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UNIDADE 3 Aristóteles Tragédia Poética Esta unidade tem como objetivo introduzir o discente nas especulações do pensamento de Aristóteles sobre o belo e a arte Tratase de guiar através de nosso Roteiro de Estudos o discente nas discussões empreendidas no capítulo 3 intitulado Aristóteles Tragédia Poética do Caderno de Estudos Estética utilizado em nossa disciplina Ao final de seus estudos você deverá ser capaz de Situar a discussão promovida por Aristóteles em torno da questão da arte e do lugar que ela ocupa em relação à Filosofia Compreender a relação entre a produção dos entes poéticos a produção artística dentro da teoria das quatro causas que visava sobretudo explicar de forma racional o movimento do real Compreender a questão da existência humana implícita na questão da arte a partir da análise empreendida por Aristóteles da Tragédia Grega Nascido em Estagira Aristóteles estudou na Academia de Platão e foi um dos seus maiores críticos Imagem retirada de httpwwwedumedeiroscomgeografiaaristotelesphp Acesso em 23 de setembro de 2013 31 O QUE É FILOSOFIA PARA ARISTÓTELES Antes de entrarmos propriamente na questão do belo para Aristóteles é preciso retomar o que esse filósofo compreende por Filosofia e qual o lugar que esse tipo de saber ocupa em relação a arte Neste tópico de nosso Roteiro de Estudos estaremos nos debruçando sobre a obra de Aristóteles intitulada de Metafísica Segundo J Tricot a Metafísica se encontra dentro da classe dos escritos chamados de acroamáticos Aristóteles chama acroamáticos as lições destinadas aos seus alunos e que por oposição às investigações exotéricas partem de princípios próprios da coisa e são objeto de um ensinamento demonstrativo Está claro que uma investigação qualificada de acroamática trata de matérias às quais a especulação ou a prática se atêm a um interesse verdadeiramente científico tais como os problemas da Physica ou da Filosofia Primeira TRICOT 1981V Na verdade o texto da Metafísica tal como o conhecemos hoje sob a forma de um tratado único não foi projetado como tal originalmente por Aristóteles De fato segundo uma tradição que remonta à Antiguidade o responsável pela organização e publicação da Metafísica neste formato foi Andrônico de Rodes um aristotélico do século I aC e que atuou como o décimoprimeiro escolarca do Liceu De acordo com a tradição mencionada Andrônico se responsabilizou pela compilação organização e edição de todos os textos aristotélicos de caráter esotérico ou acroamático Tais textos como se sabe foram compostos sob a forma de notas de aula apontamentos de conferências e registro das lições ministradas por Aristóteles no interior do Liceu e como tais eram destinados a um público restrito constituído pelos alunos e discípulos que frequentavam a escola fundada pelo filósofo o termo acroamático remete ao fato de que esses textos foram originalmente não lidos mas ouvidos pelos alunos do Liceu nas aulas e preleções dadas pelo filósofo akróasis em grego significa justamente audição oposição aos textos exotéricos ou redigidos por Aristóteles para o grande público Pois bem em seu trabalho editorial de compilação e organização dos escritos acroamáticos de Aristóteles Andrônico se deparou após a organização dos tratados referentes ao estudo da physis e dos entes naturais intitulado Physiké Akróasis com uma coleção de 14 escritos diferentes relacionados àquilo que Aristóteles chamou de sapiência filosofia primeira e ciência do ser enquanto ser O escolarca agrupou esses 14 escritos num tratado único e deulhes então o título de Tà metà tà physikà literalmente os escritos que vêm depois da Física A história acerca do trabalho editorial de Andrônico nos mostra assim o caráter problemático e complexo da Metafísica no que diz respeito à sua gênese e à sua composição não se trata de um livro comum i e de um texto totalmente unitário e homogêneo composto pelo próprio Aristóteles a partir de um plano filosófico prévio mas de uma coleção de 14 tratados a princípio independentes e heterogêneos coligidos e reunidos posteriormente em um único volume pelo editor das obras aristotélicas A história acerca do trabalho de Andrônico nos mostra ao mesmo tempo que a própria palavra metafísica que dá título à obra é igualmente problemática Com efeito essa palavra não foi forjada por Aristóteles e não pertencia ao seu vocabulário filosófico como vimos o termo foi forjado por Andrônico na realização de sua edição das obras aristotélicas O termo metafísica não aparece em nenhum dos textos do Estagirita O saber procurado nos tratados reunidos sob o título de Metafísica é designado pelo filósofo das mais diferentes maneiras sapiência sophia no livro I ou alfa ciência do ser enquanto ser no livro IV ou gama filosofia primeira próte philosophía nos livros IV e VII ou dzeta ou mesmo ciência teológica theologiké no livro XII ou lâmbda Muito se discutiu acerca do significado a ser atribuído a esse título cronológico ou ontológico As duas interpretações são a princípio possíveis Com efeito a preposição grega metá que está na base do termo metafísica é ambígua e pode significar seja depois num sentido temporal seja além no sentido hierárquico remetendo a algo que se encontra numa posição superior acima correspondendo ao latim trans Com base nisso há aqueles que propõem uma interpretação meramente cronológica do termo e que consideram que metafísica é um vocábulo que significa tão somente algo que se refere à ordem ou à disposição meramente bibliográfica em que os escritos aristotélicos foram arranjados por Andrônico de Rodes No entanto outros autores como P Moraux e E Berti julgam que o termo metafísica possui um valor conceitual e não meramente editorial guardando uma significação filosófica e mesmo ontológica mais profunda Nessa perspectiva a metafísica seria assim o saber que se encontra para além da física ou acima da física lendose a preposição metà no sentido hierárquico e não meramente cronológico mas que pressupõe aquilo que é dado na experiência Porém o que nos interessa de fato não é a discussão acerca da origem do título da obra a ser trabalhada ou ainda se se trata ou não de uma obra redigida na íntegra pelo próprio punho de Aristóteles ou transcritas pelos seus discípulos A nossa discussão transita na esfera desse saber chamado pelos pósteros de metafísico postulado por Aristóteles e no modo como ele Aristóteles irá elaborálo Saber que o próprio Aristóteles nomeou de Filosofia Primeira Sabedoria Ciência do ser enquanto ser ou Teologia 311 A HIERARQUIA DOS SABERES No começo do Livro da Metafísica Aristóteles discute o que é a Filosofia e o lugar que ela ocupa em relação aos outros saberes próprios do homem Neste Roteiro de Estudos utilizaremos a obra de Xavier Zubiri intitulada Cinco Lições de Filosofia como referência de nossa análise do que Aristóteles compreende por Filosofia apresentada no capítulo I do Livro I da Metafísica Sendo assim começaremos por determinar o que se quer aqui compreender por Saber Saber é estar intelectivamente na verdade das coisas Ora se por verdade compreendermos o próprio real o ser que é comum a tudo o que é e que se desvela se patentiza através das suas causas e princípios e se por intelecto compreendermos o nous uma visão mental apreensão do que é essencial teríamos que o saber é estar na visão do que é essencial ou seja é visar o desvelamento das causas e dos princípios de tudo o que é Pois bem no começo do livro I Aristóteles nos fala dos dois primeiros modos como somos afetados pelas coisas Modos estes que nos permitem perceber os seres entes singulares mas que não nos permitem ainda estar intelectivamente na verdade destes seres e isto porque nestes dois modos não nos são desvelados as suas causas e princípios Estes dois primeiros modos de sermos afetados pelos seres são Aísthesis sensação que é o modo como somos tocados em nossos sentidos pelos seres singulares Empeiria experiência que se constitui propriamente na junção da sensação e da memória Poderíamos dizer que é a nossa capacidade de reter e trazer à memória as sensações Aristóteles nos fala que existem cinco modos de saber que são modos propriamente ditos de alethéia verdade Verbo traduzido por patentizar O alfa a do termo alethéia é composto de um alfa privativo inicial que transmite a ideia de negação e do prefixo leth que transmite a ideia de velar ocultar donde teríamos que o termo alethéia significa o não velar o desvelar o patentizar Pois bem o primeiro modo de saber de que nos fala Aristóteles é Téchne arte o saber fazer a capacidade de produzir algo Ou seja é a capacidade da poiesis produção O que é produzido é uma obra um ergon ver o sentido de ergon em Heidegger Martin A origem da Obra de arte e Ser e Tempo 15 Quem possui a téchne possui o conhecimento das causas Ou melhor é capaz de dizer o porquê de algo Por exemplo o Mestre de obras sabe melhor que um pedreiro este é aquele que só conhece por ou na experiência porque sabe o que causa a sua ação Além de saber melhor quem possui a téchne sabe mais coisas do que saberia por experiência Por exemplo pela experiência conhecemos de vários enfermos mas pela téchne sabemos de todos os biliosos Assim é que o conhecimento dado pela Empeiria é o saber do particular mas o da téchne é universal E mais o saber da téchne é passível de ser ensinado Phronésis prudência o saber das ações humanas Ou seja o saber conduzirse na vida donde a prudência não é um saber fazer coisas mas antes um saber agir entre os homens Enquanto na téchne o homem produz poiesis uma obra ergon na phronésis o homem realiza ações Por isso o fim da phronésis é uma práxis Para Aristóteles a práxis o prático neste sentido grego não se opõe ao theorético Pelo contrário a teoria é a forma suprema de práxis da atividade que se basta a si mesma porque não faz nada para fora dela mesma O saber da phronésis é um saber universal porque se refere à totalidade da vida e ao bem do homem É o saber atuar na totalidade da vida Este saber tem por objeto o bem e o mal Ora o saber atuar na vida segundo o bem e o mal do homem isto é phronésis para Aristóteles ZUBIRI 2012 pág 25 Segundo Aristóteles embora estes saberes da téchne e da phronésis sejam saberes que nos reportam às causas ao porquê de algo seja de uma produção seja de uma ação isto é nos reportam ao universal estes saberes não se reportam ao que é necessariamente Epistemé ciência é o saber das causas enquanto estas são universais e necessárias Segundo Xavier Zubiri A Epistemé é uma intelecção demonstrativa que consiste em fazer com que o ente aquilo que é mostre desde si mesmo o por que a causa de certas propriedades lhe pertencerem necessariamente Esta mostração é de fato uma demonstração que por sua vez tem o sentido de uma exibição Pois para Aristóteles demonstração não significa em primeira linha um raciocínio mas sim uma exibição que o ente faz de sua interna estrutura necessária Esta demonstração acontece num ato mental de estrutura sumamente precisa o lógos a frase A afirmação de que um objeto S tem necessariamente uma propriedade p é um lógos E por isto a estrutura mental que conduz a este lógos se chama lógica Esta é o caminho meqodoz método como estrutura mental tem diversos momentos Portanto tem que partir de um lógos no qual expressemos com verdade que o objeto s tem intrinsicamente em seu ser mesmo um momento m que é o por quê Mas necessitamos também de outro lógos que expresse com verdade o caráter segundo o qual o momento M funda com necessidade a propriedade P