• Home
  • Chat IA
  • Recursos
  • Guru IA
  • Professores
Home
Recursos
Chat IA
Professores

·

Filosofia ·

Filosofia

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

1

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

Filosofia

UFSJ

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

22

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

Filosofia

UFSJ

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

3

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

Filosofia

UFSJ

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

9

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

Filosofia

UFSJ

Subjetividade e Intencionalidade-Fenomenologia-Husserl-Jaspers-Wittgenstein

46

Subjetividade e Intencionalidade-Fenomenologia-Husserl-Jaspers-Wittgenstein

Filosofia

UFSJ

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

27

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

Filosofia

UFSJ

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

39

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

Filosofia

UFSJ

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

168

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

Filosofia

UFSJ

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

53

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

Filosofia

UFSJ

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

7

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

Filosofia

UFSJ

Texto de pré-visualização

UNIDADE 2 PLATÃO E A MÍMESIS Sempre tomando como base o Caderno de Estudos Estética da professora Cláudia Drucker esta unidade objetiva aprofundar e sistematizar as questões apresentadas no Capítulo 2 intitulado Platão e a Mímesis que integra o Caderno supracitado Esta unidade tem como principal objetivo introduzir o discente nas especulações do pensamento de Platão sobre o belo e arte Ao final de seus estudos você deverá ser capaz de Situar a discussão promovida por Platão em torno da questão da arte e do lugar que ela ocupa em relação à Filosofia Compreender a noção de mímesis em Platão através da compreensão da sua teoria da participação notadamente através da análise da alegoria da linha e da alegoria da caverna nos Livros VI e VII da República Compreender tomando como base a compreensão que Platão tem de mímesis a crítica que Platão faz aos poetas no livro X da República Compreender o que é o belo em Platão De família nobre Platão nasceu aproximadamente em 427 a C e faleceu em 347 aC Sua obra foi escrita na forma de Diálogos e também nos restou um conjunto de cartas O principal personagem da maioria de seus Diálogos foi Sócrates de quem foi aluno Fundou a sua Academia em Atenas e permaneceu como seu líder até a sua morte Imagem retirada de httpplatoifuspbr12003fmt0405dhelenplataojpg Acesso em 23 de setembro de 2013 21 O QUE É FILOSOFIA PARA PLATÃO RETOMANDO QUESTÕES FUNDAMENTAIS DO FÉDON O pensamento de Platão é decisivo para a compreensão dos rumos que o pensamento metafísico tomou ao longo da tradição do pensamento ocidental É com os seus textos que em sua maioria assumem a forma de diálogos nos quais o seu principal personagem é Sócrates Daí o seu método ser denominado de dialética dia através por meio de logos palavra razão O método da dialética é o único que procede por meio da destruição das hipóteses a caminho do autêntico princípio a fim de tornar seguros os seus resultados e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e elevaos às alturas utilizando como auxiliares para ajudar a conduzilos as artes que analisamos Rep 533 c d A Filosofia é para esse autor o fruto desse tipo de método que visa sobretudo a discernir os tipos de conhecimentos próprios do homem quais sejam aqueles pertencentes ao corpo conhecimento sensível que gera sempre uma opinião sobre alguma coisa e o inteligível que tem por objeto as ideias imutáveis Para entendermos esse ponto que envolve a diferenciação entre conhecimento sensível e conhecimento inteligível devemos compreender melhor antes de mais nada a posição ontológica que os diálogos platônicos buscam fundamentar filosoficamente posição ontológica que preconiza que o verdadeiro ser das coisas é em última análise a essência ousía Mas poderíamos nos perguntar o que é afinal de contas a essência segundo Platão Ora se vamos aos diálogos a fim de compreender de uma forma mais adequada essa questão notamos que nos diálogos a essência é compreendida como aquele princípio ontológico responsável por determinar o que algo realmente é Isso significa que no contexto da filosofia platônica a essência portanto consiste naquilo que define a natureza mesma phýsis do ente Nesse sentido é a essência que faz p ex que tal objeto seja uma árvore e não um cão Pois bem Platão determina a essência assim compreendida como uma forma eidos idéa isto é como um princípio de configuração interna ou estrutural que é responsável pela delimitação ontológica do ente ou objeto Sendo o princípio responsável pela configuração interna ou estrutural dos entes ou seja sendo o princípio responsável pelo fato dos entes serem o que são a essência ou forma é segundo a compreensão platônica necessariamente imutável conservandose idêntica apesar da multiplicidade e da mutabilidade dos indivíduos que dela funcionam como instâncias pensese no caso da espécie humana ou da ideia de homem que é a mesma em todos os indivíduos e que não é nem alterada quando estes se modificam nem destruída quando estes se extinguem Caso as essências ou formas mudassem ou pudessem ser destruídas como acontece com as coisas que percebemos no âmbito da experiência nenhum ente poderia ser indicado como isto ou aquilo nenhum ente poderia ser o que é e tudo se reduziria ao mais vertiginoso fenomenismo Há assim para Platão uma clivagem ontológica entre as essências ou formas e os objetos empíricos situados no tempo e no espaço que as exemplificam clivagem que no plano epistemológico origina duas formas de conhecimento o conhecimento inteligível acessado pela razão e o conhecimento sensível acessado pelos sentidos Em seus diálogos ao promover a distinção do que pertence ora ao corpo as opiniões que permanecem presas ao particular ora ao inteligível que pertencem à esfera imutável a qual pertencem os deuses e tudo o que é divino o nosso filósofo acaba por promover o que ele define como filosofia ou seja o exercício de preparação para a morte Em seu diálogo Fédon que retrata o dia anterior à morte de Sócrates Platão apresenta a Filosofia como o exercício de preparação para a morte Contudo mais do que a morte biológica Platão alude a dimensão filosófica da morte Qual seja ela a dimensão da mais profunda coragem Coragem de abandonar a facilidade dos saberes advindos do senso comum que nos impedem de nos interrogarmos sobre o que são as coisas a facilidade das ideias que nos são dadas como prontas e acabadas até mesmo a ideia de deus Segundo Schelling Somente aquele que se quer colocar no ponto instaurador da Filosofia verdadeiramente livre deve abandonar até mesmo deus Isto significa aquele que quer conserválo deve perdêlo e quem se despojar haverá de encontrálo Somente aquele que chegou ao fundo de si mesmo e conheceu toda a profundidade da vida que já tudo abandonou e foi ele mesmo por todos abandonado para quem tudo naufragou e que se viu sozinho com o infinito foi capaz do grande passo que Platão já comparou com a morte SCHELLING F W Essa experiência aludida por Schelling nos remete para o sentido mais radical da experiência da morte para Platão No Fédon a morte é definida por Sócrates como a separação entre o corpo e a alma Separar contudo não no sentido de uma disjunção Como colocar de um lado o corpo e de outro a alma Se fosse assim o argumento do suicídio seria aceito Para ser filósofo bastaria ao homem impor para si mesmo a morte biológica Separar portanto mas não como uma disjunção Separar no sentido apontado por Schelling que é o sentido do abandonar o sentido da perda do despojamento É preciso despojarse da dimensão sensível do conhecimento imposta pelo meu corpo Corpo que regula a sua relação com o real através do modo como a sua sensibilidade regulada pelos sentidos é afetada pelas sensações Abandonar a dimensão corporal do conhecimento representada pela relação entre sensibilidadesensação relação que origina o tipo de conhecimento que Platão nomeia de opinião e que se atém a percepção do particular pelo particular implica em abandonar o consabido o lugar do sensocomum o lugar daquilo que é familiar e próximo Nesse sentido a experiência da morte aludida por Schelling e descrita por Platão nos remete para a própria experiência da solidão na qual o homem se encontra desprovido de tudo o que ele considerava conhecido Não há como se apoiar em nada porque nada existe de certo e seguro A solidão representa a dimensão na qual o homem se encontra diante de si mesmo sem que haja o outro para mediar essa relação Na experiência da mortesolidão não existe mediação possível Não existe mais nem o outro os outros homens desde os quais nos é dado compreender o que nós mesmos somos nem o mundo no qual se plasma o significado que nós descobrimos para as coisas que nos circundam mundo que assim nos revela as diferentes dimensões de nossa própria humanidade A experiência da mortesolidão nos revela a nossa condição mais própria qual seja a de sermos sempre como diria Nietzsche um declínio e um ocaso Que tipo de conhecimento provém do corpo O tipo de conhecimento oriundo do corpo é aquele que se mantém preso às sensações a afecção dos cinco sentidos pertencentes ao corpo O conhecimento que assim se mantém preso às sensações às afecções dos sentidos não passa de opiniões doxa à medida que nos dá testemunho apenas das aparências daquilo que aparece para mim Por sua vez a aparência é considerada uma forma deficiente do ser oriunda da sua própria manifestação O tipo de conhecimento que se mantém restrito à dimensão do corpo isto é à dimensão visível sensível é a opinião doxa É o tipo de conhecimento que se restringe à esfera daquilo que é particular se restringe por exemplo à opinião de alguém de um indivíduo singular sobre algo Por conseguinte esse tipo de conhecimento não é de todo confiável à medida que se restringe a apenas um indivíduo particular É o brilho no qual o ser aparece e que por vezes obnubila o espírito Assim muito embora a aparência se encontre intimamente referida ao ser ela possui o dom de iludir de dissimular o que se mostra através do seu brilho Por isso em grego a palavra dóxa diz tanto a opinião gerada pela aparência pelo modo como algo aparece para alguém como glória a fama que mantém algo ou alguém em evidência A aparência expressa a fugacidade do brilho que ilude e dissimula Pelo dom que possui de velar e dissimular o que é trazido à presença pelo seu brilho a aparência dissimula a si mesma como aparência conduzindo àqueles que se mantém sob o seu jugo ao erro Pois bem o erro se dá em função da mistura que se verifica no saber trazido pelo corpo Mistura de ser e nãoser que se mostra à medida em que a aparência na qual se mostra o ser implica necessariamente na dissimulação desse mesmo ser Ou seja o homem que confia no saber trazido pelos sentidos isto é pelo corpo tende a se prender às sensações provocadas por essas aparências e ao se manter preso às aparências o homem acaba por esquecer do ser que se mostra em latência nessa mesma aparência HEIDEGGER 1978 p 135 Mas quais são as propriedades do corpo O corpo é mortal é passível de sofrer mudanças sendo presa do movimento É corruptível encontra se no gênero das coisas visíveis Deixase afetar pela multiplicidade à medida que pertence à essa mesma multiplicidade E alma Que tipo de conhecimento ela é capaz de apreender A alma se reporta àquilo que existe de imortal que se encontra fora do tempo A alma se aproxima daquilo que existe de divino Sendo assim o conhecimento que dela provém é imutável e diz respeito à dimensão oposta a do corpo A alma é o princípio permanente da vida a alma é um correlato das ideias que é inteligível Platão nos mostra por analogia que a alma deve possuir alguma coisa de imortal e de divina de indissolúvel e de imutável algo de único em sua natureza Mas a imortalidade pertence aos deuses a indissolubilidade a imutabilidade e a unicidade são propriedade das ideias ora a nossa alma individual não é nem deus nem ideia nenhuma dessas características de nossa alma se encontram unidas à