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UNIDADE Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 21 O idealismo hegeliano 22 O socialismo de Marx 23 O existencialismo de Kierkegaard 24 O vitalismo de Nietzsche Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 21 O idealismo hegeliano Vocês tiveram oportunidade de estudar na História da filosofia III como Immanuel Kant resolveu os impasses entre o empirismo e o racionalismo Ele toma os dados da sensibilidade como matéria do fenômeno mas o fenômeno só surge na consciência em razão da atividade da razão cujas formas puras do espaço e tempo promovem o ordenamento da intuição sensível Aos fenômenos se aplicam as categorias que propiciam a formação dos juízos inclusive os científicos que são possíveis graças ao juízo que o filósofo denomina de sintético a priori No que se refere ao aspecto prático moral o filósofo considerou a vontade como legisladora da ação isto é é ela que orienta a pessoa a obedecer aos imperativos que a razão prática aponta Assim se colocam como complementares o conhecimento da natureza e a liberdade moral do homem finito diante de um imperativo absoluto que não pretende mas recoloca a questão de Deus na pauta das discussões Ela surge não com o propósito de se descrevêlo ou de tomálo como fundamento metafísico ou moral mas como crença legítima que se pode admitir em razão da necessidade de obedecer à norma moral Em função da moralidade que obriga a fazer o bem é razoável admitir que exista um ser que compensa os bons e castiga os maus Kant chega dessa forma a tratar o tempo de duas maneiras distintas conforme se tenha em vista o tempo físico ou o moral o primeiro apresentado na Crítica da Razão Pura e o outro dependente dos ensinamentos cristãos e exposto na Crítica da Razão Prática Essa dificuldade não está presente só em Kant mas acompanha os pensadores modernos pois se encontra presente no racionalismo cartesiano e nas críticas que lhe fizeram racionalistas e empiristas 211 Considerações iniciais Atenção Vamos recordar como Kant entende o tempo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O que foi dito anteriormente no nosso curso na primeira parte da Crítica da Razão Pura o tempo é uma forma pura da intuição que propicia outros conhecimentos vindos dos juízos sintéticos a priori Ele tem oportunidade de esclarecer no seu livro que o tempo não é um conceito derivado da experiência que ele fundamenta todas as intuições que não possui as propriedades de um conceito que é único e se encontra no sentido íntimo raiz do conhecimento fenomênico A elaboração desse esquema da razão aponta para uma nova perspectiva de conhecimento do mundo que Kant denomina transcendental Mas o que é a filosofia transcendental Kant explica na introdução da Crítica da Razão Pura 1987 Denomino transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com os objetos mas como nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori p 35 Ele a contrapõe à forma grega de conhecer o mundo mais especificamente platônica que denomina transcendente Kant desenvolve a noção moderna de subjetividade pensada pelos filósofos que o antecederam para chegar a um esquema universal do qual todos os homens participam Ele a denomina de subjetividade transcendental Esse esquema contudo não rompe com a moderna subjetividade no sentido que o pensado por Kant é ainda racionalidade iluminista Na Crítica da Razão Pura trata tempo e espaço como ordenadores da sensibilidade mas o sentido interno de tempo é mais importante porque alcança todos os dados enquanto o espaço aplicase apenas aos dados que representam o que está à volta da pessoa Há de se observar que Kant no final da vida caminha para valorizar a história e deixa aberta a porta para interpretações de sua filosofia como produção do sujeito pensante superando a distinção entre fenômeno e númeno inicialmente estabelecida na Crítica da Razão Pura É esse o caminho que será seguido pelos idealistas especialmente por Hegel cujo pensamento examinaremos abaixo E como o debate que se segue aprofunda as posições de Kant do final da vida A crítica elaborada por F H Jacobi 1743 1819 indica que o esquema de Kant pedia para tratar a coisa em si ou númeno mas acenava com a impossibilidade de fazêlo e Salomon Mainon 1754 1800 radicaliza ainda mais a crítica dizendo que se o pensado está na consciência também nela deve estar a coisa em si Essas críticas apontam a direção por onde seguirão os idealistas inclusive Georg Wilhelm Friedrich Hegel 1770 1831 o mais notável e conhecido deles O idealismo ficou conhecido como romantismo filosófico porque incorpora teses centrais do romantismo Quais seriam essas teses A valorização da história da tradição aproximação entre finito e infinito SAIBA MAIS As obras mais conhecidas de Hegel são A vida de Jesus 1795 Ideias para uma filosofia da natureza 1797 Fenomenologia do Espírito 1807 Enciclopédia das ciências filosóficas 1817 Princípios da Filosofia do Direito 1821 Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O idealismo hegeliano adota do romantismo os aspectos indicados no item anterior e ainda proclama a realização do Absoluto no mundo o que é outra tese romântica Então tudo quanto foi criado na história o conhecimento da natureza em diversos níveis as formas de pensar os costumes o Estado a 212 Visão de conjunto moral a arte a religião a filosofia todas essas são realizações do Absoluto E no idealismo filosófico realizase o propósito romântico de ultrapassar os limites do homem cujo sentimento se concilia com a razão e o finito é parte do infinito O kantismo inaugurou outra perspectiva ao conhecimento filosófico presente na metafísica tradicional como foi dito no item anterior No conhecido ensaio O que significa orientarse pelo pensamento Kant critica Jacobi e Mendelsohn porque eles consideravam a orientação como seguir um vago sentimento que Kant substituiu pela forma subjetiva da razão Ele explica 1985 Porque a razão na determinação de sua própria capacidade de julgar não está neste caso em condições de submeter seus juízos a uma máxima determinada segundo princípio subjetivo de diferenciação p 76 Hegel herda de Kant essa indisposição contra vagos sentimentos rejeita a adoção de um sentimento divino como princípio ético bem como a usar experiências místicas para tratar a trajetória até o Absoluto Hegel não usa manifestações confusas e intraduzíveis pela razão para tratar do fundamento do mundo O fundamento do mundo é racional Hegel edifica um vasto sistema em que explica o mundo e seu fundamento No livro Fenomenologia do Espírito descreve os diversos momentos pelos quais passa a razão do grande Sujeito Universal até alcançar o saber absoluto Eis o que Hegel escreve na Introdução do livro 1988 Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Os movimentos dessa razão universal o grande Sujeito com o propósito de se conhecer coincidem com as transformações da natureza que é uma forma menos pura do Espírito Tudo o que existe é parte do Absoluto de modo que o mundo e o pensamento coincidem ou dito como é mais conhecido o que é real é racional e o que é racional é real O que aparece na história do mundo são momentos do Espírito Absoluto que tudo realiza para cumprir o plano inicialmente estabelecido Ele passa por todas as criações da natureza para culminar na Filosofia a última etapa do autoconhecimento do Espírito Na Ciência da Lógica e na Enciclopédia das Ciências Filosóficas Hegel detalha os três momentos da Filosofia nos quais está todo o produto da inteligência humana Para Hegel a história do mundo é a história de um Absoluto que inicialmente decide se conhecer e estabelece os meios teóricos de fazêlo lógica estabelece os limites da consciência e se perde na natureza filosofia da natureza para finalmente reencontrarse consigo mesmo nos momentos superiores do Espírito filosofia de espírito Os momentos do todo são figuras da consciência Impelindose a si mesma em direção à sua verdadeira existência a consciência alcançará aquele ponto no qual depõe a sua aparência qual seja a de estar presa a algo estranho que é somente para ela e como um outro ou no qual o fenômeno se torna igual à essência A apresentação da consciência coincide aqui justamente com esse ponto da ciência do Espírito propriamente dita e finalmente apreendendo ela mesma essa sua essência a consciência designará a natureza do próprio Saber absoluto p 54 O magnífico trabalho de compilação da tradição filosófica feito por Hegel é um dos mais bemsucedidos na história da filosofia Hegel buscará um nexo entre os diferentes sistemas e indicará que não podemos olhar essa tradição na Introdução à História da Filosofia 1987 como exposição de um número de opiniões filosóficas acompanhadas da investigação do modo como se formaram e do modo como se desenvolveram no tempo p 95 E não se pode proceder dessa forma porque significaria tratar a Filosofia como um conjunto de opiniões destinadas a serem superadas o que é inútil curiosidade ou apenas erudição Em ambos os casos tratarseia de um estudo sem nenhum significado ou relevância Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 213 A marcha da razão A Fenomenologia do Espírito não contempla apenas o relato dos movimentos da consciência começando pela sensação e percepção mas traz a descrição de um longo processo que culmina no Ser absoluto Um Ser que não se deixa apreender de modo imediato Ao se tentar apreendêlo a consciência depara se de imediato com o nada Estamos diante de dois pontos que marcarão a meditação hegeliana Quais são eles A descoberta do Ser fundamental como processo longo ao qual só se chega acompanhando os movimentos da razão na história o Ser absoluto não se revela imediatamente e ao mirálo chegase ao nada Então o nada e o ser se completam e interpenetram de modo que o ser puro e o nada são a mesma coisa Podese ver por essa aproximação de opostos que Hegel espera ultrapassar a lógica grega em que o ser e o nada se opunham e não coincidiam A dialética hegeliana propõe a síntese dos opostos como regra para se tratar os movimentos da razão E a síntese revela que o movimento da razão traz o modo de ser do nada que passa a ser algo no momento seguinte Desse modo pela oposição de algo a seu oposto do ser ao nada ou da tese à antítese chega se a uma síntese que é apenas uma nova tese a criar uma nova antítese A cada movimento a razão vai um pouco mais longe de modo que cada síntese é um chegar a um ponto novo mais alto ou melhor elaborado Esse movimento já foi descrito como uma espiral ascendente que permite ver a síntese como retorno a um mesmo ponto porém mais elevado A verdade é o que fica patente no movimento dialético o que se mostra como o saber e o entendimento de certo tempo Quando aplicamos o movimento dialético de síntese dos opostos à história passamos pelas três etapas do processo em que o Espírito se mostra na história do mundo Quando Ele se mostra estamos num momento superior do processo quando o Espírito superou a alienação em que ele se encontrava na natureza Na primeira etapa de seu desenvolvimento encontramos o espírito subjetivo Aí temos a consciência num sujeito que se conhece e tem intimidade O espírito se encontra ligado ao corpo e é conhecido por alma Seu conhecimento nessa etapa do processo iniciase com as experiências mas aos poucos vai adicionando conhecimento do passado e ampliando o conhecimento na direção do Ser ou do Espírito absoluto Até chegar ao momento final do processo o Espírito se consolida em espírito objetivo que tem semelhante à natureza o encontrar se aí no mundo Quando o sujeito singular começa a pensar e viver ele se depara com uma estrutura que foi construída A consciência subjetiva desperta no mundo social O espírito objetivo compreende portanto esse mundo e inclui o Direito a Moral e o Estado As sociedades construíram esses elementos ao longo do tempo O Espírito objetivo encontrase consolidado em elementos que estão além de cada homem Na primeira forma ou Direito estão reguladas as relações entre pessoas Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Se um indivíduo fere alguma cláusula do Direito fica com sua condição de pessoa prejudicada A pena que a lei lhe prescreve serve justamente para que ele recupere sua condição de pessoa Cumprindoa readquire a condição perdida A moralidade é o passo seguinte e Hegel a entende como um momento superior ao Direito porque na Moral estão incluídos os motivos que produzem a ação Quando se aplica a moral à convivência concreta entre pessoas vemos surgir organizações sociais Pela ordem crescente de complexidade são elas a família a sociedade e o Estado Observe que os organismos sociais do processo são mais elevados que as construções da consciência singular mas eles não nascem do acordo de sujeitos independentes num pacto livremente estabelecido como pensam os liberais As formas coletivas presentes no mundo são expressões do Espírito que vão além do homem e se estruturam nas formas superiores de sua manifestação Isso significa que a família sociedade e finalmente o Estado são realidades superiores ao sujeito singular Não parece ser assim mesmo Os interesses e organizações sociais não prevalecem sobre os projetos e desejos particulares mesmo na tradição liberal O Estado é realidade mais importante e se sobrepõe ao indivíduo Em Hegel essa forma de pensar é diversa e vai mais longe que a tradição liberal E o que ele pensa sobre o Estado É possível ver em Hegel como também pode ser encontrada em Fichte a noção de um Estado que é um fim superior ao indivíduo não porque seja resultado da vontade deles mas por possuir uma realidade ontológica superior O Estado liberal é maior que os indivíduos mas existe para que eles possam ter uma vida segura No caso de Hegel o Estado é um fim em si mesmo Subjacente a todo processo de formação da sociedade e de suas estruturas constitutivas está o Espírito Não há propriamente influxo de um aspecto da cultura sobre outro mas como o filósofo esclarece na Introdução à História da Filosofia existe 1988 unidade de todas estas formas diversas de sorte que único é o Espírito que se imprime e manifesta a si próprio nos diversos momentos p 119 A esse Espírito que é a base ou razão de tudo do mundo da história e das realizações existentes sobre a terra Hegel nomeia Absoluto Ele é que toca o processo e se manifesta no espírito subjetivo e objetivo assim como superou a alienação em que esteve na natureza Portanto esse sujeito Absoluto é o fundamento do processo do mundo e do homem que os filósofos buscaram estabelecer desde a antiga Grécia Tudo quanto existe e a própria história está nesse Absoluto que é de onde tudo provém Está no Absoluto não como uma cadeira está na sala um objeto num determinado lugar mas como parte de um Ser que tudo engloba e faz tudo dele depender O Espírito Absoluto também não surge na história do mundo de forma imediata isto é não aparece na sua forma definitiva E como surge então Ele emerge em estágios de transição Ele surge primeiro na Arte depois na Religião e finalmente na Filosofia Na Arte manifestase de forma sensível na Religião é ideia superior mas ainda não se mostra como consciência Só quando está na forma de pensamento e toma consciência de si como realizador de tudo atingiu seu estágio decisivo Esse estágio só ocorre na Filosofia a última grande realização do processo E o que é a Filosofia para Hegel Ele assim a define na Introdução à História da Filosofia 1988 É a flor excelsa o conceito de espírito na sua totalidade a consciência e essência espiritual de todo o conjunto o espírito do tempo como espírito presente e que pensa a si próprio idem p 121 A Filosofia não é uma teoria sobre o Absoluto é sua forma superior de manifestação no mundo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos A obra filosófica de Hegel é criação magnífica e sua História da Filosofia pensada como expressão da Razão livro de destaque nos estudos da História da Filosofia Hegel tem consciência do valor do material que produziu E considera que com ele a Filosofia atingiu o ápice uma vez que o Sujeito Absoluto tomou consciência de si e de seu projeto para o mundo E qual a consequência dessa forma de pensar A interrupção da dialética ou do movimento histórico num dado tempo que se torna uma espécie de presente eterno É o que observa Ortega y Gasset de forma precisa 1998 O presente para Hegel não é um tempo qualquer é este e só este E por isso nosso presente não mudará em nada essencial perdurará idêntico não será passado jamais p 566 Se não se pode falar que Hegel seja o final da história podemos pelo menos considerar que com ele fechase um ciclo da história Ordinariamente avaliase que o idealismo absoluto é o ponto de chegada da filosofia moderna O que se segue é a história da filosofia contemporânea às vezes também denominado de tempo pós moderno Preferimos falar de filosofia contemporânea porque se é claro que se rompe com muitos aspectos do pensamento moderno não significa que há um rompimento efetivo com toda a modernidade superandoa num novo ciclo civilizatório O legado intelectual de Hegel não passou sem repercussão