isto é que mostre seu caráter de por quê Somente então ficará fundado o lógos S é necessariamente P o qual portanto é conclusão dos dois logois prévios chamados por isto de premissas As premissas são aquilo de onde se segue a necessidade da conclusão Todo de onde é princípio pois princípio consiste naquilo de onde algo vem Portanto os logois que são as premissas são os princípios do lógos da conclusão A esta conexão de logois Aristóteles chamou silogismo Contudo o saber que nos é dado por esta ciência é limitado Poisos princípios básicos nos quais devem se apoiar o silogismo não podem ser obtidos por demostração Primeiro porque ainda que muitos princípios do silogismo demonstrativo possam ser demonstrados e se demonstram por sua vez de outros silogismos sem embargo alguma vez deverá parar em algo que não se possa demonstrar do contrário todo o corpo de demonstrações ficaria sem base ZUBIRI 2012 pág 25 Ora são precisamente estes primeiros princípios que Aristóteles visa a investigar donde é necessário um outro tipo de saber no qual sejam apreendidos estes princípios Nous intelecção é a visão intelectiva do ser das coisas Nous é o modo especial de saber pelo qual em forma videncial apreendemos as coisas em seu ser imutável E é este ser o princípio de cada ordem de demonstração Naturalmente Aristóteles limita o Nous a certas supremas apreensões videnciais do ser das coisas Somente assim é possível a intelecção apodítica não demonstrativa O saber apoditíco não recai diretamente sobre as coisas triangulares senão sobre O triângulo Por isto a vidência noética da triangularidade é o princípio de toda a ciência do triângulo ZUBIRI 2012 pág 25 Sofia sabedoria é o saber buscado por Aristóteles Saber este que consiste na junção da Epistemé e do Nous É portanto a Ciência do Ser enquanto Ser a Ciência dos Primeiros Princípios e das Primeiras Causas Sabedoria Primeira Teologia porque o ser enquanto ser não é senão o Théos Ato Puro Motor Imóvel 312 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA FILOSOFIA PARA ARISTÓTELES Pois bem a Filosofia a Sabedoria ou Teologia se apresenta como o saber por excelência a ciência suprema Teríamos assim a seguinte representação A Filosofia se encontra como aquele saber que é mais saber por ser o Primeiro Saber das primeiras causas e dos primeiros princípios do real E porque é assim ela é capaz de dar conta não dessa ou daquela região do real mas da própria condição de possibilidade desde onde tudo vem a ser A Filosofia é mais Ciência porque aquele que será capaz de ensinála o sábio ou o filósofo será capaz de levar o seu discípulo a saborear esses mesmos princípios e causas e dessa forma saborear a totalidade de tudo o que é ensinando assim mais e melhor do que qualquer outro Contudo este ensinar não se confunde com a transmissão de conhecimentos úteis Ensinar mais e melhor não significa ensinar mais coisas Tratase antes de fazer com que aquele que quer aprender sobre e desde os primeiros princípios e causas do real se disponha a abrir mão de qualquer caráter de utilidade e de interesse para fora desse exercício de saber filosófico Por isso ensinar é sempre muito difícil Com efeito ensinar é ainda muito mais difícil que aprender Se sabe disso muito bem mas poucas vezes o temos em conta Por que é mais difícil ensinar que aprender Não porque o mestre deva possuir um maior cabedal de conhecimentos e têlos sempre à disposição O ensinar é mais difícil que o aprender porque ensinar significa deixar aprender Mais ainda o verdadeiro mestre não deixa aprender nada mais que o aprender Por isso muitas vezes seu obrar produz a impressão de que propriamente não se aprende nada dele se por aprender se entende apenas a obtenção de conhecimentos úteis O mestre possui em relação aos aprendizes como único privilégio ter que aprender todavia muito mais que eles o deixaraprender O mestre deve ser mais dócil que os aprendizes O mestre está muito menos seguro do que leva entre as mãos que os aprendizes Por isso onde a relação entre mestres e aprendizes seja verdadeira nunca entra em jogo a autoridade do sabetudo nem a influência autoritária de quem cumpre uma missão Assim sendo continua sendo algo sublime o chegar a ser mestre coisa inteiramente distinta de ser um docente afamado HEIDEGGER 1964 p 23 Pois bem aquele cuja tarefa é a de ensinar esse tipo de ciência que Aristóteles chama de Filosofia deverá ser assim desprovido de qualquer interesse que não seja somente o de que o seu discípulo aprenda por si mesmo ou desde a sua própria natureza a pensar A Filosofia buscada por Aristóteles é inútil não possui qualquer utilidade prática para fora dela mesma Esse é outro ponto que faz dela mais saber mais ciência que as outras ciências Concentrada em si mesma a filosofia é capaz de saber mais e melhor acerca do homem e do mundo que o circunda à medida em que se concentra nos primeiros princípios e causas da realidade desse mesmo homem e desse mesmo mundo Sendo desde si mesma e por si mesma a Ciência pretendida por Aristóteles é mais livre que qualquer outra ciência à medida que tem em si a causa de si mesma Essa liberdade é outro ponto que faz dela mais ciência que as outras A Filosofia que para Aristóteles nasce do espanto da admiração diante do fato de as coisas serem o que elas são só acontece quando o homem já resolveu todos os seus assuntos de ordem cotidiana Quando livre das obrigações e preocupações relativas à sua subsistência se entrega ao ócio A um à toa muito ativo como nos diria Guimarães Rosa se entregando ao gosto de especular ideias Somente desligado das urgências do cotidiano é que esse homem pode cavar a devida distância do ordinário da sua existência Distância que assim o aproxima daquilo que nesse ordinário existe de mais extraordinário Ora o que para Aristóteles se tornou ordinário tornandose senso comum são precisamente as colocações dos seus antecessores em relação a natureza do real E é exatamente num diálogo com essa tradição que Aristóteles inaugura o primeiro Livro da sua Metafísica Aristóteles mais do que seguir um método doxográfico no qual nos daria opiniões acerca das doutrinas dos antigos acerca do real se esforça por pensar Segundo o Professor Emmanuel Carneiro Leão As interpretações do Estagirita não são relatos doxográficos Constituem um esforço de pensar nas doutrinas antigas o que elas têm de idêntico nas diferenças entre pensamento filosófico e pensamento originário LEÃO 1980 pág 27 Assim mais do que procurar a autenticidade dos testemunhos que Aristóteles nos dá acerca dos pensadores que o precederam é preciso estar atento para aquilo que aí nesses pensadores Aristóteles busca encontrar Tratase de um diálogo pensante com a tradição no qual o que deve estar sempre de novo em jogo é o próprio ato de pensar Ato em si mesmo histórico Aristóteles nunca faz história sem filosofia da história mesmo quando fala dos filósofos que o precederam Não pergunta pelas idéias que determinado filósofo tinha na cabeça Isso não tem importância Sal investigação é sempre e somente filosófica Assim quando a tradição lhe diz que para Tales a água é o princípio de todas as coisas mas não se pergunta qual a idéia de água e princípio podia Ter tido Tales só se interessa pelo sentido filosófico da afirmação LEÃO 1980 p27 Qual sentido interessa Aristóteles senão o de buscar na fala desses pensadores já a presença daquilo que para ele Aristóteles deve estar sempre em pauta para a filosofia ou seja os primeiros princípios e as primeiras causas Assim se no primeiro capítulo do Livro I Aristóteles situa a filosofia como o expoente máximo dentro da hierarquia dos Saberes e se no segundo capítulo ele nos fala da Natureza dessa Filosofia do terceiro capítulo até o décimo e último capítulo do Livro I Aristóteles marca a sua posição frente à tradição de pensamento que o antecedeu 32 A FILOSOFIA A TEORIA DAS QUATRO CAUSAS E A ARTE Pelo exposto acima para Aristóteles a Filosofia ocupa o lugar mais elevado enquanto o saber por excelência a ciência suprema Por outro lado a arte compreendida como téchne o saber fazer a capacidade de produzir algo se encontra numa dimensão afastada do fazer filosófico que é para Aristóteles um tipo de saber eminentemente teórico Tal saber tem por objeto a substância ousia que no pensamento de Aristóteles se mostra como o modo de ser mais fundamental dentro esquema ontológico proposto pela teoria das categorias modo de ser que encontra sua expressão primeira no âmbito da experiência no ente composto sýnolon que acessamos por meio dos sentidos isto é no ente constituído pela unidade inextricável de matéria hylé e forma eidos A substância é a categoria primeira do pensamento ou seja aquilo que o pensamento acusaaponta de imediato na realidade Contudo essa substância não é algo estático mas é antes algo que resguarda em si a causa do movimento que se explicita para Aristóteles na sua teoria das quatro causas Pois bem quando o Estagirita fala sobre os entes de produção dos quais a obra de arte é o melhor exemplo essa produção poiesis é indissociável de uma competência de um saber fazer que como foi visto foi chamada de técnica téchne e que posteriormente foi traduzida para o latim como ars arte e cujo resultado é sempre uma obra ergon Ora para Aristóteles saber é manterse intelectivamente na verdade das coisas sendo a técnica e a arte uma espécie de saber por conseguinte um modo de se estar na verdade das coisas verdade que o grego compreendia como sendo um desvelamento dos seres alethéia Contudo esse saber se manifesta através do comportamento humano no nosso caso o comportamento do artista ou do artesão Mas segundo Aristóteles na sua teoria das quatro causas o que move a mão do artista e promove a forma que se encontra subjacente à matéria é algo que transcende a própria materialidade e igualmente transcende a vontade individual do artista 321 TEORIA DAS QUATRO CAUSAS httprafaelroblescomfiloimages22eLas4causasaristotC3A9licasjpg Acesso em 09 de abril de 2019 Segundo Aristóteles o termo causa aitía possui quatro sentidos quais sejam causa material causa formal causa eficiente e causa final De maneira geral podemos dizer que estes sentidos devem dar conta do que sejam as coisas e do movimento pertencente a elas Em relação às causas os entes são divididos em duas classes os seres poéticos seres de produção que não possuem em si a causa do movimento como veremos mais adiante é nessa classe que estão incluídas as obras de arte e os entes naturais que possuem em si essa causa1 No vocabulário filosófico de Aristóteles natural é de fato tudo aquilo que surge nasce e vem a ser por si mesmo em virtude de um princípio interno ou imanente de movimento A natureza é assim uma força de crescimento que promove o desenvolvimento das coisas a partir de dentro Como o filósofo esclarece em sua Física a natureza é um princípio e uma causa de movimento e de repouso para cada coisa na qual ela existe primeiramente por si e não por acidente Física II 1 192b2123 Pois bem a causa material do que existe é a matéria da qual se formam as coisas e igualmente dizemos que é a natureza physis destas pois a natureza é o material primeiro de que consiste ou é feito qualquer objeto artificial fundo desprovido de forma e 1 No desenvolvimento da nossa análise iremos nos ater apenas aos entes naturais incapaz de sofrer uma mudança que o faça sair de sua própria potência ARISTÓTELES 1981 p 256 O que é a matéria É antes de tudo explica Aristóteles o substrato hypokeímenon a partir do qual as coisas compostas naturais ou artificiais se