito da atitude natural primeva da atitude da vida originaria mente natural da primeira forma originariamente natural das cul turas superiores ou inferiores desenvolvendose sem impedimen tos ou estagnantes Todas as outras atitudes estão assim retros pectivamente referidas a esta atitude natural enquanto conversões Falando mais concretamente numa das atitudes naturais histori camente factuais da humanidade devem surgir a partir da situação interna e externa que num determinado momento do tempo se tor nou concreta motivos que no seu interior levem primeiro homens isolados e depois grupos humanos a uma conversão Como se deve caracterizar então a atitude por essência origi nária o modo histórico fundamental do existente humano Res pondemos compreensivelmente por razões generativas os ho mens vivem sempre em comunidades na família tribo nação 2 Jogo de palavras entre Einstellung aqui traduzido por atitude e Ums tellung reorientação transposição conversão Optámos por conversão de ati tude ou simplesmente conversão para Umstellung e por converter quando se trata no mesmo contexto de sentido do verbo umstellen e suas flexões Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 27 estando estas por sua vez mais rica ou mais pobremente articu ladas em socialidades particulares A vida natural caracterizase agora como uma vida que ingénua e directamente se entrega ao mundo ao mundo que enquanto horizonte universal está sempre aí consciente de um certo modo mas não tematicamente Temático é aquilo para que estamos dirigidos A vida desperta é sempre um estar dirigido para isto ou para aquilo dirigido para isto enquanto fim ou meio enquanto relevante ou irrelevante para o interessante ou o indiferente o privado ou o público para o que é quotidiana mente indispensável ou para algo irrompendo como novo Tudo isto repousa no horizonte do mundo mas são precisos motivos par ticulares para que quem está agarrado a uma tal vida mundana se converta e por aí chegue de algum modo a fazer dessa vida um tema e a ganhar por ela um interesse persistente Todavia aqui são necessárias explanações mais detalhadas Os homens individuais que se convertem têm enquanto homens a sua comunidade universal de vida a sua nação e também os seus in teresses naturais continuados cada um os seus próprios interesses não os podem perder simplesmente por qualquer conversão por que isso seria para cada um deles deixar de ser quem é deixar de ser aquilo em que se tornou desde o nascimento Quaisquer que sejam as circunstâncias a conversão só pode portanto durar um lapso de tempo ela só pode ter uma validade continuada para toda a restante vida sob a forma de uma decisão incondicionada da vontade de reassumir em Lapsos de tempo periódicos mas inti mamente unificados 328 sempre a mesma atitude e de manter firmemente como válidos e realizáveis estes interesses de novo tipo através desta continuidade lançando intencionalmente pontes so bre as descontinuidades e de finalmente os realizar nas formas culturais correspondentes Conhecemos situações semelhantes nas profissões que surgem já nas vidas de cultura naturalmente originárias com as suas tem poralidades profissionais periódicas que permeiam a restante vida wwwlusosofianet i i i i i i i i 28 Edmund Husserl e a sua temporalidade concreta as horas de serviço do funcionário etc Agora dois casos são possíveis Ou os interesses da nova ati tude querem servir os interesses da vida natural ou coisa que é essencialmente o mesmo da práxis natural caso em que a nova atitude será ela própria uma atitude prática Isto pode ter agora um sentido semelhante ao da atitude prática do político que en quanto funcionário da nação está dirigido para o bem geral e por conseguinte quer servir pela sua própria práxis a práxis de todos os outros e mediatamente também a sua própria Isto pertence certamente ainda ao domínio da atitude natural a qual por essên cia se diferencia nos diversos tipos de membros da comunidade e é de facto diferente para aqueles que regem a comunidade e para os cidadãos ambos tomados naturalmente no sentido mais lato possível Em todo caso a analogia torna compreensível que a uni versalidade de uma atitude prática no caso vertente uma que se dirige para o mundo no seu todo não tem de modo nenhum de querer dizer um estar interessado e ocupado com todas as individu alidades e totalidades particulares no interior do mundo coisa que seria certamente impensável Perante a atitude prática de grau superior há porém ainda uma outra possibilidade essencial de alteração da atitude natural geral que logo aprenderemos a conhecer no caso tipo da atitude mítico religiosa a saber a atitude teorética assim a denominamos de antemão porque nela surge por um desenvolvimento necessário a teoria filosófica que se torna num fim autónomo ou num campo de interesse A atitude teorética se bem que seja de novo uma atitude profissional é totalmente nãoprática No quadro da sua vida profissional própria ela repousa por conseguinte numa epo ché voluntária de toda e qualquer práxis e também da de grau superior que esteja ao serviço da natural idade 329 Todavia seja desde já dito que com isto não se fala de modo nenhum de um estrangulamento definitivo do fluxo entre wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 29 vida teorética e vida prática correspondentemente de uma desa gregação da vida concreta do teórico em duas continuidades de vida desenrolandose desconexamente coisa que socialmente fa lando teria portanto como significado o surgimento de duas es feras culturais espiritualmente sem conexão Porque é ainda possí vel uma terceira forma da atitude natural frente à atitude mítico religiosa naturalmente fundada e por outro lado à atitude teoré tica a saber a síntese de ambos os interesses que se consuma na passagem da atitude teorética para a prática de tal modo que a teoria surgindo numa unidade fechada e sob epoché de toda e qualquer práxis a Ciência Universal é chamada e na própria intelecção teorética atesta ela o seu chamamento a servir de um modo novo a humanidade a qual na sua existência concreta vive sempre primeiro de modo natural Isto sucede sob a forma de uma práxis de um tipo novo o da crítica universal de toda a vida e de todas as finalidades da vida de todas as formações e sistemas cul turais já surgidos a partir da vida dos homens e com isso tam bém uma crítica da própria humanidade e dos seus valores reito res tanto expressos como inexpressos e numa consequência mais lata sob a forma de uma práxis que tem em vista elevar a huma nidade segundo normas de verdade de todas as formas através da razão científica universal modificála desde a raiz numa nova humanidade capacitada para uma autoresponsabilidade absoluta com base em intelecções teoréticas absolutas Todavia antes desta síntese da universalidade teorética e da práxis universalmente inte ressada há manifestamente uma outra síntese da teoria e da práxis a saber o aproveitamento para a práxis da vida natural de resulta dos limitados da teoria das ciências especializadas limitadas que deixam a universalidade do interesse teórico cair na especialização Portanto aqui se ligam por finitização a atitude originariamente natural e a atitude teorética Para a compreensão mais aprofundada da Ciência grecoeuropeia falando universalmente a Filosofia na sua diferença de princípio wwwlusosofianet i i i i i i i i 30 Edmund Husserl a respeito das filosofias orientais que se supõe serem equivalen tes é agora necessário considerar mais de perto a atitude prático universal 330 tal como ela criou estas filosofias antes da ci ência europeia e esclarecêla enquanto atitude míticoreligiosa E um facto bem conhecido mas também uma visível necessidade de essência que a cada humanidade vivendo naturalmente antes da irrupção e da efectuação da Filosofia Grega e deste modo antes de uma consideração científica do mundo correspondem motivos míticoreligiosos e uma práxis míticoreligiosa A atitude mítico religiosa consiste agora em que o mundo enquanto totalidade se torna temático e decerto temático de um modo prático o mundo tal quer naturalmente dizer aqui o mundo que é concreta e tradi cionalmente válido para a correspondente humanidade digamos a nação por conseguinte o mundo miticamente apercebido A esta atitude míticonatural pertencem de antemão e primeiro que tudo não apenas homens e animais e outros seres subhumanos e sub animais mas também seres sobrehumanos O olhar que os abarca enquanto totalidade é prático mas não como se o homem que no deixarse viver natural está apenas actualmente interessado em re alidades particulares pudesse alguma vez chegar a uma situação em que subitamente tudo fosse de modo igual e em conjunto para ele relevante do ponto de vista prático Mas uma vez que o todo do mundo vale como mundo regido por poderes míticos e que o destino do homem depende mediata ou imediatamente do modo como esses poderes exercem o seu domínio a consideração míticouniversal do mundo é possivelmente incitada pela práxis e é então ela própria uma consideração praticamente interessada Motivados para esta atitude míticoreligiosa estão compreensivel mente os sacerdotes pertencentes a uma casta sacerdotal que ad ministra unitariamente os interesses míticoreligiosos e a sua tradi ção Nela surge e se propaga o saber linguisticamente cunhado e fixado acerca dos poderes míticos pensados de um modo pessoal no sentido mais alargado Ele toma a partir de si mesmo a forma wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 31 de especulação mítica a qual surgindo como interpretação ingenu amente convincente transforma o próprio mito Compreendese assim que o olhar esteja constantemente codirigido para o res tante mundo regido pelos poderes míticos e para o que lhe corres ponde de seres humanos e subhumanos que de resto não estando fixados no seu ser próprio estão abertos ao influxo de elementos míticos para o modo como esses poderes regem os acontecimen tos deste mundo para o modo como eles próprios 331 se de vem juntar numa ordem suprema de poder para o modo como por fim eles intervêm através de funções e funcionários indivi duais criando executando e impondo o destino Todo este saber especulativo tem porém como finalidade servir os homens nas suas finalidades humanas para que conformem a sua vida mun dana do modo mais feliz possível a possam proteger da doença da fatalidade de todo tipo da miséria e da morte E concebível que nesta consideração e conhecimento míticoprático do mundo possam surgir muitos conhecimentos cientificamente aproveitáveis acerca do mundo factual ou seja do mundo conhecido a partir da experiência científica Mas no seu contexto de sentido eles são e permanecem conhecimentos míticopráticos e é um erro e uma falsificação do sentido que alguém porque foi formado nos modos de pensar criados na Grécia e aperfeiçoados na Modernidade fale já de Filosofia e Ciência Indiana e Chinesa Astronomia Matemá tica interpretando europeiamente portanto a Índia a Babilónia e a China Desta atitude universal mas míticoprática destacase nitida mente agora a atitude teorética nãoprática em qualquer dos sentidos anteriores a do Jaumzein a que as figuras maiores do primeiro período culminante da Filosofia Grega Platão e Aristó teles reconduzem a origem da Filosofia Apoderase dos homens o fervor de uma consideração e de um conhecimento do mundo que se afasta de todo e qualquer interesse prático e que no círculo fechado das suas actividades cognitivas e nos tempos a elas con wwwlusosofianet i i i i i i i i 32 Edmund Husserl sagrados nada mais almeja e alcança que pura teoria Por outras palavras o homem tornase um espectador descomprometido si nóptico do mundo tornase um filósofo ou melhor a partir daí a sua vida tornase receptiva apenas às motivações que são possíveis nesta atitude motivações para novos objectivos de pensamento e métodos através dos quais se realiza por fim a Filosofia e o pró prio homem se realiza enquanto filósofo Naturalmente a irrupção da atitude teorética tem como tudo o que se forma historicamente a sua motivação fáctica no contexto concreto do acontecer histórico Importa portanto a este respeito esclarecer como a partir do tipo e do horizonte de vida da humani dade grega do século VII 332 no seu comércio com as grandes e já altamente cultivadas nações do seu mundo circundante aquele Jaumzein pôde aparecer e tornarse habitual primeiro que tudo nos indivíduos singulares Não vamos entrar em detalhes é mais importante para nós compreender o caminho motivacional o ca minho da doação e criação de sentido que conduz da simples con versão de atitude ou seja do simples Jaumzein até a teoria um facto histórico que deve ter porém a sua essencialidade própria Importa esclarecer a transmutação que vai da teoria originária da visão do mundo conhecimento do mundo a partir da simples vi são universal totalmente descomprometida decorrente da epo ché de todo e qualquer interesse prático até a Ciência autêntica ambas mediadas pelo contraste entre dìxa e âpisjheme O inte resse teorético incipiente enquanto Jaumzein é manifestamente uma modificação dessa curiosidade que tem já o seu lugar origi nário na vida natural enquanto brecha na marcha da vida séria seja como efeito de interesses de vida originalmente formados seja como um olhar lançado em volta como que por jogo quando estão satisfeitas as necessidades directas actuais ou quando estão decor ridas as horas de ocupação profissional A curiosidade aqui não como vício habitual é também uma modificação um interesse que se eximiu aos interesses vitais os deixou cair wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 33 Instalado nesta atitude o homem vê primeiro que tudo o mais a diversidade das nações a sua própria e as estrangeiras cada uma com o seu próprio mundo circundante que vale evidentemente para ela como o mundo efectivo puro e simples com as suas tradi ções os seus deuses demónios as suas potestades míticas Neste contraste espantoso sobrevém a distinção entre representação do mundo e mundo efectivo e surge a nova pergunta pela verdade por conseguinte não a verdade do quotidiano vinculada à tradi ção mas antes uma verdade idêntica válida para todos que não estão ofuscados pela tradição uma verdade em si Compete por tanto à atitude teorética do filósofo que ele esteja constantemente e de antemão decidido a consagrar sempre a sua vida futura no sentido de uma vida universal à tarefa da teoria a edificar conhe cimento teorético sobre conhecimento teorético in infinitum Em personalidades singulares como Tales etc originase com isso uma nova humanidade homens que criam por vocação a vida filosófica 333 que criam a Filosofia como uma forma cul tural de tipo novo Compreensivelmente originase do mesmo lance um correspondente tipo novo de comunalização Estas for mações ideais da teoria são sem mais vividas e assumidas con juntamente pela recompreensão do outro e pela reprodução Sem mais elas conduzem ao trabalho conjunto que se entreajuda pela crítica Mesmo os que estão à margem os nãofilósofos tornamse atentos a um tão singular fazer e agir Recompreendendo os ou tros ou se tornam eles próprios filósofos ou se tornam discípulos se estão já profissionalmente muito manietados Assim se difunde a Filosofia de uma maneira dupla enquanto ampliação da comu nidade de vocação dos filósofos e enquanto ampliação conjunta do movimento comunitário da educação Mas aqui reside também a origem da cisão interna posteriormente tão decisiva da unidade do povo em cultos e incultos Manifestamente esta tendência de difu são não tem porém os seus limites na nação natal Diferentemente de todas as outras obras culturais ela não é um movimento do inte wwwlusosofianet i i i i i i i i 34 Edmund Husserl resse vinculado ao solo da tradição nacional Também os homens de nações estrangeiras aprendem a recompreender e tomam em geral parte na violenta transformação cultural que irradia da Filo sofia Todavia isto mesmo precisa ainda de ser caracterizado Da Filosofia que se amplia na forma da investigação e da educação deriva um duplo efeito espiritual Por um lado o mais essencial da atitude teorética do homem filosófico é a peculiar universalidade da postura crítica a qual está decidida a não aceitar sem questão qualquer opinião prédada qualquer tradição de modo a que possa perguntar logo de seguida a respeito do todo do universo prédado segundo a tradição pelo que é em si verdadeiro por uma idea lidade Mas isto não é apenas uma nova postura cognitiva Em virtude da exigência de submeter a empina no seu todo a normas ideais a saber as da verdade incondicionada depressa resulta daí uma transformação de grande alcance da inteira práxis da exis tência humana e portanto da vida de cultura no seu todo ela não mais deve deixar que as suas normas sejam tomadas da empiria in génua do quotidiano e da tradição mas antes da verdade objectiva Assim devém a verdade objectiva um valor absoluto que no movi mento da educação e no constante efeito na formação dos jovens 334 traz consigo uma práxis universal modificada Se reflectir mos um pouco mais neste tipo de transmutação logo compreen demos o inevitável se a ideia geral da verdade em si se torna a norma universal de todas as verdades relativas que surgem na vida humana das verdades de situação efectivas ou supostas então isto também diz respeito a todas as normas tradicionais às normas do Direito da beleza da utilidade dos valores pessoais dominantes dos valores pessoais do carácter etc Resulta portanto uma particular humanidade e uma particular vocação de vida em correlação com a realização de uma nova cul tura O conhecimento filosófico do mundo não cria apenas estes resultados de tipo particular mas cria antes uma postura humana que imediatamente engrena em toda a restante vida prática com wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 35 todas as suas exigências e fins os fins dessa tradição histórica no interior da qual se foi educado e de onde retiram a sua validade Edificase entre os homens uma comunidade nova e íntima pode ríamos mesmo dizer uma comunidade de puros interesses ideais homens que vivem a Filosofia entre si ligados pela dedicação às ideias que não são apenas úteis a todos mas que são próprias de todos eles Necessariamente se forma uma eficiência comunitária de tipo particular a do trabalhar com o outro e do trabalhar para o outro mutuamente se coadjuvando no exercício crítico a partir da qual resulta a verdade pura e incondicionada enquanto bem co mum A isso se junta agora a tendência necessária para a propaga ção do interesse por meio da recompreensão do que foi pretendido e realizado portanto uma tendência para a inclusão de sempre no vas pessoas ainda não filosóficas na comunidade dos filósofos As sim acontece primeiro no