alma enquanto almaRobin 1952 p34 O conhecimento próprio da alma é o oriundo do intelecto nous conhecimento intuitivo cujo fim último é a apreensão das essências ideais o eidos a forma a ideia Conhecimento puro sem mistura de elementos empíricos impermanentes e ontologicamente imperfeitos REVISÃO A Filosofia nada mais é do que o exercício para a morte A morte é a separação entre o corpo e a alma Mas como entender a alma A alma pertence ao gênero das coisas invisíveis e idênticas a si mesmas A alma pertence ao gênero daquilo que é puro A alma é imortal A alma é imutável não se deixa afetar pela multiplicidade e o movimento do real A alma préexiste ao corpo A alma se mantém em si mesma após a sua separação do corpo A relação entre o corpo e a alma se mostra como uma relação entre contrários uma vez que a característica primeira do corpo é a mortalidade e a da alma a imortalidade Existe uma relação de solidariedade entre esses contrários veja o exemplo da relação entre o prazer e a dor apresentada no prólogo do diálogo E mais o corpo é apresentado como algo que é próprio dos mortais enquanto a alma se mostra como algo de divino à medida que é imortal Ora se a relação que se mostra entre os homens os mortais e a divindade os deuses imortais é a de servidão ou seja aos mortais cabe servir aos deuses os deuses são os mestres dos homens 22 A REPÚBLICA ESTUDOS DO LIVRO VII VI E X INVESTIGANDO A QUESTÃO DA MÍMESIS ATRAVÉS DO EXAME DA QUESTÃO ONTOLÓGICA EM PLATÃO Tratase agora de compreender o pensamento de Platão a partir do estudo e confronto da alegoria da caverna livro VII da República com a alegoria da linha dividida livro VI da República O que está em jogo para nós nesse seguimento é compreender o modo como Platão concebe as relações entre o corpo o sensível e a alma o inteligível Através do estudo comparado das duas alegorias objetivamos explicitar o sentido da Filosofia para Platão A Filosofia para Platão que se tornou modelo para o pensamento metafísico como vimos no Diálogo Fédon surge como o exercício de preparação para a morte Por sua vez a morte em que o aspirante à Filosofia deverá exercitarse é definida por Sócrates como a separação entre corpo e alma O que os interessa é precisamente compreender o sentido mais radical que pode assumir essa separação no pensamento de Platão visando explicitar o percurso percorrido pelo Filósofo O Saiba mais Platão quer no livro VI quer no Livro VII da sua República não constrói um mito como comumente encontramos nas traduções em português A palavra utilizada por Platão é Alegoria A palavra mito significa uma força numinosa uma força de manifestação divina Pronunciála implica num favor da divindade A palavra que é assim pronunciada revelada é o mito A palavra revelada o mito enquanto força numinosa diz a experiência desde a qual o próprio deus se manifesta Por sua vez a palavra alegoria significa etimologicamente dizer outra coisa é uma ficção que representa um objeto para dar ideia de outro ou mais profundamente um processo mental que consiste em simbolizar como ser divino humano ou animal uma ação ou qualidade Ou seja a alegoria é uma espécie de máscara aplicada pelo autor à ideia que se propõe explicar Brandão 1985 p 35 e 31 motivo de elegermos as alegorias da caverna e da linha é porque o que está sendo discutido nelas é precisa e respectivamente a formação da alma do filósofo e as etapas que a sua alma deve cumprir em direção ao Bem O bem não significa aqui o moralmente ordenado mas o que é como deve ser que produz e pode produzir aquilo que é devido O agathon constitui o normativo como tal aquilo que confere ao ser a faculdade de vigir e vigorar como ideia como modelo O que confere tal faculdade é o que faculta em sentido originário Enquanto porém as ideias constituem o ser a ousia a idea tou agathou a ideia suprema está além e acima do ser A ideia suprema é o exemplar originário de todos os exemplares HEIDEGGER 1978 p 215 O bem para Platão é em primeiro lugar e com mais evidência a finalidade ou o alvo da vida o objeto supremo de todo o desígnio e toda aspiração Em segundo lugar e mais surpreendentemente é a condição do conhecimento o que torna o mundo inteligível e o espírito inteligente Em terceiro último e mais importante lugar é causa criadora que sustenta todo o mundo e tudo o que ele contém aquilo que dá a tudo mais a sua própria existência RAVEN 1990 p245 221 ALEGORIA DA CAVERNA A alegoria da caverna encontrase no Livro VII da República livro que se revela como um verdadeiro tratado sobre a educação formaçãopaidéia pela qual deverá passar o homem que será o governante da cidade ideal criada por Platão qual seja o filósofo Ora essa alegoria narra a situação de homens que estão amarrados a uma parede no interior de uma caverna Assim eles se encontram desde o nascimento sendo o interior da caverna a única realidade conhecida por estes homens Por detrás da parede a qual se encontram presos encontrase uma passarela pela qual desfilam homens que sobre a cabeça carregam uma série de objetos Por detrás desses homens num monte mais elevado brilha uma fogueira Ora a luz do fogo que se expande dessa fogueira ilumina os objetos que são transportados por esses homens projetando na parede que se estende diante dos prisioneiros uma série de sombras httpwwwestudopraticocombrmitodacavernadeplatao Acesso em 09 de abril de 2015 Até que não sabemos bem porque esse homem é libertado e levado para fora No lado de fora da caverna lhe é dado então ver com nitidez a verdade a sua verdade lhe é dado contemplar as essências eternas Contudo não é dado a esse prisioneiro a possibilidade de permanecer É necessário que ele volte que retorne à sua antiga habitação Mas ele retorna modificado Sabedor da verdade o antigo prisioneiro precisa convencer os seus antigos companheiros da ilusão na qual esses se encontram mergulhados Acomodados na familiaridade da caverna os prisioneiros não lhe darão ouvidos Para se fazer reconhecer o nosso homem deverá se lançar numa disputa na qual estarão se confrontando a verdade o ser e a ilusão gerada por uma aparência de verdade o nãoser nessa disputa nesse ágon ele poderá até mesmo perecer Ora esse retorno de que nos fala Platão é aquele no qual a alma tornase plena de si mesma no qual a alma reconquista para si os seus limites De maneiras diversas Platão e Homero nos falam de um tipo de saber especial no qual é dado ao homem contemplar a sua verdade mais própria Verdade que sempre o transcende e que só se deixa apreender num movimento de busca de retorno sobre si mesmo Movimento no qual o homem compreende o seu limite ao se confrontar com o sagrado seja na forma dos deuses seja na forma das ideias Sagrado que se resguarda na linguagem tanto na de Platão quanto na de Homero 22 2 ALEGORIA DA LINHA DIVIDIDA No livro VI da República Platão descreve na sua alegoria da linha dividida as etapas percorridas pela alma em seu processo de conhecimento da ideia suprema do Bem A imagem da linha pode ser assim representada Espécie inteligível Espécie visível BEM Inteligência Filosofia Entendimento razão discursiva Fé crença Suposiçãoilusão noesis dianóia pistis eikasia OPERAÇÕES DA ALMA E OS SEUS OBJETOS DENTRO DA ESPÉCIE INTELIGÍVEL Inteligência razão intuitiva área da Filosofia Princípio seu objeto é a Ideia suprema do Bem Entendimento razão discursiva Hipóteses os seus objetos são o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 c OPERAÇÕES DA ALMA E SEUS OBJETOS DENTRO DA ESPÉCIE VISÍVEL Fé crença os seus objetos são Seres vivos zoa e artefatos abrange nós seres vivos e a todas as plantas e toda espécie de artefatos Rep VI 510 a Suposição ilusão seus objetos são Imagens eikons ou sombras Chamo de imagens em primeiro lugar às sombras seguidamente os reflexos nas águas e àqueles que se formam em todos os corpos compactos lisos e brilhantes e a tudo o que for do mesmo gênero Rep VI 510 a Comparando as duas alegorias temos a seguinte representação httpcuidardoserwebnodecombrnewsotecnomitodacaverna Acesso em 09 de abril de 2015 Descrição das operações da alma dentro da espécie inteligível ou o exterior da caverna O entendimento se serve do raciocínio científico que se serve das figuras sensíveis É o nosso prisioneiro tentando se acostumar com a nova realidade expressa pelo exterior da caverna É quando ele olha primeiro para os reflexos das coisas nas águas O entendimento é próprio das ciências que se ocupam da geometria da aritmética e ciências desse gênero Rep VI 510 c Ciências cujos princípios são hipóteses os que as estudam são forçados a fazêlo pelo pensamento e não pelos sentidos no entanto pelo fato de as examinarem sem subir até o princípio mas a partir de hipóteses parecete que não tem inteligência desses fatos embora eles sejam inteligíveis como um primeiro princípio Pareceme que chamas entendimento e não inteligência o modo de pensar dos geômetras e de outros cientistas como se o entendimento fosse algo de intermédio entre a opinião e a inteligência Rep VI 511 d e de pontos de apoio para ir àquilo que não admite hipóteses que é o princípio de tudo atingindo o qual desce fixandose em todas as consequências que daí decorrem até chegarem à conclusão sem se servir em nada de qualquer dado sensível mas passando das ideias umas das outras e terminando em ideias Rep 511 b c O entendimento se serve de figuras visíveis triângulos retângulos etc que são abstraídos das coisas cotidianas por exemplo dizse que o triângulo nasceu de uma pequena estaca de madeira que era fixada no solo e que servia para marcar o movimento do sol e dessa forma dividir em diferentes partes o dia Da projeção da sombra dessa estaca descobriuse o ângulo reto e com ele a figura do triângulo O entendimento se serve de figuras visíveis e estabelece acerca delas os seus raciocínios sem contudo pensarem neles mas naquilo com que se parecem fazem os seus raciocínios por causa do quadrado em si ou da diagonal em si mas não daquela cuja imagem troçaram e do mesmo modo quanto às restantes figuras Aquilo que eles modelam ou desenham de que existem as sombras e os reflexos na água servemse disso como se fossem imagens procurando ver o que não pode avistarse senão pelo pensamento Rep VI 510 e Ou seja O entendimento nas hipóteses utiliza como imagens os próprios originais zoa dos quais eram feitas as imagens pelos objetos da secção inferior pois esses também em comparação com as sombras eram considerados e apreciados como mais claros Rep VI 511 d Por outro lado a Inteligência opera através da dialética É o nosso prisioneiro olhando para as coisas mesmas O método da dialética é o único que procede por meio da destruição das hipóteses a caminho do autêntico princípio a fim de tornar seguros os seus resultados e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e elevaos às alturas utilizando como auxiliares para ajudar a conduzilos as artes que analisamos Rep 533 c d Isto acontece quando a inteligência nous dispensa as hipóteses que compunham o outro patamar da linha no caso o entendimento que lançava mão de hipóteses fazendo o seu caminho somente com o auxílio das ideias Podemos comparar esse ponto da descrição da linha com o episódio da Alegoria da caverna no qual o nosso prisioneiro olha diretamente para o sol httpcuidardoserwebnodecombrnewsotecnomitodacaverna Acesso em 09 de abril de 2015 A luz para Platão representada quer pela fogueira dentro da caverna quer pela imagem do sol que brilha no seu exterior expressa dentro do raciocínio apresentado tanto no Livro VI quanto no Livro VII da sua República o princípio de inteligibilidade nos remetendo para a ideia do bem que na alegoria da linha dividida é o objeto buscado pela Filosofia Ao compararmos as duas alegorias podese observar que na alegoria da caverna as sombras mostram o movimento ambíguo de resistência e de entrega a esse princípio supremo de inteligibilidade ou seja ao bem Isso porque esse primeiro episódio da alegoria da caverna de Platão que corresponde aos segmentos mais afastados da sua linha imaginada pertence ao âmbito da doxa da aparência e da opinião As sombras pertencem a esse domínio da ilusão e da dissimulação próprio da doxa As sombras dos objetos se mantêm assim na ambiguidade da aparência dissimulando a si mesmas como sombra A imagem do interior da caverna retrata a nossa condição de eternos prisioneiros do visível que para Platão é tudo aquilo que diz respeito ao corpo Somos eternos prisioneiros do nosso corpo do corpo do mundo