e críticas É desse legado que trataremos a seguir SAIBA MAIS Hegel I parte SAIBA MAIS Para saber mais leia o livro a seguir em que Hegel relaciona a Razão Filosofia e História A razão na história uma introdução geral à filosofia da história Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 22 O socialismo de Marx Em uma direção que concordaria em alguma medida com a de Hegel outros pensadores alemães buscaram pensar criticamente a história entre os quais J G Herder 1744 1803 e F H Jacobi 1743 1819 O primeiro associa a vida espiritual dos povos à sua localização geográfica e o segundo endossa a crítica à Kant e coloca na fé o elemento que amarra o indivíduo ao meio social As duas teses foram rejeitadas pelas gerações seguintes mas provocaram muito movimento nos meios intelectuais Maior impacto tiveram críticos de Hegel que assumiram as posições historicistas que ele desenvolveu Entre esses críticos destacamse Augusto Comte 1798 1857 e Karl Marx 1818 1883 O primeiro elaborou a lei dos três estados com a qual interpreta a história humana Para Comte a humanidade passou por três grandes momentos em evolução ascendente e progressiva da razão Ele fala de uma primeira etapa teológica e depois metafísica até se alcançar o estágio positivo Do primeiro estágio Comte destaca a passagem pelo fetichismo quando se atribui poder mágico a certos objetos o politeísmo que explica o mundo através de uma série de deuses e finalmente o monoteísmo que coloca um único Deus como fundamento do mundo Comte entende que esse momento corresponde à infância da humanidade O segundo período foi denominado metafísico e nele se substitui os deuses por elementos abstratos que adquiriam realidade ontológica É a fase marcada pela predominância da Filosofia em especial pelo papel que teve na antiga Grécia e no mundo medieval A última O pensamento hegeliano representou uma crítica às filosofias da história que surgiram no século XVIII Entre os nomes de maior destaque daquele século estão os franceses Voltaire Montesquieu e Bossuet Os estudiosos da história da civilização no século XVIII estruturaram a pesquisa histórica incentivando o contato direto com as fontes desenvolvendo técnica documental e de compilação de documentos Fizeram trabalho importante que ajudou muito o surgimento e fortalecimento da ciência histórica Faltava a esses estudiosos contudo um esforço compreensivo e capaz de dar significado ao material colecionado Havia muitos dados reunidos mas pouca elaboração crítica Foi o que Hegel procurou fazer desenvolver um esquema interpretativo dos dados reunidos construir uma filosofia da história A interpretação que ele elaborou da história do mundo foi apresentada no item anterior 221 Considerações iniciais Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos etapa da evolução da razão é o estado positivo caracterizado pela adesão do conhecimento às coisas É o pensamento próprio da ciência moderna e a etapa definitiva e mais avançada do conhecimento humano segundo Comte Karl Marx também elabora uma interpretação para a totalidade da história a partir das sugestões de Hegel e são suas ideias que apresentaremos a seguir Karl Marx 18181883 pertence à geração que tomou o legado historicista de Hegel mas lhe deu novo perfil Nela se incluem Ludwig Feuerback 1804 1872 que se afastou do idealismo hegeliano aderindo ao materialismo David Strauss 1808 1874 autor da polêmica vida de Jesus criticamente analisada 1835 que reduz a mito tudo o que na Bíblia não é comprovado pela pesquisa histórica ou explicável pela Filosofia mas principalmente Friedrich Engels 1810 1895 com quem Marx escreveu em parceria algumas obras A tese de doutorado de Marx foi dedicada ao estudo de Demócrito e Epicuro mas ele escreveu trabalhos de grande impacto como A Sagrada Família em parceria com Engels 1845 Miséria da Filosofia Crítica à Economia Política e a mais conhecida O Capital publicada postumamente por Engels Não foi Marx o criador do socialismo O movimento é anterior a ele e encontra precursores importantes como Claude Henri de Saint Simon que projeta uma nova sociedade uma espécie de nova cristandade que ele detalhou em seu livro O Novo Cristianismo Nela os homens poderiam desenvolver suas capacidades em razão de uma educação de base científica que os tornaria compreensivos e moralmente bons 222 O materialismo histórico dialético de Marx E o que pretendia SaintSimon Podese assim resumir seu propósito como está em Mauá e a ética saintsimoniana 1997 A obra de SaintSimon sustentase numa trilogia que constitui a base de seu pensamento a superação do deísmo pelo fisicismo a elaboração de uma doutrina econômica e sociabilidade filantrópica de onde deriva uma moral terrestre Esses três humanismos saintsimonianos coexistem dentro de uma mesma obra funcionando como pilares de um único sistema O saintsimonismo constituiuse por isso em um projeto de reforma social que incluía por um lado uma reestruturação das instituições e por outro uma mudança na maneira de conceber a vida e a realidade fundamentada numa interpretação própria da história p152 Pressupor que essa nova sociedade nasceria da formação moral decorrente do treinamento científico fez com que suas teses fossem denominadas de utópicas contrapondose à forma científica que seria desenvolvida por Marx Contudo o marxismo não é científico como a Física moderna Tratase de uma teoria econômica com muitos elementos filosóficos O comentário a seguir mostrará que o marxismo só é bem entendido como parte da crítica a Hegel e se desenvolve como Filosofia O socialismo marxista é uma crítica a Hegel e rejeita atribuir a transformação social à ação do Grande Sujeito Universal Não se tratava de ficar aguardando por uma sequência de fatos que viria de forma automática pela vontade de um Sujeito Absoluto mas de dar à história um rumo deliberado acelerando os rumos dos acontecimentos presentes na história Não falamos aqui de uma ação singular e única de um compromisso do homem consigo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos mesmo de uma fidelidade pessoal a um projeto de vida Trata se de ser fiel ao processo histórico em curso Não é o sujeito singular individual e concreto o responsável pelas escolhas e criador do futuro Trata se de um sujeito objetivo embora não mais o Absoluto mas o fato material as forças econômicas e a classe social E nesse aspecto ele é herdeiro de Hegel o sujeito singular é menos significativo nessa teoria que o objetivo É claro que o homem pode contribuir ajudar a história a precipitar os fatos mas a vida pessoal não se contrapõe ao rumo desses acontecimentos Vamos procurar entender isso a seguir Em 1848 junto com Engels escreveu o Manifesto Comunista inaugurando a chamada Internacional Socialista Na perspectiva filosófica Marx adota a dialética de Fichte e Hegel para entender a história da consciência e do mundo Contudo avalia que a proposta idealista era uma explicação abstrata Marx tinha clareza da enorme importância da obra de Hegel e em especial de sua interpretação da história do mundo E por que a toma por abstrata Ele assim a entende porque a dialética hegeliana é expressão do Espírito Absoluto o que é uma referência abstrata para tratar das mudanças na sociedade De modo diverso Marx fará uma interpretação materialista desse movimento explicando a evolução histórica pelas disputas econômicas e suas contradições presentes na sociedade Em Para uma crítica da Economia Política Marx avalia que o surgimento da mercadoria isto é a adoção do valor de troca dos objetos pelas pessoas e sociedades está na base da economia política A troca de objetos por pessoas e sociedades dá origem à relação pessoal nos termos de consumidor e produtor A Economia para ele não se fixa nos objetos mas procura entender a relação entre as pessoas E qual o papel das relações pessoais Marx observa que essas relações possuem importância decisiva no desenvolvimento das sociedades e isto foi uma contribuição que ele trouxe A fragilidade da interpretação é que considerou as explicações econômicas suficientes para entender os movimentos presentes nos estratos superiores da sociedade como a arte a ciência a Filosofia enfim tudo que ele denominou de superestrutura Assim esses movimentos na superestrutura têm uma dinâmica mas nascem das alterações provocadas pelas mudanças nas relações econômicas chamada de infraestrutura A interpretação marxista do homem transforma o indivíduo hegeliano de partícula ínfima do Absoluto num agente de trabalho ou como preferia dizer Ortega y Gasset num homem econômico Esse homem não tem essência ou natureza ele é produto das relações econômicas que estabelece Dizer que o homem não tem natureza metafísica no sentido dos gregos não é exclusivo de Marx muitos autores contemporâneos também pensam assim E qual o significado disso Dizer que no homem não há elementos estáveis fixos como queria a antiga metafísica Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos tudo é mutável No entanto o modo de entender a inserção do homem na sociedade feita pelo marxismo não é igual a de outros pensadores como o próprio Ortega y Gasset de quem trataremos adiante Ortega y Gasset dizia de forma muito interessante que o homem não tem natureza mas história querendo dizer algo assim à natureza do homem é ser histórico Para Marx o homem era histórico mas histórico significava que ele participava de certa forma de produção econômica No prefácio da segunda edição de O Capital Marx explica bem sua posição e a crítica que faz a Hegel E o que ele pensa Que não se pode abandonar o método dialético aplicado à história mas é necessário inverter o modo como ele foi utilizado Não se pode deixar à Ideia o papel de demiurgo da realidade mas é necessário inverter a leitura da realidade entendendo o processo histórico como resultado de forças objetivas O que isso significa mesmo Para Marx que a vida humana não se resolve no plano teórico mas no plano econômico e o que movimenta a história são as necessidades materiais Em Marx como fora para Hegel a história permanece sendo o resultado de um processo unitário embora com protagonistas diferentes Encontramos nessa maneira de pensar um monismo ontológico E o que é o monismo ontológico Desde Cristian Wolff 1679 1754 discípulo de Leibniz passouse a denominar assim os filósofos que admitem um único tipo de substância para explicar a realidade não importa se forem idealistas como Hegel ou materialistas como Marx No marxismo a consciência humana ou pensamento não é outra substância diferente das coisas como pensara Descartes ou outro estrato da realidade como consagrou a interpretação fenomenológica mas um aspecto da realidade material mesmo quando pensamento e matéria se opõem Dito de forma mais clara consciência é uma forma de matéria No artigo La ciencia y la religión como problemas políticos Ortega y Gasset comenta este problema do seguinte modo 1994 O sentido se não a obra toda de Marx consiste em afirmar que a religião a política a moral o direito não são senão formas diversas de uma única matéria p 121 Tal forma de pensar que papel atribui à Filosofia O de instrumentalizar a classe operária responsável por promover o mais significativo avanço histórico dos últimos séculos a coletivização dos meios de produção industrial O operário fabril era o grande sujeito da história Todas as épocas da história entendem Marx e nisso ele se parece com Hegel possuem os elementos de sua destruição Cada época tem os germes de sua superação não porque siga um plano histórico rigidamente traçado numa hipotética consciência universal mas devido às contradições internas do modo de produção econômica presente na sociedade Apesar da diferença na operacionalização Marx é hegeliano ao pensar que toda tese provoca uma antítese e que ambas isoladamente não dão conta do processo que o curso histórico só se completa numa síntese que por sua vez se torna uma nova tese que produz outra antítese Assim caminha a humanidade Dito da forma marxista e aplicado aos acontecimentos o escravismo produziu o mundo feudal em que o escravismo não tinha mais espaço e desapareceu A burguesia nasceu nesse mundo feudal que marcou a Idade Média mas o destruiu porque as relações sociais e econômicas ali presentes não eram compatíveis com os interesses da nova ordem capitalista A burguesia por sua vez criou o proletariado e esse a levará à ruína porque a sociedade capitalista e a crescente Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos acumulação de capital que ela produz trazem uma contradição insuperável Qual é a contradição A de concentrar infinitamente a riqueza em poucas mãos deixando na pobreza o proletário explorado Pobres e sem capacidade de consumir os operários cada vez mais numerosos consomem cada vez menos O sistema se destrói e provocará o surgimento da sociedade socialista A sociedade socialista representa na interpretação de Marx o ponto de chegada da evolução econômica da sociedade Como Ela não traria uma nova contradição depois da coletivização dos meios de produção Não conclui Marx a sociedade socialista atingiu a plenitude do desenvolvimento econômico A sociedade socialista apenas resolverá pequenos impasses e fará os ajustes necessários ao seu estado de desenvolvimento Assim o socialismo marxista herda de Hegel a ideia de presente eterno ou do fim da dialética quando atinge um ponto do processo No caso de Hegel como vocês se lembram é quando o Absoluto toma consciência do processo no qual se envolveu Para Marx a evolução econômica produzirá a sociedade perfeita sem contradições e capaz de superar a alienação do homem Então não é apenas a Filosofia que chegará a seu termo como no idealismo de Hegel mas a própria história social política e econômica que ficará paralisada no essencial havendo cumprido o propósito de oferecer a cada homem o que ele necessita para viver Devido ao propósito de criar uma sociedade perfeita muitos críticos viram na sociedade marxista a realização da noção religiosa de paraíso Não é difícil perceber que Marx procurou trazer para vida concreta o imperativo categórico de Kant do respeito radical à pessoa humana mas o fez confundindo ideal com o realizável Ele realizou o que parece ser a mais radical laicização da noção historicista de cristianismo que o mundo produziu O céu mudouse aqui para a terra não porque cada homem foi na direção do Reino do Pai como ensinou Jesus mas porque o Reino foi trazido cá para baixo com a nova organização da sociedade Independente da impossibilidade prática de realizar o objetivo social sabese que as pessoas possuem expectativas distintas e esperam da vida coisas diferentes o que revela a impossibilidade de a sociedade socialista produzir felicidade generalizada Ortega y Gasset comentou em Partidarismo e Ideologia algo parecido 1997 Marx não pode provar nem que todo indivíduo coincide com o temperamento de sua classe nem que fatalmente caiam condicionados a esta seus pensamentos p 83 A experiência histórica demonstrou o acerto dessa observação Na perspectiva filosófica talvez fosse preciso dizer que nem as ideias podem ser reduzidas ao processo econômico nem esse se explica por elas E o que isso significa Que a Filosofia procura fazer um discurso objetivo sobre a realidade não do mesmo tipo da ciência mas propondo categorias diferentes para explicar a descontinuidade do real Isto é as categorias adequadas para entender o mundo material não parecem as melhores para tratar da vida e menos ainda à consciência psicológica ou ao pensamento lógico Cada região da realidade demanda um tipo específico de categoria Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O século XX mostrou que a evolução econômica da sociedade não foi na direção do desfecho marxista O operário fabril perdeu importância na nova ordem econômica e as sociedades capitalistas reduziram a diferença entre os mais ricos e mais pobres No entanto a teoria marxista teve enorme impacto histórico por influenciar o surgimento no século XX de experiências concretas de socialismo Muitas das ideias de Marx foram adaptadas para se aplicar às diferentes situações da realidade muitas não previstas por Marx As experiências históricas do marxismo favoreceram uma espécie de cristalização das ideias de Marx o que é inadequado à meditação filosófica ocupada não só com as questões de sua tradição mas em responder aos desafios renovados que a vida com sua imprevisibilidade permanentemente traz Essa circunstância resultante de aspectos históricos da doutrina não facilitou o debate filosófico mas promoveu tentativas de concretização da teoria O fato teve grande repercussão mesmo em países como o Brasil que não adotou o socialismo mas onde as ideias marxistas foram assumidas por parte significativa da intelectualidade pelo menos durante certo tempo nas últimas décadas Para muitos elas representavam a solução para o subdesenvolvimento e a pobreza Os acontecimentos mostraram o contrário a riqueza só se cria na sociedade capitalista É justamente o caráter mais especulativo dos escritos da juventude que nos últimos anos ganharam destaque entre os estudiosos de filosofia porque afastados