interior da nação natal A extensão não pode ocorrer exclusivamente como difusão da investigação cientí fica profissional mas lançando as suas mãos muito além do círculo profissional ela ocorre antes enquanto movimento educativo Se o movimento educativo se difunde para círculos cada vez mais largos de povos e por natureza para os mais elevados para os dominantes para os menos constrangidos pelos cuidados da vida que consequências resultam daí Manifestamente isto não conduz simplesmente a uma modificação homogénea da nor mal vida do Estado e da Nação satisfatória no seu conjunto mas antes com toda a probabilidade a grandes 335 cisões interiores nas quais esta vida e o todo da cultura nacional entram em convul são Os que estão conservadoramente satisfeitos com a tradição e o círculo humano dos filósofos tornamse antagonistas mútuos e seguramente a luta desenrolarseá nas esferas políticas do poder A perseguição iniciase já nos próprios começos da Filosofia São proscritos os homens cuja vida se entrega a estas ideias Ainda assim as ideias são sempre mais fortes que quaisquer poderes em píricos wwwlusosofianet i i i i i i i i 36 Edmund Husserl Além disso temos também de tomar aqui em linha de conta que a Filosofia provindo de uma atitude crítica universal contra toda e qualquer prédoação tradicional não é impedida na sua pro pagação por qualquer limite nacional Apenas deve estar presente a capacidade de assumir uma atitude crítica universal a qual tem cer tamente como pressuposto um certo nível de cultura précientífica Assim se pode propagar a convulsão da cultura nacional primeiro que tudo quando a Ciência Universal em progresso se torna um bem comum para as nações antes alheadas umas das outras e a unidade de uma comunidade científica e educativa atravessa a plu ralidade das nações Há ainda uma coisa importante que deve ser aqui trazida res peitante à relação da Filosofia com as tradições Duas possibilida des devem ser aqui consideradas Ou o que vale segundo a tradição é totalmente rejeitado ou o seu conteúdo é filosoficamente assu mido e com isso também de novo formado no espírito da ideali dade filosófica Um caso notável é aqui o da Religião Não quero pôr na sua conta as religiões politeístas Deuses no plural pode res míticos de todo e qualquer tipo são objectos circummundanos com a mesma efectividade que animais ou homens No conceito de Deus o singular é essencial Mas ele implica do ponto de vista humano que a sua validade de ser e de valor seja experien ciada como um vínculo interior absoluto Aqui se produz agora uma fusão desta absolutez com a da idealidade filosófica No pro cesso geral de idealização que procede da Filosofia Deus é por assim dizer logicizado tornase portador do logos absoluto Eu gostaria de resto de ver já o lógico no facto de a Religião apelar teologicamente para a evidência da fé enquanto 336 tipo seu mais próprio e profundo de fundamentação do verdadeiro ser Os deuses nacionais estão porém simplesmente aí sem questão en quanto factos reais do mundo circundante Antes da Filosofia nin guém levanta quaisquer questões críticognosiológicas quaisquer questões acerca da evidência wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 37 No essencial se bem que um pouco esquematicamente está agora delineada a motivação histórica que torna compreensível como a partir de um punhado de gregos extravagantes pôde ser posta em marcha uma convulsão da existência humana e da sua inteira cul tura primeiro na sua própria nação e depois nas vizinhas Mas é agora também visível que a partir daqui poderia despontar uma supranacionalidade de um tipo completamente novo Refirome naturalmente à forma espiritual da Europa Agora não mais se trata de uma justaposição de diferentes nações influenciandose mutuamente apenas por lutas comerciais e de poder um novo es pírito procedente da Filosofia e das ciências particulares de livre crítica e de instituição de normas para tarefas infinitas domina a humanidade cria novos e infinitos ideais Estes sãono para os homens individuais e as suas nações sãono também para as pró prias nações Mas finalmente eles são também ideais infinitos para a síntese em expansão das nações na qual cada uma destas nações precisamente porque aspira à sua própria tarefa ideal no espírito da infinitude oferece o seu melhor às nações com que está unida Por via deste ofertar e receber elevase o todo supranaci onal com todas as suas sociedades escalonadas preenchido pelo espírito exaltado de uma tarefa infinita articulada em várias infini tudes mas que é apenas uma única Nesta sociedade total dirigida para o ideal a Filosofia detém tanto a função de guia como as suas tarefas infinitas específicas refirome à função de reflexão teorética livre e universal que compreende todos os ideais e o ideal total por conseguinte o universo de todas as normas Numa humanidade europeia a Filosofia tem constantemente de exercer a sua função enquanto arconte de toda a humanidade wwwlusosofianet i i i i i i i i 38 Edmund Husserl II Todavia devem agora tomar voz os malentendidos seguramente muito incisivos e as objecções que como me 337 quer parecer retiram a sua força sugestiva dos preconceitos em moda e da sua fraseologia Não será o que foi aqui exposto uma intempestiva rea bilitação do racionalismo da iluminice3 do intelectualismo que se vai perder em teorias alheadas do mundo com as suas neces sárias consequências nefastas do diletantismo inane do snobismo intelectual Não significa isto querer retomar uma vez mais ao erro fatal segundo o qual é a Ciência que faz sábios os homens que ela está vocacionada para criar uma humanidade autêntica que se sobreponha ao destino e que seja suficiente Quem hoje levará ainda a sério estes pensamentos Esta objecção tem certamente uma legitimidade relativa para o estado do desenvolvimento euro peu desde o século XVII até o fim do século XIX Ela não toca o sentido próprio da minha exposição porém Querme parecer que eu o suposto reaccionário sou muito mais radical e muito mais revolucionário que todos aqueles que hoje em dia se comportam tão radicalmente em palavras Também estou certo de que a crise europeia radica num racio nalismo extraviado Mas não se pode tomar isto como se a racio nalidade enquanto tal fosse o mal ou tivesse um significado subor dinado no todo da existência humana naquele sentido elevado e autêntico de que exclusivamente falamos como sentido prístino grego que se tornou um ideal no período clássico da Filosofia Grega ela carece decerto de muitas clarificações na autoreflexão mas é chamada na sua forma amadurecida a conduzir o nosso de 3 Aufkärerei palavra pejorativa com que em círculos hegelianos se desig nou o movimento do Iluminismo Aufklärung Traduzirmola por iluminice um neologismo que comporta também o mesmo sentido desdenhoso Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 39 senvolvimento Por outro lado concedemos de boa vontade e o Idealismo Alemão há muito nos precedeu nesta visão que a forma de desenvolvimento da ratio enquanto Racionalismo do período do Iluminismo foi um extravio se bem que ainda assim um ex travio compreensível Razão é um título amplo Segundo a boa velha definição o homem é o ser vivo racional e neste sentido amplo o papua é também homem e não bicho Ele tem as suas finalidades e age pensadamente considerando as possibilidades práticas As obras e os métodos resultantes entram na tradição que é sempre de novo compreensível na sua racionalidade Mas tal como o homem e o próprio papua 338 representam um novo nível da animalidade a saber em contraposição aos bichos também a razão filosófica representa um novo nível da humanidade e da sua razão O nível da existência humana sob4 normas ideais para tarefas infinitas o nível da existência sub specie aeterni é porém apenas possível na absoluta universalidade precisamente aquela que está desde o início contida na ideia de Filosofia A Filosofia Universal com todas as ciências particulares constitui certamente uma aparição parcelar da cultura europeia Mas está implícito no sentido de toda a minha exposição que esta parte seja por assim dizer o cérebro funcionante de cujo funcionamento normal depende a autêntica a saudável espiritualidade europeia A humanidade elevada ao hu mano superior ou à razão exige portanto uma Filosofia autêntica Aqui reside porém o ponto periclitante Filosofia de vemos aqui separar filosofia como facto histórico de um tempo determinado e Filosofia enquanto ideia ideia de uma tarefa infi nita A filosofia de cada vez historicamente efectiva é a tentativa mais ou menos conseguida de realizar a ideia reitora da infinitude e mesmo da totalidade das verdades ideais práticos a saber ide 4 Lemos under em vez de und der de acordo com a lição seguida já por David Carr vide The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology Evanston Northwestern University Press 1970 p 290 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i 40 Edmund Husserl ais vistos como pólos eternos de que não nos podemos desviar na nossa inteira vida sem arrependimento sem nos tornarmos desle ais e por isso infelizes não são de modo algum para este olhar já claros e determinados eles são antecipados numa generalidade plurívoca A determinidade resulta somente do trabalho concreto e do fazer que é no mínimo relativamente bem sucedido Há aí a constante ameaça de se cair em unilateralidades e em contenta mentos precipitados que se vingam em contradições subsequentes Daí o contraste entre as grandes pretensões dos sistemas filosóficos e o facto de serem entre si incompatíveis A isso há que juntar a necessidade e novamente a periculosidade da especialização Assim pode a racionalidade unilateral tornarse sem dúvida um mal Podemos também dizer pertence à essência da razão que os filósofos só possam compreender as suas tarefas infinitas e tra balhar nelas primeiro que tudo numa unilateralidade absolutamente necessária Não há aí nenhuma improcedência nenhum erro mas antes como foi dito o caminho que é para eles recto e necessário permitelhes captar de início apenas um aspecto da tarefa pri meiro 339 sem notarem que a tarefa infinita no seu todo o co nhecimento teorético da totalidade daquilo que é tem ainda outros aspectos Se as insuficiências se anunciam em obscuridades e con tradições isso motiva um começo para uma reflexão universal O filósofo deve portanto ter sempre em vista apoderarse do sentido verdadeiro e completo da Filosofia da totalidade dos seus hori zontes de infinitude Nenhuma linha de conhecimento nenhuma verdade singular pode ser absolutizada e isolada Somente nesta autoconsciência suprema que se torna ela própria um dos ramos da tarefa infinita pode a Filosofia preencher a sua função pode pôrse a caminho e através dela a autêntica humanidade Mas que assim seja é coisa que pertence também de novo ao campo de co nhecimento da Filosofia no nível supremo de autoreflexão Uma Filosofia é conhecimento universal apenas através desta constante reflexividade wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 41 Disse o caminho da Filosofia ultrapassa a ingenuidade Este é então o lugar de crítica do tão afamado Irracionalismo ou seja o lugar para pôr a descoberto a ingenuidade desse racionalismo que é tornado pela racionalidade filosófica pura e simples mas que é se guramente característico da Filosofia da Modernidade no seu con junto desde a Renascença e se toma pelo Racionalismo efectivo e portanto universal Nesta ingenuidade inevitável no começo estão portanto mergulhadas todas as ciências cujos começos já na Antiguidade se tinham desenvolvido Dito com mais precisão o título generalíssimo para esta ingenuidade é objectivismo en formado nos diversos tipos do naturalismo da naturalização do espírito As antigas e as novas filosofias eram e permanecem in genuamente objectivistas Para ser justo há que acrescentar que o Idealismo Alemão procedente de Kant estava já fervorosamente empenhado em Superar uma ingenuidade que se tornara já muito sensível sem que porém fosse capaz de atingir efectivamente o nível mais alto de reflexividade decisivo para a nova forma da Fi losofia e da humanidade europeia Só posso tornar compreensível o que foi dito por indicações grosseiras O homem natural tornemolo como o homem do pe ríodo préfilosófico está mundanamente dirigido em todos os seus cuidados e fazeres O seu campo de vida e de efectuação é o 340 mundo circundante estendendose espáciotemporalmente à sua volta no qual ele próprio se inclui Isto permanece con servado na atitude teorética a qual de início não pode ser outra coisa senão essa atitude do espectador descomprometido de um mundo que por essa via se desmitifica A Filosofia vê no mundo o universo daquilo que é e o mundo tornase mundo objectivo frente às representações do mundo que mudam do ponto de vista das nações e das subjectividades individuais a verdade tornase por conseguinte verdade objectiva Assim começa a Filosofia en quanto Cosmologia como é compreensível ela está no seu inte resse teorético dirigida primeiro para a natureza corpórea porque wwwlusosofianet i i i i i i i i 42 Edmund Husserl todo o dado espáciotemporal tem em todo caso pelo menos na sua base a fórmula existencial da corporalidade Homens e bi chos não são simples corpos mas na direcção circummundana do olhar eles aparecem como qualquer coisa que é corporeamente e por consequência aparecem como realidades inseri das na espácio temporal idade universal Assim têm todos os acontecimentos aní micos os do eu respectivo como experienciar pensar querer uma certa objectividade A vida em comunidade a das famílias povos e semelhantes parece então dissolverse nos indivíduos singulares enquanto objectos psicofísicos a vinculação espiritual através da causalidade psicofísica carece de uma continuidade pu ramente espiritual a natureza física intervém em toda parte A marcha histórica do desenvolvimento está prefigurada de modo determinado por esta atitude para com o mundo circun dante Já o olhar mais fugidio para a corporalidade que pode ser encontrada de antemão no mundo circundante mostra que a natu reza é um todo omniconectado homogéneo por assim dizer um mundo para si abraçado pela espáciotemporalidade homogénea repartido em coisas individuais todas iguais entre si enquanto res extensae e determinandose causalmente umas às outras Muito depressa se dá um primeiro grande passo na descoberta a supe ração da finitude da natureza já pensada como um em si objectivo uma finitude não obstante a aberta ausência de fim E descoberta a infinitude primeiramente na forma de idealização das grande zas das medidas dos números das figuras das rectas pólos su perfícies etc A natureza o espaço o tempo tornamse idealiter extensíveis ao infinito assim como idealiter partíveis ao infinito A partir da arte da Agrimensura desponta a Geometria a partir da arte dos números a Aritmética da mecânica quotidiana a Me cânica matemática etc Transformamse agora sem que 341 sobre isso seja formulada uma hipótese expressa a natureza e o mundo intuitivos num mundo matemático o mundo das ciências matemáticas da natureza A Antiguidade foi à frente neste cami wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 43 nho e com a sua Matemática consumouse ao mesmo tempo a primeira descoberta de ideais infinitos e de tarefas infinitas Isto tornouse para todos os tempos posteriores a estrela orientadora das ciências Que eficácia teve agora o sucesso embriagante desta descoberta da infinitude física para a tentativa de dominar cienti ficamente a esfera espiritual Na atitude circummundana na que é constantemente objectivista todo o espiritual aparecia como que sobreposto na corporalidade Está assim próxima uma transposi ção do modo de pensar científiconatural Daí que encontremos já nos começos o Materialismo e Determinismo de Demócrito Os espíritos maiores porém recuam diante disso e também diante de toda e qualquer psicofísica neste estilo novo Desde Sócrates o homem tornase tema na sua específica humanidade como pessoa nas sua vida espiritual comunitária O homem permanece inse rido no mundo objectivo mas tornase já num terna maior para Platão e Aristóteles Tornase sensível aqui uma cisão digna de nota o humano pertence ao universo dos factos objectivos mas enquanto pessoas enquanto eu têm os homens objectivos fins eles têm normas da tradição normas de verdade normas eter nas Se o desenvolvimento na Antiguidade se entorpece nem por isso ele se perde porém Dêmos o salto para a chamada Moderni dade Com entusiasmo ardente é retomada a tarefa infinita de um conhecimento matemático da natureza e do mundo em geral Os resultados portentosos do conhecimento da natureza devem agora ter a sua contrapartida no conhecimento do espírito A razão ha via provado a sua força na natureza Tal como o Sol que alumia e aquece é um só assim é também uma só a razão Descartes5 5 Tratase de uma citação truncada de um passo célebre das Regulae ad di rectionem ingenni regra primeira de Descartes provavelmente de memória e por mistura com um outro não menos conhecido de Platão República VI 508b e sgs onde há de facto a referência indirecta omissa em Descartes a qual quer coisa como um poder generativo do calor do Sol O texto de Descartes é o seguinte Nam cúm scientiae omnes nihil aliud sint quám humana sapientia quae semper una eadem manet quantumvis differentibus subjectis applicata wwwlusosofianet i i i i i i i i 44 Edmund Husserl O método científiconatural deve também abrir os segredos do es pírito O espírito é real objectivamente no mundo e enquanto tal fundado na corporalidade A concepção do mundo assume por conseguinte de modo imediato e totalmente dominante a forma de uma concepção dualista e seguramente psicofísica A mesma causalidade apenas duplamente cindida abarca o mundo uno o sentido da aclaração racional é por todo lado o mesmo mas de tal modo que a aclaração do espírito se quiser ser única e com isso 342 filosoficamente universal reconduz de novo ao físico Uma investigação aclaradora do espírito que seja pura e em si mesma fe chada uma Psicologia ou doutrina do espírito puramente dirigida para o interior para o eu que a partir da autovivência do psíquico se estenda até a psique alheia isso não pode existir deve tomarse antes o caminho pelo exterior o caminho da Física e da Química Todos os bemqueridos discursos sobre o espírito de comunidade a vontade do povo sobre ideais sobre objectivos políticos das na ções e coisas semelhantes são romantismo e mitologia provindos da transposição analógica de conceitos que só têm um sentido pró prio na esfera pessoal individual O ser espiritual é fragmentário A pergunta sobre a fonte de todos os malestares há agora que res ponder este objectivismo ou esta apreensão psicofísica do mundo é apesar da sua aparente