Corpo que nos entorpece e que nos faz esquecer daquilo que existe de mais nobre e elevado ou seja que nos faz esquecer desde onde o visível ganha a sua visibilidade Por outro lado o exterior da caverna que corresponderia ao segmento mais elevado da sua alegoria da linha dividida revela a dimensão mais própria da ciência e da inteligência experimentada pelo homem liberto que para Platão se afigura como o Filósofo O exterior da caverna é o domínio da ciência e da sabedoria e somente poucos podem alcançálo Ao sobrepormos as duas alegorias percebemos que a primeira a alegoria da caverna utiliza do elemento dramático para permitir uma maior visualização por parte do leitorespectador do fenômeno descrito por Sócrates Os prisioneiros somos nós homens do cotidiano O interior da caverna é o modo mais imediato com o qual nos havemos no mundo modo passivo modo dos dominados pelas ilusões e facilidades com os quais nos vemos presos no roldão do nosso diaadia httpsdesafiointfileswordpresscom201411107342208767800890339654092821592743980916npng Acesso em 09 de abril de 2015 Por outro lado a alegoria da linha dividida procura descarnar a imagem criada na alegoria da caverna de modo a nos deixar ver nua e crua a realidade na qual já desde sempre nos encontramos Realidade de sombras e de imagens império das aparências Realidade ilusória da qual devemos nos libertar para podermos alcançar o segundo segmento da linha no qual se encontra a verdadeira realidade no qual se pode vislumbrar a ideia suprema do bem O bem é tratado dentro do Livro VI da República através da alegoria do sol Isto porque não é possível definir o bem já que ele não é uma essência muito embora todas as essências dele derivem Diante da impossibilidade de definir o bem Platão através de Sócrates assume essa impossibilidade e se propõe a falar do filho do bem ou seja do sol Ele nos fala que assim como na dimensão sensível é o sol que ilumina e confere visibilidade a tudo que existe sem contudo se esgotar em nada que ele ilumina igualmente o bem deve conferir inteligibilidade a tudo o que existe sem ser confundido com nada a que ele confere inteligibilidade Por isso é que na alegoria da caverna não é dado ao prisioneiro liberto ficar para sempre fora da caverna tampouco olhar de imediato para o sol É necessário apenas vislumbrar o sol o bem e retornar para a caverna afim de convencer os seus antigos companheiros de que no interior da caverna vigora apenas a ilusão 223 A questão da educação a Paidéia e a crítica de Platão aos poetas análise do livro Livro X da República0000 httpsaempreendedoracombrulissesoheroigregodehomeroodisseia Acesso em 09 de abril de 2019 2231 CONTEXTUALIZANDO A DISCUSSÃO A PAIDÉIA E OS POETAS Algumas vezes traduzse o termo paideia como civilização cultura contudo o sentido mais próximo da significação originária do termo grego é o de formação e mais ainda formação da criança porquanto etimologicamente o vocábulo paideía deriva em grego da palavra paîs paídos cujo significado era justamente criança isso significa que nos primórdios a paideía era pensada pelos gregos como uma atividade que diz respeito essencialmente à puericultura O sentido de paidéia se aproxima por exemplo do título do poema de Homero Odisseia Tanto um quanto outro nos falam do percurso de formação de algo Ou seja o termo Odisseia significa mais propriamente o percurso formativo de Odisseu A Odisseia nos conta as aventuras de Odisseu herói grego que após participação ativa na Guerra Tróia procura retornar para casa Retorno que leva 20 anos devido à ira de duas divindades o deus Poseidon senhor do mar e o deus Hélios o deus Sol A ira de Poseidon se deve ao fato de Odisseu ter cegado o seu filho o ciclope Polifemo httpsjoaopoetadobrasilfileswordpresscom200809odisseia02jpg Acesso em 09 de abril de 2019 Contudo a ira de Hélios não recai propriamente sobre Odisseu mas visa os seus nautas que mesmo sendo advertidos devoram o rebanho de ovelhas dessa divindade httpwwwlivrosdigitaiscomhomeroodisseia85 Acesso em 09 de abril de 2019 Jogado de um lado para o outro contraindo tanto a inimizade quanto a amizade dos deuses a amizade da deusa Atená principalmente Odisseu representa o mito do retorno o mito da nostalgia pelo lar A Odisseia é o relato do percurso de saída e de retorno do guerreiro para a sua terra natal Ítaca terra que representa aquilo a que Odisseu pertence essencialmente Ousaremos mesmo dizer que no poema homérico Ítaca representa a alma de Odisseu Para o grego a alma representa o princípio do movimento A psyche homérica estava intimamente ligada ao movimento pelo fato de a sua partida transformar o agregado de membros animados que era o corpo do herói numa soma ou cadáver sem movimentoPETERS 1974 p199 Dessa mesma forma Ítaca representa o princípio do movimento de Odisseu O princípio é aqui compreendido como arché aquilo que mantém algo em seu ser A existência de Ítaca é que mantém Odisseu referido ao seu ser mais próprio Sem Ítaca Odisseu sucumbiria aos apelos da ninfa Calipso aos ardis da feiticeira Circe aos amores da princesa Nausica Imagens encontradas em wwwlivrosdigitaiscom Acesso em 09 de abril de 2019 Sem Ítaca Odisseu esqueceria da sua história esqueceria do ser mais próprio Esquecimento que equivale à própria morte do herói Ítaca é a alma de Odisseu enquanto aquilo que o mantém no movimento no qual ele vem a ser isso que ele propriamente é Em Ítaca se reúnem o começo e o fim da história de Odisseu se reúnem o passado e o futuro desse herói Como esse ponto de coincidência daquilo que não é mais presente enquanto o passado e daquilo que ainda não é enquanto o futuro atualmente presente para Odisseu Ítaca se mostra no presente do nosso herói como uma ausência Ítaca é a presença de uma ausência Pois bem a Odisseia enquanto nos relata as aventuras de Odisseu na sua tentativa de retorno a sua terra natal se mostra como uma metáfora em que se traduz o percurso de formação da alma do homem grego Contudo essa formação não se confunde com o sentido de pôr ou impor uma forma a algo ou a alguém que a princípio não a possui A formação da alma para o homem grego se faz através do movimento no qual essa mesma alma vem a ser isto que ela propriamente é Não se trata portanto de um movimento vindo de fora mas nasce da própria alma e para essa mesma alma retorna É o percurso no qual o homem grego conquista reconquista para si mesmo o seu limite Por isso quando Odisseu finalmente retorna à Ítaca esse retorno assume a forma de uma disputa no caso a disputa que se estabelece entre Odisseu e os pretendentes de sua esposa Penélope no qual cada um dos competidores deverá provar a sua virtude a sua força de ser de forma a ganhar a mão de Penélope em casamento e junto com ela todo o reino de Ítaca Nessa disputa tanto Odisseu como aquele que efetivamente é o rei de Ítaca quanto os pretendentes que não são os herdeiros de direito do trono devem se confrontar e nesse confronto cada um dos disputantes deve readquirir o limite do seu ser Nessa disputa na qual se tensionam o ser e o nãoser é onde o nosso herói reconquista o seu mundo o seu cosmos Nessa disputa é onde Odisseu efetivamente completa a sua Odisseia wwwlivrosdigitaiscom Acesso em 09 de abril de 2019 Retomando agora o tema desse encontro teríamos que o termo Paidéia significa o que é próprio da criança ou melhor o percurso de formação da criança O fato de termos começado a tratar da Paidéia através da Odisseia se explica não apenas pela terminação desses termos terminação que nos remete para o sentido de formação como também se legitima pelo fato de o percurso de formação da criança a que alude o termo Paidéia ser tarefa do poeta Ou seja essa formação na Grécia arcaica era confiada à palavra do poeta sendo Homero um dos maiores poetas desse período e os seus dois poemas A Ilíada e a Odisseia o lugar de resguardo da história desse povo Observando esse último dado constatamos que a poesia na Grécia constituía um fenômeno social muito mais complexo do que é a poesia nos dias de hoje na medida em que no contexto da cidade grega antiga a palavra poética dispunha de um inequívoco caráter didático ético comunitário e mesmo sapiencial funcionado como o instrumento fundamental de formação e educação do povo nas mais diferentes áreas Penelope Murray em seu livro sobre a poesia em Platão Plato on Poetry chama a nossa atenção para esse fato considerandoo como um elemento essencial para se compreender melhor a crítica platônica à poesia no interior da República Em suas palavras é importante lembrar antes de tudo que a poesia na época de Platão não era simplesmente um interesse minoritário favorecido por uns poucos ociosos mas uma característica central na vida da comunidade A educação grega baseavase na mousiké ou seja em todas as artes presididas pelas musas poesia música canto e dança O inglês não tem equivalente para o grego mousiké mas poesia não é uma tradução muito enganosa desde que nos lembremos que para os gregos a poesia era inseparável de seus elementos musicais não devemos pensar em um texto escrito mas sim em uma performance combinando palavras e música Era através da poesia neste amplo sentido que alguém era treinado para se tornar um bom cidadão A poesia sempre foi um meio de comunicação do ensinamento ético na verdade na cultura oral da Grécia antiga ela foi o principal meio pelo qual as ideias de qualquer importância poderiam ser transmitidas A distinção que agora fazemos entre poetas e filósofos morais não é aquele que teria ocorrido a pensadores préplatônicos alguns dos mais influentes daqueles que agora categorizamos como os primeiros filósofos gregos Xenófanes Parmênides e Empédodes escreveram em verso Ora podese dizer que essa dimensão épica e sapiencial da poesia revelase de modo privilegiado nos poemas homéricos fato que levou o helenista norteamericano Eric Havelock em sua obra Prefácio a Platão a sustentar a tese segundo a qual os poemas homéricos não eram literatura no sentido em que nós hoje entendemos esse termo mas uma verdadeira enciclopédia tribal vale dizer um enciclopédia de caráter comunitário na qual os homens gregos da antiguidade hauriam o essencial de seus conhecimentos tanto no plano das normas nómoi e dos costumes éthe quanto nas mais diferentes áreas técnicas estratégia militar navegação medicina agricultura administração doméstica etc Na Grécia Arcaica o poeta era quem deveria formar ou se se quer numa tradução moderna educar a alma do grego Tal educação não pode ser confundida com o que hoje compreendemos por esse termo Não se tratava de uma educação de escola O poeta deveria rememorar no seu canto a própria história do povo grego Nesse período da história da Grécia a escrita ainda não havia surgido nem a escrita nem os conceitos sempre em jogo no pensamento Por conseguinte era necessário evocar a memória O poeta deve dela Memória tornarse servo Por sua vez essa Memória à medida em que deverá dar conta da história dos helenos não pode ser confundida com a memória de um homem no caso o homem Homero A memória que o canto do poeta deverá servir se mostra antes como uma memória histórica da qual todo o povo grego participa ou em termos modernos uma memória coletiva Por transcender a esfera do indivíduo essa memória ganha um cunho mágicoreligioso era portanto uma memória que se situava no âmbito do sagrado Essa função de educador desempenhada pelo poeta era assim uma função eminentemente divina governada por Mnemosyne httpswwwtheoicomTitanTitanisMnemosynehtml Acesso em 09 de abril de 2019 Mnemosyne é a divindade nascida da união de Céu e de Terra É o poder divino de trazer à presença o não presente alethéia ou seja as coisas passadas e futuras como também é capaz de gerar o esquecimento lethé para alívio dos males Segundo o relato de Hesíodo o segundo maior poeta grego do período arcaico séc VIIIVII aC na sua Teogonia Mnemosyne desposada por Zeus durante nove noites consecutivas tornase a mãe das Musas das Palavras Cantadas As Musas são responsáveis pelo poder de presentificação e de dissimulação presentes na palavra do poeta Elas concedem o brilho da presença ou da ausência àquilo que será expresso no seu canto A palavra de Hesíodo é míticopoética httpsbrpinterestcompin415527503113845434 Acesso em 09 de abril de 2022 O mito é a palavra pronunciada plena de presença Para o grego a poesia tem o sentido de produção é a ação de trazer à presença algo que se mostrava oculto HEIDEGGER 1986 p16 A palavra