engendram ou são produzidas tornandose graças à atuação ontológica de uma forma um ente determinado tóde ti Esse substrato segundo Aristóteles pertence às coisas compostas de forma essencial e não acidental ou seja ele é um ingrediente constitutivo de todo ente natural ou artificial Por exemplo em uma estátua de bronze de Zeus que é um objeto artesanal a matéria é o bronze a partir do qual a imagem do deus foi esculpida pelo escultor bronze este que pertence à organização da estátua de maneira constitutiva não se pode separar de fato a figura do deus do bronze em que ela foi talhada Além disso como substrato apto a receber uma forma a matéria é em si mesma pura potência dýnamis Potência na conceptualização filosófica proposta por Aristóteles significa antes de tudo capacidade de ser determinado por uma forma isto é passividade ontológica dizer assim que a matéria é em si mesma pura potencialidade equivale a dizer que a matéria é em si mesma um princípio passivo e radicalmente indeterminado ou amorfo que só adquire alguma configuração e se torna um verdadeiro objeto após a atuação da forma Por sua vez a causa formal do que existe como se pode notar a partir do que foi dito acima é estrutura toma a matéria um ente determinado retirandoa de sua indefinição primitiva ou seja a forma é o princípio ontológico que limita e ordena a matéria transformando esta em um objeto definido e passível de ser conhecido Tratase pois de uma referência à natureza das coisas isto é ao princípio que faz com que cada ente seja o que ele é e não outra coisa é pela forma que um certo objeto de madeira é uma mesa e não uma cadeira Aristóteles nos fala sobre a natureza nesses mesmos termos dizemos das coisas que ainda não possuem a sua natureza enquanto não haja adquirido a forma e a figura que lhes são próprias ARISTÓTELES 1981 p 256 Assim ao falarmos da natureza das coisas fica difícil pensar separadamente a causa material da causa formal sendo essa distinção puramente lógica ou seja ao nível de pensamento e não de existência A causa eficiente é o princípio motor pelo qual a matéria ganha forma Processo através do qual a coisa se determina Ou melhor é a origem deste processo de determinação Ora ser origem de alguma coisa implica em ser o movimento desde onde algo vem a ser o que é Em sendo assim compreendida teríamos que a causa eficiente também ela nos reporta para a noção de natureza pois os três primeiros sentidos para este termo no Livro V cap IV da Metafísica nos diz a natureza é movimento gênese aquilo de onde provém o crescimento de uma coisa E ainda se esse movimento fosse desordenado e sem finalidade teríamos apenas matéria como pura potência destituída de forma O movimento tem que ter um fim télos Ora a causa final é aquilo em vista do qual o movimento se efetua Segundo Aristóteles o fim do movimento é o belo o bem a excelência O que é o bem para as coisas É ser como deve ser ou seja uma forma que as delimite Dandose o limite há a possibilidade de definição e conhecimento das coisas O bom e o belo são o começo tanto do conhecimento como do movimento das coisas ARISTÓTELES 1981 p 257 Ora a causa última que confere limite télos ao movimento é Deus théos que sendo a causa do movimento deve ser por isso imóvel o que significa dizer ato puro entelechéia destituído de potência O théos é o que Aristóteles concebe por substância simples causa das substâncias compostas objeto da sua Filosofia Primeira por isso também chamada de Teologia A teoria aristotélica das quatro causas expressa portanto o princípio de conhecimento do movimento de constituição do ser da existência das coisas do real A causa é princípio de conhecimento de inteligibilidade porque compreender a causa significa compreender a articulação interna disso ou seja a razão pela qual um ser qualquer é o que é necessariamente A relação causal explicita a própria estrutura da necessidade que mantém o ente sendo isso que ele é explica o porquê do ente ser isso que ele é explicando dessa forma o fundamento sobre o qual se baseiam as ações dos entes As ações deverão ser sempre reguladas pelo fim último télos que é o bem expresso pelo próprio théos Em suma a teoria das quatro causas postulada por Aristóteles diz o porquê de as coisas serem isto que elas são O porquê a causa nada mais é que a explicação do quê da quididade daquilo que constitui as coisas na sua natureza mais própria necessária daquilo desde o que elas são e vem a ser o que são Isto é a substância 33 A ARTE O BELO NA TRAGÉDIA CONSIDERAÇÕES SOBRE A POÉTICA DE ARISTÓTELES A criação poética ao imitar a natureza se volta para a força produtiva dos objetos realizados pelo homem E como o Estagirita compreende a physis Como foi visto no tópico anterior a physis a natureza é para Aristóteles o princípio interno de movimento portanto ela é o processo originário em que é possível ocorrer a formação e a aparição e a criação de todas as coisas Os entes de produção são os que se referem à atividade técnica e se formam movidos não por si mesmos como os naturais mas a partir de uma força externa a saber a mão do artista Ou seja nos entes de produção é um agente motor extrínseco que introduz de fora a forma em uma matéria que lhe é estranha diferentemente do que ocorre no processo natural em que é do interior ou a partir de dentro que a forma modela uma matéria que lhe é própria Isso significa que a arte para Aristóteles é um princípio de organização externo Por conseguinte o que é produzido pela arte é o que se considera propriamente um ente poiético E o fim imediato desses entes é a utilidade visada pelo artesão Utilidade esta que se apresenta de acordo com o que a coisa deve ser necessariamente aproximandoa do Bem Dentro desse raciocínio um ente de produção é necessariamente Belo pois ele está em sintonia com o Bem O Belo nos diria Aristóteles ser vivente ou o que quer que se componha de partes não só deve ter essas partes ordenadas mas também uma grandeza que não seja qualquer Porque o belo consiste na grandeza e na ordem e portanto um organismo vivente pequeníssimo não poderia ser belo e também não seria belo o grandíssimo Pelo que tal como os corpos e organismos viventes devem possuir uma grandeza e este bem é perceptível como um todo Poet VII 1450b 341451a 4 Nos entes poiéticos a perfeição é compreendida como um conjunto de qualidades a saber a simetria a harmonia a ordem a proporção o equilíbrio os componentes do belo que é em última instância a finalidade da arte Assim a ideia de Bem e Belo embora não sejam equivalentes como no pensamento de Platão possuem entre si uma relação de subordinação o Belo se encontra subordinado ao Bem dentro do movimento de produção do ente poiético porque segundo Aristóteles todas as coisas têm como finalidade o bem A ideia de Bem se harmoniza com a de perfeição O mundo se move em vista do ser perfeito o theós Como havíamos visto no tópico acima o théos é para Aristóteles o Primeiro Motor É Imóvel Eterno Essência Pura responsável pelo movimento de perfeição de todos os entes e opera como causa final do movimento que ocorre na matéria Ele é maximamente desejável e seu objeto de desejo é o que é Bom e Belo Ambos se integram na ordem do inteligível o que é primeiro e excelente 34 A ARTE MIMÉTICA A TRAGÉDIA GREGA Antes de entrarmos na discussão presente no pensamento de Aristóteles sobre a imitação e a sua função na tragédia Grega vamos conhecer um pouco mais esse tipo de encenação teatral A tragédia grega foi uma das maiores contribuições artística que a cultura grega nos deixou Tratase de uma encenação na qual um grupo de atores devem encenar imitar uma ação que incide sobre um mito do repertório que constitui a história do povo grego O poeta trágico que tão duramente foi criticado por Platão como podese observar na unidade I tem por tarefa compor um drama que deverá reapresentar imitar alguma ação da história que se resguardou na memória coletiva daquele povo O edifício que deverá abrir essa encenação tem a forma de um anfiteatro um semicírculo a céu aberto composto por uma série de degraus que deveria servir de assento para o espectador Observe a foto abaixo 6a6grupodeestudos2011blogspotcom Acesso em 17 de abril de 2019 ESQUEMA DO TEATRO GREGO httpteatroincrivelblogspotcombr Acesso em 17042019 Saiba mais Tragédia gr τραγῳδία a mais antiga obra literária representada por atores em espaço especializado o teatro é um dos mais importantes gêneros literários legados pela Grécia Antiga As condições religiosas sociais e políticas que permitiram a emergência do gênero trágico podem ser situadas na segunda metade do século VI a tragédia parece ter se desenvolvido a partir dos cantos corais apresentados nas festas religiosas em honra de Dioniso e atingiu o apogeu em Atenas entre 480 e 400 mais ou menos httpgreciantigaorgarquivoaspnum0254 Acesso em 17 de abril de 2015 Segundo Albin Lesky o termo Tragédia significa Canto do Bode A explicação do termo se deve a própria origem deste tipo de manifestação artística O teatro grego teve origem nos cultos a Dionísio divindade filho de Zeus Pai dos deuses e dos homens e da mortal Sêmele Diante da traição de Zeus Hera sua esposa legítima é tomada por uma ira desenfreada e passa a perseguir a amante de Zeus e ao seu filho Em virtude disso Dionísio foi criado em uma caverna sendo alimentado pelas frutas que por lá nasciam e tendo por companhia os sátiros divindades silvestres metade homem metade bode Durante sua existência Dionísio foi perseguido por Hera o que o obrigou a metamorfosearse várias vezes E muitas foram as suas mortes das quais ele renascia sempre em virtude do seu caráter divino e imortal Sileno com Dionísio nos braços httpwwwportalsaofranciscocombralfamitologiagregadionisio2php Acesso em 17 de abril de 2019 A figura de Dionísio está associada à morte e ao sexo em virtude da continua ruptura do limite que o mantém preso à existência Ruptura expressa pela continua mudança de formas ou pelo uso de diferentes máscaras utilizadas pelo deus para fugir da implacável Hera pelas inúmeras mortes muitas das quais por esfacelamento pelo contínuo estado de embriaguez que o lançava no estado de êxtase e loucura Deus da desmedida do espraiado da existência Dionísio pintura de Caravaggio httpwwwmenuespecialcombr Acesso em 17 de abril de 2015 Dionísio organiza o espaço em função de sua atividade ambulatória É encontrado por toda parte em nenhum lugar está em casa Nem mesmo em um antro ou em um esconderijo na montanha menos ainda à entrada de um santuário ou à luz de um templo urbano Há em Dioniso uma pulsão epidêmica que o afasta dos outros deuses de epifanias regulares programadas e sempre arrumadas segundo a ordem de culto das festas oficiais e cada uma a seu tempo DETIENNE 1988 p 14 15 Uma das teses que busca explicar a origem da Tragédia é a de que ela teria se originado no ditirambo dramático que era constituído por um grupo de homens travestidos de bode numa referência aos sátiros companheiros de Dionísio O ditirambo teria dado origem ao coro constituinte do Teatro Grego Contudo em sua Poética Aristóteles dá ênfase à origem Ática da Tragédia afastandose da teoria que sustenta que a origem da Tragédia teria sido proveniente dos cultos a Dionísio sendo esse deus a figura principal do drama trágico Contudo a concepção do trágico em Aristóteles mantém o espírito dionisíaco presente no modo como é dado ao herói o exercício da ação trágica Isto porque ao herói não é dado o poder de decisão sobre a ação que irá desenvolverse ao longo da tragédia São os deuses que irão impor as