• Home
  • Chat IA
  • Recursos
  • Guru IA
  • Professores
Home
Recursos
Chat IA
Professores

·

Filosofia ·

Filosofia

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

9

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

Filosofia

UFSJ

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

27

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

Filosofia

UFSJ

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

1

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

Filosofia

UFSJ

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

22

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

Filosofia

UFSJ

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

3

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

Filosofia

UFSJ

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

53

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

Filosofia

UFSJ

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

7

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

Filosofia

UFSJ

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

39

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

Filosofia

UFSJ

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

168

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

Filosofia

UFSJ

Platão e a Mímesis - Introdução à Filosofia e Estética Platônica

28

Platão e a Mímesis - Introdução à Filosofia e Estética Platônica

Filosofia

UFSJ

Texto de pré-visualização

UNIDADE Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia 3 Subjetividade e Intencionalidade 31 A fenomenologia de Husserl 32 A filosofia existencial de Karl Jaspers 33 O raciovitalismo de Ortega y Gasset 34 O intencionalismo gramatical de Wittgenstein 35 A filosofia da linguagem em Wittgenstein 36 Referências Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 31 A fenomenologia de Husserl Caro Estudante vamos iniciar agora a unidade II Vamos estudar o estilo de pensar do século XX Nós vivemos os anos iniciais do século XXI e nos deparamos com um mundo confuso como também foi o século que passou E por que ele parece confuso para o homem de hoje Porque não possuímos aspectos ideias e princípios que sejam facilmente reconhecidos e válidos para todos Isso não significa que não haja valores de referência na tradição cultural e filosófica liberdade e dignidade do homem por exemplo No entanto esses valores construídos pela moral cristã não são facilmente compartilhados em todo o oriente A ciência é um tipo de saber valorizado e aceito universalmente mas hoje se sabe que não é um saber absoluto e irretocável Os conhecimentos científicos são continuamente 311 O século XX renovados pelo progresso das ciências E no universo político como andam as coisas Num mundo unificado com a globalização dos processos econômicos os grandes consensos permanecem difíceis Em resumo parece adequado dizer que o que ficou distante do homem de hoje são crenças comuns que permitam acolher teorias que as contemplem e sejam admitidas por todos os homens O século XX acentuou e aprofundou um movimento iniciado nos últimos anos do século XIX E que movimento foi esse Uma sequência de profundas mudanças podemos dizer de rupturas da visão única de ciência das referências metafísicas da religião como elemento fundamental da moralidade do modelo de família existente das referências de belo da compreensão dos valores etc O século passado acentuou o individualismo e expandiu interesses econômicos para fora dos Estados Nacionais difundindo um modo de trabalho parecido em todo o mundo Que exemplo podemos dar desse fato Hoje uma fábrica de carros japoneses produz no Brasil recebe componentes de diversos países e depois vende os carros nos Estados Unidos na Europa e China Em nossos dias a globalização das atividades econômicas multiplicou a oferta de produtos e serviços que ganham gradualmente dimensão e valores globais Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O século atual também assistiu a conflitos regionais como o da Guerra Civil da Síria que se arrasta desde 2013 Lembremos da luta de independência dos países africanos nos anos sessenta As disputas regionais adquiriram caráter global desde então E o que isso significa O que ocorre num canto do planeta numa região aparentemente sem importância acaba afetando a humanidade toda As disputas na África envolviam quase todos os países como hoje ocorre com a Guerra da Síria A crise econômica que teve seu pico em 2008 tem caráter global e lembra a de 1929 cujos efeitos devastadores também se espalharam pelo mundo e com resultados mais destruidores que a desse século E as guerras atuais e as maiores tragédias humanas desse século provocaram algumas milhares de mortes dois milhões de sírios acampados nos países vizinhos Esses números nem de longe lembram os grandes conflitos mundiais do século XX e os seis milhões de judeus exterminados nos campos de concentração nazistas Guerra Civil na Síria Esse quadro sumário do que está acontecendo hoje em dia e do que marcou o século passado é fundamental para entendermos a filosofia das últimas décadas Dela apresentaremos poucos exemplos o ideal é que fossem mais mas eles permitem uma informação geral da forma de pensar que marcou o século passado e se estendem até esse início de século XXI Esse panorama é especialmente útil se considerarmos que mesmo que as filosofias tenham dinâmica própria de investigação os problemas sobre os quais se debruçam guardam relação com outros elementos culturais aspecto reconhecido desde Georg Hegel como vimos na unidade inicial Além disso o espaço cultural é penetrado por elementos de crença que como salientou Ortega y Gasset estão na raiz das teorias usadas para entender o mundo E por que estão Porque os filósofos não criam no vazio O pensador necessita experimentar o mundo e lhe é essencial o conhecimento da ciência do seu tempo como reconhecem autores clássicos como Platão e Husserl E a ciência moderna passou no último século por um processo de revisão porque os cientistas ao relativizarem princípios tidos por absolutos inauguram atitude de parcimônia diante do mundo Eles concluíram que a ciência não é uma religião ou saber absoluto e nem tinham uma metodologia única porque as ciências chamadas humanas exigiram um novo tipo de fundamentação e metodologia Básico é o esforço dos filósofos de nosso tempo para mostrar que se não podemos perpetuar pensamentos e princípios dandolhes o sentido da eternidade como pensaram Hegel e Marx estudados na unidade anterior também não significa que caímos no relativismo moral ou gnoseológico É preciso alimentar a parcimônia intelectual como proclamou o filósofo alemão Karl Jaspers mas não perder de vista a importância da procura daquela verdade fundamental Como se faz isso Vivendo no âmbito da experiência mas aberto ao infinito ou fundamento que apenas se mostra no fenomênico de forma simbólica Essa atitude parcimoniosa dos cientistas Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade relativiza a geometria euclidiana pois é possível conceber outras geometrias e outros axiomas fundamentais Essa percepção substitui a noção de necessidade absoluta por necessidades hipotéticas nas ciências e por consensos e acordos no âmbito político A atividade filosófica por sua vez depararseá com uma nova subjetividade e intencionalidade capaz de orientar os esforços em geral em benefício da humanidade para atender a convocação de Husserl ao considerar o homem uma espécie de funcionário da cultura Atenção Ao concluir essa unidade você deverá ser capaz de 1 resumir e comentar os autores aqui apresentados 2 caracterizar as formas de intencionalidade mencionadas na unidade e transcendental 1929 Meditações Cartesianas 1931 e Experiência e juízo 1939 publicação póstuma essas últimas quando já era professor na Universidade de Freiburg para onde se transferira em 1916 O filósofo deixou ao morrer cerca de quarenta mil páginas que foram levadas às pressas para a Universidade de Louvain na Bélgica em 1939 por medo de que viessem a ser destruídas pelos nazistas Entre essas páginas que integram a denominada coleção husserliana encontramse duas versões do importante ensaio A crise da humanidade europeia e a Filosofia Esses ensaios foram apresentados em conferências que o filósofo pronunciou no final da vida em 1935 primeiro em Viena e depois na Universidade de Praga Nela mostra os limites do pensamento europeu naquele momento e as exigências para se manter fiel às exigências mais importantes da cultura ocidental A leitura dos principais livros de Husserl sugere que ele passou por etapas evolutivas sendo perfeitamente distintas o logicismo da fase inicial uma espécie de vitalismo histórico na etapa final havendo um período idealista intermediário O que pretendeu o filósofo Ele desejou descrever o modo como o mundo aparece na consciência sendo essa a raiz do conhecimento do mundo Não lhe parece possível falar do mundo sem entender que ele está representado na consciência nem há como se dedicar ao estudo dos mecanismos da consciência sem considerar que ela está cheia de elementos do mundo Isso é consciência intencional sempre que falamos de consciência falamos que ela é consciência de alguma coisa Os textos de Husserl não são de fácil leitura mas ele é um filósofo imprescindível para se entender o século XX A fenomenologia acabou tornandose o método utilizado pelos existencialistas 312 A intencionalidade fenomenológica de Edmund Husserl Edmund Husserl nasceu em 1859 e morreu em 1938 Dedicou parte inicial de seus estudos à Matemática e na parte final da vida ocupouse da Filosofia A obra com a qual inicia uma nova forma de pensar filosoficamente são as Investigações Lógicas 1900 publicadas um ano antes de se transferir para a Universidade de Göttingen Em 1913 publica Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica seguindose Lógica formal Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade que a partir do século passado formam a escola fenomenológica existencial unindo a fenomenologia e o existencialismo No entanto a fenomenologia também foi utilizada por neotomistas e nos estudos da linguagem Assim a intencionalidade fenomenológica tornase desde o século passado um método de meditação fundamental tida nessa forma de psicologia como um conjunto de regras para pensar constituída por elementos psicológicos Para enfrentar a influência psicológica na Lógica Husserl publicou Investigações Lógicas Naquele livro o filósofo se refere às ideias conceitos juízos etc Não seriam esses elementos de caráter psicológicos Ele avalia que não caso se considere que as regras lógicas se referem ao modo como a consciência pensa o mundo ou os objetos Os psicólogos diziam por exemplo que não há como pensar que algo é igual e diferente de si mesmo ao mesmo tempo Husserl rejeita essa explicação psicológica para os princípios de identidade e contradição afirmando em contrapartida que as regras lógicas representam verdades do pensamento com 313 Por dentro da fenomenologia Edmund Husserl deparouse com um ambiente intelectual marcado pelo desconforto causado pelo positivismo e pelas críticas à metafísica que decorriam de uma espécie de releitura do kantismo que ganhou força na Universidade alemã no início do século passado No campo psicológico predominava o behaviorismo americano que entendia o comportamento humano como um encadeamento de estímulos e respostas A Lógica por sua vez era validade objetiva Deixadas no âmbito psicológico os dois princípios valem para o sujeito apontando inevitavelmente para o ceticismo e o relativismo questões com as quais os filósofos estavam familiarizados desde o empirismo britânico Husserl entende que supera essa desconfiança presente no ceticismo e relativismo atribuindo aos princípios lógicos validade a priori e absoluta Em outras palavras se admitíssemos uma consciência puramente pensante sem os aspectos psicológicos que lhe servissem de suporte mesmo assim os princípios mencionados seriam válidos Estabelecido que a Lógica não é disciplina psicológica o que singulariza o modo como Husserl a pensa O dar à intuição o sentido fenomenológico Quando o filósofo deparase com as vivências ele ao mesmo tempo entra em contato com os objetos das vivências pois elas são intencionais isto é não há vivência sem objeto Essa discussão já se encontrava na Crítica da Razão Pura de Kant porém Husserl pensa os objetos intencionais como universais dando assim um novo foco ao idealismo transcendental pois para Kant a intuição era sensível Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade E como são os objetos que a consciência reconhece Husserl os divide em reais e ideais Como diferenciálos Os primeiros se encontram no tempo e espaço por exemplo a mesa o papel e a caneta que se usa para escrever uma carta A carta é escrita num determinado momento da história e num lugar específico o escritório da casa ou a sala de jantar Os objetos ideais as regras matemáticas por exemplo o teorema de Pitágoras tem validade independe do tempo e do espaço Essa distinção já se encontrava nos empiristas ingleses embora Husserl tenha se afastado dos mecanismos psicológicos que conforme os empiristas davam sustentação a verdades matemáticas No entanto supor a verdade de uma regra concebida por uma consciência pura sobrehumana sem estar sobre uma consciência psicológica e um corpo vivo suscitou viva polêmica com os existencialistas que não entendiam ser possível falar de pensamento puro sem se referir aos outros aspectos que caracterizam o homem Em outras palavras mesmo que se reconheça que o homem é espírito consciência vida e corpo material substratos distintos os estratos mais elevados dependem dos menos elevados O pensamento puro da 8 fenomenologia é um aspecto da consciência mas só é verdade porque alguém concretamente a pensa contestam os existencialistas Husserl entendia que as regras lógicas eram válidas em si mesmas Como o filósofo pensa o significado dos objetos Atribuindo lhes o caráter de idealidade Entre os sons que o simbolizam as palavras que o representam e ele mesmo há uma relação insuprimível Os sons e a escrita podem se referir a um objeto que não existe por exemplo um dragão amarelo Nesse caso temos um objeto que não é nem real nem ideal mas que pode ser pensado Sabemos que Kant já definira intuição como o modo como um objeto é representado na consciência mas Husserl se pergunta sobre como representar intuitivamente não propriamente os objetos mas as significações a eles associadas Husserl falará de preenchimento de significação para descrevêla E essa descrição não é de objetos mas de essências Assim temos um tipo de intuição diferente da sensível que fora preconizada por Kant isto é uma intuição de ideias A relação entre as partes e o todo de um objeto que se dá na consciência é outro aspecto importante da fenomenologia e causa grande impacto na psicologia fenomenológica Ela conclui que o todo é mais que a soma das partes colocando se em confronto com as interpretações behavioristas Husserl prepara o entendimento da psicologia gestáltica de inspiração fenomenológica distinguindo dois tipos de relação entre partes e o todo Na primeira as partes se encontram vinculadas de modo necessário como a relação entre ser madeira e ser vegetal É o tipo de relação que Kant dizia ser analítica Há ainda a relação na qual uma parte está unida mas não implica a outra por exemplo a cor amarela da flor A cor implica a flor ou outro objeto extenso não há cor sem objeto Os comentários acima indicam que Husserl não se ocupa da coisa mesma nem de sua representação como procuravam fazer outros pensadores mas do modo como o ser se mostra no fenômeno Para tanto ele quer saber como o ser surge na consciência Isso nos coloca diante da questão o que é mesmo a consciência Tudo o que é representado tudo o que a pessoa se dá conta mas especialmente a chamada vivência intencional O que é a vivência intencional É uma experiência íntima das essências e dos conteúdos os primeiros intencionais e o segundo não A essência intencional é o que se coloca na consciência e pode Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade ser matéria e qualidade Por qualidade o filósofo entende propriamente o objeto e a matéria é o modo como ela aparece Se digo o relógio da Igreja o objeto é o relógio e o fato de ele estar na Igreja é a matéria Por sua vez os conteúdos não intencionais são o impulso emoções sensações etc Uma vez esclarecido em que consiste a vivência intencional chegamos ao ponto nuclear da fenomenologia O mundo tal como se encontra na vivência intencional está representado na consciência No entanto a fenomenologia não toma tal representação como realidade mas quer examinar os elementos da vivência intencional para descobrir o sentido que os fenômenos possuem E como é possível fazer isso Vamos explicar com um exemplo Um sujeito se encontra diante de uma paisagem qualquer Digamos que esteja próximo a uma floresta contemplandoa A floresta é formada por muitas árvores arbustos plantas miúdas e uma multidão de animais de todos os tamanhos O sujeito pode vêla escutar os sons que ela emite sentir o cheiro que exala de suas folhas e flores Tudo 314 O momento fundamental do método isso lhe fornece uma ideia da floresta que o observador acredita que verdadeiramente existe em razão de suas percepções Essa representação não é objetiva devido aos mecanismos da razão como pensara Kant mas contém muito da percepção do sujeito singular Esse indivíduo é único e sua percepção do mundo consolidase nas crenças que forma mas qual é o papel do sujeito nessa crença O seu eu afeta suas crenças Com certeza responderá Husserl por isso a fenomenologia pede a redução fenomenológica que isola todas as referências individuais do sujeito que representa a floresta o fato de ele amála por exemplo A redução fenomenológica pede que o sujeito descreva o seu objeto unicamente como vivência sem utilizar os elementos de sua singularidade No entanto a atenção ao modo puro como as coisas aparecem na consciência não é suficiente Se ficarmos nele estamos apenas na redução fenomenológica O filósofo espera contudo que o indivíduo parta da redução fenomenológica para a eidética Como se pode fazêlo Descrevendo todas as características presentes no objeto vivenciado o que explicita a sua essência Assim um triângulo retângulo por exemplo manifestase como figura de três lados seus ângulos têm 180 graus sendo um deles de 90 graus e a soma dos outros dois A soma dessas características que identifica o objeto forma a sua essência O momento essencial da fenomenologia é a redução primeiro fenomenológica e depois eidética Por elas o real se mostra no pensamento A primeira não leva à dúvida do mundo mas suspende o juízo da vivência que dele se tem e em seguida procurase a evidência verdadeira Para alcançar a essência verdadeira é preciso colocar entre parêntesis o próprio sujeito que pensa Chegase então ao contato com as coisas mesmas cujas características quando descritas com cuidado e zelo revelam a essência escondida do objeto Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Os procedimentos acima descritos mostram o cerne de uma ciência rigorosa que é o modo como Husserl se refere à Filosofia Como tal ela deve enfrentar os relativismos decorrentes de escolas filosóficas do século XIX as diversas formas de historicismos e naturalismos pois ambas as filosofias conduzem a formas céticas e relativistas de tratar o real E a Filosofia é o esforço para chegar à verdade fundamental sem desanimar com os insucessos das diversas teorias que formam a tradição filosófica A possibilidade de obter sucesso nesse empreendimento decorre de termos em nosso tempo uma mais clara diferença entre a ciência e concepção de mundo sendo a primeira rigorosa e a outra comprometida pelos elementos históricos inerentes à vivência O resultado desse processo é o surgimento de uma filosofia que remonta ao início da modernidade tomando a vivência intencional como um tipo de cartesianismo superando os limites que a filosofia moderna indicou O mundo que surge na consciência não é um pensamento claro pura e simplesmente mas uma intuição fundamental dos objetos da consciência A aproximação de Husserl da noção de subjetividade iniciada por Descartes não esconde a enorme distância entre eles A consciência intencional como uma consciência povoada de objetos ou representações de mundo não é uma substância nos termos do que foi pensado por Descartes A consciência fenomenológica não está independente do que aparece para o sujeito como objetivo Em contrapartida esses objetos só aparecem para uma consciência quer se a tome como pensamento puro quer se a perceba pela sua realidade psicológica A consciência de si mesma ou eu é ato pelo qual o sujeito apreende a si como sendo o mesmo ainda que viva experiências distintas ao longo da vida Seria mais exato dizer que o sujeito se reconhece idêntico ainda que passe por mudanças que a experiência provoca Isso significa dizer que o sujeito conserva um estilo uma identidade em meio aos fatos de sua história de vida A presença do sujeito no mundo isto é o modo do indivíduo experimentálo e representálo passa pela intermediação do corpo O corpo situa a consciência no espaço e no tempo Por sua vez o corpo do outro é o modo como ele aparece para mim e se situa no espaço e tempo 315 Apreciando a fenomenologia de Husserl métodos utilizados nas ciências naturais Esse método de caráter descritivo estabelece os fundamentos do modo de justificar as práticas científicas elaboradas sobre seus pressupostos sem necessidade de outros elementos metafísicos Considerada como filosofia a fenomenologia não preconiza um retorno à antiga metafísica ela se insere no desenvolvimento da subjetividade transcendental com a qual Kant inaugurou uma nova forma de pensar filosoficamente Ao desenvolvêla encontra novos elementos capazes de orientar a procura pela A obra filosófica de Husserl é uma das maiores realizações do século XX e traz uma bem fundamentada crítica à visão positivista de ciência e de história do idealismo hegeliano Ambas traziam dificuldades reconhecidas no próprio desenvolvimento das ciências Nesse sentido ela se apresentou como um novo método empregado com sucesso nas ciências humanas cujos objetivos não seriam facilmente estudados com os Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade verdade fundamental com a qual lida a Filosofia indo além do conhecimento puramente empírico A fenomenologia trata da objetividade na consciência na perspectiva inaugurada por Kant e nessa ótica oferece um caminho para chegar à evidência pelas essências descobertas na consciência pela redução eidética Nelas está o fundamento que Husserl propõe para a Filosofia SAIBA MAIS SAIBA MAIS Para saber mais leia a seguir o texto da terceira parte de A crise da humanidade europeia e a Filosofia de Edmund Husserl que se encontra na biblioteca do curso SAIBA MAIS Um pouco sobre Edmund Husserl Husserl La Ciencia de la Conciencia Fenomenología Documental Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 32 A filosofia existencial de Karl Jaspers A filosofia existencial é uma das escolas filosóficas mais representativas do século XX e se desenvolve como aplicação do método fenomenológico aos problemas da existência concreta A realidade social econômica e política da primeira metade do século XX descrita na introdução desta unidade revela um mundo em dificuldades Nele o homem se viu desafiado a estabelecer um sentido para sua existência e para o mundo que como ele enxergava desmoronava e mergulhava no caos O que é mesmo a filosofia existencial o que é esse falar do ser na ótica da existência concreta Carvalho tenta responder à questão no capítulo inicial do livro Filosofia e Psicologia o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers 2006 321 Karl Jaspers e o movimento existencial A citação acima indica que os representantes da escola não têm posições semelhantes sobre muitas questões isto é os existencialistas divergem sobre vários assuntos mas eles adotam atitude comum sobre assuntos nucleares de suas filosofias e isso permite identificálos como escola Jaspers e outro alemão chamado Martin Heidegger são apontados como os iniciadores do movimento que teve outros representantes nos diferentes países Entre os franceses encontramos Jean Paul Sartre e Albert Camus radicalizando as impossibilidades de o homem alcançar qualquer estabilidade e contra eles Louis Lavelle e Gabriel Marcel encontram na crença em Deus uma garantia diante da instabilidade e incertezas experimentadas na existência Por sua vez lembra Abbagnanno no seu Dicionário de Filosofia que há uma terceira posição em que as possibilidades da existência devem ser mantidas como tais sem serem tomadas como possibilidade de ir adiante nem como impossibilidade de realizar tal propósito Ele explica essa posição do seguinte modo 1982 Filosofia da existência designa um movimento amplo e cujo conceito não tem uma história muito precisa Ele foi empregado inicialmente por Fritz Heinemann no livro Novos caminhos para a Filosofia 1929 Naquela oportunidade o conceito designava as criações filosóficas que apareceram no início do século passado representava uma nova forma de pensar a realidade diferente das anteriores p 36 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Nesse caso a perspectiva aberta por uma possibilidade não é nem a realização infalível nem a impossibilidade radical mas de preferência uma pesquisa tendente a estabelecer os limites e as condições da própria possibilidade e portanto o grau de garantia relativa ou parcial que ela pode oferecer Essa diretriz de Existencialismo acentua a tendência naturalista e empirista já presente de forma oculta ou imperfeita nas outras diretrizes p 385 As referências da citação acima não pretendem esgotar os nomes dos existencialistas mais conhecidos apenas mostrar que a escola permite divergência entre seus nomes mais conhecidos apesar dos assuntos comuns Quais são mesmo os assuntos que identificam os existencialistas Quais são os desafios que provocaram o homem do século XX e pediram resposta dos filósofos e um estilo de pensar Como podemos resumilos O primeiro era dar sentido à existência pessoal em meio ao legado historicista e social do hegelianismo e do marxismo examinados na unidade anterior e o outro desafio entender o significado da ciência moderna Ela se parecia cada vez mais essencial à sociedade oferecia nas suas realizações cada vez menos do que prometera o positivismo no século XIX popularizado como uma espécie de filosofia da ciência E como se devem entender os dois problemas O primeiro significava elaborar um sentido pessoal para a vida num contexto em que a noção de sociedade e consciência histórica valorizava o grupo e a força das gerações no modo de pensar de cada existente particular O outro era avaliar o papel da ciência moderna pois apesar de seu enorme avanço ficava evidente à medida que divulgava resultados extraordinários que ela não oferecia resposta aos desafios éticos A ciência também não contribuía para o estabelecimento de um sentido pessoal para a vida ou em outras palavras para promover uma existência autêntica O que isso quer dizer Que a ciência nada tinha a dizer sobre o que era uma vida boa e tipicamente humana isto é os princípios científicos nada oferecem para a elucidação do destino que cada um deve dar à própria vida e esse desafio parecia muito importante para o homem daqueles dias Os dois desafios se somavam às profundas mudanças históricas já descritas no início da unidade e elas forneciam a sensação de um mundo quebrado e destruído para os homens de então E qual o resultado desse quadro histórico de guerras e crise sofrimento e desilusão O surgimento da angústia que começou a crescer quando os homens sentiram as mudanças como a destruição do mundo que eles habitavam em segurança A retirada do mundo seguro corresponde a tirar o chão debaixo dos pés E a angústia era maior devido à decepção que emergia dos sonhos de paz e progresso permanentes projetados na chamada Belle Époque Os grandes temas da escola existencial eram a redefinição da subjetividade elaborada no início dos tempos modernos a descrição da vida como solidão ontológica a consciência de que a ela não tem sentido prévio a compreensão de que se lançar para o futuro era o mesmo que mergulhar em direção ao que ainda não existia Em outras palavras era essa ida ao futuro vivida sem garantias que parecia àqueles homens a única alternativa para dar sentido ao mundo Nas palavras de Emmanuel Mounier nesse mundo que emergia diante da sua geração 1946 o desespero Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade ocupa na perspectiva existencial o lugar que a dúvida metódica ocupou no início da reflexão cartesiana p 62 Ao avaliar as filosofias da existência no livro A Filosofia no século XX Fritz Heinemann afirmou que elas tratam o problema da realidade olhado a partir da existência concreta E nesse contexto atribui importância ao papel desempenhado por Karl Jaspers nessa nova forma de filosofar que ganhava força no início do século XX Qual a posição que Jaspers ocupa na escola existencial Eis como ele o explica 1979 Para Jaspers a Filosofia tornase um apelo e não deve em absoluto produzir qualquer doutrina com conteúdo Tratase aqui essencialmente portanto da conquista de um domínio de problemas Na medida em que esses problemas são autênticos brotam da situação tornada problemática do homem moderno p 264 O comentário de Heinemann situa precisamente o filósofo na esteira do kantismo e do entendimento de que não é possível para a Filosofia colocar em evidência de forma completa a verdade que ela busca Ela é portanto uma forma de conhecimento do mundo e deve se ocupar de clareála destino que Emmanuel Kant antevia para a Filosofia ao considerála transcendental e escrever na introdução da sua Crítica da Razão Pura 1987 Denomino transcendental todo conhecimento que em geral não se ocupa tanto com os objetos mas com o nosso modo de conhecimento dos objetos na medida em que este deve ser possível a priori p 35 Os caminhos do kantismo sobretudo com a mediação da fenomenologia de Husserl é que serão trilhados por Jaspers Por sua vez Michelle Federico Sciacca outro historiador conhecido da filosofia avaliou a filosofia de Jaspers como reflexão sobre a existência singular do homem destacando que nessa categoria se localiza o esforço do filósofo para considerar a autenticidade da vida humana o que é a sua forma de referir a uma vida tipicamente humana Esse é um assunto fundamental da meditação contemporânea como já dissemos Outro ponto fundamental destacado por Sciacca é o reconhecimento do limite da consciência humana decorrência do diálogo que o filósofo estabelece com Kant e que já indicamos anteriormente E qual a importância desse diálogo Ele é importante porque graças aos limites do conhecimento estabelecidos nos termos kantianos é que o filósofo situa o homem no horizonte do infinito Como ele faz isso Ao reconhecer que a consciência humana conhece apenas o que a ela se manifesta Jaspers observa que aquilo que não se mostra surge diante do homem como apelo E diante do apelo do que está além dele o homem toma consciência de que o fundamento não se revela e a vida lhe parece ser possibilidade mas com muitas contradições vividas no espaço dos fenômenos Tratase de um tema posto na meditação contemporânea por Sören Kierkegaard embora para o filósofo dinamarquês o transcendente fosse Deus o que não corresponde ao que pensa Jaspers Diante do infinito ou do que não se objetiva na consciência a existência emerge como possibilidade e a incapacidade de tratar do infinito se mostra Esse infinito está para além da consciência tanto a consciência de si como as representações do mundo isto é tanto do polo subjetivo como do objetivo da consciência Diante da transcendência a vida do homem se revela incompleta e ele busca sem sucesso apreendêla e definila Isso explica o contínuo insucesso da Filosofia em esclarecer o fundamento que tanto busca Esse infinito nunca se mostra na consciência como é de verdade No comentário de Sciacca o assunto é assim apresentado 1968 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O nosso existir é o esforço incessante de atingir o uno originário o ser em si esforço perseguido também na consciência de não poder jamais apreendêlo Por isso nós não existimos no Ser mas para o Ser no ser decisivo para ele no sentirmonos diante dele p 274 O que o comentário revela Que para Jaspers a referência a essa unidade originária ou princípio fundante que a Filosofia procura para oferecer ao homem segurança não se revela Ele surge além do limite do conhecimento que é incapaz de desvendálo como já dissera Kant mas que pode ser intuído sugere Jaspers Esse infinito não se mostra completamente no mundo A transcendência percebida como ser ou percebida como fenômeno pela intuição sensível só se revela na consciência simbolicamente A intuição do infinito que é vislumbrado mas não completamente desvelado está presente segundo o filósofo na existência humana como um desafio Ele o conduz no tempo estimulao a entender um pouco mais o que só se desvenda gradual e parcialmente Esse desafio se compromete absolutamente com exigências que a razão identifica como necessárias instigao a encontrar significado para a vida que não se mostra no dia a dia Isso que se vislumbra se esclarece parcialmente na existência mas permite viver diante da transcendência e ser iluminado por ela num mundo em que só se experimenta mesmo os fenômenos É o que Sciacca procura esclarecer no trecho transcrito Os limites da existência levamnos até ao ponto de fazernos admitir que há um fora tão certo quanto um dentro Encontro com o ser da existência que naufraga diante dele O fora fica portanto sempre incognoscível enquanto ser dentro é a estrutura cifrada das coisas idem p 274 O comentário mostra o eixo nuclear de um pensamento metafísico que era existência singular e concreta experimenta o limite e a finitude que o delimita com a transcendência Os modos como a transcendência se mostra são cifras que revelam algo e escondem muito Vamos indicar no próximo item os aspectos da filosofia existencial de Karl Jaspers 322 A filosofia fenomenológicaexistencial de Karl Jaspers Explicouse no item anterior que o filósofo elaborou um diálogo com Kant e a partir dele reconheceu a impossibilidade do desvendamento do ser como queria a antiga metafísica Nesse sentido a fenomenologia existencial de Jaspers se situa na perspectiva transcendental de Kant Também foi dito que na ótica dos filósofos existenciais