de Hesíodo é assim a palavra que ao ser pronunciada desvela aquilo que se mantinha encoberto oculto Palavra que nos remete para o começo da linguagem Por começo não estamos apenas compreendendo o momento em que algo começa a ser desenvolvendose no decurso do tempo linear O começo é aqui compreendido como arché Ou seja a palavra míticopoética é arcaica à medida que instaura e mantém uma compreensão de mundo em que todo um universo de significados se articula Nesta palavra arcaica não há distância entre o nome e a coisa nomeada Não existe a intermediação de códigos e convenções que ligam o nome àquilo que é nomeado o signo ao significante O nome é o nomeado é a convocação de uma presença Nesta convocação há apenas o homem diante de uma experiência que o transcende e que o faz perceberse nos estreitos limites dos mortais Esta é a experiência do mundo da totalidade de tudo o que é Experiência de transcendência que na compreensão do gregoarcaico emerge como a experiência da divindade Do sobrehumano daquilo que está para fora do limite estreito da individualidade humana e que concomitantemente deste limite evoca a recordação Por isso o momento de pronunciamento da palavra mítica se converte num acontecimento mágicoreligioso que deve ser presidido por uma divindade A divindade é que deverá ganhar voz no canto do poeta O poeta é intermediário meio no qual se pronunciará e neste pronunciamento será evocado numa rememoração conjunta numa comemoração o feito dos deuses e dos homens Contudo este canto é marcado pela ambiguidade Do mesmo modo que convoca à presença os feitos passados dos homens e dos deuses fazendo com que estes permaneçam no brilho desta presença no brilho de Kleos da Glória nome de uma das nove Musas este mesmo canto que é capaz de gloriar igualmente lança no silêncio do esquecimento os feitos que por serem inefáveis ou nefandos não devem ser trazidos à luz da presença TORRANO 1995 p27 httpprofessorjoaonunesblogspotcom200803cliomusadahistriahtml Aceso em 09 de abril de 2019 Desta forma mais do que uma simples retomada do passado em que este aparece como uma lembrança fugidia do que foi o canto do poeta deverá rememorar o passado no presente de modo que o grego possa decidirse sobre a sua ação futura É esta evocação do passado que permite ao povo grego conservarse no seu ser histórico Assim o poeta além de uma função mágicoreligiosa possui também uma função política Numa sociedade ágrafa como é a Grécia do período de Hesíodo este servo das Musas é quem juntamente com os basileus descendentes diretos dos deuses detém o poder desta verdade histórica que é corroborada pela divindade de Mnemosyne DETIENNE 1989 p68 Pois bem durante séculos é esse servo de Mnemosyne quem deverá formar a alma helênica 2232 A CRÍTICA DE PLATÃO AOS POETAS TRÁGICOS Contudo a evolução da escrita e dos conceitos a descoberta do logos como a instância reveladora do real ocasionando a decadência imposta ao mythos à palavra pronunciada pelo surgimento do pensamento dos fisiólogos ou na compreensão de Nietzsche dos pré socráticos faz com que essa função de educador de formador da alma helênica conferida ao poeta seja posta em questão Os poetas e os mitos são duramente criticados pelos pensadores présocráticos Contudo a crítica mais radical encontra expressão na República de Platão Na crítica à poesia desenvolvida no interior da República Platão se vale de uma categoria filosófica importante que é a categoria de mimesis O termo mimesis como se sabe embora designe de uma maneira geral em Platão a relação entre algo que é real e aquilo que se lhe assemelha dispõe no vocabulário filosófico desse autor de uma certa complexidade semântica e conceitual designando no plano artístico a representação pictórica a encenação ou a dramatização mas também no plano ontológico a relação entre os objetos sensíveis e as ideias e até mesmo no campo da linguagem a relação das palavras com a realidade O termo mimesis em Platão é assim um termo filosoficamente polivalente Seja como for Platão na República critica duramente Homero e acusa em sua poesia um caráter pernicioso De fato representando os deuses e os heróis de forma moralmente problemática essa poesia se mostra como um perigo na formação das crianças que por não saberem discernir entre o real e o imaginário acabariam tomando a fantasia por verdade Poesia que segundo Platão não traduz o que existe de verdadeiro no real se mostrando uma imitação desbotada da verdade por se encontrar três pontos dela afastada à medida em que se faz a imitação em palavras da imitação das coisas que compõem o real que por sua vez se mostram como uma imitação das essências ideais Por favor observem as representações abaixo httphotelminhocomptquartos Acesso em 09 de abril de 2019 O que nos é dado observar é uma cama de madeira fabricada por um artesão e a mesma cama pintada por Van Gogh e ainda a cama se mostrando como palavra poética no verso de Chico Buarque Pois bem a crítica de Platão incide precisamente sobre o processo de mímesis de imitação utilizado seja pelo artesão seja pelo pintor ou poeta Contudo ao retomarmos a alegoria da linha teríamos que tanto o poeta que ao transpor a cama de seu caráter material para a dimensão da linguagem no caso linguagem figurada já que a cama no verso acima se refere ao caráter promíscuo da Ana de Amsterdam quanto o pintor que ao pintar transpõe a cama para a dimensão de uma imagem produzida pela cor se Da cama fulana sacana sou Ana de Amsterdam Verso de Chico Buarque de Holanda encontrariam na dimensão da linha representada pelas sombras imagens e reflexos Por outro lado a cama produzida artesanalmente que estaria copiando a cama inteligível se encontraria para Platão na dimensão da linha na qual se encontram os seres vivos e artefatos produzidos pelo homem Neste sentido o poeta e o pintor se encontrariam três pontos afastados da verdadeira realidade porque se encontrariam na dimensão da Suposição ilusão já que a produção seja do poeta seja do pintor se restringe à criação de Imagens eikons ou sombras Chamo de imagens em primeiro lugar às sombras seguidamente os reflexos nas águas e àqueles que se formam em todos os corpos compactos lisos e brilhantes e a tudo o que for do mesmo gênero Rep VI 510 a Por outro lado a cama fabricada pelo artesão se encontra na dimensão da linha representada pela Fé crença que abrange a nós seres vivos e a todas as plantas e toda espécie de artefatos Rep VI 510 a Contudo quando o artesão produz a cama ele de fato imita se baseia copia relações que se encontram na dimensão da linha ocupada pelo Entendimento cujo objeto são o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 a Isto porque para cortar a madeira de forma a produzir a cama ele deverá se apoiar em relações matemáticas comprimento largura etc Desta forma o artesão estaria mais próximo da verdadeira realidade já que ele busca imitar relações matemáticas que deverão dar origem ao artefato cama do que o poeta ou o pintor que imitam em suas imagens e palavras a dimensão da linha na qual se encontram os seres vivos e artefatos Ou seja ao imitar os seres vivos e artefatos os poetas e pintores dão origem a imagens e reflexos Segundo Platão a educação da alma deve ser confiada àquele que for capaz de contemplar a ideia suprema do bem que deverá ser através de uma razão intuitiva Ou seja a educação deve ser conferida ao filósofo devendo o poeta enquanto um imitador que dá origem às imagens como também a sombras e reflexos que imitam os seres vivos e artefatos ser expulso da cidade por ele Platão idealizada Porém é preciso dar a essa crítica a sua real dimensão O ataque de Platão a Homero se põe muitos e muitos séculos depois da morte desse poeta ou seja a crítica de Platão incide mais precisamente sobre o caráter decadente com que a poesia estava sendo cultivada em sua época Há muito a poesia havia perdido o seu caráter mágicoreligioso se tornando nessa época de Platão apenas um relato da origem da história do povo grego Relato que assume a forma da Tragédia nas quais o mito antes experienciado no canto do poetacantor e comemorado nos rituais celebrados nos templos é representado imitado pelos atores os hipokritai no palco de um teatro A crítica de Platão incide no caráter meramente imitativo que a poesia assume dentro da Tragédia pois se Platão de fato expulsasse da sua República todos os poetas a sua própria entrada estaria interditada já que ele Platão foi um dos maiores poetas da Grécia Antiga Isso se deixa facilmente depreender pela estrutura da sua obra escrita na forma de diálogos nos quais procura rememorar as conversas de Sócrates tornado por ele Platão um personagem conversas nas quais esse conduz os homens à compreensão da verdade Diálogos refeitos de mitos e alegorias refeitos de poesia Talvez pudéssemos dizer que a crítica de Platão à poesia quer dar a essa mesma poesia uma dimensão mais originária Dimensão que faz dela um modo de saber de saborear o real Poesia que assim redimensionada renasce como filosofia Por isso Platão ao nos relatar na forma de uma alegoria o percurso da formação da alma filosófica a formação da alma daquele que deverá ser o responsável pela educação do homem grego pode lançar mão de uma das mais belas imagens poéticas sem medo de parecer contraditório Ora essa alegoria narra as aventuras e desventuras pelas quais passa o homem sai do interior da caverna na qual ele é mantido prisioneiro Caverna na qual ele se encontra desde sempre sendo a única realidade que ele conhece Até que não sabemos bem porque esse homem é libertado não sabemos porque ele é levado para fora No lado de fora da caverna lhe é dado então ver com nitidez a verdade a sua verdade lhe é dado contemplar as essências eternas Contudo não é dado a esse prisioneiro aí permanecer É necessário que ele volte que ele retorne à sua antiga habitação Mas ele retorna modificado Sabedor da verdade ele precisa convencer os seus antigos companheiros da ilusão na qual esses se encontram mergulhados Acomodados na familiaridade da caverna os prisioneiros não lhe darão ouvidos Para se fazer reconhecer o nosso homem deverá se lançar numa disputa onde estarão se confrontando a verdade o ser e a ilusão gerada por uma aparência de verdade o nãoser nessa disputa nesse agon ele poderá até mesmo perecer Ora esse retorno que é narrado por Platão é aquele no qual a alma tornase plena de si mesma no qual a alma reconquista para si os seus limites De maneiras diversas Platão e Homero nos falam de um tipo de saber especial no qual é dado ao homem contemplar a sua verdade mais própria Verdade que sempre o transcende e que só se deixa apreender num movimento de busca de retorno sobre si mesmo Movimento no qual o homem compreende o seu limite ao se confrontar com o sagrado seja na forma dos deuses seja na forma das ideias Sagrado que se resguarda na linguagem tanto na de Platão quanto na de Homero REFERÊNCIAS ABBAGNANO Nicola Dicionário de Filosofia Tradução Alfredo Bosi 2ª ed São Paulo Martins Fontes 1998 DETIENNE M Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica Tradução de Andréa Daher Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor 1989 PLATÃO Fédon in Coleção os Pensadores São Paulo Editora Abril cultural 1973 A República Lisboa Editora Calouste Gulbenkian 1987 Carta Sétima Pará Editora Universidade do Pará 1975 HEIDEGGER M Ser e Verdade 1 A questão fundamental da filosofia 2 Da essência da verdade Petrópolis Editora Vozes 2007 Introdução à Metafísica Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1978 p 215 HEIDEGGER M La Question de la Technique in Essais et Conférences Tradução de André Préau Paris Gallimard 1986 p16 A Teoria Platônica da Verdade in Marcas do Caminho Petrópolis Vozes 2008 Que é isto A Filosofia São Paulo Editora Abril 1973 A Palavra in A caminho da linguagem Tradução de Márcia de Sá Cavalcante Schuback Petrópolis Vozes 2003 PETERS F E Termos Filosóficos Gregos Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1974 RILKE Rainer Maria Cartas a um Jovem Poeta Rio de Janeiro Editora Globo 1986 TORRANO JAA A Imagem da Caverna na República de Platão o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 c Ver em http wwwpaideumacjbnet acessado em 03042004 O Mundo como Função de Musas in Hesíodo Teogonia Tradução e Prefácio de Jaa Torrano São Paulo Iluminuras 1995 ROBIN L Notice sur le Phédon Paris Belles Lettres 1952 KIRK R Os Filósofos Présocráticos São Paulo Calouste Gulbenkian 1990