compreensibilidade uma unilateralidade ingénua que permaneceu incompreendida enquanto tal unilateral idade A realidade do espírito como um suposto anexo real dos corpos o seu suposto ser espáciotemporal no interior da natureza tudo isso é um contrasenso Vale mostrar aqui porém para o nosso problema da crise como sucedeu que a Modernidade tão orgulhosa durante séculos dos seus resultados teoréticos e práticos tenha ela própria caído numa nec majorem ab illis distinctionem mutuatur quám Solis lúmen à rerum quas illustrat varietate non opus est ingenia limitibus vilis cohibere neque enim nos vnius veritatis cognitio veluti vnius artis vsus ab alterius inventione dimovet sed potiùs juvat Oeuvres de Descartes Vol X p 360 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 45 crescente insatisfação e tenha mesmo sentido a sua situação como uma situação de malestar O malestar alojase em todas as ciên cias finalmente como um malestar do método Mesmo que in compreendido o nosso malestar europeu diz respeito porém a muitos de nós Estes são problemas que provêm inteiramente da ingenuidade com que a ciência objectivista torna aquilo que ela designa como mundo objectivo pelo universo de todo o ser sem com isso aten tar que a subjectividade operante na ciência não pode por direito comparecer em nenhuma ciência objectiva Todo aquele que foi formado científiconaturalmente acha compreensível que tudo o que é simplesmente subjectivo deva ser excluído e que o método científiconatural apresentandose nos modos subjectivos de repre sentação determine objectivamente Assim também procura ele o objectivamente verdadeiro para o psíquico Com isso é ao mesmo tempo assumido que o subjectivo excluído pelo físico deve ser investigado precisamente enquanto psíquico pela Psicologia por tanto obviamente pela Psicologia psicofísica Mas o investigador da natureza não torna para si próprio claro que o fundamento cons tante do seu trabalho de pensamento ao fim e ao cabo um traba lho subjectivo é o mundo circundante da vida que este 343 é constantemente pressuposto como solo como esse campo de traba lho unicamente pelo qual têm sentido as suas perguntas e os seus métodos de pensamento Onde é agora submetido à crítica e à clarificação o método essa peça poderosa que conduz do mundo intuitivo circundante até as idealizações da Matemática e sua in terpretação como ser objectivo As revoluções de Binstein dizem respeito às fórmulas com que foi tratada a physis idealizada e inge nuamente objectivada Mas como as fórmulas em geral como os objectos matemáticos em geral recebem sentido a partir do subsolo da vida e do mundo circundante intuitivo acerca disso não apren demos nada e assim não reforma Einstein o espaço e o tempo em que se desenrola a nossa vida vivente wwwlusosofianet i i i i i i i i 46 Edmund Husserl A ciência matemática da natureza é uma técnica maravilhosa para fazer induções de uma capacidade operativa de uma probabi lidade de uma precisão de uma computabilidade que nunca antes puderam ser sequer imaginadas Enquanto realização ela é um triunfo do espírito humano No que respeita porém à racionali dade dos seus métodos e teorias ela é uma realização completa mente relativa Pressupõe já uma abordagem ao nível do funda mental que carece ela própria de uma efectiva racionalidade Na medida em que o mundo circundante intuitivo este mundo sim plesmente subjectivo é esquecido na temática científica é também esquecido o próprio sujeito que trabalha e o cientista não se torna nunca um tema Assim deste ponto de vista a racionalidade das ciências exactas está na mesma linha da racionalidade das pirâmi des egípcias Certamente que desde Kant temos um Teoria do Conheci mento propriamente dita e por outro lado há ainda a Psicologia que com as suas pretensões de exactidão científiconatural quer ser a ciência geral e fundamental do espírito Mas a nossa espe rança de uma racionalidade efectiva isto é de uma intelecção efec tiva fica decepcionada tanto aqui como em todo lado Os psicólo gos não notam de todo que também eles próprios em si mesmos enquanto cientistas operantes com o seu mundo circundante não entram no seu tema Não notam que necessariamente se pressu põem já de antemão a si próprios enquanto homens comunalizados do seu mundo circundante e do seu tempo histórico pelo próprio facto de quererem obter a verdade em si enquanto válida em ge ral para qualquer um Por via deste objectivismo a Psicologia não pode de maneira alguma tomar como tema a alma 344 no seu sentido mais próprio isto é o eu que age e padece Ela pode bem objectivar e tratar indutivamente a vivência valorativa a vivência da vontade distribuindoa pela vida corpórea mas pode ela fazêlo também com as finalidades os valores as normas pode ela fazer da razão um tema digamos como disposição Perdese comple wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 47 tamente de vista que o objectivismo enquanto realização autêntica do investigador que se dirige por normas verdadeiras pressupõe precisamente essas normas e que o objectivismo não quer portanto ser derivado de factos porque os factos são já com isso visados enquanto verdades e não como coisas imaginárias Sem dúvida que alguns sentem as dificuldades que aqui residem assim se acende a polémica acerca do psicologismo Mas com a rejeição de uma fun damentação psicologista das normas sobretudo das normas para a verdade em si nada está ainda feito A necessidade de uma re forma da Psicologia da Modernidade no seu todo tornase sensível de um modo cada vez mais geral mas ainda não se compreende que ela fracassou por via do seu objectivismo que ela não atinge em geral a essência própria do espírito que o seu isolamento da alma objectivamente pensada e a sua nova interpretação psicofí sica do seremcomunidade são uma inconsequência Certamente que não trabalhou ela em vão e que apresentou também muitas regras empíricas bem úteis para a prática Mas ela será tãopouco uma efectiva Psicologia como a estatística moral com os seus co nhecimentos não menos valiosos será já uma Ciência Moral Por todo lado no nosso tempo se anuncia a necessidade can dente de uma compreensão do espírito e a obscuridade da relação metódica e substantiva entre as Ciências da Natureza e as Ciências do Espírito tornouse quase insuportável Dilthey um dos maiores cientistas do espírito pôs toda a energia da sua vida na clarificação da relação entre Natureza e Espírito na clarificação da prestação da Psicologia psicofísica a qual como ele opinava devia ser com plementada por uma nova Psicologia descritiva e analítica Os es forços de Windelband e Rickert não produziram infelizmente as intelecções desejadas Também eles tal como os demais perma necem presos ao objectivismo e por maioria de razão também os novos psicólogos reformadores que crêem que toda a culpa reside no preconceito há muito dominante do atomismo e que é chegado wwwlusosofianet i i i i i i i i 48 Edmund Husserl um tempo novo com a Psicologia da totalidade6 Jamais a situação poderá 345 melhorar porém enquanto o objectivismo proveni ente de uma atitude natural dirigida para a circummundaneidade não for posto a nu na sua ingenuidade e enquanto não irromper o reconhecimento de que é uma inconsequência a concepção du alista do inundo na qual Natureza e Espírito têm de valer como realidades de sentido similar se bem que causalmente edificadas uma sobre a outra Com toda a seriedade sou da seguinte opi nião não existiu nunca nem existirá jamais uma ciência objectiva do espírito uma doutrina objectiva da alma objectiva no sentido de atribuir às almas às comunidades pessoais inexistência7 nas formas da espáciotemporalidade O espírito e só mesmo o espírito é em si próprio e para si pró prio um ser é independente e pode nesta independência e apenas nela ser tratado de modo verdadeiramente racional de modo ver dadeiramente científico a partir do fundamento No que respeita porém à natureza na sua verdade científiconatural ela só aparen temente é independente e só aparentemente pode ser levada por si ao conhecimento racional nas Ciências Naturais Porque a natureza verdadeira no seu sentido no sentido científiconatural é produto do espírito que investiga a natureza e pressupõe portanto a Ciência do Espírito Por essência o espírito está capacitado para exercer o autoconhecimento e enquanto espírito científico o autoconheci mento científico e isto iterativamente Apenas no conhecimento científicoespiritual puro não fica o investigador embaraçado pela objecção do autoencobrimento da sua própria operatividade Por isso é um erro das Ciências do Espírito competir com as Ciên cias Naturais pela igualdade de direitos Assim que concedem a 6 Ganzheirspsychologie ou também Strukrurpsychologie alusão à escola de Leipzig do início da década de vinte do século XX centrada no conceito de Ganzheit introduzido por Félix Krüger em oposição à psicofísica de cunho materialista e mecânico Nota do Tradutor 7 Inexistenz deve aqui ser tomado no sentido de existênciaem e não no sentido de nãoexistência Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 49 estas últimas a objectividade enquanto autosuficiência caem elas próprias no objectivismo Mas tal como elas estão agora desen volvidas com as suas diversas disciplinas as Ciências do Espírito carecem da racionalidade última efectiva tornada possível pela vi são espiritual do mundo Esta falta de uma racionalidade autêntica sob todos os aspectos é precisamente a fonte da obscuridade in suportável do homem acerca da sua própria existência e das suas tarefas infinitas Os homens estão inseparavelmente unidos numa tarefa apenas quando o espírito a partir da sua volta ingénua para fora retorna sobre si próprio 346 e permanece em si pró prio e puramente em si próprio pode a si próprio bastar Como se chegou porém a um começo de uma tal autoreflexão Um começo não era possível enquanto campeava o sensualismo ou melhor o psicologismo dos data a Psicologia da tabula rasa Só quando Brentano exigiu uma Psicologia enquanto ciência das vivências intencionais foi dado um impulso que poderia conduzir mais além se bem que o próprio Brentano não tivesse ainda supe rado o objectivismo e o naturalismo psicológico A elaboração de um método efectivo para captar a essência fundamental do espírito nas suas intencionalidades e para a partir daí edificar uma analí tica do espírito que fosse consistente até o infinito conduziu à Fe nomenologia transcendental Ela supera o objectivismo naturalista e todo e qualquer objectivismo em geral da única maneira possível a saber pelo facto de que aquele que filosofa procede a partir do seu próprio eu e decerto puramente como o executor de todas as suas validades das quais ele se torna num espectador teorético Nesta atitude é possível edificar uma ciência do espírito absolutamente suficiente sob a forma de uma consequente autocompreensão e de uma compreensão do mundo enquanto realização espiritual O eu também já não é mais então uma coisa isolada ao lado de outras coisas tais num mundo prédado e em geral cessa a séria exteriori dade e justaposição das pessoas egóicas em beneficio de um íntimo ser unsnosoutros e ser unsparaosoutros wwwlusosofianet i i i i i i i i 50 Edmund Husserl Contudo não é possível falar desse assunto aqui pois nenhuma conferência o poderia esgotar Mas espero ter mostrado que não se trata aqui de renovar o antigo Racionalismo que era um natura lismo absurdo incapaz em geral de captar os problemas espiritu ais que nos tocam mais de perto A ratio que está agora em ques tão não é outra senão a autocompreensão efectivamente universal e efectivamente radical do espírito na forma da Ciência Universal autoresponsável em que um modo completamente novo de cienti ficidade se põe ao caminho e no qual todas as perguntas pensáveis encontram o seu lugar as perguntas pelo ser e as perguntas pela norma bem como as perguntas acerca da chamada existência E minha convicção que a Fenomenologia intencional 347 fez por vez primeira do espírito enquanto espírito um campo de experi ência e de ciência sistemáticas e por via disso operou uma total transformação da tarefa do conhecimento A universalidade do es pírito absoluto abrange todo o ser numa historicidade absoluta que incorpora em si a natureza enquanto formação espiritual Só a Fe nomenologia intencional e decerto transcendental fez luz sobre isto por meio do seu ponto de partida e dos seus métodos Só a partir dela se compreende desde os fundamentos mais profundos o que o objectivismo naturalista é e em particular que a Psico logia através do seu naturalismo deva passar ao lado em geral da realização do espírito do problema radical e autêntico da vida espiritual III Condensemos as ideias fundamentais das nossas explanações a hoje em dia tão falada crise da existência europeia documentando se em inumeráveis sintomas de desagregação da vida não é ne nhum destino obscuro nenhuma fatalidade impenetrável mas torna se compreensível a partir do piano de fundo da teleologia da his wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 51 tória europeia que pode ser filosoficamente descoberta Pressu posto para esta compreensão é porém que o fenómeno Europa seja antes de tudo captado no seu núcleo essencial central Para que a desordem da crise hodierna possa ser concebida o con ceito Europa deve ser elaborado enquanto teleologia histórica de finalidades infinitas da razão deve ser mostrado como o mundo europeu nasceu de ideias da razão ou seja do espírito da Filosofia A crise pode então tornarse clara como o aparente fracasso do Racionalismo A razão do falhanço de uma cultura racional reside porém como foi dito não na essência do próprio Ra cionalismo mas unicamente na sua alienação na sua absorção no naturalismo e no objectivismo A crise da existência europeia tem apenas duas saídas a deca dência da Europa no afastamento perante o seu próprio sentido ra cional de vida a queda na fobia ao espírito e na barbárie ou então o renascimento da Europa a partir do espírito da 348 Filosofia por meio de um heroísmo da razão que supere definitivamente o natu ralismo O maior perigo da Europa é o cansaço Se lutarmos contra este perigo de todos os perigos como bons europeus com aquela valentia que não se rende nem diante de uma luta infinita então do incêndio aniquilador da incredulidade do fogo consumptivo do desespero a respeito da missão humana do Ocidente das cinzas do cansaço enorme ressuscitará a Fénix de uma nova interioridade de vida e de uma nova espiritualidade como penhor de um grande e longínquo futuro para o Homem porque só o espírito é imortal wwwlusosofianet
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i i i i i i i i wwwlusosofianet A CRISE DA HUMANIDADE EUROPEIA E A FILOSOFIA Edmund Husserl Tradução e Introdução Pedro M S Alves i i i i i i i i Texto publicado in Edmund Husserl EUROPA CRISE E RENOVAÇÃO A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia f Centro de Filosofia Universitas Olisiponensis Phainomenon Clássicos de Fenomenologia Lisboa 2006 pp 119152 e aqui publicado pela LUSOSOFIANET com a benévola autorização do Tradutor e Director da Colecção Pedro M S Alves que também fez a Introdução à Edição portuguesa De acordo com os textos de Husserliana VI e XXVII Editados por Walter Biemel e Thomas Nenon Hans Rainer Sepp tradução aprovada pelos ArquivosHusserl de Lovaina i i i i i i i i Covilhã 2008 FICHA TÉCNICA Título A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia Autor Edmund Husserl Tradutor Pedro M S Alves Colecção Textos Clássicos de Filosofia Direcção da Colecção José M S Rosa Artur Morão Design da Capa António Rodrigues Tomé Composição Paginação José M S Rosa Universidade da Beira Interior Covilhã 2008 i i i i i i i i INTRODUÇÃO NA TRADUÇÃO PORTUGUESA Se bem que relativamente tardia é complexa e matizada a refle xão husserliana sobre a Cultura e em particular o significado do Ocidente Ela desenvolveuse sobretudo nas décadas de vinte e de trinta do século XX Teve porém o seu início por ocasião das vi cissitudes da Primeira Grande Guerra catastróficas para a Europa no seu todo e para Husserl também dramáticas no plano pessoal com as mortes de seu filho Wolfgang em 1916 no campo de ba talha de Verdun e de Adolf Reinach seu discípulo em 1917 nas célebres lições sobre Fichte proferidas em Friburgo no ano de 1917 e repetidas por duas vezes em 1918 Os dois opúsculos aqui reunidos os artigos para a revista japonesa Kaizo de 192324 e a conferência de Viena de 1935 apesar da distância temporal de mais de uma década são peças essenciais de uma mesma reflexão e apresentam uma unidade e complementaridade assinaláveis Neles duas ideias funcionam como motivos permanentes de re flexão Elas contêm mais que um diagnóstico acabado uma iden tificação dos sintomas a partir dos quais será possível compreender o destino da cultura europeia e agir tempestivamente sobre a sua situação presente São elas as ideias de crise e de renovação A Europa está em crise Algo novo deve suceder tais são as duas afirmações terminantes que Husserl faz em uníssono com mui tos outros pensadores contemporâneos no início da conferência de Viena de 1935 e no primeiro dos artigos para a revista japonesa Kaizo de 1923 Elas são o centro de gravidade de todo o pensamento de Hus serl nestes dois opúsculos Estas ideias de crise e de renovação estão porém ligadas de uma maneira diametralmente oposta tanto ao modo costumeiro de as relacionar como à maior parte dos diag nósticos hodiernos da cultura europeia muitos deles célebres 3 i i i i i i i i Destes últimos mencionemos apenas dois casos que estão a montante e a jusante destes opúsculos husserlianos que ora se pu blicam Primeiro o de Oswald Spengler em 1918 com a longa obra intitulada A Decadência do Ocidente Esboço de uma Morfo logia da História Mundial onde um biologismo da cultura total mente contrário ao pensamento de Husserl anuncia a desagregação e a morte da cultura ocidental Uma e outra vez na conferência de Viena e no primeiro artigo para Kaizo Husserl alude a esta tese e torna distância relativamente a esta concepção global a respeito do destino do Ocidente Por razões essenciais não há nenhuma zo ologia dos povos dirá num passo significativo da conferência de Viena De seguida e num contraste ainda mais vivo é instrutivo men cionar aquele diagnóstico que em 1936 em plena maré nazista e fascista Heidegger havia de fazer em Roma sob o título A Europa e a Filosofia Alemã uma conferência que faz um díptico a negro com a de Husserl em Viena proferida apenas um ano antes e onde se toma patente que Heidegger não é apenas o antípoda filosófico de Husserl no quadro das discussões de escola sobre Fenomenolo gia como este uma vez confessou mas o seu completo oposto no que diz respeito às questões mais vastas da