o problema da realidade foi examinado a partir da existência concreta Vamos considerar agora um pouco melhor ambas as questões indicando adicionalmente Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade como elas se entrelaçam Essas questões estão na introdução do livro Filosofia uma das obras fundamentais do filósofo Para Karl Jaspers só se pensa na situação em que se encontra No entanto mergulhado nessa circunstância as perguntas de sentido filosófico isto é o que o ser é por que existe o ser e não antes o nada quem sou e o que quero não levam a uma resposta conclusiva E por que não levam Porque o ser não se deixa perceber como ele é apenas é concebido da forma como a consciência pode compreendêlo e isso é algo que me angustia Ele o diz na introdução de Filosofia 1958 pois na consciência de minha situação que não compreendo por completo nem posso penetrar em sua origem encontrome oprimido por uma angústia indeterminada p XXIX O filósofo assume da ótica kantiana que no modo possível aos homens de conhecer não é possível clarear o que o ser é em si mesmo e acrescenta algo que não estava nos livros de Kant o fracasso produz angústia que incita a procura No terceiro capítulo da Iniciação Filosófica Jaspers esclarece melhor o motivo do insucesso dizendo que todas as tentativas de desvendar o ser fracassam E por que fracassam 1987 Todas elas têm um elemento comum apreendem o ser como algo que me defronta como objeto para o qual pensandoo me dirijo como algo que se me contrapõe Este fenômeno arquetípico de nossa existência consciente é tão natural que mal nos apercebemos do seu enigma porque nem sequer o pomos em dúvida Aquilo que pensamos e de que falamos é sempre diferente de nós é aquilo que nós sujeitos estamos voltados é o que se nos depara como objeto p 28 Como o ser não se revela em sua plenitude permaneço na angústia que estimula a meditação filosófica Daí se segue a conclusão de que como não é possível ir além do que se objetiva o ser mesmo se encontra fechado é inacessível à minha abordagem Por outro lado faz sentido o esforço de procurá lo apesar do insucesso da empreitada pois o que se objetiva propicia o esclarecimento parcial do que o ser é Ao pensar assim a atividade filosófica Karl Jaspers entende que filosofar é considerar a falha de elucidação completa do ser e das perguntas inicialmente mencionadas O filósofo integra o malogro na própria atividade filosófica conforme explica em Filosofia 1958 ao fracassar nessa busca que queria encontrar o ser absoluto começo a filosofar p XXIX E por que a Filosofia se ocupa do fracasso ao tratar do fundamento da realidade Porque tudo quanto existe animais plantas pessoas paisagens naturais as mais diversificadas os pensamentos emoções vontade enfim tudo o que aparece no mundo como desafio para ser conhecido manifestase na consciência como objeto No entanto o ser é mais do que aquilo que se torna objeto O ser que sou como o próprio mundo é parcialmente objetivado O que não pode ser conhecido o filósofo denomina seremsi como fizera Kant A questão pode ser assim resumida Eu não sei exatamente o que sou não sei perfeitamente o que o mundo é mas eu e o mundo somos objetos para a consciência e conheço ambos eu e o mundo parcialmente O insucesso do conhecimento faz parte do esforço epistemológico logo o malogro é parte do processo e o alimenta O que Jaspers diz é que o ser que se expressa como objeto na consciência é o mundo tal como aparece para nós mundo concebido no espírito da fenomenologia de Husserl Além desses objetos do mundo há a própria consciência em si que é o outro polo desse conhecimento e ainda o ser que não se objetiva porque está além dessa possibilidade Chegase assim à seguine Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade divisão o serobjeto o fenômeno que surge na consciência o ser em si como liberdade o ser para si a consciência que se mostra como objeto Explica Jaspers o assunto do seguinte modo 1958 Quando decomponho o ser em serobjeto seremsi e serparasi não tenho três modos de ser que existem um ao lado do outro senão polos indissolúveis um do outro do ser em que eu me encontro Por acaso posso inclinarme a considerar um dos três polos inseparáveis um do outro do ser em que em encontro p 4 O ser em si não é possível de ser conhecido mas ao tentar alcançálo transformoo em objeto Tornar um ser objeto e fazê lo surgir na consciência como fenômeno Essa ideia de fenômeno Jaspers buscou em Kant e revela o limite da consciência como instrumento cognitivo pois ela só conhece a realidade reduzida na consciência como indicara Husserl Assim o ser que se torna objeto é o que se mostra no conhecimento e tem primazia no ato cognitivo Os outros não não têm primazia porque não se mostram achamse ocultos para além da capacidade da razão O sentido fenomenológico do ato cognitivo se observa no modo como o conhecimento depende da consciência que pensa Ao procurar conhecer o indivíduo que se depara com esses polos comete o erro de tentar dizer o que não pode Por outro lado a consciência que pensa o mundo está situada no tempo e espaço O ser da natureza se manifesta dentro dessas coordenadas O modo como objetiva o ser na descrição de Jaspers remonta à fenomenologia de Husserl Eis como o afirma Posto que a consciência é consciência e eu existo como consciência as coisas não existem para mim mas como objeto para a consciência Tudo o que existe para mim tem que entrar na circunstância A consciência como existência é o medium do todo ainda que como se mostrará meramente a modo de água onde se banha o ser idem p 5 O estado da consciência como ação dirigida aos objetos é formulada por Karl Jaspers em claro contexto fenomenológico como se segue a consciência não é um ser como o das coisas senão um ser cuja essência é estar dirigida intencionalmente a objetos idem p 6 Isso significa que a consciência não é um tipo de ser como os objetos que se encontram no mundo como as árvores as pedras os animais A consciência não esbarra nessas coisas ou se coloca ao lado delas como um banco está ao lado do chafariz na praça A consciência está diante dos objetos vive em relação mas não se confunde com eles Se a consciência é esse modo de ser que se coloca de modo singular diante dos objetos por ela não se restringir a ser objeto ela só surge na cisão sujeitoobjeto E essa condição pode significar uma perda um distanciamento de mim porque ao me deparar com as coisas posso ficar perdido nelas distraído Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Nesse sentido a reflexão filosófica no tanto em que ela investiga a relação entre consciência e mundo funciona como proteção contra a desorientação e distanciamento do sujeito de si mesmo A reflexão previne o risco de o indivíduo permanecer nos objetos e não se ocupar de si No capítulo XI da Iniciação Filosófica Jaspers acrescenta algo à reflexão metafísica em tempos que especialmente contribuem para a desorientação Se perderse no mundo é sempre um risco que o homem corre esse perigo aumenta quando os tempos contribuem para distraílo Em tempos tranquilos o indivíduo não perde o contato com a espontaneidade da vida mas não é o que ocorre em dias de crise Sobre o tempo em que vive comenta ser um tempo de dificuldades 1987 Num mundo em iminente derrocada onde a tradição encontra cada vez menos adeptos num mundo que subsiste apenas enquanto ordem exterior destituído de simbolismo ou transcendência que deixa a alma vazia sem dar satisfação ao homem este se o mundo não o prende fica a mercê de si próprio da cupidez e do tédio da angústia e da indiferença Nesse caso o indivíduo só pode contar consigo p 109 Ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Para saber mais leia o texto a seguir de Karl Jaspers intitulado Introdução ao Pensamento Filosófico que está disponibilizado na Biblioteca do curso TAREFA 2 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 33 O raciovitalismo de Ortega y Gasset 331 A vida é o fundamento que a Filosofia sempre buscou Para o filósofo espanhol Ortega y Gasset a vida é o fundamento que a Filosofia sempre procurou E por que ele pensa assim Porque é a partir da vida que tudo o mais ganha significado Tudo o que pensamos acreditamos escolhemos construímos está em função da vida A questão é importante e é por isso precisamos aprofundála Ao expor as ideias orteguianas veremos como o filósofo insere sua tese na história da filosofia isto é vamos indicar porque ele entende que a tradição filosófica acabou permitindo concluir ser a vida o fundamento vida que ele considera ser o assunto do século E por que é o assunto nuclear do século que viveu O filósofo explicou a razão no livro El tema de nuestro tiempo escrito em 1923 Ali diz 1994 a cultura não pode ser regida exclusivamente por suas leis objetivas e transvitais senão que por sua vez está submetida às leis da vida p 169 Dito de outro modo nada que o homem produz como cultura se afasta da vida nem mesmo a atividade intelectual ou filosófica Ele o diz não há espiritualidade sem vitalidade no sentido mais terra a terra que se queira dar a essa palavra O espiritual não é menos vida nem é mais vida que o não espiritual idem p 168 Antes de entrar no problema da vida recordemos que descobrir o fundamento da realidade é assunto central da Metafísica mas o que é mesmo Metafísica Podese dizer que é a disciplina filosófica mais importante autônoma e referencial Ela está no centro da meditação filosófica E por que está Porque seu objetivo maior é apontar o fundamento geral que sustenta o homem na existência ela procura algo que o oriente em meio à fenomenalidade do mundo e as suas mudanças constantes Nesse sentido a Metafísica deseja proporcionar verdades suficientes isto é que não dependam de outras para ter validade Ao contrário porque se referem à totalidade do saber possível esperase que as verdades metafísicas sirvam às outras verdades como suporte ou fundamento Você se recorda como no item anterior mostramos Jaspers às voltas com diferentes formas de verdade Essa procura de fundamento remonta historicamente a Aristóteles como lembra Ortega y Gasset em La idea de principio en Leibniz y la evolucion de la teoria deductiva 1994 Na Filosofia contemporânea esclarecer o que é a vida é o maior desafio avalia Ortega Dito de outro modo em Qué es Filosofia 1997 O problema fundamental da Filosofia é definir esse modo de ser essa realidade primária que chamamos nossa vida p 405 E ao deparar com esse problema a Filosofia descobre um assunto concreto não um conceito abstrato mas para uma realidade experimentada na primeira pessoa de forma individualíssima e singular a minha vida Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade As palavras de Aristóteles no livro III da Metafísica dizem que faz falta um conhecimento disciplina ou filosofia que seja o fundamento de todas as demais e ela em compensação não as implique p 263 O mundo moderno concebeu outra visão de Metafísica diferente daquela encontrada entre gregos e medievais Uma outra concepção não porque abandonou a preocupação com o fundamento mas porque ele foi pensado depois da descoberta da subjetividade A novidade explicou Ortega y Gasset na sétima lição de seu livro Qué es Filosofia 1997 consistiu neste descobrimento de haver entre as coisas que existem ou pretendem existir no universo uma cujo modo de ser se diferencia radicalmente de todo o resto o pensamento p 375 A metafísica que surgiu da subjetividade culminou no idealismo O idealismo foi um movimento fecundo foi bem estudado por Ortega y Gasset e examinado no capítulo anterior quando tratamos de Hegel Sua expressão amadurecida foi obra de Emmanuel Kant mas suas raízes remontam a Francis Bacon que esperava criar uma nova ciência universal que fosse a base de todas as outras Se retrocedermos um pouco até o século XIX qual a visão de Metafísica encontramos Naquele tempo pensouse Metafísica como um saber crepuscular ou tardio aspecto que pode ser creditado à influencia do idealismo absoluto de Georg Hegel O que isso significa O sistematizador do idealismo absoluto dizia que a Filosofia somente entra na história dos homens quando outros elementos da cultura já tivessem se desenvolvido A Filosofia é uma criação humana que depende que outros aspectos já estejam bem consolidados Eis o que Hegel escreveu em sua Introdução à História da Filosofia 1988 A Filosofia começa quando um povo saiu de sua vida concreta quando vão surgindo divisões e diferenciações nas classes quando o povo se aproxima do ocaso quando vai cavando um abismo entre as tendências internas e a realidade externa e as formas antiquadas de religião etc já não satisfazem quando o espírito se manifesta indiferente pela sua existência real ou então permanecendo nela só experimenta insatisfação e incômodo e a vida moral se vai dissolvendo p 120 Em outras palavras para a Filosofia emergir na história grega foi preciso que certas condições culturais estivessem estabelecidas Antes dessas condições a Filosofia não pôde surgir avaliou Hegel A célebre alegoria da coruja da deusa Minerva que só alça voo ao entardecer traduz esse entendimento que filosofar é tardio quando comparado a outras criações culturais como por exemplo a Religião a Literatura e a formação do Estado E de onde Hegel tirou a alegoria da coruja de Minerva Da mitologia romana É que a ave era ali representada no ombro da deusa Minerva e na mitologia lhe revelava o lado obscuro da verdade que ela não enxergava sozinha Assim era no mito porque a coruja tem visão perfeita à noite e devido à sua habilidade revelava verdades ocultas que a deusa não via Por essa característica passou a representar a própria Filosofia Usando a alegoria Hegel quer dizer que a Filosofia entra num cenário cultural já pronto toma consciência das coisas mas não se pronuncia sobre o que elas devem ser O seu conteúdo é o que se produz no domínio do espírito que segundo Hegel se encontra objetivado no mundo exterior e na intimidade da consciência Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Além desse aspecto o filósofo alemão entende que a consciência é histórica o que no idealismo absoluto significa que a verdade fundamental só vai se revelando na história da filosofia de modo lento e gradual O filósofo afirmou que a meditação filosófica alcançara finalmente com o idealismo absoluto a maturidade e a verdade Ele concluiu que sua filosofia era fruto do evolver do Espírito nos últimos dois mil e quinhentos anos de tradição num processo que ganha densidade no tempo como um rio amplia seu volume e importância à medida que recebe afluentes e se aproxima da foz A respeito da construção histórica da Filosofia Hegel a apresentou do seguinte modo não é uma estátua de pedra mas é viva e continuamente vai se enriquecendo com novas contribuições à maneira de um rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente idem p 88 O resultado desta compreensão a saber o surgimento tardio da Filosofia e a consciência histórica da verdade apontam para certezas ou verdades parciais que não ficam completas nos sistemas construídos pelo menos até o coroamento do processo no idealismo absoluto quando segundo Hegel a verdade se mostra inteira Ortega y Gasset rejeita a possibilidade de se apreender a verdade que Hegel atribuiu ao idealismo absoluto quando o considerou o ponto de chegada na história da filosofia No entanto ele acompanha Hegel quando ele diz que a missão da Filosofia é buscar a verdade na história A consciência histórica na forma como a vê Ortega y Gasset ensina a relativizar todas as descrições da verdade O resultado de sua aplicação à tradição filosófica revela que o que foi admitido como certeza universal num certo tempo mostrase insuficiente noutro Enfrentar as mudanças da história com uma proposta definitiva é missão impossível porque é necessário formular sobre a realidade uma teoria evidente e aí o projeto de certeza universal revela seu ponto frágil Aspectos tidos por evidentes num momento não são aceitos em outros tempos A perda da evidência provoca a desconfiança nos princípios anteriormente admitidos restando o desafio de refazer as concepções antes tidas por verdadeiras A Filosofia é o exercício do fracasso na postulação do fundamento movida pela consciência crescente dos limites da procura e dos caminhos a evitar Concluída a revisão do hegelianismo pela análise orteguiana entendemse as sucessivas teorias da realidade menos como contribuições complementares que sucessivas retomadas da razão universal Por outro lado esclarece Ortega y Gasset as teorias metafísicas só revelam sua riqueza quando devidamente contextualizadas pois além do que elas representam como formulação teórica trazem como pressuposto as crenças do tempo em que foram pensadas As ideias distanciadas dessas crenças nos informam pouco da procura do fundamento Além dos elementos que permeavam a cultura filosófica no início do século XX Ortega y Gasset afirmou que o grande problema a ser enfrentado pela Filosofia do seu tempo era elaborar uma nova forma de opor a subjetividade moderna à perspectiva objetivista dos gregos Fazêlo significava recriar o tratamento da subjetividade indo além de até onde já fora o criticismo de Emmanuel Kant Adicionalmente o princípio metafísico proposto devia amparar as ontologias regionais associadas por Edmund Husserl às ciências singulares como a História ou as experiências gerais como existem na Física O princípio precisava adicionalmente enfrentar a preocupante crise de civilização sentida de vários modos pelos filósofos de então com forte impacto na vida social econômica política e pessoal das nações ocidentais A crise provocava profundas alterações no modo de pensar viver e desmontava crenças antigas tidas por verdades imutáveis Ela igualmente desmontava a noção de natureza estável herdada da metafísica aristotélica que continha determinações de todo ser e estava presente nas formas e maneiras particulares dos entes Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade E como estava a sociedade naqueles dias Como já comentamos no início do capítulo viviase uma crise de civilização que atingia os costumes sociais e a organização política dos povos Assim o novo princípio metafísico precisava além de resolver os problemas propriamente filosóficos solucionar as dificuldades éticas e políticas da sociedade ocidental Eram esses os desafios que Ortega y Gasset considerava devessem ser enfrentados pela Filosofia do seu tempo A tanto levou seus estudos sobre a história da filosofia que chegara até aqueles dias com muitas dificuldades O que foi dito revela que não eram poucos nem simples os problemas à espera de solução Essas questões começaram a ser enfrentadas por Ortega y Gasset desde seus primeiros trabalhos Neles a vida é apresentada como realidade fundamental Em Meditaciones del Quijote 1914 e nos oito livros de El Espectador 19161934 o filósofo apresenta o princípio metafísico que deveria orientar a meditação filosófica de seu tempo mas é em Qué es Filosofia 1929 Unas Lecionais de Metafísica 1933 e em La Rebelión de las Masas 1930 e no ensaio Pidiendo un Goethe desde dentro 1932 que ele sistematiza suas meditações e dá densidade à relação entre o eu e o mundo que está na base das suas considerações sobre a vida São nos três livros que ele apresenta sua concepção metafísica de forma rigorosa inserida na tradição filosófica do ocidente e com a pretensão de conceber uma nova teoria filosófica Com ela enfrentou os desafios de seu tempo tanto os problemas trazidos pela compreensão parcial e histórica da verdade quanto a crise de civilização que fora objeto de estudo dos vários filósofos no século XX Os estudos depois da década de trinta procuram situar a vida na história e por isso se diz que nos anos trinta iniciase propriamente uma segunda fase de sua meditação Para a história da filosofia contemporânea o que interessa é entender o lugar do raciovitalismo na tradição filosófica Ele está próximo da fenomenologia existencial a vida é o modo de ser fundamental pois é a base sobre a qual as verdades do homem se estabelecem como era existência para os existencialistas Ao propor tal princípio o filósofo rejeita os caminhos da Metafísica tradicional ocupada com a estruturação do real pelo pensamento puro e na tradição filosófica se insere na perspectiva transcendental que vem de Kant e foi revista por Husserl Ortega prefere contudo falar de vida e não de existência vida experimentada na primeira pessoa ou melhor num tipo de que fazer situado na relação insuperável entre o eu e a circunstância E nisso já começa a diferenciação com os existencialistas apesar da forma fenomenológica comum que os aproxima Vamos apresentar como o filósofo desenvolveu suas ideias sobre a vida Nos seus estudos Ortega y Gasset explica a relação entre o eu e a circunstância Depois de acompanhá lo nessa tarefa apresentaremos a inserção de suas análises na história da metafísica forma característica da segunda e decisiva etapa de sua investigação É muito interessante como ele passa nos últimos trabalhos a ocuparse como os existencialistas da chamada vida autêntica entendendo que a vida humana pode perder o que a tipifica quando não tem em conta aspectos dos quais não pode se afastar Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 332 A vida tematizada nos primeiros estudos Até 1930 a vida foi tematizada por Ortega y Gasset como fidelidade a um núcleo íntimo e insubornável Essa fidelidade orientava a relação do sujeito com a circunstância É a partir da ideia de vida que ele se volta para a realidade No ensaio Julian Marías y la metafísica orteguiana Helio Carpinteiro observa que a filosofia orteguiana está marcada pelo desafio de compreender a realidade O comentarista destaca o entendimento de Marías de que o pensamento orteguiano é um ponto de inflexão na história da metafísica p 211 Inflexão é uma mudança ou melhor um desvio mas que afastamento seria este e de que curso ele se desvia A inflexão esclarece Carpinteiro fica consolidada nas obras Que és Filosofia e Unas Lecionais de Metafísica pois nelas a vida aparece como a realidade fundamental que os filósofos buscam desde a antiga Grécia Esses textos não são os únicos em que a temática é discutida mas neles é problema destacado Igualmente sabemos que a utilização da vida como eixo articulador das teses filosóficas orteguianas tratadas como inflexão por Carpinteiro aparece em trabalhos anteriores aos livros mencionados Praticamente toda obra orteguiana desde as Meditaciones del Quijote 1914 procura caracterizar a vida como o problema a ser estudado em nosso tempo O fato pode ser comprovado no capítulo VII de El tema de nuestro tiempo 1923 Ali o filósofo diz que a cultura humana comprometida com a busca da verdade estava diante de um novo desafio 1994 Consagrar a vida que até então era só um fato nulo e como que um erro do cosmo um princípio e um direito p 179 O filósofo acrescenta na sequência do capítulo que a vida esteve a serviço da religião da ciência da moral da economia da arte enfim dos mais diferentes aspectos da cultura mas não foi considerada em si mesma e como fundamento do resto Tratar a vida como o fundamento procurado pela Filosofia foi próprio de um tempo que nela reconheceu o grande problema a ser investigado Assim ocorreu porque como observa Roger Garaudy 1966 experimentase o sucesso de uma concepção de ciência a do positivismo que a priva de sua significação humana p 18 Então o conceito de metafísica como problema do conhecimento pensado pelos modernos como meio para alcançar uma verdade irrecusável reaparece na procura do sentido necessário e anterior à prática da ciência A questão pede o exame da subjetividade e do modo como ela se relaciona com o entorno O que é a vida de um sujeito consciente Como caracterizála O que Garaudy entende é que o problema de Ortega y Gasset era o de toda sua geração Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade social e pelas épocas Tratase de circunstância biológica que é diferente nas pessoas e que afeta o movimento das sociedades ensina Ortega y Gasset no ensaio El Quijote en la Escuela em que escreve 1998 antes que fale a ética tem direito de falar a pura biologia Sem sair dela desde o ponto de vista estritamente vital nos aparece um valor biológico positivo como vitalmente bom e outro como valor biológico negativo como vitalmente mal p 291 Eis a segunda característica da abordagem orteguiana à vida a realização do projeto vital é escolha que envolve mais coisa que decisão racional Ela possui um componente ético mas o ímpeto com que a escolha é realizada depende do impulso vital que é biológico É a vitalidade o que faz um povo ou um indivíduo ser mais vibrante eou emotivo mais rápido ou lento na condução do tempo vital A vida possui um tônus e isso influi no modo como é levada adiante pelos indivíduos e povos E o aspecto temporal também afeta o ritmo vital Sim explica Ortega y Gasset a realização do projeto vital não acontece do mesmo modo em todos os períodos da história É importante identificar os apelos de cada época para apreender o modo como a vida nela é efetivada O entendimento de que o projeto vital é singularíssimo porque diz respeito a cada indivíduo pede mais que a observação do tônus vital e dos aspectos da personalidade A compreensão exige que se considere também o tempo histórico porque ele impacta a vida singular conforme seja um momento de maior tranquilidade ou de crise segundo seja um período mais voltado para os prazeres do que para evitar as dores ou mais ocupado em evitar dores que obter prazer Não só a existência singular é temporal o horizonte social também é e ele afeta a vida pessoal No ensaio Elogio del Murciélago disse Ortega y Gasset 1998 Algumas vezes me ocorreu pensar que há duas classes de épocas históricas em umas os homens se preocupam mais em buscar os prazeres que evitar as dores em outras acontece o inverso p 321 Segundo a orientação da época a vida ganha balizamentos distintos segundo vise mais o ter prazer ou fugir das dores Então a realização do projeto vital obriga o homem Entender que é o homem o problema central a ser investigado pela Filosofia é algo que vem desde Kant e foi o problema enfrentado pela fenomenologia O assunto já aparece na primeira das grandes obras de Ortega y Gasset Meditaciones del Quijote 1914 Naquele livro o pensador espanhol diz que viver é resultado da relação entre o eu e a circunstância A inserção do eu no mundo faz da vida singular de cada pessoa um compromisso que se deve assumir com determinação Daí a caracterização da vida como o grande problema a ser investigado Dito de outro modo viver é realizar um programa um destino desenvolver um projeto vital num mundo que se encontra aí isto é num mundo em que me encontro Esse eixo nuclear da ontologia orteguiana já aparece na introdução das Meditaciones del Quijote lembra Gilberto Kujawski e se expressa na frase que passou a caracterizar o raciovitalismo a partir de então 1994 Eu sou eu e minha circunstância se não salvo a ela também não salvo a mim p 39 Assim a característica principal do pensamento orteguiano é entender a vida como a obrigação de vencer a circunstância no quanto ela impede a fidelidade a esse núcleo íntimo A ação humana guarda fidelidade ao núcleo interior do sujeito que o filósofo formula como obrigação Quando escolhe o sujeito está inevitavelmente vinculado à circunstância ou como dissemos 2010 ao escolher vamos tecendo nossa vida alterando a circunstância p 113 Circunstância já foi dito no capítulo anterior é tudo o que rodeia o eu a realidade cósmica a corporalidade a vida psíquica a cultura em que se vive nela incluídas as experiências acumuladas no tempo CARVALHO 2009 p 332 A tarefa vital é diz Ortega y Gasset em Ideas sobre Pio Baroja 1998 querer ser antes de tudo a verdade do que somos p 75 Em síntese a primeira característica da vida pode ser resumida numa frase vida é tarefa compromisso inadiável e irrecusável que temos conosco de vencer a circunstância no que ela interdita meu projeto vital A realização do projeto vital depende da vitalidade de cada pessoa E a vitalidade varia entre elas e pode ser estimulada pela vida Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Essas considerações tratam do se Entre os apaixonados por futebol é comum encontrar quem se pergunte qual o destino do jogo se aquela bola desperdiçada tivesse se convertido em gol como seria o desfecho da partida se o juiz tivesse marcado aquela penalidade etc Muitas são as partidas possíveis mas só uma é a partida mesmo Assim é a vida Considerar os possíveis nos revela a quarta característica da vida ela é uma e em torno dela circundam outras possíveis que teriam sido vividas se ao invés de um curso tivesse o sujeito feito outras escolhas O que isso significa Se ao invés de casar com Maria tivesse o sujeito optado por Antônia se ao invés de ser bancário tivesse sido aviador a vida seria outra como outro teria sido o destino do jogo no exemplo anterior A vida do homem é um fenômeno particularíssimo que brota de escolhas e caracterizações de possibilidades que acompanham as escolhas feitas embora outras pudessem ter sido as preferidas A vida é um rumo formado pelas escolhas feitas entre as possíveis Vida é ação é processo contínuo de escolhas Elas são resultado do mesmo entusiasmo Já vimos que não Construímos um destino com a força vital será que ela afeta o ritmo dos acontecimentos O filósofo entende que sim Ele propõe como ideal uma tocada firme contínua mas sem atropelo Diz isso num dos discursos parlamentares no advento da República em 4 de setembro de 1931 quando comenta o destino da Espanha 1994 Façamos como toda grande reforma que vamos intentar com o tempo justo sem acelerarmos porém sem retardarmos seguindo pois a norma que Goethe recomendava para toda vida avançar sem pressa e sem pausa como a estrela p 384 Essas palavras nos colocam diante da quinta característica da vida ela tem um ritmo singular nas pessoas e nos diferentes povos a voltarse sobre si porque como dissemos 1996 a pergunta sobre si é o que há de mais fundamental para Ortega y Gasset p 84 Eis aí a terceira característica da meditação orteguiana a vida só se esclarece quando se considera o momento histórico em que é vivida já que é o homem mergulhado na história que procura intensamente compreenderse idem p 84 A vida singular é temporal e é vivida numa sociedade que também é histórica e cujas características afetam o drama vital A vida para Ortega y Gasset é um que fazer na circunstância Portanto viver é fazer escolhas entre os possíveis e elas formam a história de vida de cada pessoa A história de cada um é o percurso que ele percorreu revela seus valores prevalentes e suas verdades existenciais Mostra ainda as coisas que lhe aconteceram O que teria sido se ao invés de estudar na escola tal o indivíduo tivesse estudado em outro lugar Se ao invés de formarse enfermeiro tivesse estudado arqueologia É possível fazer muitas conjecturas como essas e imaginar diferentes percursos existenciais para cada indivíduo Contudo a vida mesma é a que resultou das escolhas feitas São elas que podem tornar uma vida mais ou menos interessante mais ou menos densa mais ou menos charmosa e mais ou menos profunda Eis o que diz o filósofo em Intimidades considerando as alternativas que compõem as vidas não vividas que se tinha à disposição desde a tenra infância 1998 Minhas memórias contaram junto à minha vida efetiva o que pude viver vidas perdidas antes de nascer pobres existências que para sempre caíram sem vida sem ser cumpridas espectros errantes que são nosso múltiplo ser fracassado Não se trata de abstratas possibilidades senão que cada ser humano leva em torno ao núcleo de sua existência efetiva um elenco concreto individualíssimo de outras possíveis vidas suas e só suas p 637 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade No parágrafo anterior mostramos que para Ortega y Gasset a vida tem um ritmo ótimo mas que ele varia nas pessoas e povos A realização da tarefa vital coloca em evidência o limite temporal pois a vida é processo com duração limitada e é enquanto se vive que o projeto deve ser realizado A vida tem um tempo de duração ou para ser feliz com seu destino O que a maioria das pessoas lamenta é que o tempo para realizar o projeto vital é sempre insuficiente e isso aumenta a responsabilidade nas escolhas Não há tempo a perder pois morrer ou deixar de ser significa tornarse indiferente a tudo Então intimamente o tempo vital é sentido como urgência explica o filósofo no anexo de A Idea del Teatro 1997 Chegase então à sexta característica embora a vida tenha ritmo ideal que é diverso para as pessoas e povos enquanto percepção íntima ela é vivida como pressa a vida é urgência de realizar o projeto vital O projeto vital já foi dito não é um plano intelectual mas a realização de uma missão ou destino sem o qual viver não parece valer a pena No livro Que és Filosofia Ortega y Gasset reafirma que a vida é a realidade radical a ser desvendada e ela que se desenrola na relação entre o eu e a circunstância E não é relação que se estabelece de qualquer modo mas com característica específica como disse em Una interpretacion de la historia universal 1997 o homem traz prefixado e imposto a liberdade para escolher o que vai ser dentro de um amplo horizonte de possibilidades p 14 A liberdade está presente na relação entre o eu e a circunstância Tema central de todos os seus estudos desde Meditaciones del Quijote a novidade expressa no livro observa agudamente Margarida Amoedo 2002 e a necessidade filosófica de expor a sua tese fundamental dandolhe agora uma formulação tão rigorosa que ela pudesse manifestarse a todos como uma inovação radical da filosofia p 257 Acompanhem este propósito orteguiano não se trata de falar da vida como objeto de uma ciência mas de forma radical A inovação no que se refere à metafísica é tratar a vida como realidade fundamental isso significa tratála como o elemento estruturador do real buscado por todos os filósofos desde o surgimento histórico da Filosofia na Antiga Grécia Sobre a vida a meditação filosófica deve centrar a atenção e descrever as características principais E o que se pode dizer da vida do homem Para o filósofo 1997 Viver é o que ninguém pode fazer por mim a vida é intransferível não é um conceito abstrato é meu ser individualíssimo p 405 E o que é esse ser Como ele se tornou um problema filosófico O filósofo responde a tais perguntas no livro En torno a Galileo publicado em 1933 mesmo ano em que foi editado Unas lecciones de metafísica Na obra o filósofo esclarece o caráter pessoalíssimo de viver como homem Ninguém