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

1

Teogonia e Trabalhos e Dias - Hesiodo - Martiniclairet

Filosofia

UFSJ

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

22

Aristóteles-Tragédia-e-Poética-Análise-da-Filosofia-e-Arte

Filosofia

UFSJ

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

3

Introducao-a-Historia-da-Filosofia-Contemporanea-Idealismo-Alemao-e-Hegel

Filosofia

UFSJ

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

9

Trabalho da Disciplina de Filosofia da Linguagem

Filosofia

UFSJ

Subjetividade e Intencionalidade-Fenomenologia-Husserl-Jaspers-Wittgenstein

46

Subjetividade e Intencionalidade-Fenomenologia-Husserl-Jaspers-Wittgenstein

Filosofia

UFSJ

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

27

Idealismo Hegeliano e Seus Críticos - Marx Kierkegaard Nietzsche

Filosofia

UFSJ

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

39

Filosofia-Uma-Introducao-por-Disciplinas-Resumo-e-Analise

Filosofia

UFSJ

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

168

Estetica-Filosofia-UFSC-Livro-Completo

Filosofia

UFSJ

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

53

A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia - Edmund Husserl - Tradução Completa

Filosofia

UFSJ

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

7

Atividade para Disciplina de Historia da Filosofia

Filosofia

UFSJ

Texto de pré-visualização

UNIDADE 2 PLATÃO E A MÍMESIS Sempre tomando como base o Caderno de Estudos Estética da professora Cláudia Drucker esta unidade objetiva aprofundar e sistematizar as questões apresentadas no Capítulo 2 intitulado Platão e a Mímesis que integra o Caderno supracitado Esta unidade tem como principal objetivo introduzir o discente nas especulações do pensamento de Platão sobre o belo e arte Ao final de seus estudos você deverá ser capaz de Situar a discussão promovida por Platão em torno da questão da arte e do lugar que ela ocupa em relação à Filosofia Compreender a noção de mímesis em Platão através da compreensão da sua teoria da participação notadamente através da análise da alegoria da linha e da alegoria da caverna nos Livros VI e VII da República Compreender tomando como base a compreensão que Platão tem de mímesis a crítica que Platão faz aos poetas no livro X da República Compreender o que é o belo em Platão De família nobre Platão nasceu aproximadamente em 427 a C e faleceu em 347 aC Sua obra foi escrita na forma de Diálogos e também nos restou um conjunto de cartas O principal personagem da maioria de seus Diálogos foi Sócrates de quem foi aluno Fundou a sua Academia em Atenas e permaneceu como seu líder até a sua morte Imagem retirada de httpplatoifuspbr12003fmt0405dhelenplataojpg Acesso em 23 de setembro de 2013 21 O QUE É FILOSOFIA PARA PLATÃO RETOMANDO QUESTÕES FUNDAMENTAIS DO FÉDON O pensamento de Platão é decisivo para a compreensão dos rumos que o pensamento metafísico tomou ao longo da tradição do pensamento ocidental É com os seus textos que em sua maioria assumem a forma de diálogos nos quais o seu principal personagem é Sócrates Daí o seu método ser denominado de dialética dia através por meio de logos palavra razão O método da dialética é o único que procede por meio da destruição das hipóteses a caminho do autêntico princípio a fim de tornar seguros os seus resultados e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e elevaos às alturas utilizando como auxiliares para ajudar a conduzilos as artes que analisamos Rep 533 c d A Filosofia é para esse autor o fruto desse tipo de método que visa sobretudo a discernir os tipos de conhecimentos próprios do homem quais sejam aqueles pertencentes ao corpo conhecimento sensível que gera sempre uma opinião sobre alguma coisa e o inteligível que tem por objeto as ideias imutáveis Para entendermos esse ponto que envolve a diferenciação entre conhecimento sensível e conhecimento inteligível devemos compreender melhor antes de mais nada a posição ontológica que os diálogos platônicos buscam fundamentar filosoficamente posição ontológica que preconiza que o verdadeiro ser das coisas é em última análise a essência ousía Mas poderíamos nos perguntar o que é afinal de contas a essência segundo Platão Ora se vamos aos diálogos a fim de compreender de uma forma mais adequada essa questão notamos que nos diálogos a essência é compreendida como aquele princípio ontológico responsável por determinar o que algo realmente é Isso significa que no contexto da filosofia platônica a essência portanto consiste naquilo que define a natureza mesma phýsis do ente Nesse sentido é a essência que faz p ex que tal objeto seja uma árvore e não um cão Pois bem Platão determina a essência assim compreendida como uma forma eidos idéa isto é como um princípio de configuração interna ou estrutural que é responsável pela delimitação ontológica do ente ou objeto Sendo o princípio responsável pela configuração interna ou estrutural dos entes ou seja sendo o princípio responsável pelo fato dos entes serem o que são a essência ou forma é segundo a compreensão platônica necessariamente imutável conservandose idêntica apesar da multiplicidade e da mutabilidade dos indivíduos que dela funcionam como instâncias pensese no caso da espécie humana ou da ideia de homem que é a mesma em todos os indivíduos e que não é nem alterada quando estes se modificam nem destruída quando estes se extinguem Caso as essências ou formas mudassem ou pudessem ser destruídas como acontece com as coisas que percebemos no âmbito da experiência nenhum ente poderia ser indicado como isto ou aquilo nenhum ente poderia ser o que é e tudo se reduziria ao mais vertiginoso fenomenismo Há assim para Platão uma clivagem ontológica entre as essências ou formas e os objetos empíricos situados no tempo e no espaço que as exemplificam clivagem que no plano epistemológico origina duas formas de conhecimento o conhecimento inteligível acessado pela razão e o conhecimento sensível acessado pelos sentidos Em seus diálogos ao promover a distinção do que pertence ora ao corpo as opiniões que permanecem presas ao particular ora ao inteligível que pertencem à esfera imutável a qual pertencem os deuses e tudo o que é divino o nosso filósofo acaba por promover o que ele define como filosofia ou seja o exercício de preparação para a morte Em seu diálogo Fédon que retrata o dia anterior à morte de Sócrates Platão apresenta a Filosofia como o exercício de preparação para a morte Contudo mais do que a morte biológica Platão alude a dimensão filosófica da morte Qual seja ela a dimensão da mais profunda coragem Coragem de abandonar a facilidade dos saberes advindos do senso comum que nos impedem de nos interrogarmos sobre o que são as coisas a facilidade das ideias que nos são dadas como prontas e acabadas até mesmo a ideia de deus Segundo Schelling Somente aquele que se quer colocar no ponto instaurador da Filosofia verdadeiramente livre deve abandonar até mesmo deus Isto significa aquele que quer conserválo deve perdêlo e quem se despojar haverá de encontrálo Somente aquele que chegou ao fundo de si mesmo e conheceu toda a profundidade da vida que já tudo abandonou e foi ele mesmo por todos abandonado para quem tudo naufragou e que se viu sozinho com o infinito foi capaz do grande passo que Platão já comparou com a morte SCHELLING F W Essa experiência aludida por Schelling nos remete para o sentido mais radical da experiência da morte para Platão No Fédon a morte é definida por Sócrates como a separação entre o corpo e a alma Separar contudo não no sentido de uma disjunção Como colocar de um lado o corpo e de outro a alma Se fosse assim o argumento do suicídio seria aceito Para ser filósofo bastaria ao homem impor para si mesmo a morte biológica Separar portanto mas não como uma disjunção Separar no sentido apontado por Schelling que é o sentido do abandonar o sentido da perda do despojamento É preciso despojarse da dimensão sensível do conhecimento imposta pelo meu corpo Corpo que regula a sua relação com o real através do modo como a sua sensibilidade regulada pelos sentidos é afetada pelas sensações Abandonar a dimensão corporal do conhecimento representada pela relação entre sensibilidadesensação relação que origina o tipo de conhecimento que Platão nomeia de opinião e que se atém a percepção do particular pelo particular implica em abandonar o consabido o lugar do sensocomum o lugar daquilo que é familiar e próximo Nesse sentido a experiência da morte aludida por Schelling e descrita por Platão nos remete para a própria experiência da solidão na qual o homem se encontra desprovido de tudo o que ele considerava conhecido Não há como se apoiar em nada porque nada existe de certo e seguro A solidão representa a dimensão na qual o homem se encontra diante de si mesmo sem que haja o outro para mediar essa relação Na experiência da mortesolidão não existe mediação possível Não existe mais nem o outro os outros homens desde os quais nos é dado compreender o que nós mesmos somos nem o mundo no qual se plasma o significado que nós descobrimos para as coisas que nos circundam mundo que assim nos revela as diferentes dimensões de nossa própria humanidade A experiência da mortesolidão nos revela a nossa condição mais própria qual seja a de sermos sempre como diria Nietzsche um declínio e um ocaso Que tipo de conhecimento provém do corpo O tipo de conhecimento oriundo do corpo é aquele que se mantém preso às sensações a afecção dos cinco sentidos pertencentes ao corpo O conhecimento que assim se mantém preso às sensações às afecções dos sentidos não passa de opiniões doxa à medida que nos dá testemunho apenas das aparências daquilo que aparece para mim Por sua vez a aparência é considerada uma forma deficiente do ser oriunda da sua própria manifestação O tipo de conhecimento que se mantém restrito à dimensão do corpo isto é à dimensão visível sensível é a opinião doxa É o tipo de conhecimento que se restringe à esfera daquilo que é particular se restringe por exemplo à opinião de alguém de um indivíduo singular sobre algo Por conseguinte esse tipo de conhecimento não é de todo confiável à medida que se restringe a apenas um indivíduo particular É o brilho no qual o ser aparece e que por vezes obnubila o espírito Assim muito embora a aparência se encontre intimamente referida ao ser ela possui o dom de iludir de dissimular o que se mostra através do seu brilho Por isso em grego a palavra dóxa diz tanto a opinião gerada pela aparência pelo modo como algo aparece para alguém como glória a fama que mantém algo ou alguém em evidência A aparência expressa a fugacidade do brilho que ilude e dissimula Pelo dom que possui de velar e dissimular o que é trazido à presença pelo seu brilho a aparência dissimula a si mesma como aparência conduzindo àqueles que se mantém sob o seu jugo ao erro Pois bem o erro se dá em função da mistura que se verifica no saber trazido pelo corpo Mistura de ser e nãoser que se mostra à medida em que a aparência na qual se mostra o ser implica necessariamente na dissimulação desse mesmo ser Ou seja o homem que confia no saber trazido pelos sentidos isto é pelo corpo tende a se prender às sensações provocadas por essas aparências e ao se manter preso às aparências o homem acaba por esquecer do ser que se mostra em latência nessa mesma aparência HEIDEGGER 1978 p 135 Mas quais são as propriedades do corpo O corpo é mortal é passível de sofrer mudanças sendo presa do movimento É corruptível encontra se no gênero das coisas visíveis Deixase afetar pela multiplicidade à medida que pertence à essa mesma multiplicidade E alma Que tipo de conhecimento ela é capaz de apreender A alma se reporta àquilo que existe de imortal que se encontra fora do tempo A alma se aproxima daquilo que existe de divino Sendo assim o conhecimento que dela provém é imutável e diz respeito à dimensão oposta a do corpo A alma é o princípio permanente da vida a alma é um correlato das ideias que é inteligível Platão nos mostra por analogia que a alma deve possuir alguma coisa de imortal e de divina de indissolúvel e de imutável algo de único em sua natureza Mas a imortalidade pertence aos deuses a indissolubilidade a imutabilidade e a unicidade são propriedade das ideias ora a nossa alma individual não é nem deus nem ideia nenhuma dessas características de nossa alma se encontram unidas à alma enquanto almaRobin 1952 p34 O conhecimento próprio da alma é o oriundo do intelecto nous conhecimento intuitivo