da radicalização política e das adaptações que sofreram encontramse mais claramente no ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Materialismo Histórico SAIBA MAIS Leia o livro a seguir em que Marx critica o pensamento hegeliano Crítica da Filosofia do Direito de Hegel Para saber mais sobre o materialismo histórico assista ao vídeo abaixo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Fórum Temático 1 Acesse o Fórum Temático e participe respondendo às questões propostas pelo seu professor Neste fórum você será avaliado por quantidade de postagens engajamento no debate e fundamentação da sua resposta Uma única postagem sem engajamento no debate não será avaliada Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 23 O existencialismo de Kierkegaard Sören Kierkegaard 18131855 é um pensador dinamarquês cujas ideias influenciam filósofos importantes como Miguel de Unamuno 18641936 e Martin Heidegger 18891976 Entre suas obras destacamse O conceito de ironia tese 1841 Temor e tremor 1843 A alternativa 1843 Diário de um sedutor 1843 O conceito de angústia 1844 Migalhas Filosóficas 1844 e Pos scriptum às Migalhas Filosóficas 231 Considerações iniciais O que se pretende destacar no âmbito desta unidade é a crítica que suas ideias representam ao hegelianismo Sua crítica não foi como a marxista que preservou a dialética e a sustentação historicista do idealismo de Hegel ela atingiu aquela filosofia no seu núcleo essencial Kierkegaard rejeita o historicismo hegeliano porque considera a vida mesmo isto é a vida experimentada na primeira pessoa como o problema a ser esclarecido pela investigação filosófica O historicismo de Hegel avalia deixa de lado o homem concreto aquele que vive numa determinada sociedade durante um período específico Para esse homem que trabalha ama decepcionase adoece incorre em culpa uma compreensão totalizante do processo histórico possui pouco significado E é assim porque na vida vivida não se experimenta consolo no historicismo e no destino glorioso de uma classe Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O voltarse para a vida concreta no caso de Kierkegaard não significava o abandono do eterno e mesmo do sentido escatológico da existência Ele era cristão e tinha em conta o depararse com Deus no derradeiro momento da existência O que ele rejeita do idealismo absoluto é a perspectiva Absoluta do Espírito Universal que anula a vida singular e seus dramas tudo reduzindo à necessidade do processo e ao plano racional da história concebido na razão universal Ao considerar a angústia aspecto fundamental da existência deu às suas ideias caráter irracionalista É a partir dessa forma de filosofar sobre a existência concreta que autores como Karl Jaspers e Ortega y Gasset que serão estudados na próxima unidade cada um a seu modo indicarão a importância da angústia ou dos dramas existenciais Para os dois filósofos mencionados o reconhecimento dos riscos da existência não significa a rejeição da razão como elemento de compreensão da vida e de suas mudanças como pensara Kierkegaard Esses 232 A angústia e a existência Kierkegaard ocupouse de entender a vida humana concreta e seus dramas deixados de lado pelo idealismo de Hegel e também pelas críticas que Marx lhe fizera Sua formação religiosa permitiu aproximar as dificuldades da existência singular com a noção de pecado original tematizado pela teologia cristã É assim que ele chega ao conceito de angústia como explicação para a existência humana considerandoa categoria fundamental para entendêla E também se refere ao desespero como a forma de enfrentar as limitações do homem e uma vida voltada apenas para o gozo do mundo autores explicarão que apesar da angústia e dos dramas estarem na vida eles não invalidam o esforço da razão nem a incapacitam para o entendimento da existência E Kierkegaard o que ele pensa sobre a angústia No Diário do Sedutor Kierkegaard apresenta o olhar e a atitude do esteta como raiz do desespero que perturba a vida E porque é assim se o esteta vive mergulhado no mundo se ele usufrui da sua contemplação naquele sentido que os românticos popularizaram Porque responde o filósofo viver buscando o prazer de contemplar o mundo leva ao enfado Porque cada prazer obtido coloca o sujeito à procura do próximo a ser usufruído numa busca frenética de prazer que expõe o vazio de significado dessa forma de viver E a experiência do vazio de sentido entre os momentos de gozo produz tristeza e tédio que só são superados no próximo momento de prazer O vazio de prazer provoca a melancolia e ela é a raiz do desespero explica Kierkegaard Para superar esse estado é preciso agir e enfrentálo mas o esteta não pretende fazêlo seriamente pois o que procura de verdade é um novo momento de fruição Para enfrentar o desespero é necessário sair da perspectiva estética de uma vida orientada para o prazer e considerar a vida de outra forma De que modo é preciso considerála Reconhecendo intimamente a finitude existencial pois o fato obriga a reconhecer também o infinito e incomensurável O finito só o é porque tem diante dele algo que o ultrapassa o finito aponta para o que está além dele isto é o infinito e incompreensível Não há como passar do finito ao Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos infinito prevalecendo portanto a interdição de Kant à coisa em si Resta então a vontade de fazêlo de realizar a passagem que é impossível completar Chegase aqui a um ponto difícil da teoria kierkegaardiana a vontade de atingir o infinito a plenitude da vida e a impossibilidade de fazêlo a interdição de concluir a passagem que vai do finito até lá Para enfrentar tal dificuldade é preciso valerse da ironia que o filósofo examinou em sua tese O conceito de ironia A ironia tal como a concebe permite abandonar a atitude estética de viver para o prazer e desenvolver uma atitude ética E a atitude ética nasce da ironia e leva o homem a mergulhar na profundidade da existência na direção do infinito mesmo sem poder alcançálo Como não se pode completar a passagem até o infinito só se consegue escolher fazêlo E é nessa realidade em suspensão que se experimenta o autêntico sentido da liberdade de existir para o filósofo E o que é a liberdade Liberdade verdadeira significa a possibilidade de abrirse ao infinito mesmo sem conseguir atingi lo A atitude ética não pode se completar pode apenas ser mantida na vontade que descobre o embate entre o bem e o mal E é nessa disputa que o homem percebe a religião como o que vai além da ética problema que está mais claramente discutido em Temor e Tremor Lembramos que na Filosofia do Direito Hegel considerou a ironia como expressão da Consciência do Espírito consciência que é a verdadeira realidade e diante da qual o resto nada é Esse entendimento hegeliano resulta do modo como Fichte concebera a consciência isto é realidade superior que separa no mundo o que ela é e o que não é para superar essa separação numa síntese superior que unifica a dicotomia eunão eu numa síntese Esse processo como você já estudou é a nova forma de dialética que o filósofo expôs na Doutrina da Ciência de 1794 Podemos recordar como ele o fez naquela oportunidade 1988 O total daquilo que é certo incondicionalmente e pura e simplesmente está agora esgotado e eu exprimiria na seguinte fórmula eu oponho no Eu ao eu divisível um não eu divisível Nenhuma filosofia ultrapassa esse conhecimento mas toda filosofia bem fundada deve remontar até ele e desde que o faça tornase doutrina da ciência Unificamos o eu e o não eu opostos pelo conceito de divisibilidade p 55 Voltemos à ironia no idealismo de Hegel o que ela é É a forma de a Consciência Universal brincar com todas as coisas No texto O conceito de ironia Kierkegaard dá lhe sentido diverso Ironia é a possibilidade de o sujeito finito depararse com a infinidade que experimenta na intimidade e não a forma de pensar da Consciência Universal que brinca com o mundo enquanto o conduz para onde quer A ironia keirkegaardiana é experiência íntima da infinitude percebida pela consciência enquanto ela se descobre finita na relação com os outros entes que estão no mundo Em Temor e tremor o filósofo examina o desencontro que há entre Ética e Religião Não o faz pelo caminho da laicização da moral cristã num processo vivido na Europa durante a modernidade A ética moderna é um esforço para conquistar a autonomia da moral diante de outros campos do saber O ponto de partida pode ser atribuído a Pierre Bayle francês que viveu emigrado na Holanda para fugir da perseguição religiosa em sua terra Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos natal Ele explica em seu Dicionário Histórico e Crítico 1697 que religião e moral embora próximos são distintos O que ele sugere é que se pode ser moral sem ser religioso É o que Kant consagrou quando muda o princípio evangélico do amor ao próximo como a si mesmo numa lei da razão conforme explica na Fundamentação da Metafísica dos Costumes 1785 Na obra Kant postula uma máxima que possa ser seguida e ao mesmo tempo elevada à norma universal válida para todos os homens E como Kierkegaard trata da distância entre moral e religião Não no sentido de Bayle e Kant O desencontro reconhecido por Kierkegaard decorre de sua análise da célebre passagem bíblica do capítulo 22 do livro do Gênesis Aí se encontra o episódio em que Deus pede a Abraão o sacrifício de Isaac seu único filho Abraão demonstra absoluta confiança em Deus e se prepara para degolar o menino até que no último momento quando sua mão já está no ar para desfechar o golpe fatal um anjo interrompe a ação e lhe oferece um carneiro para ser sacrificado Kierkegaard analisa que caso Abraão se guiasse pela ética ou pela razão não se disporia a sacrificar o menino Porém ele não teve dúvida em fazêlo porque sua fé o levava a ter absoluta confiança em Deus A atitude de Abraão é um escândalo para a ética porque com o assassinato do filho ele atentava contra o maior valor que a razão reconhece e perderia o filho de forma definitiva No entanto Abraão acreditou que Deus lhe devolveria o filho mesmo sem saber como isso ocorreria pois Deus está acima da moral A fé vale mais que os princípios morais e por isso para ele a Religião é mais significativa que a Filosofia O exame de outro episódio do Gênesis desta vez relatado no capítulo 3 levao a tematizar o pecado numa interpretação original Ele considera o pecado categoria existencial por excelência pois do mesmo modo que fizeram Adão e Eva ao se recusarem a cumprir a orientação de Deus o homem que peca se depara pela consciência culposa com sua absoluta singularidade O pecado identifica quem o comete o que significa que ele individualiza ele marca o indivíduo O pecado é ato de vontade e como tal é um ir além da inocência ou inconsciência primitiva Quem peca perde a inocência isto é a incapacidade de distinguir o bem do mal E Adão e Eva depois de pecarem têm interditado pelo anjo o caminho de volta ao paraíso perdido o que significa nessa interpretação kierkegaardiana que eles não puderam retornar à inocência primitiva A inconsciência e incapacidade de diferenciar o bem do mal é o estado de paz e repouso no qual se encontram os animais para os quais não há dilema íntimo e nem culpa Contudo esse estado interior de paz é o nada Quando peca o homem dá um salto qualitativo ele muda da ignorância primitiva e do nada para a consciência de culpa Isso ocorre de um modo que não se explica pela dialética hegeliana mas por um salto de qualidade que diferencia o estado anterior de inocência do novo momento representado pela consciência culposa Kierkegaard avalia o processo dialético de Hegel e indica que nele não há lugar para o pecado para o limitado para a culpa E é o pecado que se mostra quando incorro em culpa ele singulariza e toca a consciência como nunca supôs Hegel Na interpretação do que o tempo é Kierkegaard também se afasta do modo hegeliano de pensar Ele foca no instante que a sensibilidade revela O instante é uma forma de presente que não tem passado ou futuro pois o instante não é claramente separado de outras instâncias do tempo e assim é impossível separar o passado do presente como também não se pode seccionar presente e futuro A forma de considerar a experiência do tempo também o diferencia de Hegel e dos idealistas em geral O filósofo enxerga na existência pessoal uma dupla experiência do tempo conforme ela se refira ao mundo fenomênico ou percepção finita de si ou Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos ao diálogo com o Eterno que propicia a experiência da infinitude E nessa dupla experiência temporal ele está mais próximo de Kant mas também lembra Hegel e o vínculo finito e infinito No entanto na meditação de Kierkegaard o sujeito individual não é apenas o ponto de passagem na afirmação do Sujeito Absoluto como era para Hegel O homem permanece singular na tensão que brota entre o sentirse finito diante do infinito O contato com o infinito provoca a angústia Ela não é superada na relação com o infinito que como vimos não se completa e permanece presente no confronto É nesse ponto da meditação que a angústia se mostra categoria fundamental para tratar a existência pois ela tem significado educativo A angústia é indicador de autenticidade pois mostra a vida como é em contínua mudança e permeada pelo que é frágil e ilusório A ansiedade ensina o que a vida é Nada na existência assegura a autenticidade e a superação da angústia senão o confronto com a fé pois quando experimenta a fé o indivíduo encontra um caminho para superar a angústia uma vez que na ilusão da finitude não é possível E por que o confronto com a fé é fundamental Porque a fé expõe a fragilidade da finitude e deixa à mostra as ilusões da vida fenomênica Ao experimentar a fé o indivíduo não só percebe a ilusão do mundo mas entende que pode vencêla A forma de entender a fé também afasta o filósofo de Hegel Na avaliação de Kierkegaard Hegel propõe uma forma superficial de cristianismo Hegel vê em Cristo o Absoluto que dá sentido ao mundo material porque unifica o finito e infinito numa síntese dialética Para Kiekegaard o homem diante de Deus experimenta uma distância insuperável que não pode ser superada em nenhuma síntese Cristo é paradoxo do Eterno implantado no tempo O cristianismo presente no sistema de Hegel parece lhe um discurso criado para o mundo burguês um lugar onde o homem é incapaz de viver a profundidade do pecado que é a consciência do mal e a superação da inocência primitiva ou a inconsciência Além disso a aproximação entre as formas cristãs de religião com o Estado implícita na formulação hegeliana de Estado não lhe pareceu ter qualquer sentido Um cristianismo encampado pelo Estado é forma medíocre de fé que muitas vezes esconde interesses temporais e afasta o homem do projeto verdadeiro de Deus Não lhe parece possível esse entendimento terreno de cristianismo que compactua com a riqueza e o cômodo na vida Ao rejeitar o hegelianismo o filósofo propõe uma experiência de Deus que torna evidente a falta de sentido da vida fenomênica e sem síntese com o Absoluto Ele aponta a falta de autenticidade da vida ocupada com os afazeres do mundo e influencia muitos filósofos do século XX que começaram a meditar a partir da fragilidade da razão moderna e da inadequação da forma hegeliana de tratar a história e a religião Kierkegaard aponta para os fenomenólogos da existência a necessidade de focar na vida singular em elucidar quem é o homem singular no sentido proposto por Kant interpreta viver como tensão permanente entre efêmero e eterno ou entre subjetividade e transcendência É seguindo essa tensão que caminharão os filósofos da existência notadamente Karl Jaspers cujo pensamento examinaremos adiante E nisso consiste o principal da crítica Kierkegaardiana ao hegelianismo ele se recusa a descobrir o sentido da vida singular no todo 233 O significado da filosofia kierkegaardiana para o existencialista do século XX Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Considerar a fé elemento de autocertificação ou verdade íntima significa que a experiência de Deus não é indubitável mesmo para o crente Em alguns momentos a dúvida surge e a certeza íntima deparase com a incerteza objetiva numa tensão insuperável que mantém a angústia como realidade tipicamente humana Os temas da meditação de Kierkegaard a saber a solidão íntima a subjetividade radical a angústia o desespero a contingência absoluta da origem humana são temas que se repetem no movimento existencialista Kierkegaard trata desses assuntos de modo distinto dos existencialistas ateus E como o faz Ele considera a contingência humana diante de Deus considerado como a transcendência ou infinitude da qual não escapamos O existencialismo pensa o homem e sua experiência de finitude diante da infinitude Kierkegaard enxerga essa finitude como Deus outros existencialistas preferiram falar de transcendência na história ou do nada Conforme o autor mudase o transcendente mas permanece o sentido da tensão consagrado por Kierkegaard entre a vida interior e a infinitude O existencialismo rejeita a síntese sugerida por Hegel preservando a