pode viver pelo outro em outras palavras ninguém poderá sofrer minha dor de dentes apaixonarse como eu estar em meu íntimo significar as coisas como eu faço É neste sentido que a vida é inalienável e singularíssima esclarece o filósofo 1994 333 A vida tematizada como problema filosófico Vida humana é pois de pronto certa duração normal da pessoa certo tempo que lhe é concedido e que é sempre escasso Para nossa vida falta sempre tempo por isso é essencialmente pressa p 500 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade os demais conhecimentos Voltando ainda uma terceira vez ao problema o filósofo deparase com erros das antigas filosofias Ele considera que o desafio de seu tempo era superar a verdade concebida no idealismo e a redução que ela realiza no conhecimento da realidade É preciso fazer com o idealismo o que ele fez quando apontou os erros do realismo grego e se apresentou como alternativa O idealismo é uma teimosa e tenaz marcha contra o curso da vida avalia Ortega y Gasset A filosofia idealista desvitalizou a vida sendo importante superar os erros que isso significou Assim a superação do realismo grego e do idealismo pede outra filosofia que reconheça a contribuição do idealismo mas aponte um caminho para seguir em frente Em resumo o idealismo sumiu com o mundo que está em volta do eu É então como forma de superar o realismo e o idealismo que o autor diz aponta uma razão que incorpora a vida como estratégia necessária Para fazêlo diz que é preciso pensar a subjetividade idealista na circunstância já que a subjetividade não se afasta do entorno Ortega y Gasset propõe a vida circunstanciada como o problema a ser meditado pelos filósofos contemporâneos Viver é condição fundamental e consiste em coexistir com o entorno O ser estático das filosofias antigas será substituído por um ser atuante aberto a mudanças O filósofo antigo busca o ser das coisas e inventa conceitos que interpretam seu modo de ser idem p 393 o pensador contemporâneo está desafiado a entender a vida Viver é o que fazemos e o que se passa conosco Eis a característica básica que pode ser sintetizada do seguinte modo Viver é uma revelação é encontrarme no mundo idem p 424 O assunto adquire significado filosófico quando Ortega y Gasset o trata como o ser fundamental buscado por diversas gerações de metafísicos Antes de aprofundar a caracterização da vida como problema filosófico vejamos o que é propriamente a abordagem filosófica de um problema para nosso filósofo No livro La idea de principio en Leibniz y la evolucion de la teoria dedutiva ele explica o que pensa O homem cada homem tem que decidir a cada instante o que vai fazer o que vai ser no momento seguinte Essa decisão é intransferível ninguém pode substituirme na faina de me decidir de decidir minha vida p 23 Voltemos ao livro Que és Filosofia em que também encontramos resposta para as questões acima formuladas Como levar adiante a reflexão filosófica sobre a vida Para o filósofo a melhor forma de procurar uma verdade filosófica é fazendo círculos concêntricos em torno do problema Com esse método é possível voltar várias vezes aos mesmos assuntos e a cada novo retorno aprofundar a investigação anteriormente iniciada O que uma primeira aproximação da metafísica mostra A impossibilidade de a disciplina chegar às verdades universais e definitivas que almeja alcançar O resultado do filosofar é a verdade mas incompleta e que pode ser melhorada pelo esforço das gerações Ao analisar os tempos que vivia considerao um momento ruim para o exercício da Filosofia Para agravar o fato observa que a Física alcançou grandes êxitos e como resultado a ciência foi tida como o único saber válido Ortega y Gasset observa que a Filosofia não é ciência no sentido moderno ela é mais é um saber que trata a realidade de forma radical Uma segunda órbita em torno ao problema mostra o pensar filosófico como imprescindível procura por conhecer tudo que há idem p 335 Cada ciência tem seu objeto específico o da Filosofia é o que engloba todos eles e não se oferece claramente A filosofia é saber radical sem pressupostos Embora ela não trate do que é imediato ou útil a Filosofia é necessária porque fundamenta Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade do conhecimento filosófico e diz que Leibniz é por excelência um filósofo E por que o é Porque ele é alguém que procura princípios Para Ortega y Gasset Leibniz realiza com maestria o que todo filósofo espera realizar princípios que forneçam certezas para se viver no mundo O conhecimento filosófico é atividade de estruturação de princípios fundamentais Ortega y Gasset explica 1994 Em filosofia isto se leva a extremos se exige dos princípios que sejam últimos isto é em sentido radical princípios p 63 Leibniz avalia Ortega y Gasset é o filósofo mais completo da modernidade Pela extensão de seus interesses e estudos deixou contribuição comparável ao legado de Aristóteles para a antiguidade Ortega y Gasset entende que os princípios construídos num certo tempo traduzem uma concepção de mundo e que ela é a base das crenças que representam a forma de pensar de um determinado tempo O que é mesmo Filosofia É construção de princípios fundamentais conforme comenta Julián Marías acompanhando o mestre em sua História da Filosofia 2004 A filosofia é portanto a verdade radical que não suponha outras instâncias ou verdades tem além disso de ser a instância superior para todas as verdades particulares p 507 Portanto entendido o que é a Filosofia passemos agora à caracterização da vida como problema filosófico Na caracterização filosófica de vida comecemos tratando da assertiva negativa proposta em Que és Filosofia No livro Ortega y Gasset diz que a vida é um ser que não possui determinação fixa A tradição metafísica tanto na perspectiva realista dos gregos quanto na idealista dos modernos quando se refere à realidade fundamental procura estabilidade Em outras palavras a metafísica procura achar um travejamento para a realidade Para os gregos realidade fundamental ou o que as coisas são verdadeiramente sempre existiu e forma unidade E o que são mesmo as coisas São entes que estão aí no mundo independente do que o homem deles pense A perspectiva moderna ou idealista entende que o fundamental é o que se impõe à consciência mas o que chega à consciência depende dela reconhecerlhe existência Nesse sentido observa se um impasse o fundamento depende da consciência para assegurálo Sem consciência o mundo perde realidade ou a realidade passa a depender do sujeito ou como sintetiza Mindán 2009 a consciência não agrega realidade a um novo objeto que está aí senão que modifica essencialmente a tese p 202 O idealismo começou dizendo que para haver coisas no mundo é preciso um eu que as pense No entanto foi além dessa observação interessante e fez depender o ser das coisas do eu Isso foi um exagero Ortega y Gasset conclui que se não houvesse mundo não haveria consciência pois sem mundo não há eu É assim que postula ser a vida a realidade que a Filosofia busca durante toda história Essa forma orteguiana de pensar foi resumida por Mindán como se segue A realidade radical está na dualidade constitutiva do mundo e o homem e podemos comprovar que isto é precisamente a vida humana idem p 204 Ortega y Gasset diz que a vida com toda sua instabilidade é a realidade fundamental procurada 334 Aprofundando a meditação sobre a vida considerá la problema filosófico Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade pelos filósofos ao longo da história da Metafísica Atribuilhe uma dignidade que ainda não lhe fora reconhecida por nenhum pensador porquanto está nela a razão maior do filosofar Estamos diante diz o filósofo no livro Que és Filosofia de uma nova ideia de ser de uma nova ontologia de uma nova filosofia e na medida em que esta influi na vida de toda uma nova vida vida nova idem p 408 Eis aí o sentido filosófico de viver ver o mundo pensálo tocálo apalpálo sentilo saboreálo amálo ou não Vida é soma de tudo que se chama viver É fenômeno que contempla a relação do sujeito com o mundo de um modo que não fora percebido antes nem pelo realismo nem pelo idealismo Eis o que parece ser a caracterização metafísica básica da vida ser é viver e contempla relação especial com o mundo A descrição da vida como vitalidade como foi feito por Ortega y Gasset em El Quijote en la Escuela ganhou aprofundamento na lição X de Que és Filosofia O adensamento filosófico e a identificação entre vida e ser fundamental aperfeiçoará a forma de avaliar o significado do corpo e do seu funcionamento Vida não é resultado de um processo biológico assunto que possa ser investigado pela ciência biológica Ele explica o que quer dizer 1997 Meu corpo mesmo não é mais que um detalhe do mundo que se encontra em mim detalhe que por muitos motivos é de excepcional importância porém que não deixa de ser apenas um ingrediente entre inumeráveis que há no mundo ante mim p 413 Os movimentos psíquicos os sentimentos e emoções por mais intensos e consoladores que sejam também não traduzem a realidade fundamental e como o corpo integram a circunstância Corpo e vida são objetos que podem ser estudados pela ciência como também afirma Karl Jaspers na sua Iniciação Filosófica 1987 O homem enquanto existência no mundo é objeto suscetível de conhecimento p 61 E como fizera seu contemporâneo Karl Jaspers Ortega y Gasset distinguirá vida dos processos estudados pela ciência No entanto ele não a identificará com liberdade como fez o filósofo alemão ao propor no espírito do kantismo que ser homem é fazerse homem idem p 67 Ortega y Gasset tratará a vida como um nível profundo de consciência expresso em Que és Filosofia do seguinte modo 1997 viver é o que fazemos e o que nos passa p 414 A definição explicita a consciência de viver do seguinte modo viver é essa realidade estranha única que tem o princípio de existir para si mesmo Todo viver é viverse sentirse viver saber se existindo donde saber não implica conhecimento intelectual nem sabedoria especial nenhuma idem p 414 Chegase com essa definição a esta outra característica filosófica da vida viver é consciência especial do que fazer de como se ocupar da circunstância ou nas palavras de Julián Marías seu intérprete mais conhecido e de forma mais sintética 2004 vida é algo que temos que fazer p 506 E o que temos que fazer tem na circunstância limite para escolhas Ao se aproximar das conclusões já construídas pela escola fenomenológica Ortega y Gasset considera a vida como um que fazer que necessita do eu e do mundo como instâncias inseparáveis Não se pode mais falar de um sem considerar o outro O homem relacionase com o que o circunscreve e o afeta quer sejam coisas materiais quer não Essas coisas tanto constituem oportunidade de realização de projetos como são limites que impedem sua realização O filósofo apresenta em Que és Filosofia um conceito de mundo definido como conjunto de coisas e acrescenta 1997 O importante não é que as coisas sejam ou não corpos senão que elas nos afetam nos interessam nos acariciam nos ameaçam e nos atormentam Originariamente isto que chamamos corpo não é senão algo que nos resiste e nos estorva ou nos sustenta e leva Mundo em sensu stricto é o que nos afeta p 416 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Ortega y Gasset rejeita a aproximação desse entendimento com a fenomenologia existencial e diz que o seu entendimento do mundo se afasta do de Martin Heidegger mas a aproximação com a forma fenomenológica de pensar é neste caso evidente em relação ao que Karl Jaspers denomina realidade a saber 1987 o que nos é presente na prática e que no convívio com as coisas com os seres viventes e com os homens nos oferece resistência ou se materializa p 69 Assim temos uma compreensão de mundo ou realidade como conjunto de coisas que nos afeta e do qual nós não conseguimos nos afastar Tal compreensão revela o caráter dramático da vida pois não há como se separar de um mundo que não se escolheu para viver Podemos fazer ou não coisas mas não podemos abandonar o mundo que nos é dado É o que diz Ortega y Gasset na obra examinada 1997 Isto dá à nossa vida um gosto terrivelmente dramático Viver não é entrar em um lugar previamente escolhido por gosto como se escolhe um teatro depois de jantar senão que é encontrarse de pronto e sem saber como caído submerso projetado em um mundo p 417 O conceito de drama existencial concebido por Ortega y Gasset e expresso na citação acima corresponde à noção de derrelição de Martin Heidegger para quem o homem tem que viver num mundo que não escolheu Dito por Heidegger ele se acha jogado nesse mundo nele entra sem razão prévia e de forma contingente É como alguém que acordasse à beira de um campo de futebol mas nunca tivesse visto nada daquilo nem as regras nem o equipamento usado pelos jogadores nem o existente nas arquibancadas nem o papel que as pessoas representam no estádio No entanto uma vez convocado é obrigado a entrar em campo para jogar e jogar para vencer Eis aí a terceira característica descoberta pela Filosofia sobre a vida vida é drama é estar num mundo que não se escolheu viver e do qual não há como escapar É ele que se tem para realizar o projeto vital A definição de vida como um que fazer na circunstância considera viver uma atividade contínua A vida é tarefa contínua Fazêla está nas mãos de cada sujeito explica o filósofo fomos jogados em nossa vida e isto em que fomos lançados temos de fazer por nossa conta por assim dizer fabricálo Ou dito de outro modo nossa vida é nosso ser idem p 418 Pois bem se viver é o que fazemos neste espaço em que fomos arremetidos temos os olhos voltados para o futuro estamos orientados para lá muito mais que condicionados pelo passado A abertura ao futuro como marca desse ser entendido como transcendência no tempo é compreensão que Ortega y Gasset compartilha com os filósofos existencialistas Seu entendimento se expressa na ideia de projeto o homem abrese ao futuro orientase em direção ao que ainda não é pois o homem nunca está pronto De que projeto falamos De um projeto vital a vida de cada pessoa adquire sentido na circunstância Explica o pensador viver é constantemente decidir o que vamos ser Não percebem o fabuloso paradoxo que isto encerra Um ser que consiste no que é e no que vai ser portanto no que ainda não é idem p 419 Chegamos a esta outra característica da vida que pode ser enunciada como se segue ela tomada como projeto é fundamentalmente o que ainda não é vida é futurição o que equivale a viver avançando para o futuro idem p 435 E aqui novo ponto de aproximação Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade com Martin Heidegger como já mostramos em outro texto 2002 viver é préocuparse é ocupar com o que haveremos de fazer sorge p 73 No ensaio Pidiendo un Goethe desde dentro Ortega y Gasset completa a caracterização da temporalidade humana Se vida é essencialmente futurição como se mostra no parágrafo anterior o passado de cada um e da sociedade não é no entanto desprezível Não se pode virar as costas para o passado e desconhecêlo É a ênfase no passado como saber acumulado que fornece os elementos para enfrentar as novas crises pelas quais passa a sociedade humana em diferentes períodos da história E o século passado viu surgir uma crise social profunda que Ortega y Gasset examinou na sua obra mais conhecida La rebelión de las masas 1930 Como entender essa crise A crise do século passado tem origem para Ortega y Gasset na sociedade de massas As massas desejaram assumir no século XX um papel que não tiveram em outras épocas elas quiseram se tornar as principais protagonistas da história O tempo das massas é o tempo da hiperdemocracia e da desvinculação entre esforço e vida nobre O assunto foi examinado em O século XX em El Espectador de Ortega y Gasset a crise como desvio moral Ali afirmamos que 2010 muito especializado e ignoravam quase todos os outros assuntos Estas minorias não formavam uma classe social ou grupo mas se definiam pelas funções que possuem A ignorância destas várias elites representa uma nova forma de barbárie que é complementada pela inocência infantil com que elas julgam a vida e a acham tudo muito fácil Esta interpretação que o filósofo elabora nos ensaios de El Espectador será desenvolvida em La rebelión de las masas livro onde explica que o homem do seu tempo deixou de se empenhar com afinco na edificação de uma vida melhor Este homem aceita a mesmice e se conforma com o modo de vida mais comum Este doutor ignorante e infantil é o homem massa O homem massa é o medíocre que não se arrisca em grandes obras e não se entrega a uma causa O homem massa não se empenha na condução da vida pessoal entendida como projeto vital e rigorosamente singular Uma vida humana plena implica no desenvolvimento de uma vocação singular Ela possui um caráter próprio é povoada por tensões e dramas oriundos do que fazer vital p 15 Portanto com a ideia de massa Ortega y Gasset anunciava a emergência de uma hiperdemocracia constituída paradoxalmente por um sujeito individualista e infantil o homem massa preocupado em assegurar o gozo imediato no mais das vezes irresponsável Ele antecipou muito bem o quadro descrito por Lipovetsky e Serroy em A cultura mundo 2011 embora não partilhasse das referências filosóficas da Escola de Frankfurt que marcam as análises dos dois autores do livro mencionado Vivemos num tempo afirmam os dois franceses de transformações que permitem falar de um novo regime de cultura o da hipermodernidade em que os sistemas e valores tradicionais que perduraram no período anterior não são mais estruturantes em que já não são verdadeiramente operantes senão os próprios princípios da modernidade Além da revitalização das identidades coletivas herdadas do passado é a hipermodernização do mundo que avança remodelado que ele está pelas lógicas do individualismo e do consumismo p 13 A característica fundamental da crise do século XX era uma atitude comum que para Ortega y Gasset marcava a relação entre a massa e a minoria da sociedade É bom lembrar que para o filósofo esta é uma divisão comum a todas as sociedades O que ele observa é que no século XX as minorias mais bem educadas nos diversos campos culturais não assumiam a tarefa de dirigir a sociedade não respondiam aos novos desafios que a vida apresentava mas cultivavam um saber Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Esse é o tempo em que as massas desejam ser sujeito da história e em que se perdem as referências do passado Quando no espaço social os desafios não encontram referências em que se apegar e resolver os problemas a vida mostra a sua face de risco de perigo e naufrágio O assunto será também mencionado em Ensimesmamiento y Alteración 1939 em que a noção de perigo se explicita no espaço social No ensaio sobre Goethe o assunto ganha tratamento metafísico e se expressa segundo síntese de Gilberto Kujawski do seguinte modo 1986 o perigo é coextensivo à vida mesma De forma radical o perigo como substância da vida esta consiste substancialmente em perigo p 3 Chegase assim à outra característica da vida pelo risco que lhe é inerente Vida é risco Para enfrentar o risco é preciso se agarrar na cultura nas experiências que ela acumulou É nela que o homem vai encontrar os elementos importantes para se defrontar com a verdade da sua vida e construir o seu projeto vital Há na compreensão orteguiana muita semelhança com o que diz Karl Jaspers sobre o sentido do passado na existência 1987 a experiência do presente compreendese melhor refletida no espelho da história p 89 No entanto a própria vida se incumbe de estabelecer o sentido do risco para superar explica em Ensimesmamiento y Alteración 1994 o grande inconveniente de que o homem acredite estar seguro e perca a emoção do naufrágio é que a cultura se torne obra parasitária p 397 A vida portanto é risco perigo mas há na cultura os elementos com os quais o homem pode reconstruir suas crenças E então quando não há verdades prontas a que se apegar o momento em que os braços voltam a se agitar salvadoramente idem p 397 A salvação da vida ocidental está na consciência dos riscos do naufrágio que chega com o tempo das massas e da hiperdemocracia Este é o risco que a vida corre em nosso tempo avaliava Ortega y Gasset como já foi dito em Introdução à Filosofia da Razão Vital 2002 O homem massa é insensível ao legado das antigas gerações incapaz de novos esforços cego para o fato de que a vida autêntica é aquela que se sabe desafio p 76 Uma rápida descrição do que está ocorrendo em nossos dias próximo aos sessenta anos de sua morte mostra a nova face da sociedade de massas individualismo exacerbado hiperdemocracia desconfiança dos valores hedonismo consumista e irresponsável aspectos suficientes para perceber que os riscos identificados por Ortega y Gasset permanecem no que ele denominou de nova barbárie a massa Vivemos numa sociedade de massa ainda mais consumista que a observada por nosso filósofo no século que findou O problema não é o ser sociedade de consumo mas ser tempo de massas O livro Unas lecciones de metafísica foi elaborado segundo testemunho de Julián Marías a partir de um curso ministrado em 19323 na Universidade de Madrid cujo título era Princípios de metafísica segundo a razão vital O curso revela uma doutrina original e com princípios claros que permite adaptála às diferentes situações inovála e modificála Nas Obras Completas os manuscritos do curso foram completados com anexos deixados por Ortega y Gasset Um se refere especificamente à lição VI e o outro tem caráter geral Os anexos tinham merecido uma edição separada na Revista do Ocidente em 1965 mas aparecem Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade publicados junto ao corpo do livro na ocasião da edição das Obras Completas Sobre o curso que deu origem ao livro escreveu Marías 1991 Nestas lições aparece in statu nascendi a metafísica de Ortega a que desde então chamava metafísica segundo a razão vital Tem se presente quanto caminho percorreu a metafísica que zonas da realidade explorou até onde levou a visão desveladora e conceitual da realidade podese ter a impressão adequada de sua vitalidade como atitude p 209 A reflexão metafísica tem por propósito saber o que são as coisas de modo radical É da reflexão metafísica que surge a descrição da vida como processo especial de consciência que se apresenta com mais três características listadas pelo filósofo 1997 1 A vida se inteira de si mesma 2 a vida se faz a si mesma e 3 a vida se decide a si mesma p 47 Ele também trata a vida como consciência do seguinte modo todo viver é viverse sentirse viver saberse existindo donde saber não implica conhecimento intelectual nem sabedoria especial nenhuma senão que é essa surpreendente presença que sua vida tem para cada qual sem esse saberse sem esse darse conta a dor de dentes não me doeria idem p 33 O conhecimento metafísico fornece não a posse da coisa mas seu ser Fazer e pensar são regiões diferentes da vida de cada pessoa O que o pensar metafísico revela Na compreensão orteguiana que o mundo das coisas é um grande vazio de ser A metafísica procura justamente clarear o que há para além do que aparece ensina o filósofo no texto transcrito a seguir na pergunta que é a Terra o interlocutor aspira a chegar a esse vazio a encontrar por trás desse não ser da Terra seu caráter positivo a substituir a impressão de insegurança que experimentamos por um estado de segurança idem p 86 Pois bem a vida é circunstancial viver é encontrarme queira ou não entregue a uma circunstância idem p 47 Dela é preciso me ocupar o que significa que o sujeito executa um plano único A metafísica lhe fornece tal plano Esse plano é particular como já dissemos pois a vida de cada sujeito é singular Daí se constata outra característica fundamental da vida o plano que é arquitetado pelo sujeito é elaborado na mais absoluta solidão explica Ortega y Gasset de verdade fazemos metafísica quando fabricamos nossas convicções radicais o que temos que fazer cada qual por si em radical solidão idem p 101 Podese fazer a seguinte síntese com as características enumeradas pelo filósofo a vida é um saberse vivendo em solidão As duas grandes perspectivas desenvolvidas na tradição filosófica são para Ortega y Gasset como foram para o filósofo alemão Emmanuel Kant a realista e a idealista Tratase de reconhecimento da validade da interpretação kantiana da tradição filosófica Para Kant a metafísica havia desde a Grécia antiga feito a consciência orbitar em torno das coisas e ele estava propondo outra forma de metafísica cujas bases foram construídas na modernidade e faz o objeto 1987 se regular pela natureza da nossa faculdade da intuição p 14 As duas perspectivas representam em síntese o esforço humano para vencer a insegurança da perda de certezas que ocorre com as mudanças na compreensão das coisas A tese idealista avalia Ortega y Gasset é mais completa que a anterior reúne o trabalho de muitos filósofos modernos mas tem como problema que a realidade não representada na consciência parece seguir independente dela Além disso se o idealismo estivesse certo só existiria pensamento o que parece absurdo avalia Ortega y Gasset no texto que se segue Se a realidade radical é o pensamento quer dizer que propriamente falando não há mais que pensamento Adeus coisas mundo amigos Tudo isto não é em verdade mais que um enxame de ideias Sou um cego que sonhava que via idem p 122 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O homem precisa estar ante as coisas para que elas existam mas o real não é só pensamento pois o que existe é mais que pensamento Assim também eu não sou minha vida pois ela é mais que o eu As considerações de Ortega y Gasset revelam a vida como resultado de duas instâncias uma imanente e outra transcendente como se vê no texto a seguir as coisas não são eu nem eu sou as coisas porém ambos somos imanentes a esta coexistência absoluta que é a vida idem p 127 Pode se chegar assim a uma síntese final das análises orteguianas a vida é coexistência absoluta do eu e das coisas implica um que fazer na circunstância A apresentação da vida como assunto fundamental da Filosofia é o tema central da meditação orteguiana Foi o que pudemos apontar nesse comentário Vida é a questão nuclear da filosofia orteguiana Ao tratar do entendimento orteguiano da vida optou se por acompanhar a caracterização construída pelo pensador ao longo de sua trajetória intelectual Nesse sentido as obras Qué és Filosofia e Unas Lecciones de Metafísica representam o ponto culminante embora não exclusivo de sua reflexão porque nos dois livros o problema da vida é inserido na tradição filosófica do ocidente Na verdade boa parte dos textos elaborados a partir dos anos trinta revela a sua compreensão metafísica da vida A tipificação fica mais densa e o filósofo precisa aspectos do problema investigado durante as primeiras décadas de seu labor intelectual Os dois livros mostram a interpretação orteguiana da história da Metafísica Assim ao lado de sua meditação clara e criativa acerca da vida manifestase o conhecimento do professor de Metafísica cujas lições apresentam a procura histórica da verdade como a formação de crenças que dão serenidade ao homem em meio à dramaticidade e mudanças da vida A realidade radical buscada 335 Para finalizar o comentário sobre o raciovitalismo de Ortega y Gasset na história da filosofia se concretiza em teorias que integram a circunstância das diferentes gerações A interpretação orteguiana da história da Metafísica propõe um ideal de aperfeiçoamento da consciência expresso em formulações que se não são completas podem ser menos incompletas com as sucessivas reconstruções A caracterização da vida tornouse em nosso tempo um problema filosófico Assim é pela insuficiência teórica do idealismo e do realismo explica Ortega y Gasset As duas perspectivas produziram ao longo da história muitas verdades sobre a vida algumas antagônicas mas todas parciais É pela Filosofia que se busca responder à pergunta radical pelo fundamento e com ela alcançar a verdade radical e superar a parcialidade das verdades formuladas Como Ortega y Gasset avalia que nenhuma das duas perspectivas metafísica resolveu o problema de forma completa procurou reelaborar o idealismo transcendental Foi o que pretendeu com a caracterização da vida que elaborou no que denominou de metafísica da razão vital mas não deixou de estar assim parece na perspectiva transcendental Seu projeto aproximase do de Edmund Husserl do final da vida Seu esforço mostra que embora insuficientes permanecem as duas perspectivas como pontos de vista últimos da meditação filosófica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 34 O intencionalismo gramatical de Wittgenstein 341 A filosofia da linguagem em Wittgenstein Wittgenstein é considerado por alguns como o maior filósofo do século XX Ele é um dos responsáveis por mudanças de rumo na filosofia analítica de sua época Influenciou pensadores do Círculo de Viena como Carnap e pensadores mais ligados à filosofia da linguagem ordinária como John Wisdom Daí a importância do estudo de seu pensamento para compreender a filosofia do século passado O pensamento filosófico de Wittgenstein possui dois momentos distintos representados pelas suas duas obras mais importantes o Tractatus e as Investigações Filosóficas No Tractatus ele apresenta uma concepção de linguagem que explica metafisicamente a capacidade que a linguagem tem de descrever o mundo Mas a metafísica envolvida só pode ser intuída não podendo ser colocada em palavras Nas Investigações ele critica sua posição metafísica no Tractatus e adota uma nova postura metodológica perguntando não pela essência das coisas mas sim pelo uso das palavras que supostamente designariam essas coisas Nas duas fases Wittgenstein parece ter permanecido fiel a uma forma de misticismo baseado no cristianismo tolstoiano e vivenciado em silêncio 342 A Filosofia do Tractatus 3421 O contexto do Tractatus O primeiro deles formado por James Tolstoi Schopenhauer e Weininger caracteriza a tendência éticometafísica na qual se enfatiza uma certa forma de misticismo As ideias desses autores convergem no sentido de assumir que o sentido da vida é dado por uma experiência mística de natureza contemplativa Essa experiência só é possível a partir de um esforço sobre humano uma verdadeira revolução interior Além disso a descrição linguística dessa experiência é considerada muito difícil ou mesmo impossível O Tractatus só pode ser entendido a partir de uma reconstituição da atmosfera intelectual e da problemática que o motivaram A análise do contexto desta obra envolve a consideração de certos autores que marcaram o pensamento austríaco e britânico no início do século XX e de certos aspectos da vida do jovem Wittgenstein Estes autores podem ser reunidos em três grandes grupos Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O segundo grupo é formado por Frege Russell Hertz e Boltzmann caracterizando a tendência lógicocientífica Esses autores consideram que a descrição científica do mundo é possível desde que seja feita uma análise lógica adequada da linguagem científica Por meio dessa análise são revelados muitos falsos problemas decorrentes de um uso inadequado da linguagem A análise lógica produz a clareza conceitual necessária para o avanço do conhecimento científico O terceiro grupo possui um único representante Mauthner que pretende fazer uma crítica da linguagem no sentido de tornar claros o alcance e os limites da linguagem A tese mais importante da crítica da linguagem mauthneriana é que a realidade está sempre um passo adiante da linguagem Essa última embora lute desesperadamente para expressar a realidade jamais terá sucesso nessa empreitada Desse ponto de vista não é apenas a experiência mística que é indescritível a ciência da natureza se revela também impossível A linguagem é incapaz de expressar qualquer conhecimento Mauthner professa um ceticismo extremo segundo o qual devemos parar de fazer perguntas e de buscar respostas A filosofia do Tractatus surgiu da problemática gerada pelo entrecruzamento das doutrinas provenientes das três tendências acima descritas A partir do contato que teve com os autores considerados o jovem Wittgenstein identificou um conflito perturbador entre eles e tentou resolvêlo Em suas grandes linhas o conflito pode ser descrito como segue Mauthner afirma que a linguagem é incapaz de descrever a realidade e que devemos refugiarnos no místico Por um lado ele deve ter alguma razão já que os autores ligados às preocupações ético metafísicas convergem ao apontar para a enorme dificuldade da linguagem em descrever a vivência mística da contemplação racional Por outro lado ele deve estar errado em algum ponto já que os autores ligados à tendência lógicocientífica convergem ao apontar para a possibilidade de descrição científica do mundo através de modelos logicamente articulados O problema está em estabelecer de maneira criteriosa e do interior da própria linguagem o que pode e o que não pode ser dito Assim o conflito e as doutrinas envolvidas apontam para a necessidade duma nova delimitação que deverá ser feita através de uma nova crítica da linguagem que se revele mais adequada que a mauthneriana A problemática acima descrita se articula com a vida de Wittgenstein à época da redação do Tractatus Por um lado ele acreditava que o sentido da vida era dado pelo cristianismo tolstoiano que buscava o sentido da vida através da contemplação de Deus Faltava porém experimentar a vivência autêntica do sentido da vida a contemplação beatífica para tornarse um homem em sentido completo Esta carência o deixava existencialmente angustiado já que suas convicções morais exigiam implacavelmente que ele atingisse a contemplação beatífica Por outro lado Wittgenstein acreditava contra Mauthner na possibilidade duma descrição científica do mundo através dos modelos de Hertz e Boltzmann Mesmo assim ele estava atormentado pelos problemas lógicos de orientação fregiana e russelliana os quais embora pudessem ser utilizados como ferramentas auxiliares para construir a descrição científica do mundo nada pareciam ter a ver com as suas convicções éticas Seu problema era articular a lógica e a ética Ou ainda mais rigorosamente seu problema era encaixar a lógica no seu projeto ético já que segundo suas convicções mais profundas era preciso ser antes um homem completo para depois ser um lógico A solução do problema ético de estabelecer as condições necessárias para vivenciar a contemplação beatífica foi alcançada através do expediente suicida de alistarse como voluntário