cujo fim último é a apreensão das essências ideais o eidos a forma a ideia Conhecimento puro sem mistura de elementos empíricos impermanentes e ontologicamente imperfeitos REVISÃO A Filosofia nada mais é do que o exercício para a morte A morte é a separação entre o corpo e a alma Mas como entender a alma A alma pertence ao gênero das coisas invisíveis e idênticas a si mesmas A alma pertence ao gênero daquilo que é puro A alma é imortal A alma é imutável não se deixa afetar pela multiplicidade e o movimento do real A alma préexiste ao corpo A alma se mantém em si mesma após a sua separação do corpo A relação entre o corpo e a alma se mostra como uma relação entre contrários uma vez que a característica primeira do corpo é a mortalidade e a da alma a imortalidade Existe uma relação de solidariedade entre esses contrários veja o exemplo da relação entre o prazer e a dor apresentada no prólogo do diálogo E mais o corpo é apresentado como algo que é próprio dos mortais enquanto a alma se mostra como algo de divino à medida que é imortal Ora se a relação que se mostra entre os homens os mortais e a divindade os deuses imortais é a de servidão ou seja aos mortais cabe servir aos deuses os deuses são os mestres dos homens 22 A REPÚBLICA ESTUDOS DO LIVRO VII VI E X INVESTIGANDO A QUESTÃO DA MÍMESIS ATRAVÉS DO EXAME DA QUESTÃO ONTOLÓGICA EM PLATÃO Tratase agora de compreender o pensamento de Platão a partir do estudo e confronto da alegoria da caverna livro VII da República com a alegoria da linha dividida livro VI da República O que está em jogo para nós nesse seguimento é compreender o modo como Platão concebe as relações entre o corpo o sensível e a alma o inteligível Através do estudo comparado das duas alegorias objetivamos explicitar o sentido da Filosofia para Platão A Filosofia para Platão que se tornou modelo para o pensamento metafísico como vimos no Diálogo Fédon surge como o exercício de preparação para a morte Por sua vez a morte em que o aspirante à Filosofia deverá exercitarse é definida por Sócrates como a separação entre corpo e alma O que os interessa é precisamente compreender o sentido mais radical que pode assumir essa separação no pensamento de Platão visando explicitar o percurso percorrido pelo Filósofo O Saiba mais Platão quer no livro VI quer no Livro VII da sua República não constrói um mito como comumente encontramos nas traduções em português A palavra utilizada por Platão é Alegoria A palavra mito significa uma força numinosa uma força de manifestação divina Pronunciála implica num favor da divindade A palavra que é assim pronunciada revelada é o mito A palavra revelada o mito enquanto força numinosa diz a experiência desde a qual o próprio deus se manifesta Por sua vez a palavra alegoria significa etimologicamente dizer outra coisa é uma ficção que representa um objeto para dar ideia de outro ou mais profundamente um processo mental que consiste em simbolizar como ser divino humano ou animal uma ação ou qualidade Ou seja a alegoria é uma espécie de máscara aplicada pelo autor à ideia que se propõe explicar Brandão 1985 p 35 e 31 motivo de elegermos as alegorias da caverna e da linha é porque o que está sendo discutido nelas é precisa e respectivamente a formação da alma do filósofo e as etapas que a sua alma deve cumprir em direção ao Bem O bem não significa aqui o moralmente ordenado mas o que é como deve ser que produz e pode produzir aquilo que é devido O agathon constitui o normativo como tal aquilo que confere ao ser a faculdade de vigir e vigorar como ideia como modelo O que confere tal faculdade é o que faculta em sentido originário Enquanto porém as ideias constituem o ser a ousia a idea tou agathou a ideia suprema está além e acima do ser A ideia suprema é o exemplar originário de todos os exemplares HEIDEGGER 1978 p 215 O bem para Platão é em primeiro lugar e com mais evidência a finalidade ou o alvo da vida o objeto supremo de todo o desígnio e toda aspiração Em segundo lugar e mais surpreendentemente é a condição do conhecimento o que torna o mundo inteligível e o espírito inteligente Em terceiro último e mais importante lugar é causa criadora que sustenta todo o mundo e tudo o que ele contém aquilo que dá a tudo mais a sua própria existência RAVEN 1990 p245 221 ALEGORIA DA CAVERNA A alegoria da caverna encontrase no Livro VII da República livro que se revela como um verdadeiro tratado sobre a educação formaçãopaidéia pela qual deverá passar o homem que será o governante da cidade ideal criada por Platão qual seja o filósofo Ora essa alegoria narra a situação de homens que estão amarrados a uma parede no interior de uma caverna Assim eles se encontram desde o nascimento sendo o interior da caverna a única realidade conhecida por estes homens Por detrás da parede a qual se encontram presos encontrase uma passarela pela qual desfilam homens que sobre a cabeça carregam uma série de objetos Por detrás desses homens num monte mais elevado brilha uma fogueira Ora a luz do fogo que se expande dessa fogueira ilumina os objetos que são transportados por esses homens projetando na parede que se estende diante dos prisioneiros uma série de sombras httpwwwestudopraticocombrmitodacavernadeplatao Acesso em 09 de abril de 2015 Até que não sabemos bem porque esse homem é libertado e levado para fora No lado de fora da caverna lhe é dado então ver com nitidez a verdade a sua verdade lhe é dado contemplar as essências eternas Contudo não é dado a esse prisioneiro a possibilidade de permanecer É necessário que ele volte que retorne à sua antiga habitação Mas ele retorna modificado Sabedor da verdade o antigo prisioneiro precisa convencer os seus antigos companheiros da ilusão na qual esses se encontram mergulhados Acomodados na familiaridade da caverna os prisioneiros não lhe darão ouvidos Para se fazer reconhecer o nosso homem deverá se lançar numa disputa na qual estarão se confrontando a verdade o ser e a ilusão gerada por uma aparência de verdade o nãoser nessa disputa nesse ágon ele poderá até mesmo perecer Ora esse retorno de que nos fala Platão é aquele no qual a alma tornase plena de si mesma no qual a alma reconquista para si os seus limites De maneiras diversas Platão e Homero nos falam de um tipo de saber especial no qual é dado ao homem contemplar a sua verdade mais própria Verdade que sempre o transcende e que só se deixa apreender num movimento de busca de retorno sobre si mesmo Movimento no qual o homem compreende o seu limite ao se confrontar com o sagrado seja na forma dos deuses seja na forma das ideias Sagrado que se resguarda na linguagem tanto na de Platão quanto na de Homero 22 2 ALEGORIA DA LINHA DIVIDIDA No livro VI da República Platão descreve na sua alegoria da linha dividida as etapas percorridas pela alma em seu processo de conhecimento da ideia suprema do Bem A imagem da linha pode ser assim representada Espécie inteligível Espécie visível BEM Inteligência Filosofia Entendimento razão discursiva Fé crença Suposiçãoilusão noesis dianóia pistis eikasia OPERAÇÕES DA ALMA E OS SEUS OBJETOS DENTRO DA ESPÉCIE INTELIGÍVEL Inteligência razão intuitiva área da Filosofia Princípio seu objeto é a Ideia suprema do Bem Entendimento razão discursiva Hipóteses os seus objetos são o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 c OPERAÇÕES DA ALMA E SEUS OBJETOS DENTRO DA ESPÉCIE VISÍVEL Fé crença os seus objetos são Seres vivos zoa e artefatos abrange nós seres vivos e a todas as plantas e toda espécie de artefatos Rep VI 510 a Suposição ilusão seus objetos são Imagens eikons ou sombras Chamo de imagens em primeiro lugar às sombras seguidamente os reflexos nas águas e àqueles que se formam em todos os corpos compactos lisos e brilhantes e a tudo o que for do mesmo gênero Rep VI 510 a Comparando as duas alegorias temos a seguinte representação httpcuidardoserwebnodecombrnewsotecnomitodacaverna Acesso em 09 de abril de 2015 Descrição das operações da alma dentro da espécie inteligível ou o exterior da caverna O entendimento se serve do raciocínio científico que se serve das figuras sensíveis É o nosso prisioneiro tentando se acostumar com a nova realidade expressa pelo exterior da caverna É quando ele olha primeiro para os reflexos das coisas nas águas O entendimento é próprio das ciências que se ocupam da geometria da aritmética e ciências desse gênero Rep VI 510 c Ciências cujos princípios são hipóteses os que as estudam são forçados a fazêlo pelo pensamento e não pelos sentidos no entanto pelo fato de as examinarem sem subir até o princípio mas a partir de hipóteses parecete que não tem inteligência desses fatos embora eles sejam inteligíveis como um primeiro princípio Pareceme que chamas entendimento e não inteligência o modo de pensar dos geômetras e de outros cientistas como se o entendimento fosse algo de intermédio entre a opinião e a inteligência Rep VI 511 d e de pontos de apoio para ir àquilo que não admite hipóteses que é o princípio de tudo atingindo o qual desce fixandose em todas as consequências que daí decorrem até chegarem à conclusão sem se servir em nada de qualquer dado sensível mas passando das ideias umas das outras e terminando em ideias Rep 511 b c O entendimento se serve de figuras visíveis triângulos retângulos etc que são abstraídos das coisas cotidianas por exemplo dizse que o triângulo nasceu de uma pequena estaca de madeira que era fixada no solo e que servia para marcar o movimento do sol e dessa forma dividir em diferentes partes o dia Da projeção da sombra dessa estaca descobriuse o ângulo reto e com ele a figura do triângulo O entendimento se serve de figuras visíveis e estabelece acerca delas os seus raciocínios sem contudo pensarem neles mas naquilo com que se parecem fazem os seus raciocínios por causa do quadrado em si ou da diagonal em si mas não daquela cuja imagem troçaram e do mesmo modo quanto às restantes figuras Aquilo que eles modelam ou desenham de que existem as sombras e os reflexos na água servemse disso como se fossem imagens procurando ver o que não pode avistarse senão pelo pensamento Rep VI 510 e Ou seja O entendimento nas hipóteses utiliza como imagens os próprios originais zoa dos quais eram feitas as imagens pelos objetos da secção inferior pois esses também em comparação com as sombras eram considerados e apreciados como mais claros Rep VI 511 d Por outro lado a Inteligência opera através da dialética É o nosso prisioneiro olhando para as coisas mesmas O método da dialética é o único que procede por meio da destruição das hipóteses a caminho do autêntico princípio a fim de tornar seguros os seus resultados e que realmente arrasta aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada e elevaos às alturas utilizando como auxiliares para ajudar a conduzilos as artes que analisamos Rep 533 c d Isto acontece quando a inteligência nous dispensa as hipóteses que compunham o outro patamar da linha no caso o entendimento que lançava mão de hipóteses fazendo o seu caminho somente com o auxílio das ideias Podemos comparar esse ponto da descrição da linha com o episódio da Alegoria da caverna no qual o nosso prisioneiro olha diretamente para o sol httpcuidardoserwebnodecombrnewsotecnomitodacaverna Acesso em 09 de abril de 2015 A luz para Platão representada quer pela fogueira dentro da caverna quer pela imagem do sol que brilha no seu exterior expressa dentro do raciocínio apresentado tanto no Livro VI quanto no Livro VII da sua República o princípio de inteligibilidade nos remetendo para a ideia do bem que na alegoria da linha dividida é o objeto buscado pela Filosofia Ao compararmos as duas alegorias podese observar que na alegoria da caverna as sombras mostram o movimento ambíguo de resistência e de entrega a esse princípio supremo de inteligibilidade ou seja ao bem Isso porque esse primeiro episódio da alegoria da caverna de Platão que corresponde aos segmentos mais afastados da sua linha imaginada pertence ao âmbito da doxa da aparência e da opinião As sombras pertencem a esse domínio da ilusão e da dissimulação próprio da doxa As sombras dos objetos se mantêm assim na ambiguidade da aparência dissimulando a si mesmas como sombra A imagem do interior da caverna retrata a nossa condição de eternos prisioneiros do visível que para Platão é tudo aquilo que diz respeito ao corpo Somos eternos prisioneiros do nosso corpo do corpo do mundo Corpo que nos entorpece e que nos faz esquecer daquilo que existe de mais nobre e elevado ou seja que nos faz esquecer desde onde o