suas vontades sobre o herói que se torna assim um joguete nas mãos da divindade Ora como vimos na unidade 2 as divindades representam as dimensões da própria existência humana sejam os modos como o homem compreende os aspectos psicológicos da sua existência seja o modo como compreende os fenômenos naturais que sobre advém Deste modo o herói trágico não possui uma vontade individual mas se encontra sob o império da sua própria condição humana Daí tornarse um joguete das vicissitudes da existência da vida Poderíamos mesmo dizer que para Aristóteles a tragédia é a imitação de uma ação da própria vida Ou segundo a Professora Cláudia Drucker A arte de compor tragédias é a arte de escrever tramas belas grandiosas e ao mesmo tempo concentradas de modo a conduzir o espectador numa direção bem definida estimulando sentimentos de terror e piedade A definição aristotélica de tragédia é a seguinte É pois a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado completa e de certa extensão em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes do drama imitação que se efetua não por narrativa mas mediante atores e que suscitando o terror e a piedade tem por efeito a purificação kátharsis dessas emoções Poé 1449b 2428 p 110 Destaquemos alguns aspectos dessa definição Em primeiro lugar a tragédia é a imitação de uma ação elevada ou mais simplesmente a imitação de uma ação 1449b 35 p 110 Aristóteles no capítulo IV da Poética alude a existência no homem de uma propensão à imitação porque a imitação lhe proporciona prazer Ainda segundo Drucker A imitação não se define por uma emulação superficial que não emprega a parte racional da alma seja da parte do artista imitador seja da parte da plateia Ela nem sequer é uma capacidade exclusiva do artista Antes de tudo a imitação nos diferencia como humanos o imitar é congênito no homem e nisso difere dos outros viventes pois de todos é ele o mais imitador e por imitação apreende as primeiras noções Poé 1448b 5ss p 1067 Buscamos a imitação por duas razões principais a imitação é prazerosa e é uma maneira de aprender Até aquilo cuja visão imediata é repugnante dá prazer quando imitado em uma pintura Dános prazer discorrer sobre a imitação de algo real porque a comparamos com o imitado Se alguém olhar uma reprodução sem conhecer o original não derivará nenhum prazer cognitivo disso pois não terá nada com que comparála e terá um prazer apenas estético na cor na figura na composição e na execução sobre o qual a Poética nada tem a dizer senão que são meios ou instrumentos da imitação DRUCKER 2009 p73 A concepção que Aristóteles tem de imitação diverge daquela apresentada por Platão para quem a imitação que se verifica na poesia trágica seria perniciosa para a educação dos jovens já que a tragédia confere aos deuses característica puramente humanas nisto está incluída toda a sorte de vícios Segundo Platão Homero nunca teve a experiência daquilo que ele narra em sua obra Ele Homero se compraz em imitar por meio de palavras aquilo que ele sequer experimentou ou vivenciou Segundo Platão a educação da alma deve ser confiada àquele que for capaz de contemplar a ideia suprema do bem que deverá se dar através de uma razão intuitiva Ou seja a educação deve ser conferida ao filósofo devendo o poeta enquanto um imitador que dá origem às imagens através de palavras ser expulso da cidade por ele Platão idealizada Como podese observar a teoria de Platão sobre a arte dramática ou seja sobre a Tragédia encontra fundamento na sua ontologia notadamente na sua teoria da participação na qual a alma participa das ideias contudo devido à proximidade da alma com o corpo com o sensível ela acaba por esquecer essas ideias A Filosofia como o exercício para a morte morte compreendida como a separação entre o corpo e a alma deve fazer a alma lembrar dessas ideias Exercício que encontra a sua expressão no caminho que a alma deve percorrer até a ideia suprema do bem percurso exposto quer na alegoria da linha quer na alegoria da caverna Por isso a imitação de uma imagem ou de uma ação humana pode trazer prejuízos a alma daquele que a essa imitação se encontra exposto Ora podese dizer que na Poética o pensamento aristotélico busca promover uma reabilitação da categoria de mímesis mediante uma reelaboração conceitual do significado desse conceito Na Poética de fato a mímesis vai deixar de ser concebida como um simples simulacro enganador desprovido de valor e consistência ontológicos para se tornar um procedimento de representação que refaz e reconstrói o real operando para tanto de acordo com o princípio da verossimilhança eikós em grego palavra que pode significar também probabilidade Como se vê a a categoria de verossimilhança é essencial no trabalho filosófico de Aristóteles voltado para repensar o significado da mimesis e promover a reabilitação da poesia e da arte Aliás a própria linguagem nesse sentido é pensada por Aristóteles como um procedimento mimético Avançando nessa linha de reflexão Aristóteles contrariando a teoria platônica da imitação afirma que a arte dramática sobretudo a tragédia não é imitação de pessoas e sim de ações da vida ARISTOTELES 2000 p44 e por esse motivo o público se identifica com o herói trágico que deverá se mostrar como aquele que desenvolve esse tipo de ação Nesta identificação o drama trágico tornase capaz de provocar no espectador tanto o terror como a piedade Tratase de levar o espectador ao reconhecimento da natureza da qual é feita a vida a existência humana Quando o espectador se identifica com alguma desventura pela qual o herói trágico passa de fato ele o espectador reconhece o caráter contingente da existência humana Todos os mitos em sua forma bruta são horríveis e trágicos O poeta terá pois de introduzir de aliviar essa matéria bruta com o terror e a piedade para tornálos esteticamente operantes a ponto de se tornar uma alegria sem tristeza Purificada a tragédia provoca no espectador sentimentos compatíveis com a razão A tragédia suscita por meio de um equilíbrio que confere aos sentimentos um estado de pureza desvinculado do real vivido BRANDÃO1985 p 38 Essa purificação catarse essa transubstanciação do terror e piedade suscitados pela tragédia em um estado de pureza desvinculado do real vivido é capaz de afastar o homem dos terrores da sua existência ao tornálo espectador da condição humana e como espectador de si mesmo o homem purificase ao transformar a sua existência em arte Como podese observar o principal objeto da encenação imitação trágica é o mito que traduz o modo como o homem compreendia as diferentes facetas da condição humana ou seja o mito traduz as diferentes experiências propiciadas pelos fenômenos psicológicos e naturais que assomam a existência do homem sobre a terra lhe revelando concretamente as dimensões da sua própria humanidade Para o grego do período arcaico o darse dessas experiências o mito ganha um aspecto uma fisionomia extraordinária porque nesse acontecimento delimitamse as fronteiras entre o que é mortal e imortal Ou seja nesse acontecimento confinam os limites entre os homens e os deuses Os deuses ao expressarem as dimensões da própria humanidade do homem acabam por mostraremse próximos àquilo que é humano O mito é sempre uma representação coletiva transmitida através de várias gerações e que relata a explicação do mundo Mito é por conseguinte a parole a palavra revelada o dito E desse modo se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem ele é antes de tudo uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento BRANDÃO 1992 p36 Como uma representação coletiva o mito que serve de objeto à tragédia encontra a sua força expressiva junto aos espectadores do drama trágico força responsável pela catarse que é o fenômeno de purificação pelo qual passa o espectador da tragédia ao ser tomado pelos sentimentos de terror e piedade diante das desventuras do herói trágico Por isso afirma Drucker Assim o drama está em condições como nenhuma outra imitação e como nenhum outro gênero de arte de ensinar algo sobre a vida pois a imitação leva ao aprendizado O que o drama ensina sobre a vida Dizse que a caracterização do personagem trágico deve estar a serviço da imitação de personagens elevadas isto é daquelas capazes tanto de crimes como de atos heroicos que povoam a mitologia e a epopeia gregas De fato não há tragédia sem que ambos crime e virtude estejam presentes Para Aristóteles é preciso que seja assim O estado de terror e piedade inspirado pelo herói trágico é capaz de purificar a alma do espectador ou na fala de Junito Brandão purificada a tragédia provoca no espectador sentimentos compatíveis com a razão Para a catarse ou seja esse estado de purificação proporcionado pela tragédia que é capaz de conferir através do equilíbrio entre os crimes e os atos heroicos do herói o espectador se redime da sua condição humana ou poderíamos mesmo afirmar que o espectador reconciliase com o caráter dionsíaco da existência É ainda Ducker quem fala Sugerese aqui que o elemento dionisíaco consiste nessa perspectiva trágica sobre o mundo isto é na constatação do caráter paradoxal do herói e também na busca de uma solução possível para os sentimentos que essa constatação desperta Desse ponto de vista podese oferecer uma interpretação do sentido da depuração ou purificação aristotélica embora é claro a doutrina aristotélica literal tenha se perdido A purificação pode ser entendida apenas como liberação e purgação do terror e da piedade e em outros autores principalmente médicos a purificação tem muitas vezes o sentido de simples purgação e exclusão Seria contrário ao pensamento aristotélico que o ensinamento trágico se resumisse à constatação dos aspectos incompreensíveis e absurdos da realidade Tratase de fazer com que os sentimentos despertados pela perspectiva trágica não se tornem pesados demais O espectador da tragédia deve ser habilmente conduzido a um estado de intensidade tal que não se limite a permanecer em estado de choque e confusão O espectador não deve deixar o teatro mais desgostoso do que entrou O prazer estético permite que ele encontre a justa medida diante da constatação do caráter paradoxal que o mundo às vezes apresenta Que a purificação seja assim definida como um prazer estético que não visa simplesmente expurgar sentimentos dolorosos mas proporcionar uma distância adequada diante deles O prazer na arte permite ao mesmo tempo que não neguemos um aspecto da realidade e nem que nos desesperemos diante dele DRUCKER 2009 p9091 Tarefa 2 10 pontos Clique aqui para acessar a Tarefa 2 FORUM 1 10 pontos Clique aqui para acessar o Fórum Temático Referências ARISTÓTELES Poética 2ª ed São Paulo Arte Poética 1993 ARISTÓTELES La Métaphysique Introdução tradução e notas de J Tricot Paris Librairie Philosophique J Vrin 1981 ARISTÓTELES Metafísica Tradução de Giovanni Reale Vol II São Paulo Edições Loyola2002 Metafísica sumário e comentários Tradução Giovanni Reale Vol III São Paulo Edições Loyola 2002 ALLAN D J A filosofia de Aristóteles Lisboa Editorial Presença 1983 BRANDÃO Junito de Souza Teatro Grego tragédia e comédia 9ª edição Petrópolis Editora Vozes 1985 DETIENNE Marcel Dioniso a Céu Aberto Trad Carmem Cavalcanti Rio de janeiro Jorge Zahar Editor 1988 HEIDEGGER Martin Qué significa pensar Buenos Aires Editorial Nova 1964 LESKY Albin A tragédia grega 2ª ed São Paulo Perspectiva 1990 PETERS F E Termos Filosóficos Gregos Um Léxico Histórico Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1974 TRICOT J Introduction in Aristote Métaphysique Paris Vrin 1981 V