no exército austríaco o sentido da vida só se torna claro quando se está próximo da morte Tudo indica que a situação extrema da guerra criou as condições para que Wittgenstein tivesse a desejada experiência mística James Schopenhauer Weininger e Tolstoi A solução do problema lógico foi obtida através da Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade empreitada suicida da crítica da linguagem Mauthner só que numa perspectiva transcendental Schopenhauer Isso implica não apenas recorrer a elementos da teoria dos modelos Hertz Boltzmann para explicar o funcionamento da linguagem mas também em utilizar a lógica matemática Frege Russell numa perspectiva inesperadamente transcendental Aqui também a situação limite da análise das condições de possibilidade da linguagem permitiu que Wittgenstein criasse as condições necessárias para estabelecer os limites intrínsecos da linguagem O resultado final foi a desejada conciliação das pesquisas lógicas com as convicções éticas Unindo filosofia e vida da maneira mais radical possível Wittgenstein conseguiu elaborar a filosofia tracatiana em que um ponto de partida extremamente sofrido cria as condições duma clarificação paradoxalmente harmoniosa Em suas linhas gerais a filosofia do Tractatus é uma crítica da linguagem Esta crítica da linguagem corresponde a uma análise transcendental da proposição e se baseia nos seguintes princípios a a unidade linguística básica para efetuar a análise da linguagem é o conteúdo descritivo expresso pela proposição b para estabelecer as condições transcendentais de possibilidade da linguagem basta estabelecer as condições transcendentais de possibilidade do conteúdo descritivo proposicional O principal resultado da crítica da linguagem é o postulado transcendental segundo o qual o sentido duma proposição qualquer é determinado porque as proposições complexas equivalem a combinações lógicas de proposições atômicas que são por sua vez combinações lógicas de signos simples Estes últimos não existem como fatos linguísticos mas subsistem como condições de possibilidade ou coordenadas transcendentais dos fatos linguísticos Por essa razão jamais teremos acesso direto aos signos simples ou às suas combinações proposições atômicas no mundo dos fatos Mesmo assim a existência desses signos é uma condição necessária da determinabilidade do sentido da proposição Eles são indivisíveis e poderíamos dizer que seu conjunto constitui a substância da linguagem a base permanente e imutável a partir da qual a diversidade das proposições que descrevem as situações mundanas é construída Aplicada ao mundo a crítica da linguagem desemboca no atomismo transcendental O princípio em que o Tractatus se baseia para chegar a esse atomismo é a ideia de que existe um paralelismo estrito entre a linguagem e o mundo Com base nesse princípio Wittgenstein estabelece que cada signo simples deve designar necessariamente um objeto simples Este último também deve ser indivisível e associado aos demais objetos simples constitui a substância do mundo a base permanente e imutável a partir da qual a diversidade dos fatos atômicos ou estados de coisas é construída Em paralelismo com os signos simples podemos afirmar que os objetos simples não existem 3422 A crítica da linguagem e seus resultados Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade como fatos mundanos mas subsistem como condições de possibilidade ou coordenadas transcendentais dos fatos mundanos Enquanto pertencente à substância do mundo cada objeto simples deve possuir uma forma lógica tal que todas as suas possíveis combinações com outros objetos simples já estejam estabelecidas a priori Se nos fosse dado conhecer todos os objetos simples que compõem a substância do mundo seríamos capazes de conhecer simultaneamente todas as suas combinações possíveis Tais combinações ou estados de coisas correspondem às unidades mínimas a que podemos chegar através da análise do mundo Nesse sentido os estados de coisas são fatos indivisíveis e independentes entre si da mesma forma que as proposições atômicas são indivisíveis e independentes entre si O conjunto formado por todos os estados de coisas existentes ou não constitui a realidade Subconjuntos da realidade constituem situações O mundo constitui o subconjunto da realidade que é formado pelos estados de coisas existentes Analogamente ao que acontece com as proposições complexas as situações mundanas são fatos complexos que se reduzem a articulações de fatos atômicos Se aceitarmos o postulado transcendental verificamos que a linguagem natural está logicamente em ordem Ela possui a mesma estrutura que o mundo e é justamente essa similaridade estrutural que possibilita a descrição dos fatos do mundo Isso implica nos levar a reconhecer que a lógica funciona como o cimento comum que organiza a linguagem e a realidade A lógica constitui a essência do mundo porque atua como lei transcendentalmente estruturante da linguagem e da realidade em dois níveis Em nível dos fatos atômicos a forma lógica é a condição de possibilidade de a figuração afigurar o figurado Tanto os objetos simples que constituem a substância do mundo como os signos simples que compõem a substância da linguagem estão contidos num espaço lógico que determina todas as suas combinações possíveis Em nível das combinações lógicas das proposições elementares entre si e dos fatos atômicos entre si a lógica é a condição de possibilidade da constituição das proposições complexas e dos fatos complexos Nos dois casos o que introduz as possibilidades de combinações é a bipolaridade o estado de coisas atômico pode existir ou não a proposição elementar pode ser verdadeira ou falsa Graças a isso no caso das proposições elementares por exemplo a lógica determina a priori todas as combinações possíveis de seus valores de verdade e todas as funções de valores de verdade que podem ser construídas a partir dessas combinações Nesse sentido a estruturação das proposições complexas da nossa linguagem é feita de maneira puramente lógica O mesmo se aplica mutatis mutandis para os fatos complexos ou situações mundanas efetivas Depois de analisar radicalmente as condições transcendentais de possibilidade da linguagem e do mundo Wittgenstein aplica seus resultados à lógica à matemática à física à ética e à metafísica No que diz respeito à lógica suas proposições nada dizem Nesse sentido ela não constitui e nem pode constituir um corpo de doutrina Mesmo assim as proposições da lógica mostram a essência da linguagem e do mundo Isso faz dela uma imagem especular da estrutura do mundo A matemática constitui um método lógico mas não se reduz à lógica É certo que as proposições da matemática não exprimem pensamentos que elas apenas mostram a estrutura do mundo que a generalidade matemática não é acidental e que o conceito de número é obtido a partir dum processo análogo ao da forma geral da proposição Mesmo assim a matemática trabalha com equações que envolvem a identidade a qual não pode ser representada através das funções proposicionais da lógica o método lógico por excelência é o modus ponens enquanto o da matemática é o da substituição o objeto da lógica é a proposição enquanto o da matemática é o número em nossa vida cotidiana as proposições da lógica poderiam ser dispensadas mas não as da matemática Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade A física parece consistir numa adaptação da teoria dos modelos de Hertz e Boltzmann aos principais aspectos da ontologia tractatiana Um dado sistema de mecânica é caracterizado como uma rede conceitual que estabelece um padrão a partir do qual podem ser deduzidas todas as proposições verdadeiras que precisamos para descrever o mundo As leis físicas correspondem à parte a priori da rede as proposições verdadeiras que a rede deduz permitem o contato da rede com o mundo Desse modo uma rede conceitual logicamente necessária pode ser utilizada para descrever um mundo fatualmente contingente O fato de um determinado sistema de mecânica poder ser utilizado para descrever o mundo nada diz sobre este último mas pelo menos mostra alguma coisa a seu respeito No caso da ética o conceito tractatiano de sujeito transcendental produz as seguintes consequências paradoxais Primeiro o sentido do mundo está no limite do mundo e portanto fora dele A ética é transcendental Segundo as proposições da ética são impossíveis porque tentam descrever algo que está fora do mundo e portanto não é fato Como a ética e a estética são uma só o mesmo se aplica às proposições da estética Terceiro a ação moral só pode ocorrer nos limites do mundo Assim se por um lado ela é incapaz de alterar o mundo de dentro por outro ela altera inexprimivelmente os limites do mundo e nesta perspectiva acaba por alterar o próprio mundo Nessa perspectiva a solução do enigma da vida se dá através duma experiência mística que paradoxalmente nos coloca fora do mundo Isso tudo nos mostra finalmente a verdadeira face da metafísica O ceticismo não constitui uma posição inexpugnável mas sim um contrassenso pois pergunta o que não pode ser perguntado A solução de todos os problemas científicos deixaria intocada a questão sobre o sentido da vida Em virtude disso o método correto em filosofia consiste em mostrar que as proposições metafísicas não são autênticas proposições porque lhes falta o adequado conteúdo descritivo Esse desmontar dos problemas e respostas metafísicos pode ser decepcionante mas constitui o único método possível em filosofia Em síntese o resultado da crítica tractatiana da linguagem produz uma verdadeira revolução quanto ao papel da filosofia em nossas vidas A crítica da linguagem deve ser entendida como uma atividade não como uma doutrina Ao realizarse essa crítica mostra que nem a questão e nem a resposta sobre o sentido da vida podem ser expressas pela linguagem Ao clarificar a lógica da linguagem a crítica torna patente a impossibilidade do discurso filosófico até mesmo daquele através do qual ela se expressa Ela mostra não apenas que o enigma não existe mas também que é vedado dizer que o enigma não existe A percepção disso sob a forma de clarificação inexprimível só se torna possível depois da tentativa suicida de expressar linguisticamente as condições transcendentais de possibilidade da linguagem Nessa perspectiva a experiência filosófica que o Tractatus tenta expressar é a do renascer em silêncio depois da morte do discurso O sentido da vida existe só que ele se mostra através duma experiência mística indizível do sujeito transcendental O sentido da vida ilumina e perpassa todo o nosso discurso mas mesmo assim não pode ser colocado em palavras Isso nos leva à mensagem fundamental do Tractatus cumprir o dever ético interior de investigar radicalmente a linguagem reconhecendo assim a incapacidade congênita desta última para descrever o sentido da vida e então recolherse à beatitude do autoconhecimento silencioso A partir da interpretação acima podemos dizer que há um espantoso paralelismo entre a vida de Wittgenstein e o texto do Tractatus Para resolver seu problema ético ele se alista como voluntário Isso envolve a decisão de subir a sofrida escada ética oferecida pelas condições extremas do campo de batalha Para resolver seu problema lógico ele empreende a crítica da linguagem Isso envolve a decisão paralela de subir a sofrida escada lógica oferecida pelas condições autofágicas da crítica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade da linguagem Assim da mesma forma que a negação da vontade individual constitui o ponto de passagem para a experiência mística a autorrejeição das proposições do Tractatus ao invés de expor o discurso wittgensteiniano ao ridículo constitui a sua chave de ouro O aforismo 7 expressa o esclarecimento final da análise lógica e sua contrapartida ética Tratase paradoxalmente de uma autofagia consistente Wittgenstein rejeita a imagem da essência da linguagem que é pressuposta pela filosofia tractatiana Ele mostra que essa imagem é pressuposta também por Santo Agostinho nas Confissões e possui dois aspectos fundamentais a palavras individuais são nomes de objetos b sentenças são combinações de palavras individuais E dessa imagem se origina a ideia de que cada palavra tem um significado que é o objeto que a palavra representa O significado duma palavra é dado por definição ostensiva apontar para o objeto e pronunciar a palavra correspondente Ora consideremos a sentença ele tem cinco maçãs vermelhas É claro que a imagem e a ideia que ela sugere são falhas aqui Por exemplo as palavras vermelho e cinco não parecem representar qualquer objeto De fato vermelho está ligado a uma amostra numa tabela de cores e cinco exige uma operação de contar estabelecendo uma correspondência entre cada maçã contada e um número Em ambos os casos não é o significado que está em questão mas como as palavras são usadas Uma linguagem para a qual a imagem agostiniana fosse correta seria muito simples e algumas expansões da mesma exigiriam mais do que a mera ostensão para serem aprendidas Fatos como esses levaram Wittgenstein à conclusão de que as funções das diferentes palavras na linguagem são similares às funções das diferentes ferramentas numa caixa A definição ostensiva pressupõe um conhecimento prévio da linguagem A imagem agostiniana implicitamente se baseia no fato de que já conhecemos a linguagem antes mesmo de aprendêla Wittgenstein também rejeita o atomismo tractatiano Isso está ligado à rejeição de sua concepção de um nome próprio autêntico que é definido como um signo simples designando um objeto simples A ideia de nome próprio autêntico surgira da avaliação tractatiana dos nomes próprios na linguagem ordinária Por exemplo Excalibur é um nome próprio ordinário que designa uma espada particular Ora a sentença Excalibur é pesada tem um sentido mesmo se a espada estiver quebrada 343 As Investigações Filosóficas de Wittgenstein 3431 A crítica do Tractatus A filosofia segundo Wittgenstein é melhor compreendida quando contrastada com a filosofia tractatiana Na verdade a perspectiva filosófica das Investigações se desenvolve a partir duma crítica radical do Tractatus No que segue apresentaremos alguns dos principais aspectos dessa crítica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Mas se Excalibur nomeia um objeto ela deixará de fazê lo assim que o objeto não mais exista como tal Nesse caso o nome Excalibur não teria significado e a sentença seria um contrassenso Mas a sentença faz sentido mesmo se a espada estiver quebrada Portanto Wittgenstein concluía no Tractatus deve haver um conjunto de objetos simples que constituem o significado dos signos da sentença em questão e a análise da mesma deve levar a signos simples nomes próprios autênticos que necessariamente designam tais objetos Portanto a palavra Excalibur deve desaparecer quando o sentido da sentença tiver sido completamente analisado Contra essa análise tractatiana o segundo Wittgenstein considera que a palavra significado está sendo usada ilicitamente se com ela queremos designar o objeto simples que corresponde ao nome próprio autêntico Um nome pode ter um lugar na linguagem mesmo se o objeto que ele designa não mais existe ou nunca existiu Na verdade a sentença sobre Excalibur tem um sentido porque pertence a uma linguagem na qual um nome pode ser usado na ausência do objeto que ele designa Mas podemos imaginar uma linguagem tal que seus nomes não possam ser usados na ausência dos objetos que eles designam Tais nomes poderiam sempre ser substituídos por um pronome demonstrativo mais o gesto de apontar para o objeto Nesse caso teríamos apenas demonstrativos e não nomes Além disso a palavra simples significa não complexo Mas a palavra complexo é usada numa variedade de modos que são diferentes entre si e diferentemente relacionados entre si Assim a busca pelos metafisicamente simples depende dum uso indevidamente limitado das palavras simples e complexo Tudo depende de como compreendemos tais palavras e a consciência desse fato leva à rejeição da questão metafísica pelos simples A crítica do segundo Wittgenstein envolve a própria ideia de análise tão cara ao Tractatus Para mostrar que ela é incorreta suponhamos duas linguagens L1 e L2 tais que a em L1 objetos compostos têm nomes b em L2 apenas as partes de objetos compostos possuem nomes e os todos formados por essas partes são descritos através dos nomes das partes Em que sentido uma sentença de L2 é uma forma analisada duma sentença de L1 A primeira está implicitamente escondida na segunda Alguém poderia dizer por exemplo que uma ordem formulada em L2 significa ou produz o mesmo resultado que uma ordem formulada em L1 Mas isso não é idêntico a dizer que alcançamos um acordo geral sobre o uso da expressão ter o mesmo significado ou produzir o mesmo resultado Se a pessoa a quem são dadas as ordens em ambas essas linguagens tiver que conferir uma tabela coordenando nomes e imagens de objetos antes de executar o que foi ordenado de um certo ponto de vista ela não fará a mesma coisa quando executando uma ordem formulada em L1 e a sua correspondente tradução em L2 Assim a ideia de que L2 é a forma analisada e mais fundamental de L1 embora sedutora é enganosa É verdade que L2 pode ser considerada como fornecendo algo mais que L1 Mas L1 também pode ser considerada como fornecendo algo mais que L2 3432 A nova filosofia das Investigações Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Para superar as dificuldades do Tractatus o segundo Wittgenstein desenvolve uma concepção original do significado O princípio básico desta concepção é o de que o significado duma palavra é seu uso na linguagem Mas é muito importante observar que o princípio não parece ser tomado literalmente por Wittgenstein Como será mostrado em breve tomálo literalmente poderia envolver um retorno ao essencialismo Assim o espírito da filosofia das Investigações parece exigir que tal princípio seja tomado num sentido programático A esse respeito podese formular o programa do segundo Wittgenstein como uma tentativa de substituir a questão essencialista tradicional o que é x pela questão alternativa como se usa a palavra x Se a tentativa for bemsucedida a busca filosófica pela essência nada mais será que a busca por um fantasma Isso porque seríamos capazes de deixar de lado a busca pela abstrata e fugidia essência designada por uma palavra e substituir essa busca inglória pela mera descrição dos usos concretos da palavra em questão Assim a difícil e complicada questão o que é o significado seria substituída por como é a palavra significado usada em nossa linguagem A nova abordagem de Wittgenstein pode ser condensada através da seguinte diretiva que caracteriza o método de análise predominante na sua segunda filosofia não procure o significado duma palavra procure ao invés pelo seu uso Duas consequências importantes se seguem imediatamente ao princípio programático Primeiro não há mais necessidade de procurar por aquilo a que uma palavra se refere Isto é o compromisso referencial que é tão caro às teorias realistas do significado tornase dispensável Segundo também não há mais necessidade de assumir a existência do ato mental de significar Com efeito o focalizar a atenção no uso da palavra torna dispensável o apelo a qualquer operação mental para explicar o significado Essas consequências constituem aspectos duma concepção do significado que é uma alternativa original não apenas à filosofia tractatiana mas também à filosofia tradicional em geral Vejamos como O abandono do referencialismo está ligado à constatação de que o significado do nome não deve ser confundido com o portador do nome A ideia tractatiana de que o significado do nome é o objeto simples que a ele corresponde está baseada exatamente nesta confusão Quando uma pessoa chamada N morre dizemos que o portador do nome N morre não que seu significado morre A aceitação da filosofia tractatiana implicaria que a sentença N está morto seria um contrassenso se N deixasse de ter significado Ora o nome ainda tem um lugar na nossa linguagem mesmo depois da morte de seu portador O princípio programático das Investigações nos diz que para uma grande classe de casos o significado duma palavra é o seu uso na linguagem No caso do significado dum nome próprio ele é algumas vezes mas não sempre dado pelo apontar ao seu portador A palavra nome é um título para incontáveis listas diferentes de regras Por exemplo nosso uso de nomes de objetos espaciais depende dum critério de identidade que pressupõe a impenetrabilidade e a continuidade dos movimentos nosso uso de nomes de rios depende dum critério de identidade que é baseado na direção dos movimentos etc Essa concepção diversificada do funcionamento dos nomes é a alternativa oferecida por Wittgenstein à perspectiva estrita do Tractatus Se isso é verdade então o referencialismo representado pelo modelo objetodesignação não mais tem nas Investigações a posição privilegiada que teve no Tractatus Assim a ideia tractatiana de que o nomear é um processo oculto uma conexão ímpar entre uma palavra e um objeto resulta da tendência filosófica de sublimar a lógica da linguagem ordinária E o que se encontra na base dessa tendência é a concepção Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade platônica de que a essência do discurso é a composição de nomes de objetos simples que podem ser apenas nomeados e não descritos ou seja o compromisso referencial tradicional A dispensa do ato mental de significar como elemento importante na explicação da linguagem está ligada às seguintes considerações De acordo com o Tractatus a linguagem ordinária pressupõe uma linguagem perfeitamente descritiva Mas esse fato exige uma grande quantidade de operações mentais implícitas para estabelecer uma correspondência entre essas linguagens e entre elas e o mundo Assim o pensamento no Tractatus tem de garantir tanto as relações da linguagem ordinária com a linguagem perfeitamente descritiva como as relações desta última com a realidade Essa exigência é excessiva e a nova abordagem de Wittgenstein dispensa tudo isso pois a consideração do uso da palavra não requer o apelo tradicional a qualquer operação mental seja ela implícita ou não para explicar o significado A suposição de que há um ato mental implícito de significar está tão enraizada em nosso pensamento filosófico que Wittgenstein se sente obrigado a criticála usando uma diferente linha de argumentação Ele sugere alguns experimentos que mostram a dependência do ato de significar com respeito ao ato de combinar palavras particulares de um modo determinado O objetivo de tais experimentos é desmascarar a ilusão habitual da filosofia tradicional que encara o significado como algo existente previa e independentemente das palavras e suas combinações Como exemplos desses experimentos podem citarse a tentar pensar e significar o pensamento expresso por uma sentença sem a própria sentença b usar as letras a b c d para significar com elas amanhã vai chover muito c tentar significar que está quente usando a sentença está frio etc O resultado negativo desses experimentos é a conclusão de que não há processo espiritual de significar Nós calculamos com as palavras Nem mesmo Deus seria capaz de ver sobre o que estamos falando se olhasse no interior de nossas mentes A palavra significado é apenas uma entre outras e tem usos diferentes em circunstâncias diferentes A questão o que é o significado pressupõe um compromisso essencialista e pode ser dispensada O critério para saber o que uma pessoa significa com uma palavra é o uso que essa pessoa faz da mesma Eis por que não se pode tomar o princípio de Wittgenstein literalmente Com efeito isso equivaleria a afirmar que a essência do significado é o uso sucumbindo assim em uma nova forma de essencialismo A consideração do uso e não do significado também requer um novo quadro conceitual para descrever o funcionamento da linguagem As principais características desse quadro vêm apresentadas a seguir Inicialmente as palavras são usadas de modo tal que não designam uma característica comum dos objetos ou entidades que elas representam Por exemplo a palavra jogo não designa algo que é comum a todos os jogos mas antes uma teia complicada de similaridades que se sobrepõem e entrecruzam Essas similaridades são melhor caracterizadas pela expressão semelhanças de família todas as coisas que denominamos jogos se assemelham umas às outras do mesmo modo que os membros duma mesma família se assemelham uns aos outros Assim dois parentes podem ter o nariz o cabelo e o formato da perna semelhantes dois outros podem ter os olhos o nariz a boca e os braços semelhantes Através dessas semelhanças que se sobrepõem e entrecruzam sabemos que essas pessoas pertencem à mesma família Mas seria insensato supor que há um modelo ideal que serviria para todos os membros daquela família Do mesmo modo alguns jogos podem ser individuais e terem como objetivo passar o tempo outros jogos podem ser coletivos e terem como objetivo a vitória outros podem ser coletivos e ter como objetivo passar o tempo etc Sabemos que essas atividades são jogos em virtude das semelhanças que se sobrepõem e se entrecruzam Mas seria também insensato supor aqui que há um jogo ideal um modelo Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade que se aplicaria a todos os jogos possíveis Existe uma família de jogos mas não uma essência do jogo que seria comum a todos os jogos Ao colocar em proeminência os usos das palavras sobre seus significados Wittgenstein é levado ao conceito de jogo de linguagem como um meio de descrever o funcionamento da linguagem Na verdade seu novo ponto de vista parece sugerir uma concepção da linguagem como um jogo complexo do tipo do xadrez Os traços mais importantes que o jogo de xadrez e a nova concepção wittgensteiniana da linguagem têm em comum são a o jogo opera com peças e a linguagem opera com palavras e sentenças de modo semelhante b o jogo funciona de acordo com certas regras e a linguagem também obedece a regras Como resultado o significado de uma peça é seu papel no jogo de xadrez e o significado duma palavra é o seu papel na linguagem Além disso em conformidade com o princípio programático os atos mentais concomitantes que acompanham o uso da palavra ou da peça de xadrez não são essenciais para a compreensão do jogo ou da linguagem Em oposição à teoria tractatiana da linguagem como mosaico Wittgenstein oferece agora uma teoria da linguagem como jogo de xadrez O princípio programático requer uma revisão da concepção tractatiana do sentido duma sentença Na primeira filosofia de Wittgenstein a sentença mostra seu sentido que é uma imagem inambígua da realidade E o sentido da sentença é determinado por suas condições de verdade Nas Investigações o sentido duma sentença é determinado por certas condições convencionais para o uso da sentença Essas condições pertencem à gramática da sentença e constituem o que Wittgenstein denomina os critérios para usar a sentença Assim o conceito de critério parece ser muito importante na filosofia das Investigações Mesmo assim o uso que Wittgenstein faz do conceito é um tanto frouxo Podemos apontar duas razões para isso A primeira é que a linguagem é caracterizada pela indeterminação do sentido Se é assim então não há razão por que o conceito de critério deveria estar numa posição privilegiada e possuir um sentido definido e constante A segunda é que aplicando o princípio programático aos usos particulares que fazemos da palavra critério provavelmente obteremos um conceito análogo que subsume uma grande classe de semelhanças de família O princípio programático exige também uma nova concepção do método da filosofia A consideração do uso das palavras liberta o filósofo das falsas questões metafísicas como se estivéssemos libertando uma mosca da garrafa Assim não é surpreendente que Wittgenstein caracterize seu novo método como o tratamento duma doença Mas a verdade é que há métodos na filosofia como se fossem diferentes terapias Não há algo como o método filosófico Como exemplos dos procedimentos diversificados usados nas Investigações podemos citar a os experimentos apresentados acima que foram projetados para provar que o significado não é independente duma combinação particular de palavras b a invenção deliberada de novos usos para as palavras ao invés de meramente descrever os usos efetivos c a descrição do uso efetivo duma expressão na linguagem ordinária para dissolver um problema metafísico d a substituição duma forma de expressão por outra embora não com o propósito tractatiano de buscar a linguagem perfeitamente descritiva e a invenção de jogos de linguagem particulares como instrumentos de comparação projetados para clarificar o funcionamento da linguagem por meio não apenas de semelhanças mas também de dessemelhanças Todos esses procedimentos provêm duma diretiva comum anterior até mesmo à consideração do uso que reduz os problemas metafísicos tradicionais a problemas de linguagem Essa diretiva pode ser encarada como a regra do polegar da filosofia do segundo Wittgenstein e pode ser formulada como segue sempre substitua o pensamento pela expressão do pensamento Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Todas as características acima derivam de algum modo do princípio programático e claramente caracterizam o novo quadro conceitual exigido pelas Investigações para descrever o funcionamento efetivo da linguagem Ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Para saber mais leia o livro de Wittgenstein Investigações Filosóficas que está disponibilizado na Biblioteca do curso SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein leia o texto httpseducacaouolcombrbiografiasludwig wittgensteinhtm SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein assista aos vídeos abaixo sobre Wittgenstein Claudio F Costa WITTGENSTEIN I Claudio F Costa WITTGENSTEIN II Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein assista aos vídeos abaixo sobre Wittgenstein Ludwig Wittgenstein e o Jogo de Linguagem Tractatus de Wittgenstein Ed Vozes Tradução e notas Gabriel Assumpção Veto à estética FÓRUM TEMÁTICO 2 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 35 Referências ABBAGNANO Nicola Dicionário de Filosofia 2 ed São Paulo Mestre Jou 1982 AMOEDO Margarida I A José Ortega y Gasset a aventura filosófica da educação Lisboa Imprensa NacionalCasa da Moeda 2002 ALVAREZ Juan Ramón Crisis de creencias y revoluciones científicas Ortega y Kuhn pasado el siglo XX Revista de Estudios Orteguianos Madrid Fundación Ortega y Gasset 6 2003 CARVALHO José Mauricio de Mauá e a ética saintsimoniana Londrina EDUEL 1997 Introdução à Filosofia da Razão Vital Londrina CEFIL 2002 Filosofia e Psicologia o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers Lisboa Imprensa Nacional Casa da Moeda 2006 O século XX em El Espectador de Ortega y Gasset a crise como desvio moral Argumentos Fortaleza UFC 2 4 918 ago dez 2010 CARVALHO José Mauricio de e BESSA Vanessa da Costa O sentido da perspectiva em El Espectador Revista de Ciências Humanas Florianópolis UFSC 44 2 399415 out 2010 CARVALHO José Mauricio de e ANDRADE Maria Aparecida de Filosofia e passado filosófico segundo Ortega y Gasset um diálogo com Hegel Revista Portuguesa de Filosofia Braga Editora da Universidade 68 12 275294 2012 CASCALÉS Charles Lhumanisme dOrtega y Gasset Paris Presses Universitaires de France 1957 GARCÍA Sônia Ester Rodríguez Ortega fenomenólogo Revista de Estudios Orteguianos Madrid Centro de Estudios Orteguianos v 24 2012 FICHTE J G A doutrina da ciência de 1794 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 HEGEL G W F Introdução à História da Filosofia Comentário de Paulo Arantes 4 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Fenomenologia do Espírito 4 ed São Paulo Nova Cultural 1988 HEINEMANN Fritz A Filosofia no século XX 2 ed Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1979 HEIMSOETH Heinz A filosofia do século XX São Paulo Saraiva 1938 78 HERSCH Jeanne Karl Jaspers Brasília Editora da UnB 1982 HUSSERL Edmund Husserl Investigações Lógicas São Paulo Nova Cultural 1988 A crise da humanidade europeia e a Filosofia Introdução e comentário de Urbano Zilles Porto Alegre Edipucrs 1996 JASPERS Karl Sobre mi filosofia In Balance y Perspectiva Madrid Revista do Occidente 1953 Kierkegaard In Balance y Perspectiva Madrid Revista do Occidente 1953 Filosofia Madri Revista do Occidente e San Juan Universidad de Puerto Rico 1958 Filosofia de la Existencia Madrid Aguillar 1961 Psicologia de las concepciones de mundo Madrid Gredos 1967 Fé filosófica frente a revelación Madrid Gredos 1968 Razão e ContraRazão no nosso tempo Lisboa Minotauro s d Iniciação filosófica Lisboa Guimarães 1987 Introdução ao pensamento filosófico 9 ed São Paulo Cultrix 1993 O médico na era da técnica Lisboa edições 70 1998 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Iniciação Filosófica Lisboa Guimarães 1987 KANT Emmanuel Textos Seletos Petrópolis Vozes 1985 Crítica da razão pura 3 ed São Paulo Nova Cultural 1987 KIERKEGAARD Soren Aabye O Desespero humano 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Temor e tremor 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Diário de um sedutor 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 79 MARÍAS Julian Acerca de Ortega Madrid Espasa Calpe 1991 História da Filosofia São Paulo Martins Fontes 2004 MARX Karl Manuscritos econômicofilosóficos 4 ed São Paulo Nova Cultural 1987 MOUNIER Emmanuel Introduction aux existencialismes Paris Denoël 1946 ORRINGER Nelson R La crítica de Ortega a Husserl e a Heidegger la influencia de Georg Misch Revista de Estudios Orteguianos Madrid Fundación Ortega y Gasset 3 2001 ORTEGA Y GASSET José Meditaciones del Quijote Obras Completas 2 reimpresión v I Madrid Alianza 1997 Vejamen del orador Obras Completas 2 reimpresión v I Madrid Alianza 1997 El tema de nuestro tiempo Obras Completas 2 reimpresión v III Madrid Alianza 1994 Reflexiones de Centenário Obras Completas 2 reimpresión v IV Madrid Alianza 1994 Partidarismo e Ideologia Obras Completas 2ª reimpresión v IV Madrid Alianza 1997 Apuntes sobre el pensamiento su teurgia e demiurgia Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Ideas y Crencias Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Ensimismamiento y Alteración Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 En torno a Galileo Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Historia como sistema Obras Completas 2 reimpresión v VI Madrid Alianza 1997 A Historia de la Filosofia de Émile Bréhier Obras Completas 2 reimpresión v VI Madrid Alianza 1997