Cultura da Política e da Civilização Heidegger termina sugestivamente a sua conferência com um célebre fragmento de Heraclito sobre polemos a guerra ou o combate E bem significativo que polemos aquele que nas palavras de Heraclito expõe a uns como douloi servos e a outros como eleutheroi livres seja nas palavras de Heidegger aquele que expõe uns homens como escravos Knechte e outros como Senho res Herren Ora para Senhor neste sentido preciso do domínio sobre outrem os Gregos usavam a palavra despotes e a relação de senhorio e servidão é na sua origem uma relação que se desen volve na esfera doméstica do oikos Que esta não seja a experiência originária da liberdade para os Gregos é o que o atesta o célebre verso de Menandro Na Casa oikos o único escravo é o Senhor 4 i i i i i i i i despotes A experiência grega da liberdade da eleutheria e do seu contrário a servidão é antes a experiência da inserção do indivíduo na vida da polis e do seu surgimento como cidadão na igualdade com os demais Só no mútuo reconhecimento da igual liberdade de todos pode cada um ser efectivamente livre E este o terreno político por excelência da liberdade dos Gregos que implicava na época clássica os direitos políticos muito concretos de por exemplo falar e votar na Assembleia ser arconte ou no mear os magistrados e outros E por referência a ele que se deve compreender a privação de liberdade própria do escravo A tra dução de eleutherios por Herr ou seja a submersão da liberdade política na esfera das relações de domínio e servidão é não só uma perversão do que significa liberdade para os Gregos mesmo para um préclássico como Heraclito como uma flagrante confissão do que ela estava significando para o Heidegger de 1936 Ela era como a conferência o diz logo no início o destino do povo ale mão para um projecto de autoafirmação conjugando as ideias de defesa perante o asiático certamente o nome moderno para os barbaroi de outrora que incluía na fraseologia politica alemã de então por junto a Rússia bolchevista e os judeus europeus e de superação do desenraizamento e fragmentação da Europa Coisa completamente diversa tinha Husserl para dizer acerca da Filosofia e da supranacionalidade europeia em 1935 A cultura filosófica é a cultura da Razão Nesse sentido a Filosofia não é eu ropeia Pelo contrário é a Europa que é filosófica E a grandeza da Europa filosófica o seu estatuto de arconte da Humanidade não se confunde com qualquer projecto de domínio protagonizado por um povo mas com o modo como ela na finitude das suas formas de cultura é o fenómeno da ideia infinita de uma cultura racional que pode sem limites tornarse a cultura de uma Humanidade univer sal A supranacionalidade europeia não será por isso um projecto de dominação para uso dos europeus mas a ideia de uma huma nidade autêntica congregada nas tarefas infinitas de realização da 5 i i i i i i i i Razão que jamais poderão alcançar uma forma final e definitiva apta para uma repetição regular ou para uma imitação sem critério E justamente neste contexto que a ideia de strenge Wissenschaft Ciência Estrita é relevada por Husserl como o lugar de realização de uma cultura autêntica articulada nos planos da vida cognitiva ética e social Neste contexto não tem qualquer sentido a acusação muito disseminada de um eurocentrismo de Husserl Antes de o afir mar seria de facto importante esclarecer o que a Europa verdadei ramente é para Husserl e de que é ela a fenomenalização Nesta perspectiva compreendese que o modo como nestes opúsculos as ideias de crise e de renovação aparecem conjugadas choque também como dissemos com à forma costumeira de as pensar Não se trata para Husserl da verificação no plano factual de uma qualquer crise da Europa que impusesse uma inovação na sua cul tura ou mais fundo ainda um novo começo diante da suposta fa lência do caminho até então percorrido Não se trata pois com o tema da crise da verificação de um fracasso da cultura da Ra zão Pelo contrário tratase de renovação não de inovação E a renovação não é resposta à falência de um projecto Ela consiste antes no regresso ao sentido original da cultura europeia e no cum primento da exigência de constante renovação que lhe é ínsita ou seja de constante reactualização do seu ideal de vida Em suma a crise detectada não é culminação de uma trajectória da cultura europeia que se revelaria por fim inviável mas um abandono de rumo e a renovação exigida não é por isso reinvenção mas re gresso e repristinação Husserl aponta com clareza o ponto em que a crise se originou tratase de um transvio da racionalidade de uma sua interpretação demasiado estreita sob o padrão das ciên cias matemáticas da Natureza com as inevitáveis consequências do naturalismo e do objectivismo na compreensão da essência da subjectividade Esta limitação da forma de uma cultura racional está apelando do ponto de vista de Husserl não para um abandono 6 i i i i i i i i da matriz racional de uma cultura autêntica mas para um super racionalismo e para um heroísmo da Razão que possa resta belecer as conexões perdidas entre racionalidade e vida e vencer assim essa situação crítica actual de desespero perante o silêncio da Razão no que respeita aos problemas mais fundos da subjecti vidade e da vida humana Dar a forma de uma cultura racional à vida ética individual e comunitária surpreender a renovação como exigência basilar da humanidade autêntica que a põe na rota de uma progressão ilimitada em direcção a um pólo que reside no infinito fazer também para o eidos Homem o que as ciências ma temáticas fizeram já para a Natureza segundo a forma peculiar da racionalidade prática imperativa e não apenas assertiva eis o que se impõe para a ultrapassagem da crise das ciências crise que não resulta de um falhanço da racionalidade científica mas do seu estreitamento e de uma sua compreensão unilateral metodologica mente moldada sobre o eidos Natureza A série de cinco artigos sobre renovação foi motivada por um convite da revista japonesa Kaizo feito através do seu represen tante T Akita em 8 de Agosto de 1922 O convite endereçado Husserl seguiuse aos convites feitos a Bertrand Russell e Hein rich Rickert e foi certamente motivado pelo facto de o pensamento de Husserl conhecer na altura grande divulgação entre os círcu los filosóficos japoneses suscitando mesmo a visita frequente de estudantes e docentes a Friburgo onde assistiam às suas lições e seminários No Outono e Inverno de 192223 Husserl entregouse à pre paração da sua contribuição O nome da revista Kaizo que sig nifica precisamente renovação deulhe oportunidade de recuperar de uma forma sistemática uma multiplicidade de reflexões sobre a Ética e a teoria da cultura que haviam sido despoletadas pelos acon tecimentos traumáticos da Primeira Grande Guerra colocando no meadamente a problemática Ética sobre um novo enfoque relati vamente às lições de Ética de 190810 O projecto desde cedo se 7 i i i i i i i i desdobrou numa série de artigos A 14 de Dezembro de 1922 Hus serl comunica a Roman Ingarden que escreve nesse momento qua tro artigos sobre problemas éticosociais renovação para uma re vista japonesa Os três primeiros ficaram concluídos em Janeiro de 1923 cm versão dactilografada E nessa data que Husserl os envia para o editor O primeiro aparecerá no mesmo ano em edição bilingue Os segundo e terceiro artigos surgirão em 1924 apenas na tradução japonesa Para todos eles desconhecese a identidade do tradutor Por força de discordâncias entretanto surgidas entre Husserl e o editor os dois artigos remanescentes da série prevista por Husserl nunca chegarão a aparecer Deles existe apenas a versão manus crita sem clara indicação da ordem por que deveriam ser publica dos e o artigo que na presente edição surge em último lugar não está sequer terminado A conferência de Viena sobre A Crise da Humanidade Euro peia e a Filosofia tem também uma génese ocasional apesar da extraordinária eficácia que o tema da crise das ciências terá na der radeira fase da actividade de Husserl Em Março de 1935 o Kultur bund vienense convida Husserl para proferir uma conferência O convite é aceite em pleno trabalho de preparação da contribuição para o Congresso de Praga promovido pelo Cercle Philosophique de Prague pour les Recherches sur 1Entendement Humain A 5 de Maio Husserl deslocase a Viena passando por Munique No dia 7 pelas 20 horas a conferência é dada na sala de conferências do Österreichisches Museum Mais uma vez a Roman Ingarden Husserl dirá que venceu a fadiga e que falou com um sucesso inesperado Por força dessa recepção a conferência será repetida a 10 de Maio A 19 de Junho Husserl confidencia a Dorion Caims que tra balha na conferência dada em Viena melhorandoa do ponto de vista literário aprofundandoa e fundamentandoa para leitores alemães O resultado dessa reelaboração permaneceu porém iné 8 i i i i i i i i dito Desse cadinho havia de sair o que seria a derradeira e para muitos decisiva obra de Husserl o seu verdadeiro testamento filo sófico A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Trans cendental aparecida em 1936 A presente edição segue o texto publicado na colecção Husser liana Assim para os cinco artigos sobre Renovação a tradução tem por base o volume XXVII intitulado Auftätze und Vorträge 19221937 editado por Thomas Nennon e Hans Rainer Sepp e publicado em Dordrecht pela Kluwer Academic Publishers em 1989 Os artigos traduzidos ocupam nessa edição as páginas 3 a 94 sob o título geral Fünf Aufsätze über Erneuerung A tradu ção da Conferência de Viena baseiase no volume VI de Husser liana intitulado Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie editado por Walter Biemel e publicado em Haia por Martinus Nijhoff em 1962 A conferência figura nessa edição como um texto complementar sob o título Die Krisis des europäischen Menschentums und die Philosophie entre as páginas 314 e 348 A tradução que ora se apresenta resultou da colaboração entre Pedro M S Alves e Carlos Aurélio Morujão Da responsabilidade de Pedro M S Alves é a tradução dos quatro primeiros artigos sobre Renovação e da Conferência de Viena Carlos A Morujão traduziu o quinto artigo sobre Renovação Nesta edição portuguesa mantémse entre e a negrito as páginas da edição da Husserliana As palavras que aparecem en tre simples sem negrito são inserções dos editores da Husser liana motivadas por faltas de partículas de ligação principalmente conjunções ou por ausência de títulos em algumas subdivisões do 9 i i i i i i i i texto lacunas que foi necessário colmatar As notas dos tradutores estão assinaladas pela sigla Nota do Tradutor As anotações dos editores da Husser1iana estão assinaladas pela sigla Nota da Hua As notas assinaladas por um asterisco são do próprio Husserl Completa esta edição portuguesa um Glossário AlemãoPortuguês onde as principais opções terminológicas são expressamente indi cadas Por fim seja dito que o título deste volume Europa Crise e Renovação é da responsabilidade do director desta colecção de Obras de Edmund Husserl Pedro M S Alves 10 i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia Edmund Husserl VI 314 I Quero arriscar nesta conferência a tentativa de suscitar um novo interesse pelo tema tantas vezes tratado da crise europeia desen volvendo a ideia históricofilosófica ou o sentido teleológico da humanidade europeia Ao mostrar a função essencial que têm a exercer neste sentido a Filosofia e suas ramificações ou seja as nossas ciências a crise europeia receberá também uma nova luz Comecemos com o que é mais bem conhecido com a dife rença entre a Medicina científiconatural e a chamada medicina naturalista Enquanto esta última surge na vida comum do povo a partir da empina e da tradição ingénuas a Medicina científico natural surge do aproveitamento de intelecções das ciências pura mente teóricas das ciências da corporalidade humana desde logo a Anatomia e a Fisiologia Todavia estas repousam de novo elas próprias nas ciências fundamentais que explicam em geral a natu reza a Física e a Química 11 i i i i i i i i 12 Edmund Husserl Voltemos agora os nossos olhos da corporalidade para a espi ritualidade humana para o tema das chamadas Ciências do Espí rito Nelas o interesse teórico vai exclusivamente para os homens enquanto pessoas e para a sua vida e realizações pessoais bem como correlativamente para as figuras dessas realizações Vida pessoal significa viver num horizonte comunitário enquanto eu e nós comunalizados Certamente em comunidades de formas di versas simples ou estratificadas tais como 315 a comunidade familiar nacional ou supranacional A palavra vida não tem aqui um sentido fisiológico ela significa vida activa em vista de fins re alizadora de formações espirituais no sentido mais lato vida cri adora de cultura na unidade de uma historicidade Tudo isto é tema das diversas ciências do espírito Manifestamente há também para as comunidades para os povos e para os estados uma diferença en tre florescimento vigoroso e definhamento por conseguinte uma diferença entre saúde e doença como também poderíamos dizer Assim não estamos longe da pergunta como se explica que a este respeito não se tenha chegado nunca à Medicina científica a uma medicina das nações e das comunidades supranacionais As nações europeias estão doentes a própria Europa dizse está em crise Não falta aqui de todo qualquer coisa como mezinhas na turais Estamos a ficar decididamente submergidos por uma maré de propostas de reforma ingénuas e exaltadas Mas por que razão as Ciências do Espírito tão ricamente desenvolvidas não prestam aqui o serviço que as Ciências da Natureza cumprem na sua esfera de um modo excelente Os que estão familiarizados com o espírito das ciências mo dernas ripostarão de pronto A grandeza das Ciências da Natureza consiste em que elas não se contentam com uma empina intuitiva porque para elas toda a descrição da natureza quer ser apenas uma passagem metódica para a explicação exacta em última instância físicoquímica Eles opinam ciências simplesmente descritivas amarramnos às finitudes do mundo circundante terreno A ciên wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 13 cia matematicamente exacta da natureza porém abarca com o seu método as infinitudes nas suas efectividades e possibilidades reais Ela compreende o intuitivamente dado como uma simples aparição subjectivamente relativa e ensina a investigar a própria natureza suprasubjectiva a Natureza objectiva numa aproximação sis temática segundo os seus elementos e leis incondicionadamente gerais Em unidade com isso ensina ela a explicar todas as concre ções intuitivamente prédadas sejam homens animais ou cor pos celestes a partir daquilo que ultimamente é a saber a partir das aparições fácticas de cada vez dadas ensina a induzir possi bilidades e probabilidades futuras que ultrapassam em extensão e precisão toda a empina intuitivamente limitada O resultado do desenvolvimento consequente das ciências exactas 316 na Mo dernidade foi uma verdadeira revolução no domínio técnico sobre a natureza Totalmente diferente é infelizmente no sentido da concepção que já se nos tornou completamente compreensível a situação nas Ciências do Espírito e certamente por razões internas A espiri tualidade humana está decerto fundada na physis humana toda e qualquer vida anímica humana individual está fundada na corpo ralidade e por conseguinte também toda e qualquer comunidade está fundada nos corpos dos indivíduos humanos que são mem bros dessa comunidade Se portanto deve ser possível uma ex plicação realmente exacta dos fenómenos científicoespirituais e assim uma práxis científica de alcance semelhante ao da esfera da natureza os investigadores das Ciências do Espírito não devem então considerar o espírito simplesmente enquanto espírito mas retornar à base corpórea subjacente e conduzir as explicações por intermédio da Física e da Química exactas Isto fracassa porém e tal não poderá mudar no futuro previsível perante as complica ções da necessária investigação psicofísica exacta tanto a respeito do homem individual como por maioria de razão a respeito das grandes comunidades históricas Se o mundo fosse por assim di wwwlusosofianet i i i i i i i i 14 Edmund Husserl zer construído a partir de duas esferas de realidade com direitos iguais a Natureza e o Espírito nenhuma delas privilegiada metó dica ou substantivamente em relação à outra então a situação seria diferente Todavia apenas a natureza pode ser tratada por si como um mundo fechado só a Ciência Natural pode com uma coerência sem quebras abstrair de tudo o que é espiritual e investigar a natu reza puramente como natureza Por outro lado uma tal abstracção consequente da natureza por parte do investigador das ciências do espírito interessado apenas no puramente espiritual não conduz viceversa a um mundo em si mesmo fechado a um mundo de interconexão puramente espiritual que pudesse ser o tema de uma Ciência do Espírito universal e pura enquanto paralelo da ciência pura da natureza Porque a espiritualidade animal a das almas dos homens e das bestas a que toda outra espiritualidade reconduz esta causalmente fundada de um modo singular na corporalidade Assim se compreende que o investigador do espírito interessado no puramente espiritual enquanto tal não vá além da descrição não vá além de uma história do espírito e permaneça portanto amarrado às finitudes intuitivas Todo e qualquer exemplo o mos tra Um historiador não pode por exemplo tratar a história da Antiguidade Grega 317 sem tomar em linha de conta a geogra fia física da Grécia Antiga não pode tratar a sua arquitectura sem tomar em linha de conta a corporalidade dos edifícios etc etc Isto parece plenamente elucidativo Como ficaríamos porém se o inteiro modo de pensar que se manifesta nesta exposição repousasse sobre preconceitos funestos e se ele próprio fosse nas suas consequências corresponsável pela doença europeia De facto tal é a minha convicção e espero tor nar também compreensível que aqui reside igualmente uma fonte essencial para o modo óbvio como o cientista moderno nem sequer considera a possibilidade de fundamentação de uma ciência geral do espírito em si mesma fechada e por isso mesmo sem rodeios a nega wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 15 E do interesse do nosso problemaEuropa ir um pouco mais além e desarreigar a argumentação acima desenvolvida à primeira vista tão esclarecida O historiador o investigador do espírito e da cultura de qualquer esfera tem certamente também a natureza física constantemente entre os seus fenómenos a natureza da Gré cia Antiga no nosso exemplo Contudo esta natureza não é a na tureza no sentido das ciências da natureza mas antes o que para os Gregos valia como natureza o que tinham diante dos olhos no seu mundo circundante