tensão entre a subjetividade e a transcendência finito e infinito numa continuada passagem de uma a outra traduzida por Miguel Reale como dialética da complementaridade É a nova dialética sugerida por Kierkegaard Como entendêla Reale faz sua leitura do problema em Experiência e Cultura e o explica como se segue 2000 A tensão que alimenta o núcleo metafísico da filosofia de Karl Jaspers encontra raiz na filosofia de Kierkegaard e em sua compreensão de tempo como experiência íntima do finito e do infinito na proposta de uma dialética de âmbito subjetivo que se esgota no indivíduo sem passar para as fases mais avançadas do Espírito Objetivo e Absoluto Eis o que via de Kierkegaard para Jaspers O que há de verdadeiro é o que é vivido na intimidade e no confronto com a situação limite representada pelo pecado para o primeiro e na consciência de culpa para o segundo Por sua vez a noção de angústia presente nas escolhas realça o significado da vida singular que é insuperável pela dimensão social e histórica O foco na experiência íntima feito por Kierkegaard faz com que a fé apareça como vivência incomunicável e funcional como verdade pessoal ou melhor como autocertificação conforme preferia dizer Karl Jaspers E o que é autocertificação É reconhecimento pelo indivíduo que as verdades de fé as crenças mais profundas que ele cultiva não se impõem pela evidência como ocorre no conhecimento fatual das ciências Vamos explicar o significado disso Independente do modo como se viva intimamente o contato com o mundo a água ferve aos 100ºc e a lei da gravidade permanece nos prendendo ao planeta Porém nossa vida não se esclarece nessas verdades da ciência As vivências incomunicáveis da fé estão presentes na singularidade existencial e solidão ontológica que frequentemente levam o indivíduo ao desespero O desespero nos coloca em contato com Deus e apenas tal contato permite vencêlo Só Deus livra da experiência de abandono que nos atormenta nos momentos extremos de sofrimento dos quais não há como escapar Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O aspecto que estamos vendo da filosofia de Kierkegaard é o segundo na citação de Reale isto é o fato de que a síntese possível não pode destruir os termos antitéticos e unilos mas referenciamos a citação inteira porque a raiz dessa forma de pensar está na diferença lógica entre contradição e contraditório sendo que a primeira admite síntese do que são contradições apenas aparentes enquanto no plano da lógica não é possível se falar de eliminação dos contraditórios Kierkegaard é um pensador que traz a meditação filosófica para a vida vivida na intimidade e fornece os elementos para pensar um mundo em crise como foi o século passado Um mundo em que angústia contingência e vazio existencial não eram experiências desconhecidas do homem comum Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 24 O vitalismo de Nietzsche Friedrich Nietzsche nasceu em 1844 e morreu em 1900 Tornou se professor de filologia clássica em 1869 cargo que ocupou durante dez anos Uma paralisia cerebral provavelmente de origem sifilítica prejudicou sua consciência afastouo da docência e o levou à morte relativamente novo No final da vida a doença o tornou apático e distante da rotina Suas obras mais conhecidas são O nascimento da tragédia 1872 Considerações extemporâneas 1876 Humano demasiado humano 1878 Aurora 1881 A Gaia Ciência 1882 Assim falou Zaratustra 1885 Além do Bem e do Mal 1886 Genealogia da Moral 1887 e Vontade de Poder Nietzsche como Kierkegaard rejeita a ideia de um Sujeito Absoluto como explicação do mundo pois tal concepção retira importância da vida individual e do sentido trágico da existência 241 Considerações iniciais em favor da uma explicação racional do processo A meditação de Nietzsche tem como propósito recuperar o significado da vida individual contra o que ele denomina vida de rebanho metáfora para designar uma existência que não se destaca pela singularidade A crítica a Hegel não fica nisso e ele contrapõe à racionalidade hegeliana a noção de vida Vida não é uma referência ao funcionamento biológico do corpo mas expansão criadora de uma força e vivência do ser no ato de pensar Esse conceito de vida é mais intenso que o proposto por Hegel isto é como princípio que se move a si mesmo ou melhor como escreveu na Fenomenologia do Espírito o todo que se desenvolve e se mantém nesse movimento A noção de vida de Nietzsche considera o próprio filosofar expressão da vida Melhor explicado realização da vida ao invés de uma reflexão sobre ela A vivência do ser é considerada por Nietzsche como bem maior o que coloca o conhecimento especulativo a serviço da vida consolidando uma atitude filosófica que representou um novo estilo de filosofar Há nessa forma de pensar algo que se aproxima de Kierkegaard a saber a preocupação com a existência singular e o descrédito na força absoluta da razão como explicação do mundo Contudo por semelhança essa reflexão sobre a vida que tem raízes em Fr Schlegel e dá ênfase na experiência interna ganha continuidade com Ortega y Gasset Embora próximos na crítica a Hegel o pensamento de Nietzsche que fundamenta a psicanálise vai à direção de Ortega y Gasset enquanto Kiekegaard está mais próximo da meditação de Karl Jaspers Todos juntos contra Hegel mas em trincheiras próprias e com reflexões singulares existencialistas de um lado vitalistas de outro Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Não há fatos eternos como não há verdades absolutas Friederich Nietzche Autores como Julian Marías entendem que o estudo da obra de Nietzsche especialmente para quem não é especialista deve orientarse por instâncias temáticas Marías aponta quatro temas como representativos do modo nietzschiano de pensar o dionisíaco e o apolíneo o eterno retorno o superhomem e a moral dos senhores e dos escravos Vamos fazer uma apresentação do pensamento de Nietzsche a partir da sugestão de Marías 242 A temática O primeiro dos temas contrapõe duas atitudes perante a vida que são expressas pelos deuses gregos Apolo e Dionísio O primeiro representa a clareza a serenidade e a tranquilidade que decorre do uso da razão É a imagem que ficou da Grécia dos filósofos ou melhor da atitude metafísica do denominado período áureo da filosofia grega com seus intérpretes principais Sócrates Platão e Aristóteles A outra atitude examinada no Crepúsculo dos Ídolos propõe a tragédia como o que melhor retrata a vida real com seus estranhos e terríveis problemas e comportando empenho visceral de realizar grandes coisas até com o sacrifício da própria vida Nietzsche observa que os primeiros filósofos refletiam a partir da vida mas aos poucos passaram não mais a refletir mas a julgála Eles incorporaram atitude crítica que contrapunha à vida mesma uma forma de pensar que desejava estruturála ou explicá la com princípios fixos Foi o que pretenderam fazer os filósofos metafísicos Eles não apenas pensaram esses princípios mas os valorizaram acima de tudo o mais Foram eles que trataram o oculto substante como mais relevante que o acidente e aparente que preferiram o inteligível ao sensível A crítica de Nietzsche voltase em outra de suas obras importantes a Vontade de Poder principalmente contra Sócrates pois foi ele quem estimulou o abandono da arte trágica considerandoa inadequada para o verdadeiro conhecimento do belo e do bem Essa interpretação socrática afastou seus discípulos da vida mesma concluiu o filósofo pois aquilo que não se restringe ao racional não é digno dos filósofos e por extensão dos homens sábios e virtuosos Sócrates é quem privilegiou Apolo e rejeitou Dionísio deixando de lado as manifestações vitais e instintivas que na avaliação de Nietzsche são a raiz da força e da criação Foi assim que o pensamento grego valorizou o homem teórico ao invés do prático apaixonado e propôs um direcionamento que marcou a cultura ocidental Essa forma de pensar considerou bom o pensamento abstrato e lógico deixando de lado todo o resto que na vida era representado pela tragédia ou pelos instintos força e vigor A Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos atitude vigorosa Nietzsche atribuía em A Filosofia durante a Era Trágica aos primeiros pensadores ou présocráticos mas essa atitude diante da vida se perdeu com o encaminhamento metafísico que Sócrates deu à Filosofia O segundo tema é o do eterno retorno e é uma continuação do anterior Como esse assunto se liga ao primeiro Reconhecida a distinção entre o apolíneo e o dionisíaco como expressão da dicotomia razão e instinto vital Nietzsche pretende retomar ao momento inicial de pensamento grego Aquele momento é o período présocrático que como ele esclarece na Vontade de Poder viveram os filósofos a plenitude do desafio de filosofar antes da decadência iniciada por Sócrates Nietzsche adota uma interpretação cíclica do tempo Para ele os fatos não seguem em direção de um futuro linear como ocorre na visão progressiva da história mas o futuro volta ao passado num eterno recomeço numa contínua repetição Essa interpretação do tempo deriva do ciclo das estações dos meses do ano de uma espécie de vontade férrea da natureza Essa interpretação cíclica do tempo que deriva dos ciclos inexoráveis de repetição da natureza amarra o homem à terra e ao destino que ele aqui vive O vínculo obrigao a aceitar seu destino no círculo do eterno recomeço que em si mesmo não tem qualquer razão superior E o que é esse superhomem É aquele que descobre o absurdo da irracionalidade que o guia Ele não é a criatura racional que os filósofos desde os gregos nos anunciam Não é que ele não faça uso da racionalidade mas não é a razão que define sua existência Entendendo que assim é pode ir além de sua condição E superando a condição humana entende a vida como luta e toma consciência que a vida só se mantém se ela se alimenta de outros seres Só há vida em função da morte ela só sobrevive porque se alimenta de outras vidas Deixar de lado a racionalidade e suas exigências sobretudo morais não é um absurdo Nós não devemos nos ocupar de proteger os mais fracos e fazer justiça como proclama a moral evangélica e a ética do dever de Kant De modo algum responde Nietzsche A vida é aceitação do absurdo do irracional do que está fora da reflexão Só quando cai além da racionalidade dá origem ao superhomem Esse ser superior não julga o mundo acreditando que ele deveria ser distinto do que é mas o aceita tal como ele se apresenta E isso significa o quê Tanto admitir o inesperado o que nos acontece e que a razão não previu como enfrentar as adversidades com a força necessária para derrotála Assim o filósofo chega à moral do guerreiro aquela que incita à ação Melhor ainda ele proclama a superioridade do herói porque ele está disposto a enfrentar as adversidades que a vida traz sem considerar o esforço necessário Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos para vencêlas Exemplo histórico desse homem superior foi o bárbaro que invadiu o Império Romano no final dos tempos antigos O bárbaro se guiava pela espontaneidade da vida e não tinha pudor em destruir a moral do Império que era na ocasião a moral cristã Essa moral chegara a Roma através dos escravos e acabou prevalecendo sobre a moral do guerreiro Ela alimentou a artificialidade e criou uma sociedade frágil coberta de um verniz civilizatório de todo indesejável Esse verniz retirou do homem o empenho o propósito de ousar lutar e vencer ele privou o indivíduo da disposição de enfrentar o impossível E o super homem coloca em pauta uma nova moralidade em contraposição à moral cristã que não lhe serve Chegamos assim ao quarto tema a moral dos escravos e a moral do senhor Já vimos que isso significa a contraposição entre a moral cristã e a moral do superhomem ou dos heróis Naturalmente a rejeição do filósofo não se limita à moral religiosa mas alcança a kantiana pois a moral do dever é expressão da racionalidade e recoloca em cena ainda que por exigência da razão o princípio evangélico rejeitado por Nietzsche E por que o rejeita Porque os valores cristãos são responsáveis por tirar do homem tudo o que ele tem de nobre O amor cristão que proclama sentir as dores do outro é o que lhe parece mais antinatural E por que é antinatural Porque o amor misericordioso valoriza a fraqueza a desconfiança da força e da virilidade proclama a humildade o recato a parcimônia enfim tudo o que representa o que há de inferior no homem A moral de Nietzsche é adicionalmente uma crítica à sociedade burguesa e utilitária pois o seu herói guerreiro é o homem de outros tempos o homem da aventura e não o burguês utilitário da sociedade industrial No Anticristo Nietzsche explica as razões de sua desconfiança da moral cristã e a aproxima da racionalidade grega Como o filósofo avalia o cristianismo Para o filósofo o cristianismo representa para o Império Romano um processo de desarticulação comparável ao que ocorreu na antiga Grécia com o desvio na direção da metafísica atribuído a Sócrates Na avaliação de Nietzsche o Império Romano foi a mais magnífica organização jamais criada pela humanidade Nada se comparou a seu esplendor glória duração e conquistas mas mesmo uma forma tão superior de organização não resistiu à moral cristã Foi mais fácil para Roma superar maus imperadores e políticos corruptos que resistir ao que ele designava moral de escravos De fato se considerarmos historicamente o cristianismo foi primeiramente uma moral dos escravos de Roma e só mais tarde alcançou a elite romana E ele acrescenta a pregação cristã herdou o que havia de pior no judaísmo Não eram inocentes os padres e pregadores ao contrário eram muito espertos mas lhes faltava legítimo interesse pela vida Então eles desviaram o que havia de mais interessante no mundo antigo e mesmo a luxúria encontrada no islã não resistiu ao contato com o cristianismo Em A Vontade de Poder o filósofo opõe o cristianismo ao que é natural ao que é forte superior e vigoroso No livro ele explicita o essencial de sua crítica ao cristianismo consideraa força maligna que destruiu o ímpeto dos homens fortes e valorosos O cristianismo converte a força e orgulho em ansiedade e culpa envenenando a vida e lhe retirando todo o sangue Por isso o cristianismo é comparado a um vampiro que suga o sangue das vítimas até leválas à morte por falta de sangue O cristianismo veiculou um Deus que elimina todo o desejo de viver neste mundo Em Assim falou Zaratustra o pensador criticou a pregação de Jesus não porque ele não fosse um jovem íntegro e correto mas devido à sua inocência juvenil Diz que ele morreu jovem demais e na inexperiência e solidão esteve atordoado pela tristeza e sofrimento dos hebreus até o ponto de desejar morrer Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Desperdício de uma vida jovem Porém se tivesse vivido uns anos mais teria abandonado semelhante forma de pensar E é assim que o filósofo convida o leitor a permanecer fiel à terra e às suas regras e a não acreditar no que conduz para fora dela Ele espera que ao abandonar as referências cristãs o homem seja extinto da face da terra para dar lugar a um novo ser um ser que esteja muito acima desse homem civilizado Nisso consiste o essencial da pregação do profeta Zaratustra no livro indicado conduzir o homem para um ponto além de onde ele está O homem é apenas ponto de passagem um ponto entre o animal e o superhomem E ele deve ser consciente dessa condição e não se aferrar muito ao que é passageiro Em Para Além do Bem e do Mal o filósofo contrapõe o altruísmo ao egoísmo considerado esse sim a essência da alma valorosa A alma elevada aceita essa realidade a virtude é a dureza da alma e não a brandura e a compaixão ensinadas pela ética cristã Um olhar sobre a filosofia de Nietzsche revela uma filosofia que desejava ir além do idealismo e historicismo de Hegel e Marx Ela representa um desconforto com o modo de vida da sociedade europeia da chamada belle epoque Valorizava a ética do guerreiro contra as morais de inspiração cristã e o polimento e repressão da sociedade civilizada Nesse sentido o que há de mais significativo em suas ideias é a atenção que dedica à vida mesma à vida concreta do homem Essa vida que não se esgota no plano da razão é vida singular concreta situada em permanente luta para manterse E é por focar a atenção na força vital que Nietzsche é um dos inspiradores de Freud na criação da psicanálise As limitações desse pensamento estão na rejeição da razão que mesmo não sendo exclusiva definidora do que é o homem é fundamental em sua vida E se temos um autor autêntico e sincero em suas convicções não se pode deixar de lembrar que o natural não é moral não assegura a melhor trajetória na vida Enfim é possível valorizar a vida sem perder as lições da razão como indicaremos no próximo capítulo ao considerar o pensamento de Ortega y Gasset 243 Lições do vitalismo de Nietzsche TAREFA 1

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A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

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A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