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

9

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

Filosofia

UFSJ

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

27

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

Filosofia

UFSJ

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

1

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

Filosofia

UFSJ

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

22

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

Filosofia

UFSJ

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

3

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

Filosofia

UFSJ

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

53

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

Filosofia

UFSJ

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

7

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

Filosofia

UFSJ

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

39

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

Filosofia

UFSJ

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

168

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

Filosofia

UFSJ

Platão e a Mímesis - Introdução à Filosofia e Estética Platônica

28

Platão e a Mímesis - Introdução à Filosofia e Estética Platônica

Filosofia

UFSJ

Texto de pré-visualização

UNIDADE Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia 3 Subjetividade e Intencionalidade 31 A fenomenologia de Husserl 32 A filosofia existencial de Karl Jaspers 33 O raciovitalismo de Ortega y Gasset 34 O intencionalismo gramatical de Wittgenstein 35 A filosofia da linguagem em Wittgenstein 36 Referências Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 31 A fenomenologia de Husserl Caro Estudante vamos iniciar agora a unidade II Vamos estudar o estilo de pensar do século XX Nós vivemos os anos iniciais do século XXI e nos deparamos com um mundo confuso como também foi o século que passou E por que ele parece confuso para o homem de hoje Porque não possuímos aspectos ideias e princípios que sejam facilmente reconhecidos e válidos para todos Isso não significa que não haja valores de referência na tradição cultural e filosófica liberdade e dignidade do homem por exemplo No entanto esses valores construídos pela moral cristã não são facilmente compartilhados em todo o oriente A ciência é um tipo de saber valorizado e aceito universalmente mas hoje se sabe que não é um saber absoluto e irretocável Os conhecimentos científicos são continuamente 311 O século XX renovados pelo progresso das ciências E no universo político como andam as coisas Num mundo unificado com a globalização dos processos econômicos os grandes consensos permanecem difíceis Em resumo parece adequado dizer que o que ficou distante do homem de hoje são crenças comuns que permitam acolher teorias que as contemplem e sejam admitidas por todos os homens O século XX acentuou e aprofundou um movimento iniciado nos últimos anos do século XIX E que movimento foi esse Uma sequência de profundas mudanças podemos dizer de rupturas da visão única de ciência das referências metafísicas da religião como elemento fundamental da moralidade do modelo de família existente das referências de belo da compreensão dos valores etc O século passado acentuou o individualismo e expandiu interesses econômicos para fora dos Estados Nacionais difundindo um modo de trabalho parecido em todo o mundo Que exemplo podemos dar desse fato Hoje uma fábrica de carros japoneses produz no Brasil recebe componentes de diversos países e depois vende os carros nos Estados Unidos na Europa e China Em nossos dias a globalização das atividades econômicas multiplicou a oferta de produtos e serviços que ganham gradualmente dimensão e valores globais Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O século atual também assistiu a conflitos regionais como o da Guerra Civil da Síria que se arrasta desde 2013 Lembremos da luta de independência dos países africanos nos anos sessenta As disputas regionais adquiriram caráter global desde então E o que isso significa O que ocorre num canto do planeta numa região aparentemente sem importância acaba afetando a humanidade toda As disputas na África envolviam quase todos os países como hoje ocorre com a Guerra da Síria A crise econômica que teve seu pico em 2008 tem caráter global e lembra a de 1929 cujos efeitos devastadores também se espalharam pelo mundo e com resultados mais destruidores que a desse século E as guerras atuais e as maiores tragédias humanas desse século provocaram algumas milhares de mortes dois milhões de sírios acampados nos países vizinhos Esses números nem de longe lembram os grandes conflitos mundiais do século XX e os seis milhões de judeus exterminados nos campos de concentração nazistas Guerra Civil na Síria Esse quadro sumário do que está acontecendo hoje em dia e do que marcou o século passado é fundamental para entendermos a filosofia das últimas décadas Dela apresentaremos poucos exemplos o ideal é que fossem mais mas eles permitem uma informação geral da forma de pensar que marcou o século passado e se estendem até esse início de século XXI Esse panorama é especialmente útil se considerarmos que mesmo que as filosofias tenham dinâmica própria de investigação os problemas sobre os quais se debruçam guardam relação com outros elementos culturais aspecto reconhecido desde Georg Hegel como vimos na unidade inicial Além disso o espaço cultural é penetrado por elementos de crença que como salientou Ortega y Gasset estão na raiz das teorias usadas para entender o mundo E por que estão Porque os filósofos não criam no vazio O pensador necessita experimentar o mundo e lhe é essencial o conhecimento da ciência do seu tempo como reconhecem autores clássicos como Platão e Husserl E a ciência moderna passou no último século por um processo de revisão porque os cientistas ao relativizarem princípios tidos por absolutos inauguram atitude de parcimônia diante do mundo Eles concluíram que a ciência não é uma religião ou saber absoluto e nem tinham uma metodologia única porque as ciências chamadas humanas exigiram um novo tipo de fundamentação e metodologia Básico é o esforço dos filósofos de nosso tempo para mostrar que se não podemos perpetuar pensamentos e princípios dandolhes o sentido da eternidade como pensaram Hegel e Marx estudados na unidade anterior também não significa que caímos no relativismo moral ou gnoseológico É preciso alimentar a parcimônia intelectual como proclamou o filósofo alemão Karl Jaspers mas não perder de vista a importância da procura daquela verdade fundamental Como se faz isso Vivendo no âmbito da experiência mas aberto ao infinito ou fundamento que apenas se mostra no fenomênico de forma simbólica Essa atitude parcimoniosa dos cientistas Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade relativiza a geometria euclidiana pois é possível conceber outras geometrias e outros axiomas fundamentais Essa percepção substitui a noção de necessidade absoluta por necessidades hipotéticas nas ciências e por consensos e acordos no âmbito político A atividade filosófica por sua vez depararseá com uma nova subjetividade e intencionalidade capaz de orientar os esforços em geral em benefício da humanidade para atender a convocação de Husserl ao considerar o homem uma espécie de funcionário da cultura Atenção Ao concluir essa unidade você deverá ser capaz de 1 resumir e comentar os autores aqui apresentados 2 caracterizar as formas de intencionalidade mencionadas na unidade e transcendental 1929 Meditações Cartesianas 1931 e Experiência e juízo 1939 publicação póstuma essas últimas quando já era professor na Universidade de Freiburg para onde se transferira em 1916 O filósofo deixou ao morrer cerca de quarenta mil páginas que foram levadas às pressas para a Universidade de Louvain na Bélgica em 1939 por medo de que viessem a ser destruídas pelos nazistas Entre essas páginas que integram a denominada coleção husserliana encontramse duas versões do importante ensaio A crise da humanidade europeia e a Filosofia Esses ensaios foram apresentados em conferências que o filósofo pronunciou no final da vida em 1935 primeiro em Viena e depois na Universidade de Praga Nela mostra os limites do pensamento europeu naquele momento e as exigências para se manter fiel às exigências mais importantes da cultura ocidental A leitura dos principais livros de Husserl sugere que ele passou por etapas evolutivas sendo perfeitamente distintas o logicismo da fase inicial uma espécie de vitalismo histórico na etapa final havendo um período idealista intermediário O que pretendeu o filósofo Ele desejou descrever o modo como o mundo aparece na consciência sendo essa a raiz do conhecimento do mundo Não lhe parece possível falar do mundo sem entender que ele está representado na consciência nem há como se dedicar ao estudo dos mecanismos da consciência sem considerar que ela está cheia de elementos do mundo Isso é consciência intencional sempre que falamos de consciência falamos que ela é consciência de alguma coisa Os textos de Husserl não são de fácil leitura mas ele é um filósofo imprescindível para se entender o século XX A fenomenologia acabou tornandose o método utilizado pelos existencialistas 312 A intencionalidade fenomenológica de Edmund Husserl Edmund Husserl nasceu em 1859 e morreu em 1938 Dedicou parte inicial de seus estudos à Matemática e na parte final da vida ocupouse da Filosofia A obra com a qual inicia uma nova forma de pensar filosoficamente são as Investigações Lógicas 1900 publicadas um ano antes de se transferir para a Universidade de Göttingen Em 1913 publica Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica seguindose Lógica formal Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade que a partir do século passado formam a escola fenomenológica existencial unindo a fenomenologia e o existencialismo No entanto a fenomenologia também foi utilizada por neotomistas e nos estudos da linguagem Assim a intencionalidade fenomenológica tornase desde o século passado um método de meditação fundamental tida nessa forma de psicologia como um conjunto de regras para pensar constituída por elementos psicológicos Para enfrentar a influência psicológica na Lógica Husserl publicou Investigações Lógicas Naquele livro o filósofo se refere às ideias conceitos juízos etc Não seriam esses elementos de caráter psicológicos Ele avalia que não caso se considere que as regras lógicas se referem ao modo como a consciência pensa o mundo ou os objetos Os psicólogos diziam por exemplo que não há como pensar que algo é igual e diferente de si mesmo ao mesmo tempo Husserl rejeita essa explicação psicológica para os princípios de identidade e contradição afirmando em contrapartida que as regras lógicas representam verdades do pensamento com 313 Por dentro da fenomenologia Edmund Husserl deparouse com um ambiente intelectual marcado pelo desconforto causado pelo positivismo e pelas críticas à metafísica que decorriam de uma espécie de releitura do kantismo que ganhou força na Universidade alemã no início do século passado No campo psicológico predominava o behaviorismo americano que entendia o comportamento humano como um encadeamento de estímulos e respostas A Lógica por sua vez era validade objetiva Deixadas no âmbito psicológico os dois princípios valem para o sujeito apontando inevitavelmente para o ceticismo e o relativismo questões com as quais os filósofos estavam familiarizados desde o empirismo britânico Husserl entende que supera essa desconfiança presente no ceticismo e relativismo atribuindo aos princípios lógicos validade a priori e absoluta Em outras palavras se admitíssemos uma consciência puramente pensante sem os aspectos psicológicos que lhe servissem de suporte mesmo assim os princípios mencionados seriam válidos Estabelecido que a Lógica não é disciplina psicológica o que singulariza o modo como Husserl a pensa O dar à intuição o sentido fenomenológico Quando o filósofo deparase com as vivências ele ao mesmo tempo entra em contato com os objetos das vivências pois elas são intencionais isto é não há vivência sem objeto Essa discussão já se encontrava na Crítica da Razão Pura de Kant porém Husserl pensa os objetos intencionais como universais dando assim um novo foco ao idealismo transcendental pois para Kant a intuição era sensível Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade E como são os objetos que a consciência reconhece Husserl os divide em reais e ideais Como diferenciálos Os primeiros se encontram no tempo e espaço por exemplo a mesa o papel e a caneta que se usa para escrever uma carta A carta é escrita num determinado momento da história e num lugar específico o escritório da casa ou a sala de jantar Os objetos ideais as regras matemáticas por exemplo o teorema de Pitágoras tem validade independe do tempo e do espaço Essa distinção já se encontrava nos empiristas ingleses embora Husserl tenha se afastado dos mecanismos psicológicos que conforme os empiristas davam sustentação a verdades matemáticas No entanto supor a verdade de uma regra concebida por uma consciência pura sobrehumana sem estar sobre uma consciência psicológica e um corpo vivo suscitou viva polêmica com os existencialistas que não entendiam ser possível falar de pensamento puro sem se referir aos outros aspectos que caracterizam o homem Em outras palavras mesmo que se reconheça que o homem é espírito consciência vida e corpo material substratos distintos os estratos mais elevados dependem dos menos elevados O pensamento puro da 8 fenomenologia é um aspecto da consciência mas só é verdade porque alguém concretamente a pensa contestam os existencialistas Husserl entendia que as regras lógicas eram válidas em si mesmas Como o filósofo pensa o significado dos objetos Atribuindo lhes o caráter de idealidade Entre os sons que o simbolizam as palavras que o representam e ele mesmo há uma relação insuprimível Os sons e a escrita podem se referir a um objeto que não existe por exemplo um dragão amarelo Nesse caso temos um objeto que não é nem real nem ideal mas que pode ser pensado Sabemos que Kant já definira intuição como o modo como um objeto é representado na consciência mas Husserl se pergunta sobre como representar intuitivamente não propriamente os objetos mas as significações a eles associadas Husserl falará de preenchimento de significação para descrevêla E essa descrição não é de objetos mas de essências Assim temos um tipo de intuição diferente da sensível que fora preconizada por Kant isto é uma intuição de ideias A relação entre as partes e o todo de um objeto que se dá na consciência é outro aspecto importante da fenomenologia e causa grande impacto na psicologia fenomenológica Ela conclui que o todo é mais que a soma das partes colocando se em confronto com as interpretações behavioristas Husserl prepara o entendimento da psicologia gestáltica de inspiração fenomenológica distinguindo dois tipos de relação entre partes e o todo Na primeira as partes se encontram vinculadas de modo necessário como a relação entre ser madeira e ser vegetal É o tipo de relação que Kant dizia ser analítica Há ainda a relação na qual uma parte está unida mas não implica a outra por exemplo a cor amarela da flor A cor implica a flor ou outro objeto extenso não há cor sem objeto Os comentários acima indicam que Husserl não se ocupa da coisa mesma nem de sua representação como procuravam fazer outros pensadores mas do modo como o ser se mostra no fenômeno Para tanto ele quer saber como o ser surge na consciência Isso nos coloca diante da questão o que é mesmo a consciência Tudo o que é representado tudo o que a pessoa se dá conta mas especialmente a chamada vivência intencional O que é a vivência intencional É uma experiência íntima das essências e dos conteúdos os primeiros intencionais e o segundo não A essência intencional é o que se coloca na consciência e pode Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade ser matéria e qualidade Por qualidade o filósofo entende propriamente o objeto e a matéria é o modo como ela aparece Se digo o relógio da Igreja o objeto é o relógio e o fato de ele estar na Igreja é a matéria Por sua vez os conteúdos não intencionais são o impulso emoções sensações etc Uma vez esclarecido em que consiste a vivência intencional chegamos ao ponto nuclear da fenomenologia O mundo tal como se encontra na vivência intencional está representado na consciência No entanto a fenomenologia não toma tal representação como realidade mas quer examinar os elementos da vivência intencional para descobrir o sentido que os fenômenos possuem E como é possível fazer isso Vamos explicar com um exemplo Um sujeito se encontra diante de uma paisagem qualquer Digamos que esteja próximo a uma floresta contemplandoa A floresta é formada por muitas árvores arbustos plantas miúdas e uma multidão de animais de todos os tamanhos O sujeito pode vêla escutar os sons que ela emite sentir o cheiro que exala de suas folhas e flores Tudo 314 O momento fundamental do método isso lhe fornece uma ideia da floresta que o observador acredita que verdadeiramente existe em razão de suas percepções Essa representação não é objetiva devido aos mecanismos da razão como pensara Kant mas contém muito da percepção do sujeito singular Esse indivíduo é único e sua percepção do mundo consolidase nas crenças que forma mas qual é o papel do sujeito nessa crença O seu eu afeta suas crenças Com certeza responderá Husserl por isso a fenomenologia pede a redução fenomenológica que isola todas as referências individuais do sujeito que representa a floresta o fato de ele amála por exemplo A redução fenomenológica pede que o sujeito descreva o seu objeto unicamente como vivência sem utilizar os elementos de sua singularidade No entanto a atenção ao modo puro como as coisas aparecem na consciência não é suficiente Se ficarmos nele estamos apenas na redução fenomenológica O filósofo espera contudo que o indivíduo parta da redução fenomenológica para a eidética Como se pode fazêlo Descrevendo todas as características presentes no objeto vivenciado o que explicita a sua essência Assim um triângulo retângulo por exemplo manifestase como figura de três lados seus ângulos têm 180 graus sendo um deles de 90 graus e a soma dos outros dois A soma dessas características que identifica o objeto forma a sua essência O momento essencial da fenomenologia é a redução primeiro fenomenológica e depois eidética Por elas o real se mostra no pensamento A primeira não leva à dúvida do mundo mas suspende o juízo da vivência que dele se tem e em seguida procurase a evidência verdadeira Para alcançar a essência verdadeira é preciso colocar entre parêntesis o próprio sujeito que pensa Chegase então ao contato com as coisas mesmas cujas características quando descritas com cuidado e zelo revelam a essência escondida do objeto Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Os procedimentos acima descritos mostram o cerne de uma ciência rigorosa que é o modo como Husserl se refere à Filosofia Como tal ela deve enfrentar os relativismos decorrentes de escolas filosóficas do século XIX as diversas formas de historicismos e naturalismos pois ambas as filosofias conduzem a formas céticas e relativistas de tratar o real E a Filosofia é o esforço para chegar à verdade fundamental sem desanimar com os insucessos das diversas teorias que formam a tradição filosófica A possibilidade de obter sucesso nesse empreendimento decorre de termos em nosso tempo uma mais clara diferença entre a ciência e concepção de mundo sendo a primeira rigorosa e a outra comprometida pelos elementos históricos inerentes à vivência O resultado desse processo é o surgimento de uma filosofia que remonta ao início da modernidade tomando a vivência intencional como um tipo de cartesianismo superando os limites que a filosofia moderna indicou O mundo que surge na consciência não é um pensamento claro pura e simplesmente mas uma intuição fundamental dos objetos da consciência A aproximação de Husserl da noção de subjetividade iniciada por Descartes não esconde a enorme distância entre eles A consciência intencional como uma consciência povoada de objetos ou representações de mundo não é uma substância nos termos do que foi pensado por Descartes A consciência fenomenológica não está independente do que aparece para o sujeito como objetivo Em contrapartida esses objetos só aparecem para uma consciência quer se a tome como pensamento puro quer se a perceba pela sua realidade psicológica A consciência de si mesma ou eu é ato pelo qual o sujeito apreende a si como sendo o mesmo ainda que viva experiências distintas ao longo da vida Seria mais exato dizer que o sujeito se reconhece idêntico ainda que passe por mudanças que a experiência provoca Isso significa dizer que o sujeito conserva um estilo uma identidade em meio aos fatos de sua história de vida A presença do sujeito no mundo isto é o modo do indivíduo experimentálo e representálo passa pela intermediação do corpo O corpo situa a consciência no espaço e no tempo Por sua vez o corpo do outro é o modo como ele aparece para mim e se situa no espaço e tempo 315 Apreciando a fenomenologia de Husserl métodos utilizados nas ciências naturais Esse método de caráter descritivo estabelece os fundamentos do modo de justificar as práticas científicas elaboradas sobre seus pressupostos sem necessidade de outros elementos metafísicos Considerada como filosofia a fenomenologia não preconiza um retorno à antiga metafísica ela se insere no desenvolvimento da subjetividade transcendental com a qual Kant inaugurou uma nova forma de pensar filosoficamente Ao desenvolvêla encontra novos elementos capazes de orientar a procura pela A obra filosófica de Husserl é uma das maiores realizações do século XX e traz uma bem fundamentada crítica à visão positivista de ciência e de história do idealismo hegeliano Ambas traziam dificuldades reconhecidas no próprio desenvolvimento das ciências Nesse sentido ela se apresentou como um novo método empregado com sucesso nas ciências humanas cujos objetivos não seriam facilmente estudados com os Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade verdade fundamental com a qual lida a Filosofia indo além do conhecimento puramente empírico A fenomenologia trata da objetividade na consciência na perspectiva inaugurada por Kant e nessa ótica oferece um caminho para chegar à evidência pelas essências descobertas na consciência pela redução eidética Nelas está o fundamento que Husserl propõe para a Filosofia SAIBA MAIS SAIBA MAIS Para saber mais leia a seguir o texto da terceira parte de A crise da humanidade europeia e a Filosofia de Edmund Husserl que se encontra na biblioteca do curso SAIBA MAIS Um pouco sobre Edmund Husserl Husserl La Ciencia de la Conciencia Fenomenología Documental Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 32 A filosofia existencial de Karl Jaspers A filosofia existencial é uma das escolas filosóficas mais representativas do século XX e se desenvolve como aplicação do método fenomenológico aos problemas da existência concreta A realidade social econômica e política da primeira metade do século XX descrita na introdução desta unidade revela um mundo em dificuldades Nele o homem se viu desafiado a estabelecer um sentido para sua existência e para o mundo que como ele enxergava desmoronava e mergulhava no caos O que é mesmo a filosofia existencial o que é esse falar do ser na ótica da existência concreta Carvalho tenta responder à questão no capítulo inicial do livro Filosofia e Psicologia o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers 2006 321 Karl Jaspers e o movimento existencial A citação acima indica que os representantes da escola não têm posições semelhantes sobre muitas questões isto é os existencialistas divergem sobre vários assuntos mas eles adotam atitude comum sobre assuntos nucleares de suas filosofias e isso permite identificálos como escola Jaspers e outro alemão chamado Martin Heidegger são apontados como os iniciadores do movimento que teve outros representantes nos diferentes países Entre os franceses encontramos Jean Paul Sartre e Albert Camus radicalizando as impossibilidades de o homem alcançar qualquer estabilidade e contra eles Louis Lavelle e Gabriel Marcel encontram na crença em Deus uma garantia diante da instabilidade e incertezas experimentadas na existência Por sua vez lembra Abbagnanno no seu Dicionário de Filosofia que há uma terceira posição em que as possibilidades da existência devem ser mantidas como tais sem serem tomadas como possibilidade de ir adiante nem como impossibilidade de realizar tal propósito Ele explica essa posição do seguinte modo 1982 Filosofia da existência designa um movimento amplo e cujo conceito não tem uma história muito precisa Ele foi empregado inicialmente por Fritz Heinemann no livro Novos caminhos para a Filosofia 1929 Naquela oportunidade o conceito designava as criações filosóficas que apareceram no início do século passado representava uma nova forma de pensar a realidade diferente das anteriores p 36 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Nesse caso a perspectiva aberta por uma possibilidade não é nem a realização infalível nem a impossibilidade radical mas de preferência uma pesquisa tendente a estabelecer os limites e as condições da própria possibilidade e portanto o grau de garantia relativa ou parcial que ela pode oferecer Essa diretriz de Existencialismo acentua a tendência naturalista e empirista já presente de forma oculta ou imperfeita nas outras diretrizes p 385 As referências da citação acima não pretendem esgotar os nomes dos existencialistas mais conhecidos apenas mostrar que a escola permite divergência entre seus nomes mais conhecidos apesar dos assuntos comuns Quais são mesmo os assuntos que identificam os existencialistas Quais são os desafios que provocaram o homem do século XX e pediram resposta dos filósofos e um estilo de pensar Como podemos resumilos O primeiro era dar sentido à existência pessoal em meio ao legado historicista e social do hegelianismo e do marxismo examinados na unidade anterior e o outro desafio entender o significado da ciência moderna Ela se parecia cada vez mais essencial à sociedade oferecia nas suas realizações cada vez menos do que prometera o positivismo no século XIX popularizado como uma espécie de filosofia da ciência E como se devem entender os dois problemas O primeiro significava elaborar um sentido pessoal para a vida num contexto em que a noção de sociedade e consciência histórica valorizava o grupo e a força das gerações no modo de pensar de cada existente particular O outro era avaliar o papel da ciência moderna pois apesar de seu enorme avanço ficava evidente à medida que divulgava resultados extraordinários que ela não oferecia resposta aos desafios éticos A ciência também não contribuía para o estabelecimento de um sentido pessoal para a vida ou em outras palavras para promover uma existência autêntica O que isso quer dizer Que a ciência nada tinha a dizer sobre o que era uma vida boa e tipicamente humana isto é os princípios científicos nada oferecem para a elucidação do destino que cada um deve dar à própria vida e esse desafio parecia muito importante para o homem daqueles dias Os dois desafios se somavam às profundas mudanças históricas já descritas no início da unidade e elas forneciam a sensação de um mundo quebrado e destruído para os homens de então E qual o resultado desse quadro histórico de guerras e crise sofrimento e desilusão O surgimento da angústia que começou a crescer quando os homens sentiram as mudanças como a destruição do mundo que eles habitavam em segurança A retirada do mundo seguro corresponde a tirar o chão debaixo dos pés E a angústia era maior devido à decepção que emergia dos sonhos de paz e progresso permanentes projetados na chamada Belle Époque Os grandes temas da escola existencial eram a redefinição da subjetividade elaborada no início dos tempos modernos a descrição da vida como solidão ontológica a consciência de que a ela não tem sentido prévio a compreensão de que se lançar para o futuro era o mesmo que mergulhar em direção ao que ainda não existia Em outras palavras era essa ida ao futuro vivida sem garantias que parecia àqueles homens a única alternativa para dar sentido ao mundo Nas palavras de Emmanuel Mounier nesse mundo que emergia diante da sua geração 1946 o desespero Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade ocupa na perspectiva existencial o lugar que a dúvida metódica ocupou no início da reflexão cartesiana p 62 Ao avaliar as filosofias da existência no livro A Filosofia no século XX Fritz Heinemann afirmou que elas tratam o problema da realidade olhado a partir da existência concreta E nesse contexto atribui importância ao papel desempenhado por Karl Jaspers nessa nova forma de filosofar que ganhava força no início do século XX Qual a posição que Jaspers ocupa na escola existencial Eis como ele o explica 1979 Para Jaspers a Filosofia tornase um apelo e não deve em absoluto produzir qualquer doutrina com conteúdo Tratase aqui essencialmente portanto da conquista de um domínio de problemas Na medida em que esses problemas são autênticos brotam da situação tornada problemática do homem moderno p 264 O comentário de Heinemann situa precisamente o filósofo na esteira do kantismo e do entendimento de que não é possível para a Filosofia colocar em evidência de forma completa a verdade que ela busca Ela é portanto uma forma de conhecimento do mundo e deve se ocupar de clareála destino que Emmanuel Kant antevia para a Filosofia ao considerála transcendental e escrever na introdução da sua Crítica da Razão Pura 1987 Denomino transcendental todo conhecimento que em geral não se ocupa tanto com os objetos mas com o nosso modo de conhecimento dos objetos na medida em que este deve ser possível a priori p 35 Os caminhos do kantismo sobretudo com a mediação da fenomenologia de Husserl é que serão trilhados por Jaspers Por sua vez Michelle Federico Sciacca outro historiador conhecido da filosofia avaliou a filosofia de Jaspers como reflexão sobre a existência singular do homem destacando que nessa categoria se localiza o esforço do filósofo para considerar a autenticidade da vida humana o que é a sua forma de referir a uma vida tipicamente humana Esse é um assunto fundamental da meditação contemporânea como já dissemos Outro ponto fundamental destacado por Sciacca é o reconhecimento do limite da consciência humana decorrência do diálogo que o filósofo estabelece com Kant e que já indicamos anteriormente E qual a importância desse diálogo Ele é importante porque graças aos limites do conhecimento estabelecidos nos termos kantianos é que o filósofo situa o homem no horizonte do infinito Como ele faz isso Ao reconhecer que a consciência humana conhece apenas o que a ela se manifesta Jaspers observa que aquilo que não se mostra surge diante do homem como apelo E diante do apelo do que está além dele o homem toma consciência de que o fundamento não se revela e a vida lhe parece ser possibilidade mas com muitas contradições vividas no espaço dos fenômenos Tratase de um tema posto na meditação contemporânea por Sören Kierkegaard embora para o filósofo dinamarquês o transcendente fosse Deus o que não corresponde ao que pensa Jaspers Diante do infinito ou do que não se objetiva na consciência a existência emerge como possibilidade e a incapacidade de tratar do infinito se mostra Esse infinito está para além da consciência tanto a consciência de si como as representações do mundo isto é tanto do polo subjetivo como do objetivo da consciência Diante da transcendência a vida do homem se revela incompleta e ele busca sem sucesso apreendêla e definila Isso explica o contínuo insucesso da Filosofia em esclarecer o fundamento que tanto busca Esse infinito nunca se mostra na consciência como é de verdade No comentário de Sciacca o assunto é assim apresentado 1968 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O nosso existir é o esforço incessante de atingir o uno originário o ser em si esforço perseguido também na consciência de não poder jamais apreendêlo Por isso nós não existimos no Ser mas para o Ser no ser decisivo para ele no sentirmonos diante dele p 274 O que o comentário revela Que para Jaspers a referência a essa unidade originária ou princípio fundante que a Filosofia procura para oferecer ao homem segurança não se revela Ele surge além do limite do conhecimento que é incapaz de desvendálo como já dissera Kant mas que pode ser intuído sugere Jaspers Esse infinito não se mostra completamente no mundo A transcendência percebida como ser ou percebida como fenômeno pela intuição sensível só se revela na consciência simbolicamente A intuição do infinito que é vislumbrado mas não completamente desvelado está presente segundo o filósofo na existência humana como um desafio Ele o conduz no tempo estimulao a entender um pouco mais o que só se desvenda gradual e parcialmente Esse desafio se compromete absolutamente com exigências que a razão identifica como necessárias instigao a encontrar significado para a vida que não se mostra no dia a dia Isso que se vislumbra se esclarece parcialmente na existência mas permite viver diante da transcendência e ser iluminado por ela num mundo em que só se experimenta mesmo os fenômenos É o que Sciacca procura esclarecer no trecho transcrito Os limites da existência levamnos até ao ponto de fazernos admitir que há um fora tão certo quanto um dentro Encontro com o ser da existência que naufraga diante dele O fora fica portanto sempre incognoscível enquanto ser dentro é a estrutura cifrada das coisas idem p 274 O comentário mostra o eixo nuclear de um pensamento metafísico que era existência singular e concreta experimenta o limite e a finitude que o delimita com a transcendência Os modos como a transcendência se mostra são cifras que revelam algo e escondem muito Vamos indicar no próximo item os aspectos da filosofia existencial de Karl Jaspers 322 A filosofia fenomenológicaexistencial de Karl Jaspers Explicouse no item anterior que o filósofo elaborou um diálogo com Kant e a partir dele reconheceu a impossibilidade do desvendamento do ser como queria a antiga metafísica Nesse sentido a fenomenologia existencial de Jaspers se situa na perspectiva transcendental de Kant Também foi dito que na ótica dos filósofos existenciais o problema da realidade foi examinado a partir da existência concreta Vamos considerar agora um pouco melhor ambas as questões indicando