enquanto efectividade natural Dito de um modo mais perfeito o mundo circundante histórico dos Gregos não é o mundo objectivo no nosso sentido mas antes a sua re presentação do mundo ou seja a sua própria validação subjectiva com todas as efectividades que aí valem incluindo por exemplo os deuses os demónios etc Mundo circundante é um conceito que tem o seu lugar exclu sivamente na esfera espiritual Que nós vivamos no nosso mundo circundante respectivo que vale para todos os nossos cuidados e esforços tal designa um facto que se passa puramente na esfera do espírito O nosso mundo circundante é uma formação espiri tual em nós e na nossa vida histórica Para quem toma como seu tema o espírito enquanto espírito não há aqui por conseguinte qualquer razão para exigir outra explicação para ele que não seja uma explicação puramente espiritual E isto é válido em geral é um contrasenso olhar a natureza circummundana como em si mesma alheia ao espírito e em consequência alicerçar as Ciências do Espírito nas Ciências da Natureza de modo a pretensamente tomálas exactas Manifestamente foi completamente esquecido que a Ciência da Natureza tal como toda e qualquer ciência em geral é um tí tulo para realizações espirituais 318 a saber as dos cientistas naturais colaborantes enquanto tal elas pertencem tal como todos os eventos espirituais ao âmbito daquilo que deve ser explicado pelas Ciências do Espírito Não será então um contrasenso e um wwwlusosofianet i i i i i i i i 16 Edmund Husserl círculo querer explicar o acontecimento histórico Ciência da Na tureza científiconaturalmente explicálo por importação para a Ciência da Natureza e suas leis naturais que enquanto realização espiritual pertencem elas próprias ao problema a resolver Obcecados pelo naturalismo por mais que o combatam ver balmente os cientistas do espírito têm descurado total e comple tamente até o próprio levantamento do problema de uma Ciência do Espírito universal e pura e o questionamento do espírito pura mente enquanto espírito segundo uma doutrina eidética doutrina que indagasse o incondicionadamente universal da espiritualidade de acordo com os seus elementos e leis com a finalidade de obter por aí explicações científicas num sentido absolutamente conclu sivo As reflexões precedentes sobre a Filosofia do Espírito fornecem nos a atitude correcta para captar e tratar o nosso tema da Eu ropa espiritual como um problema puro das Ciências do Espírito desde logo por conseguinte históricoespiritualmente Tal como foi dito desde logo nas palavras introdutórias por este caminho deve tornarse visível uma assinalável teleologia inata por assim dizer apenas à nossa Europa e certamente como intimamente co nectada com a erupção ou irrupção da Filosofia e suas ramificações ou seja as ciências no espírito dos Gregos antigos Pressenti mos já que se tratará com isso de uma clarificação das razões mais fundas da origem do funesto naturalismo ou também coisa que se mostrará como equivalente do dualismo na interpretação do mundo que é característico da Modernidade Finalmente de verá por esse meio vir à luz do dia o sentido autêntico da crise da humanidade europeia Levantamos a questão como se caracteriza a forma espiritual da Europa Por conseguinte não a Europa compreendida geográ fica ou cartograficamente como se com isso fosse delimitado enquanto humanidade europeia o círculo dos homens que aqui vi vem territorialmente em conjunto No sentido espiritual é mani wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 17 festo que os domínios ingleses os Estados Unidos etc pertencem à Europa não porém os esquimós ou os indianos das exposições nas feiras anuais 319 ou ainda os ciganos que perpetuamente circunvagueiam pela Europa Sob o título de Europa tratase aqui manifestamente da unidade de uma vida de um agir de um criar espirituais com todas as finalidades interesses cuidados e esfor ços com as formações finalisticamente produzidas as instituições as organizações Aí agem os homens individuais em múltiplas so ciedades de diversos níveis em famílias tribos nações todas ín tima e espiritualmente ligadas e como disse na unidade de uma forma espiritual Às pessoas às associações de pessoas e a todas as suas realizações culturais deve ser outorgado com isso um ca rácter que universalmente as vincula A forma espiritual da Europa que é isso E mostrar a ideia filosófica imanente à história da Europa da Europa espiritual ou o que é o mesmo a sua teleologia imanente que se dá a conhe cer do ponto de vista da humanidade universal enquanto tal como rompimento e começo do desenvolvimento de uma nova idade do homem a época da humanidade que doravante não mais pode e não mais quer viver a não ser na livre formação da sua existência da sua vida histórica a partir de ideias da razão a partir de tare fas infinitas Cada forma espiritual está por essência num espaço histórico universal ou numa unidade particular de tempo histórico segundo a coexistência e a sucessão ela tem a sua história Por conseguinte se seguirmos as conexões históricas e como é neces sário partirmos de nós próprios e da nossa nação então a conti nuidade histórica conduznos sempre mais além da nossa nação até nações vizinhas e assim de nações a nações de um tempo a outro tempo ainda Por fim na Antiguidade somos conduzidos dos Romanos aos Gregos aos Egípcios Persas e assim sucessiva mente não há aqui manifestamente qualquer termo final Vamos dar aos tempos primitivos e não podemos evitar considerar a obra significativa e rica em ideias de Menghin sobre a História Uni wwwlusosofianet i i i i i i i i 18 Edmund Husserl versal da Idade da Pedra1Com este procedimento a humanidade aparece como uma única vida de homens e povos ligada apenas por relações espirituais com uma profusão de tipos de humani dade e de cultura que porém correm fluentemente uns para os outros E como um mar no qual os homens e os povos são como ondas que fugazmente se formam se alteram e de novo desapa recem umas encrespandose mais rica e complexamente outras de maneira mais primitiva 320 No entanto por uma conside ração mais consequente e voltada para o interior notamos traços de união e diferenças novas e peculiares Por mais que as nações europeias possam estar inimizadas elas têm porém um especial parentesco interno no plano do espírito que a todas atravessa e que sobreleva as diferenças nacionais E qualquer coisa como uma irmandade que nos dá nestes círculos a consciência de um solo pátrio Isto prontamente sobressai assim que queiramos compre ender por exemplo a historicidade indiana com os seus múltiplos povos e formações culturais Neste círculo há de novo unidade de um parentesco familiar mas que é estranho para nós Por outro lado os Indianos vivemnos como estranhos e só entre si se vi vem como confrades No entanto esta diferença de essência entre ser compatriota e estrangeiro uma categoria fundamental de toda a historicidade relativizandose em múltiplos níveis não pode bas tar A humanidade histórica não se articula de um modo sempre igual de acordo com esta categoria Sentimos isso precisamente na nossa Europa Há nela qualquer coisa singular que todos os outros grupos humanos sentem também em nós como algo que abstraindo de todas as considerações de utilidade se toma para eles um mo tivo para sempre se europeizarem apesar da vontade inquebrável de autopreservação espiritual enquanto nós se bem nos compre endermos a nós próprios jamais nos quereremos por exemplo in dianizar Quero com isto dizer que sentimos e apesar de toda a 1 Oswald Menghin Weltgeschichre der Steinzeit Wien A Schroll Co 1931 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 19 falta de clareza este sentimento tem plenamente a sua razão de ser que na nossa humanidade europeia está inata uma enteléquia que rege de uma ponta a outra a deveniência das formas europeias e lhes confere o sentido de um desenvolvimento para uma forma de vida e de ser ideais como para um pólo eterno Não como se se tratasse aqui de um dos bem conhecidos esforços em direcção a fins que dão o seu carácter ao domínio físico dos seres orgâni cos por conseguinte de qualquer coisa como o desenvolvimento biológico em graus sucessivos de uma forma embrionária até a maturidade com o sequente envelhecimento e morte Por razões essenciais não há nenhuma zoologia dos povos Eles são unidades espirituais não têm e particularmente não o tem a supranacionali dade Europa nenhuma forma madura já alcançada ou a alcançar enquanto forma para uma repetição regular O telos espiritual da humanidade europeia no 321 qual estão encerrados os telê par ticulares das nações isoladas e dos homens individuais reside no infinito é uma ideia infinita para a qual por assim dizer tende de modo oculto o inteiro devir espiritual Assim que no curso do desenvolvimento ele se torna consciente enquanto telos torna se também de modo necessário algo prático enquanto fim para a vontade e com isso se introduz um novo e mais elevado nível de desenvolvimento que está sob a direcção de normas de ideias normativas Tudo isto porém não pretende ser uma interpretação especu lativa da nossa historicidade mas antes a expressão de um pres sentimento vivido que se eleva na reflexão sem preconceitos Este dános contudo uma guia intencional para discernir na história da Europa conexões altamente significativas em cuja prossecução o pressentimento se torna para nós certeza comprovada Pressenti mento é segundo o modo do sentimento o indicador de caminhos em todas as descobertas Passemos ao desenvolvimento A Europa espiritual tem um lugar de nascimento Não quero dizer com isto um lugar de nas wwwlusosofianet i i i i i i i i 20 Edmund Husserl cimento geográfico num território se bem que também isso su ceda mas antes um lugar de nascimento espiritual numa nação ou seja nos homens individuais e grupos humanos dessa nação Essa nação é a Grécia Antiga dos séculos VII e VI aC Nela surge uma atitude de tipo novo dos indivíduos para com o mundo circun dante Como sua consequência verificase a irrupção de um tipo de formações espirituais completamente novas crescendo rapida mente para uma forma cultural sistematicamente fechada sobre si os Gregos denominaramna Filosofia Correctamente traduzida no sentido originário esta palavra não quer dizer outra coisa senão Ci ência Universal ciência do todo mundano da unidade total de tudo aquilo que é Bem depressa começa o interesse pelo todo e com isso a pergunta pelo devir omnienglobante e pelo ser no devir co meça a particularizarse segundo as formas e regiões gerais do ser assim se ramifica a Filosofia a Ciência una numa diversidade de ciências particulares Na irrupção da Filosofia neste sentido na qual todas as ci ências estão por conseguinte incluídas vejo eu por mais para doxal que isso possa soar o protofenómeno da Europa espiritual Por meio de explanações mais detalhadas por mais sucintas que tenham de ser a aparência de paradoxo depressa será afastada 322 Filosofia Ciência é o título para uma classe especial de formações culturais O movimento histórico que tomou a forma e o estilo da supranacionalidade europeia avança para uma forma normativa que reside no infinito mas não para uma que fosse já legível na mutação das formas por meio de uma simples consi deração morfológica exterior O permanente estar dirigido para a norma habita interiormente a vida intencional das pessoas indivi duais e a partir daí das nações e das suas sociedades particulares e finalmente do organismo das nações ligadas enquanto Europa certamente que não habita todas as pessoas não está plenamente desenvolvido nas personalidades de nível superior constituídas por actos intersubjectivos mas apesar de tudo habitaas sob a forma wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 21 de uma marcha necessária do desenvolvimento e propagação de um espírito de normas universalmente válidas isto tem ao mesmo tempo porém o significado de uma progressiva transformação da humanidade no seu todo por via da formação de ideias que se tor nam eficazes em pequenos pequeníssimos círculos As ideias ou seja as formações de sentido produzidas nas pessoas individuais com o maravilhoso modo novo de albergar em si infinitudes inten cionais não são como as coisas reais no espaço que entrando no campo da experiência humana não têm ainda qualquer significado para os homens enquanto pessoas Com a primeira concepção de ideias tornase o homem gradualmente um novo homem O seu ser espiritual entra no movimento de uma reformação progressiva Este movimento desenrolase desde o início comunicativa mente no seu próprio círculo de vida ele desperta um novo estilo de exis tência pessoal e através da recompreensão do outro um correspon dente novo devir Nele se difunde desde logo e no seguimento também para lá dele uma humanidade especial que vivendo na fi nitude vive para o pólo da infinitude Precisamente com isso surge um novo modo de comunalização e uma nova forma de comuni dade duradoura cuja vida espiritual comunalizada pelo amor das ideias pela produção de ideias e a normalização ideal da vida traz em si a infinitude como horizonte de futuro a de uma infinitude de gerações que se renovam a partir do espírito das ideias Isto consumase primeiro no espaço espiritual de uma nação a nação grega enquanto desenvolvimento da Filosofia e da comunidade fi losófica Em unidade com isso surge nesta nação desde logo um espírito de cultura universal 323 que atrai com o seu sortilégio o todo da humanidade e assim se produz uma progressiva mutação sob a forma de uma nova historicidade Este esboço grosseiro ganhará plenitude e maior compreensibi lidade se seguirmos no encalço da origem histórica da humanidade filosófica e científica esclarecendo a partir daí o sentido da Eu wwwlusosofianet i i i i i i i i 22 Edmund Husserl ropa e com isso do novo tipo de historicidade que se destaca da história universal com esta nova espécie de desenvolvimento Para começar aclaremos a assinalável peculiaridade da Filoso fia desdobrada em sempre novas ciências especiais Contrastemo la com outras formas culturais já disponíveis na humanidade pré científica contrastemola com os ofícios a cultura do solo com a cultura doméstica etc Todas elas designam classes de produtos culturais com os correspondentes métodos para a produção bem sucedida De resto elas têm uma existência transitória no mundo circundante Por outro lado as aquisições científicas depois de para elas terem sido obtidos os métodos de produção bem suce dida têm um modo de ser totalmente diferente uma totalmente diferente temporalidade Elas não se desgastam são imperecíveis a produção repetida não produz algo semelhante algo de igual mente utilizável no melhor dos casos ela produz sim qualquer que seja o número de produções da mesma pessoa e de quaisquer outras pessoas identicamente o mesmo algo idêntico segundo o seu sentido e validade As pessoas ligadas umas às outras na com preensão recíproca actual não podem deixar de experienciar o que foi produzido pelos companheiros respectivos em actos de produ ção iguais como identicamente o mesmo que o que elas próprias produzem Por outras palavras aquilo que o fazer científico ob tém não é algo real mas sim ideal Mas há mais ainda o que é assim obtido como válido como verdade serve de material para a possível produção de idealidades de nível superior e de sempre ou tras novas No interesse teórico desenvolvido tudo o que é obtido conserva de antemão o sentido de uma finalidade simplesmente re lativa tornase ponto de passagem para finalidades sempre novas sempre de um nível superior numa infinitude prefigurada como campo de trabalho universal como domínio da Ciência Ciência designa portanto a ideia de uma infinitude de tarefas das quais em cada tempo uma parte finita está já acabada e é conservada como uma validade persistente Esta 324 parte forma ao mesmo wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 23 tempo o fundo de premissas para um horizonte infinito de tarefas enquanto unidade de uma tarefa omnienglobante Todavia algo importante deve ser aqui notado em jeito de com plemento Na Ciência a idealidade dos produtos do trabalho cien tífico as verdades não significa a simples repetibilidade sob identificação do sentido e da comprovação a ideia de verdade no sentido da Ciência apartase e teremos ainda de falar disso da verdade da vida pré científica Ela quer ser verdade incondicio nada Reside aí uma infinitude que dá a cada verdade e comprova ção fácticas o carácter de ser apenas relativa de ser uma simples aproximação referida precisamente ao horizonte infinito no qual a verdade em si vale por assim dizer como ponto infinitamente distante Correlativamente esta infinitude reside também então no ser efectivo em sentido científico assim como de novo na validade universal para qualquer um entendido este qualquer um enquanto sujeito de todas as fundamentações a realizar não mais se trata pois de falar de qualquer um no sentido finito da vida précientífica Depois desta caracterização da peculiar idealidade científica com as infinitudes ideais multiplamente implicadas no seu sentido sobressai diante do nosso conspecto histórico um contraste que enunciamos nesta proposição nenhuma outra forma de cultura no horizonte histórico antes da Filosofia é num sentido tal cultura de ideias nenhuma conhece tarefas infinitas nenhuma conhece tais universos de idealidades que segundo o seu sentido são porta dores da infinitude tanto enquanto totalidades como segundo as suas individualidades bem como ainda segundo os seus métodos de produção A cultura extracientífica não ainda tocada pela Ciência é tarefa e realização do homem na finitude O horizonte aberto sem fim no qual ele vive não é descerrado os seus fins e o seu agir o seu modo de viver a sua motivação pessoal de grupo nacional mítica tudo isso se movimenta na circummundaneidade da circunspecção wwwlusosofianet i i i i i i i i 24 Edmund Husserl finita Não há aí nenhuma tarefa infinita nenhum adquirido ideal cuja infinitude seja o próprio campo de trabalho e sem dúvida o seja de um modo tal que para aquele mesmo que trabalha tenha conscientemente como seu modo de ser o sentido de um campo infinito de tarefas 325 Todavia com o surgimento da Filosofia Grega e a sua primeira formulação numa idealização consequente do novo sen tido da infinitude consumase a este respeito uma transformação continuada que finalmente atrai para a sua esfera todas as ideias da finitude e com isso a inteira cultura espiritual e a humanidade que lhe é correlativa Para nós Europeus há ainda fora da esfera filo sófico científica variadíssimas ideias infinitas se esta expressão é aqui permitida mas elas têm de agradecer o carácter análogo de infinitude tarefas infinitas finalidades comprovações verdades verdadeiros