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UNIDADE 3 Aristóteles Tragédia Poética Esta unidade tem como objetivo introduzir o discente nas especulações do pensamento de Aristóteles sobre o belo e a arte Tratase de guiar através de nosso Roteiro de Estudos o discente nas discussões empreendidas no capítulo 3 intitulado Aristóteles Tragédia Poética do Caderno de Estudos Estética utilizado em nossa disciplina Ao final de seus estudos você deverá ser capaz de Situar a discussão promovida por Aristóteles em torno da questão da arte e do lugar que ela ocupa em relação à Filosofia Compreender a relação entre a produção dos entes poéticos a produção artística dentro da teoria das quatro causas que visava sobretudo explicar de forma racional o movimento do real Compreender a questão da existência humana implícita na questão da arte a partir da análise empreendida por Aristóteles da Tragédia Grega Nascido em Estagira Aristóteles estudou na Academia de Platão e foi um dos seus maiores críticos Imagem retirada de httpwwwedumedeiroscomgeografiaaristotelesphp Acesso em 23 de setembro de 2013 31 O QUE É FILOSOFIA PARA ARISTÓTELES Antes de entrarmos propriamente na questão do belo para Aristóteles é preciso retomar o que esse filósofo compreende por Filosofia e qual o lugar que esse tipo de saber ocupa em relação a arte Neste tópico de nosso Roteiro de Estudos estaremos nos debruçando sobre a obra de Aristóteles intitulada de Metafísica Segundo J Tricot a Metafísica se encontra dentro da classe dos escritos chamados de acroamáticos Aristóteles chama acroamáticos as lições destinadas aos seus alunos e que por oposição às investigações exotéricas partem de princípios próprios da coisa e são objeto de um ensinamento demonstrativo Está claro que uma investigação qualificada de acroamática trata de matérias às quais a especulação ou a prática se atêm a um interesse verdadeiramente científico tais como os problemas da Physica ou da Filosofia Primeira TRICOT 1981V Na verdade o texto da Metafísica tal como o conhecemos hoje sob a forma de um tratado único não foi projetado como tal originalmente por Aristóteles De fato segundo uma tradição que remonta à Antiguidade o responsável pela organização e publicação da Metafísica neste formato foi Andrônico de Rodes um aristotélico do século I aC e que atuou como o décimoprimeiro escolarca do Liceu De acordo com a tradição mencionada Andrônico se responsabilizou pela compilação organização e edição de todos os textos aristotélicos de caráter esotérico ou acroamático Tais textos como se sabe foram compostos sob a forma de notas de aula apontamentos de conferências e registro das lições ministradas por Aristóteles no interior do Liceu e como tais eram destinados a um público restrito constituído pelos alunos e discípulos que frequentavam a escola fundada pelo filósofo o termo acroamático remete ao fato de que esses textos foram originalmente não lidos mas ouvidos pelos alunos do Liceu nas aulas e preleções dadas pelo filósofo akróasis em grego significa justamente audição oposição aos textos exotéricos ou redigidos por Aristóteles para o grande público Pois bem em seu trabalho editorial de compilação e organização dos escritos acroamáticos de Aristóteles Andrônico se deparou após a organização dos tratados referentes ao estudo da physis e dos entes naturais intitulado Physiké Akróasis com uma coleção de 14 escritos diferentes relacionados àquilo que Aristóteles chamou de sapiência filosofia primeira e ciência do ser enquanto ser O escolarca agrupou esses 14 escritos num tratado único e deulhes então o título de Tà metà tà physikà literalmente os escritos que vêm depois da Física A história acerca do trabalho editorial de Andrônico nos mostra assim o caráter problemático e complexo da Metafísica no que diz respeito à sua gênese e à sua composição não se trata de um livro comum i e de um texto totalmente unitário e homogêneo composto pelo próprio Aristóteles a partir de um plano filosófico prévio mas de uma coleção de 14 tratados a princípio independentes e heterogêneos coligidos e reunidos posteriormente em um único volume pelo editor das obras aristotélicas A história acerca do trabalho de Andrônico nos mostra ao mesmo tempo que a própria palavra metafísica que dá título à obra é igualmente problemática Com efeito essa palavra não foi forjada por Aristóteles e não pertencia ao seu vocabulário filosófico como vimos o termo foi forjado por Andrônico na realização de sua edição das obras aristotélicas O termo metafísica não aparece em nenhum dos textos do Estagirita O saber procurado nos tratados reunidos sob o título de Metafísica é designado pelo filósofo das mais diferentes maneiras sapiência sophia no livro I ou alfa ciência do ser enquanto ser no livro IV ou gama filosofia primeira próte philosophía nos livros IV e VII ou dzeta ou mesmo ciência teológica theologiké no livro XII ou lâmbda Muito se discutiu acerca do significado a ser atribuído a esse título cronológico ou ontológico As duas interpretações são a princípio possíveis Com efeito a preposição grega metá que está na base do termo metafísica é ambígua e pode significar seja depois num sentido temporal seja além no sentido hierárquico remetendo a algo que se encontra numa posição superior acima correspondendo ao latim trans Com base nisso há aqueles que propõem uma interpretação meramente cronológica do termo e que consideram que metafísica é um vocábulo que significa tão somente algo que se refere à ordem ou à disposição meramente bibliográfica em que os escritos aristotélicos foram arranjados por Andrônico de Rodes No entanto outros autores como P Moraux e E Berti julgam que o termo metafísica possui um valor conceitual e não meramente editorial guardando uma significação filosófica e mesmo ontológica mais profunda Nessa perspectiva a metafísica seria assim o saber que se encontra para além da física ou acima da física lendose a preposição metà no sentido hierárquico e não meramente cronológico mas que pressupõe aquilo que é dado na experiência Porém o que nos interessa de fato não é a discussão acerca da origem do título da obra a ser trabalhada ou ainda se se trata ou não de uma obra redigida na íntegra pelo próprio punho de Aristóteles ou transcritas pelos seus discípulos A nossa discussão transita na esfera desse saber chamado pelos pósteros de metafísico postulado por Aristóteles e no modo como ele Aristóteles irá elaborálo Saber que o próprio Aristóteles nomeou de Filosofia Primeira Sabedoria Ciência do ser enquanto ser ou Teologia 311 A HIERARQUIA DOS SABERES No começo do Livro da Metafísica Aristóteles discute o que é a Filosofia e o lugar que ela ocupa em relação aos outros saberes próprios do homem Neste Roteiro de Estudos utilizaremos a obra de Xavier Zubiri intitulada Cinco Lições de Filosofia como referência de nossa análise do que Aristóteles compreende por Filosofia apresentada no capítulo I do Livro I da Metafísica Sendo assim começaremos por determinar o que se quer aqui compreender por Saber Saber é estar intelectivamente na verdade das coisas Ora se por verdade compreendermos o próprio real o ser que é comum a tudo o que é e que se desvela se patentiza através das suas causas e princípios e se por intelecto compreendermos o nous uma visão mental apreensão do que é essencial teríamos que o saber é estar na visão do que é essencial ou seja é visar o desvelamento das causas e dos princípios de tudo o que é Pois bem no começo do livro I Aristóteles nos fala dos dois primeiros modos como somos afetados pelas coisas Modos estes que nos permitem perceber os seres entes singulares mas que não nos permitem ainda estar intelectivamente na verdade destes seres e isto porque nestes dois modos não nos são desvelados as suas causas e princípios Estes dois primeiros modos de sermos afetados pelos seres são Aísthesis sensação que é o modo como somos tocados em nossos sentidos pelos seres singulares Empeiria experiência que se constitui propriamente na junção da sensação e da memória Poderíamos dizer que é a nossa capacidade de reter e trazer à memória as sensações Aristóteles nos fala que existem cinco modos de saber que são modos propriamente ditos de alethéia verdade Verbo traduzido por patentizar O alfa a do termo alethéia é composto de um alfa privativo inicial que transmite a ideia de negação e do prefixo leth que transmite a ideia de velar ocultar donde teríamos que o termo alethéia significa o não velar o desvelar o patentizar Pois bem o primeiro modo de saber de que nos fala Aristóteles é Téchne arte o saber fazer a capacidade de produzir algo Ou seja é a capacidade da poiesis produção O que é produzido é uma obra um ergon ver o sentido de ergon em Heidegger Martin A origem da Obra de arte e Ser e Tempo 15 Quem possui a téchne possui o conhecimento das causas Ou melhor é capaz de dizer o porquê de algo Por exemplo o Mestre de obras sabe melhor que um pedreiro este é aquele que só conhece por ou na experiência porque sabe o que causa a sua ação Além de saber melhor quem possui a téchne sabe mais coisas do que saberia por experiência Por exemplo pela experiência conhecemos de vários enfermos mas pela téchne sabemos de todos os biliosos Assim é que o conhecimento dado pela Empeiria é o saber do particular mas o da téchne é universal E mais o saber da téchne é passível de ser ensinado Phronésis prudência o saber das ações humanas Ou seja o saber conduzirse na vida donde a prudência não é um saber fazer coisas mas antes um saber agir entre os homens Enquanto na téchne o homem produz poiesis uma obra ergon na phronésis o homem realiza ações Por isso o fim da phronésis é uma práxis Para Aristóteles a práxis o prático neste sentido grego não se opõe ao theorético Pelo contrário a teoria é a forma suprema de práxis da atividade que se basta a si mesma porque não faz nada para fora dela mesma O saber da phronésis é um saber universal porque se refere à totalidade da vida e ao bem do homem É o saber atuar na totalidade da vida Este saber tem por objeto o bem e o mal Ora o saber atuar na vida segundo o bem e o mal do homem isto é phronésis para Aristóteles ZUBIRI 2012 pág 25 Segundo Aristóteles embora estes saberes da téchne e da phronésis sejam saberes que nos reportam às causas ao porquê de algo seja de uma produção seja de uma ação isto é nos reportam ao universal estes saberes não se reportam ao que é necessariamente Epistemé ciência é o saber das causas enquanto estas são universais e necessárias Segundo Xavier Zubiri A Epistemé é uma intelecção demonstrativa que consiste em fazer com que o ente aquilo que é mostre desde si mesmo o por que a causa de certas propriedades lhe pertencerem necessariamente Esta mostração é de fato uma demonstração que por sua vez tem o sentido de uma exibição Pois para Aristóteles demonstração não significa em primeira linha um raciocínio mas sim uma exibição que o ente faz de sua interna estrutura necessária Esta demonstração acontece num ato mental de estrutura sumamente precisa o lógos a frase A afirmação de que um objeto S tem necessariamente uma propriedade p é um lógos E por isto a estrutura mental que conduz a este lógos se chama lógica Esta é o caminho meqodoz método como estrutura mental tem diversos momentos Portanto tem que partir de um lógos no qual expressemos com verdade que o objeto s tem intrinsicamente em seu ser mesmo um momento m que é o por quê Mas necessitamos também de outro lógos que expresse com verdade o caráter segundo o qual o momento M funda com necessidade a propriedade