adicionalmente Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade como elas se entrelaçam Essas questões estão na introdução do livro Filosofia uma das obras fundamentais do filósofo Para Karl Jaspers só se pensa na situação em que se encontra No entanto mergulhado nessa circunstância as perguntas de sentido filosófico isto é o que o ser é por que existe o ser e não antes o nada quem sou e o que quero não levam a uma resposta conclusiva E por que não levam Porque o ser não se deixa perceber como ele é apenas é concebido da forma como a consciência pode compreendêlo e isso é algo que me angustia Ele o diz na introdução de Filosofia 1958 pois na consciência de minha situação que não compreendo por completo nem posso penetrar em sua origem encontrome oprimido por uma angústia indeterminada p XXIX O filósofo assume da ótica kantiana que no modo possível aos homens de conhecer não é possível clarear o que o ser é em si mesmo e acrescenta algo que não estava nos livros de Kant o fracasso produz angústia que incita a procura No terceiro capítulo da Iniciação Filosófica Jaspers esclarece melhor o motivo do insucesso dizendo que todas as tentativas de desvendar o ser fracassam E por que fracassam 1987 Todas elas têm um elemento comum apreendem o ser como algo que me defronta como objeto para o qual pensandoo me dirijo como algo que se me contrapõe Este fenômeno arquetípico de nossa existência consciente é tão natural que mal nos apercebemos do seu enigma porque nem sequer o pomos em dúvida Aquilo que pensamos e de que falamos é sempre diferente de nós é aquilo que nós sujeitos estamos voltados é o que se nos depara como objeto p 28 Como o ser não se revela em sua plenitude permaneço na angústia que estimula a meditação filosófica Daí se segue a conclusão de que como não é possível ir além do que se objetiva o ser mesmo se encontra fechado é inacessível à minha abordagem Por outro lado faz sentido o esforço de procurá lo apesar do insucesso da empreitada pois o que se objetiva propicia o esclarecimento parcial do que o ser é Ao pensar assim a atividade filosófica Karl Jaspers entende que filosofar é considerar a falha de elucidação completa do ser e das perguntas inicialmente mencionadas O filósofo integra o malogro na própria atividade filosófica conforme explica em Filosofia 1958 ao fracassar nessa busca que queria encontrar o ser absoluto começo a filosofar p XXIX E por que a Filosofia se ocupa do fracasso ao tratar do fundamento da realidade Porque tudo quanto existe animais plantas pessoas paisagens naturais as mais diversificadas os pensamentos emoções vontade enfim tudo o que aparece no mundo como desafio para ser conhecido manifestase na consciência como objeto No entanto o ser é mais do que aquilo que se torna objeto O ser que sou como o próprio mundo é parcialmente objetivado O que não pode ser conhecido o filósofo denomina seremsi como fizera Kant A questão pode ser assim resumida Eu não sei exatamente o que sou não sei perfeitamente o que o mundo é mas eu e o mundo somos objetos para a consciência e conheço ambos eu e o mundo parcialmente O insucesso do conhecimento faz parte do esforço epistemológico logo o malogro é parte do processo e o alimenta O que Jaspers diz é que o ser que se expressa como objeto na consciência é o mundo tal como aparece para nós mundo concebido no espírito da fenomenologia de Husserl Além desses objetos do mundo há a própria consciência em si que é o outro polo desse conhecimento e ainda o ser que não se objetiva porque está além dessa possibilidade Chegase assim à seguine Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade divisão o serobjeto o fenômeno que surge na consciência o ser em si como liberdade o ser para si a consciência que se mostra como objeto Explica Jaspers o assunto do seguinte modo 1958 Quando decomponho o ser em serobjeto seremsi e serparasi não tenho três modos de ser que existem um ao lado do outro senão polos indissolúveis um do outro do ser em que eu me encontro Por acaso posso inclinarme a considerar um dos três polos inseparáveis um do outro do ser em que em encontro p 4 O ser em si não é possível de ser conhecido mas ao tentar alcançálo transformoo em objeto Tornar um ser objeto e fazê lo surgir na consciência como fenômeno Essa ideia de fenômeno Jaspers buscou em Kant e revela o limite da consciência como instrumento cognitivo pois ela só conhece a realidade reduzida na consciência como indicara Husserl Assim o ser que se torna objeto é o que se mostra no conhecimento e tem primazia no ato cognitivo Os outros não não têm primazia porque não se mostram achamse ocultos para além da capacidade da razão O sentido fenomenológico do ato cognitivo se observa no modo como o conhecimento depende da consciência que pensa Ao procurar conhecer o indivíduo que se depara com esses polos comete o erro de tentar dizer o que não pode Por outro lado a consciência que pensa o mundo está situada no tempo e espaço O ser da natureza se manifesta dentro dessas coordenadas O modo como objetiva o ser na descrição de Jaspers remonta à fenomenologia de Husserl Eis como o afirma Posto que a consciência é consciência e eu existo como consciência as coisas não existem para mim mas como objeto para a consciência Tudo o que existe para mim tem que entrar na circunstância A consciência como existência é o medium do todo ainda que como se mostrará meramente a modo de água onde se banha o ser idem p 5 O estado da consciência como ação dirigida aos objetos é formulada por Karl Jaspers em claro contexto fenomenológico como se segue a consciência não é um ser como o das coisas senão um ser cuja essência é estar dirigida intencionalmente a objetos idem p 6 Isso significa que a consciência não é um tipo de ser como os objetos que se encontram no mundo como as árvores as pedras os animais A consciência não esbarra nessas coisas ou se coloca ao lado delas como um banco está ao lado do chafariz na praça A consciência está diante dos objetos vive em relação mas não se confunde com eles Se a consciência é esse modo de ser que se coloca de modo singular diante dos objetos por ela não se restringir a ser objeto ela só surge na cisão sujeitoobjeto E essa condição pode significar uma perda um distanciamento de mim porque ao me deparar com as coisas posso ficar perdido nelas distraído Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Nesse sentido a reflexão filosófica no tanto em que ela investiga a relação entre consciência e mundo funciona como proteção contra a desorientação e distanciamento do sujeito de si mesmo A reflexão previne o risco de o indivíduo permanecer nos objetos e não se ocupar de si No capítulo XI da Iniciação Filosófica Jaspers acrescenta algo à reflexão metafísica em tempos que especialmente contribuem para a desorientação Se perderse no mundo é sempre um risco que o homem corre esse perigo aumenta quando os tempos contribuem para distraílo Em tempos tranquilos o indivíduo não perde o contato com a espontaneidade da vida mas não é o que ocorre em dias de crise Sobre o tempo em que vive comenta ser um tempo de dificuldades 1987 Num mundo em iminente derrocada onde a tradição encontra cada vez menos adeptos num mundo que subsiste apenas enquanto ordem exterior destituído de simbolismo ou transcendência que deixa a alma vazia sem dar satisfação ao homem este se o mundo não o prende fica a mercê de si próprio da cupidez e do tédio da angústia e da indiferença Nesse caso o indivíduo só pode contar consigo p 109 Ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Para saber mais leia o texto a seguir de Karl Jaspers intitulado Introdução ao Pensamento Filosófico que está disponibilizado na Biblioteca do curso TAREFA 2 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 33 O raciovitalismo de Ortega y Gasset 331 A vida é o fundamento que a Filosofia sempre buscou Para o filósofo espanhol Ortega y Gasset a vida é o fundamento que a Filosofia sempre procurou E por que ele pensa assim Porque é a partir da vida que tudo o mais ganha significado Tudo o que pensamos acreditamos escolhemos construímos está em função da vida A questão é importante e é por isso precisamos aprofundála Ao expor as ideias orteguianas veremos como o filósofo insere sua tese na história da filosofia isto é vamos indicar porque ele entende que a tradição filosófica acabou permitindo concluir ser a vida o fundamento vida que ele considera ser o assunto do século E por que é o assunto nuclear do século que viveu O filósofo explicou a razão no livro El tema de nuestro tiempo escrito em 1923 Ali diz 1994 a cultura não pode ser regida exclusivamente por suas leis objetivas e transvitais senão que por sua vez está submetida às leis da vida p 169 Dito de outro modo nada que o homem produz como cultura se afasta da vida nem mesmo a atividade intelectual ou filosófica Ele o diz não há espiritualidade sem vitalidade no sentido mais terra a terra que se queira dar a essa palavra O espiritual não é menos vida nem é mais vida que o não espiritual idem p 168 Antes de entrar no problema da vida recordemos que descobrir o fundamento da realidade é assunto central da Metafísica mas o que é mesmo Metafísica Podese dizer que é a disciplina filosófica mais importante autônoma e referencial Ela está no centro da meditação filosófica E por que está Porque seu objetivo maior é apontar o fundamento geral que sustenta o homem na existência ela procura algo que o oriente em meio à fenomenalidade do mundo e as suas mudanças constantes Nesse sentido a Metafísica deseja proporcionar verdades suficientes isto é que não dependam de outras para ter validade Ao contrário porque se referem à totalidade do saber possível esperase que as verdades metafísicas sirvam às outras verdades como suporte ou fundamento Você se recorda como no item anterior mostramos Jaspers às voltas com diferentes formas de verdade Essa procura de fundamento remonta historicamente a Aristóteles como lembra Ortega y Gasset em La idea de principio en Leibniz y la evolucion de la teoria deductiva 1994 Na Filosofia contemporânea esclarecer o que é a vida é o maior desafio avalia Ortega Dito de outro modo em Qué es Filosofia 1997 O problema fundamental da Filosofia é definir esse modo de ser essa realidade primária que chamamos nossa vida p 405 E ao deparar com esse problema a Filosofia descobre um assunto concreto não um conceito abstrato mas para uma realidade experimentada na primeira pessoa de forma individualíssima e singular a minha vida Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade As palavras de Aristóteles no livro III da Metafísica dizem que faz falta um conhecimento disciplina ou filosofia que seja o fundamento de todas as demais e ela em compensação não as implique p 263 O mundo moderno concebeu outra visão de Metafísica diferente daquela encontrada entre gregos e medievais Uma outra concepção não porque abandonou a preocupação com o fundamento mas porque ele foi pensado depois da descoberta da subjetividade A novidade explicou Ortega y Gasset na sétima lição de seu livro Qué es Filosofia 1997 consistiu neste descobrimento de haver entre as coisas que existem ou pretendem existir no universo uma cujo modo de ser se diferencia radicalmente de todo o resto o pensamento p 375 A metafísica que surgiu da subjetividade culminou no idealismo O idealismo foi um movimento fecundo foi bem estudado por Ortega y Gasset e examinado no capítulo anterior quando tratamos de Hegel Sua expressão amadurecida foi obra de Emmanuel Kant mas suas raízes remontam a Francis Bacon que esperava criar uma nova ciência universal que fosse a base de todas as outras Se retrocedermos um pouco até o século XIX qual a visão de Metafísica encontramos Naquele tempo pensouse Metafísica como um saber crepuscular ou tardio aspecto que pode ser creditado à influencia do idealismo absoluto de Georg Hegel O que isso significa O sistematizador do idealismo absoluto dizia que a Filosofia somente entra na história dos homens quando outros elementos da cultura já tivessem se desenvolvido A Filosofia é uma criação humana que depende que outros aspectos já estejam bem consolidados Eis o que Hegel escreveu em sua Introdução à História da Filosofia 1988 A Filosofia começa quando um povo saiu de sua vida concreta quando vão surgindo divisões e diferenciações nas classes quando o povo se aproxima do ocaso quando vai cavando um abismo entre as tendências internas e a realidade externa e as formas antiquadas de religião etc já não satisfazem quando o espírito se manifesta indiferente pela sua existência real ou então permanecendo nela só experimenta insatisfação e incômodo e a vida moral se vai dissolvendo p 120 Em outras palavras para a Filosofia emergir na história grega foi preciso que certas condições culturais estivessem estabelecidas Antes dessas condições a Filosofia não pôde surgir avaliou Hegel A célebre alegoria da coruja da deusa Minerva que só alça voo ao entardecer traduz esse entendimento que filosofar é tardio quando comparado a outras criações culturais como por exemplo a Religião a Literatura e a formação do Estado E de onde Hegel tirou a alegoria da coruja de Minerva Da mitologia romana É que a ave era ali representada no ombro da deusa Minerva e na mitologia lhe revelava o lado obscuro da verdade que ela não enxergava sozinha Assim era no mito porque a coruja tem visão perfeita à noite e devido à sua habilidade revelava verdades ocultas que a deusa não via Por essa característica passou a representar a própria Filosofia Usando a alegoria Hegel quer dizer que a Filosofia entra num cenário cultural já pronto toma consciência das coisas mas não se pronuncia sobre o que elas devem ser O seu conteúdo é o que se produz no domínio do espírito que segundo Hegel se encontra objetivado no mundo exterior e na intimidade da consciência Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Além desse aspecto o filósofo alemão entende que a consciência é histórica o que no idealismo absoluto significa que a verdade fundamental só vai se revelando na história da filosofia de modo lento e gradual O filósofo afirmou que a meditação filosófica alcançara finalmente com o idealismo absoluto a maturidade e a verdade Ele concluiu que sua filosofia era fruto do evolver do Espírito nos últimos dois mil e quinhentos anos de tradição num processo que ganha densidade no tempo como um rio amplia seu volume e importância à medida que recebe afluentes e se aproxima da foz A respeito da construção histórica da Filosofia Hegel a apresentou do seguinte modo não é uma estátua de pedra mas é viva e continuamente vai se enriquecendo com novas contribuições à maneira de um rio que engrossa o caudal à medida que se afasta da nascente idem p 88 O resultado desta compreensão a saber o surgimento tardio da Filosofia e a consciência histórica da verdade apontam para certezas ou verdades parciais que não ficam completas nos sistemas construídos pelo menos até o coroamento do processo no idealismo absoluto quando segundo Hegel a verdade se mostra inteira Ortega y Gasset rejeita a possibilidade de se apreender a verdade que Hegel atribuiu ao idealismo absoluto quando o considerou o ponto de chegada na história da filosofia No entanto ele acompanha Hegel quando ele diz que a missão da Filosofia é buscar a verdade na história A consciência histórica na forma como a vê Ortega y Gasset ensina a relativizar todas as descrições da verdade O resultado de sua aplicação à tradição filosófica revela que o que foi admitido como certeza universal num certo tempo mostrase insuficiente noutro Enfrentar as mudanças da história com uma proposta definitiva é missão impossível porque é necessário formular sobre a realidade uma teoria evidente e aí o projeto de certeza universal revela seu ponto frágil Aspectos tidos por evidentes num momento não são aceitos em outros tempos A perda da evidência provoca a desconfiança nos princípios anteriormente admitidos restando o desafio de refazer as concepções antes tidas por verdadeiras A Filosofia é o exercício do fracasso na postulação do fundamento movida pela consciência crescente dos limites da procura e dos caminhos a evitar Concluída a revisão do hegelianismo pela análise orteguiana entendemse as sucessivas teorias da realidade menos como contribuições complementares que sucessivas retomadas da razão universal Por outro lado esclarece Ortega y Gasset as teorias metafísicas só revelam sua riqueza quando devidamente contextualizadas pois além do que elas representam como formulação teórica trazem como pressuposto as crenças do tempo em que foram pensadas As ideias distanciadas dessas crenças nos informam pouco da procura do fundamento Além dos elementos que permeavam a cultura filosófica no início do século XX Ortega y Gasset afirmou que o grande problema a ser enfrentado pela Filosofia do seu tempo era elaborar uma nova forma de opor a subjetividade moderna à perspectiva objetivista dos gregos Fazêlo significava recriar o tratamento da subjetividade indo além de até onde já fora o criticismo de Emmanuel Kant Adicionalmente o princípio metafísico proposto devia amparar as ontologias regionais associadas por Edmund Husserl às ciências singulares como a História ou as experiências gerais como existem na Física O princípio precisava adicionalmente enfrentar a preocupante crise de civilização sentida de vários modos pelos filósofos de então com forte impacto na vida social econômica política e pessoal das nações ocidentais A crise provocava profundas alterações no modo de pensar viver e desmontava crenças antigas tidas por verdades imutáveis Ela igualmente desmontava a noção de natureza estável herdada da metafísica aristotélica que continha determinações de todo ser e estava presente nas formas e maneiras particulares dos entes Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade E como estava a sociedade naqueles dias Como já comentamos no início do capítulo viviase uma crise de civilização que atingia os costumes sociais e a organização política dos povos Assim o novo princípio metafísico precisava além de resolver os problemas propriamente filosóficos solucionar as dificuldades éticas e políticas da sociedade ocidental Eram esses os desafios que Ortega y Gasset considerava devessem ser enfrentados pela Filosofia do seu tempo A tanto levou seus estudos sobre a história da filosofia que chegara até aqueles dias com muitas dificuldades O que foi dito revela que não eram poucos nem simples os problemas à espera de solução Essas questões começaram a ser enfrentadas por Ortega y Gasset desde seus primeiros trabalhos Neles a vida é apresentada como realidade fundamental Em Meditaciones del Quijote 1914 e nos oito livros de El Espectador 19161934 o filósofo apresenta o princípio metafísico que deveria orientar a meditação filosófica de seu tempo mas é em Qué es Filosofia 1929 Unas Lecionais de Metafísica 1933 e em La Rebelión de las Masas 1930 e no ensaio Pidiendo un Goethe desde dentro 1932 que ele sistematiza suas meditações e dá densidade à relação entre o eu e o mundo que está na base das suas considerações sobre a vida São nos três livros que ele apresenta sua concepção metafísica de forma rigorosa inserida na tradição filosófica do ocidente e com a pretensão de conceber uma nova teoria filosófica Com ela enfrentou os desafios de seu tempo tanto os problemas trazidos pela compreensão parcial e histórica da verdade quanto a crise de civilização que fora objeto de estudo dos vários filósofos no século XX Os estudos depois da década de trinta procuram situar a vida na história e por isso se diz que nos anos trinta iniciase propriamente uma segunda fase de sua meditação Para a história da filosofia contemporânea o que interessa é entender o lugar do raciovitalismo na tradição filosófica Ele está próximo da fenomenologia existencial a vida é o modo de ser fundamental pois é a base sobre a qual as verdades do homem se estabelecem como era existência para os existencialistas Ao propor tal princípio o filósofo rejeita os caminhos da Metafísica tradicional ocupada com a estruturação do real pelo pensamento puro e na tradição filosófica se insere na perspectiva transcendental que vem de Kant e foi revista por Husserl Ortega prefere contudo falar de vida e não de existência vida experimentada na primeira pessoa ou melhor num tipo de que fazer situado na relação insuperável entre o eu e a circunstância E nisso já começa a diferenciação com os existencialistas apesar da forma fenomenológica comum que os aproxima Vamos apresentar como o filósofo desenvolveu suas ideias sobre a vida Nos seus estudos Ortega y Gasset explica a relação entre o eu e a circunstância Depois de acompanhá lo nessa tarefa apresentaremos a inserção de suas análises na história da metafísica forma característica da segunda e decisiva etapa de sua investigação É muito interessante como ele passa nos últimos trabalhos a ocuparse como os existencialistas da chamada vida autêntica entendendo que a vida humana pode perder o que a tipifica quando não tem em conta aspectos dos quais não pode se afastar Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 332 A vida tematizada nos primeiros estudos Até 1930 a vida foi tematizada por Ortega y Gasset como fidelidade a um núcleo íntimo e insubornável Essa fidelidade orientava a relação do sujeito com a circunstância É a partir da ideia de vida que ele se volta para a realidade No ensaio Julian Marías y la metafísica orteguiana Helio Carpinteiro observa que a filosofia orteguiana está marcada pelo desafio de compreender a realidade O comentarista destaca o entendimento de Marías de que o pensamento orteguiano é um ponto de inflexão na história da metafísica p 211 Inflexão é uma mudança ou melhor um desvio mas que afastamento seria este e de que curso ele se desvia A inflexão esclarece Carpinteiro fica consolidada nas obras Que és Filosofia e Unas Lecionais de Metafísica pois nelas a vida aparece como a realidade fundamental que os filósofos buscam desde a antiga Grécia Esses textos não são os únicos em que a temática é discutida mas neles é problema destacado Igualmente sabemos que a utilização da vida como eixo articulador das teses filosóficas orteguianas tratadas como inflexão por Carpinteiro aparece em trabalhos anteriores aos livros mencionados Praticamente toda obra orteguiana desde as Meditaciones del Quijote 1914 procura caracterizar a vida como o problema a ser estudado em nosso tempo O fato pode ser comprovado no capítulo VII de El tema de nuestro tiempo 1923 Ali o filósofo diz que a cultura humana comprometida com a busca da verdade estava diante de um novo desafio 1994 Consagrar a vida que até então era só um fato nulo e como que um erro do cosmo um princípio e um direito p 179 O filósofo acrescenta na sequência do capítulo que a vida esteve a serviço da religião da ciência da moral da economia da arte enfim dos mais diferentes aspectos da cultura mas não foi considerada em si mesma e como fundamento do resto Tratar a vida como o fundamento procurado pela Filosofia foi próprio de um tempo que nela reconheceu o grande problema a ser investigado Assim ocorreu porque como observa Roger Garaudy 1966 experimentase o sucesso de uma concepção de ciência a do positivismo que a priva de sua significação humana p 18 Então o conceito de metafísica como problema do conhecimento pensado pelos modernos como meio para alcançar uma verdade irrecusável reaparece na procura do sentido necessário e anterior à prática da ciência A questão pede o exame da subjetividade e do modo como ela se relaciona com o entorno O que é a vida de um sujeito consciente Como caracterizála O que Garaudy entende é que o problema de Ortega y Gasset era o de toda sua geração Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade social e pelas épocas Tratase de circunstância biológica que é diferente nas pessoas e que afeta o movimento das sociedades ensina Ortega y Gasset no ensaio El Quijote en la Escuela em que escreve 1998 antes que fale a ética tem direito de falar a pura biologia Sem sair dela desde o ponto de vista estritamente vital nos aparece um valor biológico positivo como vitalmente bom e outro como valor biológico negativo como vitalmente mal p 291 Eis a segunda característica da abordagem orteguiana à vida a realização do projeto vital é escolha que envolve mais coisa que decisão racional Ela possui um componente ético mas o ímpeto com que a escolha é realizada depende do impulso vital que é biológico É a vitalidade o que faz um povo ou um indivíduo ser mais vibrante eou emotivo mais rápido ou lento na condução do tempo vital A vida possui um tônus e isso influi no modo como é levada adiante pelos indivíduos e povos E o aspecto temporal também afeta o ritmo vital Sim explica Ortega y Gasset a realização do projeto vital não acontece do mesmo modo em todos os períodos da história É importante identificar os apelos de cada época para apreender o modo como a vida nela é efetivada O entendimento de que o projeto vital é singularíssimo porque diz respeito a cada indivíduo pede mais que a observação do tônus vital e dos aspectos da personalidade A compreensão exige que se considere também o tempo histórico porque ele impacta a vida singular conforme seja um momento de maior tranquilidade ou de crise segundo seja um período mais voltado para os prazeres do que para evitar as dores ou mais ocupado em evitar dores que obter prazer Não só a existência singular é temporal o horizonte social também é e ele afeta a vida pessoal No ensaio Elogio del Murciélago disse Ortega y Gasset 1998 Algumas vezes me ocorreu pensar que há duas classes de épocas históricas em umas os homens se preocupam mais em buscar os prazeres que evitar as dores em outras acontece o inverso p 321 Segundo a orientação da época a vida ganha balizamentos distintos segundo vise mais o ter prazer ou fugir das dores Então a realização do projeto vital obriga o homem Entender que é o homem o problema central a ser investigado pela Filosofia é algo que vem desde Kant e foi o problema enfrentado pela fenomenologia O assunto já aparece na primeira das grandes obras de Ortega y Gasset Meditaciones del Quijote 1914 Naquele livro o pensador espanhol diz que viver é resultado da relação entre o eu e a circunstância A inserção do eu no mundo faz da vida singular de cada pessoa um compromisso que se deve assumir com determinação Daí a caracterização da vida como o grande problema a ser investigado Dito de outro modo viver é realizar um programa um destino desenvolver um projeto vital num mundo que se encontra aí isto é num mundo em que me encontro Esse eixo nuclear da ontologia orteguiana já aparece na introdução das Meditaciones del Quijote lembra Gilberto Kujawski e se expressa na frase que passou a caracterizar o raciovitalismo a partir de então 1994 Eu sou eu e minha circunstância se não salvo a ela também não salvo a mim p 39 Assim a característica principal do pensamento orteguiano é entender a vida como a obrigação de vencer a circunstância no quanto ela impede a fidelidade a esse núcleo íntimo A ação humana guarda fidelidade ao núcleo interior do sujeito que o filósofo formula como obrigação Quando escolhe o sujeito está inevitavelmente vinculado à circunstância ou como dissemos 2010 ao escolher vamos tecendo nossa vida alterando a circunstância p 113 Circunstância já foi dito no capítulo anterior é tudo o que rodeia o eu a realidade cósmica a corporalidade a vida psíquica a cultura em que se vive nela incluídas as experiências acumuladas no tempo CARVALHO 2009 p 332 A tarefa vital é diz Ortega y Gasset em Ideas sobre Pio Baroja 1998 querer ser antes de tudo a verdade do que somos p 75 Em síntese a primeira característica da vida pode ser resumida numa frase vida é tarefa compromisso inadiável e irrecusável que temos conosco de vencer a circunstância no que ela interdita meu projeto vital A realização do projeto vital depende da vitalidade de cada pessoa E a vitalidade varia entre elas e pode ser estimulada pela vida Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Essas considerações tratam do se Entre os apaixonados por futebol é comum encontrar quem se pergunte qual o destino do jogo se aquela bola desperdiçada tivesse se convertido em gol como seria o desfecho da partida se o juiz tivesse marcado aquela penalidade etc Muitas são as partidas possíveis mas só uma é a partida mesmo Assim é a vida Considerar os possíveis nos revela a quarta característica da vida ela é uma e em torno dela circundam outras possíveis que teriam sido vividas se ao invés de um curso tivesse o sujeito feito outras escolhas O que isso significa Se ao invés de casar com Maria tivesse o sujeito optado por Antônia se ao invés de ser bancário tivesse sido aviador a vida seria outra como outro teria sido o destino do jogo no exemplo anterior A vida do homem é um fenômeno particularíssimo que brota de escolhas e caracterizações de possibilidades que acompanham as escolhas feitas embora outras pudessem ter sido as preferidas A vida é um rumo formado pelas escolhas feitas entre as possíveis Vida é ação é processo contínuo de escolhas Elas são resultado do mesmo entusiasmo Já vimos que não Construímos um destino com a força vital será que ela afeta o ritmo dos acontecimentos O filósofo entende que sim Ele propõe como ideal uma tocada firme contínua mas sem atropelo Diz isso num dos discursos parlamentares no advento da República em 4 de setembro de 1931 quando comenta o destino da Espanha 1994 Façamos como toda grande reforma que vamos intentar com o tempo justo sem acelerarmos porém sem retardarmos seguindo pois a norma que Goethe recomendava para toda vida avançar sem pressa e sem pausa como a estrela p 384 Essas palavras nos colocam diante da quinta característica da vida ela tem um ritmo singular nas pessoas e nos diferentes povos a voltarse sobre si porque como dissemos 1996 a pergunta sobre si é o que há de mais fundamental para Ortega y Gasset p 84 Eis aí a terceira característica da meditação orteguiana a vida só se esclarece quando se considera o momento histórico em que é vivida já que é o homem mergulhado na história que procura intensamente compreenderse idem p 84 A vida singular é temporal e é vivida numa sociedade que também é histórica e cujas características afetam o drama vital A vida para Ortega y Gasset é um que fazer na circunstância Portanto viver é fazer escolhas entre os possíveis e elas formam a história de vida de cada pessoa A história de cada um é o percurso que ele percorreu revela seus valores prevalentes e suas verdades existenciais Mostra ainda as coisas que lhe aconteceram O que teria sido se ao invés de estudar na escola tal o indivíduo tivesse estudado em outro lugar Se ao invés de formarse enfermeiro tivesse estudado arqueologia É possível fazer muitas conjecturas como essas e imaginar diferentes percursos existenciais para cada indivíduo Contudo a vida mesma é a que resultou das escolhas feitas São elas que podem tornar uma vida mais ou menos interessante mais ou menos densa mais ou menos charmosa e mais ou menos profunda Eis o que diz o filósofo em Intimidades considerando as alternativas que compõem as vidas não vividas que se tinha à disposição desde a tenra infância 1998 Minhas memórias contaram junto à minha vida efetiva o que pude viver vidas perdidas antes de nascer pobres existências que para sempre caíram sem vida sem ser cumpridas espectros errantes que são nosso múltiplo ser fracassado Não se trata de abstratas possibilidades senão que cada ser humano leva em torno ao núcleo de sua existência efetiva um elenco concreto individualíssimo de outras possíveis vidas suas e só suas p 637 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade No parágrafo anterior mostramos que para Ortega y Gasset a vida tem um ritmo ótimo mas que ele varia nas pessoas e povos A realização da tarefa vital coloca em evidência o limite temporal pois a vida é processo com duração limitada e é enquanto se vive que o projeto deve ser realizado A vida tem um tempo de duração ou para ser feliz com seu destino O que a maioria das pessoas lamenta é que o tempo para realizar o projeto vital é sempre insuficiente e isso aumenta a responsabilidade nas escolhas Não há tempo a perder pois morrer ou deixar de ser significa tornarse indiferente a tudo Então intimamente o tempo vital é sentido como urgência explica o filósofo no anexo de A Idea del Teatro 1997 Chegase então à sexta característica embora a vida tenha ritmo ideal que é diverso para as pessoas e povos enquanto percepção íntima ela é vivida como pressa a vida é urgência de realizar o projeto vital O projeto vital já foi dito não é um plano intelectual mas a realização de uma missão ou destino sem o qual viver não parece valer a pena No livro Que és Filosofia Ortega y Gasset reafirma que a vida é a realidade radical a ser desvendada e ela que se desenrola na relação entre o eu e a circunstância E não é relação que se estabelece de qualquer modo mas com característica específica como disse em Una interpretacion de la historia universal 1997 o homem traz prefixado e imposto a liberdade para escolher o que vai ser dentro de um amplo horizonte de possibilidades p 14 A liberdade está presente na relação entre o eu e a circunstância Tema central de todos os seus estudos desde Meditaciones del Quijote a novidade expressa no livro observa agudamente Margarida Amoedo 2002 e a necessidade filosófica de expor a sua tese fundamental dandolhe agora uma formulação tão rigorosa que ela pudesse manifestarse a todos como uma inovação radical da filosofia p 257 Acompanhem este propósito orteguiano não se trata de falar da vida como objeto de uma ciência mas de forma radical A inovação no que se refere à metafísica é tratar a vida como realidade fundamental isso significa tratála como o elemento estruturador do real buscado por todos os filósofos desde o surgimento histórico da Filosofia na Antiga Grécia Sobre a vida a meditação filosófica deve centrar a atenção e descrever as características principais E o que se pode dizer da vida do homem Para o filósofo 1997 Viver é o que ninguém pode fazer por mim a vida é intransferível não é um conceito abstrato é meu ser individualíssimo p 405 E o que é esse ser Como ele se tornou um problema filosófico O filósofo responde a tais perguntas no livro En torno a Galileo publicado em 1933 mesmo ano em que foi editado Unas lecciones de metafísica Na obra o filósofo esclarece o caráter pessoalíssimo de viver como homem Ninguém pode viver pelo outro em outras palavras ninguém poderá sofrer minha dor de dentes apaixonarse como eu estar em meu íntimo significar as coisas como eu faço É neste sentido que a vida é