valores bens autênticos normas absolutamente válidas à transformação da humanidade através da Filosofia e das suas idealidades Cultura científica sob ideias de infinitude significa por conse guinte um revolucionamento da cultura no seu todo um revolucio namento do inteiro modo de ser da humanidade enquanto criadora de cultura Ela significa também um revolucionamento da his toricidade a qual é agora história do desfazerse da humanidade finita no fazerse humanidade de tarefas infinitas Encontramos aqui a objecção fácil de que a Filosofia a Ciên cia dos Gregos não é para eles emblemática não é algo que com eles por vez primeira tivesse vindo ao mundo Ao fim ao cabo eles próprios nos falam dos sábios egípcios babilónios etc e apren deram de facto muitas coisas com eles Possuímos hoje em dia uma profusão de trabalhos sobre a Filosofia Indiana a Filosofia Chinesa etc nos quais estas são postas no mesmo plano que a Fi losofia Grega e são tomadas como simples enformações históricas diversas no interior de uma mesma ideia de cultura Naturalmente que não falta aqui algo comum No entanto não devemos permitir wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 25 que o geral simplesmente morfológico encubra as profundezas in tencionais e nos torne cegos para as mais essenciais diferenças de princípio Antes do mais a própria atitude de ambos os filósofos a di recção universal do seu interesse é já fundamentalmente diferente Podemos verificar num lado e noutro um interesse abrangendo o mundo um interesse que conduz de ambos os lados por conse guinte também nas filosofias indiana chinesa e semelhantes a conhecimentos universais do mundo operando por todo lado como um interesse vocacional de vida e conduzindo através de motivações compreensíveis 326 a comunidades de vocação em que de geração em geração os resultados gerais se propagam e correspondentemente se aperfeiçoam Só com os Gregos temos porém um interesse de vida universal cosmológico na forma de tipo essencialmente novo de uma atitude puramente teórica e isto enquanto forma comunitária em que este interesse tem eficácia a partir de fundamentos internos a correspondente comunidade de tipo novo dos filósofos dos cientistas os matemáticos os astróno mos etc Eles são os homens que não isoladamente mas antes uns com os outros e uns para os outros portanto em trabalho co munitário ligado interpessoalmente almejam e alcançam a teoria e nada de diferente da teoria cujo crescimento e permanente aper feiçoamento com o alargamento do círculo de colaboradores e a sucessão das gerações de investigadores são finalmente assumidos pela vontade com o sentido de uma tarefa infinita a todos comum A atitude teórica tem nos Gregos a sua origem histórica Falando em termos gerais atitude significa um estilo habitual mente fixo da vida volitiva em direcções da vontade ou interesses por ele prefigurados em fins últimos em realizações culturais cujo estilo de conjunto fica portanto deste modo determinado Neste estilo persistente enquanto forma normal decorre a vida em cada caso determinada Os teores concretos da cultura mudam numa historicidade relativamente fechada Na sua situação histórica a wwwlusosofianet i i i i i i i i 26 Edmund Husserl humanidade ou seja uma comunidade fechada como a nação a tribo etc vive sempre em uma ou outra atitude A sua vida tem sempre um estilo normal e nele uma constante historicidade ou desenvolvimento Por conseguinte na sua novidade a atitude teórica referese re trospectivamente a uma atitude precedente que era antes a norma ela caracterizase como conversão de atitude2 Considerando uni versalmente a historicidade da existência humana em todas as suas formas comunitárias e nos seus níveis históricos é agora visível que uma certa atitude é por essência a atitude em si primeira ou seja que um certo estilo normal do existente humano dito numa generalidade formal marca uma primeira historicidade no inte rior da qual o estilo normal de cada vez facticamente actual do existente criador de cultura permanece formalmente o mesmo em toda ascensão decadência ou estagnação 327 Falamos a este respeito da atitude natural primeva da atitude da vida originaria mente natural da primeira forma originariamente natural das cul turas superiores ou inferiores desenvolvendose sem impedimen tos ou estagnantes Todas as outras atitudes estão assim retros pectivamente referidas a esta atitude natural enquanto conversões Falando mais concretamente numa das atitudes naturais histori camente factuais da humanidade devem surgir a partir da situação interna e externa que num determinado momento do tempo se tor nou concreta motivos que no seu interior levem primeiro homens isolados e depois grupos humanos a uma conversão Como se deve caracterizar então a atitude por essência origi nária o modo histórico fundamental do existente humano Res pondemos compreensivelmente por razões generativas os ho mens vivem sempre em comunidades na família tribo nação 2 Jogo de palavras entre Einstellung aqui traduzido por atitude e Ums tellung reorientação transposição conversão Optámos por conversão de ati tude ou simplesmente conversão para Umstellung e por converter quando se trata no mesmo contexto de sentido do verbo umstellen e suas flexões Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 27 estando estas por sua vez mais rica ou mais pobremente articu ladas em socialidades particulares A vida natural caracterizase agora como uma vida que ingénua e directamente se entrega ao mundo ao mundo que enquanto horizonte universal está sempre aí consciente de um certo modo mas não tematicamente Temático é aquilo para que estamos dirigidos A vida desperta é sempre um estar dirigido para isto ou para aquilo dirigido para isto enquanto fim ou meio enquanto relevante ou irrelevante para o interessante ou o indiferente o privado ou o público para o que é quotidiana mente indispensável ou para algo irrompendo como novo Tudo isto repousa no horizonte do mundo mas são precisos motivos par ticulares para que quem está agarrado a uma tal vida mundana se converta e por aí chegue de algum modo a fazer dessa vida um tema e a ganhar por ela um interesse persistente Todavia aqui são necessárias explanações mais detalhadas Os homens individuais que se convertem têm enquanto homens a sua comunidade universal de vida a sua nação e também os seus in teresses naturais continuados cada um os seus próprios interesses não os podem perder simplesmente por qualquer conversão por que isso seria para cada um deles deixar de ser quem é deixar de ser aquilo em que se tornou desde o nascimento Quaisquer que sejam as circunstâncias a conversão só pode portanto durar um lapso de tempo ela só pode ter uma validade continuada para toda a restante vida sob a forma de uma decisão incondicionada da vontade de reassumir em Lapsos de tempo periódicos mas inti mamente unificados 328 sempre a mesma atitude e de manter firmemente como válidos e realizáveis estes interesses de novo tipo através desta continuidade lançando intencionalmente pontes so bre as descontinuidades e de finalmente os realizar nas formas culturais correspondentes Conhecemos situações semelhantes nas profissões que surgem já nas vidas de cultura naturalmente originárias com as suas tem poralidades profissionais periódicas que permeiam a restante vida wwwlusosofianet i i i i i i i i 28 Edmund Husserl e a sua temporalidade concreta as horas de serviço do funcionário etc Agora dois casos são possíveis Ou os interesses da nova ati tude querem servir os interesses da vida natural ou coisa que é essencialmente o mesmo da práxis natural caso em que a nova atitude será ela própria uma atitude prática Isto pode ter agora um sentido semelhante ao da atitude prática do político que en quanto funcionário da nação está dirigido para o bem geral e por conseguinte quer servir pela sua própria práxis a práxis de todos os outros e mediatamente também a sua própria Isto pertence certamente ainda ao domínio da atitude natural a qual por essên cia se diferencia nos diversos tipos de membros da comunidade e é de facto diferente para aqueles que regem a comunidade e para os cidadãos ambos tomados naturalmente no sentido mais lato possível Em todo caso a analogia torna compreensível que a uni versalidade de uma atitude prática no caso vertente uma que se dirige para o mundo no seu todo não tem de modo nenhum de querer dizer um estar interessado e ocupado com todas as individu alidades e totalidades particulares no interior do mundo coisa que seria certamente impensável Perante a atitude prática de grau superior há porém ainda uma outra possibilidade essencial de alteração da atitude natural geral que logo aprenderemos a conhecer no caso tipo da atitude mítico religiosa a saber a atitude teorética assim a denominamos de antemão porque nela surge por um desenvolvimento necessário a teoria filosófica que se torna num fim autónomo ou num campo de interesse A atitude teorética se bem que seja de novo uma atitude profissional é totalmente nãoprática No quadro da sua vida profissional própria ela repousa por conseguinte numa epo ché voluntária de toda e qualquer práxis e também da de grau superior que esteja ao serviço da natural idade 329 Todavia seja desde já dito que com isto não se fala de modo nenhum de um estrangulamento definitivo do fluxo entre wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 29 vida teorética e vida prática correspondentemente de uma desa gregação da vida concreta do teórico em duas continuidades de vida desenrolandose desconexamente coisa que socialmente fa lando teria portanto como significado o surgimento de duas es feras culturais espiritualmente sem conexão Porque é ainda possí vel uma terceira forma da atitude natural frente à atitude mítico religiosa naturalmente fundada e por outro lado à atitude teoré tica a saber a síntese de ambos os interesses que se consuma na passagem da atitude teorética para a prática de tal modo que a teoria surgindo numa unidade fechada e sob epoché de toda e qualquer práxis a Ciência Universal é chamada e na própria intelecção teorética atesta ela o seu chamamento a servir de um modo novo a humanidade a qual na sua existência concreta vive sempre primeiro de modo natural Isto sucede sob a forma de uma práxis de um tipo novo o da crítica universal de toda a vida e de todas as finalidades da vida de todas as formações e sistemas cul turais já surgidos a partir da vida dos homens e com isso tam bém uma crítica da própria humanidade e dos seus valores reito res tanto expressos como inexpressos e numa consequência mais lata sob a forma de uma práxis que tem em vista elevar a huma nidade segundo normas de verdade de todas as formas através da razão científica universal modificála desde a raiz numa nova humanidade capacitada para uma autoresponsabilidade absoluta com base em intelecções teoréticas absolutas Todavia antes desta síntese da universalidade teorética e da práxis universalmente inte ressada há manifestamente uma outra síntese da teoria e da práxis a saber o aproveitamento para a práxis da vida natural de resulta dos limitados da teoria das ciências especializadas limitadas que deixam a universalidade do interesse teórico cair na especialização Portanto aqui se ligam por finitização a atitude originariamente natural e a atitude teorética Para a compreensão mais aprofundada da Ciência grecoeuropeia falando universalmente a Filosofia na sua diferença de princípio wwwlusosofianet i i i i i i i i 30 Edmund Husserl a respeito das filosofias orientais que se supõe serem equivalen tes é agora necessário considerar mais de perto a atitude prático universal 330 tal como ela criou estas filosofias antes da ci ência europeia e esclarecêla enquanto atitude míticoreligiosa E um facto bem conhecido mas também uma visível necessidade de essência que a cada humanidade vivendo naturalmente antes da irrupção e da efectuação da Filosofia Grega e deste modo antes de uma consideração científica do mundo correspondem motivos míticoreligiosos e uma práxis míticoreligiosa A atitude mítico religiosa consiste agora em que o mundo enquanto totalidade se torna temático e decerto temático de um modo prático o mundo tal quer naturalmente dizer aqui o mundo que é concreta e tradi cionalmente válido para a correspondente humanidade digamos a nação por conseguinte o mundo miticamente apercebido A esta atitude míticonatural pertencem de antemão e primeiro que tudo não apenas homens e animais e outros seres subhumanos e sub animais mas também seres sobrehumanos O olhar que os abarca enquanto totalidade é prático mas não como se o homem que no deixarse viver natural está apenas actualmente interessado em re alidades particulares pudesse alguma vez chegar a uma situação em que subitamente tudo fosse de modo igual e em conjunto para ele relevante do ponto de vista prático Mas uma vez que o todo do mundo vale como mundo regido por poderes míticos e que o destino do homem depende mediata ou imediatamente do modo como esses poderes exercem o seu domínio a consideração míticouniversal do mundo é possivelmente incitada pela práxis e é então ela própria uma consideração praticamente interessada Motivados para esta atitude míticoreligiosa estão compreensivel mente os sacerdotes pertencentes a uma casta sacerdotal que ad ministra unitariamente os interesses míticoreligiosos e a sua tradi ção Nela surge e se propaga o saber linguisticamente cunhado e fixado acerca dos poderes míticos pensados de um modo pessoal no sentido mais alargado Ele toma a partir de si mesmo a forma wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 31 de especulação mítica a qual surgindo como interpretação ingenu amente convincente transforma o próprio mito Compreendese assim que o olhar esteja constantemente codirigido para o res tante mundo regido pelos poderes míticos e para o que lhe corres ponde de seres humanos e subhumanos que de resto não estando fixados no seu ser próprio estão abertos ao influxo de elementos míticos para o modo como esses poderes regem os acontecimen tos deste mundo para o modo como eles próprios 331 se de vem juntar numa ordem suprema de poder para o modo como por fim eles intervêm através de funções e funcionários indivi duais criando executando e impondo o destino Todo este saber especulativo tem porém como finalidade servir os homens nas suas finalidades humanas para que conformem a sua vida mun dana do modo mais feliz possível a possam proteger da doença da fatalidade de todo tipo da miséria e da morte E concebível que nesta consideração e conhecimento míticoprático do mundo possam surgir muitos conhecimentos cientificamente aproveitáveis acerca do mundo factual ou seja do mundo conhecido a partir da experiência científica Mas no seu contexto de sentido eles são e permanecem conhecimentos míticopráticos e é um erro e uma falsificação do sentido que alguém porque foi formado nos modos de pensar criados na Grécia e aperfeiçoados na Modernidade fale já de Filosofia e Ciência Indiana e Chinesa Astronomia Matemá tica interpretando europeiamente portanto a Índia a Babilónia e a China Desta atitude universal mas míticoprática destacase nitida mente agora a atitude teorética nãoprática em qualquer dos sentidos anteriores a do Jaumzein a que as figuras maiores do primeiro período culminante da Filosofia Grega Platão e Aristó teles reconduzem a origem da Filosofia Apoderase dos homens o fervor de uma consideração e de um conhecimento do mundo que se afasta de todo e qualquer interesse prático e que no círculo fechado das suas actividades cognitivas e nos tempos a elas con wwwlusosofianet i i i i i i i i 32 Edmund Husserl sagrados nada mais almeja e alcança que pura teoria Por outras palavras o homem tornase um espectador descomprometido si nóptico do mundo tornase um filósofo ou melhor a partir daí a sua vida tornase receptiva apenas às motivações que são possíveis nesta atitude motivações para novos objectivos de pensamento e métodos através dos quais se realiza por fim a Filosofia e o pró prio homem se realiza enquanto filósofo Naturalmente a irrupção da atitude teorética tem como tudo o que se forma historicamente a sua motivação fáctica no contexto concreto do acontecer histórico Importa portanto a este respeito esclarecer como a partir do tipo e do horizonte de vida da humani dade grega do século VII 332 no seu comércio com as grandes e já altamente cultivadas nações do seu mundo circundante aquele Jaumzein pôde aparecer e tornarse habitual primeiro que tudo nos indivíduos singulares Não vamos entrar em detalhes é mais importante para nós compreender o caminho motivacional o ca minho da doação e criação de sentido que conduz da simples con versão de atitude ou seja do simples Jaumzein até a teoria um facto histórico que deve ter porém a sua essencialidade própria Importa esclarecer a transmutação que vai da teoria originária da visão do mundo conhecimento do mundo a partir da simples vi são universal totalmente descomprometida decorrente da epo ché de todo e qualquer interesse prático até a Ciência autêntica ambas mediadas pelo contraste entre dìxa e âpisjheme O inte resse teorético incipiente enquanto Jaumzein é manifestamente uma modificação dessa curiosidade que tem já o seu lugar origi nário na vida natural enquanto brecha na marcha da vida séria seja como efeito de interesses de vida originalmente formados seja como um olhar lançado em volta como que por jogo quando estão satisfeitas as necessidades directas actuais ou quando estão decor ridas as horas de ocupação profissional A curiosidade aqui não como vício habitual é também uma modificação um interesse que se eximiu aos interesses vitais os deixou cair wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 33 Instalado nesta atitude o homem vê primeiro que tudo o mais a diversidade das nações a sua própria e as estrangeiras cada uma com o seu próprio mundo circundante que vale evidentemente para ela como o mundo efectivo puro e simples com as suas tradi ções os seus deuses demónios as suas potestades míticas Neste contraste espantoso sobrevém a distinção entre representação do mundo e mundo efectivo e surge a nova pergunta pela verdade por conseguinte não a verdade do quotidiano vinculada à tradi ção mas antes uma verdade idêntica válida para todos que não estão ofuscados pela tradição uma verdade em si Compete por tanto à atitude teorética do filósofo que ele esteja constantemente e de antemão decidido a consagrar sempre a sua vida futura no sentido de uma vida universal à tarefa da teoria a edificar conhe cimento teorético sobre conhecimento teorético in infinitum Em personalidades singulares como Tales etc originase com isso uma nova humanidade homens que criam por vocação a vida filosófica 333 que criam a