P isto é que mostre seu caráter de por quê Somente então ficará fundado o lógos S é necessariamente P o qual portanto é conclusão dos dois logois prévios chamados por isto de premissas As premissas são aquilo de onde se segue a necessidade da conclusão Todo de onde é princípio pois princípio consiste naquilo de onde algo vem Portanto os logois que são as premissas são os princípios do lógos da conclusão A esta conexão de logois Aristóteles chamou silogismo Contudo o saber que nos é dado por esta ciência é limitado Poisos princípios básicos nos quais devem se apoiar o silogismo não podem ser obtidos por demostração Primeiro porque ainda que muitos princípios do silogismo demonstrativo possam ser demonstrados e se demonstram por sua vez de outros silogismos sem embargo alguma vez deverá parar em algo que não se possa demonstrar do contrário todo o corpo de demonstrações ficaria sem base ZUBIRI 2012 pág 25 Ora são precisamente estes primeiros princípios que Aristóteles visa a investigar donde é necessário um outro tipo de saber no qual sejam apreendidos estes princípios Nous intelecção é a visão intelectiva do ser das coisas Nous é o modo especial de saber pelo qual em forma videncial apreendemos as coisas em seu ser imutável E é este ser o princípio de cada ordem de demonstração Naturalmente Aristóteles limita o Nous a certas supremas apreensões videnciais do ser das coisas Somente assim é possível a intelecção apodítica não demonstrativa O saber apoditíco não recai diretamente sobre as coisas triangulares senão sobre O triângulo Por isto a vidência noética da triangularidade é o princípio de toda a ciência do triângulo ZUBIRI 2012 pág 25 Sofia sabedoria é o saber buscado por Aristóteles Saber este que consiste na junção da Epistemé e do Nous É portanto a Ciência do Ser enquanto Ser a Ciência dos Primeiros Princípios e das Primeiras Causas Sabedoria Primeira Teologia porque o ser enquanto ser não é senão o Théos Ato Puro Motor Imóvel 312 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA FILOSOFIA PARA ARISTÓTELES Pois bem a Filosofia a Sabedoria ou Teologia se apresenta como o saber por excelência a ciência suprema Teríamos assim a seguinte representação A Filosofia se encontra como aquele saber que é mais saber por ser o Primeiro Saber das primeiras causas e dos primeiros princípios do real E porque é assim ela é capaz de dar conta não dessa ou daquela região do real mas da própria condição de possibilidade desde onde tudo vem a ser A Filosofia é mais Ciência porque aquele que será capaz de ensinála o sábio ou o filósofo será capaz de levar o seu discípulo a saborear esses mesmos princípios e causas e dessa forma saborear a totalidade de tudo o que é ensinando assim mais e melhor do que qualquer outro Contudo este ensinar não se confunde com a transmissão de conhecimentos úteis Ensinar mais e melhor não significa ensinar mais coisas Tratase antes de fazer com que aquele que quer aprender sobre e desde os primeiros princípios e causas do real se disponha a abrir mão de qualquer caráter de utilidade e de interesse para fora desse exercício de saber filosófico Por isso ensinar é sempre muito difícil Com efeito ensinar é ainda muito mais difícil que aprender Se sabe disso muito bem mas poucas vezes o temos em conta Por que é mais difícil ensinar que aprender Não porque o mestre deva possuir um maior cabedal de conhecimentos e têlos sempre à disposição O ensinar é mais difícil que o aprender porque ensinar significa deixar aprender Mais ainda o verdadeiro mestre não deixa aprender nada mais que o aprender Por isso muitas vezes seu obrar produz a impressão de que propriamente não se aprende nada dele se por aprender se entende apenas a obtenção de conhecimentos úteis O mestre possui em relação aos aprendizes como único privilégio ter que aprender todavia muito mais que eles o deixaraprender O mestre deve ser mais dócil que os aprendizes O mestre está muito menos seguro do que leva entre as mãos que os aprendizes Por isso onde a relação entre mestres e aprendizes seja verdadeira nunca entra em jogo a autoridade do sabetudo nem a influência autoritária de quem cumpre uma missão Assim sendo continua sendo algo sublime o chegar a ser mestre coisa inteiramente distinta de ser um docente afamado HEIDEGGER 1964 p 23 Pois bem aquele cuja tarefa é a de ensinar esse tipo de ciência que Aristóteles chama de Filosofia deverá ser assim desprovido de qualquer interesse que não seja somente o de que o seu discípulo aprenda por si mesmo ou desde a sua própria natureza a pensar A Filosofia buscada por Aristóteles é inútil não possui qualquer utilidade prática para fora dela mesma Esse é outro ponto que faz dela mais saber mais ciência que as outras ciências Concentrada em si mesma a filosofia é capaz de saber mais e melhor acerca do homem e do mundo que o circunda à medida em que se concentra nos primeiros princípios e causas da realidade desse mesmo homem e desse mesmo mundo Sendo desde si mesma e por si mesma a Ciência pretendida por Aristóteles é mais livre que qualquer outra ciência à medida que tem em si a causa de si mesma Essa liberdade é outro ponto que faz dela mais ciência que as outras A Filosofia que para Aristóteles nasce do espanto da admiração diante do fato de as coisas serem o que elas são só acontece quando o homem já resolveu todos os seus assuntos de ordem cotidiana Quando livre das obrigações e preocupações relativas à sua subsistência se entrega ao ócio A um à toa muito ativo como nos diria Guimarães Rosa se entregando ao gosto de especular ideias Somente desligado das urgências do cotidiano é que esse homem pode cavar a devida distância do ordinário da sua existência Distância que assim o aproxima daquilo que nesse ordinário existe de mais extraordinário Ora o que para Aristóteles se tornou ordinário tornandose senso comum são precisamente as colocações dos seus antecessores em relação a natureza do real E é exatamente num diálogo com essa tradição que Aristóteles inaugura o primeiro Livro da sua Metafísica Aristóteles mais do que seguir um método doxográfico no qual nos daria opiniões acerca das doutrinas dos antigos acerca do real se esforça por pensar Segundo o Professor Emmanuel Carneiro Leão As interpretações do Estagirita não são relatos doxográficos Constituem um esforço de pensar nas doutrinas antigas o que elas têm de idêntico nas diferenças entre pensamento filosófico e pensamento originário LEÃO 1980 pág 27 Assim mais do que procurar a autenticidade dos testemunhos que Aristóteles nos dá acerca dos pensadores que o precederam é preciso estar atento para aquilo que aí nesses pensadores Aristóteles busca encontrar Tratase de um diálogo pensante com a tradição no qual o que deve estar sempre de novo em jogo é o próprio ato de pensar Ato em si mesmo histórico Aristóteles nunca faz história sem filosofia da história mesmo quando fala dos filósofos que o precederam Não pergunta pelas idéias que determinado filósofo tinha na cabeça Isso não tem importância Sal investigação é sempre e somente filosófica Assim quando a tradição lhe diz que para Tales a água é o princípio de todas as coisas mas não se pergunta qual a idéia de água e princípio podia Ter tido Tales só se interessa pelo sentido filosófico da afirmação LEÃO 1980 p27 Qual sentido interessa Aristóteles senão o de buscar na fala desses pensadores já a presença daquilo que para ele Aristóteles deve estar sempre em pauta para a filosofia ou seja os primeiros princípios e as primeiras causas Assim se no primeiro capítulo do Livro I Aristóteles situa a filosofia como o expoente máximo dentro da hierarquia dos Saberes e se no segundo capítulo ele nos fala da Natureza dessa Filosofia do terceiro capítulo até o décimo e último capítulo do Livro I Aristóteles marca a sua posição frente à tradição de pensamento que o antecedeu 32 A FILOSOFIA A TEORIA DAS QUATRO CAUSAS E A ARTE Pelo exposto acima para Aristóteles a Filosofia ocupa o lugar mais elevado enquanto o saber por excelência a ciência suprema Por outro lado a arte compreendida como téchne o saber fazer a capacidade de produzir algo se encontra numa dimensão afastada do fazer filosófico que é para Aristóteles um tipo de saber eminentemente teórico Tal saber tem por objeto a substância ousia que no pensamento de Aristóteles se mostra como o modo de ser mais fundamental dentro esquema ontológico proposto pela teoria das categorias modo de ser que encontra sua expressão primeira no âmbito da experiência no ente composto sýnolon que acessamos por meio dos sentidos isto é no ente constituído pela unidade inextricável de matéria hylé e forma eidos A substância é a categoria primeira do pensamento ou seja aquilo que o pensamento acusaaponta de imediato na realidade Contudo essa substância não é algo estático mas é antes algo que resguarda em si a causa do movimento que se explicita para Aristóteles na sua teoria das quatro causas Pois bem quando o Estagirita fala sobre os entes de produção dos quais a obra de arte é o melhor exemplo essa produção poiesis é indissociável de uma competência de um saber fazer que como foi visto foi chamada de técnica téchne e que posteriormente foi traduzida para o latim como ars arte e cujo resultado é sempre uma obra ergon Ora para Aristóteles saber é manterse intelectivamente na verdade das coisas sendo a técnica e a arte uma espécie de saber por conseguinte um modo de se estar na verdade das coisas verdade que o grego compreendia como sendo um desvelamento dos seres alethéia Contudo esse saber se manifesta através do comportamento humano no nosso caso o comportamento do artista ou do artesão Mas segundo Aristóteles na sua teoria das quatro causas o que move a mão do artista e promove a forma que se encontra subjacente à matéria é algo que transcende a própria materialidade e igualmente transcende a vontade individual do artista 321 TEORIA DAS QUATRO CAUSAS httprafaelroblescomfiloimages22eLas4causasaristotC3A9licasjpg Acesso em 09 de abril de 2019 Segundo Aristóteles o termo causa aitía possui quatro sentidos quais sejam causa material causa formal causa eficiente e causa final De maneira geral podemos dizer que estes sentidos devem dar conta do que sejam as coisas e do movimento pertencente a elas Em relação às causas os entes são divididos em duas classes os seres poéticos seres de produção que não possuem em si a causa do movimento como veremos mais adiante é nessa classe que estão incluídas as obras de arte e os entes naturais que possuem em si essa causa1 No vocabulário filosófico de Aristóteles natural é de fato tudo aquilo que surge nasce e vem a ser por si mesmo em virtude de um princípio interno ou imanente de movimento A natureza é assim uma força de crescimento que promove o desenvolvimento das coisas a partir de dentro Como o filósofo esclarece em sua Física a natureza é um princípio e uma causa de movimento e de repouso para cada coisa na qual ela existe primeiramente por si e não por acidente Física II 1 192b2123 Pois bem a causa material do que existe é a matéria da qual se formam as coisas e igualmente dizemos que é a natureza physis destas pois a natureza é o material primeiro de que consiste ou é feito qualquer objeto artificial fundo desprovido de forma e 1 No desenvolvimento da nossa análise iremos nos ater apenas aos entes naturais incapaz de sofrer uma mudança que o faça sair de sua própria potência ARISTÓTELES 1981 p 256 O que é a matéria É antes de tudo explica Aristóteles o substrato hypokeímenon a partir do qual as coisas compostas naturais ou artificiais