inalienável e singularíssima esclarece o filósofo 1994 333 A vida tematizada como problema filosófico Vida humana é pois de pronto certa duração normal da pessoa certo tempo que lhe é concedido e que é sempre escasso Para nossa vida falta sempre tempo por isso é essencialmente pressa p 500 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade os demais conhecimentos Voltando ainda uma terceira vez ao problema o filósofo deparase com erros das antigas filosofias Ele considera que o desafio de seu tempo era superar a verdade concebida no idealismo e a redução que ela realiza no conhecimento da realidade É preciso fazer com o idealismo o que ele fez quando apontou os erros do realismo grego e se apresentou como alternativa O idealismo é uma teimosa e tenaz marcha contra o curso da vida avalia Ortega y Gasset A filosofia idealista desvitalizou a vida sendo importante superar os erros que isso significou Assim a superação do realismo grego e do idealismo pede outra filosofia que reconheça a contribuição do idealismo mas aponte um caminho para seguir em frente Em resumo o idealismo sumiu com o mundo que está em volta do eu É então como forma de superar o realismo e o idealismo que o autor diz aponta uma razão que incorpora a vida como estratégia necessária Para fazêlo diz que é preciso pensar a subjetividade idealista na circunstância já que a subjetividade não se afasta do entorno Ortega y Gasset propõe a vida circunstanciada como o problema a ser meditado pelos filósofos contemporâneos Viver é condição fundamental e consiste em coexistir com o entorno O ser estático das filosofias antigas será substituído por um ser atuante aberto a mudanças O filósofo antigo busca o ser das coisas e inventa conceitos que interpretam seu modo de ser idem p 393 o pensador contemporâneo está desafiado a entender a vida Viver é o que fazemos e o que se passa conosco Eis a característica básica que pode ser sintetizada do seguinte modo Viver é uma revelação é encontrarme no mundo idem p 424 O assunto adquire significado filosófico quando Ortega y Gasset o trata como o ser fundamental buscado por diversas gerações de metafísicos Antes de aprofundar a caracterização da vida como problema filosófico vejamos o que é propriamente a abordagem filosófica de um problema para nosso filósofo No livro La idea de principio en Leibniz y la evolucion de la teoria dedutiva ele explica o que pensa O homem cada homem tem que decidir a cada instante o que vai fazer o que vai ser no momento seguinte Essa decisão é intransferível ninguém pode substituirme na faina de me decidir de decidir minha vida p 23 Voltemos ao livro Que és Filosofia em que também encontramos resposta para as questões acima formuladas Como levar adiante a reflexão filosófica sobre a vida Para o filósofo a melhor forma de procurar uma verdade filosófica é fazendo círculos concêntricos em torno do problema Com esse método é possível voltar várias vezes aos mesmos assuntos e a cada novo retorno aprofundar a investigação anteriormente iniciada O que uma primeira aproximação da metafísica mostra A impossibilidade de a disciplina chegar às verdades universais e definitivas que almeja alcançar O resultado do filosofar é a verdade mas incompleta e que pode ser melhorada pelo esforço das gerações Ao analisar os tempos que vivia considerao um momento ruim para o exercício da Filosofia Para agravar o fato observa que a Física alcançou grandes êxitos e como resultado a ciência foi tida como o único saber válido Ortega y Gasset observa que a Filosofia não é ciência no sentido moderno ela é mais é um saber que trata a realidade de forma radical Uma segunda órbita em torno ao problema mostra o pensar filosófico como imprescindível procura por conhecer tudo que há idem p 335 Cada ciência tem seu objeto específico o da Filosofia é o que engloba todos eles e não se oferece claramente A filosofia é saber radical sem pressupostos Embora ela não trate do que é imediato ou útil a Filosofia é necessária porque fundamenta Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade do conhecimento filosófico e diz que Leibniz é por excelência um filósofo E por que o é Porque ele é alguém que procura princípios Para Ortega y Gasset Leibniz realiza com maestria o que todo filósofo espera realizar princípios que forneçam certezas para se viver no mundo O conhecimento filosófico é atividade de estruturação de princípios fundamentais Ortega y Gasset explica 1994 Em filosofia isto se leva a extremos se exige dos princípios que sejam últimos isto é em sentido radical princípios p 63 Leibniz avalia Ortega y Gasset é o filósofo mais completo da modernidade Pela extensão de seus interesses e estudos deixou contribuição comparável ao legado de Aristóteles para a antiguidade Ortega y Gasset entende que os princípios construídos num certo tempo traduzem uma concepção de mundo e que ela é a base das crenças que representam a forma de pensar de um determinado tempo O que é mesmo Filosofia É construção de princípios fundamentais conforme comenta Julián Marías acompanhando o mestre em sua História da Filosofia 2004 A filosofia é portanto a verdade radical que não suponha outras instâncias ou verdades tem além disso de ser a instância superior para todas as verdades particulares p 507 Portanto entendido o que é a Filosofia passemos agora à caracterização da vida como problema filosófico Na caracterização filosófica de vida comecemos tratando da assertiva negativa proposta em Que és Filosofia No livro Ortega y Gasset diz que a vida é um ser que não possui determinação fixa A tradição metafísica tanto na perspectiva realista dos gregos quanto na idealista dos modernos quando se refere à realidade fundamental procura estabilidade Em outras palavras a metafísica procura achar um travejamento para a realidade Para os gregos realidade fundamental ou o que as coisas são verdadeiramente sempre existiu e forma unidade E o que são mesmo as coisas São entes que estão aí no mundo independente do que o homem deles pense A perspectiva moderna ou idealista entende que o fundamental é o que se impõe à consciência mas o que chega à consciência depende dela reconhecerlhe existência Nesse sentido observa se um impasse o fundamento depende da consciência para assegurálo Sem consciência o mundo perde realidade ou a realidade passa a depender do sujeito ou como sintetiza Mindán 2009 a consciência não agrega realidade a um novo objeto que está aí senão que modifica essencialmente a tese p 202 O idealismo começou dizendo que para haver coisas no mundo é preciso um eu que as pense No entanto foi além dessa observação interessante e fez depender o ser das coisas do eu Isso foi um exagero Ortega y Gasset conclui que se não houvesse mundo não haveria consciência pois sem mundo não há eu É assim que postula ser a vida a realidade que a Filosofia busca durante toda história Essa forma orteguiana de pensar foi resumida por Mindán como se segue A realidade radical está na dualidade constitutiva do mundo e o homem e podemos comprovar que isto é precisamente a vida humana idem p 204 Ortega y Gasset diz que a vida com toda sua instabilidade é a realidade fundamental procurada 334 Aprofundando a meditação sobre a vida considerá la problema filosófico Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade pelos filósofos ao longo da história da Metafísica Atribuilhe uma dignidade que ainda não lhe fora reconhecida por nenhum pensador porquanto está nela a razão maior do filosofar Estamos diante diz o filósofo no livro Que és Filosofia de uma nova ideia de ser de uma nova ontologia de uma nova filosofia e na medida em que esta influi na vida de toda uma nova vida vida nova idem p 408 Eis aí o sentido filosófico de viver ver o mundo pensálo tocálo apalpálo sentilo saboreálo amálo ou não Vida é soma de tudo que se chama viver É fenômeno que contempla a relação do sujeito com o mundo de um modo que não fora percebido antes nem pelo realismo nem pelo idealismo Eis o que parece ser a caracterização metafísica básica da vida ser é viver e contempla relação especial com o mundo A descrição da vida como vitalidade como foi feito por Ortega y Gasset em El Quijote en la Escuela ganhou aprofundamento na lição X de Que és Filosofia O adensamento filosófico e a identificação entre vida e ser fundamental aperfeiçoará a forma de avaliar o significado do corpo e do seu funcionamento Vida não é resultado de um processo biológico assunto que possa ser investigado pela ciência biológica Ele explica o que quer dizer 1997 Meu corpo mesmo não é mais que um detalhe do mundo que se encontra em mim detalhe que por muitos motivos é de excepcional importância porém que não deixa de ser apenas um ingrediente entre inumeráveis que há no mundo ante mim p 413 Os movimentos psíquicos os sentimentos e emoções por mais intensos e consoladores que sejam também não traduzem a realidade fundamental e como o corpo integram a circunstância Corpo e vida são objetos que podem ser estudados pela ciência como também afirma Karl Jaspers na sua Iniciação Filosófica 1987 O homem enquanto existência no mundo é objeto suscetível de conhecimento p 61 E como fizera seu contemporâneo Karl Jaspers Ortega y Gasset distinguirá vida dos processos estudados pela ciência No entanto ele não a identificará com liberdade como fez o filósofo alemão ao propor no espírito do kantismo que ser homem é fazerse homem idem p 67 Ortega y Gasset tratará a vida como um nível profundo de consciência expresso em Que és Filosofia do seguinte modo 1997 viver é o que fazemos e o que nos passa p 414 A definição explicita a consciência de viver do seguinte modo viver é essa realidade estranha única que tem o princípio de existir para si mesmo Todo viver é viverse sentirse viver saber se existindo donde saber não implica conhecimento intelectual nem sabedoria especial nenhuma idem p 414 Chegase com essa definição a esta outra característica filosófica da vida viver é consciência especial do que fazer de como se ocupar da circunstância ou nas palavras de Julián Marías seu intérprete mais conhecido e de forma mais sintética 2004 vida é algo que temos que fazer p 506 E o que temos que fazer tem na circunstância limite para escolhas Ao se aproximar das conclusões já construídas pela escola fenomenológica Ortega y Gasset considera a vida como um que fazer que necessita do eu e do mundo como instâncias inseparáveis Não se pode mais falar de um sem considerar o outro O homem relacionase com o que o circunscreve e o afeta quer sejam coisas materiais quer não Essas coisas tanto constituem oportunidade de realização de projetos como são limites que impedem sua realização O filósofo apresenta em Que és Filosofia um conceito de mundo definido como conjunto de coisas e acrescenta 1997 O importante não é que as coisas sejam ou não corpos senão que elas nos afetam nos interessam nos acariciam nos ameaçam e nos atormentam Originariamente isto que chamamos corpo não é senão algo que nos resiste e nos estorva ou nos sustenta e leva Mundo em sensu stricto é o que nos afeta p 416 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Ortega y Gasset rejeita a aproximação desse entendimento com a fenomenologia existencial e diz que o seu entendimento do mundo se afasta do de Martin Heidegger mas a aproximação com a forma fenomenológica de pensar é neste caso evidente em relação ao que Karl Jaspers denomina realidade a saber 1987 o que nos é presente na prática e que no convívio com as coisas com os seres viventes e com os homens nos oferece resistência ou se materializa p 69 Assim temos uma compreensão de mundo ou realidade como conjunto de coisas que nos afeta e do qual nós não conseguimos nos afastar Tal compreensão revela o caráter dramático da vida pois não há como se separar de um mundo que não se escolheu para viver Podemos fazer ou não coisas mas não podemos abandonar o mundo que nos é dado É o que diz Ortega y Gasset na obra examinada 1997 Isto dá à nossa vida um gosto terrivelmente dramático Viver não é entrar em um lugar previamente escolhido por gosto como se escolhe um teatro depois de jantar senão que é encontrarse de pronto e sem saber como caído submerso projetado em um mundo p 417 O conceito de drama existencial concebido por Ortega y Gasset e expresso na citação acima corresponde à noção de derrelição de Martin Heidegger para quem o homem tem que viver num mundo que não escolheu Dito por Heidegger ele se acha jogado nesse mundo nele entra sem razão prévia e de forma contingente É como alguém que acordasse à beira de um campo de futebol mas nunca tivesse visto nada daquilo nem as regras nem o equipamento usado pelos jogadores nem o existente nas arquibancadas nem o papel que as pessoas representam no estádio No entanto uma vez convocado é obrigado a entrar em campo para jogar e jogar para vencer Eis aí a terceira característica descoberta pela Filosofia sobre a vida vida é drama é estar num mundo que não se escolheu viver e do qual não há como escapar É ele que se tem para realizar o projeto vital A definição de vida como um que fazer na circunstância considera viver uma atividade contínua A vida é tarefa contínua Fazêla está nas mãos de cada sujeito explica o filósofo fomos jogados em nossa vida e isto em que fomos lançados temos de fazer por nossa conta por assim dizer fabricálo Ou dito de outro modo nossa vida é nosso ser idem p 418 Pois bem se viver é o que fazemos neste espaço em que fomos arremetidos temos os olhos voltados para o futuro estamos orientados para lá muito mais que condicionados pelo passado A abertura ao futuro como marca desse ser entendido como transcendência no tempo é compreensão que Ortega y Gasset compartilha com os filósofos existencialistas Seu entendimento se expressa na ideia de projeto o homem abrese ao futuro orientase em direção ao que ainda não é pois o homem nunca está pronto De que projeto falamos De um projeto vital a vida de cada pessoa adquire sentido na circunstância Explica o pensador viver é constantemente decidir o que vamos ser Não percebem o fabuloso paradoxo que isto encerra Um ser que consiste no que é e no que vai ser portanto no que ainda não é idem p 419 Chegamos a esta outra característica da vida que pode ser enunciada como se segue ela tomada como projeto é fundamentalmente o que ainda não é vida é futurição o que equivale a viver avançando para o futuro idem p 435 E aqui novo ponto de aproximação Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade com Martin Heidegger como já mostramos em outro texto 2002 viver é préocuparse é ocupar com o que haveremos de fazer sorge p 73 No ensaio Pidiendo un Goethe desde dentro Ortega y Gasset completa a caracterização da temporalidade humana Se vida é essencialmente futurição como se mostra no parágrafo anterior o passado de cada um e da sociedade não é no entanto desprezível Não se pode virar as costas para o passado e desconhecêlo É a ênfase no passado como saber acumulado que fornece os elementos para enfrentar as novas crises pelas quais passa a sociedade humana em diferentes períodos da história E o século passado viu surgir uma crise social profunda que Ortega y Gasset examinou na sua obra mais conhecida La rebelión de las masas 1930 Como entender essa crise A crise do século passado tem origem para Ortega y Gasset na sociedade de massas As massas desejaram assumir no século XX um papel que não tiveram em outras épocas elas quiseram se tornar as principais protagonistas da história O tempo das massas é o tempo da hiperdemocracia e da desvinculação entre esforço e vida nobre O assunto foi examinado em O século XX em El Espectador de Ortega y Gasset a crise como desvio moral Ali afirmamos que 2010 muito especializado e ignoravam quase todos os outros assuntos Estas minorias não formavam uma classe social ou grupo mas se definiam pelas funções que possuem A ignorância destas várias elites representa uma nova forma de barbárie que é complementada pela inocência infantil com que elas julgam a vida e a acham tudo muito fácil Esta interpretação que o filósofo elabora nos ensaios de El Espectador será desenvolvida em La rebelión de las masas livro onde explica que o homem do seu tempo deixou de se empenhar com afinco na edificação de uma vida melhor Este homem aceita a mesmice e se conforma com o modo de vida mais comum Este doutor ignorante e infantil é o homem massa O homem massa é o medíocre que não se arrisca em grandes obras e não se entrega a uma causa O homem massa não se empenha na condução da vida pessoal entendida como projeto vital e rigorosamente singular Uma vida humana plena implica no desenvolvimento de uma vocação singular Ela possui um caráter próprio é povoada por tensões e dramas oriundos do que fazer vital p 15 Portanto com a ideia de massa Ortega y Gasset anunciava a emergência de uma hiperdemocracia constituída paradoxalmente por um sujeito individualista e infantil o homem massa preocupado em assegurar o gozo imediato no mais das vezes irresponsável Ele antecipou muito bem o quadro descrito por Lipovetsky e Serroy em A cultura mundo 2011 embora não partilhasse das referências filosóficas da Escola de Frankfurt que marcam as análises dos dois autores do livro mencionado Vivemos num tempo afirmam os dois franceses de transformações que permitem falar de um novo regime de cultura o da hipermodernidade em que os sistemas e valores tradicionais que perduraram no período anterior não são mais estruturantes em que já não são verdadeiramente operantes senão os próprios princípios da modernidade Além da revitalização das identidades coletivas herdadas do passado é a hipermodernização do mundo que avança remodelado que ele está pelas lógicas do individualismo e do consumismo p 13 A característica fundamental da crise do século XX era uma atitude comum que para Ortega y Gasset marcava a relação entre a massa e a minoria da sociedade É bom lembrar que para o filósofo esta é uma divisão comum a todas as sociedades O que ele observa é que no século XX as minorias mais bem educadas nos diversos campos culturais não assumiam a tarefa de dirigir a sociedade não respondiam aos novos desafios que a vida apresentava mas cultivavam um saber Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Esse é o tempo em que as massas desejam ser sujeito da história e em que se perdem as referências do passado Quando no espaço social os desafios não encontram referências em que se apegar e resolver os problemas a vida mostra a sua face de risco de perigo e naufrágio O assunto será também mencionado em Ensimesmamiento y Alteración 1939 em que a noção de perigo se explicita no espaço social No ensaio sobre Goethe o assunto ganha tratamento metafísico e se expressa segundo síntese de Gilberto Kujawski do seguinte modo 1986 o perigo é coextensivo à vida mesma De forma radical o perigo como substância da vida esta consiste substancialmente em perigo p 3 Chegase assim à outra característica da vida pelo risco que lhe é inerente Vida é risco Para enfrentar o risco é preciso se agarrar na cultura nas experiências que ela acumulou É nela que o homem vai encontrar os elementos importantes para se defrontar com a verdade da sua vida e construir o seu projeto vital Há na compreensão orteguiana muita semelhança com o que diz Karl Jaspers sobre o sentido do passado na existência 1987 a experiência do presente compreendese melhor refletida no espelho da história p 89 No entanto a própria vida se incumbe de estabelecer o sentido do risco para superar explica em Ensimesmamiento y Alteración 1994 o grande inconveniente de que o homem acredite estar seguro e perca a emoção do naufrágio é que a cultura se torne obra parasitária p 397 A vida portanto é risco perigo mas há na cultura os elementos com os quais o homem pode reconstruir suas crenças E então quando não há verdades prontas a que se apegar o momento em que os braços voltam a se agitar salvadoramente idem p 397 A salvação da vida ocidental está na consciência dos riscos do naufrágio que chega com o tempo das massas e da hiperdemocracia Este é o risco que a vida corre em nosso tempo avaliava Ortega y Gasset como já foi dito em Introdução à Filosofia da Razão Vital 2002 O homem massa é insensível ao legado das antigas gerações incapaz de novos esforços cego para o fato de que a vida autêntica é aquela que se sabe desafio p 76 Uma rápida descrição do que está ocorrendo em nossos dias próximo aos sessenta anos de sua morte mostra a nova face da sociedade de massas individualismo exacerbado hiperdemocracia desconfiança dos valores hedonismo consumista e irresponsável aspectos suficientes para perceber que os riscos identificados por Ortega y Gasset permanecem no que ele denominou de nova barbárie a massa Vivemos numa sociedade de massa ainda mais consumista que a observada por nosso filósofo no século que findou O problema não é o ser sociedade de consumo mas ser tempo de massas O livro Unas lecciones de metafísica foi elaborado segundo testemunho de Julián Marías a partir de um curso ministrado em 19323 na Universidade de Madrid cujo título era Princípios de metafísica segundo a razão vital O curso revela uma doutrina original e com princípios claros que permite adaptála às diferentes situações inovála e modificála Nas Obras Completas os manuscritos do curso foram completados com anexos deixados por Ortega y Gasset Um se refere especificamente à lição VI e o outro tem caráter geral Os anexos tinham merecido uma edição separada na Revista do Ocidente em 1965 mas aparecem Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade publicados junto ao corpo do livro na ocasião da edição das Obras Completas Sobre o curso que deu origem ao livro escreveu Marías 1991 Nestas lições aparece in statu nascendi a metafísica de Ortega a que desde então chamava metafísica segundo a razão vital Tem se presente quanto caminho percorreu a metafísica que zonas da realidade explorou até onde levou a visão desveladora e conceitual da realidade podese ter a impressão adequada de sua vitalidade como atitude p 209 A reflexão metafísica tem por propósito saber o que são as coisas de modo radical É da reflexão metafísica que surge a descrição da vida como processo especial de consciência que se apresenta com mais três características listadas pelo filósofo 1997 1 A vida se inteira de si mesma 2 a vida se faz a si mesma e 3 a vida se decide a si mesma p 47 Ele também trata a vida como consciência do seguinte modo todo viver é viverse sentirse viver saberse existindo donde saber não implica conhecimento intelectual nem sabedoria especial nenhuma senão que é essa surpreendente presença que sua vida tem para cada qual sem esse saberse sem esse darse conta a dor de dentes não me doeria idem p 33 O conhecimento metafísico fornece não a posse da coisa mas seu ser Fazer e pensar são regiões diferentes da vida de cada pessoa O que o pensar metafísico revela Na compreensão orteguiana que o mundo das coisas é um grande vazio de ser A metafísica procura justamente clarear o que há para além do que aparece ensina o filósofo no texto transcrito a seguir na pergunta que é a Terra o interlocutor aspira a chegar a esse vazio a encontrar por trás desse não ser da Terra seu caráter positivo a substituir a impressão de insegurança que experimentamos por um estado de segurança idem p 86 Pois bem a vida é circunstancial viver é encontrarme queira ou não entregue a uma circunstância idem p 47 Dela é preciso me ocupar o que significa que o sujeito executa um plano único A metafísica lhe fornece tal plano Esse plano é particular como já dissemos pois a vida de cada sujeito é singular Daí se constata outra característica fundamental da vida o plano que é arquitetado pelo sujeito é elaborado na mais absoluta solidão explica Ortega y Gasset de verdade fazemos metafísica quando fabricamos nossas convicções radicais o que temos que fazer cada qual por si em radical solidão idem p 101 Podese fazer a seguinte síntese com as características enumeradas pelo filósofo a vida é um saberse vivendo em solidão As duas grandes perspectivas desenvolvidas na tradição filosófica são para Ortega y Gasset como foram para o filósofo alemão Emmanuel Kant a realista e a idealista Tratase de reconhecimento da validade da interpretação kantiana da tradição filosófica Para Kant a metafísica havia desde a Grécia antiga feito a consciência orbitar em torno das coisas e ele estava propondo outra forma de metafísica cujas bases foram construídas na modernidade e faz o objeto 1987 se regular pela natureza da nossa faculdade da intuição p 14 As duas perspectivas representam em síntese o esforço humano para vencer a insegurança da perda de certezas que ocorre com as mudanças na compreensão das coisas A tese idealista avalia Ortega y Gasset é mais completa que a anterior reúne o trabalho de muitos filósofos modernos mas tem como problema que a realidade não representada na consciência parece seguir independente dela Além disso se o idealismo estivesse certo só existiria pensamento o que parece absurdo avalia Ortega y Gasset no texto que se segue Se a realidade radical é o pensamento quer dizer que propriamente falando não há mais que pensamento Adeus coisas mundo amigos Tudo isto não é em verdade mais que um enxame de ideias Sou um cego que sonhava que via idem p 122 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O homem precisa estar ante as coisas para que elas existam mas o real não é só pensamento pois o que existe é mais que pensamento Assim também eu não sou minha vida pois ela é mais que o eu As considerações de Ortega y Gasset revelam a vida como resultado de duas instâncias uma imanente e outra transcendente como se vê no texto a seguir as coisas não são eu nem eu sou as coisas porém ambos somos imanentes a esta coexistência absoluta que é a vida idem p 127 Pode se chegar assim a uma síntese final das análises orteguianas a vida é coexistência absoluta do eu e das coisas implica um que fazer na circunstância A apresentação da vida como assunto fundamental da Filosofia é o tema central da meditação orteguiana Foi o que pudemos apontar nesse comentário Vida é a questão nuclear da filosofia orteguiana Ao tratar do entendimento orteguiano da vida optou se por acompanhar a caracterização construída pelo pensador ao longo de sua trajetória intelectual Nesse sentido as obras Qué és Filosofia e Unas Lecciones de Metafísica representam o ponto culminante embora não exclusivo de sua reflexão porque nos dois livros o problema da vida é inserido na tradição filosófica do ocidente Na verdade boa parte dos textos elaborados a partir dos anos trinta revela a sua compreensão metafísica da vida A tipificação fica mais densa e o filósofo precisa aspectos do problema investigado durante as primeiras décadas de seu labor intelectual Os dois livros mostram a interpretação orteguiana da história da Metafísica Assim ao lado de sua meditação clara e criativa acerca da vida manifestase o conhecimento do professor de Metafísica cujas lições apresentam a procura histórica da verdade como a formação de crenças que dão serenidade ao homem em meio à dramaticidade e mudanças da vida A realidade radical buscada 335 Para finalizar o comentário sobre o raciovitalismo de Ortega y Gasset na história da filosofia se concretiza em teorias que integram a circunstância das diferentes gerações A interpretação orteguiana da história da Metafísica propõe um ideal de aperfeiçoamento da consciência expresso em formulações que se não são completas podem ser menos incompletas com as sucessivas reconstruções A caracterização da vida tornouse em nosso tempo um problema filosófico Assim é pela insuficiência teórica do idealismo e do realismo explica Ortega y Gasset As duas perspectivas produziram ao longo da história muitas verdades sobre a vida algumas antagônicas mas todas parciais É pela Filosofia que se busca responder à pergunta radical pelo fundamento e com ela alcançar a verdade radical e superar a parcialidade das verdades formuladas Como Ortega y Gasset avalia que nenhuma das duas perspectivas metafísica resolveu o problema de forma completa procurou reelaborar o idealismo transcendental Foi o que pretendeu com a caracterização da vida que elaborou no que denominou de metafísica da razão vital mas não deixou de estar assim parece na perspectiva transcendental Seu projeto aproximase do de Edmund Husserl do final da vida Seu esforço mostra que embora insuficientes permanecem as duas perspectivas como pontos de vista últimos da meditação filosófica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 34 O intencionalismo gramatical de Wittgenstein 341 A filosofia da linguagem em Wittgenstein Wittgenstein é considerado por alguns como o maior filósofo do século XX Ele é um dos responsáveis por mudanças de rumo na filosofia analítica de sua época Influenciou pensadores do Círculo de Viena como Carnap e pensadores mais ligados à filosofia da linguagem ordinária como John Wisdom Daí a importância do estudo de seu pensamento para compreender a filosofia do século passado O pensamento filosófico de Wittgenstein possui dois momentos distintos representados pelas suas duas obras mais importantes o Tractatus e as Investigações Filosóficas No Tractatus ele apresenta uma concepção de linguagem que explica metafisicamente a capacidade que a linguagem tem de descrever o mundo Mas a metafísica envolvida só pode ser intuída não podendo ser colocada em palavras Nas Investigações ele critica sua posição metafísica no Tractatus e adota uma nova postura metodológica perguntando não pela essência das coisas mas sim pelo uso das palavras que supostamente designariam essas coisas Nas duas fases Wittgenstein parece ter permanecido fiel a uma forma de misticismo baseado no cristianismo tolstoiano e vivenciado em silêncio 342 A Filosofia do Tractatus 3421 O contexto do Tractatus O primeiro deles formado por James Tolstoi Schopenhauer e Weininger caracteriza a tendência éticometafísica na qual se enfatiza uma certa forma de misticismo As ideias desses autores convergem no sentido de assumir que o sentido da vida é dado por uma experiência mística de natureza contemplativa Essa experiência só é possível a partir de um esforço sobre humano uma verdadeira revolução interior Além disso a descrição linguística dessa experiência é considerada muito difícil ou mesmo impossível O Tractatus só pode ser entendido a partir de uma reconstituição da atmosfera intelectual e da problemática que o motivaram A análise do contexto desta obra envolve a consideração de certos autores que marcaram o pensamento austríaco e britânico no início do século XX e de certos aspectos da vida do jovem Wittgenstein Estes autores podem ser reunidos em três grandes grupos Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade O segundo grupo é formado por Frege Russell Hertz e Boltzmann caracterizando a tendência lógicocientífica Esses autores consideram que a descrição científica do mundo é possível desde que seja feita uma análise lógica adequada da linguagem científica Por meio dessa análise são revelados muitos falsos problemas decorrentes de um uso inadequado da linguagem A análise lógica produz a clareza conceitual necessária para o avanço do conhecimento científico O terceiro grupo possui um único representante Mauthner que pretende fazer uma crítica da linguagem no sentido de tornar claros o alcance e os limites da linguagem A tese mais importante da crítica da linguagem mauthneriana é que a realidade está sempre um passo adiante da linguagem Essa última embora lute desesperadamente para expressar a realidade jamais terá sucesso nessa empreitada Desse ponto de vista não é apenas a experiência mística que é indescritível a ciência da natureza se revela também impossível A linguagem é incapaz de expressar qualquer conhecimento Mauthner professa um ceticismo extremo segundo o qual devemos parar de fazer perguntas e de buscar respostas A filosofia do Tractatus surgiu da problemática gerada pelo entrecruzamento das doutrinas provenientes das três tendências acima descritas A partir do contato que teve com os autores considerados o jovem Wittgenstein identificou um conflito perturbador entre eles e tentou resolvêlo Em suas grandes linhas o conflito pode ser descrito como segue Mauthner afirma que a linguagem é incapaz de descrever a realidade e que devemos refugiarnos no místico Por um lado ele deve ter alguma razão já que os autores ligados às preocupações ético metafísicas convergem ao apontar para a enorme dificuldade da linguagem em descrever a vivência mística da contemplação racional Por outro lado ele deve estar errado em algum ponto já que os autores ligados à tendência lógicocientífica convergem ao apontar para a possibilidade de descrição científica do mundo através de modelos logicamente articulados O problema está em estabelecer de maneira criteriosa e do interior da própria linguagem o que pode e o que não pode ser dito Assim o conflito e as doutrinas envolvidas apontam para a necessidade duma nova delimitação que deverá ser feita através de uma nova crítica da linguagem que se revele mais adequada que a mauthneriana A problemática acima descrita se articula com a vida de Wittgenstein à época da redação do Tractatus Por um lado ele acreditava que o sentido da vida era dado pelo cristianismo tolstoiano que buscava o sentido da vida através da contemplação de Deus Faltava porém experimentar a vivência autêntica do sentido da vida a contemplação beatífica para tornarse um homem em sentido completo Esta carência o deixava existencialmente angustiado já que suas convicções morais exigiam implacavelmente que ele atingisse a contemplação beatífica Por outro lado Wittgenstein acreditava contra Mauthner na possibilidade duma descrição científica do mundo através dos modelos de Hertz e Boltzmann Mesmo assim ele estava atormentado pelos problemas lógicos de orientação fregiana e russelliana os quais embora pudessem ser utilizados como ferramentas auxiliares para construir a descrição científica do mundo nada pareciam ter a ver com as suas convicções éticas Seu problema era articular a lógica e a ética Ou ainda mais rigorosamente seu problema era encaixar a lógica no seu projeto ético já que segundo suas convicções mais profundas era preciso ser antes um homem completo para depois ser um lógico A solução do problema ético de estabelecer as condições necessárias para vivenciar a contemplação beatífica foi alcançada através do expediente suicida de alistarse como voluntário no exército austríaco o sentido da vida só se torna claro quando se está próximo da morte Tudo indica que a situação extrema da guerra criou as condições para que Wittgenstein tivesse a desejada experiência mística