visível ganha a sua visibilidade Por outro lado o exterior da caverna que corresponderia ao segmento mais elevado da sua alegoria da linha dividida revela a dimensão mais própria da ciência e da inteligência experimentada pelo homem liberto que para Platão se afigura como o Filósofo O exterior da caverna é o domínio da ciência e da sabedoria e somente poucos podem alcançálo Ao sobrepormos as duas alegorias percebemos que a primeira a alegoria da caverna utiliza do elemento dramático para permitir uma maior visualização por parte do leitorespectador do fenômeno descrito por Sócrates Os prisioneiros somos nós homens do cotidiano O interior da caverna é o modo mais imediato com o qual nos havemos no mundo modo passivo modo dos dominados pelas ilusões e facilidades com os quais nos vemos presos no roldão do nosso diaadia httpsdesafiointfileswordpresscom201411107342208767800890339654092821592743980916npng Acesso em 09 de abril de 2015 Por outro lado a alegoria da linha dividida procura descarnar a imagem criada na alegoria da caverna de modo a nos deixar ver nua e crua a realidade na qual já desde sempre nos encontramos Realidade de sombras e de imagens império das aparências Realidade ilusória da qual devemos nos libertar para podermos alcançar o segundo segmento da linha no qual se encontra a verdadeira realidade no qual se pode vislumbrar a ideia suprema do bem O bem é tratado dentro do Livro VI da República através da alegoria do sol Isto porque não é possível definir o bem já que ele não é uma essência muito embora todas as essências dele derivem Diante da impossibilidade de definir o bem Platão através de Sócrates assume essa impossibilidade e se propõe a falar do filho do bem ou seja do sol Ele nos fala que assim como na dimensão sensível é o sol que ilumina e confere visibilidade a tudo que existe sem contudo se esgotar em nada que ele ilumina igualmente o bem deve conferir inteligibilidade a tudo o que existe sem ser confundido com nada a que ele confere inteligibilidade Por isso é que na alegoria da caverna não é dado ao prisioneiro liberto ficar para sempre fora da caverna tampouco olhar de imediato para o sol É necessário apenas vislumbrar o sol o bem e retornar para a caverna afim de convencer os seus antigos companheiros de que no interior da caverna vigora apenas a ilusão 223 A questão da educação a Paidéia e a crítica de Platão aos poetas análise do livro Livro X da República0000 httpsaempreendedoracombrulissesoheroigregodehomeroodisseia Acesso em 09 de abril de 2019 2231 CONTEXTUALIZANDO A DISCUSSÃO A PAIDÉIA E OS POETAS Algumas vezes traduzse o termo paideia como civilização cultura contudo o sentido mais próximo da significação originária do termo grego é o de formação e mais ainda formação da criança porquanto etimologicamente o vocábulo paideía deriva em grego da palavra paîs paídos cujo significado era justamente criança isso significa que nos primórdios a paideía era pensada pelos gregos como uma atividade que diz respeito essencialmente à puericultura O sentido de paidéia se aproxima por exemplo do título do poema de Homero Odisseia Tanto um quanto outro nos falam do percurso de formação de algo Ou seja o termo Odisseia significa mais propriamente o percurso formativo de Odisseu A Odisseia nos conta as aventuras de Odisseu herói grego que após participação ativa na Guerra Tróia procura retornar para casa Retorno que leva 20 anos devido à ira de duas divindades o deus Poseidon senhor do mar e o deus Hélios o deus Sol A ira de Poseidon se deve ao fato de Odisseu ter cegado o seu filho o ciclope Polifemo httpsjoaopoetadobrasilfileswordpresscom200809odisseia02jpg Acesso em 09 de abril de 2019 Contudo a ira de Hélios não recai propriamente sobre Odisseu mas visa os seus nautas que mesmo sendo advertidos devoram o rebanho de ovelhas dessa divindade httpwwwlivrosdigitaiscomhomeroodisseia85 Acesso em 09 de abril de 2019 Jogado de um lado para o outro contraindo tanto a inimizade quanto a amizade dos deuses a amizade da deusa Atená principalmente Odisseu representa o mito do retorno o mito da nostalgia pelo lar A Odisseia é o relato do percurso de saída e de retorno do guerreiro para a sua terra natal Ítaca terra que representa aquilo a que Odisseu pertence essencialmente Ousaremos mesmo dizer que no poema homérico Ítaca representa a alma de Odisseu Para o grego a alma representa o princípio do movimento A psyche homérica estava intimamente ligada ao movimento pelo fato de a sua partida transformar o agregado de membros animados que era o corpo do herói numa soma ou cadáver sem movimentoPETERS 1974 p199 Dessa mesma forma Ítaca representa o princípio do movimento de Odisseu O princípio é aqui compreendido como arché aquilo que mantém algo em seu ser A existência de Ítaca é que mantém Odisseu referido ao seu ser mais próprio Sem Ítaca Odisseu sucumbiria aos apelos da ninfa Calipso aos ardis da feiticeira Circe aos amores da princesa Nausica Imagens encontradas em wwwlivrosdigitaiscom Acesso em 09 de abril de 2019 Sem Ítaca Odisseu esqueceria da sua história esqueceria do ser mais próprio Esquecimento que equivale à própria morte do herói Ítaca é a alma de Odisseu enquanto aquilo que o mantém no movimento no qual ele vem a ser isso que ele propriamente é Em Ítaca se reúnem o começo e o fim da história de Odisseu se reúnem o passado e o futuro desse herói Como esse ponto de coincidência daquilo que não é mais presente enquanto o passado e daquilo que ainda não é enquanto o futuro atualmente presente para Odisseu Ítaca se mostra no presente do nosso herói como uma ausência Ítaca é a presença de uma ausência Pois bem a Odisseia enquanto nos relata as aventuras de Odisseu na sua tentativa de retorno a sua terra natal se mostra como uma metáfora em que se traduz o percurso de formação da alma do homem grego Contudo essa formação não se confunde com o sentido de pôr ou impor uma forma a algo ou a alguém que a princípio não a possui A formação da alma para o homem grego se faz através do movimento no qual essa mesma alma vem a ser isto que ela propriamente é Não se trata portanto de um movimento vindo de fora mas nasce da própria alma e para essa mesma alma retorna É o percurso no qual o homem grego conquista reconquista para si mesmo o seu limite Por isso quando Odisseu finalmente retorna à Ítaca esse retorno assume a forma de uma disputa no caso a disputa que se estabelece entre Odisseu e os pretendentes de sua esposa Penélope no qual cada um dos competidores deverá provar a sua virtude a sua força de ser de forma a ganhar a mão de Penélope em casamento e junto com ela todo o reino de Ítaca Nessa disputa tanto Odisseu como aquele que efetivamente é o rei de Ítaca quanto os pretendentes que não são os herdeiros de direito do trono devem se confrontar e nesse confronto cada um dos disputantes deve readquirir o limite do seu ser Nessa disputa na qual se tensionam o ser e o nãoser é onde o nosso herói reconquista o seu mundo o seu cosmos Nessa disputa é onde Odisseu efetivamente completa a sua Odisseia wwwlivrosdigitaiscom Acesso em 09 de abril de 2019 Retomando agora o tema desse encontro teríamos que o termo Paidéia significa o que é próprio da criança ou melhor o percurso de formação da criança O fato de termos começado a tratar da Paidéia através da Odisseia se explica não apenas pela terminação desses termos terminação que nos remete para o sentido de formação como também se legitima pelo fato de o percurso de formação da criança a que alude o termo Paidéia ser tarefa do poeta Ou seja essa formação na Grécia arcaica era confiada à palavra do poeta sendo Homero um dos maiores poetas desse período e os seus dois poemas A Ilíada e a Odisseia o lugar de resguardo da história desse povo Observando esse último dado constatamos que a poesia na Grécia constituía um fenômeno social muito mais complexo do que é a poesia nos dias de hoje na medida em que no contexto da cidade grega antiga a palavra poética dispunha de um inequívoco caráter didático ético comunitário e mesmo sapiencial funcionado como o instrumento fundamental de formação e educação do povo nas mais diferentes áreas Penelope Murray em seu livro sobre a poesia em Platão Plato on Poetry chama a nossa atenção para esse fato considerandoo como um elemento essencial para se compreender melhor a crítica platônica à poesia no interior da República Em suas palavras é importante lembrar antes de tudo que a poesia na época de Platão não era simplesmente um interesse minoritário favorecido por uns poucos ociosos mas uma característica central na vida da comunidade A educação grega baseavase na mousiké ou seja em todas as artes presididas pelas musas poesia música canto e dança O inglês não tem equivalente para o grego mousiké mas poesia não é uma tradução muito enganosa desde que nos lembremos que para os gregos a poesia era inseparável de seus elementos musicais não devemos pensar em um texto escrito mas sim em uma performance combinando palavras e música Era através da poesia neste amplo sentido que alguém era treinado para se tornar um bom cidadão A poesia sempre foi um meio de comunicação do ensinamento ético na verdade na cultura oral da Grécia antiga ela foi o principal meio pelo qual as ideias de qualquer importância poderiam ser transmitidas A distinção que agora fazemos entre poetas e filósofos morais não é aquele que teria ocorrido a pensadores préplatônicos alguns dos mais influentes daqueles que agora categorizamos como os primeiros filósofos gregos Xenófanes Parmênides e Empédodes escreveram em verso Ora podese dizer que essa dimensão épica e sapiencial da poesia revelase de modo privilegiado nos poemas homéricos fato que levou o helenista norteamericano Eric Havelock em sua obra Prefácio a Platão a sustentar a tese segundo a qual os poemas homéricos não eram literatura no sentido em que nós hoje entendemos esse termo mas uma verdadeira enciclopédia tribal vale dizer um enciclopédia de caráter comunitário na qual os homens gregos da antiguidade hauriam o essencial de seus conhecimentos tanto no plano das normas nómoi e dos costumes éthe quanto nas mais diferentes áreas técnicas estratégia militar navegação medicina agricultura administração doméstica etc Na Grécia Arcaica o poeta era quem deveria formar ou se se quer numa tradução moderna educar a alma do grego Tal educação não pode ser confundida com o que hoje compreendemos por esse termo Não se tratava de uma educação de escola O poeta deveria rememorar no seu canto a própria história do povo grego Nesse período da história da Grécia a escrita ainda não havia surgido nem a escrita nem os conceitos sempre em jogo no pensamento Por conseguinte era necessário evocar a memória O poeta deve dela Memória tornarse servo Por sua vez essa Memória à medida em que deverá dar conta da história dos helenos não pode ser confundida com a memória de um homem no caso o homem Homero A memória que o canto do poeta deverá servir se mostra antes como uma memória histórica da qual todo o povo grego participa ou em termos modernos uma memória coletiva Por transcender a esfera do indivíduo essa memória ganha um cunho mágicoreligioso era portanto uma memória que se situava no âmbito do sagrado Essa função de educador desempenhada pelo poeta era assim uma função eminentemente divina governada por Mnemosyne httpswwwtheoicomTitanTitanisMnemosynehtml Acesso em 09 de abril de 2019 Mnemosyne é a divindade nascida da união de Céu e de Terra É o poder divino de trazer à presença o não presente alethéia ou seja as coisas passadas e futuras como também é capaz de gerar o esquecimento lethé para alívio dos males Segundo o relato de Hesíodo o segundo maior poeta grego do período arcaico séc VIIIVII aC na sua Teogonia Mnemosyne desposada por Zeus durante nove noites consecutivas tornase a mãe das Musas das Palavras Cantadas As Musas são responsáveis pelo poder de presentificação e de dissimulação presentes na palavra do poeta Elas concedem o brilho da presença ou da ausência àquilo que será expresso no seu canto A palavra de Hesíodo é míticopoética httpsbrpinterestcompin415527503113845434 Acesso em 09 de abril de 2022 O mito é a palavra pronunciada plena de presença Para o grego a poesia tem o sentido de produção é a ação de trazer à presença algo que se mostrava oculto HEIDEGGER 1986 p16 A palavra de Hesíodo é assim a palavra que ao ser pronunciada desvela aquilo que se mantinha encoberto oculto Palavra que nos remete para o começo da linguagem Por começo não estamos apenas