Filosofia como uma forma cul tural de tipo novo Compreensivelmente originase do mesmo lance um correspondente tipo novo de comunalização Estas for mações ideais da teoria são sem mais vividas e assumidas con juntamente pela recompreensão do outro e pela reprodução Sem mais elas conduzem ao trabalho conjunto que se entreajuda pela crítica Mesmo os que estão à margem os nãofilósofos tornamse atentos a um tão singular fazer e agir Recompreendendo os ou tros ou se tornam eles próprios filósofos ou se tornam discípulos se estão já profissionalmente muito manietados Assim se difunde a Filosofia de uma maneira dupla enquanto ampliação da comu nidade de vocação dos filósofos e enquanto ampliação conjunta do movimento comunitário da educação Mas aqui reside também a origem da cisão interna posteriormente tão decisiva da unidade do povo em cultos e incultos Manifestamente esta tendência de difu são não tem porém os seus limites na nação natal Diferentemente de todas as outras obras culturais ela não é um movimento do inte wwwlusosofianet i i i i i i i i 34 Edmund Husserl resse vinculado ao solo da tradição nacional Também os homens de nações estrangeiras aprendem a recompreender e tomam em geral parte na violenta transformação cultural que irradia da Filo sofia Todavia isto mesmo precisa ainda de ser caracterizado Da Filosofia que se amplia na forma da investigação e da educação deriva um duplo efeito espiritual Por um lado o mais essencial da atitude teorética do homem filosófico é a peculiar universalidade da postura crítica a qual está decidida a não aceitar sem questão qualquer opinião prédada qualquer tradição de modo a que possa perguntar logo de seguida a respeito do todo do universo prédado segundo a tradição pelo que é em si verdadeiro por uma idea lidade Mas isto não é apenas uma nova postura cognitiva Em virtude da exigência de submeter a empina no seu todo a normas ideais a saber as da verdade incondicionada depressa resulta daí uma transformação de grande alcance da inteira práxis da exis tência humana e portanto da vida de cultura no seu todo ela não mais deve deixar que as suas normas sejam tomadas da empiria in génua do quotidiano e da tradição mas antes da verdade objectiva Assim devém a verdade objectiva um valor absoluto que no movi mento da educação e no constante efeito na formação dos jovens 334 traz consigo uma práxis universal modificada Se reflectir mos um pouco mais neste tipo de transmutação logo compreen demos o inevitável se a ideia geral da verdade em si se torna a norma universal de todas as verdades relativas que surgem na vida humana das verdades de situação efectivas ou supostas então isto também diz respeito a todas as normas tradicionais às normas do Direito da beleza da utilidade dos valores pessoais dominantes dos valores pessoais do carácter etc Resulta portanto uma particular humanidade e uma particular vocação de vida em correlação com a realização de uma nova cul tura O conhecimento filosófico do mundo não cria apenas estes resultados de tipo particular mas cria antes uma postura humana que imediatamente engrena em toda a restante vida prática com wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 35 todas as suas exigências e fins os fins dessa tradição histórica no interior da qual se foi educado e de onde retiram a sua validade Edificase entre os homens uma comunidade nova e íntima pode ríamos mesmo dizer uma comunidade de puros interesses ideais homens que vivem a Filosofia entre si ligados pela dedicação às ideias que não são apenas úteis a todos mas que são próprias de todos eles Necessariamente se forma uma eficiência comunitária de tipo particular a do trabalhar com o outro e do trabalhar para o outro mutuamente se coadjuvando no exercício crítico a partir da qual resulta a verdade pura e incondicionada enquanto bem co mum A isso se junta agora a tendência necessária para a propaga ção do interesse por meio da recompreensão do que foi pretendido e realizado portanto uma tendência para a inclusão de sempre no vas pessoas ainda não filosóficas na comunidade dos filósofos As sim acontece primeiro no interior da nação natal A extensão não pode ocorrer exclusivamente como difusão da investigação cientí fica profissional mas lançando as suas mãos muito além do círculo profissional ela ocorre antes enquanto movimento educativo Se o movimento educativo se difunde para círculos cada vez mais largos de povos e por natureza para os mais elevados para os dominantes para os menos constrangidos pelos cuidados da vida que consequências resultam daí Manifestamente isto não conduz simplesmente a uma modificação homogénea da nor mal vida do Estado e da Nação satisfatória no seu conjunto mas antes com toda a probabilidade a grandes 335 cisões interiores nas quais esta vida e o todo da cultura nacional entram em convul são Os que estão conservadoramente satisfeitos com a tradição e o círculo humano dos filósofos tornamse antagonistas mútuos e seguramente a luta desenrolarseá nas esferas políticas do poder A perseguição iniciase já nos próprios começos da Filosofia São proscritos os homens cuja vida se entrega a estas ideias Ainda assim as ideias são sempre mais fortes que quaisquer poderes em píricos wwwlusosofianet i i i i i i i i 36 Edmund Husserl Além disso temos também de tomar aqui em linha de conta que a Filosofia provindo de uma atitude crítica universal contra toda e qualquer prédoação tradicional não é impedida na sua pro pagação por qualquer limite nacional Apenas deve estar presente a capacidade de assumir uma atitude crítica universal a qual tem cer tamente como pressuposto um certo nível de cultura précientífica Assim se pode propagar a convulsão da cultura nacional primeiro que tudo quando a Ciência Universal em progresso se torna um bem comum para as nações antes alheadas umas das outras e a unidade de uma comunidade científica e educativa atravessa a plu ralidade das nações Há ainda uma coisa importante que deve ser aqui trazida res peitante à relação da Filosofia com as tradições Duas possibilida des devem ser aqui consideradas Ou o que vale segundo a tradição é totalmente rejeitado ou o seu conteúdo é filosoficamente assu mido e com isso também de novo formado no espírito da ideali dade filosófica Um caso notável é aqui o da Religião Não quero pôr na sua conta as religiões politeístas Deuses no plural pode res míticos de todo e qualquer tipo são objectos circummundanos com a mesma efectividade que animais ou homens No conceito de Deus o singular é essencial Mas ele implica do ponto de vista humano que a sua validade de ser e de valor seja experien ciada como um vínculo interior absoluto Aqui se produz agora uma fusão desta absolutez com a da idealidade filosófica No pro cesso geral de idealização que procede da Filosofia Deus é por assim dizer logicizado tornase portador do logos absoluto Eu gostaria de resto de ver já o lógico no facto de a Religião apelar teologicamente para a evidência da fé enquanto 336 tipo seu mais próprio e profundo de fundamentação do verdadeiro ser Os deuses nacionais estão porém simplesmente aí sem questão en quanto factos reais do mundo circundante Antes da Filosofia nin guém levanta quaisquer questões críticognosiológicas quaisquer questões acerca da evidência wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 37 No essencial se bem que um pouco esquematicamente está agora delineada a motivação histórica que torna compreensível como a partir de um punhado de gregos extravagantes pôde ser posta em marcha uma convulsão da existência humana e da sua inteira cul tura primeiro na sua própria nação e depois nas vizinhas Mas é agora também visível que a partir daqui poderia despontar uma supranacionalidade de um tipo completamente novo Refirome naturalmente à forma espiritual da Europa Agora não mais se trata de uma justaposição de diferentes nações influenciandose mutuamente apenas por lutas comerciais e de poder um novo es pírito procedente da Filosofia e das ciências particulares de livre crítica e de instituição de normas para tarefas infinitas domina a humanidade cria novos e infinitos ideais Estes sãono para os homens individuais e as suas nações sãono também para as pró prias nações Mas finalmente eles são também ideais infinitos para a síntese em expansão das nações na qual cada uma destas nações precisamente porque aspira à sua própria tarefa ideal no espírito da infinitude oferece o seu melhor às nações com que está unida Por via deste ofertar e receber elevase o todo supranaci onal com todas as suas sociedades escalonadas preenchido pelo espírito exaltado de uma tarefa infinita articulada em várias infini tudes mas que é apenas uma única Nesta sociedade total dirigida para o ideal a Filosofia detém tanto a função de guia como as suas tarefas infinitas específicas refirome à função de reflexão teorética livre e universal que compreende todos os ideais e o ideal total por conseguinte o universo de todas as normas Numa humanidade europeia a Filosofia tem constantemente de exercer a sua função enquanto arconte de toda a humanidade wwwlusosofianet i i i i i i i i 38 Edmund Husserl II Todavia devem agora tomar voz os malentendidos seguramente muito incisivos e as objecções que como me 337 quer parecer retiram a sua força sugestiva dos preconceitos em moda e da sua fraseologia Não será o que foi aqui exposto uma intempestiva rea bilitação do racionalismo da iluminice3 do intelectualismo que se vai perder em teorias alheadas do mundo com as suas neces sárias consequências nefastas do diletantismo inane do snobismo intelectual Não significa isto querer retomar uma vez mais ao erro fatal segundo o qual é a Ciência que faz sábios os homens que ela está vocacionada para criar uma humanidade autêntica que se sobreponha ao destino e que seja suficiente Quem hoje levará ainda a sério estes pensamentos Esta objecção tem certamente uma legitimidade relativa para o estado do desenvolvimento euro peu desde o século XVII até o fim do século XIX Ela não toca o sentido próprio da minha exposição porém Querme parecer que eu o suposto reaccionário sou muito mais radical e muito mais revolucionário que todos aqueles que hoje em dia se comportam tão radicalmente em palavras Também estou certo de que a crise europeia radica num racio nalismo extraviado Mas não se pode tomar isto como se a racio nalidade enquanto tal fosse o mal ou tivesse um significado subor dinado no todo da existência humana naquele sentido elevado e autêntico de que exclusivamente falamos como sentido prístino grego que se tornou um ideal no período clássico da Filosofia Grega ela carece decerto de muitas clarificações na autoreflexão mas é chamada na sua forma amadurecida a conduzir o nosso de 3 Aufkärerei palavra pejorativa com que em círculos hegelianos se desig nou o movimento do Iluminismo Aufklärung Traduzirmola por iluminice um neologismo que comporta também o mesmo sentido desdenhoso Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 39 senvolvimento Por outro lado concedemos de boa vontade e o Idealismo Alemão há muito nos precedeu nesta visão que a forma de desenvolvimento da ratio enquanto Racionalismo do período do Iluminismo foi um extravio se bem que ainda assim um ex travio compreensível Razão é um título amplo Segundo a boa velha definição o homem é o ser vivo racional e neste sentido amplo o papua é também homem e não bicho Ele tem as suas finalidades e age pensadamente considerando as possibilidades práticas As obras e os métodos resultantes entram na tradição que é sempre de novo compreensível na sua racionalidade Mas tal como o homem e o próprio papua 338 representam um novo nível da animalidade a saber em contraposição aos bichos também a razão filosófica representa um novo nível da humanidade e da sua razão O nível da existência humana sob4 normas ideais para tarefas infinitas o nível da existência sub specie aeterni é porém apenas possível na absoluta universalidade precisamente aquela que está desde o início contida na ideia de Filosofia A Filosofia Universal com todas as ciências particulares constitui certamente uma aparição parcelar da cultura europeia Mas está implícito no sentido de toda a minha exposição que esta parte seja por assim dizer o cérebro funcionante de cujo funcionamento normal depende a autêntica a saudável espiritualidade europeia A humanidade elevada ao hu mano superior ou à razão exige portanto uma Filosofia autêntica Aqui reside porém o ponto periclitante Filosofia de vemos aqui separar filosofia como facto histórico de um tempo determinado e Filosofia enquanto ideia ideia de uma tarefa infi nita A filosofia de cada vez historicamente efectiva é a tentativa mais ou menos conseguida de realizar a ideia reitora da infinitude e mesmo da totalidade das verdades ideais práticos a saber ide 4 Lemos under em vez de und der de acordo com a lição seguida já por David Carr vide The Crisis of European Sciences and Transcendental Phenomenology Evanston Northwestern University Press 1970 p 290 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i 40 Edmund Husserl ais vistos como pólos eternos de que não nos podemos desviar na nossa inteira vida sem arrependimento sem nos tornarmos desle ais e por isso infelizes não são de modo algum para este olhar já claros e determinados eles são antecipados numa generalidade plurívoca A determinidade resulta somente do trabalho concreto e do fazer que é no mínimo relativamente bem sucedido Há aí a constante ameaça de se cair em unilateralidades e em contenta mentos precipitados que se vingam em contradições subsequentes Daí o contraste entre as grandes pretensões dos sistemas filosóficos e o facto de serem entre si incompatíveis A isso há que juntar a necessidade e novamente a periculosidade da especialização Assim pode a racionalidade unilateral tornarse sem dúvida um mal Podemos também dizer pertence à essência da razão que os filósofos só possam compreender as suas tarefas infinitas e tra balhar nelas primeiro que tudo numa unilateralidade absolutamente necessária Não há aí nenhuma improcedência nenhum erro mas antes como foi dito o caminho que é para eles recto e necessário permitelhes captar de início apenas um aspecto da tarefa pri meiro 339 sem notarem que a tarefa infinita no seu todo o co nhecimento teorético da totalidade daquilo que é tem ainda outros aspectos Se as insuficiências se anunciam em obscuridades e con tradições isso motiva um começo para uma reflexão universal O filósofo deve portanto ter sempre em vista apoderarse do sentido verdadeiro e completo da Filosofia da totalidade dos seus hori zontes de infinitude Nenhuma linha de conhecimento nenhuma verdade singular pode ser absolutizada e isolada Somente nesta autoconsciência suprema que se torna ela própria um dos ramos da tarefa infinita pode a Filosofia preencher a sua função pode pôrse a caminho e através dela a autêntica humanidade Mas que assim seja é coisa que pertence também de novo ao campo de co nhecimento da Filosofia no nível supremo de autoreflexão Uma Filosofia é conhecimento universal apenas através desta constante reflexividade wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 41 Disse o caminho da Filosofia ultrapassa a ingenuidade Este é então o lugar de crítica do tão afamado Irracionalismo ou seja o lugar para pôr a descoberto a ingenuidade desse racionalismo que é tornado pela racionalidade filosófica pura e simples mas que é se guramente característico da Filosofia da Modernidade no seu con junto desde a Renascença e se toma pelo Racionalismo efectivo e portanto universal Nesta ingenuidade inevitável no começo estão portanto mergulhadas todas as ciências cujos começos já na Antiguidade se tinham desenvolvido Dito com mais precisão o título generalíssimo para esta ingenuidade é objectivismo en formado nos diversos tipos do naturalismo da naturalização do espírito As antigas e as novas filosofias eram e permanecem in genuamente objectivistas Para ser justo há que acrescentar que o Idealismo Alemão procedente de Kant estava já fervorosamente empenhado em Superar uma ingenuidade que se tornara já muito sensível sem que porém fosse capaz de atingir efectivamente o nível mais alto de reflexividade decisivo para a nova forma da Fi losofia e da humanidade europeia Só posso tornar compreensível o que foi dito por indicações grosseiras O homem natural tornemolo como o homem do pe ríodo préfilosófico está mundanamente dirigido em todos os seus cuidados e fazeres O seu campo de vida e de efectuação é o 340 mundo circundante estendendose espáciotemporalmente à sua volta no qual ele próprio se inclui Isto permanece con servado na atitude teorética a qual de início não pode ser outra coisa senão essa atitude do espectador descomprometido de um mundo que por essa via se desmitifica A Filosofia vê no mundo o universo daquilo que é e o mundo tornase mundo objectivo frente às representações do mundo que mudam do ponto de vista das nações e das subjectividades individuais a verdade tornase por conseguinte verdade objectiva Assim começa a Filosofia en quanto Cosmologia como é compreensível ela está no seu inte resse teorético dirigida primeiro para a natureza corpórea porque wwwlusosofianet i i i i i i i i 42 Edmund Husserl todo o dado espáciotemporal tem em todo caso pelo menos na sua base a fórmula existencial da corporalidade Homens e bi chos não são simples corpos mas na direcção circummundana do olhar eles aparecem como qualquer coisa que é corporeamente e por consequência aparecem como realidades inseri das na espácio temporal idade universal Assim têm todos os acontecimentos aní micos os do eu respectivo como experienciar pensar querer uma certa objectividade A vida em comunidade a das famílias povos e semelhantes parece então dissolverse nos indivíduos singulares enquanto objectos psicofísicos a vinculação espiritual através da causalidade psicofísica carece de uma continuidade pu ramente espiritual a natureza física intervém em toda parte A marcha histórica do desenvolvimento está prefigurada de modo determinado por esta atitude para com o mundo circun dante Já o olhar mais fugidio para a corporalidade que pode ser encontrada de antemão no mundo circundante mostra que a natu reza é um todo omniconectado homogéneo por assim dizer um mundo para si abraçado pela espáciotemporalidade homogénea repartido em coisas individuais todas iguais entre si enquanto res extensae e determinandose causalmente umas às outras Muito depressa se dá um primeiro grande passo na descoberta a supe ração da finitude da natureza já pensada como um em si objectivo uma finitude não obstante a aberta ausência de fim E descoberta a infinitude primeiramente na forma de idealização das grande zas das medidas dos números das figuras das rectas pólos su perfícies