James Schopenhauer Weininger e Tolstoi A solução do problema lógico foi obtida através da Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade empreitada suicida da crítica da linguagem Mauthner só que numa perspectiva transcendental Schopenhauer Isso implica não apenas recorrer a elementos da teoria dos modelos Hertz Boltzmann para explicar o funcionamento da linguagem mas também em utilizar a lógica matemática Frege Russell numa perspectiva inesperadamente transcendental Aqui também a situação limite da análise das condições de possibilidade da linguagem permitiu que Wittgenstein criasse as condições necessárias para estabelecer os limites intrínsecos da linguagem O resultado final foi a desejada conciliação das pesquisas lógicas com as convicções éticas Unindo filosofia e vida da maneira mais radical possível Wittgenstein conseguiu elaborar a filosofia tracatiana em que um ponto de partida extremamente sofrido cria as condições duma clarificação paradoxalmente harmoniosa Em suas linhas gerais a filosofia do Tractatus é uma crítica da linguagem Esta crítica da linguagem corresponde a uma análise transcendental da proposição e se baseia nos seguintes princípios a a unidade linguística básica para efetuar a análise da linguagem é o conteúdo descritivo expresso pela proposição b para estabelecer as condições transcendentais de possibilidade da linguagem basta estabelecer as condições transcendentais de possibilidade do conteúdo descritivo proposicional O principal resultado da crítica da linguagem é o postulado transcendental segundo o qual o sentido duma proposição qualquer é determinado porque as proposições complexas equivalem a combinações lógicas de proposições atômicas que são por sua vez combinações lógicas de signos simples Estes últimos não existem como fatos linguísticos mas subsistem como condições de possibilidade ou coordenadas transcendentais dos fatos linguísticos Por essa razão jamais teremos acesso direto aos signos simples ou às suas combinações proposições atômicas no mundo dos fatos Mesmo assim a existência desses signos é uma condição necessária da determinabilidade do sentido da proposição Eles são indivisíveis e poderíamos dizer que seu conjunto constitui a substância da linguagem a base permanente e imutável a partir da qual a diversidade das proposições que descrevem as situações mundanas é construída Aplicada ao mundo a crítica da linguagem desemboca no atomismo transcendental O princípio em que o Tractatus se baseia para chegar a esse atomismo é a ideia de que existe um paralelismo estrito entre a linguagem e o mundo Com base nesse princípio Wittgenstein estabelece que cada signo simples deve designar necessariamente um objeto simples Este último também deve ser indivisível e associado aos demais objetos simples constitui a substância do mundo a base permanente e imutável a partir da qual a diversidade dos fatos atômicos ou estados de coisas é construída Em paralelismo com os signos simples podemos afirmar que os objetos simples não existem 3422 A crítica da linguagem e seus resultados Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade como fatos mundanos mas subsistem como condições de possibilidade ou coordenadas transcendentais dos fatos mundanos Enquanto pertencente à substância do mundo cada objeto simples deve possuir uma forma lógica tal que todas as suas possíveis combinações com outros objetos simples já estejam estabelecidas a priori Se nos fosse dado conhecer todos os objetos simples que compõem a substância do mundo seríamos capazes de conhecer simultaneamente todas as suas combinações possíveis Tais combinações ou estados de coisas correspondem às unidades mínimas a que podemos chegar através da análise do mundo Nesse sentido os estados de coisas são fatos indivisíveis e independentes entre si da mesma forma que as proposições atômicas são indivisíveis e independentes entre si O conjunto formado por todos os estados de coisas existentes ou não constitui a realidade Subconjuntos da realidade constituem situações O mundo constitui o subconjunto da realidade que é formado pelos estados de coisas existentes Analogamente ao que acontece com as proposições complexas as situações mundanas são fatos complexos que se reduzem a articulações de fatos atômicos Se aceitarmos o postulado transcendental verificamos que a linguagem natural está logicamente em ordem Ela possui a mesma estrutura que o mundo e é justamente essa similaridade estrutural que possibilita a descrição dos fatos do mundo Isso implica nos levar a reconhecer que a lógica funciona como o cimento comum que organiza a linguagem e a realidade A lógica constitui a essência do mundo porque atua como lei transcendentalmente estruturante da linguagem e da realidade em dois níveis Em nível dos fatos atômicos a forma lógica é a condição de possibilidade de a figuração afigurar o figurado Tanto os objetos simples que constituem a substância do mundo como os signos simples que compõem a substância da linguagem estão contidos num espaço lógico que determina todas as suas combinações possíveis Em nível das combinações lógicas das proposições elementares entre si e dos fatos atômicos entre si a lógica é a condição de possibilidade da constituição das proposições complexas e dos fatos complexos Nos dois casos o que introduz as possibilidades de combinações é a bipolaridade o estado de coisas atômico pode existir ou não a proposição elementar pode ser verdadeira ou falsa Graças a isso no caso das proposições elementares por exemplo a lógica determina a priori todas as combinações possíveis de seus valores de verdade e todas as funções de valores de verdade que podem ser construídas a partir dessas combinações Nesse sentido a estruturação das proposições complexas da nossa linguagem é feita de maneira puramente lógica O mesmo se aplica mutatis mutandis para os fatos complexos ou situações mundanas efetivas Depois de analisar radicalmente as condições transcendentais de possibilidade da linguagem e do mundo Wittgenstein aplica seus resultados à lógica à matemática à física à ética e à metafísica No que diz respeito à lógica suas proposições nada dizem Nesse sentido ela não constitui e nem pode constituir um corpo de doutrina Mesmo assim as proposições da lógica mostram a essência da linguagem e do mundo Isso faz dela uma imagem especular da estrutura do mundo A matemática constitui um método lógico mas não se reduz à lógica É certo que as proposições da matemática não exprimem pensamentos que elas apenas mostram a estrutura do mundo que a generalidade matemática não é acidental e que o conceito de número é obtido a partir dum processo análogo ao da forma geral da proposição Mesmo assim a matemática trabalha com equações que envolvem a identidade a qual não pode ser representada através das funções proposicionais da lógica o método lógico por excelência é o modus ponens enquanto o da matemática é o da substituição o objeto da lógica é a proposição enquanto o da matemática é o número em nossa vida cotidiana as proposições da lógica poderiam ser dispensadas mas não as da matemática Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade A física parece consistir numa adaptação da teoria dos modelos de Hertz e Boltzmann aos principais aspectos da ontologia tractatiana Um dado sistema de mecânica é caracterizado como uma rede conceitual que estabelece um padrão a partir do qual podem ser deduzidas todas as proposições verdadeiras que precisamos para descrever o mundo As leis físicas correspondem à parte a priori da rede as proposições verdadeiras que a rede deduz permitem o contato da rede com o mundo Desse modo uma rede conceitual logicamente necessária pode ser utilizada para descrever um mundo fatualmente contingente O fato de um determinado sistema de mecânica poder ser utilizado para descrever o mundo nada diz sobre este último mas pelo menos mostra alguma coisa a seu respeito No caso da ética o conceito tractatiano de sujeito transcendental produz as seguintes consequências paradoxais Primeiro o sentido do mundo está no limite do mundo e portanto fora dele A ética é transcendental Segundo as proposições da ética são impossíveis porque tentam descrever algo que está fora do mundo e portanto não é fato Como a ética e a estética são uma só o mesmo se aplica às proposições da estética Terceiro a ação moral só pode ocorrer nos limites do mundo Assim se por um lado ela é incapaz de alterar o mundo de dentro por outro ela altera inexprimivelmente os limites do mundo e nesta perspectiva acaba por alterar o próprio mundo Nessa perspectiva a solução do enigma da vida se dá através duma experiência mística que paradoxalmente nos coloca fora do mundo Isso tudo nos mostra finalmente a verdadeira face da metafísica O ceticismo não constitui uma posição inexpugnável mas sim um contrassenso pois pergunta o que não pode ser perguntado A solução de todos os problemas científicos deixaria intocada a questão sobre o sentido da vida Em virtude disso o método correto em filosofia consiste em mostrar que as proposições metafísicas não são autênticas proposições porque lhes falta o adequado conteúdo descritivo Esse desmontar dos problemas e respostas metafísicos pode ser decepcionante mas constitui o único método possível em filosofia Em síntese o resultado da crítica tractatiana da linguagem produz uma verdadeira revolução quanto ao papel da filosofia em nossas vidas A crítica da linguagem deve ser entendida como uma atividade não como uma doutrina Ao realizarse essa crítica mostra que nem a questão e nem a resposta sobre o sentido da vida podem ser expressas pela linguagem Ao clarificar a lógica da linguagem a crítica torna patente a impossibilidade do discurso filosófico até mesmo daquele através do qual ela se expressa Ela mostra não apenas que o enigma não existe mas também que é vedado dizer que o enigma não existe A percepção disso sob a forma de clarificação inexprimível só se torna possível depois da tentativa suicida de expressar linguisticamente as condições transcendentais de possibilidade da linguagem Nessa perspectiva a experiência filosófica que o Tractatus tenta expressar é a do renascer em silêncio depois da morte do discurso O sentido da vida existe só que ele se mostra através duma experiência mística indizível do sujeito transcendental O sentido da vida ilumina e perpassa todo o nosso discurso mas mesmo assim não pode ser colocado em palavras Isso nos leva à mensagem fundamental do Tractatus cumprir o dever ético interior de investigar radicalmente a linguagem reconhecendo assim a incapacidade congênita desta última para descrever o sentido da vida e então recolherse à beatitude do autoconhecimento silencioso A partir da interpretação acima podemos dizer que há um espantoso paralelismo entre a vida de Wittgenstein e o texto do Tractatus Para resolver seu problema ético ele se alista como voluntário Isso envolve a decisão de subir a sofrida escada ética oferecida pelas condições extremas do campo de batalha Para resolver seu problema lógico ele empreende a crítica da linguagem Isso envolve a decisão paralela de subir a sofrida escada lógica oferecida pelas condições autofágicas da crítica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade da linguagem Assim da mesma forma que a negação da vontade individual constitui o ponto de passagem para a experiência mística a autorrejeição das proposições do Tractatus ao invés de expor o discurso wittgensteiniano ao ridículo constitui a sua chave de ouro O aforismo 7 expressa o esclarecimento final da análise lógica e sua contrapartida ética Tratase paradoxalmente de uma autofagia consistente Wittgenstein rejeita a imagem da essência da linguagem que é pressuposta pela filosofia tractatiana Ele mostra que essa imagem é pressuposta também por Santo Agostinho nas Confissões e possui dois aspectos fundamentais a palavras individuais são nomes de objetos b sentenças são combinações de palavras individuais E dessa imagem se origina a ideia de que cada palavra tem um significado que é o objeto que a palavra representa O significado duma palavra é dado por definição ostensiva apontar para o objeto e pronunciar a palavra correspondente Ora consideremos a sentença ele tem cinco maçãs vermelhas É claro que a imagem e a ideia que ela sugere são falhas aqui Por exemplo as palavras vermelho e cinco não parecem representar qualquer objeto De fato vermelho está ligado a uma amostra numa tabela de cores e cinco exige uma operação de contar estabelecendo uma correspondência entre cada maçã contada e um número Em ambos os casos não é o significado que está em questão mas como as palavras são usadas Uma linguagem para a qual a imagem agostiniana fosse correta seria muito simples e algumas expansões da mesma exigiriam mais do que a mera ostensão para serem aprendidas Fatos como esses levaram Wittgenstein à conclusão de que as funções das diferentes palavras na linguagem são similares às funções das diferentes ferramentas numa caixa A definição ostensiva pressupõe um conhecimento prévio da linguagem A imagem agostiniana implicitamente se baseia no fato de que já conhecemos a linguagem antes mesmo de aprendêla Wittgenstein também rejeita o atomismo tractatiano Isso está ligado à rejeição de sua concepção de um nome próprio autêntico que é definido como um signo simples designando um objeto simples A ideia de nome próprio autêntico surgira da avaliação tractatiana dos nomes próprios na linguagem ordinária Por exemplo Excalibur é um nome próprio ordinário que designa uma espada particular Ora a sentença Excalibur é pesada tem um sentido mesmo se a espada estiver quebrada 343 As Investigações Filosóficas de Wittgenstein 3431 A crítica do Tractatus A filosofia segundo Wittgenstein é melhor compreendida quando contrastada com a filosofia tractatiana Na verdade a perspectiva filosófica das Investigações se desenvolve a partir duma crítica radical do Tractatus No que segue apresentaremos alguns dos principais aspectos dessa crítica Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Mas se Excalibur nomeia um objeto ela deixará de fazê lo assim que o objeto não mais exista como tal Nesse caso o nome Excalibur não teria significado e a sentença seria um contrassenso Mas a sentença faz sentido mesmo se a espada estiver quebrada Portanto Wittgenstein concluía no Tractatus deve haver um conjunto de objetos simples que constituem o significado dos signos da sentença em questão e a análise da mesma deve levar a signos simples nomes próprios autênticos que necessariamente designam tais objetos Portanto a palavra Excalibur deve desaparecer quando o sentido da sentença tiver sido completamente analisado Contra essa análise tractatiana o segundo Wittgenstein considera que a palavra significado está sendo usada ilicitamente se com ela queremos designar o objeto simples que corresponde ao nome próprio autêntico Um nome pode ter um lugar na linguagem mesmo se o objeto que ele designa não mais existe ou nunca existiu Na verdade a sentença sobre Excalibur tem um sentido porque pertence a uma linguagem na qual um nome pode ser usado na ausência do objeto que ele designa Mas podemos imaginar uma linguagem tal que seus nomes não possam ser usados na ausência dos objetos que eles designam Tais nomes poderiam sempre ser substituídos por um pronome demonstrativo mais o gesto de apontar para o objeto Nesse caso teríamos apenas demonstrativos e não nomes Além disso a palavra simples significa não complexo Mas a palavra complexo é usada numa variedade de modos que são diferentes entre si e diferentemente relacionados entre si Assim a busca pelos metafisicamente simples depende dum uso indevidamente limitado das palavras simples e complexo Tudo depende de como compreendemos tais palavras e a consciência desse fato leva à rejeição da questão metafísica pelos simples A crítica do segundo Wittgenstein envolve a própria ideia de análise tão cara ao Tractatus Para mostrar que ela é incorreta suponhamos duas linguagens L1 e L2 tais que a em L1 objetos compostos têm nomes b em L2 apenas as partes de objetos compostos possuem nomes e os todos formados por essas partes são descritos através dos nomes das partes Em que sentido uma sentença de L2 é uma forma analisada duma sentença de L1 A primeira está implicitamente escondida na segunda Alguém poderia dizer por exemplo que uma ordem formulada em L2 significa ou produz o mesmo resultado que uma ordem formulada em L1 Mas isso não é idêntico a dizer que alcançamos um acordo geral sobre o uso da expressão ter o mesmo significado ou produzir o mesmo resultado Se a pessoa a quem são dadas as ordens em ambas essas linguagens tiver que conferir uma tabela coordenando nomes e imagens de objetos antes de executar o que foi ordenado de um certo ponto de vista ela não fará a mesma coisa quando executando uma ordem formulada em L1 e a sua correspondente tradução em L2 Assim a ideia de que L2 é a forma analisada e mais fundamental de L1 embora sedutora é enganosa É verdade que L2 pode ser considerada como fornecendo algo mais que L1 Mas L1 também pode ser considerada como fornecendo algo mais que L2 3432 A nova filosofia das Investigações Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Para superar as dificuldades do Tractatus o segundo Wittgenstein desenvolve uma concepção original do significado O princípio básico desta concepção é o de que o significado duma palavra é seu uso na linguagem Mas é muito importante observar que o princípio não parece ser tomado literalmente por Wittgenstein Como será mostrado em breve tomálo literalmente poderia envolver um retorno ao essencialismo Assim o espírito da filosofia das Investigações parece exigir que tal princípio seja tomado num sentido programático A esse respeito podese formular o programa do segundo Wittgenstein como uma tentativa de substituir a questão essencialista tradicional o que é x pela questão alternativa como se usa a palavra x Se a tentativa for bemsucedida a busca filosófica pela essência nada mais será que a busca por um fantasma Isso porque seríamos capazes de deixar de lado a busca pela abstrata e fugidia essência designada por uma palavra e substituir essa busca inglória pela mera descrição dos usos concretos da palavra em questão Assim a difícil e complicada questão o que é o significado seria substituída por como é a palavra significado usada em nossa linguagem A nova abordagem de Wittgenstein pode ser condensada através da seguinte diretiva que caracteriza o método de análise predominante na sua segunda filosofia não procure o significado duma palavra procure ao invés pelo seu uso Duas consequências importantes se seguem imediatamente ao princípio programático Primeiro não há mais necessidade de procurar por aquilo a que uma palavra se refere Isto é o compromisso referencial que é tão caro às teorias realistas do significado tornase dispensável Segundo também não há mais necessidade de assumir a existência do ato mental de significar Com efeito o focalizar a atenção no uso da palavra torna dispensável o apelo a qualquer operação mental para explicar o significado Essas consequências constituem aspectos duma concepção do significado que é uma alternativa original não apenas à filosofia tractatiana mas também à filosofia tradicional em geral Vejamos como O abandono do referencialismo está ligado à constatação de que o significado do nome não deve ser confundido com o portador do nome A ideia tractatiana de que o significado do nome é o objeto simples que a ele corresponde está baseada exatamente nesta confusão Quando uma pessoa chamada N morre dizemos que o portador do nome N morre não que seu significado morre A aceitação da filosofia tractatiana implicaria que a sentença N está morto seria um contrassenso se N deixasse de ter significado Ora o nome ainda tem um lugar na nossa linguagem mesmo depois da morte de seu portador O princípio programático das Investigações nos diz que para uma grande classe de casos o significado duma palavra é o seu uso na linguagem No caso do significado dum nome próprio ele é algumas vezes mas não sempre dado pelo apontar ao seu portador A palavra nome é um título para incontáveis listas diferentes de regras Por exemplo nosso uso de nomes de objetos espaciais depende dum critério de identidade que pressupõe a impenetrabilidade e a continuidade dos movimentos nosso uso de nomes de rios depende dum critério de identidade que é baseado na direção dos movimentos etc Essa concepção diversificada do funcionamento dos nomes é a alternativa oferecida por Wittgenstein à perspectiva estrita do Tractatus Se isso é verdade então o referencialismo representado pelo modelo objetodesignação não mais tem nas Investigações a posição privilegiada que teve no Tractatus Assim a ideia tractatiana de que o nomear é um processo oculto uma conexão ímpar entre uma palavra e um objeto resulta da tendência filosófica de sublimar a lógica da linguagem ordinária E o que se encontra na base dessa tendência é a concepção Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade platônica de que a essência do discurso é a composição de nomes de objetos simples que podem ser apenas nomeados e não descritos ou seja o compromisso referencial tradicional A dispensa do ato mental de significar como elemento importante na explicação da linguagem está ligada às seguintes considerações De acordo com o Tractatus a linguagem ordinária pressupõe uma linguagem perfeitamente descritiva Mas esse fato exige uma grande quantidade de operações mentais implícitas para estabelecer uma correspondência entre essas linguagens e entre elas e o mundo Assim o pensamento no Tractatus tem de garantir tanto as relações da linguagem ordinária com a linguagem perfeitamente descritiva como as relações desta última com a realidade Essa exigência é excessiva e a nova abordagem de Wittgenstein dispensa tudo isso pois a consideração do uso da palavra não requer o apelo tradicional a qualquer operação mental seja ela implícita ou não para explicar o significado A suposição de que há um ato mental implícito de significar está tão enraizada em nosso pensamento filosófico que Wittgenstein se sente obrigado a criticála usando uma diferente linha de argumentação Ele sugere alguns experimentos que mostram a dependência do ato de significar com respeito ao ato de combinar palavras particulares de um modo determinado O objetivo de tais experimentos é desmascarar a ilusão habitual da filosofia tradicional que encara o significado como algo existente previa e independentemente das palavras e suas combinações Como exemplos desses experimentos podem citarse a tentar pensar e significar o pensamento expresso por uma sentença sem a própria sentença b usar as letras a b c d para significar com elas amanhã vai chover muito c tentar significar que está quente usando a sentença está frio etc O resultado negativo desses experimentos é a conclusão de que não há processo espiritual de significar Nós calculamos com as palavras Nem mesmo Deus seria capaz de ver sobre o que estamos falando se olhasse no interior de nossas mentes A palavra significado é apenas uma entre outras e tem usos diferentes em circunstâncias diferentes A questão o que é o significado pressupõe um compromisso essencialista e pode ser dispensada O critério para saber o que uma pessoa significa com uma palavra é o uso que essa pessoa faz da mesma Eis por que não se pode tomar o princípio de Wittgenstein literalmente Com efeito isso equivaleria a afirmar que a essência do significado é o uso sucumbindo assim em uma nova forma de essencialismo A consideração do uso e não do significado também requer um novo quadro conceitual para descrever o funcionamento da linguagem As principais características desse quadro vêm apresentadas a seguir Inicialmente as palavras são usadas de modo tal que não designam uma característica comum dos objetos ou entidades que elas representam Por exemplo a palavra jogo não designa algo que é comum a todos os jogos mas antes uma teia complicada de similaridades que se sobrepõem e entrecruzam Essas similaridades são melhor caracterizadas pela expressão semelhanças de família todas as coisas que denominamos jogos se assemelham umas às outras do mesmo modo que os membros duma mesma família se assemelham uns aos outros Assim dois parentes podem ter o nariz o cabelo e o formato da perna semelhantes dois outros podem ter os olhos o nariz a boca e os braços semelhantes Através dessas semelhanças que se sobrepõem e entrecruzam sabemos que essas pessoas pertencem à mesma família Mas seria insensato supor que há um modelo ideal que serviria para todos os membros daquela família Do mesmo modo alguns jogos podem ser individuais e terem como objetivo passar o tempo outros jogos podem ser coletivos e terem como objetivo a vitória outros podem ser coletivos e ter como objetivo passar o tempo etc Sabemos que essas atividades são jogos em virtude das semelhanças que se sobrepõem e se entrecruzam Mas seria também insensato supor aqui que há um jogo ideal um modelo Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade que se aplicaria a todos os jogos possíveis Existe uma família de jogos mas não uma essência do jogo que seria comum a todos os jogos Ao colocar em proeminência os usos das palavras sobre seus significados Wittgenstein é levado ao conceito de jogo de linguagem como um meio de descrever o funcionamento da linguagem Na verdade seu novo ponto de vista parece sugerir uma concepção da linguagem como um jogo complexo do tipo do xadrez Os traços mais importantes que o jogo de xadrez e a nova concepção wittgensteiniana da linguagem têm em comum são a o jogo opera com peças e a linguagem opera com palavras e sentenças de modo semelhante b o jogo funciona de acordo com certas regras e a linguagem também obedece a regras Como resultado o significado de uma peça é seu papel no jogo de xadrez e o significado duma palavra é o seu papel na linguagem Além disso em conformidade com o princípio programático os atos mentais concomitantes que acompanham o uso da palavra ou da peça de xadrez não são essenciais para a compreensão do jogo ou da linguagem Em oposição à teoria tractatiana da linguagem como mosaico Wittgenstein oferece agora uma teoria da linguagem como jogo de xadrez O princípio programático requer uma revisão da concepção tractatiana do sentido duma sentença Na primeira filosofia de Wittgenstein a sentença mostra seu sentido que é uma imagem inambígua da realidade E o sentido da sentença é determinado por suas condições de verdade Nas Investigações o sentido duma sentença é determinado por certas condições convencionais para o uso da sentença Essas condições pertencem à gramática da sentença e constituem o que Wittgenstein denomina os critérios para usar a sentença Assim o conceito de critério parece ser muito importante na filosofia das Investigações Mesmo assim o uso que Wittgenstein faz do conceito é um tanto frouxo Podemos apontar duas razões para isso A primeira é que a linguagem é caracterizada pela indeterminação do sentido Se é assim então não há razão por que o conceito de critério deveria estar numa posição privilegiada e possuir um sentido definido e constante A segunda é que aplicando o princípio programático aos usos particulares que fazemos da palavra critério provavelmente obteremos um conceito análogo que subsume uma grande classe de semelhanças de família O princípio programático exige também uma nova concepção do método da filosofia A consideração do uso das palavras liberta o filósofo das falsas questões metafísicas como se estivéssemos libertando uma mosca da garrafa Assim não é surpreendente que Wittgenstein caracterize seu novo método como o tratamento duma doença Mas a verdade é que há métodos na filosofia como se fossem diferentes terapias Não há algo como o método filosófico Como exemplos dos procedimentos diversificados usados nas Investigações podemos citar a os experimentos apresentados acima que foram projetados para provar que o significado não é independente duma combinação particular de palavras b a invenção deliberada de novos usos para as palavras ao invés de meramente descrever os usos efetivos c a descrição do uso efetivo duma expressão na linguagem ordinária para dissolver um problema metafísico d a substituição duma forma de expressão por outra embora não com o propósito tractatiano de buscar a linguagem perfeitamente descritiva e a invenção de jogos de linguagem particulares como instrumentos de comparação projetados para clarificar o funcionamento da linguagem por meio não apenas de semelhanças mas também de dessemelhanças Todos esses procedimentos provêm duma diretiva comum anterior até mesmo à consideração do uso que reduz os problemas metafísicos tradicionais a problemas de linguagem Essa diretiva pode ser encarada como a regra do polegar da filosofia do segundo Wittgenstein e pode ser formulada como segue sempre substitua o pensamento pela expressão do pensamento Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Todas as características acima derivam de algum modo do princípio programático e claramente caracterizam o novo quadro conceitual exigido pelas Investigações para descrever o funcionamento efetivo da linguagem Ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Para saber mais leia o livro de Wittgenstein Investigações Filosóficas que está disponibilizado na Biblioteca do curso SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein leia o texto httpseducacaouolcombrbiografiasludwig wittgensteinhtm SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein assista aos vídeos abaixo sobre Wittgenstein Claudio F Costa WITTGENSTEIN I Claudio F Costa WITTGENSTEIN II Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade SAIBA MAIS Para saber mais sobre Wittgenstein assista aos vídeos abaixo sobre Wittgenstein Ludwig Wittgenstein e o Jogo de Linguagem Tractatus de Wittgenstein Ed Vozes Tradução e notas Gabriel Assumpção Veto à estética FÓRUM TEMÁTICO 2 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade 35 Referências ABBAGNANO Nicola Dicionário de Filosofia 2 ed São Paulo Mestre Jou 1982 AMOEDO Margarida I A José Ortega y Gasset a aventura filosófica da educação Lisboa Imprensa NacionalCasa da Moeda 2002 ALVAREZ Juan Ramón Crisis de creencias y revoluciones científicas Ortega y Kuhn pasado el siglo XX Revista de Estudios Orteguianos Madrid Fundación Ortega y Gasset 6 2003 CARVALHO José Mauricio de Mauá e a ética saintsimoniana Londrina EDUEL 1997 Introdução à Filosofia da Razão Vital Londrina CEFIL 2002 Filosofia e Psicologia o pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers Lisboa Imprensa Nacional Casa da Moeda 2006 O século XX em El Espectador de Ortega y Gasset a crise como desvio moral Argumentos Fortaleza UFC 2 4 918 ago dez 2010 CARVALHO José Mauricio de e BESSA Vanessa da Costa O sentido da perspectiva em El Espectador Revista de Ciências Humanas Florianópolis UFSC 44 2 399415 out 2010 CARVALHO José Mauricio de e ANDRADE Maria Aparecida de Filosofia e passado filosófico segundo Ortega y Gasset um diálogo com Hegel Revista Portuguesa de Filosofia Braga Editora da Universidade 68 12 275294 2012 CASCALÉS Charles Lhumanisme dOrtega y Gasset Paris Presses Universitaires de France 1957 GARCÍA Sônia Ester Rodríguez Ortega fenomenólogo Revista de Estudios Orteguianos Madrid Centro de Estudios Orteguianos v 24 2012 FICHTE J G A doutrina da ciência de 1794 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 HEGEL G W F Introdução à História da Filosofia Comentário de Paulo Arantes 4 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Fenomenologia do Espírito 4 ed São Paulo Nova Cultural 1988 HEINEMANN Fritz A Filosofia no século XX 2 ed Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1979 HEIMSOETH Heinz A filosofia do século XX São Paulo Saraiva 1938 78 HERSCH Jeanne Karl Jaspers Brasília Editora da UnB 1982 HUSSERL Edmund Husserl Investigações Lógicas São Paulo Nova Cultural 1988 A crise da humanidade europeia e a Filosofia Introdução e comentário de Urbano Zilles Porto Alegre Edipucrs 1996 JASPERS Karl Sobre mi filosofia In Balance y Perspectiva Madrid Revista do Occidente 1953 Kierkegaard In Balance y Perspectiva Madrid Revista do Occidente 1953 Filosofia Madri Revista do Occidente e San Juan Universidad de Puerto Rico 1958 Filosofia de la Existencia Madrid Aguillar 1961 Psicologia de las concepciones de mundo Madrid Gredos 1967 Fé filosófica frente a revelación Madrid Gredos 1968 Razão e ContraRazão no nosso tempo Lisboa Minotauro s d Iniciação filosófica Lisboa Guimarães 1987 Introdução ao pensamento filosófico 9 ed São Paulo Cultrix 1993 O médico na era da técnica Lisboa edições 70 1998 Unidade 3 Subjetividade e Intencionalidade Iniciação Filosófica Lisboa Guimarães 1987 KANT Emmanuel Textos Seletos Petrópolis Vozes 1985 Crítica da razão pura 3 ed São Paulo Nova Cultural 1987 KIERKEGAARD Soren Aabye O Desespero humano 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Temor e tremor 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 Diário de um sedutor 3 ed São Paulo Nova Cultural 1988 79 MARÍAS Julian Acerca de Ortega Madrid Espasa Calpe 1991 História da Filosofia São Paulo Martins Fontes 2004 MARX Karl Manuscritos econômicofilosóficos 4 ed São Paulo Nova Cultural 1987 MOUNIER Emmanuel Introduction aux existencialismes Paris Denoël 1946 ORRINGER Nelson R La crítica de Ortega a Husserl e a Heidegger la influencia de Georg Misch Revista de Estudios Orteguianos Madrid Fundación Ortega y Gasset 3 2001 ORTEGA Y GASSET José Meditaciones del Quijote Obras Completas 2 reimpresión v I Madrid Alianza 1997 Vejamen del orador Obras Completas 2 reimpresión v I Madrid Alianza 1997 El tema de nuestro tiempo Obras Completas 2 reimpresión v III Madrid Alianza 1994 Reflexiones de Centenário Obras Completas 2 reimpresión v IV Madrid Alianza 1994 Partidarismo e Ideologia Obras Completas 2ª reimpresión v IV Madrid Alianza 1997 Apuntes sobre el pensamiento su teurgia e demiurgia Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Ideas y Crencias Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Ensimismamiento y Alteración Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 En torno a Galileo Obras Completas 2 reimpresión v V Madrid Alianza 1994 Historia como sistema Obras Completas 2 reimpresión v VI Madrid Alianza 1997 A Historia de la Filosofia de Émile Bréhier Obras Completas 2 reimpresión v VI Madrid Alianza 1997

Sua Nova Sala de Aula

Sua Nova Sala de Aula

Empresa

Contato Blog

Legal

Termos de uso Política de privacidade Política de cookies Código de honra

Baixe o app

4,8
(35.000 avaliações)
© 2026 Meu Guru® • 42.269.770/0001-84