compreendendo o momento em que algo começa a ser desenvolvendose no decurso do tempo linear O começo é aqui compreendido como arché Ou seja a palavra míticopoética é arcaica à medida que instaura e mantém uma compreensão de mundo em que todo um universo de significados se articula Nesta palavra arcaica não há distância entre o nome e a coisa nomeada Não existe a intermediação de códigos e convenções que ligam o nome àquilo que é nomeado o signo ao significante O nome é o nomeado é a convocação de uma presença Nesta convocação há apenas o homem diante de uma experiência que o transcende e que o faz perceberse nos estreitos limites dos mortais Esta é a experiência do mundo da totalidade de tudo o que é Experiência de transcendência que na compreensão do gregoarcaico emerge como a experiência da divindade Do sobrehumano daquilo que está para fora do limite estreito da individualidade humana e que concomitantemente deste limite evoca a recordação Por isso o momento de pronunciamento da palavra mítica se converte num acontecimento mágicoreligioso que deve ser presidido por uma divindade A divindade é que deverá ganhar voz no canto do poeta O poeta é intermediário meio no qual se pronunciará e neste pronunciamento será evocado numa rememoração conjunta numa comemoração o feito dos deuses e dos homens Contudo este canto é marcado pela ambiguidade Do mesmo modo que convoca à presença os feitos passados dos homens e dos deuses fazendo com que estes permaneçam no brilho desta presença no brilho de Kleos da Glória nome de uma das nove Musas este mesmo canto que é capaz de gloriar igualmente lança no silêncio do esquecimento os feitos que por serem inefáveis ou nefandos não devem ser trazidos à luz da presença TORRANO 1995 p27 httpprofessorjoaonunesblogspotcom200803cliomusadahistriahtml Aceso em 09 de abril de 2019 Desta forma mais do que uma simples retomada do passado em que este aparece como uma lembrança fugidia do que foi o canto do poeta deverá rememorar o passado no presente de modo que o grego possa decidirse sobre a sua ação futura É esta evocação do passado que permite ao povo grego conservarse no seu ser histórico Assim o poeta além de uma função mágicoreligiosa possui também uma função política Numa sociedade ágrafa como é a Grécia do período de Hesíodo este servo das Musas é quem juntamente com os basileus descendentes diretos dos deuses detém o poder desta verdade histórica que é corroborada pela divindade de Mnemosyne DETIENNE 1989 p68 Pois bem durante séculos é esse servo de Mnemosyne quem deverá formar a alma helênica 2232 A CRÍTICA DE PLATÃO AOS POETAS TRÁGICOS Contudo a evolução da escrita e dos conceitos a descoberta do logos como a instância reveladora do real ocasionando a decadência imposta ao mythos à palavra pronunciada pelo surgimento do pensamento dos fisiólogos ou na compreensão de Nietzsche dos pré socráticos faz com que essa função de educador de formador da alma helênica conferida ao poeta seja posta em questão Os poetas e os mitos são duramente criticados pelos pensadores présocráticos Contudo a crítica mais radical encontra expressão na República de Platão Na crítica à poesia desenvolvida no interior da República Platão se vale de uma categoria filosófica importante que é a categoria de mimesis O termo mimesis como se sabe embora designe de uma maneira geral em Platão a relação entre algo que é real e aquilo que se lhe assemelha dispõe no vocabulário filosófico desse autor de uma certa complexidade semântica e conceitual designando no plano artístico a representação pictórica a encenação ou a dramatização mas também no plano ontológico a relação entre os objetos sensíveis e as ideias e até mesmo no campo da linguagem a relação das palavras com a realidade O termo mimesis em Platão é assim um termo filosoficamente polivalente Seja como for Platão na República critica duramente Homero e acusa em sua poesia um caráter pernicioso De fato representando os deuses e os heróis de forma moralmente problemática essa poesia se mostra como um perigo na formação das crianças que por não saberem discernir entre o real e o imaginário acabariam tomando a fantasia por verdade Poesia que segundo Platão não traduz o que existe de verdadeiro no real se mostrando uma imitação desbotada da verdade por se encontrar três pontos dela afastada à medida em que se faz a imitação em palavras da imitação das coisas que compõem o real que por sua vez se mostram como uma imitação das essências ideais Por favor observem as representações abaixo httphotelminhocomptquartos Acesso em 09 de abril de 2019 O que nos é dado observar é uma cama de madeira fabricada por um artesão e a mesma cama pintada por Van Gogh e ainda a cama se mostrando como palavra poética no verso de Chico Buarque Pois bem a crítica de Platão incide precisamente sobre o processo de mímesis de imitação utilizado seja pelo artesão seja pelo pintor ou poeta Contudo ao retomarmos a alegoria da linha teríamos que tanto o poeta que ao transpor a cama de seu caráter material para a dimensão da linguagem no caso linguagem figurada já que a cama no verso acima se refere ao caráter promíscuo da Ana de Amsterdam quanto o pintor que ao pintar transpõe a cama para a dimensão de uma imagem produzida pela cor se Da cama fulana sacana sou Ana de Amsterdam Verso de Chico Buarque de Holanda encontrariam na dimensão da linha representada pelas sombras imagens e reflexos Por outro lado a cama produzida artesanalmente que estaria copiando a cama inteligível se encontraria para Platão na dimensão da linha na qual se encontram os seres vivos e artefatos produzidos pelo homem Neste sentido o poeta e o pintor se encontrariam três pontos afastados da verdadeira realidade porque se encontrariam na dimensão da Suposição ilusão já que a produção seja do poeta seja do pintor se restringe à criação de Imagens eikons ou sombras Chamo de imagens em primeiro lugar às sombras seguidamente os reflexos nas águas e àqueles que se formam em todos os corpos compactos lisos e brilhantes e a tudo o que for do mesmo gênero Rep VI 510 a Por outro lado a cama fabricada pelo artesão se encontra na dimensão da linha representada pela Fé crença que abrange a nós seres vivos e a todas as plantas e toda espécie de artefatos Rep VI 510 a Contudo quando o artesão produz a cama ele de fato imita se baseia copia relações que se encontram na dimensão da linha ocupada pelo Entendimento cujo objeto são o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 a Isto porque para cortar a madeira de forma a produzir a cama ele deverá se apoiar em relações matemáticas comprimento largura etc Desta forma o artesão estaria mais próximo da verdadeira realidade já que ele busca imitar relações matemáticas que deverão dar origem ao artefato cama do que o poeta ou o pintor que imitam em suas imagens e palavras a dimensão da linha na qual se encontram os seres vivos e artefatos Ou seja ao imitar os seres vivos e artefatos os poetas e pintores dão origem a imagens e reflexos Segundo Platão a educação da alma deve ser confiada àquele que for capaz de contemplar a ideia suprema do bem que deverá ser através de uma razão intuitiva Ou seja a educação deve ser conferida ao filósofo devendo o poeta enquanto um imitador que dá origem às imagens como também a sombras e reflexos que imitam os seres vivos e artefatos ser expulso da cidade por ele Platão idealizada Porém é preciso dar a essa crítica a sua real dimensão O ataque de Platão a Homero se põe muitos e muitos séculos depois da morte desse poeta ou seja a crítica de Platão incide mais precisamente sobre o caráter decadente com que a poesia estava sendo cultivada em sua época Há muito a poesia havia perdido o seu caráter mágicoreligioso se tornando nessa época de Platão apenas um relato da origem da história do povo grego Relato que assume a forma da Tragédia nas quais o mito antes experienciado no canto do poetacantor e comemorado nos rituais celebrados nos templos é representado imitado pelos atores os hipokritai no palco de um teatro A crítica de Platão incide no caráter meramente imitativo que a poesia assume dentro da Tragédia pois se Platão de fato expulsasse da sua República todos os poetas a sua própria entrada estaria interditada já que ele Platão foi um dos maiores poetas da Grécia Antiga Isso se deixa facilmente depreender pela estrutura da sua obra escrita na forma de diálogos nos quais procura rememorar as conversas de Sócrates tornado por ele Platão um personagem conversas nas quais esse conduz os homens à compreensão da verdade Diálogos refeitos de mitos e alegorias refeitos de poesia Talvez pudéssemos dizer que a crítica de Platão à poesia quer dar a essa mesma poesia uma dimensão mais originária Dimensão que faz dela um modo de saber de saborear o real Poesia que assim redimensionada renasce como filosofia Por isso Platão ao nos relatar na forma de uma alegoria o percurso da formação da alma filosófica a formação da alma daquele que deverá ser o responsável pela educação do homem grego pode lançar mão de uma das mais belas imagens poéticas sem medo de parecer contraditório Ora essa alegoria narra as aventuras e desventuras pelas quais passa o homem sai do interior da caverna na qual ele é mantido prisioneiro Caverna na qual ele se encontra desde sempre sendo a única realidade que ele conhece Até que não sabemos bem porque esse homem é libertado não sabemos porque ele é levado para fora No lado de fora da caverna lhe é dado então ver com nitidez a verdade a sua verdade lhe é dado contemplar as essências eternas Contudo não é dado a esse prisioneiro aí permanecer É necessário que ele volte que ele retorne à sua antiga habitação Mas ele retorna modificado Sabedor da verdade ele precisa convencer os seus antigos companheiros da ilusão na qual esses se encontram mergulhados Acomodados na familiaridade da caverna os prisioneiros não lhe darão ouvidos Para se fazer reconhecer o nosso homem deverá se lançar numa disputa onde estarão se confrontando a verdade o ser e a ilusão gerada por uma aparência de verdade o nãoser nessa disputa nesse agon ele poderá até mesmo perecer Ora esse retorno que é narrado por Platão é aquele no qual a alma tornase plena de si mesma no qual a alma reconquista para si os seus limites De maneiras diversas Platão e Homero nos falam de um tipo de saber especial no qual é dado ao homem contemplar a sua verdade mais própria Verdade que sempre o transcende e que só se deixa apreender num movimento de busca de retorno sobre si mesmo Movimento no qual o homem compreende o seu limite ao se confrontar com o sagrado seja na forma dos deuses seja na forma das ideias Sagrado que se resguarda na linguagem tanto na de Platão quanto na de Homero REFERÊNCIAS ABBAGNANO Nicola Dicionário de Filosofia Tradução Alfredo Bosi 2ª ed São Paulo Martins Fontes 1998 DETIENNE M Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica Tradução de Andréa Daher Rio de Janeiro Jorge Zahar Editor 1989 PLATÃO Fédon in Coleção os Pensadores São Paulo Editora Abril cultural 1973 A República Lisboa Editora Calouste Gulbenkian 1987 Carta Sétima Pará Editora Universidade do Pará 1975 HEIDEGGER M Ser e Verdade 1 A questão fundamental da filosofia 2 Da essência da verdade Petrópolis Editora Vozes 2007 Introdução à Metafísica Rio de Janeiro Tempo Brasileiro 1978 p 215 HEIDEGGER M La Question de la Technique in Essais et Conférences Tradução de André Préau Paris Gallimard 1986 p16 A Teoria Platônica da Verdade in Marcas do Caminho Petrópolis Vozes 2008 Que é isto A Filosofia São Paulo Editora Abril 1973 A Palavra in A caminho da linguagem Tradução de Márcia de Sá Cavalcante Schuback Petrópolis Vozes 2003 PETERS F E Termos Filosóficos Gregos Lisboa Fundação Calouste Gulbenkian 1974 RILKE Rainer Maria Cartas a um Jovem Poeta Rio de Janeiro Editora Globo 1986 TORRANO JAA A Imagem da Caverna na República de Platão o par e o ímpar as figuras três espécies de ângulos e outras doutrinas irmãs destas segundo o campo de cada um Rep VI510 c Ver em http wwwpaideumacjbnet acessado em 03042004 O Mundo como Função de Musas in Hesíodo Teogonia Tradução e Prefácio de Jaa Torrano São Paulo Iluminuras 1995 ROBIN L Notice sur le Phédon Paris Belles Lettres 1952 KIRK R Os Filósofos Présocráticos São Paulo Calouste Gulbenkian 1990

Sua Nova Sala de Aula

Sua Nova Sala de Aula

Empresa

Contato Blog

Legal

Termos de uso Política de privacidade Política de cookies Código de honra

Baixe o app

4,8
(35.000 avaliações)
© 2026 Meu Guru® • 42.269.770/0001-84