etc A natureza o espaço o tempo tornamse idealiter extensíveis ao infinito assim como idealiter partíveis ao infinito A partir da arte da Agrimensura desponta a Geometria a partir da arte dos números a Aritmética da mecânica quotidiana a Me cânica matemática etc Transformamse agora sem que 341 sobre isso seja formulada uma hipótese expressa a natureza e o mundo intuitivos num mundo matemático o mundo das ciências matemáticas da natureza A Antiguidade foi à frente neste cami wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 43 nho e com a sua Matemática consumouse ao mesmo tempo a primeira descoberta de ideais infinitos e de tarefas infinitas Isto tornouse para todos os tempos posteriores a estrela orientadora das ciências Que eficácia teve agora o sucesso embriagante desta descoberta da infinitude física para a tentativa de dominar cienti ficamente a esfera espiritual Na atitude circummundana na que é constantemente objectivista todo o espiritual aparecia como que sobreposto na corporalidade Está assim próxima uma transposi ção do modo de pensar científiconatural Daí que encontremos já nos começos o Materialismo e Determinismo de Demócrito Os espíritos maiores porém recuam diante disso e também diante de toda e qualquer psicofísica neste estilo novo Desde Sócrates o homem tornase tema na sua específica humanidade como pessoa nas sua vida espiritual comunitária O homem permanece inse rido no mundo objectivo mas tornase já num terna maior para Platão e Aristóteles Tornase sensível aqui uma cisão digna de nota o humano pertence ao universo dos factos objectivos mas enquanto pessoas enquanto eu têm os homens objectivos fins eles têm normas da tradição normas de verdade normas eter nas Se o desenvolvimento na Antiguidade se entorpece nem por isso ele se perde porém Dêmos o salto para a chamada Moderni dade Com entusiasmo ardente é retomada a tarefa infinita de um conhecimento matemático da natureza e do mundo em geral Os resultados portentosos do conhecimento da natureza devem agora ter a sua contrapartida no conhecimento do espírito A razão ha via provado a sua força na natureza Tal como o Sol que alumia e aquece é um só assim é também uma só a razão Descartes5 5 Tratase de uma citação truncada de um passo célebre das Regulae ad di rectionem ingenni regra primeira de Descartes provavelmente de memória e por mistura com um outro não menos conhecido de Platão República VI 508b e sgs onde há de facto a referência indirecta omissa em Descartes a qual quer coisa como um poder generativo do calor do Sol O texto de Descartes é o seguinte Nam cúm scientiae omnes nihil aliud sint quám humana sapientia quae semper una eadem manet quantumvis differentibus subjectis applicata wwwlusosofianet i i i i i i i i 44 Edmund Husserl O método científiconatural deve também abrir os segredos do es pírito O espírito é real objectivamente no mundo e enquanto tal fundado na corporalidade A concepção do mundo assume por conseguinte de modo imediato e totalmente dominante a forma de uma concepção dualista e seguramente psicofísica A mesma causalidade apenas duplamente cindida abarca o mundo uno o sentido da aclaração racional é por todo lado o mesmo mas de tal modo que a aclaração do espírito se quiser ser única e com isso 342 filosoficamente universal reconduz de novo ao físico Uma investigação aclaradora do espírito que seja pura e em si mesma fe chada uma Psicologia ou doutrina do espírito puramente dirigida para o interior para o eu que a partir da autovivência do psíquico se estenda até a psique alheia isso não pode existir deve tomarse antes o caminho pelo exterior o caminho da Física e da Química Todos os bemqueridos discursos sobre o espírito de comunidade a vontade do povo sobre ideais sobre objectivos políticos das na ções e coisas semelhantes são romantismo e mitologia provindos da transposição analógica de conceitos que só têm um sentido pró prio na esfera pessoal individual O ser espiritual é fragmentário A pergunta sobre a fonte de todos os malestares há agora que res ponder este objectivismo ou esta apreensão psicofísica do mundo é apesar da sua aparente compreensibilidade uma unilateralidade ingénua que permaneceu incompreendida enquanto tal unilateral idade A realidade do espírito como um suposto anexo real dos corpos o seu suposto ser espáciotemporal no interior da natureza tudo isso é um contrasenso Vale mostrar aqui porém para o nosso problema da crise como sucedeu que a Modernidade tão orgulhosa durante séculos dos seus resultados teoréticos e práticos tenha ela própria caído numa nec majorem ab illis distinctionem mutuatur quám Solis lúmen à rerum quas illustrat varietate non opus est ingenia limitibus vilis cohibere neque enim nos vnius veritatis cognitio veluti vnius artis vsus ab alterius inventione dimovet sed potiùs juvat Oeuvres de Descartes Vol X p 360 Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 45 crescente insatisfação e tenha mesmo sentido a sua situação como uma situação de malestar O malestar alojase em todas as ciên cias finalmente como um malestar do método Mesmo que in compreendido o nosso malestar europeu diz respeito porém a muitos de nós Estes são problemas que provêm inteiramente da ingenuidade com que a ciência objectivista torna aquilo que ela designa como mundo objectivo pelo universo de todo o ser sem com isso aten tar que a subjectividade operante na ciência não pode por direito comparecer em nenhuma ciência objectiva Todo aquele que foi formado científiconaturalmente acha compreensível que tudo o que é simplesmente subjectivo deva ser excluído e que o método científiconatural apresentandose nos modos subjectivos de repre sentação determine objectivamente Assim também procura ele o objectivamente verdadeiro para o psíquico Com isso é ao mesmo tempo assumido que o subjectivo excluído pelo físico deve ser investigado precisamente enquanto psíquico pela Psicologia por tanto obviamente pela Psicologia psicofísica Mas o investigador da natureza não torna para si próprio claro que o fundamento cons tante do seu trabalho de pensamento ao fim e ao cabo um traba lho subjectivo é o mundo circundante da vida que este 343 é constantemente pressuposto como solo como esse campo de traba lho unicamente pelo qual têm sentido as suas perguntas e os seus métodos de pensamento Onde é agora submetido à crítica e à clarificação o método essa peça poderosa que conduz do mundo intuitivo circundante até as idealizações da Matemática e sua in terpretação como ser objectivo As revoluções de Binstein dizem respeito às fórmulas com que foi tratada a physis idealizada e inge nuamente objectivada Mas como as fórmulas em geral como os objectos matemáticos em geral recebem sentido a partir do subsolo da vida e do mundo circundante intuitivo acerca disso não apren demos nada e assim não reforma Einstein o espaço e o tempo em que se desenrola a nossa vida vivente wwwlusosofianet i i i i i i i i 46 Edmund Husserl A ciência matemática da natureza é uma técnica maravilhosa para fazer induções de uma capacidade operativa de uma probabi lidade de uma precisão de uma computabilidade que nunca antes puderam ser sequer imaginadas Enquanto realização ela é um triunfo do espírito humano No que respeita porém à racionali dade dos seus métodos e teorias ela é uma realização completa mente relativa Pressupõe já uma abordagem ao nível do funda mental que carece ela própria de uma efectiva racionalidade Na medida em que o mundo circundante intuitivo este mundo sim plesmente subjectivo é esquecido na temática científica é também esquecido o próprio sujeito que trabalha e o cientista não se torna nunca um tema Assim deste ponto de vista a racionalidade das ciências exactas está na mesma linha da racionalidade das pirâmi des egípcias Certamente que desde Kant temos um Teoria do Conheci mento propriamente dita e por outro lado há ainda a Psicologia que com as suas pretensões de exactidão científiconatural quer ser a ciência geral e fundamental do espírito Mas a nossa espe rança de uma racionalidade efectiva isto é de uma intelecção efec tiva fica decepcionada tanto aqui como em todo lado Os psicólo gos não notam de todo que também eles próprios em si mesmos enquanto cientistas operantes com o seu mundo circundante não entram no seu tema Não notam que necessariamente se pressu põem já de antemão a si próprios enquanto homens comunalizados do seu mundo circundante e do seu tempo histórico pelo próprio facto de quererem obter a verdade em si enquanto válida em ge ral para qualquer um Por via deste objectivismo a Psicologia não pode de maneira alguma tomar como tema a alma 344 no seu sentido mais próprio isto é o eu que age e padece Ela pode bem objectivar e tratar indutivamente a vivência valorativa a vivência da vontade distribuindoa pela vida corpórea mas pode ela fazêlo também com as finalidades os valores as normas pode ela fazer da razão um tema digamos como disposição Perdese comple wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 47 tamente de vista que o objectivismo enquanto realização autêntica do investigador que se dirige por normas verdadeiras pressupõe precisamente essas normas e que o objectivismo não quer portanto ser derivado de factos porque os factos são já com isso visados enquanto verdades e não como coisas imaginárias Sem dúvida que alguns sentem as dificuldades que aqui residem assim se acende a polémica acerca do psicologismo Mas com a rejeição de uma fun damentação psicologista das normas sobretudo das normas para a verdade em si nada está ainda feito A necessidade de uma re forma da Psicologia da Modernidade no seu todo tornase sensível de um modo cada vez mais geral mas ainda não se compreende que ela fracassou por via do seu objectivismo que ela não atinge em geral a essência própria do espírito que o seu isolamento da alma objectivamente pensada e a sua nova interpretação psicofí sica do seremcomunidade são uma inconsequência Certamente que não trabalhou ela em vão e que apresentou também muitas regras empíricas bem úteis para a prática Mas ela será tãopouco uma efectiva Psicologia como a estatística moral com os seus co nhecimentos não menos valiosos será já uma Ciência Moral Por todo lado no nosso tempo se anuncia a necessidade can dente de uma compreensão do espírito e a obscuridade da relação metódica e substantiva entre as Ciências da Natureza e as Ciências do Espírito tornouse quase insuportável Dilthey um dos maiores cientistas do espírito pôs toda a energia da sua vida na clarificação da relação entre Natureza e Espírito na clarificação da prestação da Psicologia psicofísica a qual como ele opinava devia ser com plementada por uma nova Psicologia descritiva e analítica Os es forços de Windelband e Rickert não produziram infelizmente as intelecções desejadas Também eles tal como os demais perma necem presos ao objectivismo e por maioria de razão também os novos psicólogos reformadores que crêem que toda a culpa reside no preconceito há muito dominante do atomismo e que é chegado wwwlusosofianet i i i i i i i i 48 Edmund Husserl um tempo novo com a Psicologia da totalidade6 Jamais a situação poderá 345 melhorar porém enquanto o objectivismo proveni ente de uma atitude natural dirigida para a circummundaneidade não for posto a nu na sua ingenuidade e enquanto não irromper o reconhecimento de que é uma inconsequência a concepção du alista do inundo na qual Natureza e Espírito têm de valer como realidades de sentido similar se bem que causalmente edificadas uma sobre a outra Com toda a seriedade sou da seguinte opi nião não existiu nunca nem existirá jamais uma ciência objectiva do espírito uma doutrina objectiva da alma objectiva no sentido de atribuir às almas às comunidades pessoais inexistência7 nas formas da espáciotemporalidade O espírito e só mesmo o espírito é em si próprio e para si pró prio um ser é independente e pode nesta independência e apenas nela ser tratado de modo verdadeiramente racional de modo ver dadeiramente científico a partir do fundamento No que respeita porém à natureza na sua verdade científiconatural ela só aparen temente é independente e só aparentemente pode ser levada por si ao conhecimento racional nas Ciências Naturais Porque a natureza verdadeira no seu sentido no sentido científiconatural é produto do espírito que investiga a natureza e pressupõe portanto a Ciência do Espírito Por essência o espírito está capacitado para exercer o autoconhecimento e enquanto espírito científico o autoconheci mento científico e isto iterativamente Apenas no conhecimento científicoespiritual puro não fica o investigador embaraçado pela objecção do autoencobrimento da sua própria operatividade Por isso é um erro das Ciências do Espírito competir com as Ciên cias Naturais pela igualdade de direitos Assim que concedem a 6 Ganzheirspsychologie ou também Strukrurpsychologie alusão à escola de Leipzig do início da década de vinte do século XX centrada no conceito de Ganzheit introduzido por Félix Krüger em oposição à psicofísica de cunho materialista e mecânico Nota do Tradutor 7 Inexistenz deve aqui ser tomado no sentido de existênciaem e não no sentido de nãoexistência Nota do Tradutor wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 49 estas últimas a objectividade enquanto autosuficiência caem elas próprias no objectivismo Mas tal como elas estão agora desen volvidas com as suas diversas disciplinas as Ciências do Espírito carecem da racionalidade última efectiva tornada possível pela vi são espiritual do mundo Esta falta de uma racionalidade autêntica sob todos os aspectos é precisamente a fonte da obscuridade in suportável do homem acerca da sua própria existência e das suas tarefas infinitas Os homens estão inseparavelmente unidos numa tarefa apenas quando o espírito a partir da sua volta ingénua para fora retorna sobre si próprio 346 e permanece em si pró prio e puramente em si próprio pode a si próprio bastar Como se chegou porém a um começo de uma tal autoreflexão Um começo não era possível enquanto campeava o sensualismo ou melhor o psicologismo dos data a Psicologia da tabula rasa Só quando Brentano exigiu uma Psicologia enquanto ciência das vivências intencionais foi dado um impulso que poderia conduzir mais além se bem que o próprio Brentano não tivesse ainda supe rado o objectivismo e o naturalismo psicológico A elaboração de um método efectivo para captar a essência fundamental do espírito nas suas intencionalidades e para a partir daí edificar uma analí tica do espírito que fosse consistente até o infinito conduziu à Fe nomenologia transcendental Ela supera o objectivismo naturalista e todo e qualquer objectivismo em geral da única maneira possível a saber pelo facto de que aquele que filosofa procede a partir do seu próprio eu e decerto puramente como o executor de todas as suas validades das quais ele se torna num espectador teorético Nesta atitude é possível edificar uma ciência do espírito absolutamente suficiente sob a forma de uma consequente autocompreensão e de uma compreensão do mundo enquanto realização espiritual O eu também já não é mais então uma coisa isolada ao lado de outras coisas tais num mundo prédado e em geral cessa a séria exteriori dade e justaposição das pessoas egóicas em beneficio de um íntimo ser unsnosoutros e ser unsparaosoutros wwwlusosofianet i i i i i i i i 50 Edmund Husserl Contudo não é possível falar desse assunto aqui pois nenhuma conferência o poderia esgotar Mas espero ter mostrado que não se trata aqui de renovar o antigo Racionalismo que era um natura lismo absurdo incapaz em geral de captar os problemas espiritu ais que nos tocam mais de perto A ratio que está agora em ques tão não é outra senão a autocompreensão efectivamente universal e efectivamente radical do espírito na forma da Ciência Universal autoresponsável em que um modo completamente novo de cienti ficidade se põe ao caminho e no qual todas as perguntas pensáveis encontram o seu lugar as perguntas pelo ser e as perguntas pela norma bem como as perguntas acerca da chamada existência E minha convicção que a Fenomenologia intencional 347 fez por vez primeira do espírito enquanto espírito um campo de experi ência e de ciência sistemáticas e por via disso operou uma total transformação da tarefa do conhecimento A universalidade do es pírito absoluto abrange todo o ser numa historicidade absoluta que incorpora em si a natureza enquanto formação espiritual Só a Fe nomenologia intencional e decerto transcendental fez luz sobre isto por meio do seu ponto de partida e dos seus métodos Só a partir dela se compreende desde os fundamentos mais profundos o que o objectivismo naturalista é e em particular que a Psico logia através do seu naturalismo deva passar ao lado em geral da realização do espírito do problema radical e autêntico da vida espiritual III Condensemos as ideias fundamentais das nossas explanações a hoje em dia tão falada crise da existência europeia documentando se em inumeráveis sintomas de desagregação da vida não é ne nhum destino obscuro nenhuma fatalidade impenetrável mas torna se compreensível a partir do piano de fundo da teleologia da his wwwlusosofianet i i i i i i i i A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia 51 tória europeia que pode ser filosoficamente descoberta Pressu posto para esta compreensão é porém que o fenómeno Europa seja antes de tudo captado no seu núcleo essencial central Para que a desordem da crise hodierna possa ser concebida o con ceito Europa deve ser elaborado enquanto teleologia histórica de finalidades infinitas da razão deve ser mostrado como o mundo europeu nasceu de ideias da razão ou seja do espírito da Filosofia A crise pode então tornarse clara como o aparente fracasso do Racionalismo A razão do falhanço de uma cultura racional reside porém como foi dito não na essência do próprio Ra cionalismo mas unicamente na sua alienação na sua absorção no naturalismo e no objectivismo A crise da existência europeia tem apenas duas saídas a deca dência da Europa no afastamento perante o seu próprio sentido ra cional de vida a queda na fobia ao espírito e na barbárie ou então o renascimento da Europa a partir do espírito da 348 Filosofia por meio de um heroísmo da razão que supere definitivamente o natu ralismo O maior perigo da Europa é o cansaço Se lutarmos contra este perigo de todos os perigos como bons europeus com aquela valentia que não se rende nem diante de uma luta infinita então do incêndio aniquilador da incredulidade do fogo consumptivo do desespero a respeito da missão humana do Ocidente das cinzas do cansaço enorme ressuscitará a Fénix de uma nova interioridade de vida e de uma nova espiritualidade como penhor de um grande e longínquo futuro para o Homem porque só o espírito é imortal wwwlusosofianet