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Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

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Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

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UNIDADE Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 21 O idealismo hegeliano 22 O socialismo de Marx 23 O existencialismo de Kierkegaard 24 O vitalismo de Nietzsche Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 21 O idealismo hegeliano Vocês tiveram oportunidade de estudar na História da filosofia III como Immanuel Kant resolveu os impasses entre o empirismo e o racionalismo Ele toma os dados da sensibilidade como matéria do fenômeno mas o fenômeno só surge na consciência em razão da atividade da razão cujas formas puras do espaço e tempo promovem o ordenamento da intuição sensível Aos fenômenos se aplicam as categorias que propiciam a formação dos juízos inclusive os científicos que são possíveis graças ao juízo que o filósofo denomina de sintético a priori No que se refere ao aspecto prático moral o filósofo considerou a vontade como legisladora da ação isto é é ela que orienta a pessoa a obedecer aos imperativos que a razão prática aponta Assim se colocam como complementares o conhecimento da natureza e a liberdade moral do homem finito diante de um imperativo absoluto que não pretende mas recoloca a questão de Deus na pauta das discussões Ela surge não com o propósito de se descrevêlo ou de tomálo como fundamento metafísico ou moral mas como crença legítima que se pode admitir em razão da necessidade de obedecer à norma moral Em função da moralidade que obriga a fazer o bem é razoável admitir que exista um ser que compensa os bons e castiga os maus Kant chega dessa forma a tratar o tempo de duas maneiras distintas conforme se tenha em vista o tempo físico ou o moral o primeiro apresentado na Crítica da Razão Pura e o outro dependente dos ensinamentos cristãos e exposto na Crítica da Razão Prática Essa dificuldade não está presente só em Kant mas acompanha os pensadores modernos pois se encontra presente no racionalismo cartesiano e nas críticas que lhe fizeram racionalistas e empiristas 211 Considerações iniciais Atenção Vamos recordar como Kant entende o tempo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O que foi dito anteriormente no nosso curso na primeira parte da Crítica da Razão Pura o tempo é uma forma pura da intuição que propicia outros conhecimentos vindos dos juízos sintéticos a priori Ele tem oportunidade de esclarecer no seu livro que o tempo não é um conceito derivado da experiência que ele fundamenta todas as intuições que não possui as propriedades de um conceito que é único e se encontra no sentido íntimo raiz do conhecimento fenomênico A elaboração desse esquema da razão aponta para uma nova perspectiva de conhecimento do mundo que Kant denomina transcendental Mas o que é a filosofia transcendental Kant explica na introdução da Crítica da Razão Pura 1987 Denomino transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com os objetos mas como nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori p 35 Ele a contrapõe à forma grega de conhecer o mundo mais especificamente platônica que denomina transcendente Kant desenvolve a noção moderna de subjetividade pensada pelos filósofos que o antecederam para chegar a um esquema universal do qual todos os homens participam Ele a denomina de subjetividade transcendental Esse esquema contudo não rompe com a moderna subjetividade no sentido que o pensado por Kant é ainda racionalidade iluminista Na Crítica da Razão Pura trata tempo e espaço como ordenadores da sensibilidade mas o sentido interno de tempo é mais importante porque alcança todos os dados enquanto o espaço aplicase apenas aos dados que representam o que está à volta da pessoa Há de se observar que Kant no final da vida caminha para valorizar a história e deixa aberta a porta para interpretações de sua filosofia como produção do sujeito pensante superando a distinção entre fenômeno e númeno inicialmente estabelecida na Crítica da Razão Pura É esse o caminho que será seguido pelos idealistas especialmente por Hegel cujo pensamento examinaremos abaixo E como o debate que se segue aprofunda as posições de Kant do final da vida A crítica elaborada por F H Jacobi 1743 1819 indica que o esquema de Kant pedia para tratar a coisa em si ou númeno mas acenava com a impossibilidade de fazêlo e Salomon Mainon 1754 1800 radicaliza ainda mais a crítica dizendo que se o pensado está na consciência também nela deve estar a coisa em si Essas críticas apontam a direção por onde seguirão os idealistas inclusive Georg Wilhelm Friedrich Hegel 1770 1831 o mais notável e conhecido deles O idealismo ficou conhecido como romantismo filosófico porque incorpora teses centrais do romantismo Quais seriam essas teses A valorização da história da tradição aproximação entre finito e infinito SAIBA MAIS As obras mais conhecidas de Hegel são A vida de Jesus 1795 Ideias para uma filosofia da natureza 1797 Fenomenologia do Espírito 1807 Enciclopédia das ciências filosóficas 1817 Princípios da Filosofia do Direito 1821 Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O idealismo hegeliano adota do romantismo os aspectos indicados no item anterior e ainda proclama a realização do Absoluto no mundo o que é outra tese romântica Então tudo quanto foi criado na história o conhecimento da natureza em diversos níveis as formas de pensar os costumes o Estado a 212 Visão de conjunto moral a arte a religião a filosofia todas essas são realizações do Absoluto E no idealismo filosófico realizase o propósito romântico de ultrapassar os limites do homem cujo sentimento se concilia com a razão e o finito é parte do infinito O kantismo inaugurou outra perspectiva ao conhecimento filosófico presente na metafísica tradicional como foi dito no item anterior No conhecido ensaio O que significa orientarse pelo pensamento Kant critica Jacobi e Mendelsohn porque eles consideravam a orientação como seguir um vago sentimento que Kant substituiu pela forma subjetiva da razão Ele explica 1985 Porque a razão na determinação de sua própria capacidade de julgar não está neste caso em condições de submeter seus juízos a uma máxima determinada segundo princípio subjetivo de diferenciação p 76 Hegel herda de Kant essa indisposição contra vagos sentimentos rejeita a adoção de um sentimento divino como princípio ético bem como a usar experiências místicas para tratar a trajetória até o Absoluto Hegel não usa manifestações confusas e intraduzíveis pela razão para tratar do fundamento do mundo O fundamento do mundo é racional Hegel edifica um vasto sistema em que explica o mundo e seu fundamento No livro Fenomenologia do Espírito descreve os diversos momentos pelos quais passa a razão do grande Sujeito Universal até alcançar o saber absoluto Eis o que Hegel escreve na Introdução do livro 1988 Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Os movimentos dessa razão universal o grande Sujeito com o propósito de se conhecer coincidem com as transformações da natureza que é uma forma menos pura do Espírito Tudo o que existe é parte do Absoluto de modo que o mundo e o pensamento coincidem ou dito como é mais conhecido o que é real é racional e o que é racional é real O que aparece na história do mundo são momentos do Espírito Absoluto que tudo realiza para cumprir o plano inicialmente estabelecido Ele passa por todas as criações da natureza para culminar na Filosofia a última etapa do autoconhecimento do Espírito Na Ciência da Lógica e na Enciclopédia das Ciências Filosóficas Hegel detalha os três momentos da Filosofia nos quais está todo o produto da inteligência humana Para Hegel a história do mundo é a história de um Absoluto que inicialmente decide se conhecer e estabelece os meios teóricos de fazêlo lógica estabelece os limites da consciência e se perde na natureza filosofia da natureza para finalmente reencontrarse consigo mesmo nos momentos superiores do Espírito filosofia de espírito Os momentos do todo são figuras da consciência Impelindose a si mesma em direção à sua verdadeira existência a consciência alcançará aquele ponto no qual depõe a sua aparência qual seja a de estar presa a algo estranho que é somente para ela e como um outro ou no qual o fenômeno se torna igual à essência A apresentação da consciência coincide aqui justamente com esse ponto da ciência do Espírito propriamente dita e finalmente apreendendo ela mesma essa sua essência a consciência designará a natureza do próprio Saber absoluto p 54 O magnífico trabalho de compilação da tradição filosófica feito por Hegel é um dos mais bemsucedidos na história da filosofia Hegel buscará um nexo entre os diferentes sistemas e indicará que não podemos olhar essa tradição na Introdução à História da Filosofia 1987 como exposição de um número de opiniões filosóficas acompanhadas da investigação do modo como se formaram e do modo como se desenvolveram no tempo p 95 E não se pode proceder dessa forma porque significaria tratar a Filosofia como um conjunto de opiniões destinadas a serem superadas o que é inútil curiosidade ou apenas erudição Em ambos os casos tratarseia de um estudo sem nenhum significado ou relevância Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 213 A marcha da razão A Fenomenologia do Espírito não contempla apenas o relato dos movimentos da consciência começando pela sensação e percepção mas traz a descrição de um longo processo que culmina no Ser absoluto Um Ser que não se deixa apreender de modo imediato Ao se tentar apreendêlo a consciência depara se de imediato com o nada Estamos diante de dois pontos que marcarão a meditação hegeliana Quais são eles A descoberta do Ser fundamental como processo longo ao qual só se chega acompanhando os movimentos da razão na história o Ser absoluto não se revela imediatamente e ao mirálo chegase ao nada Então o nada e o ser se completam e interpenetram de modo que o ser puro e o nada são a mesma coisa Podese ver por essa aproximação de opostos que Hegel espera ultrapassar a lógica grega em que o ser e o nada se opunham e não coincidiam A dialética hegeliana propõe a síntese dos opostos como regra para se tratar os movimentos da razão E a síntese revela que o movimento da razão traz o modo de ser do nada que passa a ser algo no momento seguinte Desse modo pela oposição de algo a seu oposto do ser ao nada ou da tese à antítese chega se a uma síntese que é apenas uma nova tese a criar uma nova antítese A cada movimento a razão vai um pouco mais longe de modo que cada síntese é um chegar a um ponto novo mais alto ou melhor elaborado Esse movimento já foi descrito como uma espiral ascendente que permite ver a síntese como retorno a um mesmo ponto porém mais elevado A verdade é o que fica patente no movimento dialético o que se mostra como o saber e o entendimento de certo tempo Quando aplicamos o movimento dialético de síntese dos opostos à história passamos pelas três etapas do processo em que o Espírito se mostra na história do mundo Quando Ele se mostra estamos num momento superior do processo quando o Espírito superou a alienação em que ele se encontrava na natureza Na primeira etapa de seu desenvolvimento encontramos o espírito subjetivo Aí temos a consciência num sujeito que se conhece e tem intimidade O espírito se encontra ligado ao corpo e é conhecido por alma Seu conhecimento nessa etapa do processo iniciase com as experiências mas aos poucos vai adicionando conhecimento do passado e ampliando o conhecimento na direção do Ser ou do Espírito absoluto Até chegar ao momento final do processo o Espírito se consolida em espírito objetivo que tem semelhante à natureza o encontrar se aí no mundo Quando o sujeito singular começa a pensar e viver ele se depara com uma estrutura que foi construída A consciência subjetiva desperta no mundo social O espírito objetivo compreende portanto esse mundo e inclui o Direito a Moral e o Estado As sociedades construíram esses elementos ao longo do tempo O Espírito objetivo encontrase consolidado em elementos que estão além de cada homem Na primeira forma ou Direito estão reguladas as relações entre pessoas Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Se um indivíduo fere alguma cláusula do Direito fica com sua condição de pessoa prejudicada A pena que a lei lhe prescreve serve justamente para que ele recupere sua condição de pessoa Cumprindoa readquire a condição perdida A moralidade é o passo seguinte e Hegel a entende como um momento superior ao Direito porque na Moral estão incluídos os motivos que produzem a ação Quando se aplica a moral à convivência concreta entre pessoas vemos surgir organizações sociais Pela ordem crescente de complexidade são elas a família a sociedade e o Estado Observe que os organismos sociais do processo são mais elevados que as construções da consciência singular mas eles não nascem do acordo de sujeitos independentes num pacto livremente estabelecido como pensam os liberais As formas coletivas presentes no mundo são expressões do Espírito que vão além do homem e se estruturam nas formas superiores de sua manifestação Isso significa que a família sociedade e finalmente o Estado são realidades superiores ao sujeito singular Não parece ser assim mesmo Os interesses e organizações sociais não prevalecem sobre os projetos e desejos particulares mesmo na tradição liberal O Estado é realidade mais importante e se sobrepõe ao indivíduo Em Hegel essa forma de pensar é diversa e vai mais longe que a tradição liberal E o que ele pensa sobre o Estado É possível ver em Hegel como também pode ser encontrada em Fichte a noção de um Estado que é um fim superior ao indivíduo não porque seja resultado da vontade deles mas por possuir uma realidade ontológica superior O Estado liberal é maior que os indivíduos mas existe para que eles possam ter uma vida segura No caso de Hegel o Estado é um fim em si mesmo Subjacente a todo processo de formação da sociedade e de suas estruturas constitutivas está o Espírito Não há propriamente influxo de um aspecto da cultura sobre outro mas como o filósofo esclarece na Introdução à História da Filosofia existe 1988 unidade de todas estas formas diversas de sorte que único é o Espírito que se imprime e manifesta a si próprio nos diversos momentos p 119 A esse Espírito que é a base ou razão de tudo do mundo da história e das realizações existentes sobre a terra Hegel nomeia Absoluto Ele é que toca o processo e se manifesta no espírito subjetivo e objetivo assim como superou a alienação em que esteve na natureza Portanto esse sujeito Absoluto é o fundamento do processo do mundo e do homem que os filósofos buscaram estabelecer desde a antiga Grécia Tudo quanto existe e a própria história está nesse Absoluto que é de onde tudo provém Está no Absoluto não como uma cadeira está na sala um objeto num determinado lugar mas como parte de um Ser que tudo engloba e faz tudo dele depender O Espírito Absoluto também não surge na história do mundo de forma imediata isto é não aparece na sua forma definitiva E como surge então Ele emerge em estágios de transição Ele surge primeiro na Arte depois na Religião e finalmente na Filosofia Na Arte manifestase de forma sensível na Religião é ideia superior mas ainda não se mostra como consciência Só quando está na forma de pensamento e toma consciência de si como realizador de tudo atingiu seu estágio decisivo Esse estágio só ocorre na Filosofia a última grande realização do processo E o que é a Filosofia para Hegel Ele assim a define na Introdução à História da Filosofia 1988 É a flor excelsa o conceito de espírito na sua totalidade a consciência e essência espiritual de todo o conjunto o espírito do tempo como espírito presente e que pensa a si próprio idem p 121 A Filosofia não é uma teoria sobre o Absoluto é sua forma superior de manifestação no mundo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos A obra filosófica de Hegel é criação magnífica e sua História da Filosofia pensada como expressão da Razão livro de destaque nos estudos da História da Filosofia Hegel tem consciência do valor do material que produziu E considera que com ele a Filosofia atingiu o ápice uma vez que o Sujeito Absoluto tomou consciência de si e de seu projeto para o mundo E qual a consequência dessa forma de pensar A interrupção da dialética ou do movimento histórico num dado tempo que se torna uma espécie de presente eterno É o que observa Ortega y Gasset de forma precisa 1998 O presente para Hegel não é um tempo qualquer é este e só este E por isso nosso presente não mudará em nada essencial perdurará idêntico não será passado jamais p 566 Se não se pode falar que Hegel seja o final da história podemos pelo menos considerar que com ele fechase um ciclo da história Ordinariamente avaliase que o idealismo absoluto é o ponto de chegada da filosofia moderna O que se segue é a história da filosofia contemporânea às vezes também denominado de tempo pós moderno Preferimos falar de filosofia contemporânea porque se é claro que se rompe com muitos aspectos