se engendram ou são produzidas tornandose graças à atuação ontológica de uma forma um ente determinado tóde ti Esse substrato segundo Aristóteles pertence às coisas compostas de forma essencial e não acidental ou seja ele é um ingrediente constitutivo de todo ente natural ou artificial Por exemplo em uma estátua de bronze de Zeus que é um objeto artesanal a matéria é o bronze a partir do qual a imagem do deus foi esculpida pelo escultor bronze este que pertence à organização da estátua de maneira constitutiva não se pode separar de fato a figura do deus do bronze em que ela foi talhada Além disso como substrato apto a receber uma forma a matéria é em si mesma pura potência dýnamis Potência na conceptualização filosófica proposta por Aristóteles significa antes de tudo capacidade de ser determinado por uma forma isto é passividade ontológica dizer assim que a matéria é em si mesma pura potencialidade equivale a dizer que a matéria é em si mesma um princípio passivo e radicalmente indeterminado ou amorfo que só adquire alguma configuração e se torna um verdadeiro objeto após a atuação da forma Por sua vez a causa formal do que existe como se pode notar a partir do que foi dito acima é estrutura toma a matéria um ente determinado retirandoa de sua indefinição primitiva ou seja a forma é o princípio ontológico que limita e ordena a matéria transformando esta em um objeto definido e passível de ser conhecido Tratase pois de uma referência à natureza das coisas isto é ao princípio que faz com que cada ente seja o que ele é e não outra coisa é pela forma que um certo objeto de madeira é uma mesa e não uma cadeira Aristóteles nos fala sobre a natureza nesses mesmos termos dizemos das coisas que ainda não possuem a sua natureza enquanto não haja adquirido a forma e a figura que lhes são próprias ARISTÓTELES 1981 p 256 Assim ao falarmos da natureza das coisas fica difícil pensar separadamente a causa material da causa formal sendo essa distinção puramente lógica ou seja ao nível de pensamento e não de existência A causa eficiente é o princípio motor pelo qual a matéria ganha forma Processo através do qual a coisa se determina Ou melhor é a origem deste processo de determinação Ora ser origem de alguma coisa implica em ser o movimento desde onde algo vem a ser o que é Em sendo assim compreendida teríamos que a causa eficiente também ela nos reporta para a noção de natureza pois os três primeiros sentidos para este termo no Livro V cap IV da Metafísica nos diz a natureza é movimento gênese aquilo de onde provém o crescimento de uma coisa E ainda se esse movimento fosse desordenado e sem finalidade teríamos apenas matéria como pura potência destituída de forma O movimento tem que ter um fim télos Ora a causa final é aquilo em vista do qual o movimento se efetua Segundo Aristóteles o fim do movimento é o belo o bem a excelência O que é o bem para as coisas É ser como deve ser ou seja uma forma que as delimite Dandose o limite há a possibilidade de definição e conhecimento das coisas O bom e o belo são o começo tanto do conhecimento como do movimento das coisas ARISTÓTELES 1981 p 257 Ora a causa última que confere limite télos ao movimento é Deus théos que sendo a causa do movimento deve ser por isso imóvel o que significa dizer ato puro entelechéia destituído de potência O théos é o que Aristóteles concebe por substância simples causa das substâncias compostas objeto da sua Filosofia Primeira por isso também chamada de Teologia A teoria aristotélica das quatro causas expressa portanto o princípio de conhecimento do movimento de constituição do ser da existência das coisas do real A causa é princípio de conhecimento de inteligibilidade porque compreender a causa significa compreender a articulação interna disso ou seja a razão pela qual um ser qualquer é o que é necessariamente A relação causal explicita a própria estrutura da necessidade que mantém o ente sendo isso que ele é explica o porquê do ente ser isso que ele é explicando dessa forma o fundamento sobre o qual se baseiam as ações dos entes As ações deverão ser sempre reguladas pelo fim último télos que é o bem expresso pelo próprio théos Em suma a teoria das quatro causas postulada por Aristóteles diz o porquê de as coisas serem isto que elas são O porquê a causa nada mais é que a explicação do quê da quididade daquilo que constitui as coisas na sua natureza mais própria necessária daquilo desde o que elas são e vem a ser o que são Isto é a substância 33 A ARTE O BELO NA TRAGÉDIA CONSIDERAÇÕES SOBRE A POÉTICA DE ARISTÓTELES A criação poética ao imitar a natureza se volta para a força produtiva dos objetos realizados pelo homem E como o Estagirita compreende a physis Como foi visto no tópico anterior a physis a natureza é para Aristóteles o princípio interno de movimento portanto ela é o processo originário em que é possível ocorrer a formação e a aparição e a criação de todas as coisas Os entes de produção são os que se referem à atividade técnica e se formam movidos não por si mesmos como os naturais mas a partir de uma força externa a saber a mão do artista Ou seja nos entes de produção é um agente motor extrínseco que introduz de fora a forma em uma matéria que lhe é estranha diferentemente do que ocorre no processo natural em que é do interior ou a partir de dentro que a forma modela uma matéria que lhe é própria Isso significa que a arte para Aristóteles é um princípio de organização externo Por conseguinte o que é produzido pela arte é o que se considera propriamente um ente poiético E o fim imediato desses entes é a utilidade visada pelo artesão Utilidade esta que se apresenta de acordo com o que a coisa deve ser necessariamente aproximandoa do Bem Dentro desse raciocínio um ente de produção é necessariamente Belo pois ele está em sintonia com o Bem O Belo nos diria Aristóteles ser vivente ou o que quer que se componha de partes não só deve ter essas partes ordenadas mas também uma grandeza que não seja qualquer Porque o belo consiste na grandeza e na ordem e portanto um organismo vivente pequeníssimo não poderia ser belo e também não seria belo o grandíssimo Pelo que tal como os corpos e organismos viventes devem possuir uma grandeza e este bem é perceptível como um todo Poet VII 1450b 341451a 4 Nos entes poiéticos a perfeição é compreendida como um conjunto de qualidades a saber a simetria a harmonia a ordem a proporção o equilíbrio os componentes do belo que é em última instância a finalidade da arte Assim a ideia de Bem e Belo embora não sejam equivalentes como no pensamento de Platão possuem entre si uma relação de subordinação o Belo se encontra subordinado ao Bem dentro do movimento de produção do ente poiético porque segundo Aristóteles todas as coisas têm como finalidade o bem A ideia de Bem se harmoniza com a de perfeição O mundo se move em vista do ser perfeito o theós Como havíamos visto no tópico acima o théos é para Aristóteles o Primeiro Motor É Imóvel Eterno Essência Pura responsável pelo movimento de perfeição de todos os entes e opera como causa final do movimento que ocorre na matéria Ele é maximamente desejável e seu objeto de desejo é o que é Bom e Belo Ambos se integram na ordem do inteligível o que é primeiro e excelente 34 A ARTE MIMÉTICA A TRAGÉDIA GREGA Antes de entrarmos na discussão presente no pensamento de Aristóteles sobre a imitação e a sua função na tragédia Grega vamos conhecer um pouco mais esse tipo de encenação teatral A tragédia grega foi uma das maiores contribuições artística que a cultura grega nos deixou Tratase de uma encenação na qual um grupo de atores devem encenar imitar uma ação que incide sobre um mito do repertório que constitui a história do povo grego O poeta trágico que tão duramente foi criticado por Platão como podese observar na unidade I tem por tarefa compor um drama que deverá reapresentar imitar alguma ação da história que se resguardou na memória coletiva daquele povo O edifício que deverá abrir essa encenação tem a forma de um anfiteatro um semicírculo a céu aberto composto por uma série de degraus que deveria servir de assento para o espectador Observe a foto abaixo 6a6grupodeestudos2011blogspotcom Acesso em 17 de abril de 2019 ESQUEMA DO TEATRO GREGO httpteatroincrivelblogspotcombr Acesso em 17042019 Saiba mais Tragédia gr τραγῳδία a mais antiga obra literária representada por atores em espaço especializado o teatro é um dos mais importantes gêneros literários legados pela Grécia Antiga As condições religiosas sociais e políticas que permitiram a emergência do gênero trágico podem ser situadas na segunda metade do século VI a tragédia parece ter se desenvolvido a partir dos cantos corais apresentados nas festas religiosas em honra de Dioniso e atingiu o apogeu em Atenas entre 480 e 400 mais ou menos httpgreciantigaorgarquivoaspnum0254 Acesso em 17 de abril de 2015 Segundo Albin Lesky o termo Tragédia significa Canto do Bode A explicação do termo se deve a própria origem deste tipo de manifestação artística O teatro grego teve origem nos cultos a Dionísio divindade filho de Zeus Pai dos deuses e dos homens e da mortal Sêmele Diante da traição de Zeus Hera sua esposa legítima é tomada por uma ira desenfreada e passa a perseguir a amante de Zeus e ao seu filho Em virtude disso Dionísio foi criado em uma caverna sendo alimentado pelas frutas que por lá nasciam e tendo por companhia os sátiros divindades silvestres metade homem metade bode Durante sua existência Dionísio foi perseguido por Hera o que o obrigou a metamorfosearse várias vezes E muitas foram as suas mortes das quais ele renascia sempre em virtude do seu caráter divino e imortal Sileno com Dionísio nos braços httpwwwportalsaofranciscocombralfamitologiagregadionisio2php Acesso em 17 de abril de 2019 A figura de Dionísio está associada à morte e ao sexo em virtude da continua ruptura do limite que o mantém preso à existência Ruptura expressa pela continua mudança de formas ou pelo uso de diferentes máscaras utilizadas pelo deus para fugir da implacável Hera pelas inúmeras mortes muitas das quais por esfacelamento pelo contínuo estado de embriaguez que o lançava no estado de êxtase e loucura Deus da desmedida do espraiado da existência Dionísio pintura de Caravaggio httpwwwmenuespecialcombr Acesso em 17 de abril de 2015 Dionísio organiza o espaço em função de sua atividade ambulatória É encontrado por toda parte em nenhum lugar está em casa Nem mesmo em um antro ou em um esconderijo na montanha menos ainda à entrada de um santuário ou à luz de um templo urbano Há em Dioniso uma pulsão epidêmica que o afasta dos outros deuses de epifanias regulares programadas e sempre arrumadas segundo a ordem de culto das festas oficiais e cada uma a seu tempo DETIENNE 1988 p 14 15 Uma das teses que busca explicar a origem da Tragédia é a de que ela teria se originado no ditirambo dramático que era constituído por um grupo de homens travestidos de bode numa referência aos sátiros companheiros de Dionísio O ditirambo teria dado origem ao coro constituinte do Teatro Grego Contudo em sua Poética Aristóteles dá ênfase à origem Ática da Tragédia afastandose da teoria que sustenta que a origem da Tragédia teria sido proveniente dos cultos a Dionísio sendo esse deus a figura principal do drama trágico Contudo a concepção do trágico em Aristóteles mantém o espírito dionisíaco presente no modo como é dado ao herói o exercício da ação trágica Isto porque ao herói não é dado o poder de decisão sobre a ação que irá desenvolverse ao longo da tragédia São os deuses que irão impor