do pensamento moderno não significa que há um rompimento efetivo com toda a modernidade superandoa num novo ciclo civilizatório O legado intelectual de Hegel não passou sem repercussão e críticas É desse legado que trataremos a seguir SAIBA MAIS Hegel I parte SAIBA MAIS Para saber mais leia o livro a seguir em que Hegel relaciona a Razão Filosofia e História A razão na história uma introdução geral à filosofia da história Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 22 O socialismo de Marx Em uma direção que concordaria em alguma medida com a de Hegel outros pensadores alemães buscaram pensar criticamente a história entre os quais J G Herder 1744 1803 e F H Jacobi 1743 1819 O primeiro associa a vida espiritual dos povos à sua localização geográfica e o segundo endossa a crítica à Kant e coloca na fé o elemento que amarra o indivíduo ao meio social As duas teses foram rejeitadas pelas gerações seguintes mas provocaram muito movimento nos meios intelectuais Maior impacto tiveram críticos de Hegel que assumiram as posições historicistas que ele desenvolveu Entre esses críticos destacamse Augusto Comte 1798 1857 e Karl Marx 1818 1883 O primeiro elaborou a lei dos três estados com a qual interpreta a história humana Para Comte a humanidade passou por três grandes momentos em evolução ascendente e progressiva da razão Ele fala de uma primeira etapa teológica e depois metafísica até se alcançar o estágio positivo Do primeiro estágio Comte destaca a passagem pelo fetichismo quando se atribui poder mágico a certos objetos o politeísmo que explica o mundo através de uma série de deuses e finalmente o monoteísmo que coloca um único Deus como fundamento do mundo Comte entende que esse momento corresponde à infância da humanidade O segundo período foi denominado metafísico e nele se substitui os deuses por elementos abstratos que adquiriam realidade ontológica É a fase marcada pela predominância da Filosofia em especial pelo papel que teve na antiga Grécia e no mundo medieval A última O pensamento hegeliano representou uma crítica às filosofias da história que surgiram no século XVIII Entre os nomes de maior destaque daquele século estão os franceses Voltaire Montesquieu e Bossuet Os estudiosos da história da civilização no século XVIII estruturaram a pesquisa histórica incentivando o contato direto com as fontes desenvolvendo técnica documental e de compilação de documentos Fizeram trabalho importante que ajudou muito o surgimento e fortalecimento da ciência histórica Faltava a esses estudiosos contudo um esforço compreensivo e capaz de dar significado ao material colecionado Havia muitos dados reunidos mas pouca elaboração crítica Foi o que Hegel procurou fazer desenvolver um esquema interpretativo dos dados reunidos construir uma filosofia da história A interpretação que ele elaborou da história do mundo foi apresentada no item anterior 221 Considerações iniciais Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos etapa da evolução da razão é o estado positivo caracterizado pela adesão do conhecimento às coisas É o pensamento próprio da ciência moderna e a etapa definitiva e mais avançada do conhecimento humano segundo Comte Karl Marx também elabora uma interpretação para a totalidade da história a partir das sugestões de Hegel e são suas ideias que apresentaremos a seguir Karl Marx 18181883 pertence à geração que tomou o legado historicista de Hegel mas lhe deu novo perfil Nela se incluem Ludwig Feuerback 1804 1872 que se afastou do idealismo hegeliano aderindo ao materialismo David Strauss 1808 1874 autor da polêmica vida de Jesus criticamente analisada 1835 que reduz a mito tudo o que na Bíblia não é comprovado pela pesquisa histórica ou explicável pela Filosofia mas principalmente Friedrich Engels 1810 1895 com quem Marx escreveu em parceria algumas obras A tese de doutorado de Marx foi dedicada ao estudo de Demócrito e Epicuro mas ele escreveu trabalhos de grande impacto como A Sagrada Família em parceria com Engels 1845 Miséria da Filosofia Crítica à Economia Política e a mais conhecida O Capital publicada postumamente por Engels Não foi Marx o criador do socialismo O movimento é anterior a ele e encontra precursores importantes como Claude Henri de Saint Simon que projeta uma nova sociedade uma espécie de nova cristandade que ele detalhou em seu livro O Novo Cristianismo Nela os homens poderiam desenvolver suas capacidades em razão de uma educação de base científica que os tornaria compreensivos e moralmente bons 222 O materialismo histórico dialético de Marx E o que pretendia SaintSimon Podese assim resumir seu propósito como está em Mauá e a ética saintsimoniana 1997 A obra de SaintSimon sustentase numa trilogia que constitui a base de seu pensamento a superação do deísmo pelo fisicismo a elaboração de uma doutrina econômica e sociabilidade filantrópica de onde deriva uma moral terrestre Esses três humanismos saintsimonianos coexistem dentro de uma mesma obra funcionando como pilares de um único sistema O saintsimonismo constituiuse por isso em um projeto de reforma social que incluía por um lado uma reestruturação das instituições e por outro uma mudança na maneira de conceber a vida e a realidade fundamentada numa interpretação própria da história p152 Pressupor que essa nova sociedade nasceria da formação moral decorrente do treinamento científico fez com que suas teses fossem denominadas de utópicas contrapondose à forma científica que seria desenvolvida por Marx Contudo o marxismo não é científico como a Física moderna Tratase de uma teoria econômica com muitos elementos filosóficos O comentário a seguir mostrará que o marxismo só é bem entendido como parte da crítica a Hegel e se desenvolve como Filosofia O socialismo marxista é uma crítica a Hegel e rejeita atribuir a transformação social à ação do Grande Sujeito Universal Não se tratava de ficar aguardando por uma sequência de fatos que viria de forma automática pela vontade de um Sujeito Absoluto mas de dar à história um rumo deliberado acelerando os rumos dos acontecimentos presentes na história Não falamos aqui de uma ação singular e única de um compromisso do homem consigo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos mesmo de uma fidelidade pessoal a um projeto de vida Trata se de ser fiel ao processo histórico em curso Não é o sujeito singular individual e concreto o responsável pelas escolhas e criador do futuro Trata se de um sujeito objetivo embora não mais o Absoluto mas o fato material as forças econômicas e a classe social E nesse aspecto ele é herdeiro de Hegel o sujeito singular é menos significativo nessa teoria que o objetivo É claro que o homem pode contribuir ajudar a história a precipitar os fatos mas a vida pessoal não se contrapõe ao rumo desses acontecimentos Vamos procurar entender isso a seguir Em 1848 junto com Engels escreveu o Manifesto Comunista inaugurando a chamada Internacional Socialista Na perspectiva filosófica Marx adota a dialética de Fichte e Hegel para entender a história da consciência e do mundo Contudo avalia que a proposta idealista era uma explicação abstrata Marx tinha clareza da enorme importância da obra de Hegel e em especial de sua interpretação da história do mundo E por que a toma por abstrata Ele assim a entende porque a dialética hegeliana é expressão do Espírito Absoluto o que é uma referência abstrata para tratar das mudanças na sociedade De modo diverso Marx fará uma interpretação materialista desse movimento explicando a evolução histórica pelas disputas econômicas e suas contradições presentes na sociedade Em Para uma crítica da Economia Política Marx avalia que o surgimento da mercadoria isto é a adoção do valor de troca dos objetos pelas pessoas e sociedades está na base da economia política A troca de objetos por pessoas e sociedades dá origem à relação pessoal nos termos de consumidor e produtor A Economia para ele não se fixa nos objetos mas procura entender a relação entre as pessoas E qual o papel das relações pessoais Marx observa que essas relações possuem importância decisiva no desenvolvimento das sociedades e isto foi uma contribuição que ele trouxe A fragilidade da interpretação é que considerou as explicações econômicas suficientes para entender os movimentos presentes nos estratos superiores da sociedade como a arte a ciência a Filosofia enfim tudo que ele denominou de superestrutura Assim esses movimentos na superestrutura têm uma dinâmica mas nascem das alterações provocadas pelas mudanças nas relações econômicas chamada de infraestrutura A interpretação marxista do homem transforma o indivíduo hegeliano de partícula ínfima do Absoluto num agente de trabalho ou como preferia dizer Ortega y Gasset num homem econômico Esse homem não tem essência ou natureza ele é produto das relações econômicas que estabelece Dizer que o homem não tem natureza metafísica no sentido dos gregos não é exclusivo de Marx muitos autores contemporâneos também pensam assim E qual o significado disso Dizer que no homem não há elementos estáveis fixos como queria a antiga metafísica Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos tudo é mutável No entanto o modo de entender a inserção do homem na sociedade feita pelo marxismo não é igual a de outros pensadores como o próprio Ortega y Gasset de quem trataremos adiante Ortega y Gasset dizia de forma muito interessante que o homem não tem natureza mas história querendo dizer algo assim à natureza do homem é ser histórico Para Marx o homem era histórico mas histórico significava que ele participava de certa forma de produção econômica No prefácio da segunda edição de O Capital Marx explica bem sua posição e a crítica que faz a Hegel E o que ele pensa Que não se pode abandonar o método dialético aplicado à história mas é necessário inverter o modo como ele foi utilizado Não se pode deixar à Ideia o papel de demiurgo da realidade mas é necessário inverter a leitura da realidade entendendo o processo histórico como resultado de forças objetivas O que isso significa mesmo Para Marx que a vida humana não se resolve no plano teórico mas no plano econômico e o que movimenta a história são as necessidades materiais Em Marx como fora para Hegel a história permanece sendo o resultado de um processo unitário embora com protagonistas diferentes Encontramos nessa maneira de pensar um monismo ontológico E o que é o monismo ontológico Desde Cristian Wolff 1679 1754 discípulo de Leibniz passouse a denominar assim os filósofos que admitem um único tipo de substância para explicar a realidade não importa se forem idealistas como Hegel ou materialistas como Marx No marxismo a consciência humana ou pensamento não é outra substância diferente das coisas como pensara Descartes ou outro estrato da realidade como consagrou a interpretação fenomenológica mas um aspecto da realidade material mesmo quando pensamento e matéria se opõem Dito de forma mais clara consciência é uma forma de matéria No artigo La ciencia y la religión como problemas políticos Ortega y Gasset comenta este problema do seguinte modo 1994 O sentido se não a obra toda de Marx consiste em afirmar que a religião a política a moral o direito não são senão formas diversas de uma única matéria p 121 Tal forma de pensar que papel atribui à Filosofia O de instrumentalizar a classe operária responsável por promover o mais significativo avanço histórico dos últimos séculos a coletivização dos meios de produção industrial O operário fabril era o grande sujeito da história Todas as épocas da história entendem Marx e nisso ele se parece com Hegel possuem os elementos de sua destruição Cada época tem os germes de sua superação não porque siga um plano histórico rigidamente traçado numa hipotética consciência universal mas devido às contradições internas do modo de produção econômica presente na sociedade Apesar da diferença na operacionalização Marx é hegeliano ao pensar que toda tese provoca uma antítese e que ambas isoladamente não dão conta do processo que o curso histórico só se completa numa síntese que por sua vez se torna uma nova tese que produz outra antítese Assim caminha a humanidade Dito da forma marxista e aplicado aos acontecimentos o escravismo produziu o mundo feudal em que o escravismo não tinha mais espaço e desapareceu A burguesia nasceu nesse mundo feudal que marcou a Idade Média mas o destruiu porque as relações sociais e econômicas ali presentes não eram compatíveis com os interesses da nova ordem capitalista A burguesia por sua vez criou o proletariado e esse a levará à ruína porque a sociedade capitalista e a crescente Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos acumulação de capital que ela produz trazem uma contradição insuperável Qual é a contradição A de concentrar infinitamente a riqueza em poucas mãos deixando na pobreza o proletário explorado Pobres e sem capacidade de consumir os operários cada vez mais numerosos consomem cada vez menos O sistema se destrói e provocará o surgimento da sociedade socialista A sociedade socialista representa na interpretação de Marx o ponto de chegada da evolução econômica da sociedade Como Ela não traria uma nova contradição depois da coletivização dos meios de produção Não conclui Marx a sociedade socialista atingiu a plenitude do desenvolvimento econômico A sociedade socialista apenas resolverá pequenos impasses e fará os ajustes necessários ao seu estado de desenvolvimento Assim o socialismo marxista herda de Hegel a ideia de presente eterno ou do fim da dialética quando atinge um ponto do processo No caso de Hegel como vocês se lembram é quando o Absoluto toma consciência do processo no qual se envolveu Para Marx a evolução econômica produzirá a sociedade perfeita sem contradições e capaz de superar a alienação do homem Então não é apenas a Filosofia que chegará a seu termo como no idealismo de Hegel mas a própria história social política e econômica que ficará paralisada no essencial havendo cumprido o propósito de oferecer a cada homem o que ele necessita para viver Devido ao propósito de criar uma sociedade perfeita muitos críticos viram na sociedade marxista a realização da noção religiosa de paraíso Não é difícil perceber que Marx procurou trazer para vida concreta o imperativo categórico de Kant do respeito radical à pessoa humana mas o fez confundindo ideal com o realizável Ele realizou o que parece ser a mais radical laicização da noção historicista de cristianismo que o mundo produziu O céu mudouse aqui para a terra não porque cada homem foi na direção do Reino do Pai como ensinou Jesus mas porque o Reino foi trazido cá para baixo com a nova organização da sociedade Independente da impossibilidade prática de realizar o objetivo social sabese que as pessoas possuem expectativas distintas e esperam da vida coisas diferentes o que revela a impossibilidade de a sociedade socialista produzir felicidade generalizada Ortega y Gasset comentou em Partidarismo e Ideologia algo parecido 1997 Marx não pode provar nem que todo indivíduo coincide com o temperamento de sua classe nem que fatalmente caiam condicionados a esta seus pensamentos p 83 A experiência histórica demonstrou o acerto dessa observação Na perspectiva filosófica talvez fosse preciso dizer que nem as ideias podem ser reduzidas ao processo econômico nem esse se explica por elas E o que isso significa Que a Filosofia procura fazer um discurso objetivo sobre a realidade não do mesmo tipo da ciência mas propondo categorias diferentes para explicar a descontinuidade do real Isto é as categorias adequadas para entender o mundo material não parecem as melhores para tratar da vida e menos ainda à consciência psicológica ou ao pensamento lógico Cada região da realidade demanda um tipo específico de categoria Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O século XX mostrou que a evolução econômica da sociedade não foi na direção do desfecho marxista O operário fabril perdeu importância na nova ordem econômica e as sociedades capitalistas reduziram a diferença entre os mais ricos e mais pobres No entanto a teoria marxista teve enorme impacto histórico por influenciar o surgimento no século XX de experiências concretas de socialismo Muitas das ideias de Marx foram adaptadas para se aplicar às diferentes situações da realidade muitas não previstas por Marx As experiências históricas do marxismo favoreceram uma espécie de cristalização das ideias de Marx o que é inadequado à meditação filosófica ocupada não só com as questões de sua tradição mas em responder aos desafios renovados que a vida com sua imprevisibilidade permanentemente traz Essa circunstância resultante de aspectos históricos da doutrina não facilitou o debate filosófico mas promoveu tentativas de concretização da teoria O fato teve grande repercussão mesmo em países como o Brasil que não adotou o socialismo mas onde as ideias marxistas foram assumidas por parte significativa da intelectualidade pelo menos durante certo tempo nas últimas décadas Para muitos elas representavam a solução para o subdesenvolvimento e a pobreza Os acontecimentos mostraram o contrário a riqueza só se cria na sociedade capitalista É justamente o caráter mais especulativo dos escritos da juventude que nos últimos anos ganharam destaque entre os estudiosos de filosofia porque afastados da radicalização política e das adaptações que sofreram encontramse mais claramente no ambiente de debate e dúvida adequado à Filosofia SAIBA MAIS Materialismo Histórico SAIBA MAIS Leia o livro a seguir em que Marx critica o pensamento hegeliano Crítica da Filosofia do Direito de Hegel Para saber mais sobre o materialismo histórico assista ao vídeo abaixo Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Fórum Temático 1 Acesse o Fórum Temático e participe respondendo às questões propostas pelo seu professor Neste fórum você será avaliado por quantidade de postagens engajamento no debate e fundamentação da sua resposta Uma única postagem sem engajamento no debate não será avaliada Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 23 O existencialismo de Kierkegaard Sören Kierkegaard 18131855 é um pensador dinamarquês cujas ideias influenciam filósofos importantes como Miguel de Unamuno 18641936 e Martin Heidegger 18891976 Entre suas obras destacamse O conceito de ironia tese 1841 Temor e tremor 1843 A alternativa 1843 Diário de um sedutor 1843 O conceito de angústia 1844 Migalhas Filosóficas 1844 e Pos scriptum às Migalhas Filosóficas 231 Considerações iniciais O que se pretende destacar no âmbito desta unidade é a crítica que suas ideias representam ao hegelianismo Sua crítica não foi como a marxista que preservou a dialética e a sustentação historicista do idealismo de Hegel ela atingiu aquela filosofia no seu núcleo essencial Kierkegaard rejeita o historicismo hegeliano porque considera a vida mesmo isto é a vida experimentada na primeira pessoa como o problema a ser esclarecido pela investigação filosófica O historicismo de Hegel avalia deixa de lado o homem concreto aquele que vive numa determinada sociedade durante um período específico Para esse homem que trabalha ama decepcionase adoece incorre em culpa uma compreensão totalizante do processo histórico possui pouco significado E é assim porque na vida vivida não se experimenta consolo no historicismo e no destino glorioso de uma classe Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O voltarse para a vida concreta no caso de Kierkegaard não significava o abandono do eterno e mesmo do sentido escatológico da existência Ele era cristão e tinha em conta o depararse com Deus no derradeiro momento da existência O que ele rejeita do idealismo absoluto é a perspectiva Absoluta do Espírito Universal que anula a vida singular e seus dramas tudo reduzindo à necessidade do processo e ao plano racional da história concebido na razão universal Ao considerar a angústia aspecto fundamental da existência deu às suas ideias caráter irracionalista É a partir dessa forma de filosofar sobre a existência concreta que autores como Karl Jaspers e Ortega y Gasset que serão estudados na próxima unidade cada um a seu modo indicarão a importância da angústia ou dos dramas existenciais Para os dois filósofos mencionados o reconhecimento dos riscos da existência não significa a rejeição da razão como elemento de compreensão da vida e de suas mudanças como pensara Kierkegaard Esses 232 A angústia e a existência Kierkegaard ocupouse de entender a vida humana concreta e seus dramas deixados de lado pelo idealismo de Hegel e também pelas críticas que Marx lhe fizera Sua formação religiosa permitiu aproximar as dificuldades da existência singular com a noção de pecado original tematizado pela teologia cristã É assim que ele chega ao conceito de angústia como explicação para a existência humana considerandoa categoria fundamental para entendêla E também se refere ao desespero como a forma de enfrentar as limitações do homem e uma vida voltada apenas para o gozo do mundo autores explicarão que apesar da angústia e dos dramas estarem na vida eles não invalidam o esforço da razão nem a incapacitam para o entendimento da existência E Kierkegaard o que ele pensa sobre a angústia No Diário do Sedutor Kierkegaard apresenta o olhar e a atitude do esteta como raiz do desespero que perturba a vida E porque é assim se o esteta vive mergulhado no mundo se ele usufrui da sua contemplação naquele sentido que os românticos popularizaram Porque responde o filósofo viver buscando o prazer de contemplar o mundo leva ao enfado Porque cada prazer obtido coloca o sujeito à procura do próximo a ser usufruído numa busca frenética de prazer que expõe o vazio de significado dessa forma de viver E a experiência do vazio de sentido entre os momentos de gozo produz tristeza e tédio que só são superados no próximo momento de prazer O vazio de prazer provoca a melancolia e ela é a raiz do desespero explica Kierkegaard Para superar esse estado é preciso agir e enfrentálo mas o esteta não pretende fazêlo seriamente pois o que procura de verdade é um novo momento de fruição Para enfrentar o desespero é necessário sair da perspectiva estética de uma vida orientada para o prazer e considerar a vida de outra forma De que modo é preciso considerála Reconhecendo intimamente a finitude existencial pois o fato obriga a reconhecer também o infinito e incomensurável O finito só o é porque tem diante dele algo que o ultrapassa o finito aponta para o que está além dele isto é o infinito e incompreensível Não há como passar do finito ao Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos infinito prevalecendo portanto a interdição de Kant à coisa em si Resta então a vontade de fazêlo de realizar a passagem que é impossível completar Chegase aqui a um ponto difícil da teoria kierkegaardiana a vontade de atingir o infinito a plenitude da vida e a impossibilidade de fazêlo a interdição de concluir a passagem que vai do finito até lá Para enfrentar tal dificuldade é preciso valerse da ironia que o filósofo examinou em sua tese O conceito de ironia A ironia tal como a concebe permite abandonar a atitude estética de viver para o prazer e desenvolver uma atitude ética E a atitude ética nasce da ironia e leva o homem a mergulhar na profundidade da existência na direção do infinito mesmo sem poder alcançálo Como não se pode completar a passagem até o infinito só se consegue escolher fazêlo E é nessa realidade em suspensão que se experimenta o autêntico sentido da liberdade de existir para o filósofo E o que é a liberdade Liberdade verdadeira significa a possibilidade de abrirse ao infinito mesmo sem conseguir atingi lo A atitude ética não pode se completar pode apenas ser mantida na vontade que descobre o embate entre o bem e o mal E é nessa disputa que o homem percebe a religião como o que vai além da ética problema que está mais claramente discutido em Temor e Tremor Lembramos que na Filosofia do Direito Hegel considerou a ironia como expressão da Consciência do Espírito consciência que é a verdadeira realidade e diante da qual o resto nada é Esse entendimento hegeliano resulta do modo como Fichte concebera a consciência isto é realidade superior que separa no mundo o que ela é e o que não é para superar essa separação numa síntese superior que unifica a dicotomia eunão eu numa síntese Esse processo como você já estudou é a nova forma de dialética que o filósofo expôs na Doutrina da Ciência de 1794 Podemos recordar como ele o fez naquela oportunidade 1988 O total daquilo que é certo incondicionalmente e pura e simplesmente está agora esgotado e eu exprimiria na seguinte fórmula eu oponho no Eu ao eu divisível um não eu divisível Nenhuma filosofia ultrapassa esse conhecimento mas toda filosofia bem fundada deve remontar até ele e desde que o faça tornase doutrina da ciência Unificamos o eu e o não eu opostos pelo conceito de divisibilidade p 55 Voltemos à ironia no idealismo de Hegel o que ela é É a forma de a Consciência Universal brincar com todas as coisas No texto O conceito de ironia Kierkegaard dá lhe sentido diverso Ironia é a possibilidade de o sujeito finito depararse com a infinidade que experimenta na intimidade e não a forma de pensar da Consciência Universal que brinca com o mundo enquanto o conduz para onde quer A ironia keirkegaardiana é experiência íntima da infinitude percebida pela consciência enquanto ela se descobre finita na relação com os outros entes que estão no mundo Em Temor e tremor o filósofo examina o desencontro que há entre Ética e Religião Não o faz pelo caminho da laicização da moral cristã num processo vivido na Europa durante a modernidade A ética moderna é um esforço para conquistar a autonomia da moral diante de outros campos do saber O ponto de partida pode ser atribuído a Pierre Bayle francês que viveu emigrado na Holanda para fugir da perseguição religiosa em sua terra Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos natal Ele explica em seu Dicionário Histórico e Crítico 1697 que religião e moral embora próximos são distintos O que ele sugere é que se pode ser moral sem ser religioso É o que Kant consagrou quando muda o princípio evangélico do amor ao próximo como a si mesmo numa lei da razão conforme explica na Fundamentação da Metafísica dos Costumes 1785 Na obra Kant postula uma máxima que possa ser seguida e ao mesmo tempo elevada à norma universal válida para todos os homens E como Kierkegaard trata da distância entre moral e religião Não no sentido de Bayle e Kant O desencontro reconhecido por Kierkegaard decorre de sua análise da célebre passagem bíblica do capítulo 22 do livro do Gênesis Aí se encontra o episódio em que Deus pede a Abraão o sacrifício de Isaac seu único filho Abraão demonstra absoluta confiança em Deus e se prepara para degolar o menino até que no último momento quando sua mão já está no ar para desfechar o golpe fatal um anjo interrompe a ação e lhe oferece um carneiro para ser sacrificado Kierkegaard analisa que caso Abraão se guiasse pela ética ou pela razão não se disporia a sacrificar o menino Porém ele não teve dúvida em fazêlo porque sua fé o levava a ter absoluta confiança em Deus A atitude de Abraão é um escândalo para a ética porque com o assassinato do filho ele atentava contra o maior valor que a razão reconhece e perderia o filho de forma definitiva No entanto Abraão acreditou que Deus lhe devolveria o filho mesmo sem saber como isso ocorreria pois Deus está acima da moral A fé vale mais que os princípios morais e por isso para ele a Religião é mais significativa que a Filosofia O exame de outro episódio do Gênesis desta vez relatado no capítulo 3 levao a tematizar o pecado numa interpretação original Ele considera o pecado categoria existencial por excelência pois do mesmo modo que fizeram Adão e Eva ao se recusarem a cumprir a orientação de Deus o homem que peca se depara pela consciência culposa com sua absoluta singularidade O pecado identifica quem o comete o que significa que ele individualiza ele marca o indivíduo O pecado é ato de vontade e como tal é um ir além da inocência ou inconsciência primitiva Quem peca perde a inocência isto é a incapacidade de distinguir o bem do mal E Adão e Eva depois de pecarem têm interditado pelo anjo o caminho de volta ao paraíso perdido o que significa nessa interpretação kierkegaardiana que eles não puderam retornar à inocência primitiva A inconsciência e incapacidade de diferenciar o bem do mal é o estado de paz e repouso no qual se encontram os animais para os quais não há dilema íntimo e nem culpa Contudo esse estado interior de paz é o nada Quando peca o homem dá um salto qualitativo ele muda da ignorância primitiva e do nada para a consciência de culpa Isso ocorre de um modo que não se explica pela dialética hegeliana mas por um salto de qualidade que diferencia o estado anterior de inocência do novo momento representado pela consciência culposa Kierkegaard avalia o processo dialético de Hegel e indica que nele não há lugar para o pecado para o limitado para a culpa E é o pecado que se mostra quando incorro em culpa ele singulariza e toca a consciência como nunca supôs Hegel Na interpretação do que o tempo é Kierkegaard também se afasta do modo hegeliano de pensar Ele foca no instante que a sensibilidade revela O instante é uma forma de presente que não tem passado ou futuro pois o instante não é claramente separado de outras instâncias do tempo e assim é impossível separar o passado do presente como também não se pode seccionar presente e futuro A forma de considerar a experiência do tempo também o diferencia de Hegel e dos idealistas em geral O filósofo enxerga na existência pessoal uma dupla experiência do tempo conforme ela se refira ao mundo fenomênico ou percepção finita de si ou Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos ao diálogo com o Eterno que propicia a experiência da infinitude E nessa dupla experiência temporal ele está mais próximo de Kant mas também lembra Hegel e o vínculo finito e infinito No entanto na meditação de Kierkegaard o sujeito individual não é apenas o ponto de passagem na afirmação do Sujeito Absoluto como era para Hegel O homem permanece singular na tensão que brota entre o sentirse finito diante do infinito O contato com o infinito provoca a angústia Ela não é superada na relação com o infinito que como vimos não se completa e permanece presente no confronto É nesse ponto da meditação que a angústia se mostra categoria fundamental para tratar a existência pois ela tem significado educativo A angústia é indicador de autenticidade pois mostra a vida como é em contínua mudança e permeada pelo que é frágil e ilusório A ansiedade ensina o que a vida é Nada na existência assegura a autenticidade e a superação da angústia senão o confronto com a fé pois quando experimenta a fé o indivíduo encontra um caminho para superar a angústia uma vez que na ilusão da finitude não é possível E por que o confronto com a fé é fundamental Porque a fé expõe a fragilidade da finitude e deixa à mostra as ilusões da vida fenomênica Ao experimentar a fé o indivíduo não só percebe a ilusão do mundo mas entende que pode vencêla A forma de entender a fé também afasta o filósofo de Hegel Na avaliação de Kierkegaard Hegel propõe uma forma superficial de cristianismo Hegel vê em Cristo o Absoluto que dá sentido ao mundo material porque unifica o finito e infinito numa síntese dialética Para Kiekegaard o homem diante de Deus experimenta uma distância insuperável que não pode ser superada em nenhuma síntese Cristo é paradoxo do Eterno implantado no tempo O cristianismo presente no sistema de Hegel parece lhe um discurso criado para o mundo burguês um lugar onde o homem é incapaz de viver a profundidade do pecado que é a consciência do mal e a superação da inocência primitiva ou a inconsciência Além disso a aproximação entre as formas cristãs de religião com o Estado implícita na formulação hegeliana de Estado não lhe pareceu ter qualquer sentido Um cristianismo encampado pelo Estado é forma medíocre de fé que muitas vezes esconde interesses temporais e afasta o homem do projeto verdadeiro de Deus Não lhe parece possível esse entendimento terreno de cristianismo que compactua com a riqueza e o cômodo na vida Ao rejeitar o hegelianismo o filósofo propõe uma experiência de Deus que torna evidente a falta de sentido da vida fenomênica e sem síntese com o Absoluto Ele aponta a falta de autenticidade da vida ocupada com os afazeres do mundo e influencia muitos filósofos do século XX que começaram a meditar a partir da fragilidade da razão moderna e da inadequação da forma hegeliana de tratar a história e a religião Kierkegaard aponta para os fenomenólogos da existência a necessidade de focar na vida singular em elucidar quem é o homem singular no sentido proposto por Kant interpreta viver como tensão permanente entre efêmero e eterno ou entre subjetividade e transcendência É seguindo essa tensão que caminharão os filósofos da existência notadamente Karl Jaspers cujo pensamento examinaremos adiante E nisso consiste o principal da crítica Kierkegaardiana ao hegelianismo ele se recusa a descobrir o sentido da vida singular no todo 233 O significado da filosofia kierkegaardiana para o existencialista do século XX Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Considerar a fé elemento de autocertificação ou verdade íntima significa que a experiência de Deus não é indubitável mesmo para o crente Em alguns momentos a dúvida surge e a certeza íntima deparase com a incerteza objetiva numa tensão insuperável que mantém a angústia como realidade tipicamente humana Os temas da meditação de Kierkegaard a saber a solidão íntima a subjetividade radical a angústia o desespero a contingência absoluta da origem humana são temas que se repetem no movimento existencialista Kierkegaard trata desses assuntos de modo distinto dos existencialistas ateus E como o faz Ele considera a contingência humana diante de Deus considerado como a transcendência ou infinitude da qual não escapamos O existencialismo pensa o homem e sua experiência de finitude diante da infinitude Kierkegaard enxerga essa finitude como Deus outros existencialistas preferiram falar de transcendência na história ou do nada Conforme o autor