as suas vontades sobre o herói que se torna assim um joguete nas mãos da divindade Ora como vimos na unidade 2 as divindades representam as dimensões da própria existência humana sejam os modos como o homem compreende os aspectos psicológicos da sua existência seja o modo como compreende os fenômenos naturais que sobre advém Deste modo o herói trágico não possui uma vontade individual mas se encontra sob o império da sua própria condição humana Daí tornarse um joguete das vicissitudes da existência da vida Poderíamos mesmo dizer que para Aristóteles a tragédia é a imitação de uma ação da própria vida Ou segundo a Professora Cláudia Drucker A arte de compor tragédias é a arte de escrever tramas belas grandiosas e ao mesmo tempo concentradas de modo a conduzir o espectador numa direção bem definida estimulando sentimentos de terror e piedade A definição aristotélica de tragédia é a seguinte É pois a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado completa e de certa extensão em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes do drama imitação que se efetua não por narrativa mas mediante atores e que suscitando o terror e a piedade tem por efeito a purificação kátharsis dessas emoções Poé 1449b 2428 p 110 Destaquemos alguns aspectos dessa definição Em primeiro lugar a tragédia é a imitação de uma ação elevada ou mais simplesmente a imitação de uma ação 1449b 35 p 110 Aristóteles no capítulo IV da Poética alude a existência no homem de uma propensão à imitação porque a imitação lhe proporciona prazer Ainda segundo Drucker A imitação não se define por uma emulação superficial que não emprega a parte racional da alma seja da parte do artista imitador seja da parte da plateia Ela nem sequer é uma capacidade exclusiva do artista Antes de tudo a imitação nos diferencia como humanos o imitar é congênito no homem e nisso difere dos outros viventes pois de todos é ele o mais imitador e por imitação apreende as primeiras noções Poé 1448b 5ss p 1067 Buscamos a imitação por duas razões principais a imitação é prazerosa e é uma maneira de aprender Até aquilo cuja visão imediata é repugnante dá prazer quando imitado em uma pintura Dános prazer discorrer sobre a imitação de algo real porque a comparamos com o imitado Se alguém olhar uma reprodução sem conhecer o original não derivará nenhum prazer cognitivo disso pois não terá nada com que comparála e terá um prazer apenas estético na cor na figura na composição e na execução sobre o qual a Poética nada tem a dizer senão que são meios ou instrumentos da imitação DRUCKER 2009 p73 A concepção que Aristóteles tem de imitação diverge daquela apresentada por Platão para quem a imitação que se verifica na poesia trágica seria perniciosa para a educação dos jovens já que a tragédia confere aos deuses característica puramente humanas nisto está incluída toda a sorte de vícios Segundo Platão Homero nunca teve a experiência daquilo que ele narra em sua obra Ele Homero se compraz em imitar por meio de palavras aquilo que ele sequer experimentou ou vivenciou Segundo Platão a educação da alma deve ser confiada àquele que for capaz de contemplar a ideia suprema do bem que deverá se dar através de uma razão intuitiva Ou seja a educação deve ser conferida ao filósofo devendo o poeta enquanto um imitador que dá origem às imagens através de palavras ser expulso da cidade por ele Platão idealizada Como podese observar a teoria de Platão sobre a arte dramática ou seja sobre a Tragédia encontra fundamento na sua ontologia notadamente na sua teoria da participação na qual a alma participa das ideias contudo devido à proximidade da alma com o corpo com o sensível ela acaba por esquecer essas ideias A Filosofia como o exercício para a morte morte compreendida como a separação entre o corpo e a alma deve fazer a alma lembrar dessas ideias Exercício que encontra a sua expressão no caminho que a alma deve percorrer até a ideia suprema do bem percurso exposto quer na alegoria da linha quer na alegoria da caverna Por isso a imitação de uma imagem ou de uma ação humana pode trazer prejuízos a alma daquele que a essa imitação se encontra exposto Ora podese dizer que na Poética o pensamento aristotélico busca promover uma reabilitação da categoria de mímesis mediante uma reelaboração conceitual do significado desse conceito Na Poética de fato a mímesis vai deixar de ser concebida como um simples simulacro enganador desprovido de valor e consistência ontológicos para se tornar um procedimento de representação que refaz e reconstrói o real operando para tanto de acordo com o princípio da verossimilhança eikós em grego palavra que pode significar também probabilidade Como se vê a a categoria de verossimilhança é essencial no trabalho filosófico de Aristóteles voltado para repensar o significado da mimesis e promover a reabilitação da poesia e da arte Aliás a própria linguagem nesse sentido é pensada por Aristóteles como um procedimento mimético Avançando nessa linha de reflexão Aristóteles contrariando a teoria platônica da imitação afirma que a arte dramática sobretudo a tragédia não é imitação de pessoas e sim de ações da vida ARISTOTELES 2000 p44 e por esse motivo o público se identifica com o herói trágico que deverá se mostrar como aquele que desenvolve esse tipo de ação Nesta identificação o drama trágico tornase capaz de provocar no espectador tanto o terror como a piedade Tratase de levar o espectador ao reconhecimento da natureza da qual é feita a vida a existência humana Quando o espectador se identifica com alguma desventura pela qual o herói trágico passa de fato ele o espectador reconhece o caráter contingente da existência humana Todos os mitos em sua forma bruta são horríveis e trágicos O poeta terá pois de introduzir de aliviar essa matéria bruta com o terror e a piedade para tornálos esteticamente operantes a ponto de se tornar uma alegria sem tristeza Purificada a tragédia provoca no espectador sentimentos compatíveis com a razão A tragédia suscita por meio de um equilíbrio que confere aos sentimentos um estado de pureza desvinculado do real vivido BRANDÃO1985 p 38 Essa purificação catarse essa transubstanciação do terror e piedade suscitados pela tragédia em um estado de pureza desvinculado do real vivido é capaz de afastar o homem dos terrores da sua existência ao tornálo espectador da condição humana e como espectador de si mesmo o homem purificase ao transformar a sua existência em arte Como podese observar o principal objeto da encenação imitação trágica é o mito que traduz o modo como o homem compreendia as diferentes facetas da condição humana ou seja o mito traduz as diferentes experiências propiciadas pelos fenômenos psicológicos e naturais que assomam a existência do homem sobre a terra lhe revelando concretamente as dimensões da sua própria humanidade Para o grego do período arcaico o darse dessas experiências o mito ganha um aspecto uma fisionomia extraordinária porque nesse acontecimento delimitamse as fronteiras entre o que é mortal e imortal Ou seja nesse acontecimento confinam os limites entre os homens e os deuses Os deuses ao expressarem as dimensões da própria humanidade do homem acabam por mostraremse próximos àquilo que é humano O mito é sempre uma representação coletiva transmitida através de várias gerações e que relata a explicação do mundo Mito é por conseguinte a parole a palavra revelada o dito E desse modo se o mito pode se exprimir ao nível da linguagem ele é antes de tudo uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento BRANDÃO 1992 p36 Como uma representação coletiva o mito que serve de objeto à tragédia encontra a sua força expressiva junto aos espectadores do drama trágico força responsável pela catarse que é o fenômeno de purificação pelo qual passa o espectador da tragédia ao ser tomado pelos sentimentos de terror e piedade diante das desventuras do herói trágico Por isso afirma Drucker Assim o drama está em condições como nenhuma outra imitação e como nenhum outro gênero de arte de ensinar algo sobre a vida pois a imitação leva ao aprendizado O que o drama ensina sobre a vida Dizse que a caracterização do personagem trágico deve estar a serviço da imitação de personagens elevadas isto é daquelas capazes tanto de crimes como de atos heroicos que povoam a mitologia e a epopeia gregas De fato não há tragédia sem que ambos crime e virtude estejam presentes Para Aristóteles é preciso que seja assim O estado de terror e piedade inspirado pelo herói trágico é capaz de purificar a alma do espectador ou na fala de Junito Brandão purificada a tragédia provoca no espectador sentimentos compatíveis com a razão Para a catarse ou seja esse estado de purificação proporcionado pela tragédia que é capaz de conferir através do equilíbrio entre os crimes e os atos heroicos do herói o espectador se redime da sua condição humana ou poderíamos mesmo afirmar que o espectador reconciliase com o caráter dionsíaco da existência É ainda Ducker quem fala Sugerese aqui que o elemento dionisíaco consiste nessa perspectiva trágica sobre o mundo isto é na constatação do caráter paradoxal do herói e também na busca de uma solução possível para os sentimentos que essa constatação desperta Desse ponto de vista podese oferecer uma interpretação do sentido da depuração ou purificação aristotélica embora é claro a doutrina aristotélica literal tenha se perdido A purificação pode ser entendida apenas como liberação e purgação do terror e da piedade e em outros autores principalmente médicos a purificação tem muitas vezes o sentido de simples purgação e exclusão Seria contrário ao pensamento aristotélico que o ensinamento trágico se resumisse à constatação dos aspectos incompreensíveis e absurdos da realidade Tratase de fazer com que os sentimentos despertados pela perspectiva trágica não se tornem pesados demais O espectador da tragédia deve ser habilmente conduzido a um estado de intensidade tal que não se limite a permanecer em estado de choque e confusão O espectador não deve deixar o teatro mais desgostoso do que entrou O prazer estético permite que ele encontre a justa medida diante da constatação do caráter paradoxal que o mundo às vezes apresenta Que a purificação seja assim definida como um prazer estético que não visa simplesmente expurgar sentimentos dolorosos mas proporcionar uma distância adequada diante deles O prazer na arte permite ao mesmo tempo que não neguemos um aspecto da realidade e nem que nos desesperemos diante dele DRUCKER 2009 p9091 Tarefa 2 10 pontos Clique aqui para acessar a Tarefa 2 FORUM 1 10 pontos Clique aqui para acessar o Fórum Temático Referências ARISTÓTELES Poética 2ª ed São Paulo Arte Poética 1993 ARISTÓTELES La Métaphysique Introdução tradução e notas de J Tricot Paris Librairie Philosophique J Vrin 1981 ARISTÓTELES Metafísica Tradução de Giovanni Reale Vol II São Paulo Edições Loyola2002 Metafísica sumário e comentários Tradução Giovanni Reale Vol III São Paulo Edições Loyola 2002 ALLAN D J A filosofia de Aristóteles Lisboa Editorial Presença 1983 BRANDÃO Junito de Souza Teatro Grego tragédia e comédia 9ª edição Petrópolis Editora Vozes 1985 DETIENNE Marcel Dioniso a Céu Aberto Trad Carmem Cavalcanti Rio de janeiro Jorge Zahar Editor 1988 HEIDEGGER Martin Qué significa pensar Buenos Aires Editorial Nova 1964 LESKY Albin A tragédia grega 2ª ed São Paulo Perspectiva 1990 PETERS F E Termos Filosóficos Gregos Um Léxico Histórico Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1974 TRICOT J Introduction in Aristote Métaphysique Paris Vrin 1981 V