mudase o transcendente mas permanece o sentido da tensão consagrado por Kierkegaard entre a vida interior e a infinitude O existencialismo rejeita a síntese sugerida por Hegel preservando a tensão entre a subjetividade e a transcendência finito e infinito numa continuada passagem de uma a outra traduzida por Miguel Reale como dialética da complementaridade É a nova dialética sugerida por Kierkegaard Como entendêla Reale faz sua leitura do problema em Experiência e Cultura e o explica como se segue 2000 A tensão que alimenta o núcleo metafísico da filosofia de Karl Jaspers encontra raiz na filosofia de Kierkegaard e em sua compreensão de tempo como experiência íntima do finito e do infinito na proposta de uma dialética de âmbito subjetivo que se esgota no indivíduo sem passar para as fases mais avançadas do Espírito Objetivo e Absoluto Eis o que via de Kierkegaard para Jaspers O que há de verdadeiro é o que é vivido na intimidade e no confronto com a situação limite representada pelo pecado para o primeiro e na consciência de culpa para o segundo Por sua vez a noção de angústia presente nas escolhas realça o significado da vida singular que é insuperável pela dimensão social e histórica O foco na experiência íntima feito por Kierkegaard faz com que a fé apareça como vivência incomunicável e funcional como verdade pessoal ou melhor como autocertificação conforme preferia dizer Karl Jaspers E o que é autocertificação É reconhecimento pelo indivíduo que as verdades de fé as crenças mais profundas que ele cultiva não se impõem pela evidência como ocorre no conhecimento fatual das ciências Vamos explicar o significado disso Independente do modo como se viva intimamente o contato com o mundo a água ferve aos 100ºc e a lei da gravidade permanece nos prendendo ao planeta Porém nossa vida não se esclarece nessas verdades da ciência As vivências incomunicáveis da fé estão presentes na singularidade existencial e solidão ontológica que frequentemente levam o indivíduo ao desespero O desespero nos coloca em contato com Deus e apenas tal contato permite vencêlo Só Deus livra da experiência de abandono que nos atormenta nos momentos extremos de sofrimento dos quais não há como escapar Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos O aspecto que estamos vendo da filosofia de Kierkegaard é o segundo na citação de Reale isto é o fato de que a síntese possível não pode destruir os termos antitéticos e unilos mas referenciamos a citação inteira porque a raiz dessa forma de pensar está na diferença lógica entre contradição e contraditório sendo que a primeira admite síntese do que são contradições apenas aparentes enquanto no plano da lógica não é possível se falar de eliminação dos contraditórios Kierkegaard é um pensador que traz a meditação filosófica para a vida vivida na intimidade e fornece os elementos para pensar um mundo em crise como foi o século passado Um mundo em que angústia contingência e vazio existencial não eram experiências desconhecidas do homem comum Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos 24 O vitalismo de Nietzsche Friedrich Nietzsche nasceu em 1844 e morreu em 1900 Tornou se professor de filologia clássica em 1869 cargo que ocupou durante dez anos Uma paralisia cerebral provavelmente de origem sifilítica prejudicou sua consciência afastouo da docência e o levou à morte relativamente novo No final da vida a doença o tornou apático e distante da rotina Suas obras mais conhecidas são O nascimento da tragédia 1872 Considerações extemporâneas 1876 Humano demasiado humano 1878 Aurora 1881 A Gaia Ciência 1882 Assim falou Zaratustra 1885 Além do Bem e do Mal 1886 Genealogia da Moral 1887 e Vontade de Poder Nietzsche como Kierkegaard rejeita a ideia de um Sujeito Absoluto como explicação do mundo pois tal concepção retira importância da vida individual e do sentido trágico da existência 241 Considerações iniciais em favor da uma explicação racional do processo A meditação de Nietzsche tem como propósito recuperar o significado da vida individual contra o que ele denomina vida de rebanho metáfora para designar uma existência que não se destaca pela singularidade A crítica a Hegel não fica nisso e ele contrapõe à racionalidade hegeliana a noção de vida Vida não é uma referência ao funcionamento biológico do corpo mas expansão criadora de uma força e vivência do ser no ato de pensar Esse conceito de vida é mais intenso que o proposto por Hegel isto é como princípio que se move a si mesmo ou melhor como escreveu na Fenomenologia do Espírito o todo que se desenvolve e se mantém nesse movimento A noção de vida de Nietzsche considera o próprio filosofar expressão da vida Melhor explicado realização da vida ao invés de uma reflexão sobre ela A vivência do ser é considerada por Nietzsche como bem maior o que coloca o conhecimento especulativo a serviço da vida consolidando uma atitude filosófica que representou um novo estilo de filosofar Há nessa forma de pensar algo que se aproxima de Kierkegaard a saber a preocupação com a existência singular e o descrédito na força absoluta da razão como explicação do mundo Contudo por semelhança essa reflexão sobre a vida que tem raízes em Fr Schlegel e dá ênfase na experiência interna ganha continuidade com Ortega y Gasset Embora próximos na crítica a Hegel o pensamento de Nietzsche que fundamenta a psicanálise vai à direção de Ortega y Gasset enquanto Kiekegaard está mais próximo da meditação de Karl Jaspers Todos juntos contra Hegel mas em trincheiras próprias e com reflexões singulares existencialistas de um lado vitalistas de outro Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Não há fatos eternos como não há verdades absolutas Friederich Nietzche Autores como Julian Marías entendem que o estudo da obra de Nietzsche especialmente para quem não é especialista deve orientarse por instâncias temáticas Marías aponta quatro temas como representativos do modo nietzschiano de pensar o dionisíaco e o apolíneo o eterno retorno o superhomem e a moral dos senhores e dos escravos Vamos fazer uma apresentação do pensamento de Nietzsche a partir da sugestão de Marías 242 A temática O primeiro dos temas contrapõe duas atitudes perante a vida que são expressas pelos deuses gregos Apolo e Dionísio O primeiro representa a clareza a serenidade e a tranquilidade que decorre do uso da razão É a imagem que ficou da Grécia dos filósofos ou melhor da atitude metafísica do denominado período áureo da filosofia grega com seus intérpretes principais Sócrates Platão e Aristóteles A outra atitude examinada no Crepúsculo dos Ídolos propõe a tragédia como o que melhor retrata a vida real com seus estranhos e terríveis problemas e comportando empenho visceral de realizar grandes coisas até com o sacrifício da própria vida Nietzsche observa que os primeiros filósofos refletiam a partir da vida mas aos poucos passaram não mais a refletir mas a julgála Eles incorporaram atitude crítica que contrapunha à vida mesma uma forma de pensar que desejava estruturála ou explicá la com princípios fixos Foi o que pretenderam fazer os filósofos metafísicos Eles não apenas pensaram esses princípios mas os valorizaram acima de tudo o mais Foram eles que trataram o oculto substante como mais relevante que o acidente e aparente que preferiram o inteligível ao sensível A crítica de Nietzsche voltase em outra de suas obras importantes a Vontade de Poder principalmente contra Sócrates pois foi ele quem estimulou o abandono da arte trágica considerandoa inadequada para o verdadeiro conhecimento do belo e do bem Essa interpretação socrática afastou seus discípulos da vida mesma concluiu o filósofo pois aquilo que não se restringe ao racional não é digno dos filósofos e por extensão dos homens sábios e virtuosos Sócrates é quem privilegiou Apolo e rejeitou Dionísio deixando de lado as manifestações vitais e instintivas que na avaliação de Nietzsche são a raiz da força e da criação Foi assim que o pensamento grego valorizou o homem teórico ao invés do prático apaixonado e propôs um direcionamento que marcou a cultura ocidental Essa forma de pensar considerou bom o pensamento abstrato e lógico deixando de lado todo o resto que na vida era representado pela tragédia ou pelos instintos força e vigor A Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos atitude vigorosa Nietzsche atribuía em A Filosofia durante a Era Trágica aos primeiros pensadores ou présocráticos mas essa atitude diante da vida se perdeu com o encaminhamento metafísico que Sócrates deu à Filosofia O segundo tema é o do eterno retorno e é uma continuação do anterior Como esse assunto se liga ao primeiro Reconhecida a distinção entre o apolíneo e o dionisíaco como expressão da dicotomia razão e instinto vital Nietzsche pretende retomar ao momento inicial de pensamento grego Aquele momento é o período présocrático que como ele esclarece na Vontade de Poder viveram os filósofos a plenitude do desafio de filosofar antes da decadência iniciada por Sócrates Nietzsche adota uma interpretação cíclica do tempo Para ele os fatos não seguem em direção de um futuro linear como ocorre na visão progressiva da história mas o futuro volta ao passado num eterno recomeço numa contínua repetição Essa interpretação do tempo deriva do ciclo das estações dos meses do ano de uma espécie de vontade férrea da natureza Essa interpretação cíclica do tempo que deriva dos ciclos inexoráveis de repetição da natureza amarra o homem à terra e ao destino que ele aqui vive O vínculo obrigao a aceitar seu destino no círculo do eterno recomeço que em si mesmo não tem qualquer razão superior E o que é esse superhomem É aquele que descobre o absurdo da irracionalidade que o guia Ele não é a criatura racional que os filósofos desde os gregos nos anunciam Não é que ele não faça uso da racionalidade mas não é a razão que define sua existência Entendendo que assim é pode ir além de sua condição E superando a condição humana entende a vida como luta e toma consciência que a vida só se mantém se ela se alimenta de outros seres Só há vida em função da morte ela só sobrevive porque se alimenta de outras vidas Deixar de lado a racionalidade e suas exigências sobretudo morais não é um absurdo Nós não devemos nos ocupar de proteger os mais fracos e fazer justiça como proclama a moral evangélica e a ética do dever de Kant De modo algum responde Nietzsche A vida é aceitação do absurdo do irracional do que está fora da reflexão Só quando cai além da racionalidade dá origem ao superhomem Esse ser superior não julga o mundo acreditando que ele deveria ser distinto do que é mas o aceita tal como ele se apresenta E isso significa o quê Tanto admitir o inesperado o que nos acontece e que a razão não previu como enfrentar as adversidades com a força necessária para derrotála Assim o filósofo chega à moral do guerreiro aquela que incita à ação Melhor ainda ele proclama a superioridade do herói porque ele está disposto a enfrentar as adversidades que a vida traz sem considerar o esforço necessário Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos para vencêlas Exemplo histórico desse homem superior foi o bárbaro que invadiu o Império Romano no final dos tempos antigos O bárbaro se guiava pela espontaneidade da vida e não tinha pudor em destruir a moral do Império que era na ocasião a moral cristã Essa moral chegara a Roma através dos escravos e acabou prevalecendo sobre a moral do guerreiro Ela alimentou a artificialidade e criou uma sociedade frágil coberta de um verniz civilizatório de todo indesejável Esse verniz retirou do homem o empenho o propósito de ousar lutar e vencer ele privou o indivíduo da disposição de enfrentar o impossível E o super homem coloca em pauta uma nova moralidade em contraposição à moral cristã que não lhe serve Chegamos assim ao quarto tema a moral dos escravos e a moral do senhor Já vimos que isso significa a contraposição entre a moral cristã e a moral do superhomem ou dos heróis Naturalmente a rejeição do filósofo não se limita à moral religiosa mas alcança a kantiana pois a moral do dever é expressão da racionalidade e recoloca em cena ainda que por exigência da razão o princípio evangélico rejeitado por Nietzsche E por que o rejeita Porque os valores cristãos são responsáveis por tirar do homem tudo o que ele tem de nobre O amor cristão que proclama sentir as dores do outro é o que lhe parece mais antinatural E por que é antinatural Porque o amor misericordioso valoriza a fraqueza a desconfiança da força e da virilidade proclama a humildade o recato a parcimônia enfim tudo o que representa o que há de inferior no homem A moral de Nietzsche é adicionalmente uma crítica à sociedade burguesa e utilitária pois o seu herói guerreiro é o homem de outros tempos o homem da aventura e não o burguês utilitário da sociedade industrial No Anticristo Nietzsche explica as razões de sua desconfiança da moral cristã e a aproxima da racionalidade grega Como o filósofo avalia o cristianismo Para o filósofo o cristianismo representa para o Império Romano um processo de desarticulação comparável ao que ocorreu na antiga Grécia com o desvio na direção da metafísica atribuído a Sócrates Na avaliação de Nietzsche o Império Romano foi a mais magnífica organização jamais criada pela humanidade Nada se comparou a seu esplendor glória duração e conquistas mas mesmo uma forma tão superior de organização não resistiu à moral cristã Foi mais fácil para Roma superar maus imperadores e políticos corruptos que resistir ao que ele designava moral de escravos De fato se considerarmos historicamente o cristianismo foi primeiramente uma moral dos escravos de Roma e só mais tarde alcançou a elite romana E ele acrescenta a pregação cristã herdou o que havia de pior no judaísmo Não eram inocentes os padres e pregadores ao contrário eram muito espertos mas lhes faltava legítimo interesse pela vida Então eles desviaram o que havia de mais interessante no mundo antigo e mesmo a luxúria encontrada no islã não resistiu ao contato com o cristianismo Em A Vontade de Poder o filósofo opõe o cristianismo ao que é natural ao que é forte superior e vigoroso No livro ele explicita o essencial de sua crítica ao cristianismo consideraa força maligna que destruiu o ímpeto dos homens fortes e valorosos O cristianismo converte a força e orgulho em ansiedade e culpa envenenando a vida e lhe retirando todo o sangue Por isso o cristianismo é comparado a um vampiro que suga o sangue das vítimas até leválas à morte por falta de sangue O cristianismo veiculou um Deus que elimina todo o desejo de viver neste mundo Em Assim falou Zaratustra o pensador criticou a pregação de Jesus não porque ele não fosse um jovem íntegro e correto mas devido à sua inocência juvenil Diz que ele morreu jovem demais e na inexperiência e solidão esteve atordoado pela tristeza e sofrimento dos hebreus até o ponto de desejar morrer Unidade 2 O Idealismo Hegeliano e Seus Primeiros Críticos Desperdício de uma vida jovem Porém se tivesse vivido uns anos mais teria abandonado semelhante forma de pensar E é assim que o filósofo convida o leitor a permanecer fiel à terra e às suas regras e a não acreditar no que conduz para fora dela Ele espera que ao abandonar as referências cristãs o homem seja extinto da face da terra para dar lugar a um novo ser um ser que esteja muito acima desse homem civilizado Nisso consiste o essencial da pregação do profeta Zaratustra no livro indicado conduzir o homem para um ponto além de onde ele está O homem é apenas ponto de passagem um ponto entre o animal e o superhomem E ele deve ser consciente dessa condição e não se aferrar muito ao que é passageiro Em Para Além do Bem e do Mal o filósofo contrapõe o altruísmo ao egoísmo considerado esse sim a essência da alma valorosa A alma elevada aceita essa realidade a virtude é a dureza da alma e não a brandura e a compaixão ensinadas pela ética cristã Um olhar sobre a filosofia de Nietzsche revela uma filosofia que desejava ir além do idealismo e historicismo de Hegel e Marx Ela representa um desconforto com o modo de vida da sociedade europeia da chamada belle epoque Valorizava a ética do guerreiro contra as morais de inspiração cristã e o polimento e repressão da sociedade civilizada Nesse sentido o que há de mais significativo em suas ideias é a atenção que dedica à vida mesma à vida concreta do homem Essa vida que não se esgota no plano da razão é vida singular concreta situada em permanente luta para manterse E é por focar a atenção na força vital que Nietzsche é um dos inspiradores de Freud na criação da psicanálise As limitações desse pensamento estão na rejeição da razão que mesmo não sendo exclusiva definidora do que é o homem é fundamental em sua vida E se temos um autor autêntico e sincero em suas convicções não se pode deixar de lembrar que o natural não é moral não assegura a melhor trajetória na vida Enfim é possível valorizar a vida sem perder as lições da razão como indicaremos no próximo capítulo ao considerar o pensamento de Ortega y Gasset 243 Lições do vitalismo de Nietzsche TAREFA 1

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